Cinema e Argumento

Adeus, 2021! (e com uma maravilhosa dose dupla de Olivia Colman)

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Quem pensava que 2021 seria um ano inteiramente novo se comparado a 2020 estava redondamente enganado. Embora a situação envolvendo a pandemia tenha melhorado minimamente, o mundo continuou (e continua) sofrendo com um vírus que ainda deve ficar um bom tempo entre nós. Ao meu ver, isso significa que nossas vidas continuarão sendo transformadas constantemente (e, às vezes, colocadas à prova, quando não de pernas para o ar). Por isso, sigo acreditando na resiliência como a virtude mais necessária para estes nossos tempos. É difícil fazer um balanço claro do ano quando tudo continua tão atípico e quando o mundo (e, mais especificamente, o Brasil) ainda nos atordoa com suas maluquices, mas, do meu lado, dentro do possível, 2021 valeu bastante a pena.

Como espectador, não poderia ter encerrado o ano de maneira mais interessante do que com uma dobradinha de Olivia Colman. Sou do time que considera seu Oscar por A Favorita uma preciosidade e a carreira trilhada por ela desde então uma das mais magníficas. Na TV, Olivia fez FleabagThe Crown, enquanto, no cinema, já garantiu uma segunda indicação ao Oscar pelo impressionante Meu Pai. Em 2021, agorinha aos 45 do segundo tempo, adiciona outra duas pérolas ao currículo: a minissérie Landscapersexibida no início de dezembro, e o longa-metragem A Filha Perdida, disponibilizado hoje, véspera de ano novo, na Netflix. São presentes incríveis de final de ano vindos de uma atriz que coleciona personagens singulares. Não deixem de conferir. Até 2022, queridos leitores!

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“Landscapers”, de Will Sharpe (minissérie, Sky/HBO)

This is a true story. E, logo após, apenas This is a story. Pode parecer a deixa mais simples do mundo, mas o letreiro que abre o primeiro dos quatro episódios da minissérie Landscapers diz muito sobre esse true crime que não se assemelha a qualquer outro visto nesta onda recente do “gênero” formada por produções inegavelmente espetaculares, como a minissérie brasileira O Caso Evandro (disponível na Globoplay), e outras tão inacreditáveis quanto incômodas, como The Act, antologia da Hulu que rendeu um Emmy de melhor atriz coadjuvante para a ótima Patricia Arquette.

A abertura é sugestiva não porque, assim como outros trabalhos ficcionais, Landscapers ajuste fatos para fins dramáticos, e sim porque de fato sabemos muito pouco sobre o que realmente aconteceu com Susan e Christopher Edwards, casal sentenciado a 25 anos de prisão por ter arquitetado o assassinato dos pais de Susan e depois enterrado os corpos no jardim da casa onde as vítimas viviam. Susan e Christopher esconderam este segredo por 15 anos, além de falsificarem cartas e outros documentos para indicar que os pais de Susan ainda estavam vivos, mas viajando pelo mundo. O casal clama inocência até os dias de hoje e sustenta uma versão onde apenas Susan teria alguma culpa, limitada à morte da mãe.

Como se não bastasse o fato das autoridades nunca terem conseguido arrancar qualquer confissão de Susan e Edwards que corroborasse a versão pela qual foram condenados, ambos são extremamente polidos, educados, afetuosos e fieis um ao outro. Vendo de fora e sem prova alguma, é difícil acreditar no que eles possam ter feito. E é por isso que estamos falando de uma true story: sem depoimentos e confissões para tomar como base, resta somente o exercício da imaginação ao roteirista Ed Sinclair, que opta pelo caminho interessante de dimensionar muito mais a relação dos protagonistas do que o crime em si. 

A gênese do relacionamento entre Susan e Christopher está no não pertencimento. Landscapers lança olhar sobre duas pessoas muito calejadas em diferentes níveis e que, quando se encontram, encontram uma razão para viver, mesmo que em um mundo alheio à vida real, construído por eles próprios, um em que eles possam sobreviver sendo quem são. A minissérie compreende o poder da ilusão deste mundo particular ao explorar as múltiplas alternativas que ele pode apresentar para os fatos. Na cabeça de Susan e Christopher, nada é tão objetivo assim, muito menos na versão trabalhada incansavelmente pela polícia.

De certa forma, Landscapers pode ser um estudo sobre até onde um amor pode ir quanto testado. É convincente e comovente como Christopher (David Thewlis) repete o quanto ele não pode decepcionar Susan por ela ser uma pessoa muito frágil, esperando que as autoridades peguem mais leve ou sejam mais compreensíveis somente por terem essa informação. Não se trata de teatro: em tudo que Landscapers captura do cotidiano do casal, ambos se tratam com imenso carinho e respeito — o que tais sentimentos carregam ou significam é outra história.

