Cinema e Argumento

Melhores de 2020: roteiros, direção e filme

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MELHOR ROTEIRO ADAPTADO
J.C. Lee e Julius Onah (Luce)

Quando apresentado pela primeira em 2013, o espetáculo teatral Luce, escrito por J.C. Lee, foi saudado como um trabalho “reflexivo e bem interpretado” nas palavras do jornal The New York Times, elogios que também podem ser atribuídos à versão cinematográfica, onde Lee contou com a parceria do diretor Julius Onah na escrita do roteiro. A transposição para as telas não guarda resquícios teatrais, mesmo quando a trama é centrada mais em diálogos e suposições do que necessariamente em acontecimentos. Por meio do texto, Lee e Onah criam um filme muito intrigante e inteligente, com personagens repletos de camadas, sejam eles protagonistas ou coadjuvantes, e leituras tão pertinentes quanto assertivas para muitas questões envolvendo a forma como a sociedade enxerga a população negra em diferentes esferas. Os labirintos criados por Luce são dos mais interessantes, rejeitando a panfletagem e se apoiando na grande dimensão dada a personagens que nos puxam de um lado para o outro. Sem respostas prontas ou fáceis, a adaptação brilha ao compreender o poder da dúvida e ao confiar na maturidade do espectador para entregar (ou não) os elementos que ele precisa para tirar algumas de suas próprias conclusões.

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MELHOR ROTEIRO ORIGINAL
Eliza Hittman (Nunca, Raramente, Às Vezes, Sempre)

Tenho a sensação de que o tempo fará justiça a essa pérola chamada Nunca, Raramente, Às Vezes, Sempre, filme escrito e dirigido por Eliza Hittman sobre uma adolescente que, ao descobrir uma gravidez indesejada, viaja com uma amiga para outro estado com o objetivo de fazer legalmente um aborto. A propriedade com que Hittman navega nos anseios e silêncios de uma jovem que aos poucos se revela para o espectador é um assombro. Da tocante explicação do título do longa ao retrato muito discreto dos mais diferentes sentimentos vividos pela por ela, o roteiro descortina um universo particular pelo qual é difícil ficar indiferente. E, se a maravilhosa interpretação de Sidney Flanigan já nos coloca nos lugares mais íntimos da personagem, o texto impulsiona essa sensação de proximidade por fazer com que acompanhemos a jovem naqueles momentos aparentemente cotidianos e banais mas que, na verdade, refletem tudo o que precisamos saber sobre ela. Hittman versa sobre família, juventude e aborto sem jamais espetacularizar qualquer um desses temas, e talvez seja por isso mesmo que Nunca, Raramente, Às Vezes, Sempre tenha uma dramaticidade tão certeira e de crescimento gradativo. É um roteiro de pequenas grandiosidades. Exatamente como a vida.

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MELHOR DIREÇÃO
Céline Sciamma (Retrato de Uma Jovem em Chamas)

Aos 42 anos de idade, a cineasta francesa Céline Sciamma contabiliza apenas quatro longas-metragens como diretora. A ênfase no apenas é necessária porque, apesar do número relativamente baixo de trabalhos, Sciamma demonstra um domínio técnico e emocional que alguns diretores demoram uma carreira inteira para alcançar. Como roteirista, sua carreira é mais extensa (e eu destaco aqui o belo trabalho feito por ela na animação Minha Vida de Abobrinha), o que também acaba contribuindo para toda a beleza que impressa ao ótimo Retrato de Uma Jovem em Chamas. Céline é um deslumbro em todas as escolhas técnicas e também compreende o quanto é necessário que o filme tenha seu próprio ritmo para desbravar todas as nuances de uma paixão secreta entre duas mulheres em pleno século XVIII. Seu olhar feminino faz a diferença para um romance de época cercado de escolhas minuciosas e diretamente ligadas à essência do filme, como a discreta potência conferida às cenas íntimas entre as duas personagens e toda a influência da geografia local no estado de espírito de cada uma delas. Antes, conhecendo longas como o também belo Tomboy, eu já ficava ansioso para ver mais de Céline Sciamma. Agora, tendo testemunhado Retrato de Uma Jovem Chamas, a sensação se multiplica.

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MELHOR FILME
O Som do Silêncio, de Darius Marder

O Som do Silêncio é o tipo de filme que, nas mãos erradas, poderia ser uma experiência qualquer. Poderia também ser um dramalhão dos mais manjados ou, então, uma história motivacional construída em cima de lições de moral. Felizmente, não vemos nada disso no surpreendente trabalho de estreia de Darius Marder como diretor de ficções (antes, ele havia realizado apenas o documentário Loot). Meu fascínio pelo que Marder apresenta em O Som do Silêncio reside justamente em sua capacidade de se esquivar do óbvio através das escolhas mais simples. Tudo em O Som do Silêncio está no lugar certo: a abordagem do universo de pessoas com deficiência, o ritmo certo para que a história tenha a devida imersão, o trabalho técnico para nos colocar no lugar do protagonista, o desempenho espetacular de Darius Marder, o suporte do ótimo Paul Raci e até as pequenas participações como o do francês Mathieu Almaric. Em muitos sentidos, é um filme que merece ser referenciado por sua capacidade de explorar tantas camadas humanas com muita sutileza e sem alardes, provando que, sim, ainda existem novas perspectivas possíveis para temáticas já tão abordadas pelo cinema.

