Cinema e Argumento

Adeus, 2020! (e as melhores cenas do ano)

O que dizer de 2020 que todo mundo já não saiba ou tenha sentido na pele? Que foi um ano confuso, difícil e onde tudo fugiu à regra? Isso mesmo. Acho que todos concordamos. E não vou negar: fui tomado por um esgotamento físico e mental diante de tantas avalanches que, na maior parte dos dias, só consegui cumprir o básico das tarefas minimamente obrigatórias do dia a dia. O resto acabou ficando um pouco de lado, incluindo o cinema, como vocês podem ter percebido aqui pelo blog. Certamente queria ter visto mais filmes e, principalmente, ter escrito sobre eles. Não consegui. E acho que tudo bem não dar conta de abraçar o mundo.

Ainda assim, vi grande parte daquilo que quis ver em 2020. Também tive algumas aventuras de grande felicidade, como o convite para ser jurado do Festival de Cinema de Gramado e a reativação do canal do blog no Youtube. E vivi, claro, uma das maiores revoluções cinematográficas do ano: a de ficar sem ir a uma sala de cinema desde que a pandemia começou, tendo que garimpar os mais variados filmes em diferentes plataformas de streaming (lembrem-se: há um universo imenso a ser descoberto fora da Netflix e do Prime Video). Dentro do possível, portanto, meu aproveitamento cinéfilo foi razoável em 2020, e compartilho com vocês, como já é tradição aqui no blog, as minhas cenas favoritas do ano para encerrar esse ciclo. Vale reforçar: são consideradas aqui apenas as obras lançadas comercialmente no Brasil, seja nas salas de cinema ou em streaming. Até 2021, queridos leitores!

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Os minutos finais de Clemency

O que Alfre Woodard faz no encerramento de Clemency coloca todas as indicadas ao último Oscar de melhor atriz no bolso. Sufocante e hipnotizante também em aspectos de direção, trilha e som, é o tipo de momento que transforma uma personagem através do não-dito, sem precisar de uma palavra sequer. Como a atriz superlativa que é, Alfre compreende a potência das revoluções internas, e tem aqui um dos recortes mais marcantes da sua carreira.

A dança na escola em Estou Pensando em Acabar Com Tudo

Não estou no time daqueles que embarcaram em Estou Pensando em Acabar com Tudo, mas a forma poética com que Charlie Kaufman captura esta sequência isolada de dança em um filme já inusitado é de arrepiar. Não se trata apenas da inegável beleza estética audiovisual e dos movimentos corporais dos atores: nela, está concentrada uma narrativa ao mesmo tempo isolada e parte da história como um todo. É bela, trágica e melancólica.

Judy Garland canta “Somewhere Over the Rainbown” em Judy: Muito Além do Arco-Íris.

Cinebiografia que recebeu menos apreço inclusive de quem costuma gostar dos filmes deste gênero, Judy me tocou por não querer fazer de seu relato uma jornada de redenção para a vida de uma mulher cujos últimos dias foram carregados de problemas, tristeza e esquecimento. E, quando canta Somewhere Over the Rainbown, Judy Garland comove não porque vê sua voz falhar, mas porque justamente ainda tenta encontrar nos palcos todo o amor que um dia recebeu.

Corrida no campo de batalha em 1917

Inegável espetáculo técnico, 1917 pode não ter me envolvido dramaticamente, o que não foi impeditivo para o meu maravilhamento em cenas como esta, onde o soldado Schofield (George McKay), literalmente correndo contra o tempo para cumprir o prazo da missão que lhe foi dada, atravessa um campo de batalha a plenos pulmões em meio a confrontos, ataques e bombardeios. É um colosso pelos efeitos práticos, pelo plano-sequência, pela trilha de Thomas Newman e por toda a produção de escala envolvida. 

