Cinema e Argumento

O cinema e os nossos amigos (adeus, querido Rubens!)

Foto de Rafael Roncato

“O cinema é um grande companheiro, todo dia trazendo uma surpresa nova. Revejo os filmes como quem reencontra velhos amigos”.

– Rubens Ewald Filho

Hoje perdemos Rubens Ewald Filho.

No mesmo dia em que é comemorado o Dia do Cinema Brasileiro.

No mesmo dia que marca o centenário de nascimento de Pauline Kael, uma das maiores críticas de cinema que já passaram pelo nosso plano.

Tudo o que Rubens representou para a popularização da crítica de cinema, para a reverberação midiática da cultura e para o cinema brasileiro está aí nas inúmeras homenagens que, com imensa justiça, já estão sendo feitas a ele. No que me toca, posso falar sobre um outro Rubens: aquele que conheci há quase dez anos, no meu primeiro Festival de Cinema de Gramado, e também aquele que, durante todo esse tempo em que convivemos e trabalhamos juntos no evento, sempre me tratou com extrema generosidade e humanidade.

Ao receber a fatídica notícia da sua despedida, imediatamente tentei puxar à memória o último momento em que estive com ele. E — que sorte a minha! — é um momento que lembro de maneira muito viva. Foi logo após a entrega dos Kikitos do Festival de Cinema de Gramado em 2018, quando esbarrei com Rubens na entrada de um hotel da cidade. Com a curiosidade e a preocupação com o trabalho que lhe eram característicos, me perguntou se eu havia achado justos os prêmios daquela noite e se havíamos feito uma boa edição do evento. Concordamos em basicamente tudo, com o que era justo e com o que não era. E ele ouvia. Com atenção e interesse. Algo cada vez mais raro nos dias de hoje.

Ao fim da conversa, Rubens me fez duas cobranças. A primeira por tê-lo convidado a participar apenas uma vez aqui do blog. Ele disse que escreveria sobre o que eu quisesse e que estaria sempre disposto a contribuir para a minha trajetória como crítico de cinema. A segunda foi por eu não ter prometido seguir a sua sugestão de que, com os anos que trabalhei em Gramado, um dia escreveria um livro falando, de forma bem humorada, ficcional e curiosa, sobre tudo o que vemos e vivemos com personalidades e jornalistas nos bastidores de um evento de cinema. O prefácio seria escrito por Rubens Ewald Filho, ele garantiu.

Confesso que, mais uma vez, não prometi que escreveria o tal livro. E registro essa pequena lembrança que hoje me bate de forma tão emocionante como uma forma de reparação, realizando pelo menos um tantinho do que ele queria que eu fizesse. Ou seja, ainda que no blog e em poucas palavras, eu deixo eternizada ao menos uma lembrança de um evento de cinema. E com ninguém menos que Rubens Ewald Filho.

Após a nossa última conversa, abracei Rubens, e prometemos que nos veríamos no próximo Festival. Separei, nesse meio tempo, todos os guias de DVD que ele escreveu ao longo da carreira e que tanto despertaram a cinefilia que hoje existe em mim para que ele autografasse da próxima vez que nos víssemos. Era um absurdo termos trabalhado juntos durante quase dez anos e eu nunca ter levado nenhum livro para que ele pudesse escrever uma dedicatória (malditos tempos digitais!).

Isso, no entanto, não deixa de ser uma bobagem: o tanto que Rubens me incentivou e fez parte da minha história como uma “pessoa de cinema” (termo que ele próprio gostava de usar) não cabe em uma dúzia de palavras assinadas em um papel. O Rubens que fica comigo é aquele que leu meus textos, incentivou minha escrita, deu conselhos quando eu estava nervoso antes de entrevistar uma atriz e que se revelou, de fato, a pessoa querida e generosa que, desde muito jovem, eu imaginava que ele pudesse ser ao ler seus comentários sobre cinema.

Na vez em que escreveu para o Cinema e Argumento em 2013, Rubens falou sobre algumas das interpretações do cinema que mais lhe marcaram, citando, entre as atrizes, Debbie Reynolds. À época, um trecho em particular me comoveu, e agora ganha outro sentido: “Debbie até hoje trabalha (fez há pouco Behind the Candelabra, para a HBO, com Michael Douglas), tem um estúdio de ensaios e faz shows para se sustentar. Vai morrer em cena, sempre gosta de dizer. Como eu também gostaria que fosse comigo”.

