Cinema e Argumento

Mais de duas décadas depois e agora em dose única, “Kill Bill” está de volta aos cinemas com sangue, adrenalina e… amor!

Sei que, pela proximidade do Oscar, eu deveria estar falando sobre o que a Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood deverá aprontar na cerimônia do próximo domingo (12), mas fui ver Kill Bill: The Whole Bloody Affair no cinema e veio uma vontade incontrolável de falar sobre essa versão unificada de Quentin Tarantino para os dois filmes – Kill Bill: Vol. 1 e Kill Bill: Vol. 2 – lançados em 2003 e 2004, respectivamente. À época, por pressões comerciais e exigências do famigerado produtor Harvey Weinstein, Tarantino precisou dividir em dois o seu longa-metragem então concebido como uma experiência única. A imposição do lançamento nesse formato nunca foi segredo e, agora, mais de 20 anos depois, quando vemos a versão em um só filme, dá para entender o porquê. Ainda que tenham sido aclamados com o mesmo entusiasmo, os dois capítulos de Kill Bill se engrandecem ainda mais quando condensados.

Há, no entanto, um adendo a ser feito: o marketing dá conta de que The Whole Bloody Affair seria uma experiência nova por ter cenas adicionais, o que não é exatamente uma verdade. Com exceção da versão estendida do anime envolvendo a origem da rainha do crime O-Ren Ishii (Lucy Liu), o que se acrescenta são apenas poucos segundos a algumas sequências, como pequenos alívios cômicos na batalha da Noiva (Uma Thurman) com os Crazy 88. A mudança mais significativa se dá em termos de estrutura: enquanto o Vol. 1 terminava com uma grande revelação – pensada, diga-se de passagem, exatamente para estimular o público a ver o Vol. 2 que seria lançado cerca de um ano depois –, The Whole Bloody Affair abre mão dessa sequência para deixar que o público ainda leigo na história descubra o tal segredo junto com a protagonista, somente no terço final, o que fortalece os traços essencialmente dramáticos que a história adota em seus momentos derradeiros.

Em síntese, Kill Bill é sobre uma ex-assassina profissional que, após acordar de um coma de quatro anos, decide se vingar do esquadrão responsável por sua quase-morte e liderado pelo Bill do título. Na divisão da obra, o primeiro volume se apresentava, inegavelmente, como uma obra mais violenta, pop e frenética, enquanto o segundo desacelerava em muitos aspectos, quase como uma antítese do que havíamos visto até então – não à toa, o clímax envolvendo o ato de, enfim, matar Bill (David Carradine) está envolto em diálogos e sentimentos, longe, por exemplo, da sanguinolência e da brutalidade com que todas as outras mortes se deram. A disparidade de estilos afetou, durante muitos anos, o meu envolvimento a saga da protagonista, pois nunca nutri pela segunda parte o mesmo entusiasmo que eu tinha pela primeira, algo que, hoje, ao me deparar com The Whole Bloody Affair, vejo que foi problema direto da decisão comercial que separou a obra como um todo.

Daqui para frente, contudo, o que ficará na minha memória é a experiência de ter assistido ao filme como ele foi concebido no papel. E é algo que faz toda a diferença, pois, tendo visto todos os acontecimentos de uma tacada só e sem a espera entre um lançamento e outro, os próprios descompassos que eu sentiam se torna uma qualidade. Toda a brutalidade vertiginosa da primeira parte vai gradativamente se tornando mais humana e ramificada em seus propósitos, culminando em uma série de relações interpessoais para lá de tortas e conflituosas, sejam as dos negócios mortais estabelecidos pelo Esquadrão Assassino de Víboras Mortais ou das relações afetivas, começando, claro, pela relação da Noiva com Bill. Em aproximadamente 4h30min, Tarantino desenha as transformações da trama com calma e criatividade, sem usar reviravoltas como meras muletas, mas sim como forma de trazer nuances para vários personagens que não chegamos a conhecer em meio aos deliciosos baldes de sangue e violência do primeiro ato. As horas de The Whole Bloody Affair não se fazem sentir e estão, a todo momento, trabalhando a favor de uma grande construção dramática.

