Cinema e Argumento

“Entre Mulheres” dialoga sobre as interseções, discordâncias e tragédias de um violentado universo feminino

Why does love — the absence of love, the end of love, the need for love — result in so much violence?

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Direção: Sarah Polley

Roteiro: Sarah Polley, baseado no romance “Women Talking”, de Miriam Toews

Elenco: Jessie Buckley, Rooney Mara, Claire Foy, Ben Whishaw, Judith Ivey, Kate Hallett, Emily Mitchell, Liv McNeil, Sheila McCarthy, Michelle McLeod, Frances McDormand, Kira Guloien, Shayla Brown

Women Talking, EUA, 2022, Drama, 104 minutos

Sinopse: Em 2010, as mulheres de uma comunidade religiosa isolada lutam para conciliar sua realidade com sua fé. (Adoro Cinema)

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O título original — Women Talking, ou seja, mulheres falando/conversando, em uma tradução literal — é mais fiel ao que a diretora Sarah Polley encena neste seu quarto longa-metragem, chamado aqui no Brasil de Entre Mulheres. Literalmente, a adaptação do livro homônimo lançado por Miriam Toews em 2018 traz várias personagens que, durante pouco mais de 90 minutos, discutem se devem ou não fugir da comunidade religiosa em que (con)vivem com homens abusadores e violentos, muitas vezes dentro de suas próprias casas. Não é coisa do século passado: apesar dos figurinos e da direção de arte evocarem tempos antigos, Entre Mulheres deixa uma incômoda sensação de que, seja em que época for, o sistema patriarcal segue, de um jeito ou de outro, dolorosamente enraizado em todos os cantos do mundo.

Sarah Polley estreou na direção de longas-metragens aos 27 anos de idade com uma maturidade impressionante. Seu Longe Dela, de 2006, é ímpar na sensibilidade com que fala sobre um tema à época bastante distante daquela jovem cineasta: as transformações trazidas pelo Mal de Alzheimer a um casamento de mais de quatro décadas. Agora, dez anos após ter realizado o pessoalíssimo documentário Histórias Que Contamos, ela demonstra que sua habilidade como narradora segue intacta com Entre Mulheres. Mais do que isso, Polley pega um formato em que é fácil resvalar para a linguagem teatral para colocar na tela um filme dinâmico e que, do ponto de vista temático, discute as violências dirigidas ao universo feminino sem cair em discursos fáceis.

Tudo o que Sarah Polley não quer é, justamente, respostas prontas, aproveitando muito bem personagens em conflito sobre sair ou não da tal comunidade em que vivem. Há aquelas convictas de que, por só conhecerem uma única realidade durante toda uma vida, não conseguirão sobreviver sem os homens. Já uma personagem específica é categórica: ele será capaz de matar para defender as filhas caso continue onde está. Mulheres de diferentes gerações e convicções analisam todos os cenários — e, a partir deles, Polley versa sobre violência, costumes, ideais, as trágicas universalidades que unem as mulheres e, por que não, as discordâncias existentes entre pessoas que teoricamente deveriam estar de acordo em prol de um bem maior.

Entre Mulheres não deixa de ser uma celebração ao diálogo, com toda atenção aos detalhes e às camadas que apenas um olhar feminino poderia conferir a um projeto como esse. Também tem tempo para tecer reflexões com calma porque os homens estão fora de quadro, com exceção do personagem de Ben Whishaw, por razões logo explicadas pelo roteiro. Deixar os homens de fora é uma jogada acertada porque assim Polley outra vez confere atenção prática às mulheres, colocando-as como nosso ponto de referência em relação aos conflitos e suas urgências. Sabemos o que sabemos por causa delas e confiamos em cada palavra quando o roteiro nos insere em todas as conversas como se estivéssemos ali, ouvindo atentamente as idas e vindas de reflexões e argumentos.

Ao mesmo tempo, ser de natureza “palavrosa” não faz de Entre Mulheres um apanhado inchado de observações e personagens. O roteiro mais ambicioso da carreira de Polley até aqui se garante porque é instigante ao deixar o espectador curioso pela resolução. Conseguirão aquelas mulheres chegarem a um acordo? E, se não houver unanimidade, como ficam as que discordam ou que não desejam seguir a maioria? Elas literalmente colocam no papel os prós e os contras de todos os possíveis caminhos e, para além das palavras, ganham vida nas mãos de um grupo extraordinário de atrizes, com direito a uma participação muito pequena de Frances McDormand, também produtora do longa.