Que bom que o destino atendeu esse pedido.

Obrigado por tudo, Rubens!

Adeus, 2018! (e as melhores cenas do ano)

Para quem ama Cinema, talvez os filmes tenham sido uma espécie de salvação em um ano extremamente complicado para o Brasil. Para mim, ao menos, eles realmente foram. Além disso, na medida do possível, entre os malabarismos exigidos pela vida adulta, vi a maioria dos títulos que eu desejava — e, apesar do baixo número de filmes conferidos em comparação a tantos outros anos, fiquei muito satisfeito com a média das minhas experiências, algo que é consequência direta do exercício cada vez mais consciente que faço de escapar daqueles filmes que, de longe, já desconfio que não podem ter resultado em coisa boa. Uma imensa parte dessas experiências está registrada aqui no blog (algumas outras ainda estou em dívida e prometo tirar o atraso o quanto antes). Aliás, mesmo com uma frequência inegavelmente menor de postagens, sempre tive o compromisso de deixar o Cinema e Argumento vivo. Ele faz parte de mim e eu não teria como mudar isso, inclusive por causa de vocês, caros leitores, que são sempre tão presentes para mim, especialmente na página do blog no Facebook. Em 2019, seguimos em frente, e logo teremos a lista de melhores do ano. Por ora, dou adeus a 2018 com a tradicional seleção das minhas cenas favoritas do ano. Nos vemos em seguida, combinado?

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#10 – “Eu sou a sua mãe!” (Hereditário)

Toni Collette como há muito tempo não víamos. Rancor e dor em uma discussão familiar que explora o que existe de melhor em Hereditário: a utilização do luto como riquíssima matéria-prima para complexidades dramáticas e para a construção do terror psicológico.

#9 – Assumindo a direção no OASIS (Jogador Nº1)

Adrenalina pura e referências de sobra tornam a primeira corrida no jogo OASIS uma experiência de tirar o fôlego. É o primeiro grande impacto desse blockbuster que está à altura do que Steven Spielberg criou em seus melhores entretenimentos para o grande público.

#8 – Abraço na praia (Roma)

Em um abraço, todo o universo de uma mulher invisível e de uma família desmantelada pelo abandono paterno. É a mais simples demonstração de afeto pode tornando menos solitário esse mundo que, para determinadas parcelas da sociedade, é um desafio diário.

#7 – A dança de Pedro (Tinta Bruta)

Como encontrar cores e conexões em uma cidade que tanto insiste em julgar e afastar? Como encontrar sua própria voz quando nada parece ser uma certeza? Com a dança de Pedro (Shico Menegat), no entanto, um universo de possibilidades parece se abrir em Tinta Bruta.

#6 – Ally e Jackson cantam “Shallow” (Nasce Uma Estrela)

Duas pessoas perdidas na vida encontram na música e na existência do outro uma razão para seguir em frente. Nos palcos ou fora deles, todos nós merecemos ser protagonistas de vez em quando. É tudo o que Nasce Uma Estrela deveria ter sido como um todo.

#5 – De mãos dadas (As Boas Maneiras)

Um dos grandes momentos do cinema brasileiro em 2018, a sequência final de As Boas Maneiras é um comovente e esperançoso registro de resistência em um país afogado em intolerância e preconceito. Ninguém solta a mão de ninguém. Inclusive no Cinema.

#4 – Show do Queen no Live Aid (Bohemian Rhapsody)

Rami Malek alcança sua sua nota mais impressionante como Freddie Mercurie. Além disso, a arriscada (mas acertada) decisão de reproduzir uma longa apresentação musical praticamente na íntegra coloca qualquer espectador no centro de toda a imensa emoção de um momento histórico do rock mundial.

#3 – Miguel canta para a avó (Viva: A Vida é Uma Festa)

Poucas vezes tivemos, ao menos entre as animações recentes, uma sequência tão potente do ponto de vista emocional como essa em que Miguel canta para a avó em Viva. Nela, vemos um pouquinho de todos nós e de tantos queridos familiares que passaram pelas nossas vidas.

#2 – Irene, a camiseta do filho e o desfile musical (Benzinho)

Testamento máximo do imenso talento dramático de Karine Teles. Uma carta de amor para as mulheres que nos criam e que diariamente levam o Brasil para frente. Mais do que isso, um poderoso e comovente retrato da força transformadora do afeto.