Engana-se, entretanto, quem supõe que a minissérie romantize criminosos ou procure justificativas para seus atos. É, na verdade, um outro olhar — mais complexo e provocador — para defender a ideia de que nada é tão reducionista quanto as pessoas estão acostumadas a acreditar quando se deparam com a figura de um assassino. E tudo se potencializa na dupla de atores que dá vida aos personagens. Olivia Colman e David Thewlis dão uma verdadeira aula de interpretação, com momentos impressionantes juntos ou separados em cena. Eles mergulham em todo tipo de sentimento de uma jornada que não soa condizente para os personagens. Temos aqui nada menos do que uma construção brilhante de dois grandes atores.

O roteiro de Landscapers é o primeiro da carreira de Ed Sinclair, marido de Olivia Colman, algo bastante surpreendente tendo em vista as tantas camadas e especificidades do texto. Contudo, ele não está sozinho atrás das câmeras: a direção de Will Sharpe, realizador de carreira curta até aqui, joga com imaginação, realidade, estilo e boas ideias aproveitando elementos da paixão de Susan pelo cinema e, eventualmente, adotando uma linguagem bastante teatral para trabalhar as reconstituições do crime. Mesmo no que evoca como conclusão, há incertezas e improbabilidades em Landscapers, o que pode ser a principal razão para se encantar ou se frustrar com o resultado.

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“A Filha Perdida”, de Maggie Gyllenhaal (Netflix)

Quando confrontada sobre uma de suas tantas atitudes tomadas a partir de razões aparentemente indecifráveis, Leda (Olivia Colman) diz que ela própria não sabe explicar por que fez o que fez. Este momento é a melhor síntese possível — se é que ela pode existir — de A Filha Perdida, estreia da atriz Maggie Gyllenhaal como diretora. Durante cerca duas horas, Leda se revela uma personagem complexa, nuançada, compulsiva e imprevisível. Sem tentar necessariamente explicá-la, a adaptação do livro de Elena Ferrante propõe uma meditação sobre as múltiplas e incômodas camadas de uma protagonista em um grande entrave com seus próprios traumas — todos ainda muito vivos na personagem, contribuindo para impulsos muita vezes incompreensíveis.

Atriz talentosíssima, Maggie Gyllenhal foi ousada ao escolher A Filha Perdida como seu trabalho de estreia atrás das câmeras. Há, primeiro, toda a expectativa em cima de uma adaptação da célebre e enigmática Elena Ferrante, autora italiana cuja identidade é desconhecida do público e que colocou a escolha de uma mulher para dirigir o filme como condição na negociação da cessão dos direitos de adaptação. E, segundo, A Filha Perdida é, por si só, em sua versão cinematográfica, uma experiência enredada sentimentalmente e complexa em termos de prosa, com uma narrativa complicada de ser transposta para o cinema. É admirável a coragem de Maggie ao abraçar o projeto e, mais ainda, o seu talento para também escrever ela própria o roteiro, entrelaçando as tantas discussões propostas por Ferrante e uma estrutura de idas e vindas no tempo.

Em linhas gerais, A Filha Perdida abrange o período de férias de uma professora universitária cuja tranquilidade é abalada por memórias que vem à tona a partir de um encontro à beira-mar. Passado e presente colidem em um drama psicológico imerso em tensão, ainda que não saibamos exatamente qual. O que, para alguns, pode ser uma mera problemática da vida cotidiana, para Ferrante, é trauma. E por que as escolhas difíceis e exaustivas do nosso dia a dia não haveriam de ser? Gota a gota, o filme desembrulha uma protagonista em suas incontáveis camadas, ao ponto de toda a situação ser muito mais profunda e complexa do que imaginávamos quando o filme começou, sem precisar de engenhosidades ou grandes surpresas.

Como um homem, nunca terei qualquer noção sobre como é viver as turbulências maternas, mas fui provocado pelas discussões evocadas por A Filha Perdida sobre tudo o que não é dito ou mostrado em relação ao papel de uma mãe, das habilidades aos comportamentos cobrados pela sociedade. Trata-se de um raro (e necessário) caso de filme que dá voz inclusive a pensamentos ruins envolvendo esse momento de vida de uma mulher, algo que Lynne Ramsay, de certa maneira, já havia discutido, com semelhante teor, no poderoso Precisamos Falar Sobre o Kevin. Vale, aliás, perceber como ambos os longas abordam o incômodo materno através várias simbologias. Ao passo que Ramsay inunda a tela com o vermelho pulsante de tintas, cores e tomates, Gyllenhaal esmiúça, por exemplo, tudo o que pode ser interpretado a partir da função de uma boneca na vida de uma criança ou de uma figura feminina. Não por acaso, os dois longas são dirigidos por mulheres.