Héloïse assiste ao concerto em Retrato de Uma Jovem em Chamas

É aparentemente a cena mais simples do mundo: do alto da plateia, Héloïse, uma das protagonistas de Retrato de Uma Jovem em Chamas, acompanha um concerto de música clássica. Entretanto, conforme a música evolui e a câmera se aproxima da personagem sem cortes, tudo se agiganta. Ali está um mundo íntimo e secreto, povoado de lembranças, sentimentos e saudades. A potência emocional da cena é imensa, e Adèle Haenel dá um show ao transmitir o turbilhão de sentimentos que sua personagem vive internamente.

O ballet de Pacarrete

A arte como forma de expressão e libertação ganha contornos poéticos como poucas vezes vimos no cinema brasileiro recente por meio do ballet de Pacarrete (Marcélia Cartaxo). No filme de Allan Deberton que leva o nome da personagem, Cartaxo dá vida a uma bailarina incompreendida por sua cidade, e que grita para ser vista e ouvida de alguma forma. O norte da trama é a luta da protagonista pela chance de apresentar seu ballet na festa de aniversário da cidade, e Deberton subverte as expectativas para fazer Pacarrete dançar com uma beleza e um simbolismo ímpares.

A libertação de Cecilia em O Homem Invisível

No melhor estilo Supercine, O Homem Invisível utiliza o gênero de suspense para falar sobre um tema seríssimo: o dos relacionamentos abusivos onde homens tornam a vida das mulheres um verdadeiro filme de terror. Por sentirmos o peso que a protagonista Cecilia carrega, qualquer libertação vivida por ela é uma pequena alegria. E a maior marca ápice do filme, onde Cecilia sente o vento bater de leve no rosto com uma serenidade que há muito tempo lhe era desconhecida. Até mesmo a trilha de altas notas assinada por Benjamin Wallfisch cai como uma luva para o momento.

O comercial de Madá em Três Verões

Afirmar que Regina Casé repete a val de Que Horas Ela Volta? em Três Verões é uma grande heresia, principalmente se levarmos em consideração esta sequência em que a personagem vivida por ela no filme de Sandra Kogut participa de um comercial de TV e acaba contando um triste acontecimento do seu passado. A transição da comédia para o drama é fantástica, coisa que Regina Casé, como a grande intérprete que é, domina com a maior naturalidade do mundo, e o relato só nos ajuda a entender de onde vem a resistência aparentemente inabalável da personagem.

“Nunca. Raramente. Às Vezes. Sempre.” em… Nunca, Raramente, Às Vezes, Sempre

Ao vermos Sidney Flanigan em qualquer cena de Nunca, Raramente, Às Vezes, Sempre, é difícil acreditar que esse seja somente o seu primeiro filme. A força, a complexidade e a sobriedade que ela trabalha no longa de Eliza Hittman é fruto de um talento nato, frequentemente impulsionado por intensas passagens do roteiro como esta que explica o título do longa. Munida basicamente apenas de quatro palavras, Sidney revela para o espectador muito do que vem guardando e represando até ali. Com extrema simplicidade, a cena ganha em realismo. E, com Sidney, em emoção na medida certa.

O monólogo de Paul em Destacamento Blood

Em seu mais novo filme, Spike Lee traz um pouco de tudo para o espectador: drama, guerra, pitadas cômicas, conflitos familiares, reflexões sobre o racismo, críticas políticas e até um monólogo onde Paul (Delroy Lindo) conversa diretamente com a câmera em um monólogo que faz uma síntese das discussões mais marcantes de Destacamento Blood. É uma passagem onde o filme intersecciona elementos da vida pessoal de um personagem com tudo aquilo que ele, um homem negro, representa para o mundo e para a sociedade. Entre outras coisas, Paul diz que o governo americano não foi capaz de matá-lo nas três vezes que lhe enviaram à Guerra do Vietnã — e que, se sobreviveu a isso, somente e ele e mais ninguém poderá decidir sobre a sua própria morte. Não tem como confundir: é Spike Lee na veia.

