Cinema e Argumento

Melhores de 2018 – Roteiro Original

Normalmente reverenciado pelo sua grandeza como cineasta, Paul Thomas Anderson também é um roteirista excepcional, e deveria receber mais reconhecimento por isso. Trama Fantasma, seu mais recente filme, é outro exemplo que corrobora essa afirmação. Ambientado na Londres dos anos 1950, o longa explora a linha tênue entre o amor e o poder, no melhor estilo Andersoniano de inverter expectativas e convencionalidades. Ao mergulhar nos malefícios das disputas de controle que contaminam relações amorosas, o diretor traz para o roteiro ecos romanticamente sinistros de muitos de seus filmes favoritos, alguns deles clássicos dos anos 1940, como Rebecca, a Mulher Inesquecível, de Alfred Hitchcock, e À Meia-Luz, estrelado por Ingrid Bergman.

Anderson está focado primordialmente em um comportamento que ele próprio diz perceber a sua volta — a alternância de poderes entre os envolvidos em qualquer relação amorosa — para descortinar as idiossincrasias e as contradições da natureza relativa aos romances. Daniel Day-Lews, que colaborou ativamente na construção dos personagens, afirma que não existe estranheza maior no universo do que aquela que habita a vida aparentemente normal de pessoas comuns entre quatro paredes. Verdade. E se, de um jeito ou de outro, Anderson já dissecava tudo isso em filmes como Embriagado de AmorO Mestre, é de se considerar que, com Trama Fantasma, ele alcança sua discussão mais sofisticada acerca de tal temática. Ainda disputavam a categoria: As Boas ManeirasBenzinhoSem Amor Tully.

EM ANOS ANTERIORES: 2017 Manchester à Beira-Mar | 2016 – Aquarius | 2015 – Que Horas Ela Volta? | 2014 – Relatos Selvagens |  2013 – Antes da Meia-Noite | 2012 – A Separação | 2011 – Melancolia | 2010 – A Origem | 2009 – (500) Dias Com Ela | 2008 – WALL-E | 2007 – Ratatouille

Melhores de 2018 – Fotografia

Quando o multipremiado diretor de fotografia Emmanuel Lubezki precisou desistir de Roma em função de conflitos de agenda, o cineasta Alfonso Cuarón imediatamente assumiu, pela primeira vez, o cargo do seu amigo e colaborador de longa data. Para essa nova empreitada, Cuarón diz ter sempre se perguntado quais seriam as escolhas que Lubezki teria feito para a fotografia de Roma, reproduzindo os tantos aprendizados de colaborações como E Sua Mãe Também, Filhos da Esperança e Gravidade. Mesmo inspirado pelo amigo, o diretor quis criar uma identidade própria, o que começa logo na decisão de filmar Roma em preto-e-branco: descartando o mero apelo estético, Cuarón cria um filme que, visualmente falando, não parece vintage ou datado, mas de certa forma moderno e contemporâneo ao capturar, com imensa beleza, memórias distantes e muito íntimas. Essa dualidade entre presente e passado é fascinante porque a câmera flutua e captura histórias como se estivesse em um tempo diferente e como se soubesse todos os detalhes e reverberações de um universo que os próprios personagens só virão a (re)conhecer com o passar dos anos. Lubezki, que assistiu ao longa, diz que a fotografia de Roma é elegante e cadenciada como um complexo número de jazz. Para um trabalho de estreia, Cuarón nem precisaria do Oscar que recebeu na respectiva categoria para se sentir realizado: somente esse elogio de um mestre como Lubezki já é o suficiente para coroar o seu trabalho. Ainda disputavam a categoriaA Forma da ÁguaSem FôlegoTrama Fantasma Você Nunca Esteve Realmente Aqui.

EM ANOS ANTERIORES: 2017 Blade Runner 2049 | 2016 – Ponto Zero | 2015 – Macbeth: Ambição e Guerra | 2014 – Ida | 2013 – Gravidade | 2012 – As Aventuras de Pi | 2011 – A Árvore da Vida | 2010 – Direito de Amar | 2009 – Quem Quer Ser Um Milionário? | 2008 – Ensaio Sobre a Cegueira

“Querido Menino”, “O Retorno de Ben” e “Boy Erased”: três garotos em conflito com a vida, com a família e com eles próprios

“QUERIDO MENINO”, de Felix Van Groeningen

Responsável por um dos filmes mais devastadores dos últimos anos (o belga Alabama Monroe), Felix Van Groeningen faz sua estreia como diretor nos Estados Unidos com Querido Menino, filme subavaliado pela crítica e que preserva a identidade de um cineasta “estrangeiro” desembarcando em Hollywood. Assim como em Alabama Monroe, Van Groeningen mais conta uma história centrada em uma dupla cujo drama tem a tragédia como matéria-prima. A narrativa é igualmente fragmentada e truncada, com idas e vindas no tempo. Ou seja, é fácil se perder em Querido Menino, algo que uma maioria esmagadora da crítica considerou um grande defeito, mas que, na verdade, é um acerto por imprimir à história sentimentos tão incômodos e desnorteadores quanto aqueles vividos pelos personagens.

