46º Festival de Cinema de Gramado #4: Crítica | “Benzinho”, de Gustavo Pizzi

Karine Teles e Adriana Esteves em Benzinho: nova pérola do cinema brasileiro registra as complexidades femininas e maternais a partir de cotidianas transformações do ambiente familiar.

Assim como Aquarius, o drama Benzinho é um filme sobre resistência, mesmo que de outro tipo, e talvez ainda mais acachapante. Enquanto no celebrado longa de Kleber Mendonça Filho acompanhávamos os dias em que Clara (Sonia Braga), uma jornalista de sucesso, negava-se a vender o seu querido apartamento localizado à beira do mar recifense, o novo projeto assinado por Gustavo Pizzi (Riscado) traz a protagonista Irene (Karine Teles) enfrentando as pequenas batalhas do dia a dia: o marido vive de sonho em sonho sem realizar muita coisa, os filhos pequenos exigem constante atenção, a irmã sofre com um marido agressivo, as contas não param de chegar e, de repente, o filho mais velho é convidado a jogar handebol na Alemanha. Ajudando todos à volta, Irene não recebe de volta o mesmo cuidado, mas se vira nos trinta nesse registro que, cercado de delicadeza, é uma verdadeira homenagem a todas as mulheres que fazem o mundo girar com mais amor e compreensão.

Exibido em janeiro deste ano no Festival de Sundance, Benzinho foi um projeto realizado praticamente em família. À época, o diretor Gustavo Pizzi e a atriz Karine Teles eram casados e não só escreveram o filme juntos como também escalaram os próprios filhos e um sobrinho para interpretar as crianças. Na mistura, entram outros dois atores igualmente fundamentais: Adriana Esteves e Otávio Müller, que se “infiltraram” na família com uma naturalidade inquestionável. E o resultado se vê na tela, com um elenco que faz sentir o entrosamento do grupo em prol de um projeto afetivo e colaborativo. No entanto, inevitavelmente, Benzinho é centrado na Irene de Karine Teles, vista aqui como uma mulher em suas múltiplas facetas, e não como coadjuvante ou mero objeto. A personagem é uma imensidão de emoções e complexidades, todas elas provocadas pela anunciada despedida do filho que está prestes a partir para o exterior. O curioso contraste é que, por ser sempre tão confiante ao resolver os percalços do cotidiano, todos (inclusive ela) pensam que tudo está bem, quando, na verdade, não está.

Benzinho sugere ser um filme sobre a chamada síndrome do ninho vazio, mas gosto de vê-lo como um retrato muito mais completo: ao perceber que a partida do filho é inevitável, Irene resolve mexer com a sua própria vida, o que envolve desde a conclusão dos estudos até a busca por um novo emprego. E a delicadeza com que o roteiro de Pizzi e Teles captura o infinito universo de uma mulher a partir das mínimas coisas da vida é refinadíssima, pois Benzinho não deixa de buscar a alegria em meio a um material que poderia render um grande dramalhão. Outro mérito do longa é ser extremamente fiel à vida como ela é, seja ao mostrar a dinâmica de uma família que passa por muitas dificuldades à própria escolha das palavras, já que não há qualquer artificialidade nos diálogos. Por mostrar pessoas que continuam sorrindo e sonhando apesar dos obstáculos, Benzinho comove, e o faz com a maior simplicidade do mundo, tarefa muito mais difícil de cumprir do que o público está acostumado a considerar.

Com um elenco irrepreensível, Benzinho tem mesmo o seu coração na grande performance de Karine Teles. Uma das intérpretes brasileiras mais talentosas em atividade (claro que a dona Bárbara de Que Horas Ela Volta? é inesquecível, mas não deixem de garimpar Riscado, que ela realizou também em parceria com Gustavo Pizzi), Karine é maravilhosa ao traduzir todas as transformações internas de uma mulher que tenta não transparecer emoções que ela mesma não consegue diagnosticar com tanta certeza. Muito do que Karine traz para Benzinho vem de sua experiência como mãe e, claro, das mulheres que ela assume homenagear nesse projeto, mas sequências como final, capazes de, silenciosamente, somente em gestos e olhares, fazer a perfeita síntese de um universo particular, são apenas para quem tem vasto talento ou repertório. Karine e o filme como um todo proporcionam, em Benzinho, aquela sensação tão fascinante de um cinema que consegue dar uma rasteira emocional no espectador ao mesmo tempo em que o reergue de forma esperançosa. Curiosamente, não é assim que a vida costuma funcionar? 

Um comentário em “46º Festival de Cinema de Gramado #4: Crítica | “Benzinho”, de Gustavo Pizzi

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