Cinema e Argumento

Melhores de 2021: roteiros, direção e filme

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MELHOR ROTEIRO ADAPTADO
Christopher Hampton e Florian Zeller (Meu Pai)

O que mais admiro em adaptações teatrais para o cinema é a capacidade de um roteiro conseguir tirar o melhor da natureza dos palcos e eliminar tudo o que poderia parecer um teatro filmado. Meu Pai faz isso com louvor. Transpondo um texto muito premiado na Europa — Lé Père, vencedor do prestigiado Moliére de melhor peça em 2014 — Christopher Hampton e Florian Zeller transformam o material original de autoria do próprio Zeller em uma grande imersão a partir de elementos que, nas mãos erradas, poderiam limitá-lo: um único cenário, pouquíssimos personagens, ação centrada em diálogos, etc. Zeller foi certeiro ao chamar Hampton para esse trabalho, visto que ele é um mago das adaptações — afinal de contas, não é qualquer roteirista de Hollywood que tem na conta filmes como Ligações PerigosasDesejo e Reparação. Juntos, eles entregam um roteiro de grandes dimensões emocionais e de desdobramentos e surpresas que acompanham o espectador até o último minuto de projeção, quando Meu Pai encerra a sua dolorosa jornada com o momento de maior baque emocional de 2021.

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MELHOR ROTEIRO ORIGINAL
Thomas Vinterberg e Tobias Lindholm
(Druk: Mais Uma Rodada)

Para o espectador mais desavisado, Druk: Mais Uma Rodada pode soar como uma divertida brincadeira, pois a arrancada se dá a partir da descoberta de um estudo sobre como precisamos compensar um déficit de álcool no sangue para equilibrar a vida cotidiana. Só que há uma virada de chave na euforia vivida pelos quatro amigos que abraçam essa teoria, e Druk passa a refletir sobre o que pode ter levado os personagens a buscarem por algum tipo de ânimo em seus dias. Para tanto, o roteiro escrito por Thomas Vinterberg e Tobias Lindholm mergulha nas crescentes doses alcoólicas de Martin (Mads Mikkelsen) e transforma brincadeira em melancolia. O âmago do roteiro é essa acertada decisão de tentar entender como os personagens foram descaracterizando as suas próprias vidas ao ponto de precisarem de alguns goles de vodka já no café da manhã para voltarem a brilhar. Vinterberg e Lindholm se movimentam por essa premissa com profundidade e humanidade, preocupados em manter a palpabilidade desses quatro homens entre o drama e a comédia, regadas pelas habituais inteligências do cinema dinamarquês.

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MELHOR DIREÇÃO
Jane Campion (Ataque dos Cães)

Aproximando-se dos 70 anos de idade, a cineasta Jane Campion diz que já começa a pensar no seu legado. Mais do que olhar para trás, o que importa, segundo ela, é fazer filmes surpreendentes e sem amarras daqui para frente. Ataque dos Cães já é um deles. Não que outros trabalhos de Campion não o sejam, mas esse longa que lhe rendeu o Leão de Prata de melhor direção em Veneza e, posteriormente, o Oscar na mesma categoria representa algo novo em sua carreira: pela primeira, ela conta uma história centrada em uma figura masculina. E o faz, claro, surpreendendo, como bem quer fazer. Após conseguir viabilizar a adaptação do livro homônimo de Thomas Savage que já havia sido planejada pelo menos cinco vezes, Campion imediatamente procurou Annie Proulx, autora do conto que deu origem a O Segredo de Brokeback Mountain para apurar seu olhar sobre um projeto que gosta de enxergar como uma espécie de pós-western. Esse seu comprometimento com a inovação é o que faz de Ataque dos Cães um filme único. Campion recusa ferramentas fáceis e confia na capacidade do público de entrar na psique dos personagens, revelando-os pouco a pouco. Por meio de nuances e de uma rigorosa atmosfera, ela dá aula sobre como as reticências podem ser muito mais poderosas do que qualquer manipulação fabricada.

