Cinema e Argumento

Nem suspense, nem terror, “Até os Ossos” é experiência que causa estranhamento — e dos bons

Let’s be people.

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Direção: Luca Guadagnino

Roteiro: David Kajganich, baseado no romance “Bones and All”, de Camille DeAngelis

Elenco: Taylor Russell, Timothée Chalamet, Mark Rylance, Michael Stuhlbarg, Chloë Sevigny, Kendle Coffey, André Holland, Ellie Parker, Madeleine Hall, Christine Dye, Sean Bridgers, Anna Cobb, David Gordon Green, Jake Horowitz, Jessica Harper

Bones and All, EUA/Itália, Drama, 130 minutos

Sinopse: O amor floresce entre uma jovem à margem da sociedade (Taylor Russell) e um vagabundo marginalizado (Timothée Chalamet) enquanto eles embarcam em uma odisseia de três mil milhas pelas estradas secundárias da América. No entanto, apesar de seus melhores esforços, todos os caminhos levam de volta a seus passados ​​aterrorizantes e a uma posição final que determinará se o amor deles pode sobreviver às diferenças.

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Não se engane: o diretor Luca Guadagnino (Me Chame Pelo Seu Nome, Um Mergulho no Passado) traz múltiplas visões e metáforas para a questão do canibalismo, mas, em momento algum, Até os Ossos pode ser rotulado como um filme de terror ou como uma produção ao estilo da minissérie Dahmer: Um Canibal Americano. Inclusive, mesmo nas partes em que poderia se entregar ao gore ou ao apelo gráfico, Guadagnino deixa a materialização do tema quase fora de quadro. Para ele, o ponto central são as angústias e questões existenciais de personagens que, por serem canibais, não encontram um lugar ao mundo, uma clara alusão à maneira com que a sociedade relega as minorias e os “diferentes”.

É importante entender a negligência com o canibalismo: mesmo depois de tantos anos, trata-se de um assunto raramente discutido. Pouco se sabe sobre a sua real origem e suas implicações psicológicas, assim como não existe na legislação uma lei específica que caracterize o canibalismo como crime (os casos já julgados foram, na verdade, enquadrados como homicídio ou destruição de cadáver). É um tabu que costuma despertar a curiosidade alheia — não à toa, a já citada Dahmer se tornou, em poucos dias, a segunda série mais assistida da história da Netflix —, mas que na prática, fica relegada a um certo limbo para o qual ninguém quer olhar.

Até os Ossos está interessado no terreno dessas indefinições, ao mesmo tempo em que toma cuidado para não ser um estudo sobre canibais, muito menos uma romantização. A partir da jornada de Maren (Taylor Russell), o filme nos coloca na pele de uma garota que há anos vive de cidade em cidade fugindo com o pai porque, sempre em determinado ponto, já não consegue controlar seus impulsos em público. Quando é abandonada até mesmo por seu progenitor, Maren, então, parte em busca da mãe que nunca conheceu e, ao longo do caminho, surpreende-se ao, pela primeira vez, encontrar outros como ela. Todos seres humanos subterrâneos, invisíveis e incapazes de viver dentro de qualquer normalidade.

Tanto Até os Ossos rejeita a romantização do canibalismo que a palavra em si sequer é mencionada — eles são “comedores” (eaters, em inglês), termo unanimemente usado por esses personagens em diferentes pontos dos Estados Unidos. A discussão verdadeira discussão se dá em torno de como lidar com ela na prática: enquanto Maren deseja encontrar uma maneira de se alimentar sem precisar cometer crimes, outros acabam matando por puro instinto, algo que a assombra do ponto de vista ético e emocional, mesmo quando uma dessas pessoas é Lee (Timothée Chalamet), um comedor forasteiro que terá papel crucial em sua jornada.