#1 – Conversa entre pai e filho (Me Chame Pelo Seu Nome)

O texto mais belo do ano. Michael Stuhlbarg em estado de graça. Quando a sabedoria é passada de uma geração para a outra. A vida como um constante aprendizado, apesar da dor e dos corações partidos. O que seria de todos nós sem compreensão e apoio?

Dez ótimos filmes que completaram dez anos de lançamento em 2018

Uma boa maneira constatar a rápida passagem do tempo é elencando quais filmes estão completando aniversário em determinado ano. E, já que entramos em dezembro, mês tradicionalmente dedicado a listas de melhores do ano e ao início da temporada de premiações, resolvi entrar nesse espírito. Em 2018, diversos filmes completaram dez anos de lançamento (aproveito para lembrar que, aqui no blog, sempre levo a estreia comercial nos cinemas brasileiros no parâmetro para definir a minha cronologia cinematográfica), entre eles, obras consagradas entre público e crítica, como Batman: O Cavaleiro das Trevas. Também tivemos o aniversário de Sangue NegroOnde os Fracos Não Têm Vez, O Escafandro e a Borboleta e Na Natureza Selvagem. Alguns chegaram a receber até uma continuação para marcar seus dez anos de lançamento, caso de Mamma Mia!, que, em 2008, considerando suas intenções e dimensões, foi um estrondoso sucesso de bilheteria. Contudo, deixo de lado esses títulos já amplamente referenciados para selecionar dez dos meus favoritos pessoais que, há exata uma década, chegavam em terras brasileiras. Quais deles também fazem parte dos queridinhos de vocês? 

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Philip Seymour Hoffman e Laura Linney brilham como dois irmãos em conflito no drama A Família Savage.

A FAMÍLIA SAVAGE, de Tamara Jenkins: Em 2018, a diretora e roteirista Tamara Jenkins finalmente voltou à ativa com Mais Uma Chance, seu primeiro filme desde o maravilhoso A Família Savage, lançado em 2008 e que reuniu uma dupla para ninguém colocar defeito: Laura Linney e Philip Seymour Hoffman (ela chegou a ser merecidamente indicada ao Oscar por seu desempenho). Muito mais do que um registro tradicional sobre dois filhos que precisam lidar com um pai doente, A Família Savage descortina o processo de envelhecimento sem qualquer firula ou maquiagem, mas o que torna esse trabalho tão humano e contundente é a relação entre os dois irmãos, ambos tão diferentes e ao mesmo tempo tão semelhantes — e por isso mesmo distantes do ponto de vista físico e emocional. Nas complexidades dos pequenos momentos e comportamentos tanto dos personagens quanto de todos nós, Jenkins cria uma história franca, colada à realidade e elevada a níveis tocantes por dois grandes atores em estado de graça.

CHEGA DE SAUDADE, de Laís Bodanzky: Por falar em histórias sobre envelhecimento, Chega de Saudade, da premiada diretora Laís Bodanzky, é outro título que contempla a temática da terceira idade e completa uma década de lançamento em 2018. O clima, entretanto, é totalmente diferente de A Família Savage: acompanhando cinco personagens frequentadores de um baile de dança em São Paulo, Chega de Saudade tem como cenário um animado salão que, em uma nova noite de música e dança, abre as portas para o seu público tão querido e fiel. Na pista e nos bastidores, os personagens amam, desejam, flertam, gargalham e choram, representando a inegável complexidade de longas histórias de vida. O elenco é um primor (Cássia Kis, Tônia Carrero, Clarisse Abujamra, Betty Faria, Stepan Nercessian), assim como a trilha compartilhada entre Elza Soares, Marku Ribas e a banda Luar de Prata que revive grandes sucessos dos salões de baile. Humano e simples como poucos diretores conseguiriam registrar.

APENAS UMA VEZ, de John Carney: Veio da Irlanda um dos romances comoventes dos últimos dez anos. Vencedor do Oscar de melhor canção original (“Falling Slowly”), Apenas Uma Vez é a perfeita síntese de como a simplicidade pode andar de mãos dadas com a emoção. Além disso, essa é uma produção que utiliza a música como elemento narrativo primordial, sem jamais reduzi-la a mero entretenimento ou curiosidade. É, afinal, por meio das canções que atravessamos as ruas de Dublin para conhecer um casal sem nome que muito se aproxima dos sonhos e dos anseios vividos por pessoas como eu e você. Apenas Uma Vez tem corpo, alma e uma coesão musical que muitos exemplares ambiciosos do gênero somente sonham em alcançar. Anos depois, o diretor John Carney viria a realizar outro drama romântico construído através da música, novamente na mesma batida de dramas cotidianos: o também adorável Mesmo Se Nada Der Certo.