Antes ou depois de Kill Bill, não faltaram reverências a Quentin Tarantino, que levou para casa da Palma de Ouro ao Oscar por filmes como Pulp Fiction e Django Livre. Seu último longa, Era Uma Vez… Em Hollywood rendeu a Brad Pitt todos os prêmios de melhor ator coadjuvante em 2020. Não acho que sua fase mais recente seja das mais interessantes. Pelo contrário: o que não me falta é desinteresse por um Tarantino cujo cinema se tornou consciente demais de si próprio, resultando em trabalhos tão interessantes quanto verborrágicos, como Os Oito Odiados, e cuja persona tem proferido um punhado de bobagens, a exemplo de seu depoimento depreciando, aleatoriamente, o grande desempenho de Paul Dano em Sangue Negro. Nada, contudo, afeta minha admiração por Kill Bill, que considero seu auge como contador de histórias. Em nenhum outro trabalho Tarantino amalgamou ocidente e oriente, samurais e caubóis, sangue e lágrimas ou amor e vingança com tanta disciplina e criatividade, sem fazer de The Whole Bloody Affair uma homenagem genérica a diversos gêneros e cineastas. É trabalho fino e de muitas constelações alinhadas no momento certo.

Todo esse universo não seria possível sem a presença de outra figura fundamental no processo de concepção de Kill Bill: a atriz Uma Thurman. Mais do que a protagonista, Thurman imaginou a personagem da Noiva junto a Tarantino antes mesmo da concepção do roteiro. E não é só com distância que a imensidão da atriz como a estrela do longa se faz notar: mesmo no lançamento do primeiro volume, a performance de Thurman já se estabelecia como um parâmetro para a posteridade tamanha a sua entrega física, dramática e versátil. O tempo só tornou ainda mais icônica uma performance sempre lembrada em Hollywood, como constatado em uma entrevista recente de Charlize Theron. Estrela do também memorável Mad Max: Estrada da Fúria, Theron falou que Uma Thurman em Kill Bill sempre foi a sua “sensei”, o que faz todo sentido comparado tudo o que as duas fizeram de marcante como protagonistas de suas duas obras. Se o Oscar vem quebrando preconceitos com o gênero de terror ao indicar com mais frequência nomes como Demi Moore (A Substância) e Amy Madigan (A Hora do Mal), o próximo passo é rever a relação com o gênero de ação, para que as próximas Uma Thurman e Charlize Theron não sejam mais uma vez também absurdamente ignoradas.

E, não menos importante, ao voltar a Kill Bill, me peguei pensando sobre o quanto a saga também é sobre… Amor! Dos mais tortos, cruéis e mortais, é verdade, mas, ainda assim, amor. Permito-me aqui abraçar o spoiler. Na reta final, a Noiva encontra um antigo conhecido de Bill que, enfim, lhe dará informações sobre onde está aquele que é último alvo da sua lista de vingança. Ao receber a localização com facilidade suspeita, ela questiona a veracidade dos fatos, ao que o personagem responde: “Ele gostaria que eu a ajudasse. Afinal, como a reencontraria novamente?”.  Já é o indício de que o último encontro do filme se dará não com violência, mas sim como o acerto de contas envolvendo uma série de ressentimentos, mágoas e respostas desproporcionais aos rumos tomados por um relacionamento outrora romântico. Não deixa de ser a inversão definitiva de expectativas que Tarantino guarda para uma saga recheada de surpresas por si só e que, entre cenas de ação muitíssimo bem coreografadas e o extremo bom gosto para a seleção de uma coletânea de canções na trilha sonora, acaba sendo, ao fim e ao cabo, sobre como o amor pode ser, ironicamente, um sentimento destrutivo e com muito mais sangue do que aquele bombeando os nossos corações.

Os vencedores do The Actor Awards 2026

Elenco de Pecadores recebe o prêmio principal da noite.