De todos os encontros pelo caminho, esse é, sem dúvida, o que marca a garota – e também o próprio Lee, que, lutando contra seus próprios demônios, aceita a ideia de cair na estrada para ajudar Maren na busca pela mãe. A partir daí, Até os Ossos passa a ser também um road movie, centrado no relacionamento entre esses dois indivíduos que se reconhecem no não-pertencimento e nas suas tragédias pessoais em comum. Se Maren é a “heroína” em busca de algum sentido, Lee é o jovem punk e autocentrado que aos poucos baixa a guarda quando se percebe aceito e compreendido. São dois desabrochares que Guadagnino trabalha com habilidade para acrescenta outro gênero à mistura: o coming of age.

Como um road movie, Até os Ossos aproveita bem os diferentes estados (físicos e emocionais) pelos quais os protagonistas passam. Para além das relações possíveis de serem estabelecidas com a vida real a partir da natureza dos personagens, a trama originada do romance homônimo de Camille DeAngelis ganha nuances com a fotografia muito discreta e eficiente de Arseni Khachaturan, que mescla o estado de espírito dos protagonistas com as cidades cruzadas pelos personagens, e com a trilha sonora assinada pelos sempre formidáveis Trent Reznor e Atticus Ross, em um trabalho de estilo bem diferente do que costumam apresentar no cinema. Outro ponto alto é a participação de figuras muito peculiares, como os personagens de Mark Rylance e Michael Stuhlbarg, que causam sensações das mais estranhas, perigosas e desconfortáveis.

Rylance e Stuhlbarg são importantes porque reacendem um certo senso de urgência presente na arrancada e que acaba amortecido quando nasce o romance central. A paixão entre Lee e Maren funciona porque Taylor Russell e Timothée Chalamet são ótimos atores, mas é inegável que, com ela, o filme se torna mais plano em termos de atmosfera. Se o canibalismo era ou não a melhor das metáforas para tudo o que Guadagnino quer abordar — a luta para simplesmente existir, a busca por um lar, o papel do autoconhecimento no movimento de amar outra pessoa, etc. — é outra discussão, principalmente porque ela vai do paladar de cada um diante de um tema tão complicado e polêmico. No meu caso, ainda que com algumas ressalvas, Até os Ossos causou estranhamento imediato… E dos bons.

Três atores, três filmes… com Bruno Carmelo

tresbrunocarmeloCrítico de cinema desde 2004, Bruno Carmelo já passou por diversos veículos de comunicação, como AdoroCinema, Papo de Cinema, Le Monde Diplomatique Brasil e Rua – Revista Universitária do Audiovisual, além de ser mestre em teoria de cinema pela Universidade Sorbonne Nouvelle – Paris III. Ao longo de sua trajetória, também se tornou membro da ABRACCINE (Associação Brasileira de Críticos de Cinema), professor de cursos sobre o audiovisual e autor de artigos sobre o cinema. Acompanho o trabalho do Bruno há certo tempo e sabia que viria coisa boa da sua seleção para a coluna. Ele não só contabilizou mais uma menção à Giuletta Masina, tornando-a a atriz mais citada entre os 60 convidados que já passaram por aqui, como selecionou o primeiro trabalho de dublagem citado aqui, no caso, o de Pat Carroll como a inesquecível Ursula de A Pequena Sereia. Confiram abaixo todas as escolhas e comentários!

Giulietta Masina (Noites de Cabíria)
A atriz italiana foi uma das maiores intérpretes da sua geração, capaz de representar a fusão entre o estilo bruto no neo-realismo e as formas mais poéticas de atuação que se abriram ao cinema na Itália. Os livros de História costumam reduzi-la ao rótulo machista de “musa” de Federico Fellini, seu marido. No entanto, Masina também teve participações excelentes em obras de outros realizadores. Noites de Cabíria representou o ápice de sua carreira, não apenas em termos de premiações, mas de composição. A prostituta sonhadora, longe de qualquer idealização de beleza ou sedução, poderia se transformar numa vítima piedosa, excessivamente ingênua. A grande atriz injeta em Cabiria um vigor e uma melancolia impressionantes, mostrando-se excelente tanto nos silêncios quanto nos diálogos, nos instantes sozinha ou cercada de outras prostitutas. O rosto expressivo da artista marcou o imaginário de muitos cinéfilos.