Adaptando as memórias reais de David e Nic Sheff, pai e filho que, respectivamente, atravessaram anos turbulentos quando Nic se entregou às drogas, Querido Menino está menos interessado na discussão do vício em si e mais nas cicatrizes que uma condição como essa cria nas relações familiares. Ao conhecermos a triste situação de um jovem talentoso entregue às drogas, Querido Menino se torna mais doloroso quando retrocede para os tempos em que Nic era uma criança doce e afetuosa. Isso ajuda a construir tanto a verossimilhança da relação entre pai e filho quanto a própria dramaticidade do longa, que se apoia na exaustão física e emocional de seus personagens: assim como David se sente impotente como pai ao não conseguir ajudar o filho, Nic é sufocado pela angústia de reconhecer um vício que ele simplesmente não consegue vencer.

Entre os fragmentos de Querido Menino, existe ainda uma mãe bastante ausente por razões pouco explicadas (Amy Ryan), assim como uma madrasta que tenta ajudar o marido enquanto toma certa distância para proteger seus próprios filhos (Maura Tierney). Entretanto, o coração do filme está todo com a dupla protagonista, que se destaca pela humanidade com que representa os percalços enfrentados por pessoas comuns e sem a mínima noção de como lidar com um problema complicado como o vício por drogas. Timothée Chalamet, que chegou a ser indicado a importantes prêmios como o Globo de Ouro e o Screen Actors Guild Awards, reafirma todo o talento que havia apresentado em Me Chame Pelo Seu Nome, mas é importante salientar como Steve Carell, em mais uma interpretação que encorpa a sua bela e eclética carreira no cinema norte-americano, é excelente ao conferir ao personagem todas as sutilezas que têm se tornado uma preciosa marca de sua vertente dramática como ator.

Estruturalmente, Querido Menino costura uma instigante narrativa quando decide, desde o princípio, pulverizar sua história e renegar uma narrativa linear. Porém, isso não deixa de acarretar repetições: são inúmeras as vezes em que ficamos com a sensação de que já vimos os mesmos arcos e os mesmos caminhos apresentados pelo longa. Talvez isso até seja uma decisão consciente do diretor para reforçar os cíclicos processos de convivência com um viciado irremediável, mas o efeito se esvazia diante de uma reprodução que não chega a expandir o íntimo dos personagens. Com isso, as duas horas de projeção são sentidas, amortecendo, na meia hora final, o impacto emocional de um filme mais sólido do que as mornas recepções acusavam e que, ao registrar a luz e a escuridão como dois lados de uma mesma moeda, mantém viva a identidade de um cineasta que chega a Hollywood sem domesticar as ideias que anos atrás fizeram com que ele chegasse entre os finalistas ao Oscar de filme estrangeiro com o já citado (e reverenciado) Alabama Monroe.

“O RETORNO DE BEN”, de Peter Hedges

Em uma dessas coincidências não tão benéficas do destino, O Retorno de Ben chega aos cinemas à sombra de Querido Menino, uma vez que ambos narram histórias de garotos envolvidos em problemas com drogas e que, com a ajuda dos pais, tentam atravessar períodos doídos e sombrios. Enquanto Querido Menino contempla a relação entre pai e filho, O Retorno de Ben captura os dias de um jovem enfrentando seus próprios fantasmas com a ajuda de uma mãe resiliente e destemida. O enfoque, ao menos, é outro: aqui, Ben acaba de voltar da clínica de reabilitação e tenta se reconectar com a família e com o mundo mesmo sabendo que, ao reencontrar o lugar onde a família vive, precisará revisitar lembranças desagradáveis e enfrentar uma importante jornada de resistência e (des)confiança pós-vício. Afinal, é possível uma família manter a tranquilidade perante alguém que já foi responsável por tanto transtorno? E teria o garoto realmente encontrado a paz com ele próprio?

Escrito e dirigido por Peter Hedges (pai do protagonista Lucas na vida real), O Retorno de Ben reapresenta a vocação do cineasta para histórias cotidianas e familiares. Hedges é o autor de duas pequenas pérolas do cinema independente norte-americano — Do Jeito Que Ela ÉEu, Meu Irmão e Nossa Namorada — e, ainda que O Retorno de Ben, não seja tão lapidado em delicadezas quanto os trabalhos anteriores do diretor, é acertada a escolha de narrar a história não sob o ponto de vista do garoto que volta para casa, mas sob o da mãe que, com outros três filhos e um novo marido, tenta dar um novo voto de confiança ao filho. As devidas dimensões são dadas ao jovem Ben, mas é na mãe Holly que o longa ancora as suas principais facetas dramáticas. Por outro lado, surpreendentemente, o que parecia ser o pequeno relato de uma família de classe média tentando superar fantasmas do passado durante uma festiva semana de Natal tem a sua proposta subvertida lá pela metade, quando o filme vira quase um thriller envolvendo ecos do passado de Ben e uma noite angustiante onde o amor e a força de uma mãe serão colocados à prova.

A guinada de estilo causa certa estranheza porque traz a velha sensação de dois filmes distintos dentro de um e porque muda o tom de uma trama que, até então, parecia destinada a contar mais do mesmo, especialmente quando comparada a Querido Menino. Entretanto, em ambos os casos, Julia Roberts e Lucas Hedges conferem a consistência dramática que, muitas vezes, o filme tenta construir com desdobramentos que, perto de outros longas sobre protagonistas erráticos em uma espiral de carmas (o drama Bom Comportamento é uma excelente pedida), não chegam a ser surpreendentes. O Retorno de Ben causa maior empatia por causa dos dois, que criam uma ótima química em cena. Curiosidade: o diretor não queria escalar o próprio filho para o papel, mas, por insistência de Julia Roberts, que havia se encantado com a performance de Hedges em Manchester à Beira-Mar, essa decisão foi repensada. Julia estava certa: ainda que à sombra de Querido MeninoO Retorno de Ben é, sem dúvida alguma, elevado pelos dois.