Indicador de eventuais mudanças na categoria principal temporada ou caso isolado de uma premiação que optou por abraçar o diferente? O The Actor Awards elegeu Pecadores como o melhor elenco e deu reconhecimento de peso a um filme que, apesar do recorde de indicações ao Oscar, só ganhava prêmios técnicos até aqui, perdendo, inclusive, o Globo de Ouro de melhor filme de drama para Hamnet: A Vida Antes de Hamlet. Tal consagração, assim como a inesperada vitória de Michael B. Jordan como melhor ator, dá uma nova embaralhada na corrida dominada a largos passos por Uma Batalha Após a Outra, mas será o suficiente para desbancar o reinado do longa dirigido por Paul Thomas Anderson? Difícil saber, o que é muito estimulante. Aliás, por falar em mistérios, o The Actor Awards confirmou que, considerando as categorias de interpretação, há apenas uma certeza para a noite do Oscar: a de que Jessie Buckley levará o prêmio de melhor atriz.

Nas demais disputas, tudo se resumirá a narrativas daqui em diante — e não de matemática, como costuma acontecer. Com a vitória de Michael B. Jordan como melhor ator, por exemplo, Timothée Chalamet (Marty Supreme) vê seu suposto favoritismo perder um pouco mais de força, principalmente após ter perdido também o BAFTA. Em ator coadjuvante, Sean Penn (Uma Batalha Após a Outra) repete o prêmio concedido pelos britânicos e agora assume a dianteira da categoria. No entanto, estaria o Oscar disposto a premiá-lo pela terceira vez? Por fim, é de se considerar que Amy Madigan (A Hora do Mal) agora seja, pela lógica, a aposta mais confortável em atriz coadjuvante. Acontece que, para o Oscar, o obstáculo está no fato de que seu filme não concorre em nenhuma outra categoria, ao contrário das demais concorrentes. É emoção que chama, né?

Confira abaixo a lista completa de vencedores do The Actor Awards:

CINEMA

MELHOR ELENCOPecadores
MELHOR ELENCO DE DUBLÊS: Missão: Impossível – O Acerto Final
MELHOR ATRIZ: Jessie Buckley (Hamnet: A Vida Antes de Hamlet)
MELHOR ATOR: Michael B. Jordan (Pecadores)
MELHOR ATOR COADJUVANTE: Sean Penn (Uma Batalha Após a Outra)
MELHOR ATRIZ COADJUVANTE: Amy Madigan (A Hora do Mal)

SÉRIES, MINISSÉRIES E TELEFILMES

MELHOR ELENCO EM SÉRIE DE DRAMAThe Pitt
MELHOR ELENCO EM SÉRIE DE COMÉDIAThe Studio

MELHOR ELENCO DE DUBLÊS EM SÉRIEThe Last of Us
MELHOR ATRIZ EM SÉRIE DE DRAMA: Keri Russell (The Diplomat)
MELHOR ATOR EM SÉRIE DE DRAMA: Noah Wyle (The Pitt)
MELHOR ATRIZ EM SÉRIE DE COMÉDIA: Catherine O’Hara (The Studio)
MELHOR ATOR EM SÉRIE DE COMÉDIA: Seth Rogen (The Studio)
MELHOR ATRIZ EM MINISSÉRIE OU TELEFILME: Michelle Williams (Morrendo Por Sexo)
MELHOR ATOR EM MINISSÉRIE OU TELEFILME: Owen Cooper (Adolescência)

Apostas para o The Actor Awards 2026

Não falta suspense para a cerimônia de premiação do The Actor Awards que será realizada neste domingo (01), a partir das 21h (horário de Brasília). Considerando as categorias de cinema, somente a de melhor atriz tem uma favorita sacramentada – caso de Jessie Buckley, por Hamnet: A Vida Antes de Hamlet. Já as demais apresentam disputa acirrada entre dois concorrentes, como melhor elenco (Pecadores e Uma Batalha Após a Outra), ou chegam com cenários amplamente abertos, a exemplo de melhor ator e atriz coadjuvante, onde, até o momento, não há consenso algum se levarmos em conta as recentes premiações televisionadas. Aliado a isso, o The Actor Awards sequer tem na disputa filmes em língua não-inglesa como Valor Sentimental ou O Agente Secreto. Ou seja, nem mesmo com as eventuais vitórias de hoje, as corridas dos atores para o Oscar ficarão necessariamente definidas.