Joanne Woodward (O Preço da Solidão)
A propósito de atrizes trabalhando com seus maridos, Joanne Woodward comprovou o imenso talento para papéis complexos e ingratos ao trabalhar com Paul Newman, enquanto diretor – com o diferencial, neste caso, de que ela sempre conquistou maior reconhecimento popular e crítico, enquanto atriz, do que o marido na função de diretor. Este belíssimo filme, de título muito mais intrigante originalmente do que na pálida tradução brasileira (algo como O Efeito dos Raios Gama nos Cravos-de-Defunto), é inteiramente focado na mulher histriônica e agressiva, considerada pelos vizinhos como a louca da cidade, para o desespero e vergonha das filhas. Ora, o espectador é convidado aos poucos a descobrir o motivo pelo qual se porta com tamanha violência com o meio ao redor. Woodward equilibra o teor da atuação de modo a provocar comoção por uma figura controversa, triste, que expressa um amor abusivo por ser a única maneira que aprendeu a amar. Beatrice é uma das grandes personagens da história do cinema, e a cena em que esta mãe visita a peça da filha na escola, gritando com todos ao redor (“Meu coração está cheio!”) representa um dos instantes mais fortes e dolorosos do cinema norte-americano.

Pat Carroll (A Pequena Sereia)
Assim como a história do cinema valoriza muito mais a imagem do que o som, a apreciação de atores também está mais ligada ao trabalho de corpo do que ao trabalho de voz. Ora, o cinema trouxe atuações brilhantes de voz original, algo indispensável a tantas animações clássicas. Pat Carroll foi uma figura essencial neste processo, e caso as premiações reconhecessem seu devido valor, ela seria listada no panteão de grandes intérpretes do cinema. Em especial, construiu a vilã Ursula, uma das melhores personagens da história do cinema animado, em A Pequena Sereia. Carroll injeta sedução, malícia, agressividade e uma dose inesperada de erotismo (e mesmo homoerotismo) quando o cinema ainda era ingênuo (ou esperto demais) para introduzir tais elementos numa produção familiar sem despertar a ira dos conservadores. Seja cantando ou falando, em tom introvertido ou exaltado, Ursula possui uma variação, uma intensidade e intencionalidade na voz que a situa entre as adversárias mais bem construídas da sétima arte – seja em animação ou live-action. Poor unfortunate souls são aqueles que nunca realmente reconheceram o papel artístico e expressivo da voz de um ator.

Os indicados ao Independent Spirit Awards 2023

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Tudo em Todo o Lugar ao Mesmo Tempo lidera as indicações ao Independent Spirit Awards 2023.

Duas grandes mudanças marcam uma nova fase para o Independent Spirit Awards, prêmio dedicado ao cinema independente dos Estados Unidos desde 1986. A primeira é a criação de categorias neutras de interpretação, condensadas agora em melhor interpretação protagonistamelhor interpretação coadjuvante. E nela já temos um acerto: oito mulheres concorrem por seus papeis principais, dissolvendo um certo receio de que, sem definição de gênero, os homens dominariam a seleção. A segunda causou certo burburinho: de 22,5 milhões de dólares, a Film Independent, entidade realizadora do prêmio, subiu para 30 milhões de dólares o parâmetro de orçamento máximo para habilitar um filme como independente, ou seja, apto para concorrer. Li pela internet que elevar essa régua seria a porta de entrada para descaracterizar o conceito de cinema independente, mas é importante lembrar que o mundo mudou muito nos últimos anos e tudo inflacionou, inclusive a produção de filmes.