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MELHOR FILME
Meu Pai

Meu Pai pode muito bem ser considerado o filme definitivo sobre demência que o cinema de língua inglesa tenta fazer há muitos anos. Escapa à memória qualquer projeto tão devastador e imersivo como esse assinado pelo diretor Florian Zeller, adaptando um espetáculo teatral de autoria própria. Encharcado de terror ao colocar o espectador diante de um destino de vida do qual ninguém está livre, Meu Pai é um exercício de empatia executado com maestria, da interpretação magistral de Anthony Hopkins a detalhes técnicos que se revelam fundamentais para a narrativa, como a montagem e o design de produção. Também transfere um texto teatral para o cinema sem cacoetes tão comuns em adaptações dessa natureza, muito em função da parceria de Zeller com Christopher Hampton no roteiro. É o tipo de filme que perdurará como um relato avassalador da demência, mas, acima de tudo, como um verdadeiro exemplo de como ainda é possível revolucionar o relato de temas desgastados por fórmulas e impressionar cinematograficamente sem maneirismos ou distrações.

Melhores de 2021: categorias de intepretação

THE POWER OF THE DOG

MELHOR ATOR COADJUVANTE
Kodi Smit-McPhee (Ataque dos Cães)

É praticamente impossível entender o que se passa na mente de Peter, o jovem vivido por Kodi Smit-McPhee que acaba girando as engrenagens de Ataque dos Cães. Alto e esguio, ele parece se movimentar em um universo próprio, revelando-se aos poucos para o espectador e comunicando muito através da linguagem corporal. Para além da questão física, Smit-McPhee brilha por compreender que seu personagem não tem um arco propriamente dito: o que ele faz é estimular e intrigar a plateia com um jovem cujas grandes transformações aconteceram na vida pregressa ao início do filme. Traumas, inseguranças e receios relacionados à sua essência já surgem resolvidos em Ataque dos Cães, e é justamente essa segurança de ser quem ele é que desestabiliza Phil (Benedict Cumberbatch). Entre a delicadeza de ser o filho que zela pela própria mãe e os movimentos sinuosos de uma personalidade bastante particular, o ator dá conta de várias questões sobre ideais de masculinidade ainda muito presentes e confere complexidade a um personagem laudatório das melhores qualidades de Ataque dos Cães.

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MELHOR ATRIZ COADJUVANTE
Jessie Buckley (A Filha Perdida)

Interpretando a mesma personagem, mas em momentos diferentes de vida, Jessie Buckley e Olivia Colman nunca sentaram para conversar ao longo de toda a realização de A Filha Perdida. Inclusive, elas não acreditavam em tal necessidade — o que muito agradou a diretora Maggie Gyllenhaal, que organizou os distintos recortes da protagonista Leda como se elas fossem ecos, previsões e reminiscências de uma vida marcada pela inadequação ao que a sociedade exige das mulheres, especialmente daquelas que se tornam mães. Buckley é uma maravilhosa escalação para a versão nova da personagem porque, claro, é boa atriz, e porque tem instintos parecidos com os de Olivia Colman no que tange escolha de projetos e o tipo de papeis que gosta de interpretar. Sem jamais julgar Leda, ela já dá pistas dos sentimentos e das circunstâncias que a moldaram, equilibrando-se nessa eterna corda bamba que a vida nos coloca de sermos capazes de fazer tanto escolhas boas quanto ruins. É mais um atestado bastante claro e instigante de que Jessie Buckley está entre as melhores atrizes de sua geração.