“BOY ERASED: UMA VERDADE ANULADA”, de Joel Edgerton

Assim como O Retorno de BenBoy Erased: Uma Verdade Anulada tem seu impacto de certa forma amortecido quando comparado a outro título de temática equivalente. Por mais que dessa vez o espaço de tempo entre uma obra e outra seja muito maior, é impossível não traçar comparações entre o novo longa-metragem assinado pelo ator Joel Edgerton e o telefilme Orações Para Bobby, produzido pela emissora Lifetime e estrelado pela grande Sigourney Weaver em 2009. Quase dez anos separam Orações Para BobbyBoy Erased, mas a potência emocional do primeiro permanece tão intocada e referenciada que fica difícil uma obra se equiparar em potência com a mesmíssima temática. Para quem não não conhece um ou outro, ambos são títulos que encenam a história de garotos que, ao se descobrirem gays, são reprimidos por famílias conservadoras, fervorosamente religiosas e simpatizantes à ideia de que a homossexualidade pode ser curada através de tratamentos. 

Mais um filme estrelado pelo prolífero Lucas Hedges, Boy Erased é baseado nas memórias de Garrard Conley, um jovem que, na vida real, foi obrigado pelos pais a passar por uma terapia de conversão após revelar a sua homossexualidade. Com flashbacks que ilustram a fase em que o protagonista começava a perceber os sinais de sua natureza sexual, o filme explora amplamente as inacreditáveis sessões que tentam “curar” o jovem em meados de 2004: dos exercícios de postura para eliminar qualquer resquício de afetação até as lavagens cerebrais repletas de lições de moral e orações, é chocante constatar que, 15 anos depois dos acontecimentos que deram origem ao filme, tais ideias ainda sejam muito reais e potencializadas pelos tempos conservadores que vivemos.

Ao mesmo tempo, Boy Erased dilui sua consistência dramática ao preferir falar majoritariamente sobre esse sistema. Até sabemos bastante sobre o protagonista Jared Eamons (Hedges) e as relações que ele estabelece com a família, mas o roteiro, também escrito por Joel Edgerton, prefere dimensionar o personagem através do choque das terapias e não tanto pelas complexidades de sua jornada íntima, o que termina por criar uma experiência bastante cíclica, por vezes frustrante. Se as cenas de “cura gay” impactam nos primeiros registros, logo nos interessamos mais pelas vivências pessoais do protagonista com a família e com as pessoas em sua volta (uma cena no dormitório da faculdade é particularmente impactante), mais tais registros nem sempre recebem a devida atenção e dimensão.

Excetuando a recorrente insipidez do roteiro, Lucas Hedges se sai muito bem ao registrar a angústia e as transformações de um jovem que se encontra em um verdadeiro inferno pessoal. Seu Jared Eamons é um jovem resistente, o que traz momentos interessantes para o ator (a cena final com Russell Crowe é tocante pela maturidade com que o personagem evolui na nossa frente). Há outras facetas que Hedges pode explorar aqui ou ali, chance pouco oferecida nas mesmas proporções para Nicole Kidman, que não tem um texto à altura de sua caracterização para uma personagem cujas motivações e transformações soam verdadeiras mais pelo seu trabalho do que pela construção do roteiro propriamente dita. Hedges e Kidman mereciam uma obra mais pungente em emoção, bem ao estilo de Orações Para Bobby, longa que merece ser sempre revisto, inclusive depois de Boy Erased.

Melhores de 2018 – Roteiro Adaptado

Delicada adaptação do romance homônimo escrito pelo egípcio André Aciman em 2007, Me Chame Pelo Seu Nome tem como base uma história que, literariamente falando, já oferece um riquíssimo material para uma boa transposição ao cinema. Eis, no entanto, que o diretor e produtor Luca Guadagnino convoca James Ivory (Retorno a Howards End, Vestígios do Dia) para cuidar da adaptação. Ivory, aos 89 anos, tornou-se a pessoa mais velha a concorrer (e a vencer) um Oscar, e seu prêmio de melhor roteiro adaptado não poderia ser mais justo: iluminando uma jornada de autodescoberta sexual que normalmente é tratada pelo cinema (e pela vida) com dor e pesar, ele descomplica qualquer discussão em torno da sexualidade de dois personagens para simplesmente encará-los como pessoas apaixonadas e que, assim como todos nós, passam por desencontros, mágoas, frustrações e amadurecimentos. Em cada personagem, há uma imensidão de sentimentos, inclusive naqueles que aparecem tão pouco em cena, como o pai vivido por Michael Stuhlbarg. O que Ivory faz na adaptação de Me Chame Pelo Seu Nome é de uma maturidade ímpar, aliando, com discrição e sabedoria, o talento de um profissional veterano com um material que lhe proporciona todas as munições para o surgimento de uma delicada pérola. Ainda disputavam a categoriaDesobediênciaInfiltrado na KlanPaddington 2 Você Nunca Esteve Realmente Aqui.