Abaixo, minhas apostas para hoje:

CINEMA

MELHOR ELENCO: Pecadores / alt: Uma Batalha Após a Outra
MELHOR ELENCO DE DUBLÊS: Uma Batalha Após a Outra / alt: Pecadores
MELHOR ATRIZ: Jessie Buckley (Hamnet: A Vida Antes de Hamlet) / alt: Rose Byrne (Se Eu Tivesse Pernas, Eu Te Chutaria)
MELHOR ATOR: Ethan Hawke (Blue Moon) / alt: Timothée Chalamet (Marty Supreme)
MELHOR ATOR COADJUVANTE: Sean Penn (Uma Batalha Após a Outra) / alt: Jacob Elordi (Frankenstein)
MELHOR ATRIZ COADJUVANTE: Teyana Taylor (Uma Batalha Após a Outra) / alt: Amy Madigan (A Hora do Mal)

SÉRIES, MINISSÉRIES E TELEFILMES

MELHOR ELENCO EM SÉRIE DE DRAMA: The Pitt / alt: Ruptura
MELHOR ELENCO EM SÉRIE DE COMÉDIA: The Studio / alt: Only Murders in the Building

MELHOR ELENCO DE DUBLÊS EM SÉRIE: Round 6 / alt: Andor
MELHOR ATRIZ EM SÉRIE DE DRAMA: Rhea Seehorn (Pluribus) / alt: Britt Lower (Ruptura)
MELHOR ATOR EM SÉRIE DE DRAMA: Noah Wyle (The Pitt) / alt: Gary Oldman (Slow Horses)
MELHOR ATRIZ EM SÉRIE DE COMÉDIA: Jean Smart (Hacks) / alt: Catherine O’Hara (The Studio)
MELHOR ATOR EM SÉRIE DE COMÉDIA: Seth Rogen (The Studio) / alt: Martin Short (Only Murders in the Building)
MELHOR ATRIZ EM MINISSÉRIE OU TELEFILME: Erin Doherty (Adolescência) / alt: Michelle Williams (Dying for Sex)
MELHOR ATOR EM MINISSÉRIE OU TELEFILME: Owen Cooper (Adolescência) / alt: Stephen Graham (Adolescência)

Os vencedores do BAFTA 2026

Com seis troféus, Uma Batalha Após a Outra triunfa no BAFTA.

Se comentei que, em termos de indicados, o BAFTA 2026 em nada movimentava a temporada de premiações, a situação é totalmente diferente agora que os britânicos revelaram seus vencedores. Ainda que, na cerimônia realizada hoje (22), Uma Batalha Após a Outra tenha confirmado seu favoritismo, o BAFTA deu conta de bagunçar a corrida de três das quatro categorias de interpretação. Wumni Mosaku (Pecadores) e Sean Penn (Uma Batalha Após a Outra) foram os vitoriosos entre os coadjuvantes, diferindo de outras premiações como o Globo de Ouro e o Critics’ Choice, que, por sua vez, também optaram por candidatos diferentes entre si. Ou seja, o The Actor Awards terá papel fundamental no processo de revelar alguma tendência para ambas as categorias. Já o melhor ator foi, surpreendentemente, Robert Aramayo (I Swear), que não aparece em nenhuma outra lista e que, sendo britânico, aponta para a ideia de vermos o BAFTA retornando aos tempos em que valorizava mais o cinema local e estava menos preocupado em ser apenas uma prévia europeia do Oscar.