Com essas mudanças, entraram em cena produções como Tudo em Todo o Lugar ao Mesmo TempoTár, liderando a lista de 2023 com oito e sete indicações, respectivamente. Prova de que o Spirit Awards não perdeu de vista suas origens é constatar que há espaço de obra para filmes menores, como o belo Aftersun, que chega aos cinemas brasileiros no dia 1º de dezembro e foi lembrado em diversas categorias. Depois de Yang, de Kogonada, é outro exemplo, tendo emplacado as categorias de melhor filme e direção. Para continuar entre os títulos que já vi, também são mais do que acertadas as indicações para Dale Dickey em performance protagonista por Uma Noite no Lago e até mesmo para Marcel the Shell With the Shoes On em melhor montagem. Sou suspeito para falar porque, desde o ano passado, passei a fazer parte da Film Independent, tendo voto na escolha dos vencedores, mas a lista é realmente boa e equilibrada. Os premiados serão conhecidas no dia 4 de março de 2023.

Confira abaixo a lista completa de indicados:

MELHOR FILME
Até os Ossos
Our Father, the Devil
Tár
Tudo em Todo o Lugar ao Mesmo Tempo
Women Talking

MELHOR DIREÇÃO
Daniel Kwan e Daniel Scheinert (Tudo em Todo o Lugar ao Mesmo Tempo)
Halina Reijn (Morte Morte Morte)
Kogonada (Depois de Yang)
Todd Field (Tár)
Sarah Polley (Women Talking)

MELHOR PRIMEIRO FILME
Aftersun
Emily the Criminal
The Inspection
Murina
Palm Trees and Power Lines

MELHOR PERFORMANCE PROTAGONISTA
Andrea Riseborough (To Leslie)
Aubrey Plaza (Emily the Criminal)
Cate Blanchett (Tár)
Dale Dickey (Uma Noite no Lago)
Jeremy Pope (The Inspection)
Mia Goth (Pearl)
Michelle Yeoh (Tudo em Todo o Lugar ao Mesmo Tempo)
Paul Mescal (Aftersun)
Regina Hall (Honk for Jesus. Save Your Soul.)
Taylor Russell (Até os Ossos)

MELHOR PERFORMANCE COADJUVANTE
Brian D’Arcy James (The Cathedral)
Brian Tyree Henry (Passagem)
Gabrielle Union (The Inspection)
Jamie Lee Curtis (Tudo em Todo o Lugar ao Mesmo Tempo)
Jonathan Tucker (Palm Trees and Power Lines)
Ke Huy Quan (Tudo em Todo o Lugar ao Mesmo Tempo)
Mark Rylance (Até os Ossos)
Nina Hoss (Tár)
Theo Rossi (Emily the Criminal)
Trevante Rhodes (Bruiser)

MELHOR PERFORMANCE REVELAÇÃO
Daniel Zolghadri (Funny Pages)
Frankie Corio (Aftersun)
Gracija Filipović (Murina)
Lily McInerny (Palm Trees and Power Lines)
Stephanie Hsu (Tudo em Todo o Lugar ao Mesmo Tempo)

MELHOR ROTEIRO
Catherine Called Birdy
Depois de Yang
Tár
Tudo em Todo o Lugar ao Mesmo Tempo
Women Talking

MELHOR PRIMEIRO ROTEIRO
Emergência
Emily the Criminal
Fire Island
Morte Morte Morte
Palm Trees and Power Lines

MELHOR FOTOGRAFIA
Aftersun
Murina
Neptune Frost
Pearl
Tár

MELHOR MONTAGEM
Aftersun
The Cathedral
Tudo em Todo o Lugar ao Mesmo Tempo
Marcel the Shell with Shoes On
Tár

MELHOR FILME INTERNACIONAL
Corsage (Áustria)
Joyland (Paquistão)
Leonor Will Never Die (Filipinas)
Return to Seoul (Camboja)
Saint Omer (França)

MELHOR DOCUMENTÁRIO
A House Made of Splinters
All That Breathes
All the Beauty and the Bloodshed
Midwives
Riotsville USA

PRÊMIO JOHN CASSAVETES
The African Desperate
Uma Noite no Lago
The Cathedral
Holy Emy
Something in the Dirt

PRÊMIO ROBERT ALTMAN
Women Talking (vencedor)

Rapidamente: “45 do Segundo Tempo”, “Argentina, 1985”, “O Enfermeiro da Noite” e “Mais Que Amigos”

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45 do Segundo Tempo é uma ode à amizade e traz uma das melhores atuações de Tony Ramos.