Melhores de 2020: categorias de interpretação

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MELHOR ATOR COADJUVANTE
Paul Raci (O Som do Silêncio)

São 72 anos de idade e 40 de carreira, mas foi somente agora, em 2021, que Paul Raci ganhou seu primeiro papel de grande repercussão com O Som do Silêncio, chegando, inclusive, a concorrer ao Oscar de melhor ator coadjuvante. A chance tardia se dá com um trabalho repleto de significados para Raci: filho de pais surdos, ele cresceu entendendo intimamente esse universo, além de ter se tornado uma figura ativa na busca pelos direitos das pessoas surdas. Toda a sua experiência como membro de um grupo de atores surdos em Los Angeles e como vocalista da banda Hands of Doom ASL Rock, que realiza performances em LIBRAS, está evidente em cada segundo de sua interpretação, que busca apresentar a surdez com mais camadas do que o cinema norte-americano costuma abordar: sem estereótipos, mas com felicidade e tristeza, pessimismo e esperança, exatamente como acontece com todos nós.

É com essa perspectiva que o ator amplifica a importância de um papel muito pequeno e que se torna peça fundamental na jornada de autoconhecimento do protagonista Ruben (Riz Ahmed). Mais do que um personagem que o próprio Raci assume ter natureza autobiográfica, Joe é a sábia representação de um homem já em paz com a ideia de que a surdez não é algo a ser consertado. Em meio a tantas pessoas lutando contra seus próprios fantasmas em uma clínica de reabilitação, o personagem é construído com uma discrição exemplar. Aliás, Raci revelou em entrevistas que foram várias as vezes em que estava comovido por dentro ao observar a angústia de um protagonista tão perdido, mas que também sabia o quanto o controle das emoções faria bem à história, a seu personagem e ao filme como um um todo. Razão e emoção em uma performance que está entre os tantos elementos responsáveis por elevar O Som do Silêncio.

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MELHOR ATRIZ COADJUVANTE
Octavia Spencer (Luce)

Atriz muito querida do público, Octavia Spencer caiu nas graças de incontáveis plateias com papeis de natureza cômica, como os de A Forma da Água Histórias Cruzadas, que lhe rendeu o Oscar de melhor atriz coadjuvante. Seu melhor papel, no entanto, está em Luce, onde reafirma a máxima de que bons atores não são necessariamente bons comediantes, mas bons comediantes são indiscutivelmente bons atores. Mais comedida do que o habitual, Octavia explora as nuances de uma professora que, ao ler uma redação com comentários violentos e armamentistas de um de seus alunos, passa a desconfiar de que ele realmente concorda com tudo aquilo que escreve. Também negro, o garoto é o menino perfeito adotado por uma família rica e branca, enquanto a Harriet de Octavia é uma professora rígida que precisa manter certa autoridade e se provar constantemente na vida e na profissão.

O encontro entre os dois tem um quê de Dúvida, o filme de John Patrick Shanley estrelado por Meryl Streep e Philip Seymour Hoffman que coloca o espectador em uma sinuca de bico ao ter que decidir quem diz a verdade em um filme palavroso e costurado nas entrelinhas, mas Luce entra, claro, na seara racial, discutindo tudo o que se espera ou não de dois personagens negros tão distintos quanto semelhantes. A interpretação de Octavia é engrenagem potente na trama porque, ao invés de cair no radicalismo fácil de uma personagem que acusa tendo apenas seus instintos como argumento, ela prefere explorar as diferentes facetas de uma mulher que parece não ter certezas à toa em função da vida, do seu meio e de sua própria cor. Sem jamais julgar Harriet ou tentar manipular o espectador para que ele tome partido por ela, Spencer é sutil, firme e enigmática, travando um duelo dos mais instigantes com o também ótimo Kelvin Harrison Jr.

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MELHOR ATOR
Riz Ahmed (O Som do Silêncio)

Ao contrário do seu colega de cena Paul Raci, o britânico Riz Ahmed embarcou em O Som do Silêncio sem uma vivência prévia com a população surda. Contudo, isso não foi um problema para o ator, que resolveu dispensar tudo o que pudesse facilitar o convívio com as pessoas surdas de verdade no set. Ahmed escolheu, por exemplo, trabalhar sem o apoio de intérpretes. Para ele, era fundamental que pudesse descobrir sozinho como se comunicar com os outros atores. Riz também decidiu usar bloqueadores auditivos nas cenas em que o seu personagem se sentia mais desorientado quanto à perda da audição. O que muitos enxergam como mérito, o ator viu apenas como parte  corriqueira de seu trabalho: no final das contas, o que ele diz ter tirado de todo esse preparo foi, na verdade, a descoberta de um profundo entendimento sobre o real sentido da comunicação e sobre como enxergar o outro vai muito além da voz e do som.

Minimalista, a interpretação de Riz é daquele tipo que marca uma carreira. A habilidade com que ele abarca uma série de situações difíceis — a perda da audição, a angústia do vício, a busca por uma nova identidade, a inevitável entrada na clínica de reabilitação — revela um ator no pleno controle técnico e emotivo de um personagem imenso em emoções e frustrações. Ao entender Ruben como um homem que se vê em uma espécie de purgatório ao ter que ressignificar o que é importante na vida, Ahmed comunica com os olhares e transmite para o espectador todas as transformações do protagonista, indo do céu ao inferno com todo o entendimento da comunicação que ele diz ter incorporado durante as filmagens. Trata-se de uma interpretação ao mesmo tempo discreta e forte, capaz de despertar a empatia do espectador do início ao fim.