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MELHOR ATOR
Anthony Hopkins (Meu Pai)

Anthony Hopkins disse em várias entrevistas que foi muito fácil fazer Meu Pai. Sua teoria é de que Florian Zeller e Christoper Hampton escreveram um roteiro tão extraordinário e Olivia Colman foi uma parceira tão ímpar em cena que tudo o que ele precisava fazer era se deixar levar. Se realmente foi tão fácil como Hopkins diz, só podemos deduzir que o foi porque, à parte o talento, há coisas que um ator conquista apenas com a experiência, entre elas, a capacidade de encarar desafios com naturalidade. Sem nunca ter tido uma experiência próxima envolvendo Alzheimer ou doenças do gênero, o ator, apesar disso, colocou-se na pele do protagonista como se tivesse acompanhado uma história como essa de perto. O olhar profundo e generoso com que ele abarca um complicadíssimo dilema do qual ninguém está livre (o que fazer quando as pessoas que você ama começam a perder as suas estruturas?) é de partir o coração, principalmente porque o protagonista, preso na ideia de que está seguro de si como sempre esteve a vida inteira, luta para tentar dar algum sentido ao que acontece já não consegue mais entender. Tenho sempre muita cautela ao afirmar que determinado desempenho é o melhor da carreira de alguém. No entanto, no caso de Anthony Hopkins em Meu Pai, a exceção pode ser feita sem qualquer medo.

THE LOST DAUGHTER. OLIVIA COLMAN as LEDA. CR. COURTESY OF NETFLIX

MELHOR ATRIZ
Olivia Colman (A Filha Perdida)

Resumidamente, a expressão norte-americana taken for granted seria como o ato de tomar algo como certo ou garantido, sem que fosse digno de maior atenção e celebração por já ter se consolidado o suficiente. Pode ser uma percepção prematura, mas desconfio que Olivia Colman, assim como tantas outras atrizes extraordinárias, já se encaixe no taken for granted por ter recebido um Oscar dos mais justos por A Favorita e por não ter errado a mira depois de tal celebração, participando de séries como The CrownFleabag ou do extraordinário Meu Pai, filme em que atuou ao lado de Anthony Hopkins. É apenas esse taken for granted que explica o fato de Olivia não ter varrido premiações e festivais com a sua performance em A Filha Perdida. Olivia traz entendimento e camadas a uma personagem difícil de definir e de gostar, evitando transformá-la em uma louca e, ao mesmo tempo, renegando a ideia de torná-la palatável ao público. A Leda mais madura da atriz e interpretada na juventude por Jessie Buckley carrega remorsos e (in)certezas traduzidos em cada inflexão de uma intérprete com a rara capacidade de sempre surpreender, impactar e fazer com que tudo pareça tão natural. Celebrar Olivia Colman nunca deve ser demais.

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MELHOR ELENCO
Shiva Baby

São muitas as variáveis que podem definir um bom elenco. Número de atores? Sinergia entre eles? Equivalência na grandeza de interpretações? Acertos em todas as escalações? Ao meu ver, não há uma resposta certa. Há elencos excepcionais que, formados por apenas três ou quatro pessoas, garantem aulas de atuação, como em Dúvida, premiado nessa respectiva categoria aqui no blog, e há casos como o de Shiva Baby, que conjuga de tudo um pouco, passando por um número volumoso de atores, pela excelente dinâmica estabelecida entre eles e por um grande equilíbrio de talentos. Encabeçado pela performance reveladora de Rachel Sennott (apenas em seu segundo longa-metragem, mas demonstrando um domínio singular), o elenco de Shiva Baby se engrandece ao tornar crível a dinâmica de uma família deveras particular e repleta de personalidades tão distintas quanto complementares, com particular também para Polly Draper, que interpreta a mãe da protagonista. Em pouco menos de 80 minutos, todos têm papel fundamental na construção do grande sentimento de claustrofobia que permeia o longa de estreia de Emma Seligman.

Melhores de 2021: categorias técnicas

Não faz muito tempo que me culpava por fazer cada vez mais tarde a minha lista de melhores do ano. Hoje, já começo a ter mais carinho por essa ideia, pois não há nada melhor do que tomar certa perspectiva, ter tempo para digerir as coisas e não agir no calor do momento quando se trata de escolhas, principalmente aquelas envolvendo qualquer forma de arte. Dito isso, com o devido hiato para fazer escolhas que agora me parecem devidamente calibradas, aqui vão os primeiros vencedores da lista de melhores de 2021!