Melhores de 2019 – Filme

Foi com um misto de choque e maravilhamento que o diretor Bong Joon-ho recebia cada uma das estatuetas entregues a Parasita na última cerimônia do Oscar. O êxtase do cineasta era mais do que compreensível, pois nunca uma produção de língua não-inglesa havia chegando tão longe na cerimônia, recebendo, inclusive, a histórica estatueta de melhor filme. E ainda foi pouco: com Parasita, Bong Joon-ho entrega uma obra que será eternamente referenciada como um dos melhores títulos dos anos 2010, mas também como um brilhante retrato sobre as contradições e as disparidades sociais vividas pelo mundo nesse período. É um registro poderoso e surpreendente, potencializado pelas possibilidades narrativas do cinema que Bong Joo-ho domina com imensa sabedoria e rigor. Aqui no blog, também faz história: consagrado em sete categorias (filme, direção, elenco, ator coadjuvante, roteiro original e design de produção), o longa desbanca o então recordista Gravidade como o recordista de vitórias na nossa premiação. Ainda disputavam a categoria: Bacurau, Cafarnaum, Dor e Glória e A Favorita.

EM ANOS ANTERIORES: 2018 Trama Fantasma | 2017 – Mãe! | 2016 – Carol | 2015 – Mad Max: Estrada da Fúria | 2014 – Relatos Selvagens | 2013 – Gravidade | 2012 – Precisamos Falar Sobre o Kevin | 2011 – Harry Potter e as Relíquias da Morte – Parte 2 | 2010 – Direito de Amar | 2009 – Dúvida | 2008 – WALL-E | 2007 – O Ultimato Bourne

Melhores de 2019 – Direção

Após realizar filmes mais alegóricos e de grande orçamento (Expresso do AmanhãOkja), o diretor Bong Joon-ho resolveu voltar para a escala cotidiana e microscópica que ele já havia explorado em títulos como MotherMemórias de Um Assassino. E o fez criando esse clássico instantâneo chamado Parasita, que é grandioso ao maximizar ideias aparentemente simples com criatividade e inteligência. O rigor apresentado por Bong Joon-ho atrás das câmeras é embasbacante: partindo de um roteiro originalíssimo, ele explora um punhado de personagens sem perder qualquer um deles de vista, faz do design de produção um componente fundamental para a identidade de seu filme, confere um pique invejável ao desenvolvimento da trama e ainda acerta nas camadas de todos os gêneros que busca pincelar aqui ou ali para compôr uma tremenda leitura sobre esse país chamado capitalismo em que todos nós vivemos. Parasita é lindo de se ver pois, como uma grande orquestra, tem cada precioso detalhe funcionando no tempo certo, o que é resultado direto da irretocável direção de um contador de histórias que sabe exatamente onde e como quer chegar, da forma mais envolvente e surpreendente possível. Ainda disputavam a categoria: Barry Jenkins (Se a Rua Beale Falasse), Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles (Bacurau), Nadine Labaki (Cafarnaum) e Pedro Almodóvar (Dor e Glória).

EM ANOS ANTERIORES: 2018 – Gabriela Amaral Almeida (O Animal Cordial) e Lynne Ramsay (Você Nunca Esteve Realmente Aqui) | 2017 – Darren Aronofsky (Mãe!| 2016 – José Pedro Goulart (Ponto Zero| 2015 – George Miller (Mad Max: Estrada da Fúria| 2014 – David Fincher (Garota Exemplar| 2013 – Alfonso Cuarón (Gravidade| 2012 – Leos Carax (Holy Motors| 2011 – Darren Aronofsky (Cisne Negro| 2010 – Christopher Nolan (A Origem| 2009 – Danny Boyle (Quem Quer Ser Um Milionário?| 2008 – Paul Thomas Anderson (Sangue Negro| 2007 – Alejandro González Iñárritu (Babel)

Melhores de 2019 – Elenco

Em janeiro deste ano, antes de marcar época no Oscar como a primeira produção de língua não-inglesa a levar o prêmio de melhor filme em mais de 90 anos de história, Parasita já havia deixado sua marca pioneira no Screen Actors Guild Awards, onde levou a estatueta de melhor elenco, algo até então também inédito para produções em outro idioma que não seja o inglês. A consagração é inquestionável, pois o elenco de Parasita é a perfeita definição de um talentoso grupo de atores que sustenta com louvor a equação quantidade versus qualidade. Por mais que alguns atores tenham mais destaque do que outros em função do que a própria história exige (Song-kang Ho, Cho Yeo-jeong são dois destaques pontuais) todos estão em perfeita sintonia e inspiração, especialmente se tratando de um coletivo que, durante o desenrolar da trama, precisa alternar entre tantos gêneros diferentes sem jamais perder consistência e unidade. Ainda disputavam a categoria: Assunto de Família, Bacurau, Entre Facas e Segredos e A Favorita.