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MELHOR ATRIZ
Alfre Woodard (Clemência)

É indesculpável o fato da Neon, distribuidora de Clemência, não ter feito uma ampla campanha para o desempenho de Alfre Woodard na temporada de premiações de 2020. Com certo atraso devido ao calendário britânico de estreias, a performance chegou a ser lembrada agora em 2021 pelo BAFTA, mas é pouco para um trabalho que, de tão forte e construído a partir do rico repertório de uma atriz, entra para o hall daqueles serão sempre referenciadas em uma filmografia. E não qualquer filmografia: a da grande Alfre Woodard. Nascida em Tulsa, nos Estados Unidos, Alfre se manteve ativa desde que iniciou sua carreira em 1978 com o telefilme The Trial of the Moke. Não passou um ano sequer sem atuar desde então e criou uma carreira sólida na TV, de Hill Street Blues, que lhe rendeu um Emmy logo na primeira indicação em 1984, a sucessos como Desperate HousewivesTrue BloodEmpire. Contudo, seu merecido e complexo protagonismo em Clemência é um caso à parte.

No drama dirigido pela nigeriana Chinonye Chuku, Alfre interpreta Bernardine, uma personagem forte e rica em possibilidades por si só. Diretora de um corredor da morte nos Estados Unidos, Bernardine é a única mulher em um ambiente masculino. Tendo que lidar diariamente com a morte e com os sentimentos extremos dos que estão à espera da execução ou daqueles que estão às vésperas de perder seus familiares, ela precisa camuflar qualquer tipo de emoção e se apresentar somente como uma profissional, sem qualquer envolvimento emocional. Na medida em que entendemos a natureza de seu trabalho e principalmente a forma com que Bernardine se comunica com as pessoas no trabalho e até mesmo com o marido que lhe reivindica mais presença e afeto, o trabalho de Alfre se engrandece em detalhes. Ao explorar a linha tênue entre razão e emoção, sua performance é de rara elegância e inteligência, culminando em uma cena final de tirar o fôlego e que só poderia ter tamanho impacto graças a combinação entre tempo, talento e repertório. Tudo o que Alfre Woodard tem de sobra.

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MELHOR ELENCO
Destacamento Blood

Denzel Washington e Samuel L. Jackson que me desculpem, mas é difícil imaginar Destacamento Blood sem Delroy Lindo. Também não reclamaria se Giancarlo Esposito e John David Washington estivessem no projeto, mas novamente tenho a impressão de que o filme de Spike Lee não poderia ter outra composição de elenco. É palpável a amizade entre Paul (Lindo), Otis (Clark Peters), Melvin (Isiah Whitlock Jr.) e Eddie (Norm Lewis), seja em tudo que ela carrega de melhor (a cumplicidade, a camaradagem, o bom humor) ou nas consequências inevitáveis do tempo (os afastamentos, as distintas visões de vida, os diferentes rumos tomados). São todos homens marcados pelos traumas da Guerra do Vietnã, o que os afasta na medida em que também os aproxima.

A dinâmica entre o quarteto é o retrato espirituoso e maduro de uma amizade de longa data, defendido por atores talentosos e extremamente à vontade em seus papeis. Destacamento Blood ainda reserva outras participações especiais, como a de Chadwick Boseman, em um de seus últimos trabalhos; outras estelares, a exemplo do francês Jean Reno; e complementos interessantes à jornada dos protagonistas, como a presença de Jonathan Majors interpretando o filho de Paul, em uma ótima dinâmica com Delroy Lindo. É essa composição entre estilos e talentos diversos que forma ótimos elencos, caso desse subestimado filme de Spike Lee.

Melhores de 2020: categorias técnicas

É chegada a hora de conhecer os vencedores da tradicional lista de melhores do ano aqui do blog. Revelados no último mês de maio, os indicados contemplam os filmes de 2020, considerando lançamentos comerciais no Brasil tanto em cinema em streaming. Sem categorizações específicas para longas brasileiros, animações ou documentários, todos concorrem juntinhos, de forma a reforçar que cinema é cinema, independentemente de gênero ou nacionalidade. Ao todo, serão três postagens para revelar os vencedores, começando hoje com as categorias técnicas e suas respectivas justificativas: canção original, maquiagem e penteados, efeitos visuais, figurino, montagem, fotografia, design de produção, trilha sonora e som. Lembrando que, desde 2007, todo o histórico de vencedores está registrado aqui.

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MELHOR CANÇÃO ORIGINAL
Laura Mvula, por “Brighter Dawn” (Clemência)

Com um background que vai do jazz à música gospel, a britânica Laura Mvula descobriu seu desejo pela carreira musical quando começou a prestar atenção nos corais da igreja que frequentava de maneira diferente, descolando-se de uma mera análise da vertente religiosa. A partir daí, foi questão de tempo para que ela acumulasse referências de Nina Simone, Ella Fitzgerald e Diana Ross para encontrar a sua própria voz. E parte desse repertório está traduzido na canção “Brighter Dawn”, escrita por Mvula para o ótimo e pouco visto Clemência. Enxuta, a canção que dura pouco menos de dois minutos e meio captura toda a personalidade vocal da britânica. Entretanto, o mais simbólico está mesmo na letra da música, também escrita por ela, que sintetiza toda a jornada de Bernardine (Alfre Woodard) com precisão e poesia. Trechos como “Todas as minhas cicatrizes são minhas joias mais brilhantes, todas as minhas lágrimas brilham como orvalho da manhã” atestam que, em muitos sentidos, Clemência foi realmente um filme subapreciado.

