Cinema e Argumento

Adeus, 2020! (e as melhores cenas do ano)

O que dizer de 2020 que todo mundo já não saiba ou tenha sentido na pele? Que foi um ano confuso, difícil e onde tudo fugiu à regra? Isso mesmo. Acho que todos concordamos. E não vou negar: fui tomado por um esgotamento físico e mental diante de tantas avalanches que, na maior parte dos dias, só consegui cumprir o básico das tarefas minimamente obrigatórias do dia a dia. O resto acabou ficando um pouco de lado, incluindo o cinema, como vocês podem ter percebido aqui pelo blog. Certamente queria ter visto mais filmes e, principalmente, ter escrito sobre eles. Não consegui. E acho que tudo bem não dar conta de abraçar o mundo.

Ainda assim, vi grande parte daquilo que quis ver em 2020. Também tive algumas aventuras de grande felicidade, como o convite para ser jurado do Festival de Cinema de Gramado e a reativação do canal do blog no Youtube. E vivi, claro, uma das maiores revoluções cinematográficas do ano: a de ficar sem ir a uma sala de cinema desde que a pandemia começou, tendo que garimpar os mais variados filmes em diferentes plataformas de streaming (lembrem-se: há um universo imenso a ser descoberto fora da Netflix e do Prime Video). Dentro do possível, portanto, meu aproveitamento cinéfilo foi razoável em 2020, e compartilho com vocês, como já é tradição aqui no blog, as minhas cenas favoritas do ano para encerrar esse ciclo. Vale reforçar: são consideradas aqui apenas as obras lançadas comercialmente no Brasil, seja nas salas de cinema ou em streaming. Até 2021, queridos leitores!

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Os minutos finais de Clemency

O que Alfre Woodard faz no encerramento de Clemency coloca todas as indicadas ao último Oscar de melhor atriz no bolso. Sufocante e hipnotizante também em aspectos de direção, trilha e som, é o tipo de momento que transforma uma personagem através do não-dito, sem precisar de uma palavra sequer. Como a atriz superlativa que é, Alfre compreende a potência das revoluções internas, e tem aqui um dos recortes mais marcantes da sua carreira.

A dança na escola em Estou Pensando em Acabar Com Tudo

Não estou no time daqueles que embarcaram em Estou Pensando em Acabar com Tudo, mas a forma poética com que Charlie Kaufman captura esta sequência isolada de dança em um filme já inusitado é de arrepiar. Não se trata apenas da inegável beleza estética audiovisual e dos movimentos corporais dos atores: nela, está concentrada uma narrativa ao mesmo tempo isolada e parte da história como um todo. É bela, trágica e melancólica.

Judy Garland canta “Somewhere Over the Rainbown” em Judy: Muito Além do Arco-Íris.

Cinebiografia que recebeu menos apreço inclusive de quem costuma gostar dos filmes deste gênero, Judy me tocou por não querer fazer de seu relato uma jornada de redenção para a vida de uma mulher cujos últimos dias foram carregados de problemas, tristeza e esquecimento. E, quando canta Somewhere Over the Rainbown, Judy Garland comove não porque vê sua voz falhar, mas porque justamente ainda tenta encontrar nos palcos todo o amor que um dia recebeu.

Corrida no campo de batalha em 1917

Inegável espetáculo técnico, 1917 pode não ter me envolvido dramaticamente, o que não foi impeditivo para o meu maravilhamento em cenas como esta, onde o soldado Schofield (George McKay), literalmente correndo contra o tempo para cumprir o prazo da missão que lhe foi dada, atravessa um campo de batalha a plenos pulmões em meio a confrontos, ataques e bombardeios. É um colosso pelos efeitos práticos, pelo plano-sequência, pela trilha de Thomas Newman e por toda a produção de escala envolvida. 

Héloïse assiste ao concerto em Retrato de Uma Jovem em Chamas

É aparentemente a cena mais simples do mundo: do alto da plateia, Héloïse, uma das protagonistas de Retrato de Uma Jovem em Chamas, acompanha um concerto de música clássica. Entretanto, conforme a música evolui e a câmera se aproxima da personagem sem cortes, tudo se agiganta. Ali está um mundo íntimo e secreto, povoado de lembranças, sentimentos e saudades. A potência emocional da cena é imensa, e Adèle Haenel dá um show ao transmitir o turbilhão de sentimentos que sua personagem vive internamente.