EM ANOS ANTERIORES: 2017 – Minha Vida de Abobrinha | 2016 – Carol |  2015 – 45 Anos | 2014 – Garota Exemplar | 2013 – Azul é a Cor Mais Quente| 2012 – Precisamos Falar Sobre o Kevin | 2011 – A Pele Que Habito | 2010 – Direito de Amar | 2009 – Dúvida | 2008 – Desejo e Reparação | 2007 – Notas Sobre Um Escândalo

As Glorias de Sebatián Lelio: histórias praticamente iguais, mas em contextos um tanto diferentes

Despontando como um dos realizadores mais interessantes da atualidade, o chileno Sebastián Lelio recentemente dirigiu um longa-metragem vencedor do Oscar de melhor filme estrangeiro (Uma Mulher Fantástica) e também proporcionou momentos sublimes a atrizes como Rachel Weisz e Rachel McAdams (Desobediência). Ainda assim, a expressão mais cativante de sua identidade como realizador está no ano de 2013, com Gloria, filme que rendeu à protagonista Paulina García um incontestável Urso de Prata de melhor atriz no Festival de Berlim. Lelio diz ter imaginado o papel da protagonista-título especialmente para Paulina, intérprete que sempre o impressionou, mas que, segundo o cineasta, jamais havia recebido um papel à altura de seu talento. De certa forma, o contexto se repete agora, quando Lelio chega aos cinemas brasileiros com o remake do filme que ele próprio dirigiu em 2013.

Dessa vez, o realizador está em Hollywood e com Julianne Moore no papel principal. Não deixa de ser simbólico que ele novamente esteja valorizando uma atriz que, mesmo premiada recentemente com o Oscar (Para Sempre Alice), poderia receber mais papeis dignos de sua excelência. Paulina e Moore são, cada uma a sua maneira, atrizes fascinantes e entregam diferentes perspectivas para a mesma personagem, ainda que Gloria (2013) e Gloria Bell (2019) sejam longas-metragens praticamente idênticos. Se Sebastián Lelio resolveu dirigir o que podemos chamar de uma versão de seu próprio filme chileno para norte-americano ver sem legendas, ao menos a repetição da história vale pela chance de observar duas Glorias tão semelhantes quanto distintas.

Paulina García na última cena de Gloria: premiada por sua interpretação no Festival de Berlim, atriz tem um dos desempenhos femininos mais marcantes do cinema recente de língua latina.

Perto dos 60 anos, Gloria (Paulina García) percebe que os filhos não precisam mais de sua ajuda. Separada, ela vive sozinha, mas mantem uma vida muito ativa: trabalha, almoça com os amigos, frequenta as aulas de yoga da filha e, acima de tudo, não encara a independência ou a solidão como o fim do mundo. Pelo contrário: estar sozinha e frequentar salões de baile em busca de um novo amor ou de apenas uma noite de sexo lhe é tão natural como talvez tenha sido na juventude. É essa a preciosa maturidade de Gloria, o filme: entender o entristecimento da protagonista, mas não fazer de seus dilemas uma densa sessão de terapia na tela grande. Sebastián Lelio, também autor do roteiro ao lado de Gonzalo Maza, busca uma tônica mais agridoce para os dias da personagem, que atravessa as dores e as alegrias de estar viva como qualquer outro ser humano, com seus altos e baixos.

Ver a vida pelos olhos de uma mulher madura sem que ela esteja resumida à questão ou a qualquer sofrimento de sua própria idade faz de Gloria um longa delicadíssimo, inclusive por conhecermos a protagonista por meio de uma ótica cotidiana. Se uma dança em meio à multidão ganha contornos diferenciados, por exemplo, é pela decisão de Sebastián Lelio de capturar o momento com um viés observacional, interferindo o mínimo possível com estilizações ou guinadas de roteiro. Com isso, Gloria se atira com imensa confiança no universo de sua personagem, e acerto maior não há: toda a beleza dessa leitura a respeito de uma mulher que vive, ama, dança e sofre como qualquer um de nós está na construção de uma figura feminina crível e de fácil identificação não apenas para quem tem traços ou histórias em comum com ela.

A imensidão de sutilezas não seria a mesma sem, claro, o desempenho espetacular de Paulina García, que está totalmente alinhada ao espírito do longa de renegar a vitimização. Ela é ao mesmo tempo discreta e profunda em cena, incorporando uma mulher que, sabotada aqui e ali por relações amorosas complicadas ou pelo próprio destino, é encantadora por ter pleno conhecimento de si e por aceitar que, na vida e no amor, é preciso fazer tentar tirar ao menos algum aprendizado das situações mais difíceis. Elegante e radiante, a presença da atriz reforça uma outra percepção muito verdadeira de Gloria: a de que são raros os homens que conseguem conviver com mulheres seguras e autossuficientes. Podem acreditar: é impossível não se apaixonar pela construção de Paulina literalmente até o último milésimo de projeção. 

Apaixonada pelo longa chileno de 2013, Julianne Moore revive, com seu inegável talento, a Gloria de Paulina García, mas com uma perspectiva mais estilizada e rejuvenescida.