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MELHOR MAQUIAGEM & PENTEADOS
Adam Bailey, Anouck Sullivan e Sarah Hindsgaul
(Estou Pensando em Acabar Com Tudo)

Possivelmente o filme mais nichado já escrito (e agora dirigido!) por Charlie Kaufman, Estou Pensando em Acabar Com Tudo tem nas complexidades e nas possibilidades do tempo a matéria-prima para desenvolver muitas das múltiplas perspectivas tomadas pelos personagens ao longo do filme. Com isso, o trio Adam Bailey, Anouck Sullivan e Sarah Hindsgaul precisou explorar, por meio da maquiagem e dos cabelos, as várias oscilações imaginadas por Kaufman. O método escolhido não foi o de O Irlandês, por exemplo, onde os atores foram rejuvenescidos através de efeitos visuais, mas sim o da maquiagem e das próteses clássicas. Dessa forma, personagens como a de Toni Collette se desenharam a partir de um longo e minucioso trabalho que buscou aplicar diferentes camadas no rosto e nas mãos do elenco para representar os diferentes avanços no tempo e as variações propostas pelo texto de Kaufman. E a maneira como Estou Pensando em Acabar Com Tudo se utiliza dessa ferramenta com sutileza no início para depois impressionar é inegavelmente intrigante.

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MELHORES EFEITOS VISUAIS
Andrew Lockley, Andrew Jackson, David Lee e Scott R. Fisher (Tenet)

Tenet é uma caricatura de tudo o que existe de pior na carreira do diretor Christopher Nolan, exceto nos quesitos técnicos. Dessa vez, a equipe de efeitos visuais reunida por ele teve o grande desafio de imaginar um filme onde toda a ação ocorre de trás para frente, o que exigiu uma mistura de efeitos práticos e sequências em CGI. Ao contrário do que se pode imaginar, Andrew Lockley, Andrew Jackson, David Lee e Scott R. Fisher não usaram a simples técnica de gravar normalmente as cenas para depois revertê-las. Como apenas metade das sequências de ação eram possíveis de ser performadas em sentido cronológico, atores e dublês tiveram o desafio de treinar os movimentos em reverso, tentando usar o máximo possível de efeitos práticos, complementados na pós-produção apenas com o que era realmente necessário ou impossível de ser materializado sem a interferência de tecnologias. O resultado é de tirar o fôlego, e não é por menos: Andrew Jackson, o supervisor de efeitos visuais de Tenet, também trabalhou em Mad Max: Estrada da Fúria, outra produção de natureza muito semelhante no sentido de se preocupar mais com a realidade do que com criações virtuais.

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MELHOR FIGURINO
Chris Garrido (Pacarrete)

Pacarrete tem uma protagonista das mais singulares, o que estabelece uma série de armadilhas para todos os envolvidos no filme. Afinal, como não tornar a incompreendida e geniosa bailarina de Russas uma caricatura pouco crível e até mesmo irritante? Pois o diretor Allan Deberton, munido de sua reverência, curiosidade e carinho por essa personagem que de fato existiu no Ceará, tratou de (re)imaginá-la para o cinema com respeito e minimalismo, algo também perceptível no belo trabalho de Chris Garrido nos figurinos. Não é só a luminosidade de uma mulher cujo nome é inspirado em pâquerrete (“margarida” em francês) que está representada, por exemplo, nos chapéus de palha decorados com flores que traduz sua singularidade, mas cada roupa inspirada em figurinos usados pela bailarina Anna Pavlova entre os anos 1930 e 1940. É entre a admiração de Pacarrete (Marcélia Cartaxo) por Pavlova e a sua personalidade incomparável como uma mulher apaixonada pela arte que Chris Garrido criou um figurino tão iluminado quanto a personagem-título.

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MELHOR MONTAGEM
Mikkel E.G. Nielsen (O Som do Silêncio)

O montador dinamarquês E.G. Nielsen embarcou em O Som do Silêncio no momento em que disse ao diretor Darius Marder o que gostaria de fazer com o material do filme. Isso foi um fator decisivo para que ele fosse contratado, pois, nas tantas entrevistas que Marder havia feito até então, os candidatos em potencial apenas perguntavam de que maneira ele gostaria de estruturar o longa, sem a firmeza e a visão que Nielsen viria a expor em uma primeira conversa. Rodado em ordem cronológica, O Som do Silêncio ganhou, através da montagem, a imersão que normalmente é reconhecida em outros elementos de um filme, como o som e a fotografia. Para o dinamarquês, o importante era sintonizar o espectador no mesmo timing de descobertas que o protagonista e se perguntar constantemente quando era a hora colocar ou tirar o personagem de determinadas situações, além do quanto ele conseguia suportar ou não novas realidades até finalmente aceitá-las, sem entregar conflitos logo de cara. É o tipo de história que Nielsen avalia ser contada com escolhas quase imperceptíveis, sensação capturada com perfeição por seu discreto e eficiente trabalho na montagem.