O ballet de Pacarrete

A arte como forma de expressão e libertação ganha contornos poéticos como poucas vezes vimos no cinema brasileiro recente por meio do ballet de Pacarrete (Marcélia Cartaxo). No filme de Allan Deberton que leva o nome da personagem, Cartaxo dá vida a uma bailarina incompreendida por sua cidade, e que grita para ser vista e ouvida de alguma forma. O norte da trama é a luta da protagonista pela chance de apresentar seu ballet na festa de aniversário da cidade, e Deberton subverte as expectativas para fazer Pacarrete dançar com uma beleza e um simbolismo ímpares.

A libertação de Cecilia em O Homem Invisível

No melhor estilo Supercine, O Homem Invisível utiliza o gênero de suspense para falar sobre um tema seríssimo: o dos relacionamentos abusivos onde homens tornam a vida das mulheres um verdadeiro filme de terror. Por sentirmos o peso que a protagonista Cecilia carrega, qualquer libertação vivida por ela é uma pequena alegria. E a maior marca ápice do filme, onde Cecilia sente o vento bater de leve no rosto com uma serenidade que há muito tempo lhe era desconhecida. Até mesmo a trilha de altas notas assinada por Benjamin Wallfisch cai como uma luva para o momento.

O comercial de Madá em Três Verões

Afirmar que Regina Casé repete a val de Que Horas Ela Volta? em Três Verões é uma grande heresia, principalmente se levarmos em consideração esta sequência em que a personagem vivida por ela no filme de Sandra Kogut participa de um comercial de TV e acaba contando um triste acontecimento do seu passado. A transição da comédia para o drama é fantástica, coisa que Regina Casé, como a grande intérprete que é, domina com a maior naturalidade do mundo, e o relato só nos ajuda a entender de onde vem a resistência aparentemente inabalável da personagem.

“Nunca. Raramente. Às Vezes. Sempre.” em… Nunca, Raramente, Às Vezes, Sempre

Ao vermos Sidney Flanigan em qualquer cena de Nunca, Raramente, Às Vezes, Sempre, é difícil acreditar que esse seja somente o seu primeiro filme. A força, a complexidade e a sobriedade que ela trabalha no longa de Eliza Hittman é fruto de um talento nato, frequentemente impulsionado por intensas passagens do roteiro como esta que explica o título do longa. Munida basicamente apenas de quatro palavras, Sidney revela para o espectador muito do que vem guardando e represando até ali. Com extrema simplicidade, a cena ganha em realismo. E, com Sidney, em emoção na medida certa.

O monólogo de Paul em Destacamento Blood

Em seu mais novo filme, Spike Lee traz um pouco de tudo para o espectador: drama, guerra, pitadas cômicas, conflitos familiares, reflexões sobre o racismo, críticas políticas e até um monólogo onde Paul (Delroy Lindo) conversa diretamente com a câmera em um monólogo que faz uma síntese das discussões mais marcantes de Destacamento Blood. É uma passagem onde o filme intersecciona elementos da vida pessoal de um personagem com tudo aquilo que ele, um homem negro, representa para o mundo e para a sociedade. Entre outras coisas, Paul diz que o governo americano não foi capaz de matá-lo nas três vezes que lhe enviaram à Guerra do Vietnã — e que, se sobreviveu a isso, somente e ele e mais ninguém poderá decidir sobre a sua própria morte. Não tem como confundir: é Spike Lee na veia.

Das salas de cinema para o streaming: como ressignificar a condição de espectador e crítico a partir da pandemia?