Assim como no livro, acompanhamos cenas pontuais da vida de Leda quando mais jovem, artifício que nem sempre funciona tanto no material original quanto na adaptação. Nos dois formatos, os flashbacks interrompem um pouco o fluxo da trama, ainda que sejam essenciais ao que estamos acompanhando. Talvez esse pudesse ser um ponto passível de inovação por parte de Maggie como roteirista, que, bastante reverente ao texto de Ferrante, faz ajustes pontuais na adaptações, mas nenhum fora da curva. Embora ainda não demonstre ser uma cineasta necessariamente criativa ou estética, Maggie é exímia ao construir atmosfera, munida de uma tensão constante, intrigante e que, em boa parte dos casos, não consegue nem ser ensaiada em filmes que necessitam dela, como os suspenses assumidos. Se esse não é um belo atestado de que encontramos uma diretora promissora, difícil saber o que é.

Por ser atriz, é muito natural que Maggie dê atenção especial ao elenco, começando por mais um trabalho extraordinário de Olivia Colman. Com uma capacidade muito natural de elevar seus próprios padrões a cada trabalho, Olivia dá um show ao assumir um papel centrado não em diálogos ou exposições, mas sim em expressões e silêncios. Leda é uma esfinge muito em função da atriz, que navega pela imprevisibilidade da personagem através de uma interpretação tão enigmática quanto. Ao passo que Dakota Johnson lhe faz uma boa dupla na narrativa presente, Jessie Buckley é maravilhosa ao dar vida à versão mais jovem da protagonista. Atriz em ascensão, Buckley consegue dar o devido grau de profundidade aos flashbacks que, como já mencionado, podem soar, vez ou outra, como interrupções não tão bem sucedidas.

Pragmaticamente falando, é fácil listar uma relação de temas abordados em A Filha Perdida: maternidade, abandono, infidelidade, diferenças e semelhanças entre gerações, o efeito do tempo, traumas, remorsos… Mas ainda é pouco para se traduzir em palavras. Tão truncado quanto carregado de nuances, o longa dificilmente se define em explicações fáceis, e é o caso de experiência que, em diferentes níveis, ainda será pauta de muitas conversas. Não creio que seja papel de cineastas, autores ou artistas de qualquer natureza explicarem suas obras ou dar pitacos sobre como outras pessoas encaram suas obras, mas, no caso específico de A Filha Perdida, lamento muito que Elena Ferrante seja uma autora reclusa e de identidade desconhecida, pois daria tudo para saber o que ela tem a dizer sobre essa excelente adaptação.

O que aprendi tendo aulas de interpretação com Helen Mirren

Já fazia bastante tempo que eu estava de olho nos cursos do Masterclass antes de finalmente tomar a decisão de me matricular em um deles. Não pensei duas vezes ao escolher a minha primeira investida: um curso sobre interpretação com ninguém menos do que Helen Mirren. Não sou ator. Nem tenho a pretensão de ser. Mas, como alguém que ama atrizes e escreve sobre cinema, achei que essa seria a oportunidade perfeita para ampliar meu olhar e entender um pouco melhor sobre vários processos de criação que vemos se materializar em frente às câmeras. E, após 28 aulas, o que tenho a dizer é que eu deveria ter apostado antes nos cursos do Masterclass. Certamente farei outros pela frente.

Não estou aqui, no entanto, para fazer propaganda da marca e sim para compartilhar com vocês um pouco do que aprendi com Helen Mirren sobre ela, sobre ser atriz e sobre os bastidores de um longa-metragem a partir de um ponto de vista particular. Mirren diz que essa é a primeira vez que fala sobre seu ofício de forma tão sistemática. Ela começa, aliás, dizendo que não existe nada mais difícil o que ser ela mesma em frente às câmeras. Bobagem. Ao longo das 28 aulas, a atriz é muitíssimo autêntica, natural e inspiradora em todos os tópicos que pontua, refletindo sobre leituras de roteiro, audições, escolhas de papeis, construções de personagens e as relações que precisam ser estabelecidas tanto com outros atores quanto com qualquer profissional no set de filmagens.

De Bette Davis a Al Pacino, passando por Hamlet, Shakespeare e tantos outros escritores, roteiristas, atores e diretores, Helen Mirren não poupa elogios e menções a todos aqueles que lhe inspiram desde o momento em que se viu em um caminho sem volta quando foi pela primeira ao teatro. Ela incorpora todas as suas vivências e relações a aulas com tópicos específicos e também aos estudos de caso de sua carreira, passando por obras como Elizabeth I, Prime Suspect e A Rainha. É fascinante descobrir os segredos de interpretação de uma atriz tão respeitada e premiada. Obrigado, Helen Mirren! Daqui para frente, como espectador e crítico, me sinto muito mais enriquecido para testemunhar uma interpretação. Abaixo, compartilho com vocês, em 20 tópicos, o que aprendi sobre interpretação a partir de uma perspectiva “mirreniana”.