45 DO SEGUNDO TEMPO (idem, 2021, de Luiz Villaça): Saiu muito rápido de cartaz e não recebeu a devida atenção esse novo filme de Luiz Villaça que é uma afetuosa ode à amizade. No caso, a de três homens reconectados por circunstâncias da vida após muitos anos de afastamento. A consolidação desse reencontro, no entanto, não se dá de imediato e não é exatamente celebrativa. Ela acontece quando Pedro (Tony Ramos) anuncia seus planos de cometer suicídio, fazendo com que os amigos acabem revendo muitas questões do passado e do presente para que Pedro não cumpra com a intenção. No percurso, claro, todos reavaliarão as suas próprias vidas e as escolhas feitas pelo caminho. Como em todos os filmes de Luiz Villaça, 45 do Segundo Tempo aposta na riqueza das pequenas coisas da vida para emocionar e fazer rir, dando um tom melancólico a uma história que poderia resvalar no dramalhão. É muito generoso o olhar do longa sobre o passar do tempo, principalmente no que se refere à ideia de que nunca é tarde para recomeçar ou tentar recuperar quem desejávamos ser e não nos tornamos. Um tanto clichê, é verdade — e, às vezes, até pueril no humor, como na maior parte envolvendo o padre de Ary França —, mas de fácil identificação e com  as reflexões sempre pertinentes sobre os laços humanos que Villaça já apresentou em outros trabalhos como De Onde Eu Te Vejo. A cereja do bolo é a maravilhosa performance de Tony Ramos, em um papel versátil e de camadas como há muito tempo ele não recebia.

ARGENTINA, 1985 (idem, de Santiago Mitre): Não é por acaso a brincadeira de que só existem filmes argentinos estrelados por Ricardo Darín. À parte o óbvio componente da carreira bastante prolífera trilhada por ele desde sempre, há a frequência com que o ator participa de projetos da curva, como já aconteceu nas parcerias com o cineasta Juan José Campanella em filmes como O Filho da Noiva e O Segredo dos Seus Olhos. Pois agora, dirigido por Santiago Mitre, Darín estrela Argentina, 1985, um excelente longa que segue a tradição do cinema argentino de olhar para os traumas passados da nação com um olhar crítico e bem posicionado. O foco é o julgamento dos crimes cometidos por membros do exército durante a ditatura militar, intercalando com bastidores do processo e diversos pontos pessoais dos personagens envolvidos. Não se trata, entretanto, de um mero filme de tribunal: o que interessa a Santiago Mitre é deixar de lado a previsível exposição dos horrores da ditadura para mostrar como ela, mesmo depois de encerrada, permanece entranhada na sociedade, ainda com muitos demônios por serem exorcizados. Argentina, 1985 leva a discussão política e social para o plano humano, a partir de uma série de personagens que, pela habilidade do roteiro e pelo ótimo elenco, tornam-se próximos do espectador. Em mais de 140 minutos, Mitre cadencia a trama sem perder a plateia em um punhado de nomes ou situações. Em suma, para além de bom cinema, o longa é um registro dos mais importantes para o povo argentino e uma amarga lembrança para nós, brasileiros, que nunca vimos a nossa ditadura e seus fantasmas serem devidamente enterrados.