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MELHOR CANÇÃO ORIGINAL
Leos Carax, Ron Mael e Russell Mael
“So May We Start?” (Annette)

Cenas de abertura são importantes em musicais porque assinalam para o público o estilo que será seguido não apenas pelo filme, mas também pela própria parte musical. So May We Start? é muito feliz nessa premissa, revelando o quanto Annette se equilibrará entre a ambição e um tom mais descompromissado, além da mistura de ecleticidades proposta pelo diretor Leos Carax, bem ao estilo do que Ron e Russell Mael, os irmãos Sparks, exploram ao longo de sua carreira e aplicam na idealização deste musical. Para além do tom estabelecido, So May We Start? é um excelente ponto de partida para Annette porque é uma das melhores músicas do filme (meu coração se divide entre ela e We Love Each Other So Much) e porque funciona como uma espécie de abre-alas, começando até um tanto óbvia em um estúdio de música para logo ganhar as ruas com Adam Driver, Marion Cotillard e elenco. É de uma energia envolvente e de uma pegada bastante própria, característica ostentada por Annette como um todo.

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MELHOR TRILHA SONORA
Jonny Greenwood
(Ataque dos Cães)

Pouquíssimas carreiras de compositores para cinema têm tanta personalidade e consistência como a de Jonny Greenwood. O guitarrista de 50 anos da banda Radiohead se tornou parceiro inseparável do diretor Paul Thomas Anderson (as trilhas de Sangue Negro e Trama Fantasma são verdadeiras obras-primas) e também vem colaborando com outros cineastas de ponta. É o caso de seu trabalho para Ataque dos Cães, de Jane Campion, que lhe rendeu sua segunda indicação ao Oscar. Ao mesmo tempo identificável, mas nunca repetitiva, a sonoridade das trilhas de Greenwood são sempre singulares ao evocarem os mais diferentes sentimentos. No caso de Ataque dos Cães, ela tem papel central na criação de toda a tensão que paira sob os personagens. Como esperado, Greenwood não cai na simples homenagem às referências de western e cria um universo próprio para um filme que rompe várias formalidades.

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MELHOR FOTOGRAFIA
Joshua James Richards
(Nomadland)

Surpreende a sensibilidade com que Josua James Richards captura a mistura de individualidade e universalidade de Nomadland. Sua carreira é muito recente (o primeiro curta-metragem veio em 2011), prova de que talento de verdade se manifesta em qualquer momento. À parte ter em mente concepções importantes que nem todos diretores de fotografia têm (a de que ela nunca deve chamar atenção para si própria propositalmente) e experimentações que ele diz ter feito de forma deliberada para expandir seu repertório cinematográfico, o que Richard prova no filme de Chloé Zhao é que, acima de tudo, seu trabalho se move carregado de alma. Um exemplo disso é como as paisagens exploradas pelo filme não são apenas paisagens: elas estão ali para expressar as subjetividades de uma protagonista tão singular quanto Faye (Frances McDormand). O olhar é muito sensível, e o trabalho de Joshua é, sem dúvida, um dos pilares emocionais de Nomadland.

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MELHOR MONTAGEM
Yorgos Lamprinos
(Meu Pai)

Somente a habilidade em construir a notável atmosfera labiríntica de Meu Pai já deveria render todo tipo de elogios ao montador greco-francês Yorgos Lamprinos, mas seu trabalho também é louvável em outra questão muita importante: a de conseguir calibrar a imensa oscilação de emoções vivida pelo protagonista Anthony (Anthony Hopkins). Construir o quebra-cabeça com peças as faltantes da memória do personagem deve ter sido um desafio repleto de dificuldades. Afinal, como fazer o espectador conhecer um homem que já não se (re)conhece mais? Pois Lamprinos consegue, emergindo a plateia em uma estrutura elegante, surpreendente e que reflete seu assumido entendimento de que Meu Pai é, de certa forma, uma história de horror. Há ritmo e envolvimento em cada decisão tomada para absorver a perspectiva e as impressões de um personagem cuja empatia junto ao público é definida de maneira decisiva pela montagem.