De intérpretes já bastante conhecidas do público, como Claire Foy e Ronney Mara, a outras nem tanto, a exemplo de Michelle McLeod e August Winter (a segunda interpretando uma menina que passa a se identificar e a se vestir como um garoto), o elenco se caracteriza por uma colaboração generosa e equivalente entre as atrizes. Meu destaque particular fica com Jessie Buckley, que dá vida à personagem mais espinhosa de todas, daquele tipo que tem resposta para tudo e que caminha por uma linha muito tênue entre praticidade e um senso para lá de individualista. Sua reatividade levanta boa parte dos conflitos e diz mais sobre seus medos e anseios do que ela própria está disposta a admitir.

Por não ter lido o livro original de Miriam Towes — que, por sua vez, toma como inspiração o caso real de uma pequena comunidade boliviana em que nove homens drogavam e abusavam de mulheres locais —, fico sem poder dizer o quanto a adaptação é fiel ou transcende a obra que toma como base. Contudo, isoladamente como cinema, Entre Mulheres é uma excelente pedida para quem, assim como eu, acredita que a concisão de um bom roteiro, um ótimo elenco e uma direção que sabe o que está fazendo rende muito mais do que qualquer pirotecnia. Em uma de suas entrevistas sobre o filme, Sarah Polley apontou como a fotografia de tons dessaturados evoca à ideia de que o universo daquelas mulheres — e os conflitos inerentes a ele — já desapareceu há muitos anos. Otimismo demais diante das tragédias que ainda vemos por aí? Talvez. Mas envernizado por uma esperança que Polley traz com as pequenas grandes qualidades que lhe firmaram como uma cineasta para se acompanhar sempre.

Os indicados ao Oscar 2023

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Tudo em Todo o Lugar ao Mesmo Tempo, inclusive no Oscar. Academia concede 11 indicações ao filme da dupla Daniel Kwan e Daniel Scheinert, tornando-o filme mais lembrado da 95ª edição.

De bate-pronto, abaixo deixo registradas algumas (várias) impressões sobre os indicados ao Oscar 2023. Os vencedores serão conhecidos no dia 12 de março.

– Muito feliz com a liderança de Tudo em Todo o Lugar ao Mesmo Tempo. Quando assisti pela primeira vez, em junho do ano passado, jamais imaginei que a Academia compraria esse liquidificador de gêneros e ideias;

– Curti também a boa recepção para o alemão Nada de Novo no Front, que rejeita a glamourização da guerra e coloca o espectador no meio de um grande pesadelo nas trincheiras;

– Não reclamo da rejeição ao sul-coreano Decisão de Partir porque não me conectei com o filme em nenhum momento – assim como já tinha acontecido com A Criada, o trabalho anterior do diretor Park Chan-Wook;

– Manifesto minha decepção, no entanto, com o fato da Academia ter dado ao Pinóquio de Guillermo Del Toro somente a indicação em melhor animação. Dá a impressão de que um filme desse gênero só se habilita para outras categorias quando se encaixa na caixinha Disney/Pixar;

– Já estava quase escorrendo uma lágrima por Aftersun estar passando em branco quando anunciaram Paul Mescal em melhor ator. Merecia muito mais, mas, pelo menos, o belo filme de Charlotte Wells está muito bem representado com essa delicada performance;

– Quem também merecia bem mais é Entre Mulheres, da Sarah Polley, que, apesar da indicação a melhor filme e roteiro, deveria ter emplacado, no mínimo, indicações para duas ou três atrizes do elenco;

– Quero o que os membros da Academia beberam quando resolveram indicar Top Gun: Maverick em melhor roteiro adaptado. Mesmo em um ano fraco, é uma indicação completamente sem sentido e absurda;

– Temos apenas um concorrente não-europeu na categoria de melhor filme internacional: o ótimo Argentina, 1985. Fico feliz com uma possível vitória do longa, mas confesso que meu coração fica com o belga Close;

– Triste por ver mais uma vez o Paul Dano ignorado, dessa vez por Os Fabelmans, especialmente quando o Judd Hirsch concorre pelo mesmo filme por uma aparição mínima. Dano já merecia indicação desde os tempos de Pequena Miss Sunshine e Sangue Negro;

– Era para ser o ano em que a Academia indicaria duas atrizes negras na categoria de protagonista: Viola Davis (A Mulher Rei) e Danielle Deadwyller (Till). Ambas ficaram de fora;