Saem consolidados da cerimônia Uma Batalha Após a Outra — que faturou inclusive categorias técnicas como melhor montagem e fotografia — e, claro, Jessie Buckley (Hamnet) como melhor atriz, sendo a única do quarteto de interpretações que deve terminar a corrida pelo Oscar vencendo todos os prêmios televisionados. Quanto às chances do Brasil, Adolpho Veloso perdeu a estatueta de melhor fotografia por Sonhos de Trem, o que pode ser considerado algo inusitado, mas o mesmo não se pode dizer de O Agente Secreto, que, conforme imaginado, saiu da festa sem vitórias. Não faço coro à análise de que o filme de Kleber Mendonça Filho somente perdeu porque o BAFTA tem predileção por obras europeias na categoria de filme de língua não-inglesa (Walter Salles, inclusive, já se consagrou duas vezes nela com Central do Brasil e Diários de Motocicleta, além de receber indicação por Abril Despedaçado). O que me parece é que, pela primeira vez, um grupo tenha confirmado a força de Valor Sentimental, que, não podemos esquecer, concorre a nove Oscars. Temos, sim, um concorrente de peso — e, dessa vez, sem chances de ser escanteado por uma certa Karla Sofía Gascón…

Confira abaixo a lista de vencedores:

MELHOR FILME: Uma Batalha Após a Outra
MELHOR FILME BRITÂNICO: Hamnet: A Vida Antes de Hamlet
MELHOR DIREÇÃO: Paul Thomas Anderson (Uma Batalha Após a Outra)

MELHOR ATRIZ: Jessie Buckley (Hamnet: A Vida Antes de Hamlet)
MELHOR ATOR: Robert Aramayo (I Swear)
MELHOR ATRIZ COADJUVANTE: Wunmi Mosaku (Pecadores)
MELHOR ATOR COADJUVANTE: Sean Penn (Uma Batalha Após a Outra)
MELHOR ESCALAÇÃO DE ELENCO: I Swear
MELHOR ROTEIRO ORIGINAL: Pecadores
MELHOR ROTEIRO ADAPTADO: Uma Batalha Após a Outra
MELHOR FILME EM LÍNGUA NÃO-INGLESA: Valor Sentimental (Noruega)
MELHOR DOCUMENTÁRIO: Mr. Nobody Against Putin
MELHOR ANIMAÇÃO: Zootopia 2
MELHOR FILME PARA CRIANÇAS E FAMÍLIA: Boong
MELHOR MONTAGEM: Uma Batalha Após a Outra

MELHOR FOTOGRAFIA: Uma Batalha Após a Outra
MELHOR TRILHA SONORA: Pecadores
MELHOR DESIGN DE PRODUÇÃO: Frankenstein
MELHOR FIGURINO: Frankenstein
MELHOR SOM: F1: O Filme
MELHORES EFEITOS VISUAIS: Avatar: Fogo e Cinzas
MELHOR CABELO E MAQUIAGEM: Frankenstein

MELHOR ESTREIA DE DIRETOR, PRODUTOR OU ROTEIRISTA BRITÂNICO: A Sombra do Meu Pai
MELHOR CURTA BRITÂNICO: This Is Endometriosis
MELHOR CURTA BRITÂNICO DE ANIMAÇÃO: Dois Meninos em Busca da Liberdade
EE RISING STAR: Robert Aramayo

Spirit Awards 2026 tem poucas intersecções com o Oscar — e, por isso mesmo, traz frescor para a temporada de premiações

É raro acontecer, mas, em 2026, o Independent Spirit Awards praticamente não tem intersecção com o Oscar. Se, em anos anteriores, o prêmio mais importante do cinema independente realizado nos Estados Unidos fez dobradinha com a Academia ao consagrar títulos como Anora, Tudo em Todo o Lugar ao Mesmo Tempo, Nomadland e Moonlight na categoria principal, hoje temos um cenário bastante atípico, onde nenhum dos cinco concorrentes ao Spirit Awards de melhor filme aparece no Oscar em qualquer categoria. No mais, apenas cinco títulos são compartilhados pelas duas premiações nas demais categorias técnicas e de interpretação: Sonhos de Trem, O Agente Secreto, Sirāt, A Vizinha Perfeita e Se Eu Tivesse Pernas, Eu Te Chutaria. E isso é demérito? Muito pelo contrário: a seleção, na verdade, traz frescor para uma temporada de premiações cada vez mais abarrotada de associações que, na prática, apesar da pluralidade de origens e vocações, acabam premiando sempre os mesmos concorrentes.

O Dia de Peter Hujar é o filme mais indicado do Spirit Awards 2026.