Seis anos depois de Gloria, Sebastián Lelio mais uma vez nos leva para o universo da personagem, que, agora em terras hollywoodianas, ganha vida pelas mãos da espetacular Julianne Moore. Em termos de história, vemos praticamente o mesmo filme, com pouquíssimos ajustes (há, no máximo, a inclusão de novos personagens bastante passageiros e falas que são transferidas de uma sequência para outra), decisão tomada deliberadamente pelo diretor, que nunca quis falar sobre outro momentos de Gloria que não fossem aqueles mostrados no filme estrelado por Paulina García. Entretanto, em entrevistas sobre o remake, Lelio revela que, ao revisitar a protagonista, Gloria Bell não deixa de atualizar sua heroína, que agora tem a mesma trajetória encenada em um outro país e cujo universo evoca uma certa estilização que o diretor já havia ensaiado em Uma Mulher Fantástica, com cores fortes e trilha instrumental, por exemplo.

Por contar a mesmíssima história em um curto espaço de tempo, há a sensação de que Gloria Bell é somente um produto encomendado para que os norte-americanos entrem em contato com essa belíssima personagem sem ter que recorrer a um filme chileno com legendas. À parte a questão mercadológica, sejamos justos: a história é maravilhosa, o diretor é o mesmo e, sendo assim, a matemática soa infalível. Gloria Bell bebe da fonte de uma história quase intocada em sua transposição para os norte-americanos, e quem só tem a ganhar com esse texto é Julianne Moore, que, apaixonada pela versão de 2013, ligou para Sebastián Lelio, lançou a ideia de uma refilmagem e logo tornou o projeto possível, inclusive assumindo o cargo de produtora executiva do remake. Tratando-se de Moore, não há o que duvidar: como Gloria, agora batizada com o sobrenome Bell, ela traz para si o melhor de um papel tão rico quanto seu inquestionável talento.

Curiosamente, o que me impede de admirar Gloria Bell tanto quanto admiro Gloria é a escalação da atriz. Nada a ver especificamente com Moore ou com o seu desempenho: na verdade, ela é perfeita para as atualizações propostas para a personagem na refilmagem. O que acontece é que a versão chilena tinha peso maior em sensibilidade e delicadeza porque falava sobre uma mulher se aproximando da terceira idade. Mesmo que Moore tenha 58 anos e seja mais velha ao interpretar o papel do que Paulina era na época (52), sua Gloria é demasiadamente bem fotografada, beirando a glamourização (e, em determinadas cenas, ela ainda transita por luxuosas locações em Las Vegas!). A decisão de escalar um ator muito mais jovem como filho de Gloria (Michael Cera) e de colocar em cena a mãe da protagonista que não existia no filme anterior (Holland Taylor) também deixa a impressão de que Gloria, em sua versão Bell, está, no máximo, chegando aos 50, o que rejuvenesce bastante o contexto de importantes complexidades que, convenhamos, ganham outras camadas na vida de quem já à beira dos 60, como a Gloria de 2013.

Melhores de 2018 – Montagem

Com maestria, Joe Bini ligou todos os pontos de Você Nunca Esteve Realmente Aqui através de uma montagem que carrega o difícil desafio de encontrar um perfeito equilíbrio entre drama, ação e suspense. Se o mais recente filme de Lynne Ramsay é harmônico nos tantos gêneros que se desdobram ao longo da história, certamente é em função da montagem de Bini, que já havia trabalhado com a diretora no também excepcional Precisamos Falar Sobre o Kevin. Boa parte da carga dramática de Você Nunca Esteve Realmente Aqui vem dessa mistura que orquestra com inventividade as potencialidades técnicas de um filme igualmente impactante em trilha sonora e fotografia, por exemplo. Ou seja, além de encontrar o timing perfeito ao transitar por diversas camadas emocionais e de gênero, o montador cria um filme ainda mais sensorial ao interseccionar, de maneira sempre surpreendente, segmentos técnicos que já seriam fascinantes por si só. Ainda disputavam a categoria: Eu, Tonya, O ProcessoRoma As Viúvas.

EM ANOS ANTERIORES: 2017 Em Ritmo de Fuga | 2016 – A Grande Aposta | 2015 – Whiplash: Em Busca da Perfeição | 2014 – O Lobo Atrás da Porta | 2013 – Capitão Phillips | 2012 – Guerreiro | 2011 – 127 Horas | 2010 – A Origem | 2009 – Quem Quer Ser Um Milionário? | 2008 – Onde os Fracos Não Têm Vez | 2007 – Babel

Melhores de 2018 – Efeitos Visuais

Com o desafio de tornar dinâmico e envolvente um filme ambientado praticamente por inteiro em um universo de videogame, o quarteto David Shirk, Grady Cofer, Matthew E. Butler e Roger Guyett misturou técnicas de animação e de capturas de movimento (aquela mesmo que tanto consagrou Andy Serkis em sagas como O Senhor dos Aneis e Planeta dos Macacos) para reproduzir as relações que Jogador Nº1 estabelece entre o real e o virtual, além da infinidade de referências pop que somente um diretor como Steven Spielberg conseguiria colocar na tela com tanta propriedade. É fato que o longa usa e abusa de efeitos visuais sem se preocupar com sutilezas ou economia (seria difícil, considerando as cenas de ação e a gama de personagens recriados e idealizados especialmente para o filme), mas poucas vezes, assim como nos melhores momentos da carreira de Spielberg, o uso das tecnologias serviu tão bem a um entretenimento grandioso, empolgante e inventivo nas mesmas proporções. Ainda disputavam a categoriaPaddington 2Pantera NegraO Primeiro Homem Vingadores: Guerra Infinita.