– 16 dos 20 atores indicados esse ano estão pela primeira vez concorrendo ao Oscar. Renovação das boas, e sem enxurrada de cinebiografias. Amém!;

– Meu desafeto da temporada é Tár, que provavelmente dará um terceiro Oscar para a Cate Blanchett. Achei o filme interminável, desinteressante e até datado em suas discussões;

– Andrea Riseborough surgiu de última hora na categoria de melhor atriz devido a uma ampla campanha de outros atores nas redes sociais por sua performance em To Leslie. Dizem que isso vai mudar drasticamente a forma como as campanhas são direcionadas, mas campanha por redes sociais me lembram Donald Trump e Jair Bolsonaro, então prefiro não me entusiasmar.

– Por fim, acho que é a primeira vez que acompanho o anúncio dos indicados ao Oscar já tendo conferido todos os indicados a melhor filme. É uma seleção equilibrada e que, ao meu ver, tem filme para todos os gostos. E o mais importante: nenhum constrangimento. Pelo menos pra mim, claro.

Confira abaixo os indicados:

MELHOR FILME
Avatar: O Caminho da Água
Os Banshees de Inisherin
Elvis
Entre Mulheres
Os Fabelmans
Nada de Novo no Front
Tár
Top Gun: Maverick
Triângulo da Tristeza
Tudo em Todo o Lugar ao Mesmo Tempo

MELHOR DIREÇÃO
Daniel Kwan e Daniel Scheinert (Tudo em Todo o Lugar ao Mesmo Tempo)
Martin McDonagh (Os Banshees de Inisherin)
Ruben Östlund (Triângulo da Tristeza)
Steven Spielberg (Os Fabelmans)
Todd Field (Tár)

MELHOR ATRIZ
Ana De Armas (Blonde)
Andrea Riseborough (To Leslie)
Cate Blanchett (Tár)
Michelle Yeoh (Tudo em Todo o Lugar ao Mesmo Tempo)
Michelle Williams (Os Fabelmans)

MELHOR ATOR
Austin Butler (Elvis)
Bill Nighy (Living)
Brendan Fraser (A Baleia)
Colin Farrell (Os Banshees de Inisherin)
Paul Mescal (Aftersun)

MELHOR ATRIZ COADJUVANTE
Angela Bassett (Pantera Negra: Wakanda Para Sempre)
Hong Chau (A Baleia)
Jamie Lee Curtis (Tudo em Todo o Lugar ao Mesmo Tempo)
Kerry Condon (Os Banshees de Inisherin)
Stephanie Hsu (Tudo em Todo o Lugar ao Mesmo Tempo)

MELHOR ATOR COADJUVANTE
Barry Keoghan (Os Banshees de Inisherin)
Brendan Gleeson (Os Banshees de Inisherin)
Brian Tyree Henry (Passagem)
Judd Hirsch (Os Fabelmans)
Ke Huy Quan (Tudo em Todo o Lugar ao Mesmo Tempo)

MELHOR ROTEIRO ORIGINAL
Os Banshees de Inisherin
Os Fabelmans
Tár
Triângulo da Tristeza

Tudo em Todo o Lugar ao Mesmo Tempo

MELHOR ROTEIRO ADAPTADO
Glass Onion: Um Mistério Knives Out
Entre Mulheres
Living
Nada de Novo no Front
Top Gun: Maverick

MELHOR FILME INTERNACIONAL
Argentina, 1985 (Argentina)
Close (Bélgica)
EO (Polônia)
Nada de Novo no Front (Alemanha)
The Quiet Girl (Irlanda)

MELHOR DOCUMENTÁRIO
All That Breathes
All the Beauty and the Bloodshed
A House Made of Splinters
Navalny
Vulcões: A Tragédia de Katia e Maurice Krafft

MELHOR ANIMAÇÃO
Gato de Botas 2: O Último Pedido
A Fera do Mar
Marcel the Shell With Shoes On

Pinóquio por Guillermo del Toro
Red: Crescer é uma Fera

MELHOR DESIGN DE PRODUÇÃO
Avatar: O Caminho da Água
Babilônia
Elvis
Os Fabelmans
Nada de Novo no Front

MELHOR FOTOGRAFIA
Bardo: Falsa Crônica de Algumas Verdades
Elvis
Império da Luz
Nada de Novo no Front
Tár

