Cinema e Argumento

Melhores de 2018: “Trama Fantasma” lidera lista do Cinema e Argumento com nove indicações

Trama Fantasma é o líder de indicações na lista de melhores de 2018 do Cinema e Argumento. Concorrendo em nove categorias, o filme é seguido de perto por Você Nunca Esteve Realmente Aqui, com oito indicações.

Quando elaboradas por uma única pessoa, listas costumam ser, claro, muito particulares. Não poderia seria diferente aqui no Cinema e Argumento, quando chego agora a mais uma edição da tradicional seleção de melhores do ano. Como sempre, para organizá-la, procurei o mais alto grau de coerência e fidelidade em relação às melhores experiências que tive ao longo de 2018. Sem amarras ou concessões, a lista, antes de tudo, tem como objetivo ser esse apanhado de tudo aquilo que mais me comoveu, impactou e surpreendeu. Simples assim, sem qualquer outra lógica. Distribuídos em 18 categorias, todos os títulos selecionados estão mais mais uma vez juntos, sem distinção por nacionalidade ou gênero, como acredito que sempre deva ser em qualquer premiação.

A categoria principal, por sinal, é uma fidelíssima representação das grandes sessões que tive ao longo do ano, além de um belo resumo de tudo aquilo que mais me emociona no cinema. Em síntese, três títulos nacionais (O Animal Cordial, Benzinho e As Boas Maneiras, fazendo jus ao marcante ano vivido pela cinematografia nacional), uma grande obra assinada por um dos melhores cineastas em atividade (Trama Fantasma, do genial Paul Thomas Anderson) e uma produção altamente independente que subverte diversas convencionalidades e expectativas (Você Nunca Esteve Realmente Aqui, novo trabalho da sempre provocadora Lynne Ramsay). Dos cinco filmes selecionados, três, inclusive, levam a assinatura de mulheres na direção.

Considerando todas as categorias, Trama Fantasma lidera a lista com nove indicações (filme, direção, ator, atriz, atriz coadjuvante, roteiro original, trilha sonora, figurino e fotografia), seguido de perto por Você Nunca Esteve Realmente Aqui, que disputa oito categorias (filme, direção, ator, roteiro adaptado, montagem trilha sonora, fotografia e som). No mais, como é tradição aqui no blog, revelaremos, ao longo das próximas semanas de janeiro, os vencedores de cada segmento, com comentários e uma pequena retrospectiva de vencedores dos anos anteriores. Lembrando que o Cinema e Argumento escolhe os seus melhores do ano desde a criação do blog em 2007, e o histórico completo, categoria por categoria, pode ser conferido aqui. Fiquem abaixo com a lista completa de 2018!

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MELHOR FILME
O Animal Cordial
Benzinho
As Boas Maneiras
Trama Fantasma
Você Nunca Esteve Realmente Aqui

MELHOR DIREÇÃO
Alfonso Cuarón (Roma)
Gabriela Amaral Almeida (O Animal Cordial)
Juliana Rojas e Marco Dutra (As Boas Maneiras)
Lynne Ramsay (Você Nunca Esteve Realmente Aqui)
Paul Thomas Anderson (Trama Fantasma)

MELHOR ELENCO
O Animal Cordial
Benzinho
Infiltrado na Klan
The Post: A Guerra Secreta
As Viúvas

MELHOR ATRIZ
Charlize Theron (Tully)
Charlotte Rampling (Hannah)
Karine Telles (Benzinho)
Toni Collette (Hereditário)
Vicky Krieps (Trama Fantasma)

MELHOR ATOR
Daniel Day-Lewis (Trama Fantasma)
Joaquin Phoenix (Você Nunca Esteve Realmente Aqui)
Murilo Benício (O Animal Cordial)
Shico Menegat (Tinta Bruta)
Timothée Chalamet (Me Chame Pelo Seu Nome)

MELHOR ATRIZ COADJUVANTE
Elizabeth Debicki (As Viúvas)
Laurie Metcalf (Lady Bird: A Hora de Voar)
Lesley Manville (Trama Fantasma)
Mackenzie Davis (Tully)
Rachel McAdams (Desobiência)

MELHOR ATOR COADJUVANTE
Barry Keoghan (O Sacrifício do Cervo Sagrado)
Bruno Fernandes (Tinta Bruta)
Daniel Kaluuya (As Viúvas)
Irandhir Santos (O Animal Cordial)
Michael Stuhlbarg (Me Chame Pelo Seu Nome)

