Cinema e Argumento

O Cinema diz: #elenão (participação no blog Classe de Cinema)

Murilo Benício e Luciana Paes, protagonistas de O Animal Cordial: através do horror, filme de Gabriela Amaral Almeida radiografa muitas das agruras políticas e sociais do Brasil atual.

Recentemente, fui convidado pelo Yuri Célico, do blog Classe de Cinema, a participar da série “O Cinema diz: #elenão”. A ideia do projeto é trazer convidados que escrevam sobre um filme que converse com a nossa situação política, no intuito de refletir e ilustrar os riscos que estamos correndo com um certo presidenciável que representa sérios riscos à democracia e que tanto dissemina ódio e preconceito Brasil afora. Ao receber o convite do Yuri, constatei que tenho visto mais filmes brasileiros do que estrangeiros nos últimos anos. Parando para pensar nas razões que me levaram a essa nova estatística, percebo que, sim, o cinema brasileiro tem crescido em quantidade e pluralidade, mas o que mais tem me fascinado nessa recente safra é o número de produções que radiografam determinados momentos e condições atuais do nosso Brasil. Por isso mesmo, escolhi para a minha participação O Animal Cordial, uma obra brasileira, que, em formato, temática e gênero, é um grito por #elenão, escancarando muitas das feridas abertas do Brasil em que vivemos. E o que considero mais brilhante no filme é transpor essas cicatrizes para o plano do horror. O Animal Cordial faz jus à clássica definição de que a realidade pode ser muito mais aterrorizante que a ficção. Abaixo eu reproduzo as razões que elenquei no Classe de Cinema!

1 – É dirigido por uma mulher em um gênero essencialmente dominado por homens
Segundo dados da ANCINE, apenas 19,7% dos 142 filmes brasileiros lançados comercialmente em 2016 levam a assinatura de mulheres. Tendo apenas isso em vista, O Animal Cordial já seria um caso a ser notado. No entanto, se levarmos em consideração que essa é uma chamada obra de “gênero”, a situação é ainda mais rara. Afinal, quantos filmes de horror dirigidos por mulheres você conhece, inclusive em uma perspectiva mundial? O longa é mesmo um ponto fora da curva e, por que não, um (delicioso) atrevimento: ora, como assim uma mulher tem o topete de dirigir um filme de horror? Pois Gabriela Amaral Almeida tem mesmo, e isso é incrível, já que O Animal Cordial coloca na tela discussões que as produções brasileiras, em sua maioria masculina, raramente ousariam colocar.

2 – Utiliza o terror como metáfora social
As doses de sangue são cavalares. O pânico é constante. Os personagens são imprevisíveis. Mas quer saber o que incomoda mesmo em O Animal Cordial? É o fato de tanto horror representar fielmente os nossos tempos, quebrando as convenções do gênero para, sim, ser um angustiante slasher, mas, também para se tornar, a cada personagem, a cada reviravolta, a cada diálogo, um mosaico sobre as agruras que atingem a sociedade brasileira. Sempre considerei os melhores filmes de horror aqueles que se utilizam das ferramentas do gênero para falar sobre questões humanas, íntimas ou sociais. E, se você presta a mínima atenção no Brasil que está aí, verá que o sangue que escorre no longa é, na verdade, o de um país em plena convulsão.

3 – Mostra o autoritarismo e o abuso de poder no ambiente de trabalho
Vejam de onde parte O Animal Cordial: após um longo dia de trabalho em um restaurante, o chefe decide manter os funcionários além do expediente porque mais dois ou três clientes chegaram ao estabelecimento que já deveria estar fechado. Os funcionários reclamam. O chefe não ouve. Manda quem pode, obedece quem precisa. Logo mais, um acontecimento inesperado vira o restaurante de pernas para o ar, mas já no início da projeção você percebe as discussões de um roteiro super contemporâneo: em tempos que as taxas de desemprego crescem e que trabalhamos o dobro para pagar o mesmo custo de vida que tínhamos até pouco tempo atrás, parece não haver muita solução a não ser entrar no sistema e aceitar as cada vez mais terríveis condições de trabalho para conseguir pagar as contas, aguentando até mesmo os surtos autoritários de um chefe que, com os empregados na palma da mão, faz questão de mostrar quem é dono e quem é empregado.

4 – Lembra que falta de educação é coisa de gente rica
Diria a já eterna Clara de Sonia Braga em Aquarius que falta de educação não é coisa de gente pobre, e sim de gente rica que acredita que dinheiro define caráter. Verdade. E, quando a personagem de Camila Morgado entra no restaurante de O Animal Cordial  bem vestida, maquiada e acompanhada do marido, logo se percebe isso: na maneira como não dirige o olhar à atendente, como faz seu pedido praticamente questionando o entendimento da garçonete em relação ao que é servido e até mesmo na postura com que se coloca em uma mesa de jantar, ela é a afiadíssima na representação daquela parte elitista da população que, entre outras coisas, acredita que, por pagar um serviço, está acima de quem o presta. Na prática diária, aplicam o que defendem na política que acreditam ser a melhor para o país: exclusão e indiferença, especialmente em relação a quem não se equipara ao seu alto padrão de vida.

5 – Renega os estereótipos femininos dos filmes de horror
Pense nos filmes de horror que você já viu. Na maioria deles, provavelmente as figuras femininas têm pouca influência. Ou pior: surgem apenas com pouca roupa para morrer de maneiras sádicas ou voyeurísticas. Pois O Animal Cordial desconstrói tudo isso. O personagem vivido por Murilo Benício pode ditar boa parte dos acontecimentos da trama, mas é a figura de Luciana Paes que toma as rédeas do filme. Muitos dos desdobramentos são conduzidos por ela, inclusive a única cena de sexo onde é a mulher quem comanda cada centímetro de uma poderosíssima interação sexual. Sem idealizações ou estereótipos, Luciana, como a atriz gigante que é, dá ainda mais intensidade e complexidade a uma protagonista que subverte o que o gênero costuma fazer com o sexo feminino, tornando-o peça decisiva de uma trama que não faria o menor sentido sem ele.

6 – Entrega ao personagem LGBTQI+ a bússola moral da trama
Normalmente retratados como mero alívio cômico ou figuras cujos dilemas se resumem à questão da sexualidade, os personagens LGBTQI+ também ganham nova roupagem em O Animal Cordial. À parte o fato de Irandhir Santos ser um grande ator, a construção de seu cozinheiro de gênero fluido o coloca como a única pessoa verdadeiramente sã e com alguma bússola moral dentro do rico mosaico construído pelo roteiro. Capaz de racionalizar situações sem jamais recorrer a escolhas ou instintos primitivos, o cozinheiro é a voz da razão em um ambiente onde todos, anestesiados pelo pânico, só conseguem expor o lado mais sombrio de suas naturezas. Há um universo dentro de cada olhar e de cada decisão tomada pelo personagem de Irandhir, que, mesmo sendo um coadjuvante, consegue, junto ao material que lhe é dado, construir um tocante background para o cozinheiro e para tudo o que ele representa.

7 – Defende a ideia de que a pior violência é, na verdade, a emocional
Em um filme com expressivas doses de sangue fatalidades, Gabriela Amaral Almeida propõe que a maior violência não é a física, e sim outras que eu e você vivemos ou presenciamos diariamente no cotidiano. Já falei sobre a forma como a elitista passiva-agressiva de Camila Morgado despreza a garçonete do restaurante. No entanto, há outro momento altamente simbólico: aquele em que Irandhir Santos tem seus cabelos cortados. A cena é dolorosa porque representa, mais uma vez, o ódio gratuito e infundado à uma minoria que precisa lutar diariamente pela aceitação de sua identidade na vida e no trabalho. É golpe duríssimo ver uma identidade julgada e agredida pela sociedade que, sabe-se lá o porquê, tanto se incomoda com o fato do próximo ser simplesmente quem é. Muito mais do que qualquer sangue escorrendo pelas paredes após o disparo certeiro de uma arma.

8 – Alerta para o perigo da paixão e do fanatismo
Secretamente, uma personagem de O Animal Cordial está apaixonada. E, em nome da paixão e do desejo de ser notada, toma decisões que, em um dia qualquer de sua existência, não tomaria. Essa personagem também é capaz de se adaptar à personalidade do amado, frequentemente se anulando para apenas agradá-lo. Em determinado ponto, enfim, também não há mais problema em cometer crimes em nome do amor. Paixão e fanatismo podem muito bem caminhar juntos, e O Animal Cordial alerta para essa linha tênue, utilizando, claro, a metáfora do horror. É uma representação assombrosa do período polarizado que vivemos no Brasil, quando, a todo custo, movimentos e militâncias rompem as barreiras do bom senso moral e ético para atacar o oponente e defender cegamente qualquer ídolo que julguem digno de veneração.