MELHOR FIGURINO
Babilônia
Elvis
Pantera Negra: Wakanda Para Sempre
Sra. Harris vai a Paris
Tudo em Todo o Lugar ao Mesmo Tempo

MELHOR MONTAGEM
Os Banshees de Inisherin
Elvis
Tár
Top Gun: Maverick
Tudo em Todo o Lugar ao Mesmo Tempo

MELHOR SOM
Avatar: O Caminho da Água
Batman
Elvis
Nada de Novo no Front
Top Gun: Maverick

MELHOR TRILHA SONORA
Babilônia
Os Banshees de Inisherin
Os Fabelmans
Nada de Novo no Front
Tudo em Todo o Lugar ao Mesmo Tempo

MELHOR CANÇÃO ORIGINAL
“Applause” (Tell it Like a Woman)
“Hold My Hand” (Top Gun: Maverick)
“Lift Me Up” (Pantera Negra: Wakanda Para Sempre)
“Naatuu Naatu” (RRR: Revolta, Rebelião, Revolução)
“This is Life” (Tudo em Todo o Lugar ao Mesmo Tempo)

MELHOR MAQUIAGEM E PENTEADOS
A Baleia

Batman
Elvis
Nada de Novo no Front
Pantera Negra: Wakanda Para Sempre

MELHORES EFEITOS VISUAIS
Avatar: O Caminho da Água
Batman
Nada de Novo no Front
Pantera Negra: Wakanda Para Sempre
Top Gun: Maverick

MELHOR CURTA-METRAGEM
An Irish Goodbye
Ivalu
Night Ride
Le Pupille
The Red Suitcase

MELHOR CURTA-METRAGEM DE ANIMAÇÃO
The Boy, the Mole, the Fox and the Horse
The Flying Sailor
Ice Merchants
An Ostrich Told Me the World is Fake, and I Think I Believe It
My Year of Dicks

MELHOR CURTA-METRAGEM DE DOCUMENTÁRIO
O Efeito Martha Mitchell
The Elephant Whisperers
Haulout
How Do You Measure a Year?
Stranger at the Gate

Os indicados ao BAFTA 2023

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O alemão Nada de Novo no Front se torna o filme mais indicado da história do BAFTA, empatado com O Tigre e o DragãoO Discurso do Rei, todos com 14 indicações.

A votação para escolher os indicados ao Oscar terminou antes de o BAFTA revelar sua lista, o que resulta em um cenário onde os britânicos têm pouca influência sobre a seleção a ser revelada pela Academia na próxima semana. Entretanto, há sinais muito interessantes entre os indicados ao BAFTA que podem servir para antecipar eventuais surpresas do Oscar. A liderança absoluta de Nada de Novo no Front com 14 indicações, por exemplo, indica que o filme alemão tem grandes chances de performar melhor do que esperado. As lembranças para Paul Mescal (Aftersun) em melhor ator e até mesmo para Gina-Prince-Brythewood (A Mulher Rei) na corrida essencialmente masculina de melhor direção também devem ser consideradas, especialmente porque são lembranças de “última hora” após sucessivos esquecimentos em outras premiações como o Globo de Ouro ou o Screen Actors Guild Awards.

Isoladamente, os britânicos parecem ter achado um bom equilíbrio no formato da votação após alguns anos patinando na metodologia, que hoje inclui parte da seleção feita por um júri e outra por todos os votantes. O resultado é uma lista muito boa que: a) traz um novo líder de indicações em uma temporada marcada pela alternância entre Tudo em Todo o Lugar ao Mesmo TempoOs Banshees de Inisherin; b) faz a habitual celebração à prata da casa (Emma Thomspon em melhor atriz com Boa Sorte, Leo Grande, por exemplo); c) dispensa algumas tendências bem expressivas da temporada, como a presença de Top Gun: Maverick nas categorias principais; d) escapa do #BAFTASoWhite com uma mulher negra concorrendo em direção e duas em melhor atriz, além de Michael Ward (Império da Luz) em ator coadjuvante e Darryl McCormack (Boa Sorte, Leo Grande em melhor ator); e e) embaralha a disputa ao incluir Os Fabelmans somente na disputa de melhor roteiro original.