Grandioso em escala e sentimento, Desejo e Reparação ainda é o ponto mais alto na carreira do diretor Joe Wright.

DESEJO E REPARAÇÃO, de Joe Wright: São raros os filmes que conseguem ser épicos em escala e intimismo, mas Desejo e Reparação é inquestionavelmente um deles. O que Joe Wright faz aqui ainda marca o auge de sua carreira: fora o apuro estético que permanece irretocável mesmo após uma década (e que provavelmente eternizará a sua áurea de clássico contemporâneo), Desejo e Reparação avança por diferentes tempos e perspectivas para falar sobre atos, consequências e suas diferentes reverberações através da culpa. No elenco, Keira Knightley e James McAvoy formam um casal como os melhores dos clássicos norte-americanos, mas é Saoirse Ronan, Romola Garai e Vanessa Regrave que roubam a cena quando dão vida à complexa Briony Tallis em diferentes fases (e, ainda que de certa forma polêmica, a personagem é capaz de passar um turbilhão de emoções ao espectador, principalmente no desfecho avassalador). Destaque ainda para a inesquecível trilha do italiano Dario Marianelli e o impressionante plano-sequência na batalha de Dunquerque.

LONGE DELA, de Sarah Polley: Sem dirigir ou atuar desde 2012, quando realizou o documentário Histórias Que Nós Contamos, Sarah Polley provou toda sua elegância, sobriedade e delicadeza como realizadora anos antes, ao lançar, em 2008, o drama Longe Dela, sua estreia na direção de longas após quarto curtas e uma breve experiência na TV. O resultado tem consistência como se fosse assinado por uma veterana: ao adaptar o conto The Bear Came Over the Mountain, de Alice Munro, Polley registra a clássica história do marido que lida com o Mal de Alzheimer da esposa, mas o relato, centrado mais na cotidianidade emocional de seus personagens do que no sofrimento trazido pela doença, propõe olhares diferenciados para uma temática já explorada extensivamente. Ao traduzir as complexidades e as transformações de um casal que compartilhou uma vida inteira juntos, Longe Dela se torna maduro e comovente por seu respeito à vida e ao quanto nos adaptamos ao longo e ao fim dela.

WALL-E, de Andrew Stanton: Foram nada menos do que seis indicações ao Oscar (e, claro, o troféu de melhor animação daquele ano), número que já sugere um prestígio raro inclusive para hoje os dias de hoje se tratando de produções com o selo Disney/Pixar, mas a verdade é que WALL-E representa mesmo um dos mais inesquecíveis momentos na carreira de todos os envolvidos no projeto. Com um emblemático personagem-título, a animação é impactante do ponto de vista visual e envolvente ao desenvolver uma trama ambiciosa que flutua entre o planeta Terra e o espaço sideral, preservando, mesmo após dez anos, a atualidade das questões tecnológicas e ambientais levantadas na época. Em suma, é uma animação inusitada e altamente criativa, exatamente no padrão das que elevaram o nome da Pixar, estúdio que hoje já não realiza exemplares semelhantes com a mesma frequência após ter sido comprado pela Disney.

Subestimado por público e crítica, Ensaio Sobre a Cegueira teve a validação do consagrado escritor José Saramago.

ENSAIO SOBRE A CEGUEIRA, de Fernando Meirelles: Da morna recepção em Cannes ao pouco apreço do público no circuito comercial, Ensaio Sobre a Cegueira teve, no entanto, a aprovação que o diretor Fernando Meirelles mais precisava: a de José Saramago, autor da obra homônima cuja adaptação era tida como impossível e que não escondeu a sua comoção ao ver seu trabalho transposto para as telas. Não concordo com as recepções medianas que Ensaio Sobre a Cegueira recebeu em seu lançamento e tenho esse filme como mais um ótimo exemplo de toda a solidez de Fernando Meirelles como realizador mesmo em terras estrangeiras. Explorando a barbárie de seres humanos que regridem para seu instinto mais primitivo após uma cegueira repentina, o relato é cru na medida exata, levando esse acertado ponto de equilíbrio dramático para a parte técnica (lembram da impactante fotografia de César Charlone?) e também para as interpretações, onde a grande Julianne Moore tem um dos desempenhos mais subestimados de toda a sua carreira.