9 – Retrata a busca pelo protagonismo em uma sociedade de winners
O que a vida costuma nos exigir é o seguinte: você se torna alguém ou, então, nada vale a pena. E ser alguém pode se resumir a ser o dono de um estabelecimento de respeito. Também pode se resumir a algum tipo de reconhecimento por parte de “superiores”. Ou, enfim, pode ser também a vontade de ser protagonista de sua própria vida. Os personagens de Murilo Benício e Luciana Paes englobam tudo isso, cada um à sua maneira. Gosto especialmente dela, que, garçonete tratada com descaso pelo chefe, faz o que é preciso para ter algum tipo de importância dentro do restaurante onde trabalha ou que toma decisões radicais para sair do status de mulher comum e pouco desejada para, enfim, ser vista como uma figura influente, atraente e, por que, não temida. Em uma sociedade que tanto festeja os winners, os personagens de O Animal Cordial caem mais um pouco na escuridão ao serem movidos por essa pressão sócio-cultural.

10 – Reforça a falência da dita masculinidade
Murilo Benício dá vida à figura masculina central de O Animal Cordial. No entanto, o personagem é, no fundo, um homem falido em reputação e masculinidade. Ele tenta provar a sua hombridade de maneiras equivocadas, machistas e preconceituosas, o que está evidente em toda e qualquer interação que ele estabelece com qualquer outro personagem. Dono de um restaurante, abusa do seu poder de chefe para (tentar) mostrar que tem alguma autoridade ou que é um relevante profissional. Homem supostamente forte em uma situação de perigo, pensa que, por ter uma arma na mão e por ter o controle de um momento extraordinário, pode submeter todos às situações que bem entender. É o chamado macho alfa que, na ameaça, no machismo, no preconceito e no grito, busca se provar homem e que, ao fazer isso, só mostra o quão pequeno e insignificante é como ser humano. Exatamente como o inominável que motiva essa série do Classe de Cinema.

No calor do momento, o que podemos concluir sobre o Oscar de “Melhor Filme Popular”?

Foi anunciado há pouco pela Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood: a partir de 2019, o Oscar terá a categoria de “Melhor Filme Popular”. Ao contrário do que a Academia pensa, estamos falando de um enorme desserviço, já que segmentar não é necessariamente um mérito. Os documentários e as animações estão aí para provar, pois praticamente nunca são lembrados nas ditas categorias principais. E por que não são? Ora, não há razão para indicá-los em “Melhor Filme” já que eles têm categorias próprias para concorrer. É por isso que a mudança se revela uma baita bola fora: ao criar a categoria de “Melhor Filme Popular”, o Oscar diz, nas entrelinhas, que blockbusters como Pantera Negra, por exemplo, não devem ser levados tão a sério quanto A Forma da Água ou Moonlight, citando os vencedores recentes da honraria máxima.

A mudança reflete, claro, o próprio diagnóstico que a Academia deve ter feito de seu histórico recente. E vamos muito além do fato de Batman: O Cavaleiro das Trevas ter sido ignorado na categoria principal em 2009. Mesmo ampliando o número de indicados em melhor filme, tal escolha mais diluiu a reputação do prêmio do que necessariamente aprimorou a disputa. Afinal, dois casos que corroboram essa afirmação ainda estão muito vivos na memória: Gravidade e Mad Max: Estrada da Fúria. Ambos faturaram sete e seis estatuetas respectivamente, mas não levaram para casa o título de “Melhor Filme”. No caso de Gravidade, o prêmio foi para 12 Anos de Escravidão, vencedor apenas nas categorias de roteiro adaptado e atriz coadjuvante. Já com Mad Max, a situação piora: Spotlight, vencedor daquele ano, conquistou somente o prêmio de melhor roteiro original. Como não encarar tal cenário, afeito aos “projetos sérios”, como puro preconceito com o cinema de alta repercussão popular?

O diagnóstico certamente foi feito, mas a solução é um equívoco. Não à toa, você já deve ter ouvido que animação não é cinema. Agora, futuramente, também correrá o risco de ouvir que filmes populares também não são. Com a maturidade de um MTV Movie Awards, a Academia não observa o próprio Globo de Ouro, que há décadas coloca as comédias em um cantinho à parte, decisão que inferioriza o gênero e rende indicações preguiçosas ou de gosto duvidoso, provando que o prêmio realmente não dá mesmo muita bola para esse segmento. Com tantas novas categorias para serem criadas (alô, melhor elenco!), o Oscar opta não pela inovação, mas por um caminho fácil, antiquado e que há muito tempo já se provou tão ineficiente quanto problemático em ideias. Para completar, a Academia ainda anunciou a decisão de apresentar os vencedores de determinadas categorias (a serem definidas) durante os comerciais, exibindo a entrega dessas estatuetas mais tarde na cerimônia, com os momentos já gravados e editados. Talvez ainda seja cedo para avaliar o real efeito, mas tudo isso não parece nada favorável. E, vocês, o que acham?

Cinema e Argumento comenta o Oscar 2018 com programação especial em vídeo

Lives do blog sobre o Oscar 2018 será comandada pelo editor Matheus Pannebecker, com a participação da jornalista Lou Cardoso. Foto: Bianca Carneiro.

Como forma de aquecimento para o Oscar 2018, que acontece no próximo domingo, 4 de março, o Cinema e Argumento realizará uma série de transmissões ao vivo na página do blog no Facebook para fazer suas avaliações e apostas para a festa mais aguardada e disputada do cinema mundial.

De sexta-feira até domingo, o editor Matheus Pannebecker estará acompanhado da jornalista Lou Cardoso, autora do blog Cine Lou e repórter do jornal Correio do Povo, para comentar as categorias principais da premiação. O cinéfilo Acauã Brondani também faz participações especiais na programação. 

Lembrando que, nesta temporada, o Cinema e Argumento já realizou duas lives comentando todos os nove filmes indicados na categoria principal do Oscar. Com as próximas três transmissões, o blog contabilizará mais de cinco horas de produção de conteúdo em vídeo sobre a cerimônia. Todas as transmissões ficam arquivadas na página.

Confira abaixo as informações sobre a programação que começa hoje no Facebook:

  • SEXTA-FEIRA, 2 de março, às 20h: atores protagonistas e coadjuvantes
  • SÁBADO, 3 de março, às 20h: atrizes protagonistas e coadjuvantes
  • DOMINGO, 4 de março, às 20h: filmes, direção e apostas técnicas