Uma última curiosidade é que, com 14 indicações, Nada de Novo no Front agora divide o posto de filme mais indicado da história do BAFTA com O Tigre e o DragãoO Discurso do Rei. Estranhamente, entre as nomeações possíveis para o longa de Edward Berger, a única que não aconteceu foi a de melhor ator para Felix Kammerer, impossibilitando, portanto, uma conquista histórica de 15 indicações. Resta saber agora quantas estatuetas Nada de Novo no Front conseguirá levar para casa. Os vencedores serão conhecidos no dia 19 de fevereiro.

MELHOR FILME
Os Banshees de Inisherin
Elvis
Nada de Novo no Front
Tár
Tudo em Todo o Lugar ao Mesmo Tempo

MELHOR DIRETOR
Daniel Kwan e Daniel Scheinert (Tudo em Todo o Lugar ao Mesmo Tempo)
Edward Berger (Nada de Novo no Front)
Gina Prince-Bythewood (A Mulher Rei)
Martin McDonagh (Os Banshees of Inisherin)
Park Chan-wook (Decisão de Partir)
Todd Field (Tár)

MELHOR ATRIZ
Ana De Armas (Blonde)
Cate Blanchett (Tár)
Danielle Deadwyler (Till: A Busca por Justiça)
Emma Thompson (Boa Sorte, Leo Grande)
Michelle Yeoh (Tudo em Todo o Lugar ao Mesmo Tempo)
Viola Davis (A Mulher Rei)

MELHOR ATOR
Austin Butler (Elvis)
Bill Nighy (Living)
Brendan Fraser (A Baleia)
Colin Farrell (Os Banshees de Inisherin)
Daryl McCormack (Boa Sorte, Leo Grande)
Paul Mescal (Aftersun)

MELHOR ATRIZ COADJUVANTE
Angela Bassett (Pantera Negra: Wakanda para Sempre)
Carey Mulligan (Ela Disse)
Dolly De Leon (Triângulo da Tristeza)
Hong Chau (A Baleia)
Jamie Lee Curtis (Tudo em Todo o Lugar ao Mesmo Tempo)
Kerry Condon (Os Banshees de Inisherin)

MELHOR ATOR COADJUVANTE
Albrecht Schuch (Nada de Novo no Front)
Barry Keoghan (Os Banshees de Inisherin)
Brendan Gleeson (Os Banshees de Inisherin)
Eddie Redmayne (O Enfermeiro da Noite)
Ke Huy Quan (Tudo em Todo o Lugar ao Mesmo Tempo)
Micheal Ward (Império da Luz)

MELHOR ROTEIRO ORIGINAL
Os Banshees de Inisherin
Os Fabelmans
Tár
Triângulo da Tristeza
Tudo em Todo o Lugar ao Mesmo Tempo

MELHOR ROTEIRO ADAPTADO
A Baleia
Ela Disse
Living
Nada de Novo no Front
The Quiet Girl

MELHOR ANIMAÇÃO
Gato de Botas 2: O Último Pedido
Marcel the Shell with Shoes On
Pinóquio por Guillermo Del Toro
Red: Crescer é uma Fera

MELHOR DOCUMENTÁRIO
All That Breathes
All the Beauty and the Bloodshed
Moonage Daydream
Navalny
Vulcões: A Tragédia de Katia e Maurice Krafft

MELHOR FILME EM LÍNGUA NÃO-INGLESA
Argentina, 1985 (Argentina)
Corsage (Áustria)
Decisão de Partir (Coreia do Sul)
Nada de Novo no Front (Alemanha)
The Quiet Girl (Irlanda)

MELHOR FILME BRITÂNICO
Aftersun
Os Banshees de Inisherin
Boa Sorte, Leo Grande
Brian e Charles
Império da Luz
Living
O Milagre
As Nadadoras
Matilda: O Musical
Veja Como Eles Correm

MELHOR ELENCO
Aftersun
Elvis
Nada de Novo no Front
Triângulo da Tristeza
Tudo em Todo o Lugar ao Mesmo Tempo

MELHOR TRILHA SONORA
Babilônia
Os Banshees de Inisherin
Nada de Novo no Front
Pinóquio por Guillermo del Toro
Tudo em Todo o Lugar ao Mesmo Tempo

MELHOR FOTOGRAFIA
Batman
Elvis
Império da Luz
Nada de Novo no Front
Top Gun: Maverick

MELHOR EDIÇÃO
Os Banshees de Inisherin
Elvis
Nada de Novo no Front
Top Gun: Maverick – Eddie Hamilton
Tudo em Todo o Lugar ao Mesmo Tempo