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1. Uma atriz precisa fazer todos os seus trabalhos com a mesma dedicação. Ela própria diz ter feito Red e A Tempestade, por exemplo, sem distinguir seu nível de interesse ou comprometimento com os respectivos filmes;

2. Não há nada melhor do que ouvir os instintos e encontrar liberdade naquilo que se faz. Somos pessoas únicas, e não há ninguém nesse mundo com quem possamos nos comparar;

3. Uma atriz não deve “desaparecer” em seus papeis, mas sim se revelar;

4. Antes de uma atriz entender se é a pessoa certa para determinado papel, ela deve descobrir se consegue trabalhar com o diretor em questão, sem ter medo de compartilhar suas ideias;

5. A melhor forma de uma intérprete avaliar um roteiro é o lendo de trás para frente: frequentemente, se a personagem aparece nas cenas finais, o papel vale a pena, pois significa que ela foi marcante para a trama. Quanto mais cedo e de maneira mais displicente a personagem sai de cena, menos ela importa;

6. As primeiras reações ao ler um roteiro são sempre as mais confiáveis. Uma atriz é sempre a primeira espectadora do filme que ainda está no papel;

7. Não existe texto mais difícil para interpretar do que qualquer um escrito por Shakespeare. No entanto, o fascínio de interpretá-lo é que, a cada novo espetáculo ou filme, sempre surgem novos significados, incluindo aqueles que, a princípio, só você descobre;

8. Se puder, pegue o metrô ou o ônibus para imaginar as histórias das pessoas que você encontra. A realidade é sempre mais interessante do que qualquer roteiro que possa ser escrito;

9. Vá além do que lhe é entregue: imagine o background do seu personagem e imagine aquilo que ele possa ter vivido e que não está no roteiro. Detalhe importante: não compartilhe com ninguém esse exercício de imaginação e use apenas na sua interpretação;

10. Se o filme em questão é de viés histórico, uma atriz deve fazer a sua pesquisa como uma atriz e não como uma historiadora. Por exemplo: reis e rainhas acreditam que foram colocados no trono por Deus. A informação é interessante, mas o que isso pode significar para a sua construção dramática de uma personagem?;

11. Conheça antes o set e os cenários. Observe as cores, a decoração e tudo aquilo que pode ajudar ou atrapalhar o uso dos figurinos. Torne toda roupa usada em cena real: amasse, dobre, tire qualquer vestígio de que as peças saíram dos costureiros direto para você;

12. Nunca tome como certo aquilo que você “acha” que conhece. Pesquise, leia, vivencie o que você tem qualquer suspeita de não conhecer. Busque sempre ter propriedade;

13. O papel exige sotaque? Então trabalhe e ensaie muito. Não há métodos ou o que se fazer em relação a isso. Um bom auxílio é ter algum nativo do idioma em questão trabalhando junto na preparação, mas alguém que não tenha formação ou experiência em interpretação;

14. Você não pode ser uma boa atriz sem ter o mínimo de técnica e disciplina. Trabalhar apenas a partir do improviso e da intuição pode levar uma intérprete ao completo caos;

15. Uma atriz precisa sempre estar aberta a refazer uma cena, seja por causa do som ou de qualquer outro detalhe técnico. Pouco importa se ela deu a performance da vida. Ser sensível ao trabalho dos colegas é indispensável;

16. É fundamental dar atenção especial aos detalhes, gestos e olhares que podem fazer a diferença na composição de uma personagem. Valorize as cenas sem falas e diálogos porque elas destacam o interior e outras formas de se expressar que valem mais do que monólogos;

17. Toda atriz precisa ter a coragem e se sentir à vontade para falar como se sente em relação às cenas a serem gravadas. O que faz sentido para um diretor ou para um fotógrafo pode não fazer para quem interpreta uma personagem;

18. Como um filme pode ser gravado fora de ordem cronológica, é fundamental saber o contexto da cena que está sendo filmada. Ter um diálogo constante com o montador pode ajudar a atriz a a modular a interpretação e encontrar um bom ritmo;

19. Jamais ensaie em frente a um espelho. Isso vai na direção oposta da essência da profissão. O que deve ser priorizado é o que se passa por dentro;

20. Tente sempre que o próximo papel seja o mais diferente possível do atual. Nem sempre é possível, mas vale abraçar essa lógica toda vez que surgir a oportunidade.