Cinco fatos que podem fazer a diferença nos prêmios de 2018

Dezenas de associações de críticos dos Estados Unidos já divulgaram seus vencedores, assim como grandes premiações televisionadas como o Globo de Ouro e o Screen Actors Guild Awards também já revelaram seus indicados, mas a temporada de premiações mal começou de verdade e, fora a matemática do que cada filme colecionou até aqui, ainda há muito a ser considerado. E, tratando-se do Globo de Ouro e do SAG, que realizarão suas cerimônias nessa primeira quinzena de janeira, algumas estatísticas devem ser levadas em conta na hora de prever os vencedores. Abaixo, elenco algumas delas e explico como ignorá-las pode ser decisivo para não perder pontos nas primeiras de muitos apostas que pipocam durante essa temporada.
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1. ATÉ ONDE VAI O REINO DE ALLISON JANNEY? 
Da comédia ao drama, Allison Janney é uma das atrizes mais premiadas na história do Emmy, com sete
 estatuetas conquistadas desde a sua primeira indicação em 2000 (quatro por The West Wing, duas por Mom e uma por Masters of Sex). No SAG, também tem prêmio de sobra, com seis vitórias, incluindo duas estatuetas de elenco em cinema com Histórias CruzadasBeleza Americana. Quanto ao Globo de Ouro, a situação é bem diferente: até aqui, são cinco indicações sem consagração. Pelo longa-metragem Eu, Tonya, Janney está mais uma vez na disputa, inaugurando sua primeira lembrança no segmento de cinema. Amplamente reconhecida por seu trabalho na TV, será que Janney tem força para transferir todo o seu prestígio também para o cinema e conquistar sua primeira vitória individual no SAG e o primeiro Globo de Ouro de toda a carreira? Teoricamente falando, dado o vitorioso histórico, a longa carreira e o forte reconhecimento do colegiado televisivo, seria uma das apostas mais fáceis da temporada. Isso se não concorresse com Laurie Metcalf, uma colega com trajetória bastante semelhante, mas de carreira mais, digamos, “alternativa”.
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2. LAURIE METCALF E A TRÍPLICE COROA DA ATUAÇÃO
Premiada três vezes no Emmy por seu desempenho na sitcom Roseanne, Laurie Metcalf não foi reconhecida pelo Globo de Ouro por seu trabalho no seriado. Foram duas indicações sem vitória, e a terceira vem agora com Lady Bird: É Hora de Voar, que, estatisticamente, tem colocado a atriz como a franca favorita no segmento das coadjuvantes se considerarmos as listas das associações de críticos dos Estados Unidos. É importante frisar que crítico de cinema não vota em Oscar e tampouco tem influência nas premiações verdadeiramente decisivas da temporada, mas é bom não subestimar o poder dessa atriz aparentemente desconhecida, mas que vem trilhando um caminho brilhante nos últimos anos: você pode lembrar de Metcalf como a mulher ensandecida que faz várias pessoas de reféns em um supermercado naquele que é um dos episódios mais explosivos do seriado Desperate Housewives (Bang!), o que é um tanto injusto com uma carreira que, recentemente, foi coroada pelo Tony (melhor atriz, em 2017, por A Doll’s House: Part 2) e novamente iluminada pelo Emmy (em 2016, recebeu indicação tripla ao prêmio, concorrendo em drama e comédia com Getting OnThe Big Bang TheoryHorace and Pete). Ou seja, Laurie tem sido vista por todo tipo de indústria nos últimos anos. Não são todas as atrizes que têm esse tipo de prestígio.
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3. NICOLE KIDMAN NUNCA VENCEU O SAG (…)
Quem vê uma atriz amplamente premiada como Nicole Kidman e relembra seu riquíssimo repertório pode muito bem cair na pegadinha de que, claro, ela tem todos os prêmios da vida em casa. Errado. Se a vitória de Kidman como melhor atriz em minissérie por Big Little Lies já se consolidou como uma das maiores certezas da temporada, a situação ganha ainda mais força no SAG, uma vez que a atriz nunca foi vitoriosa no prêmio, tanto nas categorias de TV quanto nas de cinema. No ano de As Horas, filme que lhe rendeu o Oscar, Kidman viu o prêmio de melhor atriz parar nas mãos de Renée Zellweger, por Chicago. Desde então, colecionou mais sete indicações em categorias individuais e de elenco, sem nunca levar a estatueta para casa. E o SAG, que é um prêmio relativamente recente (foi criado em 1995) e que adora celebrar quem historicamente nunca pôde ser celebrado (Meryl Streep vencendo pela primeira vez por Dúvida, assim como Denzel Washington ano passado com Um Limite Entre Nós), certamente não tem oportunidade melhor para acertar os ponteiros com Kidman do que na edição de 2018.
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4. (…) E SUSAN SARANDON O GLOBO DE OURO (…)
Comentei acima que a vitória de Nicole Kidman na categoria de melhor atriz em minissérie por Big Little Lies no SAG é aposta fácil, mas, no Globo de Ouro, não jogo todas as fichas na atriz. Isso porque Susan Sarandon, uma veterana que dispensa comentários, inacreditavelmente nunca levou o prêmio para a casa, enquanto Nicole Kidman já tem três em casa. Não seria surpresa se Sarandon, solenemente ignorada pelo Critics’ Choice, surgisse como azarona e finalmente tivesse o seu momento no prêmio outorgado pela Hollywood Foreign Press Association com seu milagroso desempenho como a lendária Bette Davis na minissérie Feud: Bette and Joan. Sarandon, que venceu o Oscar por Os Últimos Passos de Um Homem, mas perdeu o Globo de Ouro para Sharon Stone (Cassino), concorre desde 1989 com menções no cinema e na TV, seja por obras mais célebres como O Óleo de Lorenzo Thelma e Louise ou por trabalhos menos ambiciosos como Lado a Lado e o telefilme Bernard e Doris. Quem sabe a premiação finalmente lhe faz justiça? Eu não reclamaria, seja pela carreira ou pelo próprio desempenho em Feud.
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5. (…) ASSIM COMO FRANCES MCDORMAND
Ainda na listinha de atrizes que nunca faturaram determinados prêmios, a grande Frances McDormand também entra para a conta. Há quem aposte em um segundo Oscar para a atriz por Três Anúncios Por Um Crime, e o Globo de Ouro pode dar um empurrãozinho: mesmo que pareça irresistível o prêmio novamente dar os holofotes para Meryl Streep depois de seu discurso emblemático na homenagem do ano passado e de suas confusões com Trump (recemente foi descoberto que os cartazes em Los Angeles acusando a atriz de saber dos assédios de Harvey Weinstein foram espalhados por apoiadores do presidente), McDormand, que só levou uma menção honrosa e coletiva junto ao elenco de Short Cuts, não saiu vitoriosa na premiação com o longa Fargo – Uma Comédia de Erros e a minissérie Olive Kitteridge, citando dois de seus trabalhos mais célebres. Se Frances realmente é um estouro em Três Anúncios Para Um Crime e se o prêmio quiser tirar o atraso, pode ser a oportunidade perfeita, já não é loucura dizer que o jogo da categoria de atriz dramática está aberto.

Adeus, 2017! (e as melhores cenas do ano)

Em mais um ano que chega ao fim, novamente vou deixar minha lista de favoritos para depois da virada. O motivo simples e perfeitamente compreensível: como ainda estou em dívida com muitos títulos, prefiro dar mais um tempinho para conferi-los e, assim, não cometer nenhum crime que possa me trazer remorso mais adiante. Certamente, por uma série de razões, tanto fora quanto ao meu alcance, não conferi — nem vou conferir — centenas de títulos como boa parte dos meus colegas blogueiros, mas, dentro do meu singelo escopo, quero ter o devido tempo para ficar plenamente satisfeito com as minhas escolhas.

Por isso, mantenho ao menos uma tradição aqui do blog: a de elencar os meus momentos favoritos no cinema ao longo do ano, considerando, como sempre, os títulos lançados comercialmente e via streaming no Brasil. Não deixem de opinar quanto aos selecionados abaixo (atenção, alguns deles podem trazer spoilers em suas justificativas), pois sempre gosto de ouvir o que vocês, leitores, têm a dizer. Afinal, vem muito mais por aí em 2018! Feliz ano novo e um abraço carinhoso para cada um de vocês!

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#10 – Harry (Ralph Fiennes) dança “Emotional Rescue”, dos Rolling Stones, em Um Mergulho no Passado

Ralph Fiennes é um verdadeiro estouro em Um Mergulho no Passado, filme pouco reconhecido do italiano Luca Guadagnino, cineasta que agora é celebrado mundo afora com Me Chame Pelo Seu Nome. Com um personagem desafiador, Fiennes se esbalda nas sutilezas e nos atordoamentos de um homem que grita, fala, canta e dança o tempo inteiro, mas que, no fundo, é estridente por não conseguir lidar com as reflexões trazidas pelos momentos de silêncio. Há também algo de muito autêntico e libertador nesse homem que sempre faz e fala o que bem entende, sem medir palavras ou atitudes para agradar aos outros. E quando ele dança ao som de “Emotional Rescue”, dos Rolling Stones, é puro fascínio, tanto pelo personagem quanto por Ralph Fiennes.

#9 – Gretchen (Emanuelle Araújo) brilha em Bingo – O Rei das Manhãs

Poucas cinebiografias têm toda a energia e o pique ostentados por Bingo – O Rei das Manhãs, trabalho de estreia do montador Daniel Rezende na direção de longas. E se tratando da trajetória ascendente de ritmo do filme, não existe sequência mais empolgante do que a breve aparição da cantora e dançarina Gretchen, interpretada com graça e carisma por Emanuelle Araújo. Emulando acertadamente os trejeitos e o modo de dançar da Rainha do Bumbum, Emanuelle injeta uma nova dose de ânimo a um filme já empolgante até ali. Mais do que toda a animação vinda de Conga, Conga, Conga, a cena conquista por reforçar toda a personalidade que fez de Bingo um verdadeiro (e merecido) sucesso nacional.