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MELHOR SOM
Andy Nelson, Brian Chumney, Gary Rydstrom, Shawn Murphy e Tod A. Maitland

(Amor, Sublime Amor)

Mesmo que ostente mais de 100 títulos em um currículo marcado por filmes de todo tipo de gênero, Tod A. Maitland é categórico ao afirmar que nenhuma experiência de sua carreira em mixagem de som foi tão difícil quanto a de Amor, Sublime Amor. Junto a Andy Nelson, Brian Chumney, Gary Rydstrom e Shawn Murphy, ele estabeleceu uma dinâmica definitiva a ser seguida: tornar o set mais realista possível em termos de energia. Nesse sentido, o time de som de Amor, Sublime Amor microfonou todos os bailarinos e cantores do filme, com o objetivo de capturar o máximo possível das sonoridades reais de movimentos, sapateados, acrobacias e tudo o que tornou o musical de Spielberg uma das melhores surpresas de 2021. O resultado é um espetáculo para os ouvidos: do primeiro ao último minuto, Amor, Sublime Amor é impactante nos sentidos e um trabalho à altura da trilha de Leonard Bernstein. 

CRUELLA

MELHOR FIGURINO
Jenny Beavan
(Cruella)

Tente encontrar uma figurinista como Jenny Beavan. Possivelmente, a busca será das mais longas. Os seus três Oscar falam por si só: Uma Janela Para o AmorMad Max: Estrada da Fúria e, agora em 2022, Cruella. Dos filmes de época aos mundos pós-apocalípticos, Beavan é uma figurinista cheia de criatividade, e é isso o que acaba tornando Cruella minimamente divertido. Talvez seja meio óbvio afirmar que, em um filme sobre moda, os figurinos fossem destaque, mas Beavan sai do lugar comum para criar peças tão vistosas quanto cheia de ideias. É interessante como ela mostra a sua própria versatilidade ao contrastar as peças usadas por Emma Stone e Emma Thomson, que interpretam personagens de intenções e vocações bastante opostas. São quase 50 as trocas de figurino realizadas apenas por Stone durante o filme, credenciando de vez, também em termos quantitativos, a importância das vestimentas de Cruella para a história contada.

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MELHOR DESIGN DE PRODUÇÃO
Cathy Featherstone e Peter Francis
(Meu Pai)

Segmento que, na totalidade das premiações, acaba resumido a reconstituições de épocas e imponências de blockbusters, o design de produção costuma ser muito mais surpreendente e narrativo em filmes como Meu ´Pai. No filme dirigido por Florian Zeller, a dupla Cathy Featherston e Peter Francis é minimalista de um jeito que pode até passar de forma despercebida pelo público, mas que, é peça fundamental na construção das inúmeras emoções desta poderosa jornada interior estrelada por Anthony Hopkins. Mergulhando na mente de um homem que tenta se agarrar a certezas e memórias que estão se desintegrando, Cathy e Peter acompanham o labirinto proposto pelo diretor ao criar ambientes cujas composições variam de forma gradativa. Cores, móveis e quadros mudam sutilmente de tempos em tempos, contribuindo para a grande desorientação do protagonista e da própria plateia — algo que, no caso de Meu Pai é, sem dúvida, o maior elogio possível.

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MELHORES EFEITOS VISUAIS
Brian Connor, Gerd Nefzer, Paul Lambert e Tristan Myles
(Duna)

Brinco que blockbusters hollywoodianos não fazem mais do que obrigação quando entregam bons efeitos visuais. Com orçamentos milionários no caixa, é preciso certo esforço para chegar a algo ruim. É por isso que, diante da imensa profusão de filmes de super heróis no mercado cinematográfico, os filmes que se interessam são aqueles que se utilizam dos efeitos para criar uma atmosfera de imersão e não apenas um espetáculo vistoso. Duna segue a tradição do diretor canadense Denis Villeneuve de tentar ser o mais realista possível em luzes, contrastes e cenários criados ou adaptados virtualmente especialmente para o filme. Muito do que o quarteto Brian Connor, Gerd Nefzer, Paul Lambert e Tristan Myles fez para este projeto foi abarcar as sensações e as texturas de uma vida no deserto, interferindo o mínimo possível em elementos como luminosidade e animação. O não à artificialidade é o que faz de Duna uma experiência grandiosa do ponto de vista de efeitos.