Adeus, 2020! (e as melhores cenas do ano)

O que dizer de 2020 que todo mundo já não saiba ou tenha sentido na pele? Que foi um ano confuso, difícil e onde tudo fugiu à regra? Isso mesmo. Acho que todos concordamos. E não vou negar: fui tomado por um esgotamento físico e mental diante de tantas avalanches que, na maior parte dos dias, só consegui cumprir o básico das tarefas minimamente obrigatórias do dia a dia. O resto acabou ficando um pouco de lado, incluindo o cinema, como vocês podem ter percebido aqui pelo blog. Certamente queria ter visto mais filmes e, principalmente, ter escrito sobre eles. Não consegui. E acho que tudo bem não dar conta de abraçar o mundo.

Ainda assim, vi grande parte daquilo que quis ver em 2020. Também tive algumas aventuras de grande felicidade, como o convite para ser jurado do Festival de Cinema de Gramado e a reativação do canal do blog no Youtube. E vivi, claro, uma das maiores revoluções cinematográficas do ano: a de ficar sem ir a uma sala de cinema desde que a pandemia começou, tendo que garimpar os mais variados filmes em diferentes plataformas de streaming (lembrem-se: há um universo imenso a ser descoberto fora da Netflix e do Prime Video). Dentro do possível, portanto, meu aproveitamento cinéfilo foi razoável em 2020, e compartilho com vocês, como já é tradição aqui no blog, as minhas cenas favoritas do ano para encerrar esse ciclo. Vale reforçar: são consideradas aqui apenas as obras lançadas comercialmente no Brasil, seja nas salas de cinema ou em streaming. Até 2021, queridos leitores!

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Os minutos finais de Clemency

O que Alfre Woodard faz no encerramento de Clemency coloca todas as indicadas ao último Oscar de melhor atriz no bolso. Sufocante e hipnotizante também em aspectos de direção, trilha e som, é o tipo de momento que transforma uma personagem através do não-dito, sem precisar de uma palavra sequer. Como a atriz superlativa que é, Alfre compreende a potência das revoluções internas, e tem aqui um dos recortes mais marcantes da sua carreira.

A dança na escola em Estou Pensando em Acabar Com Tudo

Não estou no time daqueles que embarcaram em Estou Pensando em Acabar com Tudo, mas a forma poética com que Charlie Kaufman captura esta sequência isolada de dança em um filme já inusitado é de arrepiar. Não se trata apenas da inegável beleza estética audiovisual e dos movimentos corporais dos atores: nela, está concentrada uma narrativa ao mesmo tempo isolada e parte da história como um todo. É bela, trágica e melancólica.

Judy Garland canta “Somewhere Over the Rainbown” em Judy: Muito Além do Arco-Íris.

Cinebiografia que recebeu menos apreço inclusive de quem costuma gostar dos filmes deste gênero, Judy me tocou por não querer fazer de seu relato uma jornada de redenção para a vida de uma mulher cujos últimos dias foram carregados de problemas, tristeza e esquecimento. E, quando canta Somewhere Over the Rainbown, Judy Garland comove não porque vê sua voz falhar, mas porque justamente ainda tenta encontrar nos palcos todo o amor que um dia recebeu.

Corrida no campo de batalha em 1917

Inegável espetáculo técnico, 1917 pode não ter me envolvido dramaticamente, o que não foi impeditivo para o meu maravilhamento em cenas como esta, onde o soldado Schofield (George McKay), literalmente correndo contra o tempo para cumprir o prazo da missão que lhe foi dada, atravessa um campo de batalha a plenos pulmões em meio a confrontos, ataques e bombardeios. É um colosso pelos efeitos práticos, pelo plano-sequência, pela trilha de Thomas Newman e por toda a produção de escala envolvida. 

Héloïse assiste ao concerto em Retrato de Uma Jovem em Chamas

É aparentemente a cena mais simples do mundo: do alto da plateia, Héloïse, uma das protagonistas de Retrato de Uma Jovem em Chamas, acompanha um concerto de música clássica. Entretanto, conforme a música evolui e a câmera se aproxima da personagem sem cortes, tudo se agiganta. Ali está um mundo íntimo e secreto, povoado de lembranças, sentimentos e saudades. A potência emocional da cena é imensa, e Adèle Haenel dá um show ao transmitir o turbilhão de sentimentos que sua personagem vive internamente.

O ballet de Pacarrete

A arte como forma de expressão e libertação ganha contornos poéticos como poucas vezes vimos no cinema brasileiro recente por meio do ballet de Pacarrete (Marcélia Cartaxo). No filme de Allan Deberton que leva o nome da personagem, Cartaxo dá vida a uma bailarina incompreendida por sua cidade, e que grita para ser vista e ouvida de alguma forma. O norte da trama é a luta da protagonista pela chance de apresentar seu ballet na festa de aniversário da cidade, e Deberton subverte as expectativas para fazer Pacarrete dançar com uma beleza e um simbolismo ímpares.