O NEVOEIRO, de Frank Darabont: Último longa-metragem dirigido pelo prestigiado Frank Darabont (Um Sonho de LiberdadeÀ Espera de Um Milagre) até o presente momento, O Nevoeiro adapta o romance homônimo do mestre Stephen King com vigor tanto no suspense quanto nas diversas provocações suscitadas ao longo de uma história aparentemente corriqueira sobre pessoas que ficam presas em um supermercado em função de um forte nevoeiro. Para absorver o que existe de melhor do longa, é preciso compreender que o verdadeiro horror não está no que os personagens deduzem ter no lado de fora do estabelecimento, mas sim nas conturbadas e perigosas relações humanas que passam a estabelecer coletivamente em um espaço restrito. O desfecho é atordoante e a condução até lá exercita o suspense com questões cotidianas a partir de um plano mais fantástico, proporcionando momentos assustadores e que fazem emergir o pior da mente humana — e nesse sentido, a magnífica interpretação de Marcia Gay Harden dificilmente sairá da sua cabeça após a sessão.

[REC], de Jaume Balagueró e Paco Plaza: É o tipo de terror estrangeiro que o cinema norte-americano tentou copiar posteriormente, mas que, assim como tantos outros, não rendeu qualquer produção equivalente longe de sua terra nativa. Concebido na Espanha, [REC] acompanha uma repórter e um operador de câmera que, chamados para fazer a cobertura de uma situação de emergência em um grande prédio, acabam presos no local após acontecimentos misteriosos. A proposta de gravar tudo em primeira pessoa (o repórter, apesar de todos os acontecimentos possíveis, nunca desliga a câmera) parece batida, mas, na época e ainda hoje, [REC] a utilizou com uma visceralidade única, levando diversas plateias ao redor do mundo para os mais sombrios e angustiantes lugares que a nossa imaginação pode criar (pouco é de fato mostrado no longa, o que deixa basicamente tudo para a mente do espectador). Pela eletrizante viagem orquestrada, dá até para relevar uma certa implausibilidade do operador de câmera nunca desligar o equipamento mesmo nas situações mais desesperadoras.

VICKY CRISTINA BARCELONA, de Woody Allen: Um dos trabalhos mais inspirados de Woody Allen considerando tudo o que ele realizou desde o início dos anos 2000, Vicky Cristina Barcelona tem muito a encantar com as charmosas paisagens e locações espanholas. No entanto, o mais interessante do filme é explorar as decisões irresistivelmente tortas e inconscientes que tomamos quando não sabemos exatamente o que queremos para a vida. Assim são todos os personagens do longa: fascinantes por serem erráticos nessa busca incessante que alimentamos por um suposto caminho certo, quando, na verdade, irremediavelmente, todos não deixam de ser errados dependendo da perspectiva. Scarlett Johansson, Rebecca Hall e Javier Bardem desdobram tais reflexões com uma química impecável, mas é Penélope Cruz, em uma fase iluminada depois da merecida e positiva reviravolta trazida para a sua carreira por Volver, que rouba a cena. É, enfim, um momento inspirado na prolífera carreira de um diretor cuja trajetória no Cinema hoje está basicamente encerrada após a avassaladora onda do movimento #MeToo.

O Cinema diz: #elenão (participação no blog Classe de Cinema)

Murilo Benício e Luciana Paes, protagonistas de O Animal Cordial: através do horror, filme de Gabriela Amaral Almeida radiografa muitas das agruras políticas e sociais do Brasil atual.