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MELHOR FOTOGRAFIA
Claire Mathon (Retrato de Uma Jovem em Chamas)

Foi na primeira visita às locações de Retrato de Uma Jovem em Chamas que a diretora Céline Sciamma entendeu o que precisava para o seu filme em termos de fotografia. Ao invés de se deparar com um céu acinzentado, a diretora encontrou paisagens ensolaradas na isolada ilha da Bretanha onde a trama acontece. Ou seja, quando assumiu a fotografia do filme, a experiente Claire Mathon (segundo o IMDb, já são mais de 60 títulos desde que começou a trabalhar em 2000!) sabia exatamente que Retrato de Uma Jovem em Chamas deveria ser uma experiência luminosa. O processo foi meticuloso, uma vez que o maior desafio era trazer para as locações internas a mesma vibração do sol que banhava as paisagens externas. Segundo a própria Sciamma, o longo processo de preparação de luz reduziu o tempo disponível para a gravação das cenas, mas o resultado está no que Mathon entrega: filmado digitalmente e trazendo como referência obras de arte assinadas por pintoras do final do século XVIII, a fotografia é solar e capaz de mergulhar em épocas passadas com um olhar muito contemporâneo e apurado. 

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MELHOR DESIGN DE PRODUÇÃO
Rodrigo Frota (Pacarrete)

Toda a proximidade pessoal e afetiva do diretor Allan Deberton com a história contada em Pacarrete serviu de base para que Rodrigo Frota criasse um design de produção fiel às memórias do diretor e próximo de toda a identidade de uma protagonista tão única. Naturalmente, o foco central foi a casa da própria Pacarrete, uma vez que é onde uma imensa parcela do longa se desenvolve. Mais do que isso, é nesse ambiente que entendemos, em cada mobília e em cada decoração, a essência de uma mulher presa a um passado que lhe desperta grande saudade e que ela vê ficar cada vez mais para trás. Escolhendo as melhores opções entre cada quatro ou cinco variações para objetos que seriam usados em cena, Rodrigo Frota criou um universo muito particular e lúdico, repleto de referências ao amor de Pacarrete pela arte (com o ballet tendo certo destaque, claro) e também à vida como ela é, pois tudo o que vemos em cena é de grande familiaridade, como se um dia já estivéssemos vivido ou pelo menos visitado uma casa como aquela.

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MELHOR TRILHA SONORA
Michael Abels (Má Educação)

Com muita curiosidade, fui pesquisar mais sobre Michael Abels assim que terminei de assistir a Má Educação. E, para minha surpresa, descubro que esse compositor norte-americano estreou nos cinemas somente em 2017, quando, aos 54 anos, fez a trilha de Corra!. Dois anos depois, seguiu colaborando com o diretor Jordan Peele em Nós, passou pela aventura infanto-juvenil A Gente Se Vê Ontem e chegou a Má Educação, inexplicavelmente apenas o quarto trabalho de sua carreira. Dou ênfase ao inexplicável porque Abels é de um talento gigante e o que ele faz nesse drama verídico adquirido pela HBO é de um frescor raro de se ver. Acertadamente definida pelo Awards Daily como uma “queda operística”, a trilha usa a experiência de Abels como compositor de concertos para representar o intelecto do protagonista (um homem trambiqueiro, mas também muito esperto e que deduzimos ser apreciador de música clássica) e justamente causar incômodo na simultânea desconstrução que faz dele e dos próprios elementos da música clássica. É uma trilha minimalista, econômica e eficiente em tantos experimentos que poderiam facilmente dar errado em mãos menos talentosas.

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MELHOR SOM
Carlos Cortés, Jaime Baksht, Michelle Couttolenc, Nicolas Becker e Phillip Bladh (O Som do Silêncio)

Talvez fosse um pouco óbvio que um filme com “som” e “silêncio” no título caprichasse na relação entre esses dois aspectos, especialmente se tratando de uma trama onde um baterista de heavy metal perde a sua audição pouco a pouco. A virada de chave é que, assim como a montagem já comentada aqui, O Som do Silêncio também utiliza mais esse setor não como mera curiosidade, mas como uma fundamental ferramenta de imersão. É acreditando que a relação de um espectador com um filme se dá no incentivo para que ele se coloque no lugar dos personagens que o quinteto formado por Carlos Cortés, Jaime Baksht, Michelle Couttolenc, Nicolas Becker e Phillip Bladh moldar um trabalho de som capaz de absorver a relação do protagonista com o silêncio, criando um mundo de grande vibração, já que estamos falando de um personagem submerso e em busca de novas formas de observar o mundo a sua volta. Tudo com o intuito de se aproximar ao máximo da vida real, sem que as escolhas se escancararem para a plateia como pequenas manipulações.

Melhores de 2020: com oito indicações, “O Som do Silêncio” lidera lista do blog

Riz Ahmed em “O Som do Silêncio”: filme de Darius Marder concorre em oito categorias, seguido por Luce e Nunca, Raramente, Às Vezes, Sempre, ambos com seis indicações.