#8 – Rose (Viola Davis) confronta Troy (Denzel Washington) em Um Limite Entre Nós

Clássico caso de filme onde os atores são muito maiores do que o resultado como um todo, Um Limite Entre Nós sai perdendo em ritmo e em relevância cinematográfica com a sua falta de criatividade e seu zelo excessivo ao adaptar uma célebre peça de teatro. Por outro lado, quem ganha são os atores, que, com o texto na ponta da língua (foram centenas de apresentações nos palcos dos Estados Unidos), têm naturalidade de sobra para arrasar com o material. Denzel Washington e, especialmente, Viola Davis merecem uma nota à parte pelo que fazem durante o maior momento do filme, quando um segredo vêm à tona e Rose (Viola) precisa confrontar o marido com todas as suas dores e frustrações reprimidas durante anos. Quem não se arrepiou?

#7 – Diana (Gal Gadot) nas trincheiras em Mulher-Maravilha

Na prática, Mulher-Maravilha é menos criativo e autêntico do que as pessoas estão dispostas a admitir, mas ter uma personagem feminina como protagonista faz mesmo a diferença em várias passagens dessa aventura dirigida por Patty Jenkins. Não é sempre que vemos uma mulher derrotando, no corpo a corpo e na inteligência, uma quantidade significativa de marmanjos, e muito menos uma que vá a campo em uma grande guerra e, sozinha, enfrente incontáveis disparos do outro lado da trincheira com uma coragem de dar inveja. Diana encarando tudo aquilo sozinho é muito representativo, além de ser o auge estético e de adrenalina do blockbuster.

#6 – A cena do vestido em Roda Gigante

Aos 45 do segundo tempo, Kate Winslet veio repleta de talento em inspiração em Roda Gigante, a ponto de figurar entre as performances mais marcantes do ano. Uma cena específica justifica o festejo em torno da interpretação, e essa é quando Ginny (Kate Winslet), incorporando a carreira de atriz que deixou para trás junto com o seu passado de erros, chega ao limite de suas frustrações e insatisfações ao ser confrontada por Mickey (Justin Timberlake). Em seu devaneio repentino, ela se caracteriza e se maquia como se de fato estivesse em cena, evocando os romances e as tragédias gregas que volta e meia referencia ao longo da história e que, ironicamente, quase sempre terminam em um (quase) monólogo como o seu. Tem metalinguagem, tem a linda fotografia de Vittorio Storaro e tem, claro, Kate Winslet afiadíssima como não víamos há muitos anos.

#5 – Confronto em meio às águas em Blade Runner 2049

Desconfie de quem lhe disser que não achou Blade Runner 2049 um arraso do ponto de vista estético. No geral, não sou fã do filme como um todo, que, em contraste, proporciona sequências épicas ao conjugar som e imagem. Uma delas, em particular, consegue me pegar em cheio: aquela em que K (Ryan Gosling), dentro de um veículo prestes a ser engolido pela água, precisa vencer um combate corpo a corpo que salvará não apenas a sua vida, mas também a de outro personagem. O confronto em um espaço minúsculo e pouco a pouco tomado pela água é eletrizante, sem falar dos toques mais do que especiais da fotografia do mestre Roger Deakins e da trilha sonora assinada pela dupla Benjamin Wallfisch e Hans Zimmer.

#4 – Doloroso reencontro em Manchester à Beira-Mar

Longa-metragem mais carregado na dor que passou pelos cinemas brasileiros ao longo de 2017, Manchester à Beira-Mar, em uma das tantas costuras perfeitas de seu roteiro irrepreensível, arrebenta de vez o nosso coração quando promove um cotidiano e inesperado reencontro entre Lee (Casey Affleck) e Randi (Michelle Williams), tempos depois de um doloroso acontecimento. A cena, imersa no exímio controle dramático que o diretor Kenneth Lonergan trabalha ao longo de toda a projeção, tem sentimentos arrasadores porque mostra o quanto a dor faz com que o ser humano coloque a emoção frente à razão, despejando tudo o que estava represado e conferindo inclusive conotações tristes e atrapalhadas para um “eu te amo” que outrora seria cercado de otimismo.

#3 – Noite na praia em Moonlight: Sob a Luz do Luar

Calcado no naturalismo, Moonlight: Sob a Luz do Luar é um filme de estrutura problemática (sigo considerando o terceiro e último capítulo uma falha imperdoável em uma história contada com grande excelência até ali), o que não amortece a lembrança de passagens como aquela em que Chiron (Ashton Sanders), já adolescente, tem o seu primeiro contato íntimo de natureza homossexual, algo que lhe era negado e reprimido até então. O registro é de arrepiar porque, com a beleza estética inerente ao longa, acerta na potência com que mistura a aventura, o perigo e a emoção de um momento divisor de águas para um garoto que já tem a consciência de que a vida quase nunca lhe sorrirá de volta.

#2 – A última noite na casa de Mãe!

Do amor ao ódio, Mãe! ostentou seguramente o título de filme mais polêmico do ano. Tenho certeza que essa era a intenção do diretor Darren Aronofsky, que, com um roteiro repleto de interpretações (bíblicas, sociais, ambientais), entregou cenas para ferver a mente de todo o tipo de público. E o ato final, encenado na última noite na casa da protagonista, usa e abusa de todas as possibilidades, sejam elas dramáticas e técnicas, de seu universo próprio, desafiando as fronteiras das formalidades, das previsibilidades e — o mais importante — daquilo tudo que o espectador gosta de ter ao seu controle quando assiste a um filme. Não é todo dia que vemos um atrevimento delicioso como esse.

#1 – Uma vida passada a limpo em La La Land: Cantando Estações

A vida, ao contrário do que secretamente desejamos, é feita de pequenos momentos e, principalmente, de pequenas escolhas. Mais do que isso: na maioria dos casos, mudamos drasticamente o rumo da nossa existência sem perceber que ele foi transformado pela mais corriqueira das nossas decisões. E La La Land, um musical repleto de momentos emblemáticos, chega ao máximo de sua beleza e emoção ao passar a vida inteira de um casal a limpo em um epílogo de cortar o coração. Fora a trilha instrumental hipnotizante de Justin Hurwitz e toda a parte visual que é um show à parte, a sequência se eterniza por nos lembrar, através da melancolia, de que a vida pode nos pregar peças e obstáculos a todo momento, mas que, no final das contas, apenas nós somos os senhores dos nossos próprios destinos.

Recarregando as energias

O corpo pede, a mente também, então vamos lá: hora de uma pausa para recarregas as energias. O blog vai tirar alguns dias de férias, mas espero, claro, contar com vocês quando for a hora de retornar. Até porque, retomando as atividades, o que teremos é filme de sobra para comentar por aqui. See you soon

As telas são delas

Uma perspectiva da representação feminina no cinema brasileiro contemporâneo a partir dos filmes exibidos na edição comemorativa de 45 anos do Festival de Cinema de Gramado

Laís Bodanzky nos bastidores do longa-metragem Como Nossos Pais: uma das raras diretoras com carreira prolífera e vitoriosa no cinema brasileiro. Foto: Beatriz Lefèvre

Os dados apresentados pela Agência Nacional do Cinema – ANCINE em abril deste ano refletem objetivamente a falta de equidade na produção audiovisual brasileira. Embora mais da metade da população de nosso país seja feminina, apenas 17% das 2.583 obras registradas na agência em 2016 foram dirigidas por mulheres. O número, por outro lado, cresce conforme a área de atuação seja mais específica e menos protagonista: ainda segundo a ANCINE, 21% dos roteiros são escritos por mulheres, enquanto 41% de quem cuida da produção executiva de um filme é do sexo feminino. A análise é muito clara: quanto maior a posição de destaque, menores são as chances de as realizadoras chegarem lá. Os tempos que vivemos, em contrapartida, já sinalizam uma mudança irreversível para os próximos anos. Se os números trabalham contra a presença feminina no cinema brasileiro, artisticamente há muito o que ser celebrado porque tanto a sociedade passou a debater o protagonismo feminino nas mais diversas plataformas, da mídia ao ambiente acadêmico, quanto os próprios eventos do gênero já se atentam, em questão de representatividade e mérito, ao fato de que as mulheres são – e merecem ser – cada vez mais protagonistas das telas de cinema.

Como forma de mensurar, avaliar e debater tal cenário, há pelo menos dois grandes festivais de cinema realizados em território nacional que podem ser tomados como referência para esse movimento no ano de 2017. O mais recente é o Festival do Rio, que, no dia 5 de setembro, divulgou os concorrentes de sua edição com uma estatística animadora: sete dos nove filmes concorrentes na mostra competitiva brasileira de longas de ficção são dirigidos por mulheres, incluindo desde cineastas experientes como Lúcia Murat, concorrente com Praça Paris, até nomes da nova geração, a exemplo de Juliana Rojas, com As Boas Maneiras, codirigido em parceria com Marco Dutra.