EM ANOS ANTERIORES: 2017 Blade Runner 2049 | 2016 – Doutor Estranho | 2015 – Mad Max: Estrada da Fúria | 2014 – Planeta dos Macacos: O Confronto| 2013 – Gravidade | 2012 – O Hobbit: Uma Jornada Inesperada | 2011 – Harry Potter e as Relíquias da Morte – Parte 2 | 2010 – Tron: O Legado | 2009 – Avatar (primeiro ano da categoria)

Melhores de 2018 – Canção Original

Como toda canção marcante escrita especialmente para um longa-metragem, “Shallow” é uma excelente síntese em versão musical de tudo aquilo que acompanhamos em Nasce Uma Estrela. Tanto na tela quanto na canção, o espectador se depara com dois personagens insatisfeitos com suas próprias vidas e que, quando se conhecem, passam a enxergar, no amor e na música, uma razão para seguir em frente e criar, mesmo que a vida obviamente continue com inúmeras pedras no caminho. Escrita por Andrew Wyatt, Anthony Rossomando, Lady Gaga e Mark Ronson, “Shallow” é o ponto alto de uma trilha sonora que molda os caminhos emocionais de um filme sobre dois músicos. Também é uma canção que reafirma a incrível potência musical de Lady Gaga e que, acima de tudo, carrega toda a força e a emoção que, para o escriba que vos fala, não se desenha de maneira equivalente no filme em si. Merecidamente premiada com o Oscar, “Shallow” já se firmou como uma das mais canções marcantes premiadas recentemente na categoria, e não por menos: se há uma razão para Nasce Uma Estrela ser lembrado, essa é, sem dúvida alguma, esse hit que ainda levou para casa um Grammy na categoria de melhor performance de uma dupla ou grupo pop. Ainda disputavam a categoria: “All the Stars” (Pantera Negra), “Mystery of Love” (Me Chame Pelo Seu Nome), “Remember Me” (Viva – A Vida é Uma Festa) e “Visions of Gideon” (Me Chame Pelo Seu Nome).

EM ANOS ANTERIORES: 2017 – “Another Day of Sun” (La La Land: Cantando Estações) | 2016 – “Simple Song #3” (A Juventude| 2015 – “Glory” (Selma: Uma Luta Pela Igualdade| 2014 – “Let it Go” (Frozen – Uma Aventura Congelante| 2013 – “Last Mile Home” (Álbum de Família| 2012 – “Skyfall” (007 – Operação Skyfall| 2011 – “Life’s a Happy Song” (Os Muppets| 2010 – “Better Days” (Comer Rezar Amar| 2009 – “By the Boab Tree” (Austrália| 2008 – “Falling Slowly” (Apenas Uma Vez)

Três atores, três filmes… com Fatimarlei Lunardelli

Foto: Taiane Lunardelli

Em dezembro do ano passado, quando completei 11 anos ininterruptos de atividades com o Cinema e Argumento, recebi, com muita honra, o convite para integrar a Associação de Críticos de Cinema do Rio Grande do Sul – ACCIRS. Quem me fez esse convite foi a queridíssima jornalista Fatimarlei Lunardelli, atual vice-presidente da associação e que agora recebo aqui na coluna Três atores, três filmes. A entrada na ACCIRS foi uma honra dupla porque, fora a alegria de ter meu trabalho vinculado a essa respeitada entidade, o convite veio especificamente da Fatimarlei, uma grande profissional com vasta atuação no campo da crítica de cinema. Jornalista pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul, mestre em Artes e doutora em Ciências da Comunicação pela Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo, a Fati é professora de História do Cinema Internacional no Curso de Realização Audiovisual da Unisinos. Também é autora de livros e artigos sobre cinema, e tem um site de autoria própria, o Escrita Crítica, onde compartilha periodicamente suas percepções acerca dos mais variados filmes. Para a coluna, ela propôs um formato inédito: falar sobre três atores não a partir de três desempenhos específicos, mas através de alguns dos tantos diretores que contribuíram para a formação de suas mitológicas carreiras. São análises imperdíveis. Confiram abaixo!

Clint Eastwood
Aprecio o cinema pelos diretores, mais do que pelos atores. Minha relação com os filmes é sempre a partir desse sujeito que cria ou, no mais das vezes, é o orquestrador dos múltiplos talentos que se conjugam em sons e imagens que ocupam a tela. Não é comum que diretores sejam também atores e quando isso acontece o resultado nem sempre é satisfatório. Não é o caso de Clint Eastwood, que admiro tanto como cineasta quanto intérprete. Foi no western recriado como spaghetti por Sérgio Leone que Clint começou. Em 1992 ele dirigiu e protagonizou Os Imperdoáveis, obra-prima definitiva desse gênero que se confunde com a própria origem do cinema. Quando Clint se lançou como diretor em 1971, com Perversa Paixão, criou para si o personagem do radialista de jazz que rompeu com o estereótipo do cara durão do velho oeste e dos filmes de ação. Amante de jazz, ele mesmo compositor, Clint dirigiu Bird (1988), ousada cinebiografia de Charlie Parker, o documentário Piano Blues (2003), e resgatou nas trilhas nomes esquecidos como o de Johnny Hartman em As Pontes de Madison (1995), no qual contracena com Meryl Streep, um dos filmes mais românticos da história do cinema. Como intérprete nos próprios filmes ele encenou o personagem caído que busca redenção, solitário, com uma sensibilidade relutante, protegida por um sarcasmo mal-humorado. Dos filmes que dirigiu e interpretou, Menina de Ouro (2004), Gran Torino (2008) e, agora A Mula (2018), na qual Clint Eastwood aparece em cena com 88 anos, estão entre os melhores já realizados no cinema. Nos personagens que encarna, no drama que desenvolve, seus filmes tocam nas questões básicas da existência.