MELHOR ROTEIRO ORIGINAL
As Boas Maneiras
Benzinho
Sem Amor
Trama Fantasma
Tully

MELHOR ROTEIRO ADAPTADO
Desobediência
Infiltrado na Klan
Me Chame Pelo Seu Nome
Paddington 2
Você Nunca Esteve Realmente Aqui

MELHOR MONTAGEM
Eu, Tonya
O Processo
Roma
As Viúvas
Você Nunca Esteve Realmente Aqui

MELHOR FOTOGRAFIA
A Forma da Água
Roma

Sem Fôlego
Trama Fantasma
Você Nunca Esteve Realmente Aqui

MELHOR TRILHA SONORA
A Forma da Água
O Primeiro Homem
Sem Fôlego
Trama Fantasma
Você Nunca Esteve Realmente Aqui

MELHOR DESIGN DE PRODUÇÃO
Animais Fantásticos: Os Crimes de Grindelwald
A Forma da Água
O Retorno de Mary Poppins
Roma
Sem Fôlego

MELHOR FIGURINO
Animais Fantásticos: Os Crimes de Grindelwald
O Destino de Uma Nação
A Forma da Água
O Retorno de Mary Poppins
Trama Fantasma

MELHOR SOM
Bohemian Rhapsody
Ilha dos Cachorros
Um Lugar Silencioso
Nasce Uma Estrela
Você Nunca Esteve Realmente Aqui

MELHOR CANÇÃO ORIGINAL
“All the Stars” (Pantera Negra)
“Mystery of Love” (Me Chame Pelo Seu Nome)
“Remember Me” (Viva – A Vida é Uma Festa)
“Shallow” (Nasce Uma Estrela)
“Visions of Gideon” (Me Chame Pelo Seu Nome)

MELHORES EFEITOS VISUAIS
Jogador Nº 1
Paddington 2
Pantera Negra
O Primeiro Homem
Vingadores: Guerra Infinita

MELHOR MAQUIAGEM & PENTEADOS
O Destino de Uma Nação
Eu, Tonya
Pantera Negra

Adeus, 2018! (e as melhores cenas do ano)

Para quem ama Cinema, talvez os filmes tenham sido uma espécie de salvação em um ano extremamente complicado para o Brasil. Para mim, ao menos, eles realmente foram. Além disso, na medida do possível, entre os malabarismos exigidos pela vida adulta, vi a maioria dos títulos que eu desejava — e, apesar do baixo número de filmes conferidos em comparação a tantos outros anos, fiquei muito satisfeito com a média das minhas experiências, algo que é consequência direta do exercício cada vez mais consciente que faço de escapar daqueles filmes que, de longe, já desconfio que não podem ter resultado em coisa boa. Uma imensa parte dessas experiências está registrada aqui no blog (algumas outras ainda estou em dívida e prometo tirar o atraso o quanto antes). Aliás, mesmo com uma frequência inegavelmente menor de postagens, sempre tive o compromisso de deixar o Cinema e Argumento vivo. Ele faz parte de mim e eu não teria como mudar isso, inclusive por causa de vocês, caros leitores, que são sempre tão presentes para mim, especialmente na página do blog no Facebook. Em 2019, seguimos em frente, e logo teremos a lista de melhores do ano. Por ora, dou adeus a 2018 com a tradicional seleção das minhas cenas favoritas do ano. Nos vemos em seguida, combinado?

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#10 – “Eu sou a sua mãe!” (Hereditário)

Toni Collette como há muito tempo não víamos. Rancor e dor em uma discussão familiar que explora o que existe de melhor em Hereditário: a utilização do luto como riquíssima matéria-prima para complexidades dramáticas e para a construção do terror psicológico.

#9 – Assumindo a direção no OASIS (Jogador Nº1)

Adrenalina pura e referências de sobra tornam a primeira corrida no jogo OASIS uma experiência de tirar o fôlego. É o primeiro grande impacto desse blockbuster que está à altura do que Steven Spielberg criou em seus melhores entretenimentos para o grande público.

#8 – Abraço na praia (Roma)

Em um abraço, todo o universo de uma mulher invisível e de uma família desmantelada pelo abandono paterno. É a mais simples demonstração do afeto tornando menos solitário esse mundo que, para muitos é um desafio diário.