A libertação de Cecilia em O Homem Invisível

No melhor estilo Supercine, O Homem Invisível utiliza o gênero de suspense para falar sobre um tema seríssimo: o dos relacionamentos abusivos onde homens tornam a vida das mulheres um verdadeiro filme de terror. Por sentirmos o peso que a protagonista Cecilia carrega, qualquer libertação vivida por ela é uma pequena alegria. E a maior marca ápice do filme, onde Cecilia sente o vento bater de leve no rosto com uma serenidade que há muito tempo lhe era desconhecida. Até mesmo a trilha de altas notas assinada por Benjamin Wallfisch cai como uma luva para o momento.

O comercial de Madá em Três Verões

Afirmar que Regina Casé repete a val de Que Horas Ela Volta? em Três Verões é uma grande heresia, principalmente se levarmos em consideração esta sequência em que a personagem vivida por ela no filme de Sandra Kogut participa de um comercial de TV e acaba contando um triste acontecimento do seu passado. A transição da comédia para o drama é fantástica, coisa que Regina Casé, como a grande intérprete que é, domina com a maior naturalidade do mundo, e o relato só nos ajuda a entender de onde vem a resistência aparentemente inabalável da personagem.

“Nunca. Raramente. Às Vezes. Sempre.” em… Nunca, Raramente, Às Vezes, Sempre

Ao vermos Sidney Flanigan em qualquer cena de Nunca, Raramente, Às Vezes, Sempre, é difícil acreditar que esse seja somente o seu primeiro filme. A força, a complexidade e a sobriedade que ela trabalha no longa de Eliza Hittman é fruto de um talento nato, frequentemente impulsionado por intensas passagens do roteiro como esta que explica o título do longa. Munida basicamente apenas de quatro palavras, Sidney revela para o espectador muito do que vem guardando e represando até ali. Com extrema simplicidade, a cena ganha em realismo. E, com Sidney, em emoção na medida certa.

O monólogo de Paul em Destacamento Blood

Em seu mais novo filme, Spike Lee traz um pouco de tudo para o espectador: drama, guerra, pitadas cômicas, conflitos familiares, reflexões sobre o racismo, críticas políticas e até um monólogo onde Paul (Delroy Lindo) conversa diretamente com a câmera em um monólogo que faz uma síntese das discussões mais marcantes de Destacamento Blood. É uma passagem onde o filme intersecciona elementos da vida pessoal de um personagem com tudo aquilo que ele, um homem negro, representa para o mundo e para a sociedade. Entre outras coisas, Paul diz que o governo americano não foi capaz de matá-lo nas três vezes que lhe enviaram à Guerra do Vietnã — e que, se sobreviveu a isso, somente e ele e mais ninguém poderá decidir sobre a sua própria morte. Não tem como confundir: é Spike Lee na veia.

Das salas de cinema para o streaming: como ressignificar a condição de espectador e crítico a partir da pandemia?

* texto originalmente escrito para o site da Associação de Críticos de Cinema do Rio Grande do Sul

A pandemia do Coronavírus colocou o mundo de pernas para o ar e fez o isolamento social se tornar um dos pilares de prevenção e contenção em um cenário indiscutivelmente grave. Para os bem afortunados, privilegiados e empáticos que tiveram condições de aderir às medidas de isolamento, importantes reflexões vêm se apresentando quando o único universo físico que habitamos é a nossa própria casa. Afinal, sem o que realmente não conseguimos viver? Quais hábitos podem ser substituídos? Como adaptar para dentro de casa aquilo que nos deixa minimamente em dia com a nossa sanidade?

Pertencendo a esse grupo que se viu repentinamente isolado, descobri que posso, na medida em que o contexto exige até segunda ordem, viver sem muitas coisas, como um passeio de bicicleta em um sábado pela manhã ou uma noite com os amigos em uma mesa de bar. Também posso adaptar outras: o trabalho, antes restrito a um escritório, por exemplo, agora se revela perfeitamente viável no regime home office. Descobri, no entanto, que sem uma coisa de fato não posso viver: os filmes.

O cenário, até pouco tempo atrás, era inimaginável: gravações paralisadas, possíveis projetos engavetados indefinidamente, aguardadas estreias sem nova data para encontrar o público, emblemáticos festivais de cinema como o de Gramado realizados apenas em formato online… À parte a romantização de que não há experiência equiparável a assistir a uma obra em uma sala de cinema, creio que não podemos mesmo viver sem cinema. Toda arte teve esse poder potencializado agora: o de nos (re)conectar com o mundo, de nos levar a diferentes lugares, de despertar o exercício da empatia e de expandir o nosso repertório humano e intelectual quando o mundo tanto sofre.