Recentemente, fui convidado pelo Yuri Célico, do blog Classe de Cinema, a participar da série “O Cinema diz: #elenão”. A ideia do projeto é trazer convidados que escrevam sobre um filme que converse com a nossa situação política, no intuito de refletir e ilustrar os riscos que estamos correndo com um certo presidenciável que representa sérios riscos à democracia e que tanto dissemina ódio e preconceito Brasil afora. Ao receber o convite do Yuri, constatei que tenho visto mais filmes brasileiros do que estrangeiros nos últimos anos. Parando para pensar nas razões que me levaram a essa nova estatística, percebo que, sim, o cinema brasileiro tem crescido em quantidade e pluralidade, mas o que mais tem me fascinado nessa recente safra é o número de produções que radiografam determinados momentos e condições atuais do nosso Brasil. Por isso mesmo, escolhi para a minha participação O Animal Cordial, uma obra brasileira, que, em formato, temática e gênero, é um grito por #elenão, escancarando muitas das feridas abertas do Brasil em que vivemos. E o que considero mais brilhante no filme é transpor essas cicatrizes para o plano do horror. O Animal Cordial faz jus à clássica definição de que a realidade pode ser muito mais aterrorizante que a ficção. Abaixo eu reproduzo as razões que elenquei no Classe de Cinema!

1 – É dirigido por uma mulher em um gênero essencialmente dominado por homens
Segundo dados da ANCINE, apenas 19,7% dos 142 filmes brasileiros lançados comercialmente em 2016 levam a assinatura de mulheres. Tendo apenas isso em vista, O Animal Cordial já seria um caso a ser notado. No entanto, se levarmos em consideração que essa é uma chamada obra de “gênero”, a situação é ainda mais rara. Afinal, quantos filmes de horror dirigidos por mulheres você conhece, inclusive em uma perspectiva mundial? O longa é mesmo um ponto fora da curva e, por que não, um (delicioso) atrevimento: ora, como assim uma mulher tem o topete de dirigir um filme de horror? Pois Gabriela Amaral Almeida tem mesmo, e isso é incrível, já que O Animal Cordial coloca na tela discussões que as produções brasileiras, em sua maioria masculina, raramente ousariam colocar.

2 – Utiliza o terror como metáfora social
As doses de sangue são cavalares. O pânico é constante. Os personagens são imprevisíveis. Mas quer saber o que incomoda mesmo em O Animal Cordial? É o fato de tanto horror representar fielmente os nossos tempos, quebrando as convenções do gênero para, sim, ser um angustiante slasher, mas, também para se tornar, a cada personagem, a cada reviravolta, a cada diálogo, um mosaico sobre as agruras que atingem a sociedade brasileira. Sempre considerei os melhores filmes de horror aqueles que se utilizam das ferramentas do gênero para falar sobre questões humanas, íntimas ou sociais. E, se você presta a mínima atenção no Brasil que está aí, verá que o sangue que escorre no longa é, na verdade, o de um país em plena convulsão.

3 – Mostra o autoritarismo e o abuso de poder no ambiente de trabalho
Vejam de onde parte O Animal Cordial: após um longo dia de trabalho em um restaurante, o chefe decide manter os funcionários além do expediente porque mais dois ou três clientes chegaram ao estabelecimento que já deveria estar fechado. Os funcionários reclamam. O chefe não ouve. Manda quem pode, obedece quem precisa. Logo mais, um acontecimento inesperado vira o restaurante de pernas para o ar, mas já no início da projeção você percebe as discussões de um roteiro super contemporâneo: em tempos que as taxas de desemprego crescem e que trabalhamos o dobro para pagar o mesmo custo de vida que tínhamos até pouco tempo atrás, parece não haver muita solução a não ser entrar no sistema e aceitar as cada vez mais terríveis condições de trabalho para conseguir pagar as contas, aguentando até mesmo os surtos autoritários de um chefe que, com os empregados na palma da mão, faz questão de mostrar quem é dono e quem é empregado.

4 – Lembra que falta de educação é coisa de gente rica
Diria a já eterna Clara de Sonia Braga em Aquarius que falta de educação não é coisa de gente pobre, e sim de gente rica que acredita que dinheiro define caráter. Verdade. E, quando a personagem de Camila Morgado entra no restaurante de O Animal Cordial  bem vestida, maquiada e acompanhada do marido, logo se percebe isso: na maneira como não dirige o olhar à atendente, como faz seu pedido praticamente questionando o entendimento da garçonete em relação ao que é servido e até mesmo na postura com que se coloca em uma mesa de jantar, ela é a afiadíssima na representação daquela parte elitista da população que, entre outras coisas, acredita que, por pagar um serviço, está acima de quem o presta. Na prática diária, aplicam o que defendem na política que acreditam ser a melhor para o país: exclusão e indiferença, especialmente em relação a quem não se equipara ao seu alto padrão de vida.