* texto originalmente escrito para o site da Associação de Críticos de Cinema do Rio Grande do Sul

A pandemia do Coronavírus colocou o mundo de pernas para o ar e fez o isolamento social se tornar um dos pilares de prevenção e contenção em um cenário indiscutivelmente grave. Para os bem afortunados, privilegiados e empáticos que tiveram condições de aderir às medidas de isolamento, importantes reflexões vêm se apresentando quando o único universo físico que habitamos é a nossa própria casa. Afinal, sem o que realmente não conseguimos viver? Quais hábitos podem ser substituídos? Como adaptar para dentro de casa aquilo que nos deixa minimamente em dia com a nossa sanidade?

Pertencendo a esse grupo que se viu repentinamente isolado, descobri que posso, na medida em que o contexto exige até segunda ordem, viver sem muitas coisas, como um passeio de bicicleta em um sábado pela manhã ou uma noite com os amigos em uma mesa de bar. Também posso adaptar outras: o trabalho, antes restrito a um escritório, por exemplo, agora se revela perfeitamente viável no regime home office. Descobri, no entanto, que sem uma coisa de fato não posso viver: os filmes.

O cenário, até pouco tempo atrás, era inimaginável: gravações paralisadas, possíveis projetos engavetados indefinidamente, aguardadas estreias sem nova data para encontrar o público, emblemáticos festivais de cinema como o de Gramado realizados apenas em formato online… À parte a romantização de que não há experiência equiparável a assistir a uma obra em uma sala de cinema, creio que não podemos mesmo viver sem cinema. Toda arte teve esse poder potencializado agora: o de nos (re)conectar com o mundo, de nos levar a diferentes lugares, de despertar o exercício da empatia e de expandir o nosso repertório humano e intelectual quando o mundo tanto sofre.

Por isso, como não reverenciar a força e a revolução das plataformas de streaming que já se tornaram parte sólida dos nossos hábitos cinematográficos? Sem estreias, eventos e salas de cinema, espectadores do mundo inteiro voltaram-se exclusivamente ao streaming para continuar consumindo filmes, quando não aos links de obras gentilmente disponibilizadas de forma gratuita por realizadores como incentivo à necessidade do isolamento social. Ao migrarmos para esse formato de exibição, outro desafio se apresentou: nos vimos obrigados a repensar nossas condições como espectadores e críticos.

Sem calendário de estreias — e agora?

Para todos aqueles guiados pelas estreias semanais, o susto é imediato: qual a alternativa para um mundo com cada vez menos filmes inéditos? Tenho a resposta muito clara para mim. Ora, por que não ir atrás de todas aquelas obras que, devido à correria da rotina e à sedução de tantos filmes novos entrando em cartaz em um “mundo normal”, ficavam de lado nas nossas listas. Ou então desbravar novas narrativas, realizadores que não conhecemos e gêneros que não são os que costumamos consumir? É, enfim, uma bela oportunidade para mergulhar na pluralidade tão inerente ao cinema e que, em muitos casos, as plataformas de streaming barram com algoritmos pensados para o público assistir sempre o mesmo tipo de produção.

Nesse sentido, é inquestionável o papel crucial e até mesmo pioneiro da Netflix, por exemplo, na popularização exponencial dos streamings e na criação dessa nova cultura que envolve assistir filmes e séries em casa, mas vale sempre lembrar: há toda uma galáxia a ser descoberta, com plataformas para todos os gostos e bolsos. Como na infinidade de canais de uma TV por assinatura, não só podemos como devemos consumir de tudo um pouco. Dos clássicos do cinema japonês a títulos brasileiros contemporâneos, as plataformas de streaming estão aí, pedindo para serem descobertas, cada uma com suas respectivas propostas e particularidades. Por que se limitar a só uma delas?

Um exercício que me parece ainda mais gratificante do que alternar democraticamente entre streamings como Prime Video, Spcine Play, Looke, Now, Hulu, MUBI, Belas Artes à La Carte, é fazer uma lista própria do que queremos ver, sem consultar as plataformas, e, a partir dela, buscar onde esses filmes estão disponíveis. Afirmo sem medo de errar que esse é um belo exercício porque, ao fazê-lo recentemente, fiquei bastante surpreso com o aumento de variedade e a disponibilidade de obras de diferentes perfis. Está disponível no Looke, por exemplo, A Hora da Estrela, dirigido por Suzana Amaral, que nos deixou recentemente. Em plataformas mais populares como Netflix e Globoplay, títulos como Estou Me Guardando Para Quando o Carnaval Chegar, de Marcelo Gomes, e Ausência, do saudoso Chico Teixeira, também estão prontos para serem (re)vistos. E, no Now, temos inclusive clássicos do Mazzaroppi!