MELHOR DESIGN DE PRODUÇÃO
Babilônia
Batman
Elvis
Nada de Novo no Front
Pinóquio

MELHOR FIGURINO
Amsterdam
Babilônia
Elvis
Nada de Novo no Front
Sra. Harris Vai a Paris

MELHOR SOM
Avatar: O Caminho da Água
Elvis
Nada de Novo no Front
Tár
Top Gun: Maverick

MELHORES EFEITOS VISUAIS
Avatar: O Caminho da Água
Batman
Nada de Novo no Front

Tudo em Todo o Lugar ao Mesmo Tempo
Top Gun: Maverick

MELHOR CABELO E MAQUIAGEM
A Baleia
Batman
Elvis
Matilda: O Musical
Nada de Novo no Front

MELHOR ESTREIA DE ROTEIRISTA, DIRETOR OU PRODUTOR BRITÂNICO
Charlotte Wells (Aftersun)
Georgia Oakley e Hélène Sifre (Blue Jean)
Leo Grande Katy Brand (Boa Sorte, Leo Grande)
Maia Kenworthy (Rebellion)
Marie Lidén (Electric Malady)

MELHOR CURTA BRITÂNICO
The Ballad Of Olive Morris
Bazigaga
Bus Girl
A Drifting Up
An Irish Goodbye

MELHOR CURTA BRITÂNICO DE ANIMAÇÃO
O Menino, a Toupeira, a Raposa e o Cavalo
Middle Watch
Your Mountain is Waiting

EE RISING STAR
Aimee Lou Wood
Daryl Mccormack
Emma Mackey
Naomi Ackie
Sheila Atim

Melhores de 2022: líder de indicações, “Tudo em Todo o Lugar ao Mesmo Tempo” concorre em 11 categorias

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Michelle Yeoh em Tudo em Todo o Lugar ao Mesmo Tempo: filme dos Daniels lidera a lista de melhores de 2022 do blog com 11 indicações.

Montar listas é sempre uma tarefa divertida, mas, com o passar dos anos, torna-se cada vez mais difícil. Há muito tempo já não vejo tantos filmes quanto gostaria (ah, a vida adulta…), o que faz com que o meu critério na hora de escolher um filme para assistir seja consideravelmente maior. O resultado é um acúmulo de bons longas, dificultando a vida de um ansioso quando é chegada a hora de estabelecer qualquer recorte de comparações ou preferências. Não há jeito: aqui ou ali, é inevitável sair com o coração um tanto partido.

Contudo, abraço o desafio e novamente estou aqui com mais uma seleção que, no frigir dos ovos, acaba me representando bastante. Considerando os títulos lançados comercialmente no Brasil em 2022 tanto nas salas de cinema quanto em streaming, a lista dos meus melhores de 2022 traz Tudo em Todo o Lugar ao Mesmo Tempo na dianteira com 11 indicações, seguido por Nada de Novo no Front com oito. Os vencedores serão conhecidos, como nas últimas edições, em três postagens com comentários. 

MELHOR FILME
Aftersun, de Charlotte Wells
Carvão, de Carolina Markowickz
Drive My Car, de Ryûsuke Hamaguchi
Marte Um, de Gabriel Martins
Moonage Daydream, de Brett Morgen
Nada de Novo no Front, de Edward Berger
Pinóquio por Guillermo del Toro, de Guillermo del Toro e Mark Gustafson
A Pior Pessoa do Mundo, de Joachim Trier
Spencer, de Pablo Larraín
Tudo em Todo o Lugar ao Mesmo Tempo, de Daniel Kwan e Daniel Scheinert

MELHOR DIREÇÃO
Charlotte Wells (Aftersun)
Daniel Klein e Daniel Scheinert (Tudo em Todo o Lugar ao Mesmo Tempo)
Guillermo Del Toro (Pinóquio por Guillermo del Toro)
Edward Berger (Nada de Novo no Front)
Pablo Larraín (Spencer)

MELHOR ATRIZ
Emma Thompson (Boa Sorte, Leo Grande)
Isabelle Fuhrman (A Novata)
Kristen Stewart (Spencer)
Michelle Yeoh (Tudo em Todo o Lugar ao Mesmo Tempo)
Rebecca Hall (Resurrection)

MELHOR ATOR
Austin Butler (Elvis)
Franz Rogowski (Great Freedom)
Hidetoshi Nishijima (Drive My Car)
Paul Mescal (Aftersun)
Tony Ramos (45 do Segundo Tempo)