#7 – A dança de Pedro (Tinta Bruta)

Como encontrar cores e conexões em uma cidade que tanto insiste em julgar e afastar? Como encontrar sua própria voz quando ninguém parece ouvir? Com a dança de Pedro (Shico Menegat), no entanto, um universo de possibilidades se abre em Tinta Bruta.

#6 – Ally e Jackson cantam “Shallow” (Nasce Uma Estrela)

Duas pessoas perdidas na vida encontram na música e na existência do outro uma razão para seguir em frente. Nos palcos ou fora deles, todos nós merecemos ser protagonistas de vez em quando. É tudo o que Nasce Uma Estrela deveria ter sido como um todo.

#5 – De mãos dadas (As Boas Maneiras)

Um dos grandes momentos do cinema brasileiro em 2018, a sequência final de As Boas Maneiras é um comovente e esperançoso registro de resistência em um país afogado em intolerância e preconceito. Ninguém solta a mão de ninguém. Inclusive no cinema.

#4 – Show do Queen no Live Aid (Bohemian Rhapsody)

A arriscada (mas acertada) decisão de reproduzir uma longa apresentação musical praticamente na íntegra. Um momento que leva qualquer espectador para o centro de um momento histórico do rock mundial.

#3 – Miguel canta para a avó (Viva: A Vida é Uma Festa)

Poucas vezes tivemos, ao menos entre as animações recentes, uma sequência tão potente do ponto de vista emocional como essa em que Miguel canta para a avó em Viva. Nela, prestamos uma homenagem pessoal a tantos familiares queridos que passaram pelas nossas vidas.

#2 – Irene, a camiseta do filho e o desfile musical (Benzinho)

Testamento máximo do imenso talento dramático de Karine Teles. Uma carta de amor para as mulheres que nos criam e que diariamente levam o Brasil para frente. Um poderoso e comovente retrato da força transformadora do afeto.

#1 – Conversa entre pai e filho (Me Chame Pelo Seu Nome)

O texto mais belo do ano. Michael Stuhlbarg em estado de graça. Quando a sabedoria é passada de uma geração para a outra. A vida como um constante aprendizado, apesar da dor e dos corações partidos.

Melhores de 2017 – Filme

Filme que ficará para a posteridade independente da avaliação rasteira por boa parte do público e da crítica, Mãe! brilha por sua provocação e por sua falta de padrões, qualidades que, ao contrário do que se percebe na banalização do exercício da crítica de cinema, não deveriam ser tratadas como deméritos e sim como grandes qualidades. Darren Aronofsky, que fez o filme que bem entendeu, pouco se preocupando com o que qualquer pessoa (estúdio, público, crítica) acharia ou não de seu trabalho, restaura nossa fé não na realização de um cinema pretensioso, mas sim livre, autêntico e convicto. Rico em análises, o longa pode ser visto como uma releitura de questões bíblicas, como a via crucis do que é ser uma mulher sem voz em um mundo dominado por homens ou como o retrato do lado mais obscuro do amor, onde nos doamos e nos anulamos tanto que, ao fim, o que resta é simplesmente arrancar nossos corações para seguir em frente. E por que não colocar drama, suspense, guerra, metáforas, hipérboles e literalmente todo o universo dentro de uma casa para discutir tudo isso? Cinema que divide plateias, Mãe! terá o tempo ao seu lado, sendo lembrada infinitamente mais do que obras unanimemente premiadas mundo afora. Ainda disputavam a categoria: La La Land: Cantando Estações, Logan, Manchester à Beira-Mar e Personal Shopper.

EM ANOS ANTERIORES: 2016 – Carol | 2015 – Mad Max: Estrada da Fúria | 2014 – Relatos Selvagens | 2013 – Gravidade | 2012 – Precisamos Falar Sobre o Kevin | 2011 – Harry Potter e as Relíquias da Morte – Parte 2 | 2010 – Direito de Amar | 2009 – Dúvida | 2008 – WALL-E | 2007 – O Ultimato Bourne