Ainda estou com um pé em 2020 porque somente agora consigo iniciar o ritual que fecha meus anos cinematográficos. Trata-se, claro, da lista de melhores do ano, premiação que realizo aqui no blog desde 2007. Como de praxe, repito pela milésima vez — porque nunca é demais lembrar — que listas dizem mais sobre quem as faz do que sobre os filmes propriamente ditos. E é bem provável que o tempo coloque muitas escolhas imediatas em xeque, revelando filmes e trabalhos que, com o passar dos anos, ganham dimensões muito maiores (e eu, claro, tenho a minha cota de surpresas ao olhar para o histórico das listas aqui do blog e constatar que há um punhado de vencedores que hoje não seriam a minha escolha, mas isso eu deixo em segredo).

Portanto, recapitulando essa contextualização que tomo como base para a forma como encaro listas e o próprio cinema, chegou a hora de escolher o que mais me impactou em 2020. Uma alteração importante é a expansão da lista de melhor filme, que agora contempla até dez indicados (como sempre faço um top 10 pessoal mesmo, nada mais justo do que aplicar a lógica aqui também). Tendo considerado os lançamentos inéditos em circuito comercial no Brasil (cinema ou streaming), chego a essa seleção que é liderada por O Som do Silêncio com oito indicações, seguido de perto por LuceNunca, Raramente, Às Vezes, Sempre com seis. Os vencedores serão conhecidos em três postagens: uma com as categorias técnicas, outra somente com interpretações e, por fim, a que revela melhor filme, direção, roteiro original e roteiro adaptado. Como sempre, espero vocês!

MELHOR FILME
Babenco – Alguém Tem Que Ouvir o Coração e Dizer: Parou
Clemência
Destacamento Blood
O Farol
Luce
Má Educação
Nunca, Raramente, Às Vezes, Sempre
Pacarrete
Retrato de Uma Jovem em Chamas

O Som do Silêncio

MELHOR DIREÇÃO
Bárbara Paz (Babenco – Alguém Tem Que Ouvir o Coração e Dizer: Parou)
Céline Sciamma (Retrato de Uma Jovem em Chamas)
Chinonye Chukwu (Clemência)
Darius Marder (O Som do Silêncio)
Eliza Hittman (Nunca, Raramente, Às Vezes, Sempre)

MELHOR ELENCO
Adoráveis Mulheres
Destacamento Blood
Luce
Má Educação

Pacarrete

MELHOR ATRIZ
Adèle Haenel (Retrato de Uma Jovem em Chamas)

Alfre Woodard (Clemência)
Marcélia Cartaxo (Pacarrete)
Noémie Merlant (Retrato de Uma Jovem em Chamas)
Sidney Flanigan (Nunca, Raramente, Às Vezes, Sempre)

MELHOR ATOR
Delroy Lindo (Destacamento Blood)
Kelvin Harrison Jr. (Luce)

Riz Ahmed (O Som do Silêncio)
Robert Pattinson (O Farol)
Willem Dafoe (O Farol)

MELHOR ATRIZ COADJUVANTE
Florence Pugh (Adoráveis Mulheres)

Kathy Bates (O Caso Richard Jewell)
Octavia Spencer (Luce)
Talia Ryder (Nunca, Raramente, Às Vezes, Sempre)
Toni Collette (Estou Pensando em Acabar Com Tudo)

MELHOR ATOR COADJUVANTE
João Miguel (Pacarrete)
Paul Raci (O Som do Silêncio)

Sam Rockwell (O Caso Richard Jewell)
Sterling K. Brown (As Ondas)
Tom Hanks (Um Lindo Dia na Vizinhança)

MELHOR ROTEIRO ORIGINAL
Abraham Marder e Darius Marder (O Som do Silêncio)
Chinonye Chukwu (Clemência)
Danny Bilson, Kevin Willmott, Spike Lee e Paul De Meo (Destacamento Blood)
Eliza Hittman (Nunca, Raramente, Às VezesSempre)
Céline Sciamma (Retrato de Uma Jovem em Chamas)

MELHOR ROTEIRO ADAPTADO
Charlie Kaufman (Estou Pensando em Acabar Com Tudo)
Greta Gerwig (Adoráveis Mulheres)
J.C. Lee e Julius Onah (Luce)
Mart Crowley e Ned Martel (The Boys in the Band)
Mike Makowsky (Má Educação)

MELHOR MONTAGEM
Bárbara Paz, Cao Guimarães, Eduardo Escorel, Felipe Bibian, Felipe Nepomuceno, Joaquim Castro, Juliana Guanais, Marilia Moraes e Vitor Mafra (Babenco – Alguém Tem Que Ouvir o Coração e Dizer: Parou)
Louise Ford (Má Educação)
Madeleine Gavin (Luce)
Mikkel E.G. Nielsen (O Som do Silêncio)
Robert Frazen (Estou Pensando em Acabar Com Tudo)

MELHOR FOTOGRAFIA
Bárbara Paz , Carolina Costa e Stefan Ciupek (Babenco – Alguém Tem Que Ouvir o Coração e Dizer: Parou)
Claire Mathon (Retrato de Uma Jovem em Chamas)
Jarin Blaschke (O Farol)
Lukasz Zal (Estou Pensando em Acabar Com Tudo)
Roger Deakins (1917)