MELHOR ATRIZ COADJUVANTE
Dakota Johnson (Cha Cha Real Smooth – O Próximo Passo)

Jamie Lee Curtis (Tudo em Todo o Lugar ao Mesmo Tempo)
Janelle Monáe (Glass Onion: Um Mistério Knives Out)
Lashana Lynch (A Mulher Rei)
Stephanie Hsu (Tudo em Todo o Lugar ao Mesmo Tempo)

MELHOR ATOR COADJUVANTE
Anders Danielsen Lie (A Pior Pessoa do Mundo)
Anthony Hopkins (Armageddon Time)
Ke Huy Quan (Tudo em Todo o Lugar ao Mesmo Tempo)
Mark Rylance (Até os Ossos)
Tim Roth (Resurrection)

MELHOR ELENCO
Carvão
O Clube dos Anjos
Marte Um
O Menu
Tudo em Todo o Lugar ao Mesmo Tempo

MELHOR ROTEIRO ORIGINAL
Aftersun
Palm Springs
Pequena Mamãe
A Pior Pessoa do Mundo
Tudo em Todo o Lugar ao Mesmo Tempo

MELHOR ROTEIRO ADAPTADO
Até os Ossos
O Clube dos Anjos
Drive My Car
O Enfermeiro da Noite
Nada de Novo Front

MELHOR MONTAGEM
5 Casas
Aftersun
Moonage Daydream
Tudo em Todo o Lugar ao Mesmo Tempo
A Pior Pessoa do Mundo

MELHOR FOTOGRAFIA
Aftersun
Avatar: O Caminho da Água
Blonde
Não! Não Olhe!
Spencer

MELHOR TRILHA SONORA
Blonde
Pinóquio por Guillermo del Toro
Nada de Novo no Front
A Novata
Spencer

MELHOR CANÇÃO ORIGINAL
“Ciao Papa” (Pinóquio por Guillermo del Toro)
“Hold My Hand” (Top Gun: Maverick)
“My Son” (Pinóquio por Guillermo del Toro)
“Naatu Naatu” (RRR: Revolta, Rebelião, Revolução)
“(You Made it Feel Like) Home” (Até os Ossos)

MELHOR DESIGN DE PRODUÇÃO
Avatar: O Caminho da Água
O Beco do Pesadelo

Nada de Novo no Front
Pinóquio por Guillermo del Toro
Spencer

MELHOR FIGURINO
O Beco do Pesadelo
Blonde
A Mulher Rei
Spencer
A Viagem de Pedro

MELHOR SOM
Avatar: O Caminho da Água
Moonage Daydream
Nada de Novo no Front
Não! Não Olhe!
Pinóquio por Guillermo del Toro

MELHORES EFEITOS VISUAIS
Avatar: O Caminho da Água
Batman
Nada de Novo no Front
Top Gun: Maverick
Tudo em Todo o Lugar ao Mesmo Tempo

MELHOR MAQUIAGEM & PENTEADOS
O Beco do Pesadelo
A Mulher Rei
Nada de Novo no Front
Os Olhos de Tammy Faye
Tudo em Todo o Lugar ao Mesmo Tempo

“Tár” não corresponde à expectativa de 16 anos por um novo filme de Todd Field

It’s always the question that involves the listener. It’s never the answer.

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Direção: Todd Field

Roteiro: Todd Field

Elenco: Cate Blanchett, Noémie Merlant, Nina Hoss, Sophie Kauer, Adam Gopnik, Sylvia Flote, Sydney Lemmon, Mark Strong, Nicolas Hopchet, Kitty Watson, Zethphan D. Smith-Gneist

EUA, 2022, Drama, 158 minutos

Sinopse: Tendo alcançado uma carreira invejável com a qual poucos poderiam sonhar, a renomada maestrina e compositora Lydia Tár (Cate Blanchett), a primeira diretora musical feminina da Filarmônica de Berlim, está no topo do mundo. Como regente, Lydia não apenas orquestra, mas também manipula. Como uma pioneira, a virtuosa apaixonada lidera o caminho na indústria da música clássica dominada por homens. Além disso, Lydia se prepara para o lançamento de suas memórias enquanto concilia trabalho e família. Ela também está disposta a enfrentar um de seus desafios mais significativos: uma gravação ao vivo da Sinfonia nº 5 de Gustav Mahler. No entanto, forças que nem mesmo ela pode controlar lentamente destroem a elaborada fachada de Lydia, revelando segredos sujos e a natureza corrosiva do poder. E se a vida derrubar Lydia de seu pedestal? (Adoro Cinema)