Garimpando pérolas do nosso cinema

Cito títulos brasileiros porque sabemos o quanto os longas produzidos nacionalmente, em especial aqueles menores e mais independentes, sofrem para encontrar espaço no circuito exibidor tradicional das salas de cinema, onde correm o risco de ficar restritos a horários limitados e durante poucas semanas em cartaz. Pois as plataformas de streaming dão lugar e vez para esses trabalhos, mesmo que em iniciativas com prazo de validade, como o Espaço Itaú Play, que recentemente exibiu, em regime de pré-estreia, filmes como Pacarrete, Três Verões, Aos Olhos de Ernesto e Música Para Morrer de Amor, que, em uma realidade sem pandemia, não chegariam a moradores de todos os estados do Brasil e dependeriam de um bom retorno do público para sobreviver em cartaz por mais de um mês.

A pluralidade dos streamings aponta ainda para outro aspecto muito importante e que, até pouco tempo atrás, poderia ser visto com preocupação: o da preservação da memória, que começou a evaporar quando o mercado testemunhou a extinção das videolocadoras e o desinteresse do público hiper conectado pela mídia física. Para onde iriam os filmes raros que só encontrávamos em uma videolocadora? Onde seria possível conferir aquele longa independente e autoral que você milagrosamente só encontrava na coleção de um amigo e que não tinha espaço no catálogo de streamings que, recém surgidos, apontavam para uma predileção por obras de senso mais comum?

Durante muito tempo, como um orgulhoso colecionador de DVDs e blu-rays, vivi essa angústia, mas hoje é com otimismo que encaro tal questão ao encontrar nos streamings obras que, mesmo na era da mídia física, caíram no limbo ao sequer serem lançadas no mercado, como Gretchen Filme Estrada, excelente documentário de Eliane Brum e Paschoal Samora que foge da armadilha de ser um mero relato sobre a vida da cantora Gretchen para se tornar uma reflexão sobre a decadência artística e para discutir, de forma até profética, aspectos políticos do nosso Brasil que hoje vivemos de forma tão clara e escancarada. Sem lançamento em DVD, o filme estava há anos desaparecido, fora de alcance por meios legais, e agora pode novamente ser e descoberto pelo Looke.

Seguindo a linha da pluralidade de plataformas e de preservar a memória especificamente do cinema brasileiro fora do circuito mainstream, cito outros dois documentários que (re)descobri ao me confrontar com uma relação mais próxima com os streamings em tempos de isolamento social. O primeiro é Bixa Travesty, de Cláudia Priscilla e Kiko Goifman, um instigante estudo de personagem que, a partir da vida e da música da cantora transexual Linn da Quebrada, desafia o espectador a ressignificar conceitos e tabus envolvendo identidade, gênero, raça, sexualidade e liberdade. Premiado no Festival de Berlim com o Teddy de melhor documentário, Bixa Travesty teve passagem tímida pelos cinemas brasileiros, mas hoje ganha visibilidade nacional no catálogo do Now.

Já o segundo é O Caso do Homem Errado, dirigido por Camila de Moraes. Mais urgente do que nunca, a história do operário negro Júlio César — que, ao ser confundido com um assaltante, foi executado pela Polícia Militar do Rio Grande do Sul, no dia 14 de maio de 1987 — recupera um triste acontecimento que, mesmo depois de três décadas, reverbera em carne viva, expondo a cultura ainda racista e segregacionista de um Brasil inteiro. Mulher, negra e, por isso mesmo, munida de lugar de fala, Camila narra O Caso do Homem Errado com emoção e sem meias palavras, interseccionando a eterna e incansável busca por direitos humanos, a reivindicação por uma sociedade antirracista e a história muito íntima de Júlio César, cuja vida interrompida ganha traços comoventes especialmente nos depoimentos de sua esposa. Também com passagem limitada pelos cinemas, o filme está disponível gratuitamente no Looke.