MELHOR TRILHA SONORA
Alexandre Desplat (Adoráveis Mulheres)
Michael Abels (Má Educação)
Salloma Salomão (Todos os Mortos)
Thomas Newman (1917)
Trent Reznor, Atticus Ross e Jon Batiste (Soul)

MELHOR DESIGN DE PRODUÇÃO
Anne Kuljian e Grant Major (Mulan)
Claire Kaufman e Jess Gonchor (Adoráveis Mulheres)
Donald Graham Burt e Jan Pascale (Mank)
Juliana Lobo (Todos os Mortos)
Rodrigo Frota (Pacarrete)

MELHOR FIGURINO
Chris Garrido (Pacarrete)
Gabriella Marra (Todos os Mortos)
Jacqueline Durran (Adoráveis Mulheres)
Jany Temime (Judy: Muito Além do Arco-Íris)
Trish Summerville (Mank)

MELHOR SOM
Carlos Cortés, Jaime Baksht, Michelle Couttolenc, Nicolas Becker e Phillip Bladh (O Som do Silêncio)
Christophe Vingtrinier, Gabriela Cunha e Rubén Valdes (Todos os Mortos)
Coya Elliott, David Parker e Ren Klyce (Soul)
David Parker, Drew Kunin, Jeremy Molod, Nathan Nance e Ren Klyce (Mank)
Mark Taylor, Oliver Tarney, Rachael Tate e Stuart Wilson (1917)

MELHORES EFEITOS VISUAIS
Aevar Bjarnason, Jonathan Dearing, Marcus Bolton e Matt Ebb (O Homem Invisível)
Anders Langlands, Sean Andrew Faden, Seth Maury e Steve Ingram (Mulan)
Andrew Lockley, Andrew Jackson, David Lee e Scott R. Fisher (Tenet)
Bill Watral, Dana Murray, Michael Fong e Pete Docter (Soul)
Dominic Tuohy, Greg Butler e Guillaume Rocheron (1917)

MELHOR MAQUIAGEM & PENTEADOS
Adam Bailey, Anouck Sullivan e Sarah Hindsgaul (Estou Pensando em Acabar Com Tudo)
Anne Morgan, Kazu Hiro e Vivian Baker (O Escândalo)
Dannelle Satherley (Jojo Rabbit)
Eryn Krueger Mekash, Matthew W. Mungle e Patricia Dehaney (Era Uma Vez Um Sonho)
Jeremy Woodhead (Judy: Muito Além do Arco-Íris)

MELHOR CANÇÃO ORIGINAL
Abraham Marder, por “Green” (O Som do Silêncio)
Laura Mvula, por “Brighter Dawn” (Clemência)
Celeste e Daniel Pemberton, por “Hear My Voice” (Os 7 de Chicago)
Diane Warren e Laura Pausini, por “Io Sí (Seen)” (Rosa e Momo)
Sharon Van Etten, por “Staring at a Mountain” (Nunca, Raramente, Às Vezes, Sempre)

Adeus, 2020! (e as melhores cenas do ano)

O que dizer de 2020 que todo mundo já não saiba ou tenha sentido na pele? Que foi um ano confuso, difícil e onde tudo fugiu à regra? Isso mesmo. Acho que todos concordamos. E não vou negar: fui tomado por um esgotamento físico e mental diante de tantas avalanches que, na maior parte dos dias, só consegui cumprir o básico das tarefas minimamente obrigatórias do dia a dia. O resto acabou ficando um pouco de lado, incluindo o cinema, como vocês podem ter percebido aqui pelo blog. Certamente queria ter visto mais filmes e, principalmente, ter escrito sobre eles. Não consegui. E acho que tudo bem não dar conta de abraçar o mundo.

Ainda assim, vi grande parte daquilo que quis ver em 2020. Também tive algumas aventuras de grande felicidade, como o convite para ser jurado do Festival de Cinema de Gramado e a reativação do canal do blog no Youtube. E vivi, claro, uma das maiores revoluções cinematográficas do ano: a de ficar sem ir a uma sala de cinema desde que a pandemia começou, tendo que garimpar os mais variados filmes em diferentes plataformas de streaming (lembrem-se: há um universo imenso a ser descoberto fora da Netflix e do Prime Video). Dentro do possível, portanto, meu aproveitamento cinéfilo foi razoável em 2020, e compartilho com vocês, como já é tradição aqui no blog, as minhas cenas favoritas do ano para encerrar esse ciclo. Vale reforçar: são consideradas aqui apenas as obras lançadas comercialmente no Brasil, seja nas salas de cinema ou em streaming. Até 2021, queridos leitores!

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Os minutos finais de Clemency

O que Alfre Woodard faz no encerramento de Clemency coloca todas as indicadas ao último Oscar de melhor atriz no bolso. Sufocante e hipnotizante também em aspectos de direção, trilha e som, é o tipo de momento que transforma uma personagem através do não-dito, sem precisar de uma palavra sequer. Como a atriz superlativa que é, Alfre compreende a potência das revoluções internas, e tem aqui um dos recortes mais marcantes da sua carreira.

A dança na escola em Estou Pensando em Acabar Com Tudo

Não estou no time daqueles que embarcaram em Estou Pensando em Acabar com Tudo, mas a forma poética com que Charlie Kaufman captura esta sequência isolada de dança em um filme já inusitado é de arrepiar. Não se trata apenas da inegável beleza estética audiovisual e dos movimentos corporais dos atores: nela, está concentrada uma narrativa ao mesmo tempo isolada e parte da história como um todo. É bela, trágica e melancólica.