Por isso, como não reverenciar a força e a revolução das plataformas de streaming que já se tornaram parte sólida dos nossos hábitos cinematográficos? Sem estreias, eventos e salas de cinema, espectadores do mundo inteiro voltaram-se exclusivamente ao streaming para continuar consumindo filmes, quando não aos links de obras gentilmente disponibilizadas de forma gratuita por realizadores como incentivo à necessidade do isolamento social. Ao migrarmos para esse formato de exibição, outro desafio se apresentou: nos vimos obrigados a repensar nossas condições como espectadores e críticos.

Sem calendário de estreias — e agora?

Para todos aqueles guiados pelas estreias semanais, o susto é imediato: qual a alternativa para um mundo com cada vez menos filmes inéditos? Tenho a resposta muito clara para mim. Ora, por que não ir atrás de todas aquelas obras que, devido à correria da rotina e à sedução de tantos filmes novos entrando em cartaz em um “mundo normal”, ficavam de lado nas nossas listas. Ou então desbravar novas narrativas, realizadores que não conhecemos e gêneros que não são os que costumamos consumir? É, enfim, uma bela oportunidade para mergulhar na pluralidade tão inerente ao cinema e que, em muitos casos, as plataformas de streaming barram com algoritmos pensados para o público assistir sempre o mesmo tipo de produção.

Nesse sentido, é inquestionável o papel crucial e até mesmo pioneiro da Netflix, por exemplo, na popularização exponencial dos streamings e na criação dessa nova cultura que envolve assistir filmes e séries em casa, mas vale sempre lembrar: há toda uma galáxia a ser descoberta, com plataformas para todos os gostos e bolsos. Como na infinidade de canais de uma TV por assinatura, não só podemos como devemos consumir de tudo um pouco. Dos clássicos do cinema japonês a títulos brasileiros contemporâneos, as plataformas de streaming estão aí, pedindo para serem descobertas, cada uma com suas respectivas propostas e particularidades. Por que se limitar a só uma delas?

Um exercício que me parece ainda mais gratificante do que alternar democraticamente entre streamings como Prime Video, Spcine Play, Looke, Now, Hulu, MUBI, Belas Artes à La Carte, é fazer uma lista própria do que queremos ver, sem consultar as plataformas, e, a partir dela, buscar onde esses filmes estão disponíveis. Afirmo sem medo de errar que esse é um belo exercício porque, ao fazê-lo recentemente, fiquei bastante surpreso com o aumento de variedade e a disponibilidade de obras de diferentes perfis. Está disponível no Looke, por exemplo, A Hora da Estrela, dirigido por Suzana Amaral, que nos deixou recentemente. Em plataformas mais populares como Netflix e Globoplay, títulos como Estou Me Guardando Para Quando o Carnaval Chegar, de Marcelo Gomes, e Ausência, do saudoso Chico Teixeira, também estão prontos para serem (re)vistos. E, no Now, temos inclusive clássicos do Mazzaroppi!

Garimpando pérolas do nosso cinema

Cito títulos brasileiros porque sabemos o quanto os longas produzidos nacionalmente, em especial aqueles menores e mais independentes, sofrem para encontrar espaço no circuito exibidor tradicional das salas de cinema, onde correm o risco de ficar restritos a horários limitados e durante poucas semanas em cartaz. Pois as plataformas de streaming dão lugar e vez para esses trabalhos, mesmo que em iniciativas com prazo de validade, como o Espaço Itaú Play, que recentemente exibiu, em regime de pré-estreia, filmes como Pacarrete, Três Verões, Aos Olhos de Ernesto e Música Para Morrer de Amor, que, em uma realidade sem pandemia, não chegariam a moradores de todos os estados do Brasil e dependeriam de um bom retorno do público para sobreviver em cartaz por mais de um mês.

A pluralidade dos streamings aponta ainda para outro aspecto muito importante e que, até pouco tempo atrás, poderia ser visto com preocupação: o da preservação da memória, que começou a evaporar quando o mercado testemunhou a extinção das videolocadoras e o desinteresse do público hiper conectado pela mídia física. Para onde iriam os filmes raros que só encontrávamos em uma videolocadora? Onde seria possível conferir aquele longa independente e autoral que você milagrosamente só encontrava na coleção de um amigo e que não tinha espaço no catálogo de streamings que, recém surgidos, apontavam para uma predileção por obras de senso mais comum?