Explorar streamings para expandir olhares

Citando brevemente esses títulos, percebo novamente a importância de ampliar nossos horizontes como críticos e espectadores. Não é sobre se tornar o estereótipo do crítico exigente, técnico e chato que já foi até parodiado em animação da Pixar, mas de perceber que o mundo (e consequentemente a arte) é muito maior do que o algoritmo popular da Netflix ou o confortável calendário de grandes estreias que tanto guia a busca por sessões ao redor do mundo. Estar em casa e com uma infinidade de plataformas à disposição reforça esse exercício por vezes esquecido na correria do dia a dia de valorizar a pluralidade que o “circuitão” não costuma reconhecer.

No tocante ao cinema produzido aqui no Brasil, dar musculatura e esse tipo de hábito é também um grito de resistência para manter viva, atuante e visível uma produção cinematográfica que, já sistematicamente sabotada antes mesmo da pandemia, agora terá de enfrentar os difíceis efeitos desse cenário global para se reerguer, como se as políticas de desmonte do atual governo Bolsonaro já não fossem penosas o suficiente. Quando valorizamos filmes de gêneros diferentes, dirigidos por mulheres, com narrativas negras e descentralizados do eixo Rio-São Paulo, fortalecemos nosso pequeno grande papel no incentivo a nossa cinematografia.

Claro que sou suspeito para falar, mas a crítica de cinema, hoje já definitivamente imersa na cultura do streaming como um caminho sem volta, parece de grande ajuda para apontar novas tendências, fugir do lugar-comum, educar diferentes olhares e incrementar a formação cinematográfica das plateias, respeitando sempre, claro, as respectivas bagagens, afinidades e preferências de cada espectador. Cada vez mais, estamos aqui para isso.

“Crítica em Transe”: promovido pela ACCIRS, debate entre críticos reflete sobre nossa relação com o streaming na pandemia

A pandemia do Coronavírus transformou a nossa relação com o cinema? Onde é possível encontrar opções que fogem dos catálogos habituais oferecidos pelas plataformas de streaming mais populares? O ritual de assistir a filmes tem se modificado?

Fui convidado pela Associação de Críticos de Cinema do Rio Grande do Sul (ACCIRS) a participar de um bate-papo com outros colegas da crítica sobre cinema em tempos de pandemia. Na conversa, fomos desde o cinema japonês dos anos 1950 até pérolas do cinema brasileiro contemporâneo, refletindo sobre nossa relação com as plataformas de streaming. Conversam comigo os queridos colegas e associados da ACCIRS, Fatimarlei Lunardelli e Renato Cabral.

Assista ao debate na íntegra:

Adeus, 2019! (e as melhores cenas do ano)

2019 foi um ano difícil. A enxurrada de notícias absurdas, reviravoltas políticas inacreditáveis e desmontes que levarão anos (talvez décadas) para serem recuperados abalou a estrutura de um Brasil já fraturado há alguns anos. Como sempre, os filmes foram o meu refúgio. Na sala de cinema, mesmo revisitando nossas angústias diárias discutidas por filmes de tantos cantos do mundo, mergulhei em outras dimensões. Dez dos momentos que mais me marcaram estão listados abaixo, sem ordem de preferência, seguindo a tradição do blog ao final de cada ano. Que estas sequências sirvam de retrospectiva para 2019 e que também nos dêem força e vigor para encarar 2020. Continuamos juntos, queridos leitores!

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O sorriso de Zain em Cafarnaum

Possivelmente o único vislumbre de esperança no poderoso filme de Nadine Labaki. Mais um momento avassalador do pequeno Zain al Rafeea, que estraçalhou meu coração durante pouco mais de duas horas. Embalada pela marcante trilha de Khaled Mouzanar, é uma imagem hipnotizante capaz de ecoar durante muito tempo após a sessão.

O reencontro de Salvador e Federico em Dor e Glória

Todo o universo de uma paixão intensa e impossível traduzido em uma única noite. Antonio Banderas e Leonardo Sbaraglia criam uma química de tirar o fôlego. Uma cena cuja sensibilidade, profundidade e dimensão só poderia vir de um cineasta tão humano e apaixonado como Pedro Almodóvar.