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MELHOR MAQUIAGEM & PENTEADOS
Julia Vernon, Nadia Stacey e Naomi Donne
(Cruella)

Partindo de inúmeras referências que pudessem reproduzir o estilo de uma jovem na Londres dos anos 1970, Julia Vernon, Nadia Stacey e Naomi Donne conceberam Cruella como um filme divido em dois momentos diferentes. O primeiro envolvia uma garota que ainda não se (re)conhecia e que, ao entrar na indústria da moda, passa a buscar sua própria identidade, permitindo permitiu que maquiagem e penteados se alternassem com frequência, representando a busca da personagem por seu estilo. Já o segundo é quando Cruella (Emma Stone) finalmente se torna Cruella, fase em que a caracterização expressa não só a identidade pop de uma personagem marcante como também a maneira da protagonista mascarar quem sua verdadeira identidade e se apresentar ao mundo como uma pessoa inteiramente nova. São fronteiras bem desenhadas, mas, ao mesmo tempo, bastante interligadas pelo trabalho de Vernon, Stacey e Donne.

Melhores de 2021: “Ataque dos Cães” lidera disputa com 12 indicações

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Dirigido por Jane Campion, Ataque dos Cães é o novo recordista de indicações do blog.

Vivo sempre um misto de prazer e agonia quando chega a hora de fazer a lista de melhores do ano aqui do blog. Prazer porque é encantador imaginar esse mundo ideal onde só você dá as cartas, e angústia porque é difícil chegar a um número reduzido de selecionados quando há tantos filmes bons e aptos a entrar na lista. É um exercício que venho fazendo desde 2007 e que nunca se torna mais fácil. Não foi diferente com os filmes de 2021, que procurei condensar na lista abaixo.

No topo das indicações está o belo Ataque dos Cães, de Jane Campion, com 12 indicações, batendo o recorde até então ostentado por La La Land: Cantando Estações. O segundo mais lembrado da lista é o Amor, Sublime Amor, de Steven Spielberg, em nove categorias. À parte as estatísticas, foi um excelente ano para diferentes gêneros (há documentário, comédia, musical e drama na categoria principal), diretoras mulheres (três concorrem em melhor direção) e os mais variados estilos de interpretação (as categorias mais difíceis da lista!).

Confiram abaixo a seleção:

MELHOR FILME
Amor, Sublime Amor
Ataque dos Cães
Druk: Mais Uma Rodada
A Filha Perdida
Judas e o Messias Negro
Meu Pai
Nomadland
Quo Vadis, Aida?
Shiva Baby
Summer of Soul (Ou, Quando a Revolução Não Podia Ser Televisionada)

MELHOR DIREÇÃO
Chloé Zhao (Nomadland)
Emma Seligman (Shiva Baby)
Florian Zeller (Meu Pai)
Jane Campion (Ataque dos Cães)
Steven Spielberg (Amor, Sublime Amor)

MELHOR ATRIZ
Carrie Coon (O Refúgio)
Frances McDormand (Nomadland)
Olivia Colman (A Filha Perdida)
Rachel Sennott (Shiva Baby)
Tessa Thompson (Identidade)

MELHOR ATOR
Anthony Hopkins (Meu Pai)
Benedict Cumberbatch (Ataque dos Cães)
Daniel Kaluuya (Judas e o Messias Negro)
Lakeith Stanfield (Judas e o Messias Negro)
Mads Mikkelsen (Druk: Mais Uma Rodada)

MELHOR ATRIZ COADJUVANTE
Ariana DeBose (Amor, Sublime Amor)
Kirsten Dunst (Ataque dos Cães)
Jessie Buckley (A Filha Perdida)
Ruth Negga (Identidade)
Youn Yuh-jung (Minari: Em Busca da Felicidade)