Marcello Mastroianni
Marcello Mastroianni fez quase 150 filmes e foi protagonista de vários que estão entre os que mais amo no cinema, dirigidos por Ettore Scola e Federico Fellini. Em Nós que nos Amávamos Tanto (1974) numa homenagem emocionante de Scola ao amigo Federico, Marcello aparece como ele mesmo na cena cinematográfica mais linda já criada, aquela do banho na Fontana di Trevi, em A Doce Vida (1960). Nas mãos de gênio de Fellini Marcelo foi seu alter ego em crise no 8 ½ (1963). Sedutor e seduzido pelas mulheres, dócil e ao mesmo tempo exasperante, seu personagem antecipa o Snáporaz perdido de Cidade das Mulheres (1980). Mastroianni começou diretamente no cinema, no início dos anos 40, foi aprendendo a interpretar nos sets de filmagem e só depois fez aulas de teatro. Tinha presença física marcante, uma beleza masculina que o transformou logo em símbolo sexual. Foi para quebrar o mito do latin lover que interpretou o macho impotente em O Belo Antônio (1960), de Mauro Bolognini. Mas foi com Ettore Scola, com o qual iniciou em 1970, em Dramma della Gelosia, que Mastroianni fez um de seus personagens antológicos, o radialista homossexual de Um Dia Muito Especial (1977). A arte do ator é o teatro, lugar por excelência do artista da interpretação; no cinema, na maior parte das vezes, é preciso apenas entregar o corpo para o trabalho criativo do diretor. Mastroianni, que tinha uma certa melancolia meio tímida, se deu com doçura e plena entrega a essa arte do século XX, inscrevendo-se em alguns dos momentos mais sublimes da história do cinema.

Juliete Binoche
Juliette Binoche me encanta. O sistema de estrelas, que ajudou a estruturar a indústria do cinema, se desenvolveu junto com os recursos da câmera de se aproximar dos corpos, percorrer as superfícies, chegar tão perto do rosto a ponto de revelar os sentimentos dos personagens sem que nada seja dito. É no corpo frágil de Juliette que se mostra o espírito valente da mulher de A Liberdade é Azul (1993) que perde tudo e, ainda assim, escolhe viver. Francesa nascida em Paris, com formação em arte dramática, Juliette tem uma carreira desigual, protagonizou filmes insignificantes, mas também deu sorte, tornou-se inesquecível como protagonista do primeiro filme da fabulosa Trilogia das Cores, de Krzysztof Kieslowski. Na mão de grandes diretores, como Abbas Kiarostami em Cópia Fiel (2010), a atriz deixou sua marca na cena belíssima em que corrige o batom diante do espelho e, logo adiante, contracena com Jean-Claude Carrière. O roteirista, que é uma lenda, escreveu a adaptação para o cinema de A Insustentável Leveza do Ser (1988), do tcheco Milan Kundera, filme que projetou Juliette, no início de sua carreira. A diferença entre os grandes filmes e aqueles que são apenas artesanato bem-feito são os artistas que se conjugam num momento único que resulta no filme. Ao lado de Daniel Day-Lewis e Lena Olin, Juliete foi filmada pelo grande Sven Nykvist, o fotógrafo de Ingmar Bergman, o maior decifrador de rostos da história do cinema. Outro momento memorável da atriz é O Paciente Inglês (1997) num papel secundário que lhe deu um merecido Oscar.

Melhores de 2018 – Maquiagem & Penteados

Pouco reconhecido na temporada de premiações deste ano, o trabalho de maquiagem e penteados de Pantera Negra é tão interessante e sofisticado quanto outros segmentos do filme que chegaram a vencer o Oscar, como o design de produção, os figurinos e a trilha sonora. Tomando como base uma ampla e meticulosa pesquisa envolvendo as identidades de inúmeros povos africanos através dos séculos, o trio formado por Camille Friend, Joel Harlow e Ken Diaz buscou criar para o longa determinados grupos de personagens que, em termos de maquiagem e penteados, perfeitamente se equivalem a tribos e guerreiros que realmente existiram em países como Etiópia, Namíbia, Gana e República do Congo. A pesquisa realizada in loco na África não se limita, no entanto, à mera cópia, uma vez que Camille, Joel e Ken idealizaram todo o seu trabalho sob a luz dos dias atuais: para eles, era questão de honra, por exemplo, que as mulheres do fictício país Wakanda fossem fortes, belas e imponentes a sua própria maneira, estabelecendo uma referência de beleza que a sociedade como um todo nunca se interessou em criar para mulheres negras. Excelência com consciência: uma combinação impecável. Ainda disputavam a categoriaO Destino de Uma Nação Eu, Tonya.