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Desde que começou sua carreira em longas-metragens com o ótimo Entre Quatro Paredes (2001), o diretor Todd Field se provou um exímio observador do cotidiano, começando por esse denso drama que examina o luto e as relações familiares. Logo em seguida, ele lançou olhar sobre as dinâmicas (extra)conjugais no afiado Pecados Íntimos (2006), baseado na obra de Tom Perrotta. Tár, que chega aos cinemas agora em 2023, encerrando um hiato de 16 anos na carreira de Field, não é exatamente um filme-irmão de Entre Quatro Paredes e Pecados Íntimos. Para falar bem a verdade, tudo é mais ambicioso, da duração de quase 2h40 ao universo imaginado para a consagrada (e fictícia) maestrina Lydia Tár (Cate Blanchett), que se enreda em uma série de conflitos envolvendo poder e prestígio no plano profissional e pessoal.

Inevitavelmente, tanto tempo de espera entre um filme e outro gera expectativa, algo que nem sempre trabalha a favor de uma obra. E, talvez, esse período de 16 anos sem um trabalho do diretor tenha mesmo minado a minha experiência com Tár, que vem colecionando admiradores por onde passa, mas que ficou distante de me causar algum envolvimento. À parte expectativas, e ainda na questão do tempo, o filme chega ao público um tanto datado no que se refere às discussões propostas pelo roteiro. Há pouca novidade no que Field, também autor do roteiro — seu primeiro original na carreira de longas-metragens —, tem a dizer, por exemplo, sobre a cultura do cancelamento e o efeito que ela causa no íntimo de figuras públicas e consagradas.

Minha frustração com Tár reside basicamente em ver que o cineasta se saiu melhor ao abarcar vários personagens de uma vez só em seus filmes anteriores do que nesse estudo de uma única figura. Mesmo depois de quase três horas junto à Lydia Tár, ficamos sem saber de onde ela vem, as razões que lhe tornaram uma mulher praticamente imune a sentimentos e até mesmo sua personalidade musical para além da idolatria pelo compositor Gustav Mahler. Conceber Lydia como uma famosa vencedora do EGOT (sigla para quem já foi premiado com Emmy, Grammy, Oscar e Tony) também não diz o suficiente sobre sua verve artística. Não é o caso de dar resposta a tudo (aliás, no cinema como um todo, nunca é),  e sim o de ao menos o de provocar o espectador a construir a sua própria percepção acerca da protagonista a partir de diferentes camadas e provocações.

Um dos melhores momentos de Tár — e que, ele sim, diz muito sobre quem a personagem é com os outros e com ela mesma — é aquele encenado em uma das aulas ministradas pela personagem. Trata-se tanto de um sólido e interessante vislumbre das firmezas e contrariedades de Lydia quanto de um excepcional trabalho de mise-en-scène, com Cate Blanchett fisgando plenamente a atenção em um trabalho de grande sinergia com o filme em si. No entanto, dali em diante, tornam-se previsíveis as reverberações dessa interação específica e de todos os movimentos erráticos de uma protagonista que não enxerga ou, por pura soberba e por ser quem é, escolhe não enxergar a possibilidade de seus atos terem grandes consequências.

Se o roteiro é plano e exaustivo, a direção de Todd Field parece estar em dúvida quanto tratar a jornada da personagem como uma trágica derrocada ou como uma grande piada do destino. Essa falta de unidade, aliada ao fato do longa pouco se arriscar, confere sinais contrários especialmente ao terço final, quando acompanhamos a desintegração de Lydia em todos os espectros. Cate Blanchett, que conduziu de verdade a orquestra em todas as cenas, traduz a imponência, a vaidade e as aparências de Lydia com seu talento de sempre. O esforço em fazer a amarração de Tár se dá pelas mãos dela, que tem vivido uma fase excepcional há bons anos. Entretanto, Blanchett por si só não pode contornar problemas como o do desfecho, cuja intenção mira na ironia para acertar em representações até mesmo estereotipadas. Pode ser que eu não estivesse em um bom dia, que eu tenha deixado passar algo ou que simplesmente eu não tenha visto o mesmo filme que a esmagadora maioria, mas Tár ficou para mim como um relato que, ao contrário dos talentos musicais de sua maestrina, falha em encontrar seu próprio ritmo. 

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