Uma dança para a rainha Anne em A Favorita

A cena que merecidamente garantiu o Oscar de melhor atriz para a excepcional Olivia Colman. Em um plano sem cortes, o diretor Yorgos Lanthimos aproxima o espectador do rosto de uma personagem cujos sentimentos se modificam a cada segundo. Uma aula de atuação sem uma palavra sequer, baseada em expressões que sintetizam a grandeza de uma intérprete.

A participação especial de Fernanda Montenegro em A Vida Invisível

Seja na TV, no teatro ou no cinema, o ar parece se transformar quando Fernanda Montenegro entra em cena. Não é diferente em A Vida Invisível. Com uma participação especial de cortar o coração, ela dobra a intensidade dramática do filme, fechando a trama com chave de ouro.

Sorrindo para o caos em Coringa

Sequência que marca um dos auges da imponente interpretação de Joaquin Phoenix. Quando Coringa finalmente nasce em meio ao caos, o ator segue preocupado em mergulhar no homem conturbado por trás de um sorriso desenhado com sangue. Perturbadora e intensa, a cena seria o desfecho perfeito caso Coringa não tivesse avançado um tantinho mais na história.

Uma ligação carregada de culpa em O Irlandês

Entre murmuros, hesitações e espantos, Robert De Niro tem, em uma ligação assombrada pela culpa, o seu maior momento em muitos anos. Todo o remorso de um personagem lidando com as consequências e os fantasmas de suas escolhas é capturado com plenitude pelo ator. Precisamos sempre de mais momentos como esse para De Niro.

O número musical da canção-título de Rocketman

Passagem que melhor sintetiza a criatividade e a liberdade artística de Rocketman. Por ter carta branca de Elton John e por se permitir explorar a magia que sempre cercou a carreira do cantor, o musical de Dexter Fletcher escapa do lugar-comum, especialmente nessa cena da canção-título, que leva Elton da overdose em uma piscina ao céu como um foguete.

Noite de chuva em Parasita

Mais do que um momento específico, todo o ato envolvendo a noite de chuva em Parasita é um assombro. Com reviravoltas, críticas sociais e diferentes leituras dramáticas, Bong Joon-ho leva o espectador por caminhos surpreendentes e inesperados, dando mais uma guinada nas tantas transformações de gênero trabalhadas ao longo da projeção.

Invasão ao edifício em Mormaço

Totalmente alinhado com a nossa realidade, Mormaço é uma inquietante experiência que começa quase documental para, aos poucos, tornar-se uma obra de toques fantásticos, flertando até mesmo com o terror. E a sequência final, que acompanha uma invasão da polícia carioca a um prédio em particular, é um pesadelo social que Marina Meliande filma com brutalidade e veracidade.

Reunião familiar em Se a Rua Beale Falasse

Quando Barry Jenkins reúne as duas famílias de Se a Rua Beale Falasse para um jantar onde Tish (KiKi Layne) revelará uma importante notícia, as melhores características do longa vêm à tona, começando pela forma crítica com que olha para estereótipos e indo até a leitura sensível que faz do verdadeiro significado da palavra família.  

Charlie e a carta de Nicole em História de Um Casamento

A cena de discussão entre os dois protagonistas já é famosa, mas prefiro ficar com a sequência em que Charlie (Adam Driver) encontra a carta que Nicole (Scarlett Johansson) não leu na sessão de terapia frequentada pelos dois. A interpretação de Driver é maravilhosa, e o momento, dividido entre a melancolia e o afeto, compreende que nem todo término de relação deixa apenas gostos amargos.

O cinema e os nossos amigos (adeus, querido Rubens!)

Foto de Rafael Roncato

“O cinema é um grande companheiro, todo dia trazendo uma surpresa nova. Revejo os filmes como quem reencontra velhos amigos”.

– Rubens Ewald Filho

Hoje perdemos Rubens Ewald Filho.

No mesmo dia em que é comemorado o Dia do Cinema Brasileiro.