Um mês antes, entre os dias 18 e 26 de agosto, o tema do protagonismo feminino já ganhava a Serra Gaúcha durante a histórica edição de 45 anos do Festival de Cinema de Gramado, o maior evento do gênero realizado de forma ininterrupta no Brasil. No festival serrano, a estatística na mostra competitiva de longas-metragens brasileiros era proporcionalmente animadora: quatro dos sete filmes na disputa pelo tradicional Kikito levavam a assinatura de mulheres na direção. E elas foram além, já que Como Nossos Pais, de Laís Bodanzky, foi o grande vencedor da edição em seis categorias, incluindo melhor filme e direção, endossando as importantes conquistas vividas pelas realizadoras não apenas em um evento clássico como Gramado, mas na própria cinematografia brasileira.

O plano feminino, universal e cotidiano

Levando em consideração as obras exibidas em Gramado, chegamos a um belo panorama dos diferenciais temáticos, técnicos e narrativos entregues pelas respectivas diretoras e roteiristas. Como Nossos Pais, por exemplo, impulsiona uma composição que não costuma ser sinônimo de reconhecimento: a de uma história que se desenvolve a partir da dinâmica entre duas mulheres. Mas, ainda que parta dos dilemas de uma “supermulher” – definição usada pela própria diretora -, que finalmente assume não dar conta de tudo em uma vida caótica que se divide entre casa, família, casamento e trabalho, o longa leva as discussões para um plano mais universal, dividindo-se entre temas como contrastes geracionais, turbulências afetivas e falência matrimonial.

Estrelado por Maria Ribeiro como a filha que reavalia sua identidade após a descoberta de um antigo caso extraconjugal da mãe (Clarisse Abujamra), Como Nossos Pais é uma obra feminista e humanista que novamente ilumina aquela que é a característica mais marcante do cinema de Laís Bodanzky: a de buscar a humanidade no lado mais simples do ser humano. Foi assim em obras como Bicho de Sete Cabeças, Chega de Saudade, As Melhores Coisas do Mundo, Mulheres Olímpicas e, agora, Como Nossos Pais, onde, pela primeira vez, ela entrega uma narrativa ficcional inteiramente a uma protagonista feminina. Não à toa, é o seu filme mais celebrado desde Bicho de Sete Cabeças, da primeira exibição na seção Panorama do Festival de Berlim à total consagração em Gramado, onde quebrou um jejum de 12 anos: desde 2005, com Tizuka Yamazaki (Gaijin – Ama-me Como Sou), uma mulher não conquistava o Kikito de melhor direção.

Eliane Giardini dirige, protagoniza e escreve o drama A Fera na Selva, baseado em texto de Henry James. Foto: FernandoHenrique.efe

E a mulher do século passado?

À frente e atrás das câmeras, a veterana Eliane Giardini também esteve em Gramado para apresentar o seu primeiro longa-metragem como diretora: o drama A Fera na Selva, assinado junto ao ator Paulo Betti. Baseado na novela homônima escrita pelo inglês Henry James em 1903, A Fera na Selva segue um caminho completamente oposto ao de Como Nossos Pais, trazendo à tona a multiplicidade de olhares que obviamente também existe entre as realizadoras femininas. De veia assumidamente teatral e realização modesta, o filme acompanha um homem que, à espera de um grande acontecimento que o possa distinguir de todas as outras pessoas, esquece de viver o agora e as coisas simples da vida. Ao lado desse homem está Maria, vivida por Giardini, que decide acompanhá-lo nessa longa espera.

Em termos de representação feminina, Eliane, que também assina o roteiro do longa, enxerga A Fera na Selva como uma obra que pode ser reinterpretada através do ponto de vista histórico. “Maria é essa mulher do século passado que fica ao lado do homem e que se submete, servindo de confirmação para a história dele, como se essa fosse a única maneira de ela se sentir incluída em alguma coisa. Graças a Deus isso está mudando hoje em dia, mais do que nunca”, comemorou a atriz e diretora, em entrevista oficial ao evento serrano. É uma tomada de consciência fundamental para uma história como essa, uma vez que é comum observar, seja em produções brasileiras ou internacionais, especialmente nas assinadas por realizadores homens, o papel da mulher como mera escada para uma trajetória masculina, onde elas não têm personalidade nem vontades. Talvez A Fera na Selva se desenhe um pouco dessa forma, mas o olhar de Giardini para o filme que coloca na tela certamente faz a diferença para o que deve ser discutido – e questionado – em histórias que trabalham a dinâmica, especialmente a amorosa, entre homens e mulheres.

A inversão da força e o olhar rebuscado

Por falar nesse tipo de dinâmica, é especialíssimo o que estreante na direção de longas Caroline Leone faz em outro título apresentado em Gramado: o drama Pela Janela. Inspirando-se na história de um casal que conheceu em uma viagem, Leone narra os dias em que Rosália (Magali Biff) precisa superar a perda de um emprego de anos e reconstruir toda uma vida que até então dava como certa. Mas existe um detalhe fundamental que é invertido conscientemente pela diretora na versão cinematográfica: ao invés de colocar Rosália na estrada ao lado de um interesse romântico, ela faz com que a protagonista viaje com o irmão. A assumida decisão de Leone subverte a tônica tão presente em filmes estrelados por mulheres: aqui, Rosália encontra forças para recomeçar a partir do amor fraterno e de suas próprias reflexões interiores. O amor clássico pelo homem e sua dependência dele para recomeçar não fazem parte do retrato que Pela Janela faz de uma mulher ainda mais específica: a da terceira idade, nicho frequentemente ignorado nas telas do cinema. Por isso, novamente, faz toda a diferença a presença de uma cineasta como Caroline Leone para conseguir tornar as representações de um trabalho como Pela Janela uma realidade.

Camila Morgado vive uma jornada praticamente solo em Vergel, uma coprodução Brasil/Argentina que retrata os dias de uma mulher em pleno luto.

Não houve, entretanto, filme que explorasse os talentos e o universo feminino de forma tão radical na última edição de Gramado quanto Vergel, uma coprodução Brasil/Argentina sobre os dias de uma mulher sem nome que se encontra à beira da loucura após um luto repentino. É radical porque Vergel, dirigido e escrito pela argentina Kris Niklison, não faz concessões ao explorar a confusão entre o real e o irreal, além de acompanhar de forma microscópica a vivência de incômodos trâmites familiares e as primitivas pulsões sexuais de uma protagonista que praticamente se encarcera em um apartamento onde vive um profundo luto. Vergel é um filme praticamente solo, que disseca inúmeras camadas emocionais de uma personagem feminina que se destrói e se reconstrói ao longo de uma curta jornada – o filme se passa em questão de poucos dias -, mas que mergulha em sentimentos e reações que sugerem uma viagem interna infinitamente mais extensa.

A atriz Camila Morgado, que vive a protagonista de Vergel, disse, durante sua temporada em Gramado para promover o filme, que ter uma cineasta assinando a direção e o roteiro fez toda a diferença para a história. “Já nos ensaios eu via que ela tinha um olhar muito rebuscado em relação ao feminino. E quando vi o filme pronto, fiquei impressionada com o quanto ela filma bem essa figura feminina, o corpo dessa mulher que passa por tantas compulsões sexuais para de alguma forma perceber que ainda está viva”, atestou Camila. E é o que de fato está na tela: Kris captura um universo de luto com muita crueza e claustrofobia, além de um apuro estético raro ao escolher meticulosamente enquadramentos, tonalidades, figurinos e a própria observação física e emocional da protagonista.

Ser mais do que Angelina Jolie

Um dos responsáveis pela seleção dos longas em competição em Gramado, Rubens Ewald Filho toma como referência para o atual momento o cinema de grandes diretores como Bergman, Fellini e Antonioni, que sempre trabalhavam histórias com e sobre mulheres. Afinal, por que, hoje, nem mesmo os grandes diretores se interessam em exaltar ou criar novas musas? “Não entendo, porque acho que as mulheres são mais fortes, mais espertas, mais talentosas”, comenta o curador, jornalista e crítico de cinema. Rubens, que é um profundo conhecedor de cinema do ponto de vista jornalístico, mas também através de suas próprias experiências nos bastidores de produções audiovisuais nacionais e internacionais, aponta que, claro, o que leva à escassez do número de mulheres à frente de projetos é o fato dos homens ainda dominarem a coordenação de estúdios e orçamentos, onde, sendo mulher, “é preciso ser Angelina Jolie para abrir alguma porta e conseguir oportunidades. E, mesmo assim, não dúvidas de que até estrelas como ela ganham salários inferiores aos homens”.