EM ANOS ANTERIORES: 2018 – O Animal Cordial | 2017 – Um Mergulho no Passado | 2016 – Animais Noturnos | 2015 – Birdman ou (A Inesperada Virtude da Ignorância) | 2014 – Relatos Selvagens | 2013 – Álbum de Família | 2012 – O Impossível | 2011 – Tudo Pelo Poder | 2010 – Minhas Mães e Meu Pai | 2009 – Dúvida | 2008 – Vicky Cristina Barcelona | 2007 – Bobby

Melhores de 2019 – Ator

Sem saber escrever seu próprio nome, Zain al Rafeea foi descoberto aos 12 anos pela cineasta Nadine Labaki nas ruas de Beirut, quando ela procurava o protagonista de Cafarnaum. Refugiado, pobre e desamparado nesse país que lhe obrigou a crescer muito antes do esperado, o pequeno Zain, assim como outros tantos outros integrantes do elenco, tem em Cafarnaum a sua primeira experiência com interpretação, o que não transparece ao longo do filme: trazendo dentro de si vivências muito próximas àquelas que são mostradas ao longo da projeção, além de um grandioso talento, Zain dá vida a um personagem dolorosamente real, fruto de uma performance tão verdadeira quanto devastadora.

Ainda que pese o fato de Cafarnaum ter um tom praticamente documental ao colocar pessoas da vida real para interpretar fatos muito parecidos com os de sua própria existência — e há quem considere isso um demérito —, é simplesmente impossível diminuir o talento de Zain al Rafeea. Certamente nós vimos filmes diferentes se você, assim como eu, não testemunhou um desempenho miraculoso, onde um garoto inexperiente domina a tela e carrega quase sozinho um filme de duas horas. E não qualquer filme, mas um absurdamente triste, fulminante e narrado quase como uma jornada solo, algo capaz de intimidar até mesmo atores experientes.

Com carisma e profundidade, Zain faz o retrato perfeito de uma criança obrigada a ser adulta e que diariamente se vê agredida por uma vida que jamais lhe dá a mão. Suas lágrimas são genuínas e a empatia que ele desperta no espectador é inquestionável. Como ele conseguiu fazer tudo o que vemos em Cafarnaum? Nem Nadine Labaki sabe explicar. Quando o longa foi exibido pela primeira vez no Festival de Cannes, a diretora disse que apenas ligava a câmera e Zain entregava tudo aquilo que está registrado em Cafarnaum, praticamente sem orientações, como um ator nato. Há quem passe a vida inteira tentando despertar um fascínio como esse. Ainda disputavam a categoria: Adam Driver (História de Um Casamento), Antonio Banderas (Dor e Glória), Joaquin Phoenix (Coringa) e Marco Nanini (Greta).

EM ANOS ANTERIORES: 2018 – Daniel Day-Lewis (Trama Fantasma) | 2017 – Casey Affleck (Manchester à Beira-Mar| 2016 – Nelson Xavier – A Despedida | 2015 – David Oyelowo (Selma: Uma Luta Pela Igualdade| 2014 – Jake Gyllenhaal (O Abutre| 2013 – Joaquin Phoenix (O Mestre| 2012 – Rodrigo Santoro (Heleno| 2011 – Colin Firth (O Discurso do Rei| 2010 – Colin Firth (Direito de Amar| 2009 – Sean Penn (Milk – A Voz da Igualdade| 2008 – Daniel Day-Lewis (Sangue Negro| 2007 – Forest Whitaker (O Último Rei da Escócia)

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