EM ANOS ANTERIORES: 2017Blade Runner 2049 | 2016 – Ave, César! | 2015 – Mad Max: Estrada da Fúria | 2014 – O Grande Hotel Budapeste | 2013 – A Morte do Demônio | 2012 – A Dama de Ferro (primeiro ano da categoria)

Melhores de 2018 – Som

Realizar um filme de terror onde a tensão e os sustos são construídos através da discrição e não a partir de barulhos estridentes ou de trilhas acima do tom não é prática muito comum no gênero, especialmente se considerarmos as grandes produções hollywoodianas. Por isso mesmo é precioso o trabalho de som realizado pela dupla Ethan Van Der Ryn e Erik Aadahl para Um Lugar Silencioso. Tratando o silêncio como um personagem muito mais importante do que os próprios protagonistas de carne e osso, Van Der Ryn e Aadahl articulam a sensação de ameaça e perigo por meio de cada inflexão de som, potencializando-o com a sua quase ausência e não com a sua excessiva presença. O feito é grandioso: tanto Um Lugar Silencioso envolve por completo as plateias hiper-conectadas e dispersas dos dias de hoje como constrói uma narrativa própria de suspense e drama através do som, revitalizando no cinema comercial aquela máxima por vezes tão esquecida e subestimada: a de que menos é sempre mais. Ainda disputavam a categoriaBohemian Rhapsody, Ilha dos CachorrosNasce Uma Estrela e Você Nunca Esteve Realmente Aqui.

EM ANOS ANTERIORES: 2017 Dunkirk | 2016 – Ponto Zero | 2015 – Mad Max: Estrada da Fúria | 2014 – Até o Fim | 2013 – Gravidade | 2012 – 007 – Operação Skyfall | 2011 – Harry Potter e as Relíquias da Morte – Parte 2 | 2010 – Tron: O Legado | 2009 – Avatar | 2008 – WALL-E | 2007 – O Ultimato Bourne

Os vencedores do Oscar 2019

Olivia Colman e o Oscar de melhor atriz por A Favorita: apesar da sétima derrota de Glenn Close, prêmio foi para um papel e uma interpretação que ficarão para a posteridade.

Provando que um apresentador não faz falta alguma, o Oscar 2019 trouxe um desfecho inacreditavelmente indigesto para uma temporada tortuosa e de ideias muito confusas. Afinal, como a mesma Academia premia o fabuloso desempenho de Olivia Colman em A Favorita e o roteiro de Spike Lee em Infiltrado na Klan, mas consagra o empoeirado Green Book: O Guia como melhor filme e dá o título de longa mais premiado da noite para Bohemian Rhapsody? É simplesmente inexplicável. Há pouco o que se dizer de uma noite marcada por alguns prêmios disruptivos (além dos já citados, foi lindo ver Pantera Negra faturando trilha sonora, design de produção e figurino) que parecem ofuscados pela vitória de um filme antiquado, de mensagens ultrapassadas e que em qualquer universo sensato se equivale tematicamente a Infiltrado na Klan Pantera Negra.

O que se leva da cerimônia são os discursos de Olivia Colman (por uma vitória merecida e ao mesmo tempo intrigante em melhor atriz), Spike Lee e Regina King, todos marcantes, e também a tradicional e poderosa performance vocal de Lady Gaga com “Shallow”, que lhe rendeu o prêmio de melhor canção. De resto, nada a ser lembrado. Se você pensava que as amargas vitórias de Crash – No LimiteO Discurso do Rei não poderiam ser superadas, a Academia sempre nos lembra, assim como o Brasil e o mundo ultimamente, que tudo sempre pode piorar.

Confira abaixo a lista completa de vencedores:

MELHOR FILME: Green Book: O Guia
MELHOR DIREÇÃO: Alfonso Cuarón (Roma)
MELHOR ATRIZ: Olivia Colman (A Favorita)
MELHOR ATOR: Rami Malek (Bohemian Rhapsody)
MELHOR ATRIZ COADJUVANTE: Regina King (Se a Rua Beale Falasse)
MELHOR ATOR COADJUVANTE: Mahershala Ali (Green Book: O Guia)
MELHOR ROTEIRO ORIGINAL: Green Book: O Guia
MELHOR ROTEIRO ADAPTADOInfiltrado na Klan
MELHOR FILME ESTRANGEIRO: Roma
MELHOR ANIMAÇÃO: Homem-Aranha no Aranhaverso

MELHOR TRILHA SONORA: Pantera Negra
MELHOR CANÇÃO ORIGINAL: “Shallow” (Nasce Uma Estrela)
MELHOR MONTAGEM: Bohemian Rhapsody
MELHOR DESIGN DE PRODUÇÃO: Pantera Negra
MELHOR FOTOGRAFIA: Roma
MELHOR FIGURINO: Pantera Negra

MELHOR MIXAGEM DE SOMBohemian Rhapsody
MELHOR EDIÇÃO DE SOM: Bohemian Rhapsody
MELHOR MAQUIAGEM & PENTEADOSVice
MELHORES EFEITOS VISUAISO Primeiro Homem
MELHOR DOCUMENTÁRIO: Free Solo
MELHOR CURTA-METRAGEM: Skin
MELHOR CURTA-METRAGEM (ANIMAÇÃO): Bao
MELHOR CURTA-METRAGEM (DOCUMENTÁRIO)Period. End of Sentence.

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