No mesmo dia que marca o centenário do nascimento de Pauline Kael, uma das maiores críticas de cinema que já passaram pelo nosso plano.

Tudo o que Rubens representou para a popularização da crítica de cinema, para a reverberação midiática da cultura e para o cinema brasileiro está aí nas inúmeras homenagens que, com imensa justiça, já estão sendo feitas a ele. No que me toca, posso falar sobre um outro Rubens: aquele que conheci há quase dez anos, no meu primeiro Festival de Cinema de Gramado, e também aquele que, durante todo esse tempo em que convivemos e trabalhamos juntos no evento, sempre me tratou com extrema generosidade e humanidade.

Ao receber a fatídica notícia da sua despedida, imediatamente tentei puxar à memória o último momento em que estive com ele. E — que sorte a minha! — é um momento que lembro de maneira muito viva. Foi logo após a entrega dos Kikitos do Festival de Cinema de Gramado em 2018, quando esbarrei com Rubens na entrada de um hotel da cidade. Com a curiosidade e a preocupação com o trabalho que lhe eram característicos, me perguntou se eu havia considerado coerentes os prêmios daquela noite e se havíamos feito uma boa edição do evento. Concordamos em basicamente tudo, com o que era justo e com o que não era. E ele ouvia. Com atenção e interesse. Algo cada vez mais raro nos dias de hoje.

Ao fim da conversa, Rubens me fez duas cobranças. A primeira por tê-lo convidado a participar apenas uma vez aqui do blog. Ele disse que escreveria sobre o que eu quisesse e que estaria sempre disposto a contribuir para a minha trajetória como crítico de cinema. A segunda foi por eu não ter prometido seguir a sua sugestão de que, com os anos que trabalhei em Gramado, um dia escreveria um livro falando, de forma bem humorada, ficcional e curiosa, sobre tudo o que vemos e vivemos com personalidades e jornalistas nos bastidores de um evento de cinema. O prefácio seria escrito por Rubens Ewald Filho, ele garantiu.

Confesso que, mais uma vez, não prometi que escreveria o tal livro. E registro essa pequena lembrança que hoje me bate de forma tão emocionante como uma forma de reparação, realizando pelo menos um tantinho do que ele queria que eu fizesse. Ou seja, ainda que no blog e em poucas palavras, eu deixo eternizada ao menos uma lembrança de um evento de cinema. E com ninguém menos que Rubens Ewald Filho.

Após a nossa última conversa, abracei Rubens, e prometemos que nos veríamos no próximo Festival. Separei, nesse meio tempo, todos os guias de DVD que ele escreveu ao longo da carreira e que tanto despertaram a cinefilia que hoje existe em mim para que ele autografasse da próxima vez que nos víssemos. Era um absurdo termos trabalhado juntos durante quase dez anos e eu nunca ter levado nenhum livro para que ele pudesse escrever uma dedicatória (malditos tempos digitais!).

Isso, no entanto, não deixa de ser uma bobagem: o tanto que Rubens me incentivou e fez parte da minha história como uma “pessoa de cinema” (termo que ele próprio gostava de usar) não cabe em uma dúzia de palavras assinadas em um papel. O Rubens que fica comigo é aquele que leu meus textos, incentivou minha escrita, deu conselhos quando eu estava nervoso antes de entrevistar uma atriz e que se revelou, de fato, a pessoa querida e generosa que, desde muito jovem, eu imaginava que ele pudesse ser ao ler seus comentários sobre cinema.

Na vez em que escreveu para o Cinema e Argumento em 2013, Rubens falou sobre algumas das interpretações do cinema que mais lhe marcaram, citando, entre as atrizes, Debbie Reynolds. À época, um trecho em particular me comoveu, e agora ganha outro sentido: “Debbie até hoje trabalha (fez há pouco Behind the Candelabra, para a HBO, com Michael Douglas), tem um estúdio de ensaios e faz shows para se sustentar. Vai morrer em cena, sempre gosta de dizer. Como eu também gostaria que fosse comigo”.

Que bom que o destino atendeu esse pedido.

Obrigado por tudo, Rubens!

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