O ENFERMEIRO DA NOITE (The Good Nurse, 2022, de Tobias Lindholm): Poderia ser o mero cartão de visita para uma entrada em Hollywood, mas o roteirista dinamarquês Tobias Lindholm (A Caça, Druk: Mais Uma Rodada) estreia na cadeira de direção com um filme que, mesmo sem a sua assinatura no roteiro, consegue se esquivar de obviedades e de fórmulas que hoje garantem o êxito de produções envolvendo crimes da vida real. O Enfermeiro da Noite é muito feliz, por exemplo, ao dispensar o ponto de vista de Charlie Cullen (Eddie Redmayne) para colocar a plateia no lugar de outra personagem, a enfermeira Amy Loughren (Jessica Chastain). Isso funciona porque, assim como ela, descobrimos gradativamente quem é Charlie de verdade, ao mesmo tempo em que, antes disso, também já fomos envolvidos por sua delicadeza e generosidade. Para quem não conhece o caso em detalhes — em linhas gerais, Cullen foi condenado pela morte de 29 pacientes, enquanto especialistas acreditam que esse número possa chegar a 400, tornando-o assassino em série mais prolífero dos Estados Unidos —, trata-se de uma decisão que funciona ainda mais, visto que O Enfermeiro da Noite deseja mostrar como pessoas do perfil de Cullen circulam entre nós, sem que pareçam estranhos ou remotamente suspeitos, tese bem reproduzida pela performance de Eddie Redmayne. Inexiste, portanto, toda a cartilha de dramatização da vida íntima ou pregressa do serial killer. Não é algo que funciona com todas as plateias, mas que confere ao filme de Tobias Lindholm uma atmosfera diferenciada em meio à frenética onda de true crimes dramatizados.

MAIS QUE AMIGOS (Bros, 2022, de Nicholas Stoller): Independentemente de, na matemática fria de uma análise, ser uma comédia romântica com desenvolvimento similar ao de incontáveis outras, Mais Que Amigos ganha novos contornos por simplesmente colocar dois homens no centro de uma história leve, afetiva e divertida. Existe uma importante questão de representatividade, mas também de um alcance raro, afinal, é talvez até pioneiro o fato de uma comédia romântica gay chegar a um circuito comercial com tanta abrangência. Aos que, assim como eu, descobriram sua sexualidade sem a oportunidade de vê-la na tela com humor e naturalidade, Mais Que Amigos pode bem ser um verdadeiro presente. O filme toca em questões fundamentais para o público gay, como a insegurança de ser quem se é e o quanto isso ecoa por toda uma vida, especialmente nas relações afetivas e na forma de encarar vários problemas inerentes à vida adulta. O roteiro assinado pelo diretor Nicholas Stoller e pelo protagonista Billy Eichner demonstra habilidade ao percorrer os rumos já conhecidos do formato tradicional de uma comédia romântica e ao personalizá-la para seu público-alvo. É fácil torcer por dois personagens que, distintos em tudo o que se pode imaginar, encontram, somente depois de adultos, as vivências e as descobertas que heterossexuais têm à disposição desde muito cedo. Minha única observação menos elogiosa ao resultado fica com a escalação de Billy Eichner, que acaba sendo apenas… Billy Eichner. Muito provavelmente, seu personagem teria outras camadas a ganhar caso interpretado um ator mais imerso em um personagem e menos em uma persona já tão conhecida.

James Gray volta à infância com “Armageddon Time”, seu filme mais singelo até aqui

Do you think that’s smart?

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Direção: James Gray

Roteiro: James Gray

Elenco: Banks Repeta, Anne Hathaway, Jeremy Strong, Anthony Hopkins, Jaylin Webb, Andrew Polk, Ryan Sell, Tovah Feldshuh, Marcia Haufrecht, Teddy Coluca, Jessica Chastain, Richard Bekins, Dane West, John Diehl, Domenick Lombardozzi

EUA/Brasil, 2022, Drama, 114 minutos

Sinopse: Na Nova York dos anos 1980, antes de Ronald Reagan ser eleito presidente dos Estados Unidos, uma família vive no Queens e precisa passar por um processo profundamente pessoal. Traçando uma trajetória de amadurecimento, o longa aborda a força da família e a busca que atravessa gerações pelo “sonho americano”. (Adoro Cinema)