Ao frequentar os estúdios de Hollywood e fazer a cobertura de diversos eventos do gênero em uma carreira com mais de quatro décadas de atuação, Rubens revela que, lá atrás, nos anos 1980, já perguntava por onde passava: por que há tão poucas mulheres diretoras, já que, desde o cinema mudo, elas sempre foram pioneiras? A resposta dada era sempre a mesma: um lacônico “não sei”. Ainda hoje, ele diz estar sem a resposta. “Arrisco a dizer que os homens não gostam de ser dirigidos por mulheres. Aliás, só uma delas ganhou o Oscar na categoria até agora [Kathryn Bigelow, em 2010, por Guerra ao Terror], e mesmo assim com muita dificuldade”, lembra. De qualquer forma, gostando ou não, como apontou Gramado em sua última edição e como registra uma importante e pioneira série de tendências, conquistas e movimentos em busca do protagonismo, chegou a hora de elas ocuparem seu devido espaço, dentro e fora das telas. Mais do que nunca, queremos ouvir suas palavras, seus sentimentos, suas expressões. Que o cinema ajude cada uma delas nessa linda jornada!

Agora tem canal do Cinema e Argumento no Youtube!

Não só como usuário da internet, mas também como jornalista, percebo que é um caminho sem volta: ter um canal no Youtube se revela hoje uma alternativa fundamental para produtores de conteúdo. Com a crise dos meios de comunicação tradicionais, essa é uma lógica que faz cada vez mais sentido. Entretanto, a razão do Cinema e Argumento migrar agora também para o Youtube vai muito além dessa perspectiva: já não é de hoje que invejo, por exemplo, a forma como a jornalista Isabela Boscov (a pioneira na ideia de fazer crítica de cinema em vídeo no Brasil, vale lembrar) faz toda a função parecer fácil, natural e extremamente prazerosa. Pois agora resolvi me aventurar na profissão Youtuber e queria compartilhar com vocês tal experiência.

Deixo abaixo, então, os dois vídeos produzidos até agora para o canal do Cinema e Argumento que, a priori, busca dar destaque para filmes que normalmente não recebem o mesmo destaque que Mulher-Maravilha, por exemplo, em uma infinidade de canais. Vale tudo: filme novo e antigo, produção para o cinema ou para TV e o que mais vier na telha. Enfim, tudo o que achar interessante para compartilhar com vocês vai estar lá. Nessa primeira leva, os comentários são para os filmes Duas Estranhas – História de Mãe e Filha, longa de 1979 estrelado por Bette Davis e Gena Rowlads, e o recente telefilme A Vida Imortal de Henrietta Lacks, produzido pela HBO com Oprah Winfrey encabeçando o elenco junto a Rose Byrne. Espero que gostem!

Heroísmo sem prazo de validade

merylsthreeÉ proibido envelhecer em Hollywood. Mais ainda se o artista em questão tem uma carreira vitoriosa. Já foi dito sobre Madonna na música e podemos muito bem atribuir também a Meryl Streep no cinema: sua maior ousadia foi ter se permitido envelhecer na indústria. Imaginem então quando essa indústria é a dos Estados Unidos (a europeia é outro papo, ainda que qualquer prêmio para Maggie Smith por Downton Abbey seja vítima de críticas)! Em Hollywood, as grandes ou não viveram para contar novas histórias de glória (Vivien Leigh, por exemplo, morreu com apenas 54 anos) e outras que consideramos ícones chegaram ao fim da vida – e da carreira – sem um terço do prestígio que alcançaram ao início dela, como Bette Davis, cuja última indicação ao Oscar se deu 27 anos antes de sua morte, comprovando que, já à beira dos anos 1990, uma diva como ela já sofria para encontrar chances à altura apesar da constante atividade nas telas.

Só que Meryl Streep, que recebe, no próximo domingo (08), o troféu Cecil B. DeMille no Globo de Ouro em homenagem ao conjunto de sua obra, colocou abaixo tudo o que era predestinado para atrizes que, como ela, alcançam glória e sucesso quando jovens, mas parecem fadadas a estacionar sua relevância e reconhecimento em algum momento da filmografia. Hoje com 67 anos, Meryl segue trabalhando. E brilhando. Mais ainda: ganhando prêmios. Por isso mesmo é tão cobrada, e misteriosamente tão criticada. Heroísmo tem prazo de validade em Hollywood, o que com certeza está representado em sua figura. Se você é boa, já ganhou uma penca de prêmios e provou ser capaz de fazer qualquer papel, não pense duas vezes: ou você arrasa ou não será digna de qualquer coisa. Se estrear filme todo ano, então, a coisa só piora. Vira over, sem consistência, indigna de reconhecimento. No caso de Meryl, a cobrança ainda vai além: é preciso não somente que ela arrase a cada trabalho, mas que também esteja gravando com o alto escalão de Hollywood. Qualquer coisa abaixo desse escopo é motivo para chamá-la de superestimada, repetitiva e até mesmo preguiçosa.

Só quem não conhece a fundo a carreira de Meryl pode dizer que ela já foi uma atriz de grandes filmes e hoje decepciona nesse sentido. Com exceção de Kramer vs. Kramer (que, de fato, é um arraso e faturou importantes Oscars como os de filme, direção e roteiro), os papeis mais célebres da atrizes não estão em obras superlativas: A Escolha de Sofia envelheceu muito mal e é basicamente lembrado apenas pelo magnífico desempenho Meryl (com toda razão), As Pontes de Madison é amado ao redor do mundo, mas, na época, basicamente só foi indicado a prêmios de melhor atriz, O Diabo Veste Prada veio se tornar sensação apenas depois de muito tempo (desbancando as críticas mornas feitas ao filme na época de seu lançamento) e A Dama de Ferro, que lhe rendeu um terceiro Oscar, dispensa comentários pela ruindade. Se a exigência é ter Meryl fazendo filme grande, vamos lembrar de Entre Dois Amores, que também ganhou uma penca de Oscars (sete especificamente), mas que quase nunca é citado como um belo momento da carreira da atriz. Olhando em retrospecto, é muito simples: Meryl Streep escolhe papeis, não filmes. É fundamental entender isso antes de criticar a média de qualidade dos longas protagonizados por ela hoje (e só o fato de uma atriz com quase 70 anos lançar no mínimo um por ano em uma indústria sexista e intolerante ao envelhecimento já deveria ser algo a se comemorar).

golden-globe-the-iron-lady-4Perto de conseguir sua vigésima indicação ao Oscar pela comédia Florence: Quem é Essa Mulher? (e por isso a existência desse post, que tenta trazer um pouco de ponderação ao ânimos exaltados de muita gente que condena uma nova menção à atriz nos prêmios), Meryl Streep é frequentemente cobrada por não trabalhar com grandes diretores. Mas, afinal, onde estão os filmes de Woody Allen, Martin Scorsese e Quentin Tarantino não para Meryl, mas para qualquer atriz da idade dela? Eles simplesmente não existem. É por isso que ela precisa mesmo fazer filmes com Nancy Meyers, Phyllida Lloyd, David Frankel e Rob Marshall. Mesmo em papeis inferiores ao seu talento, continua na vitrine, trabalhando, exercitando talento e se mantendo ativa, o que já é infinitamente mais do que a média alcançada por outras colegas de sua geração. Há ainda a crítica de que ela monopoliza todos os papeis para intérpretes de sua idade, mas existe uma razão para isso além de sua excelência como atriz (afinal, muitas outras veteranas se equiparam sim a ela nesse quesito): ao longo da carreira, Meryl Streep construiu nome na indústria ao reivindicar salários melhores, palpitar na execução dos projetos que assinava e recusar papeis sexistas ou de pura figuração quando o envelhecimento bateu a sua porta. Claro que ser mulher em Hollywood é complicado, mas muito também vem do que a uma atriz se submete ou não. Recentemente, Robin Wright e Emmy Rossum deram um show quando ameaçaram não renovar para novas temporadas de House of CardsShameless, respectivamente, caso não passassem a receber salários iguais ao dos protagonistas masculinos. Venceram, e certamente serão lembradas por isso. Meryl Streep sempre compreendeu tal ideia desde sempre e, não à toa, o que colhe hoje é resultado de anos reforçando esse posicionamento.