5 – Renega os estereótipos femininos dos filmes de horror
Pense nos filmes de horror que você já viu. Na maioria deles, provavelmente as figuras femininas têm pouca influência. Ou pior: surgem apenas com pouca roupa para morrer de maneiras sádicas ou voyeurísticas. Pois O Animal Cordial desconstrói tudo isso. O personagem vivido por Murilo Benício pode ditar boa parte dos acontecimentos da trama, mas é a figura de Luciana Paes que toma as rédeas do filme. Muitos dos desdobramentos são conduzidos por ela, inclusive a única cena de sexo onde é a mulher quem comanda cada centímetro de uma poderosíssima interação sexual. Sem idealizações ou estereótipos, Luciana, como a atriz gigante que é, dá ainda mais intensidade e complexidade a uma protagonista que subverte o que o gênero costuma fazer com o sexo feminino, tornando-o peça decisiva de uma trama que não faria o menor sentido sem ele.

6 – Entrega ao personagem LGBTQI+ a bússola moral da trama
Normalmente retratados como mero alívio cômico ou figuras cujos dilemas se resumem à questão da sexualidade, os personagens LGBTQI+ também ganham nova roupagem em O Animal Cordial. À parte o fato de Irandhir Santos ser um grande ator, a construção de seu cozinheiro de gênero fluido o coloca como a única pessoa verdadeiramente sã e com alguma bússola moral dentro do rico mosaico construído pelo roteiro. Capaz de racionalizar situações sem jamais recorrer a escolhas ou instintos primitivos, o cozinheiro é a voz da razão em um ambiente onde todos, anestesiados pelo pânico, só conseguem expor o lado mais sombrio de suas naturezas. Há um universo dentro de cada olhar e de cada decisão tomada pelo personagem de Irandhir, que, mesmo sendo um coadjuvante, consegue, junto ao material que lhe é dado, construir um tocante background para o cozinheiro e para tudo o que ele representa.

7 – Defende a ideia de que a pior violência é, na verdade, a emocional
Em um filme com expressivas doses de sangue fatalidades, Gabriela Amaral Almeida propõe que a maior violência não é a física, e sim outras que eu e você vivemos ou presenciamos diariamente no cotidiano. Já falei sobre a forma como a elitista passiva-agressiva de Camila Morgado despreza a garçonete do restaurante. No entanto, há outro momento altamente simbólico: aquele em que Irandhir Santos tem seus cabelos cortados. A cena é dolorosa porque representa, mais uma vez, o ódio gratuito e infundado à uma minoria que precisa lutar diariamente pela aceitação de sua identidade na vida e no trabalho. É golpe duríssimo ver uma identidade julgada e agredida pela sociedade que, sabe-se lá o porquê, tanto se incomoda com o fato do próximo ser simplesmente quem é. Muito mais do que qualquer sangue escorrendo pelas paredes após o disparo certeiro de uma arma.

8 – Alerta para o perigo da paixão e do fanatismo
Secretamente, uma personagem de O Animal Cordial está apaixonada. E, em nome da paixão e do desejo de ser notada, toma decisões que, em um dia qualquer de sua existência, não tomaria. Essa personagem também é capaz de se adaptar à personalidade do amado, frequentemente se anulando para apenas agradá-lo. Em determinado ponto, enfim, também não há mais problema em cometer crimes em nome do amor. Paixão e fanatismo podem muito bem caminhar juntos, e O Animal Cordial alerta para essa linha tênue, utilizando, claro, a metáfora do horror. É uma representação assombrosa do período polarizado que vivemos no Brasil, quando, a todo custo, movimentos e militâncias rompem as barreiras do bom senso moral e ético para atacar o oponente e defender cegamente qualquer ídolo que julguem digno de veneração.

9 – Retrata a busca pelo protagonismo em uma sociedade de winners
O que a vida costuma nos exigir é o seguinte: você se torna alguém ou, então, nada vale a pena. E ser alguém pode se resumir a ser o dono de um estabelecimento de respeito. Também pode se resumir a algum tipo de reconhecimento por parte de “superiores”. Ou, enfim, pode ser também a vontade de ser protagonista de sua própria vida. Os personagens de Murilo Benício e Luciana Paes englobam tudo isso, cada um à sua maneira. Gosto especialmente dela, que, garçonete tratada com descaso pelo chefe, faz o que é preciso para ter algum tipo de importância dentro do restaurante onde trabalha ou que toma decisões radicais para sair do status de mulher comum e pouco desejada para, enfim, ser vista como uma figura influente, atraente e, por que, não temida. Em uma sociedade que tanto festeja os winners, os personagens de O Animal Cordial caem mais um pouco na escuridão ao serem movidos por essa pressão sócio-cultural.