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Não é nenhuma novidade a meditação de cineastas norte-americanos sobre as suas infâncias em formato de filme autobiográfico. O próprio Steven Spielberg, após décadas de carreira, lançará em breve The Fabelmans, mostrando que esse é um tipo de projeto atemporal, sem hora ou momento exato para ser tirado do papel. Outro nome que se junta à estatística é o de James Gray, que chega agora aos cinemas com o seu Armageddon Time, antes visto na competição oficial do Festival de Cannes deste ano, e que tem como pano de fundo a Nova York dos anos 1980 e a clássica busca pelo chamado “sonho americano”.

James Gray sempre foi um diretor fora da curva, e é exatamente por isso que podemos dizer que Armageddon Time é o seu trabalho mais singelo e linear até aqui. Se levarmos em consideração filmes como Amantes, Era Uma Vez em Nova York e o próprio Ad Astra: Rumo às Estrelas, seu projeto anterior, falta nessa proclamada autobiografia algo mais pungente, ainda que o resultado tenha seu charme em função da melancolia e da nostalgia com que ele revisita as suas memórias, amparado por um ótimo elenco, que traz de Jeremy Strong a Anthony Hopkins, passando por Anne Hathaway e uma ligeira participação de Jessica Chastain.

Um dos componentes centrais da retrospectiva pessoal do cineasta é a relação estabelecida por Paul Graff (Banks Repetta, muito seguro ao não se estremecer frente a tantos atores bons) com a família, principalmente com o seu avô Aaron (Anthony Hopkins), a única pessoa que o jovem parece dar ouvidos de verdade. Entretanto, Gray dá atenção especial à jornada do garoto no ambiente escolar, onde conhecer o colega Johnny (Jaylin Webb), jovem negro que, a partir de um convívio muito próximo, revelará a Paul, entre outras coisas, os significados das palavras injustiça e privilégio.

Como esperado de um diretor como James Gray, a abordagem racial não segue cartilhas, e o fato de ser vista a partir da perspectiva de uma criança dá interessantes contornos aos conflitos. Para Paul, menino branco, judeu e que tem como plano B a possibilidade de ingressar em uma escola particular caso não se adeque ao ensino público, toda e qualquer desventura com o novo amigo não chega a oferecer perigo real devido a sua cor e posição social, algo que ele logo ressignifica quando compreende que Johnny não recebe o mesmo tratamento apenas por ser quem é. Se Paul fará algo ou não com isso é outra história e envolve descobertas de vida que acabarão por moldar o caráter do garoto.

Para olhares menos atentos a observações como essas, Armageddon Time pode parecer um filme qualquer de traços autobiográficos. O tom ameno e contido talvez contribua para essa conclusão, mesmo que o elenco estrelado eleve a encenação das dinâmicas familiares, com destaque para a delicada relação entre Paul e seu avô, interpretado com a sabedoria tão característica de um ator do calibre de Anthony Hopkins. E a verdade é que realmente estamos diante de um longa mais brando, como se Gray estivesse preocupado em zelar pelas suas lembranças, sem a vontade de revisitá-las com outro olhar apenas para fazer um espetáculo cinematográfico ou algo parecido.

Aliás, esperar isso do diretor é quase uma heresia, pois ele nunca foi afeito ao espetáculo pelo espetáculo. Seu olhar para os relacionamentos amorosos em Amantes, por exemplo, não poderia ser mais interiorizado e atmosférico, assim como a técnica foi para fins além da grandiosidade em Ad Astra, ficção-científica de orçamento considerável ambientado em diferentes pontos do sistema solar. Ou seja, a pegada não seria diferente em sua obra mais pessoal, constatação que não chega a compensar 100% o fato de que, mesmo para o padrão James Gray, Armageddon Time tinha potencial, sim, para alçar voos maiores.

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