MELHOR ATOR COADJUVANTE
David Strathairn (Nomadland)
Jesse Plemons (Ataque dos Cães)
Kodi Smit-McPhee (Ataque dos Cães)
Mike Faist (Amor, Sublime Amor)
Troy Kotsur (No Ritmo do Coração)

MELHOR ELENCO
Ataque dos Cães
Não Olhe Para Cima
No Ritmo do Coração
O Novelo
Shiva Baby

MELHOR ROTEIRO ORIGINAL
Um Animal Amarelo
Druk: Mais Uma Rodada
Judas e o Messias Negro
Uma Noite em Miami…
O Refúgio

MELHOR ROTEIRO ADAPTADO
Ataque dos Cães
A Filha Perdida
Meu Pai
Nomadland
Shiva Baby

MELHOR TRILHA SONORA
Ataque dos Cães
A Crônica Francesa
Minari: Em Busca da Felicidade
Não Olhe Para Cima
Shiva Baby

MELHOR CANÇÃO ORIGINAL
“Fight for You” (Judas e o Messias Negro)
“Just Look Up” (Não Olhe Para Cima)
“No Time to Die” (Sem Tempo Para Morrer)
“So May We Start?” (Annette)
“We Love Each Other So Much” (Annette)

MELHOR FOTOGRAFIA
Amor, Sublime Amor
Um Animal Amarelo
Ataque dos Cães
Identidade
Nomadland

MELHOR MONTAGEM
Amor, Sublime Amor
Ataque dos Cães
Meu Pai
Nomadland
Summer of Soul (Ou, Quando a Revolução Não Podia Ser Televisionada)

MELHOR SOM
Amor, Sublime Amor
Ataque dos Cães
Duna
Um Lugar Silencioso: Parte II
Summer of Soul (Ou, Quando a Revolução Não Podia Ser Televisionada)

MELHOR FIGURINO
A Crônica Francesa
Amor, Sublime Amor
Casa Gucci
Cruella
Identidade

MELHOR DESIGN DE PRODUÇÃO
Amor, Sublime Amor
A Crônica Francesa

Cruella
Duna
Meu Pai

MELHORES EFEITOS VISUAIS
Duna
Homem-Aranha: Sem Volta Para Casa
Um Lugar Silencioso: Parte II
Sem Tempo Para Morrer
Tempo

MELHOR MAQUIAGEM & PENTEADOS
Casa Gucci
A Crônica Francesa
Cruella
Identidade
Tempo

Melhores de 2020: roteiros, direção e filme

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MELHOR ROTEIRO ADAPTADO
J.C. Lee e Julius Onah (Luce)

Quando apresentado pela primeira em 2013, o espetáculo teatral Luce, escrito por J.C. Lee, foi saudado como um trabalho “reflexivo e bem interpretado” nas palavras do jornal The New York Times, elogios que também podem ser atribuídos à versão cinematográfica, onde Lee contou com a parceria do diretor Julius Onah na escrita do roteiro. A transposição para as telas não guarda resquícios teatrais, mesmo quando a trama é centrada mais em diálogos e suposições do que necessariamente em acontecimentos. Por meio do texto, Lee e Onah criam um filme muito intrigante e inteligente, com personagens repletos de camadas, sejam eles protagonistas ou coadjuvantes, e leituras tão pertinentes quanto assertivas para muitas questões envolvendo a forma como a sociedade enxerga a população negra em diferentes esferas. Os labirintos criados por Luce são dos mais interessantes, rejeitando a panfletagem e se apoiando na grande dimensão dada a personagens que nos puxam de um lado para o outro. Sem respostas prontas ou fáceis, a adaptação brilha ao compreender o poder da dúvida e ao confiar na maturidade do espectador para entregar (ou não) os elementos que ele precisa para tirar algumas de suas próprias conclusões.