Independente de fazer filmes incríveis, medianos ou horríveis (isso é muito relativo, pois acho, por exemplo, As HorasDúvida, verdadeiros filmaços), a veterana, ao consolidar diversidade e níveis muito grandes de atuação na carreira, vive hoje a bênção e a maldição de ser Meryl Streep. Mas é preciso um bom senso maior do público, que cobra aspectos fantasiosos ou que estão simplesmente fora do alcance da atriz. Em seu ofício, ela faz tudo muito bem – e, aqui ou ali, também se dá o direito de apenas se divertir ao entrar em um set de cinema. Um prazer para poucos. E se há excessos em prêmios, a culpa não é dela (que nunca faz campanha), e sim dos prêmios. Quando o Globo de Ouro exibir clipes de sua carreira amanhã, o que mais ficará evidente – e isso ninguém lhe pode tirar – é a absurda versatilidade de uma carreira rica em representações: do nazismo à gastronomia, passando por passarelas da moda e bruxarias na floresta, não há quem se equipare na riqueza de papeis. No caso dela, nesse momento específico do prêmio, a qualidade dos filmes dificilmente estará em questão. O que será lembrado é exclusivamente a inegável excelência alcançada por ela em uma infinidade de papeis ao longo de décadas e centenas de prêmios, comprovando que, ao contrário de quase todos os casos, o heroísmo de Meryl Streep não tem prazo de validade. Ainda bem.

Adeus, 2016! (e as melhores cenas do ano)

Tem virado rotina: ao final de cada ano, encerro os trabalhos do blog dizendo que vi menos filmes do que gostaria (o que se reflete, claro, na quantidade de textos que publiquei aqui). Não foi diferente em 2016, que foi, como muitos já disseram, um período difícil para praticamente todo mundo. No entanto, se não assisti a tantos filmes quanto planejava, pelo menos estar no escuro do cinema me trouxe momentos altamente recompensadores. Poucas foram as vezes em que conferi uma quantidade tão restrita de produções, mas que me comovi tanto com a maioria delas. Gosto de acreditar que também vem um pouco da experiência: com o passar dos anos, dispensei filmes em que era fácil identificar, pelo trailer ou pelo que era repercutido do projeto, o gosto duvidoso ou a péssima qualidade das obras em questão. Tentando regular a falta de tempo com o que poderia ver de melhor, fui bastante arrebatado e tento sintetizar na lista abaixo, os momentos que mais ficaram comigo ao longo de 2016. As minhas cenas favoritas do ano estão elencadas por ordem de preferência, e espero que vocês gostem da seleção. Em 2017, quero continuar contando com a melhor companhia para curtir o cinema: vocês. Feliz ano novo e até lá!

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#1 – Um sorriso na multidão (Carol)

Filmes como O Segredo de Brokeback MountainAzul é a Cor Mais Quente, citando obras mais célebres do universo LGBT, são sempre bem-vindos, mas também precisamos de mais experiências como a de Carol, onde o romance se sobrepõe ao drama. O filme de Todd Haynes não se exime de discutir questões importantíssimas do ponto de vista dramático, porém, o foco aqui é outro. No maravilhamento de descobrir o amor e na felicidade de finalmente realizá-lo, a história de Carol (Cate Blanchett) e Therese (Rooney Mara) encanta do início ao seu emblemático fim, que é o nosso momento favorito do cinema em 2016. É reconfortante, esperançoso e até mesmo de tirar o fôlego, seja por aquilo que comunica ou por sua concepção estética (como esquecer a trilha de Carter Burwell?). Impecável.

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#2 – Os astronautas e a piscina (Ponto Zero)

Destaque no grupo de filmes que mexeram intimamente comigo em 2016, Ponto Zero não poderia deixar de estar presente nessa lista, tanto pelo fator emoção quanto pelo apuro técnico. Não é preciso pensar duas vezes: a cena que abre o filme – e depois se repete ao final dele com importantes complementos narrativos – impacta sensorialmente (reforço aqui meu apreço pela trilha sonora assinada por Leo Henkin) e deixa o recado: certas distâncias são dolorosas, mas somente nós podemos suportar os nossos próprios pesos e juntar forças para jogá-los ao alto. Aos olhos, esse momento de Ponto Zero é puro encantamento. Ao coração, será sempre uma forma de remontar nossos pedaços.

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#3 – Clara (Sonia Braga) diz a Diego (Humberto Carrão) que só sairá morta de seu apartamento (Aquarius)

Há quem prefira a cena final (também maravilhosa), mas possivelmente não exista sequência que sintetize com tanta maestria as discussões de Aquarius do que essa em que Clara chega no limite de sua paciência com Diego e afirma categoricamente que só sairá morta de seu apartamento. No tenso encontro (conduzido de forma extremamente simples no texto e na direção, o que só amplia sua veracidade), o diretor e roteirista Kleber Mendonça Filha dá um tapa de luva em muita gente, em especial nas pessoas que, como bem diz a protagonista, acham que dinheiro define caráter. Sem qualquer proselitismo, a cena mexe em muitas feridas de um Brasil contemporâneo – e, de quebra, entrega o melhor momento de Sonia Braga em toda a projeção.

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#4 – “Você pediria em casamento a pessoa que eu sou hoje?” (De Onde Eu Te Vejo)

Distribuindo sensibilidade em cada uma de suas cenas, De Onde Eu Te Vejo alcança um novo patamar nos seus minutos derradeiros quando une dois momentos de forma impecável. Primeiro, a viagem de Fábio (Domingos Montagner) por lugares de São Paulo que marcaram seu relacionamento com Ana (Denise Fraga) a partir de uma carta em forma de gravação escrita por ela. Segundo, o emocionante encontro da dupla, quando, em poucas palavras, ambos reconhecem a beleza de uma história de amor e também da maturidade em reconhecer o fim dela. Tando Denise quanto Domingos combinam perfeitamente e são fundamentais para a emoção que uma cena como essa é capaz de transmitir.

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#5 – “Simple Song #3” (A Juventude)

Como conferir as duas horas de A Juventude sem criar expectativas pela execução da canção “Simple Song #3”? E não é apenas pela beleza musical de uma ópera que o momento emociona, mas principalmente porque muito da história do maestro Fred Ballinger (Michael Caine) se ilumina a partir dele. A soprana sul-corena Sumi Jo é um arraso ao interpretar a canção, ampliando de forma natural a dramaticidade de uma cena que, assim como tantas outras do longa dirigido pelo italiano Paolo Sorrentino, comove tanto pela emoção propriamente dita quanto pela beleza com que é capturada.

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#6 – Encontro com o céu (O Quarto de Jack)

A primeira metade de O Quarto de Jack dá um baile na segunda, e é a transição entre elas que reserva o momento mais emblemático do filme. Elogiar o garotinho Jacob Tremblay é chover no molhado, mas não custa reforçar: seu trabalho aqui é coisa de gente grande (e de deixar a celebrada Brie Larson muitas vezes em segundo plano), especialmente nessa cena que, muitíssimo bem dirigida por Lenny Abrahamson, pula de uma crescente tensão para uma inegável beleza dramática em questão de segundos. Presenciar Jack (Tremblay) contemplando um céu limpíssimo com olhos de puro encantamento é de arrepiar.

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#7 – “Não há nada que você possa fazer além de resistir” (Brooklin)

Carinhoso drama de forma clássica, Brooklin carrega boa parte de seu charme na ótima interpretação de Saoirse Ronan ao mesmo tempo em que a direção de John Crowley extrai elegância e delicadeza de situações que, analisadas essencialmente pelo texto, poderiam muito bem descambar para o clichê. Um reencontro da protagonista nos minutos finais da projeção comprovam essa tese. É impossível não se emocionar com o que é visto na tela, mesmo que o espectador já tenha deduzido minutos antes o que estava prestes a acontecer. A narração é sincera, o tom é sutil e a emoção surge irresistível.

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#8 – “Girls Just Wanna Have Fun” (Anomalisa)

Anomalisa é uma experiência emocionalmente marcante. Com uma excepcional dublagem onde se destaca o delicado trabalho de Jennifer Jason Leigh, o filme da dupla Charlie Kaufman e Duke Johnson transforma uma divertida canção como Girls Just Wanna Have Fun em algo profundamente tocante. O momento em que a música de Cindy Lauper ganha vida sintetiza toda a maturidade e a delicadeza dessa obra que discute, com muito talento, questões íntimas que volta e meia soam até superficiais em inúmeros dramas com pessoas de carne e osso.