10 – Reforça a falência da dita masculinidade
Murilo Benício dá vida à figura masculina central de O Animal Cordial. No entanto, o personagem é, no fundo, um homem falido em reputação e masculinidade. Ele tenta provar a sua hombridade de maneiras equivocadas, machistas e preconceituosas, o que está evidente em toda e qualquer interação que ele estabelece com qualquer outro personagem. Dono de um restaurante, abusa do seu poder de chefe para (tentar) mostrar que tem alguma autoridade ou que é um relevante profissional. Homem supostamente forte em uma situação de perigo, pensa que, por ter uma arma na mão e por ter o controle de um momento extraordinário, pode submeter todos às situações que bem entender. É o chamado macho alfa que, na ameaça, no machismo, no preconceito e no grito, busca se provar homem e que, ao fazer isso, só mostra o quão pequeno e insignificante é como ser humano. Exatamente como o inominável que motiva essa série do Classe de Cinema.

No calor do momento, o que podemos concluir sobre o Oscar de “Melhor Filme Popular”?

Foi anunciado há pouco pela Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood: a partir de 2019, o Oscar terá a categoria de “Melhor Filme Popular”. Ao contrário do que a Academia pensa, estamos falando de um enorme desserviço, já que segmentar não é necessariamente um mérito. Os documentários e as animações estão aí para provar, pois praticamente nunca são lembrados nas ditas categorias principais. E por que não são? Ora, não há razão para indicá-los em “Melhor Filme” já que eles têm categorias próprias para concorrer. É por isso que a mudança se revela uma baita bola fora: ao criar a categoria de “Melhor Filme Popular”, o Oscar diz, nas entrelinhas, que blockbusters como Pantera Negra, por exemplo, não devem ser levados tão a sério quanto A Forma da Água ou Moonlight, citando os vencedores recentes da honraria máxima.

A mudança reflete, claro, o próprio diagnóstico que a Academia deve ter feito de seu histórico recente. E vamos muito além do fato de Batman: O Cavaleiro das Trevas ter sido ignorado na categoria principal em 2009. Mesmo ampliando o número de indicados em melhor filme, tal escolha mais diluiu a reputação do prêmio do que necessariamente aprimorou a disputa. Afinal, dois casos que corroboram essa afirmação ainda estão muito vivos na memória: Gravidade e Mad Max: Estrada da Fúria. Ambos faturaram sete e seis estatuetas respectivamente, mas não levaram para casa o título de “Melhor Filme”. No caso de Gravidade, o prêmio foi para 12 Anos de Escravidão, vencedor apenas nas categorias de roteiro adaptado e atriz coadjuvante. Já com Mad Max, a situação piora: Spotlight, vencedor daquele ano, conquistou somente o prêmio de melhor roteiro original. Como não encarar tal cenário, afeito aos “projetos sérios”, como puro preconceito com o cinema de alta repercussão popular?

O diagnóstico certamente foi feito, mas a solução é um equívoco. Não à toa, você já deve ter ouvido que animação não é cinema. Agora, futuramente, também correrá o risco de ouvir que filmes populares também não são. Com a maturidade de um MTV Movie Awards, a Academia não observa o próprio Globo de Ouro, que há décadas coloca as comédias em um cantinho à parte, decisão que inferioriza o gênero e rende indicações preguiçosas ou de gosto duvidoso, provando que o prêmio realmente não dá mesmo muita bola para esse segmento. Com tantas novas categorias para serem criadas (alô, melhor elenco!), o Oscar opta não pela inovação, mas por um caminho fácil, antiquado e que há muito tempo já se provou tão ineficiente quanto problemático em ideias. Para completar, a Academia ainda anunciou a decisão de apresentar os vencedores de determinadas categorias (a serem definidas) durante os comerciais, exibindo a entrega dessas estatuetas mais tarde na cerimônia, com os momentos já gravados e editados. Talvez ainda seja cedo para avaliar o real efeito, mas tudo isso não parece nada favorável. E, vocês, o que acham?

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