Melhores de 2017 – Direção

Não é apenas o talento que diferencia os grandes diretores dos demais: a convicção também é uma qualidade que faz toda a diferença. Darren Aronofsky sempre teve ambas as qualidades, e por isso mesmo não é à toa que sua filmografia é respeitadíssima e repleta de filmes inesquecíveis, como Réquiem Para Um Sonho, Cisne Negro e, agora, Mãe!, a obra mais polarizadora de 2018. Em seu melhor, ele sempre foi um diretor de personalidade marcante e de narrativas fortes, mas Mãe! é possivelmente o longa mais autêntico de sua carreira: ame ou odeie, você há de reconhecer que ele foi feito por alguém que queria levar suas escolhas ao limite, sem medo de que as ideias extremas pudessem afastar o público ou até mesmo os executivos de qualquer estúdio na fase embrionária do projeto. Aronofsky tem controle absoluto de seu filme, o que se percebe na forma claustrofóbica com que ele acompanha cada passo de Jennifer Lawrence em cena ou na grandiosidade técnica de uma história passada apenas em um casarão, mas que ganha leituras inegavelmente ambiciosas em termos técnicos e dramáticos. Maximizando cada detalhe com o talento sensorial que lhe é tão habitual, o diretor, a cada nova leitura provocada ou a cada potência explorada em tom, som e imagem, deixa o recado de que você pode dizer muitas coisas sobre ele, menos que ele não fez Mãe! do jeito que sempre quis: livre, convicto e sem abrir mão de qualquer uma de suas escolhas. Ainda disputavam a categoria: Damien Chazelle (La La Land: Cantando Estações), Jordan Peele (Corra!), Kenneth Lonnergan (Manchester à Beira-Mar) e Olivier Assayas (Personal Shopper).

EM ANOS ANTERIORES: 2016 – José Pedro Goulart (Ponto Zero) | 2015 – George Miller (Mad Max: Estrada da Fúria) | 2014 – David Fincher (Garota Exemplar) | 2013 – Alfonso Cuarón (Gravidade) | 2012 – Leos Carax (Holy Motors) | 2011 – Darren Aronofsky (Cisne Negro) | 2010 – Christopher Nolan (A Origem) | 2009 – Danny Boyle (Quem Quer Ser Um Milionário?) | 2008 – Paul Thomas Anderson (Sangue Negro) | 2007 – Alejandro González Iñárritu (Babel)

Melhores de 2017 – Elenco

Pouco antes de ganhar um amplo e merecido reconhecimento pelo drama Me Chame Pelo Seu Nome, o diretor italiano Luca Guadagnino havia assinado uma outra pérola que, no geral, foi subavaliada pela crítica, ignorada pelos prêmios e preterida no circuito comercial. Trata-se de Um Mergulho no Passado, refilmagem do francês A Piscina, dirigido por Jacques Deray em 1969. O remake por si só é bem conduzido e rico em leituras, mas a preciosidade do elenco é um show à parte, onde dois veteranos centralizam a força dramática da trama: Tilda Swinton, vivendo uma cantora de rock que passa basicamente o tempo inteiro sem falar (sua personagem se recupera de uma cirurgia nas pregas vocais), e Ralph Fiennes, que é o completo oposto como o ex-namorado que ressurge depois de anos como um estonteante furacão verbal. E se Dakota Fanning misteriosamente consegue imprimir aqui a malícia e a sexualidade que inexistiam nos três capítulos da franquia Cinquenta Tons de Cinza, o belga Matthias Schoeanaerts se sai muito bem ao vencer a sua indiscutível beleza para dar vida a um homem comum que, de certa maneira, tenta ser a normalidade em meio a figuras tão pulsantes e extremas entre si. Na maratona de entrevistas concedidas para o lançamento do filme, Guadagnino revelou que esse era, até então, o melhor grupo de atores com quem  já havia trabalhado. Basta assistir ao resultado para entender por completo tal afirmativa. Ainda disputavam a categoria: Como Nossos Pais, Estrelas Além do Tempo, O Estranho Que Nós Amamos e Moonlight: Sob a Luz do Luar.

EM ANOS ANTERIORES: 2016 – Animais Noturnos | 2015 – Birdman ou (A Inesperada Virtude da Ignorância) |  2014 – Relatos Selvagens | 2013 – Álbum de Família | 2012 – O Impossível | 2011 – Tudo Pelo Poder | 2010 – Minhas Mães e Meu Pai | 2009 – Dúvida | 2008 – Vicky Cristina Barcelona | 2007 – Bobby