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#9 – Mesa para dois? (Animais Noturnos)

Filme que divide opiniões, Animais Noturnos tem muitos momentos que só poderiam levar a assinatura do estilista e cineasta Tom Ford. O meu favorito, no entanto, tem menos a ver com apuro estético e mais com apuro emocional. Lindamente vestida (óbvio) para um aguardando encontro, Susan (Amy Adams) chega a um restaurante, pede uma bebida e… aguarda. Ford captura com maestria o que acontece nessa espera, e a trilha de Abel Korzeniowski só engrandece tudo o que se passa internamente com a protagonista em um momento aparentemente corriqueiro mas interminável. Um deslumbre de dramaticidade!

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#10 – Almirante (Nelson Xavier) acorda (A Despedida)

São simplesmente arrebatadores os primeiros minutos de A Despedida, onde o veterano Nelson Xavier se despe (literalmente) de qualquer vaidade para mostrar a via crucis enfrentada por seu personagem para simplesmente levantar da cama, escovar os dentes e se vestir. O trabalho físico do ator é irretocável, mas também existe muito vindo de dentro para fora. Mais do que isso, a sequência de abertura impressiona pela ousadia de sua condução (são longos minutos que transcorrem sem pressa alguma) e pelo apuro dos sentidos (o trabalho de som é fantástico e fundamental para a imersão do espectador). Uma bela abertura para um grande filme.

10 razões para amar o World Soundtrack Awards (ou a lucidez admirável de um prêmio)

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Desbancando um blockbuster da dimensão de Star Wars: O Despertar da Força, Carol foi a melhor trilha sonora pelo voto popular no World Soundtrack Awards. Carter Burwell ainda foi eleito o compositor do ano.

Não é segredo para ninguém que o BAFTA sempre foi a minha premiação favorita por uma série de razões que inclusive elenquei na parte 1 e na parte 2 dos posts que fiz aqui no blog sobre o prêmio outorgado pelos britânicos. Não escondo, por outro lado, a minha frustração de vê-los tão sem autenticidade de uns anos para cá em suas escolhas dos melhores do cinema. Claro que premiações têm seus altos e baixos, mas é bem provável que hoje, depois de investigar um pouco a história do World Soundtrack Awards, o BAFTA venha a perder o seu lugar prioritário no meu coração. Fora o histórico, o que impulsionou minha paixão à primeira vista por esse prêmio dedicado à celebração de trilhas sonoras para o cinema foi ele ter reparado, na cerimônia realizada na última quarta-feira (19), uma das maiores injustiças da temporada de premiações desse ano: a infinidade de prêmios para Ennio Morricone por Os Oito Odiados.

Digo e repito: óbvio que tenho o maior respeito e admiração por Morricone, mas os troféus que ele levou para casa pelo filme de Quentin Tarantino foram por sua carreira e não pelo trabalho específico na obra. Sempre me chateio com prêmios assim, especialmente quando outros concorrentes são significativamente superiores. E, na varredura de vitórias feita pelo compositor italiano, o grande injustiçado foi Carter Burwell por seu trabalho espetacular em Carol. Entretanto, o World Soundtrack Awards fez justiça ao excelente momento da carreira de Burwell ao lhe conceder o prêmio de compositor do ano pelo júri oficial e pelo voto popular, desbancando nomes como Thomas Newman (outro eterno injustiçado), Daniel Pemberton (que faz um trabalho revelador e subestimado em Steve Jobs), John Williams e o próprio Morricone. Burwell ainda faturou a categoria de composição do ano (“None of Them Are You”, para Anomalisa), o que também corrige outro grande equívoco desse ano: os prêmios de canção recebidos por Sam Smith, por “Writing’s on the Wall”, para 007 Contra Spectre. Não deixe de conferir no site oficial da premiação a lista completa de vencedores.

A consagração tripla para o compositor vem no momento certo, já que Carol é o auge de sua carreira cada vez mais prolífera (lembrando que prêmio de compositor do ano também é por filmes como Ave, César! Anomalisa). No filme de Todd Haynes, Burwell dá uma verdadeira aula sobre como uma trilha sonora deve ser narrativa para uma história, entregando ainda um tema inesquecível para o romance de Carol Aird (Cate Blanchett) e Therese Belivet (Rooney Mara). Em um mundo coerente, não haveria nem discussão sobre Carol ter a melhor trilha da temporada – e talvez até do ano (abaixo compartilho um vídeo sobre a criação de Burwell para a parte musical do filme). Mas não é de hoje que o compositor já dá sinais de excelência: vale bisbilhotar o que ele realizou para a minissérie Mildred Pierce, estrelada por Kate Winslet em 2011, cujo resultado é muito semelhante com o de Carol. Contudo, a excelência de Burwell não se restringe aos dramas de época, uma vez que também vale a busca por algumas de suas trilhas mais ecléticas e desafiadoras, como para Adaptação, de Spike Jonze, ou Queime Depois de Ler, dos irmãos Coen. Isso mesmo, faz horas que Carter Burwell está entre nós. Pena que só agora ele está recebendo a devida (e merecida) atenção.

Tudo isso nos leva ao início do post, quando confessei que é bem provável que o World Soundtrack Awards venha a se tornar minha premiação favorita envolvendo cinema. Bem como fiz com o BAFTA, abaixo cito dez razões para justificar:

  • Enquanto o Oscar só foi reconhecer Alexandre Desplat com O Grande Hotel Budapeste, o World Soundtrack Awards já havia premiado o francês com os prêmios de trilha por O Curioso Caso de Benjamin ButtonO Fantástico Sr. Raposo, além de ter dado cinco vezes o título de compositor do ano para o francês (a primeira delas pelo lindo trabalho para A Rainha).
  • Não é sempre que júri popular acerta em premiações, mas é definitivamente o caso aqui, onde o polonês Abel Korzeniowski foi reconhecido duas vezes pelo público com suas trilhas para Direito de AmarW.E. – O Romance do Século.
  • “Come What May”, de Moulin Rouge! – Amor em Vermelho, foi eleita a melhor canção escrita para o cinema em 2001. Dispensa comentários.
  • Ainda nas canções escritas para o cinema, o World Soundtrack Awards corrigiu outro grande esquecimento: não só indicou como premiou “You Know My Name”, de Chris Cornell, para 007 – Cassino Royale.
  • Sequer indicada ao Oscar, a inesquecível e emblemática trilha de O Fabuloso Destino de Amélie Poulain foi eleita a melhor do ano de 2001.
  • Indiscutivelmente o maior compositor brasileiro, Antonio Pinto recebeu o prêmio de revelação do ano por Cidade de Deus em 2003.
  • Esse foi o mesmo prêmio recebido por outros compositores de outras trilhas subestimadíssimas, como Nico Muhly (O Leitor, em 2009) e a dupla Dan Romer e Benh Zeitlin (Indomável Sonhadora, em 2013).
  • É importante reconhecer o cinema comercial e de blockbuster. Por isso o prêmio de compositor do ano para Michael Giacchino (Planeta dos Macacos: O ConfrontoDivertida MenteTomorrowlandO Destino de Júpiter) em 2015 foi tão especial.
  • Nomes renomados e inexplicavelmente sem um mísero Oscar em casa já se consagraram com os prêmios de compositor ou trilha do ano, entre eles Alberto Iglesias, James Newton Howard e Thomas Newman.
  • E até quem já se consagrou no passado com trilhas clássicas mas não no presente mesmo trabalhando a todo vapor foi reconhecido por obras contemporâneas, caso do mestre Hans Zimmer com A Origem e John Williams com Harry Potter e o Prisioneiro de Azkaban.

Estou em dívida (e preciso me desculpar)

Ei, você aí que lê o meu blog! Desculpa, tá? Como já deu para perceber, o ritmo desacelerou pra caramba. Isso não quer dizer que deixei de gostar de escrever ou atualizar o blog. Pelo contrário: minha angústia de não atualizá-lo é diária. O que acontece é que tenho visto menos filmes. Quase nada, na realidade. São coisas da vida: às vezes tem trabalho no fim de semana, outras vezes a vida pessoal fica conturbada e de vez em quando é preciso mesmo um tempo para desacelerar e recuperar o equilíbrio. No meio disso tudo ainda tem um programa de rádio para produzir e apresentar durante a semana. Algo se perde no meio de tanta coisa. Mas tudo isso é para dizer que está tudo bem com o blog e que, aos poucos (espero), ele recupera o ritmo. É questão de tempo. Até lá, os posts vêm na medida que é possível. Como sempre, conto com vocês! :)

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