Judy Garland canta “Somewhere Over the Rainbown” em Judy: Muito Além do Arco-Íris.

Cinebiografia que recebeu menos apreço inclusive de quem costuma gostar dos filmes deste gênero, Judy me tocou por não querer fazer de seu relato uma jornada de redenção para a vida de uma mulher cujos últimos dias foram carregados de problemas, tristeza e esquecimento. E, quando canta Somewhere Over the Rainbown, Judy Garland comove não porque vê sua voz falhar, mas porque justamente ainda tenta encontrar nos palcos todo o amor que um dia recebeu.

Corrida no campo de batalha em 1917

Inegável espetáculo técnico, 1917 pode não ter me envolvido dramaticamente, o que não foi impeditivo para o meu maravilhamento em cenas como esta, onde o soldado Schofield (George McKay), literalmente correndo contra o tempo para cumprir o prazo da missão que lhe foi dada, atravessa um campo de batalha a plenos pulmões em meio a confrontos, ataques e bombardeios. É um colosso pelos efeitos práticos, pelo plano-sequência, pela trilha de Thomas Newman e por toda a produção de escala envolvida. 

Héloïse assiste ao concerto em Retrato de Uma Jovem em Chamas

É aparentemente a cena mais simples do mundo: do alto da plateia, Héloïse, uma das protagonistas de Retrato de Uma Jovem em Chamas, acompanha um concerto de música clássica. Entretanto, conforme a música evolui e a câmera se aproxima da personagem sem cortes, tudo se agiganta. Ali está um mundo íntimo e secreto, povoado de lembranças, sentimentos e saudades. A potência emocional da cena é imensa, e Adèle Haenel dá um show ao transmitir o turbilhão de sentimentos que sua personagem vive internamente.

O ballet de Pacarrete

A arte como forma de expressão e libertação ganha contornos poéticos como poucas vezes vimos no cinema brasileiro recente por meio do ballet de Pacarrete (Marcélia Cartaxo). No filme de Allan Deberton que leva o nome da personagem, Cartaxo dá vida a uma bailarina incompreendida por sua cidade, e que grita para ser vista e ouvida de alguma forma. O norte da trama é a luta da protagonista pela chance de apresentar seu ballet na festa de aniversário da cidade, e Deberton subverte as expectativas para fazer Pacarrete dançar com uma beleza e um simbolismo ímpares.

A libertação de Cecilia em O Homem Invisível

No melhor estilo Supercine, O Homem Invisível utiliza o gênero de suspense para falar sobre um tema seríssimo: o dos relacionamentos abusivos onde homens tornam a vida das mulheres um verdadeiro filme de terror. Por sentirmos o peso que a protagonista Cecilia carrega, qualquer libertação vivida por ela é uma pequena alegria. E a maior marca ápice do filme, onde Cecilia sente o vento bater de leve no rosto com uma serenidade que há muito tempo lhe era desconhecida. Até mesmo a trilha de altas notas assinada por Benjamin Wallfisch cai como uma luva para o momento.

O comercial de Madá em Três Verões

Afirmar que Regina Casé repete a val de Que Horas Ela Volta? em Três Verões é uma grande heresia, principalmente se levarmos em consideração esta sequência em que a personagem vivida por ela no filme de Sandra Kogut participa de um comercial de TV e acaba contando um triste acontecimento do seu passado. A transição da comédia para o drama é fantástica, coisa que Regina Casé, como a grande intérprete que é, domina com a maior naturalidade do mundo, e o relato só nos ajuda a entender de onde vem a resistência aparentemente inabalável da personagem.

“Nunca. Raramente. Às Vezes. Sempre.” em… Nunca, Raramente, Às Vezes, Sempre

Ao vermos Sidney Flanigan em qualquer cena de Nunca, Raramente, Às Vezes, Sempre, é difícil acreditar que esse seja somente o seu primeiro filme. A força, a complexidade e a sobriedade que ela trabalha no longa de Eliza Hittman é fruto de um talento nato, frequentemente impulsionado por intensas passagens do roteiro como esta que explica o título do longa. Munida basicamente apenas de quatro palavras, Sidney revela para o espectador muito do que vem guardando e represando até ali. Com extrema simplicidade, a cena ganha em realismo. E, com Sidney, em emoção na medida certa.

O monólogo de Paul em Destacamento Blood

Em seu mais novo filme, Spike Lee traz um pouco de tudo para o espectador: drama, guerra, pitadas cômicas, conflitos familiares, reflexões sobre o racismo, críticas políticas e até um monólogo onde Paul (Delroy Lindo) conversa diretamente com a câmera em um monólogo que faz uma síntese das discussões mais marcantes de Destacamento Blood. É uma passagem onde o filme intersecciona elementos da vida pessoal de um personagem com tudo aquilo que ele, um homem negro, representa para o mundo e para a sociedade. Entre outras coisas, Paul diz que o governo americano não foi capaz de matá-lo nas três vezes que lhe enviaram à Guerra do Vietnã — e que, se sobreviveu a isso, somente e ele e mais ninguém poderá decidir sobre a sua própria morte. Não tem como confundir: é Spike Lee na veia.

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