Durante muito tempo, como um orgulhoso colecionador de DVDs e blu-rays, vivi essa angústia, mas hoje é com otimismo que encaro tal questão ao encontrar nos streamings obras que, mesmo na era da mídia física, caíram no limbo ao sequer serem lançadas no mercado, como Gretchen Filme Estrada, excelente documentário de Eliane Brum e Paschoal Samora que foge da armadilha de ser um mero relato sobre a vida da cantora Gretchen para se tornar uma reflexão sobre a decadência artística e para discutir, de forma até profética, aspectos políticos do nosso Brasil que hoje vivemos de forma tão clara e escancarada. Sem lançamento em DVD, o filme estava há anos desaparecido, fora de alcance por meios legais, e agora pode novamente ser e descoberto pelo Looke.

Seguindo a linha da pluralidade de plataformas e de preservar a memória especificamente do cinema brasileiro fora do circuito mainstream, cito outros dois documentários que (re)descobri ao me confrontar com uma relação mais próxima com os streamings em tempos de isolamento social. O primeiro é Bixa Travesty, de Cláudia Priscilla e Kiko Goifman, um instigante estudo de personagem que, a partir da vida e da música da cantora transexual Linn da Quebrada, desafia o espectador a ressignificar conceitos e tabus envolvendo identidade, gênero, raça, sexualidade e liberdade. Premiado no Festival de Berlim com o Teddy de melhor documentário, Bixa Travesty teve passagem tímida pelos cinemas brasileiros, mas hoje ganha visibilidade nacional no catálogo do Now.

Já o segundo é O Caso do Homem Errado, dirigido por Camila de Moraes. Mais urgente do que nunca, a história do operário negro Júlio César — que, ao ser confundido com um assaltante, foi executado pela Polícia Militar do Rio Grande do Sul, no dia 14 de maio de 1987 — recupera um triste acontecimento que, mesmo depois de três décadas, reverbera em carne viva, expondo a cultura ainda racista e segregacionista de um Brasil inteiro. Mulher, negra e, por isso mesmo, munida de lugar de fala, Camila narra O Caso do Homem Errado com emoção e sem meias palavras, interseccionando a eterna e incansável busca por direitos humanos, a reivindicação por uma sociedade antirracista e a história muito íntima de Júlio César, cuja vida interrompida ganha traços comoventes especialmente nos depoimentos de sua esposa. Também com passagem limitada pelos cinemas, o filme está disponível gratuitamente no Looke.

Explorar streamings para expandir olhares

Citando brevemente esses títulos, percebo novamente a importância de ampliar nossos horizontes como críticos e espectadores. Não é sobre se tornar o estereótipo do crítico exigente, técnico e chato que já foi até parodiado em animação da Pixar, mas de perceber que o mundo (e consequentemente a arte) é muito maior do que o algoritmo popular da Netflix ou o confortável calendário de grandes estreias que tanto guia a busca por sessões ao redor do mundo. Estar em casa e com uma infinidade de plataformas à disposição reforça esse exercício por vezes esquecido na correria do dia a dia de valorizar a pluralidade que o “circuitão” não costuma reconhecer.

No tocante ao cinema produzido aqui no Brasil, dar musculatura e esse tipo de hábito é também um grito de resistência para manter viva, atuante e visível uma produção cinematográfica que, já sistematicamente sabotada antes mesmo da pandemia, agora terá de enfrentar os difíceis efeitos desse cenário global para se reerguer, como se as políticas de desmonte do atual governo Bolsonaro já não fossem penosas o suficiente. Quando valorizamos filmes de gêneros diferentes, dirigidos por mulheres, com narrativas negras e descentralizados do eixo Rio-São Paulo, fortalecemos nosso pequeno grande papel no incentivo a nossa cinematografia.

Claro que sou suspeito para falar, mas a crítica de cinema, hoje já definitivamente imersa na cultura do streaming como um caminho sem volta, parece de grande ajuda para apontar novas tendências, fugir do lugar-comum, educar diferentes olhares e incrementar a formação cinematográfica das plateias, respeitando sempre, claro, as respectivas bagagens, afinidades e preferências de cada espectador. Cada vez mais, estamos aqui para isso.

“Crítica em Transe”: promovido pela ACCIRS, debate entre críticos reflete sobre nossa relação com o streaming na pandemia

A pandemia do Coronavírus transformou a nossa relação com o cinema? Onde é possível encontrar opções que fogem dos catálogos habituais oferecidos pelas plataformas de streaming mais populares? O ritual de assistir a filmes tem se modificado?

Fui convidado pela Associação de Críticos de Cinema do Rio Grande do Sul (ACCIRS) a participar de um bate-papo com outros colegas da crítica sobre cinema em tempos de pandemia. Na conversa, fomos desde o cinema japonês dos anos 1950 até pérolas do cinema brasileiro contemporâneo, refletindo sobre nossa relação com as plataformas de streaming. Conversam comigo os queridos colegas e associados da ACCIRS, Fatimarlei Lunardelli e Renato Cabral.

Assista ao debate na íntegra:

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