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MELHOR ROTEIRO ORIGINAL
Eliza Hittman (Nunca, Raramente, Às Vezes, Sempre)

Tenho a sensação de que o tempo fará justiça a essa pérola chamada Nunca, Raramente, Às Vezes, Sempre, filme escrito e dirigido por Eliza Hittman sobre uma adolescente que, ao descobrir uma gravidez indesejada, viaja com uma amiga para outro estado com o objetivo de fazer legalmente um aborto. A propriedade com que Hittman navega nos anseios e silêncios de uma jovem que aos poucos se revela para o espectador é um assombro. Da tocante explicação do título do longa ao retrato muito discreto dos mais diferentes sentimentos vividos pela por ela, o roteiro descortina um universo particular pelo qual é difícil ficar indiferente. E, se a maravilhosa interpretação de Sidney Flanigan já nos coloca nos lugares mais íntimos da personagem, o texto impulsiona essa sensação de proximidade por fazer com que acompanhemos a jovem naqueles momentos aparentemente cotidianos e banais mas que, na verdade, refletem tudo o que precisamos saber sobre ela. Hittman versa sobre família, juventude e aborto sem jamais espetacularizar qualquer um desses temas, e talvez seja por isso mesmo que Nunca, Raramente, Às Vezes, Sempre tenha uma dramaticidade tão certeira e de crescimento gradativo. É um roteiro de pequenas grandiosidades. Exatamente como a vida.

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MELHOR DIREÇÃO
Céline Sciamma (Retrato de Uma Jovem em Chamas)

Aos 42 anos de idade, a cineasta francesa Céline Sciamma contabiliza apenas quatro longas-metragens como diretora. A ênfase no apenas é necessária porque, apesar do número relativamente baixo de trabalhos, Sciamma demonstra um domínio técnico e emocional que alguns diretores demoram uma carreira inteira para alcançar. Como roteirista, sua carreira é mais extensa (e eu destaco aqui o belo trabalho feito por ela na animação Minha Vida de Abobrinha), o que também acaba contribuindo para toda a beleza que impressa ao ótimo Retrato de Uma Jovem em Chamas. Céline é um deslumbro em todas as escolhas técnicas e também compreende o quanto é necessário que o filme tenha seu próprio ritmo para desbravar todas as nuances de uma paixão secreta entre duas mulheres em pleno século XVIII. Seu olhar feminino faz a diferença para um romance de época cercado de escolhas minuciosas e diretamente ligadas à essência do filme, como a discreta potência conferida às cenas íntimas entre as duas personagens e toda a influência da geografia local no estado de espírito de cada uma delas. Antes, conhecendo longas como o também belo Tomboy, eu já ficava ansioso para ver mais de Céline Sciamma. Agora, tendo testemunhado Retrato de Uma Jovem Chamas, a sensação se multiplica.

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MELHOR FILME
O Som do Silêncio, de Darius Marder

O Som do Silêncio é o tipo de filme que, nas mãos erradas, poderia ser uma experiência qualquer. Poderia também ser um dramalhão dos mais manjados ou, então, uma história motivacional construída em cima de lições de moral. Felizmente, não vemos nada disso no surpreendente trabalho de estreia de Darius Marder como diretor de ficções (antes, ele havia realizado apenas o documentário Loot). Meu fascínio pelo que Marder apresenta em O Som do Silêncio reside justamente em sua capacidade de se esquivar do óbvio através das escolhas mais simples. Tudo em O Som do Silêncio está no lugar certo: a abordagem do universo de pessoas com deficiência, o ritmo certo para que a história tenha a devida imersão, o trabalho técnico para nos colocar no lugar do protagonista, o desempenho espetacular de Darius Marder, o suporte do ótimo Paul Raci e até as pequenas participações como o do francês Mathieu Almaric. Em muitos sentidos, é um filme que merece ser referenciado por sua capacidade de explorar tantas camadas humanas com muita sutileza e sem alardes, provando que, sim, ainda existem novas perspectivas possíveis para temáticas já tão abordadas pelo cinema.

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