O líder de indicações deste ano no Spirit Awards é O Dia de Peter Hujar, tradução cinematográfica do diretor Ira Sachs (Passagens, O Amor é Estranho, Deixe a Luz Acesa) para uma conversa gravada em 1974 entre o fotógrafo Peter Hujar (Ben Whishaw, sempre excelente) e a escritora Linda Rosenkrantz (Rebecca Hall). Trata-se de um diálogo sobre 24 horas aparentemente banais na vida de Hujar, artista que se tornou uma das figuras centrais da lendária cena cultural nova-iorquina das décadas de 1970 e 80. A banalidade é aparente porque o relato acaba documentando as movimentações artísticas de uma Nova York em plena efervescência, o que pode ser muito interessante para quem se interessa pelo recorte ou perfeitamente tedioso frente à estrutura adotada. Tudo ocorre em um mesmo espaço, somente com dois atores conversando e gravando diálogos que foram encontrados em fitas na vida real. Há poucas engrenagens cinematográficas em O Dia de Peter Hujar, daí a minha incredulidade com tamanho amor do Spirit Awards pelo resultado final.

Kathleen Chalfant brilha em Toque Familiar.

Pelo menos quatro outros títulos mereciam mais reconhecimento. Começo com Toque Familiar, indicado somente a melhor performance protagonista e ao prêmio John Cassavetes, limitado a obras com orçamento de até um milhão de dólares. A belíssima e delicada performance de Kathleen Chalfant é, por óbvio, o grande destaque, mas como um todo, a diretora Sarah Friedland se sai admiravelmente bem ao não cair nas armadilhas tão tradicionais envolvendo relatos de personagens que se confrontam com a perda da memória e o Mal de Alzheimer na velhice. Tudo é elegante, silencioso e meticulosamente bordado em intimismo. Por falar em discrição, Depois do Fogo, o mais novo trabalho do diretor Max Walker-Silverman, também se ampara na lógica de que menos é mais para abordar uma circunstância familiar aos Estados Unidos em sua história recente: a do cowboy Dusty (Josh O’Connor), que, após ver incêndios florestais tomarem conta de seu rancho, chega a um acampamento tendo que reconstruir sua vida e seus laços. Assim como em Uma Noite no Lago, Walker-Silverman filma a solidão e os recomeços com melancolia e humanidade. A única indicação foi para a coadjuvante Kali Reis, o que em nada reflete a beleza cotidiana do longa.

Ainda na conta dos subestimados, coloco Hedda, adaptação da diretora Nia DaCosta para a famosa peça de 1891 do aclamado dramaturgo Henrik Ibsen. A promessa de que a nova leitura seria cativante e de grande escala, a meu ver, é cumprida: à parte as merecidas indicações para Tessa Thompson e Nina Hoss em performance protagonista e coadjuvante, respectivamente, a obra em si é ambiciosa do ponto de vista técnico e de ideias. Nia DaCosta tem ótimo tino para lidar com a malícia, a insegurança e a ardilosidade das personagens centrais, todas femininas e emolduradas por uma atmosfera instigante que traz, por exemplo, mais um ótimo trabalho da Oscarizada compositora islandesa Hildur Guðnadóttir (Coringa, Chernobyl). E o que dizer sobre O Testamento de Ann Lee, um dos casos mais emblemáticos de campanha mal conduzida nos últimos anos? Um musical de época que poderia ter emplacado múltiplas indicações em todos os prêmios acabou relegado exclusivamente a uma indicação de melhor montagem no Spirit Awards. Ainda que nem sempre o filme de Mona Fastvold convença na mitologia criada em torno da personagem de Amanda Seyfried, é inegável que os outros vários méritos do filme, como a fabulosa trilha de Daniel Blumberg, mereciam muito mais atenção.

Lurker investiga os caminhos tortuosos da obsessão e da falta de identidade.

Tematicamente, percebo aproximação entre vários indicados, caso de Lurker, Twinless e The Plague, que, cada um à sua maneira, versam sobre os caminhos tortos traçados por protagonistas que buscam algum senso de pertencimento, nem que, para tanto, precisem abrir mão de suas histórias verdadeiras para assumir outros papeis. O primeiro adota o tom de suspense e tensão, extraindo excelentes interpretações de Théodore Pellerin e Archie Madekwe, que fazem um duelo não tão velado de pessoas cujas carências e egocentrismos se retroalimentam. Já Twinless é bem sucedido e envolvente ao lidar com as camadas complicadas do luto, aqui visto sob a ótica de um personagem que se aproveita da dor do próximo para, secretamente, conseguir o que precisa para administrar suas próprias feridas emocionais. E, por fim, The Plague pisa no terreno da adolescência – e nos lembra de levantar as mãos do céu para agradecer que só passamos por essa fase uma vez na vida. Jovens podem ser muito cruéis, especialmente diante do diferente, e o diretor Charlie Polinger cria um incômodo palpável ao explorar as possibilidades das crueldades sociais às quais os adolescentes se submetem para encontrar alguma construção de personalidade.

Blue Sun Palace e Lucky Lu também rendem uma sessão conjunta, mas ficam estacionados em um certo lugar-comum. Ambos se debruçam sobre a chegada de personagens asiáticos em Nova York e a extenuante rotina adotada por eles para tentar sobreviver em uma Big Apple pouco amigável aos que vêm de fora. Se os estilos são distintos – Blue Sun Palace tem olhar feminino e subjetivo para o desenvolvimento íntimo de cada figura em cena, enquanto Lucky Lu se agarra à jornada individual de um homem em meio a uma série de adversidades que testam sua resiliência –, os resultados são semelhantes até demais em discursos. Esperava que os dois tivessem mais a dizer sobre a dureza com que os Estados Unidos tratam imigrantes. Ao fim e ao cabo, valem sobretudo pela ótica oriental dada a um viés que é predominantemente encenado a partir da vivência de personagens latinos.

Nick Offerman e Jacob Tremblay são pai e filho no potente Sovereign.

Enquanto isso, Sovereign e A Little Prayer questionam a reverberação paterna na criação dos filhos. O retrato de Sovereign é desolador, no caso, o de Jerry (Nick Offerman), que, declaradamente antigoverno, vê conspiração em tudo o que os Estados Unidos colocam como regra ou lei para a sociedade. Da carteira de habilitação que ele se nega a tirar para poder dirigir às aulas que dá ao próprio filho para não o colocar em uma escola, Jerry cria Joe (Jacob Tremblay) em uma redoma de alienação e negacionismo que, claro, só poderia resultar em tragédia. É um dos meus favoritos entre os indicados ao Spirit Awards 2026 – e, por ser baseado em uma história real, torna-se ainda mais impactante no estudo de uma paternidade falida. Em contraste, A Little Prayer é sensível na busca de um pai para entender como seu filho, um homem que ele criou com retidão e carinho em uma pequena cidade do interior, vem traindo a esposa. Afinal, quais valores são realmente absorvidos de uma geração para outra? Há alguma culpa paterna na traição reiterada do filho? A condução é simples, quase artesanal, característica de um cinema pequeno e independente bastante raro nos dias de hoje.

Para fechar o balanço de títulos assistidos, há Sorry, Baby, do qual gosto muito e já falei aqui; A Longa Marcha: Caminha ou Morra, ótima adaptação da obra homônima de Stephen King cujo elenco recebe o prêmio Robert Altman; a comédia-pastelão Um Dia Daqueles, que coloca duas mulheres negras (Keke Palmer e SZA) no centro de uma divertida história sobre a busca quase impossível pelo dinheiro devido do aluguel até o fim do dia; e O Bom Bandido, sobre a história verídica de um ladrão profissional (Channing Tatum) que encontra um esconderijo numa loja de brinquedos, sobrevivendo por meses sem ser detectado enquanto planeja seu próximo passo. Esses dois últimos talvez sejam mais convencionais se tratando de forma e desenvolvimento, mas, nem por isso deixam de ter brilho próprio, em especial Um Dia Daqueles no que se refere às presenças cativantes de suas duas protagonistas.

A lista completa de indicados ao Spirit Awards pode ser conferida aqui.