Cinema e Argumento

Os vencedores do Globo de Ouro 2021

Chloé Zhao (Nomadland) é somente a segunda mulher a vencer o prêmio de melhor direção em quase 80 anos de trajetória do Globo de Ouro.

Haverá uma imensa resistência por parte da crítica em admitir, mas é fato que o Globo de Ouro, consciente ou não, contornou a avalanche de críticas que vinha recebendo desde a revelação de sua lista de indicados com vencedores coerentes e, por vezes, positivamente surpreendentes. Aliás, o Globo de Ouro nos assinalou a possibilidade de termos uma temporada altamente divisiva e até mesmo imprevisível, o que é muito bom se considerarmos que, em anos anteriores, somente o Oscar foi capaz de fazer escolhas mais autênticas, como a própria vitória de Parasita em melhor filme.

A cerimônia em si foi arrastada e sem vida, onde nem mesmo as apresentadoras Amy Poehler e Tina Fey conseguiram tirar leite de pedra ou se aproximar do belo dinamismo que vimos na última edição do Emmy, por exemplo, onde os indicados também estavam conectados de forma remota. No entanto, a abertura dos envelopes compensou a anemia da transmissão. Do primeiro prêmio entregue a Daniel Kaluuya como ator coadjuvante por Judas e o Messias Negro até revelações inesperadas como a da categoria de melhor atriz para Andra Day por The United States vs. Billie Holiday, o Globo de Ouro não passou vexame em 2021, assinalando para a possibilidade de termos uma temporada sem grandes favoritos em várias categorias. 

Ao que tudo indica, o suspense deve mesmo ir longe: além de Andra Day, a própria Jodie Foster, que levou o prêmio de atriz coadjuvante por The Mauritanian, não concorre ao Screen Actors Guild Awards. Em termos de entretenimento, essa imprevisibilidade é ótima, inclusive porque o SAG tem deixado de se tornar o mais fiel dos termômetros para o Oscar (um exemplo recente é a grande Regina King ter faturado o Oscar por Se a Rua Beale Falasse sem sequer ter sido lembrada por esse prestigiado sindicato). E é importante perceber também alguns sinais dados pelo Globo de Ouro, como a derrocada prematura de Mank (líder de indicações deste ano) e de Bela Vingança, cujo buzz estava acentuado nas últimas semanas. Ambos saíram da cerimônia de mãos abanando.

Outro ponto bastante positivo do Globo de Ouro foi a escolha dos vencedores de melhor filme. Ainda não conferi Nomadland, mas é gratificante ver um filme desta natureza e comandado por uma mulher oriental (vencedora do prêmio de melhor direção!) freando a consagração de Os 7 de Chicago ou Mank, dois longas tradicionalíssimos. Entre as comédias, houve acerto em um ano sofrível, já que Borat: Fita de Cinema Seguinte era, junto com Palm Springs, o melhor de uma seleção que tinha Hamilton (um espetáculo de teatro filmado que o SAG considerou televisão) e o tenebroso A Festa de Formatura.

Por fim, chegando aos seriados, vitória absoluta e merecida de The Crown. Com sua quarta e melhor temporada, a atração da Netflix foi vitoriosa em todas as categorias que concorria: melhor série dramática, melhor atriz para Emma Corrin, melhor ator para Josh O’Connor e melhor atriz coadjuvante para Gillian Anderson. E seria impossível não mencionar a bela homenagem para a sempre elegante Jane Fonda, que entregou um discurso engajado, sem qualquer vaidade e digno de uma atriz de sua grandeza. Foram momentos como esse que compensaram uma cerimônia protocolar e sem nenhum senso de entretenimento, o que já está traduzido na queda de aproximadamente 60% na audiência do Globo de Ouro em comparação ao ano passado.

Confira abaixo a lista completa de vencedores:

CINEMA

MELHOR FILME – DRAMA: Nomadland
MELHOR FILME COMÉDIA/MUSICAL: Borat: Fita de Cinema Seguinte
MELHOR DIREÇÃO: Chloé Zhao (Nomadland)
MELHOR ATRIZ – DRAMA: Andra Day (The United States vs. Billie Holliday)
MELHOR ATOR – DRAMA: Chadwick Boseman (A Voz Suprema do Blues)
MELHOR ATRIZ – COMÉDIA/MUSICAL: Rosamund Pike (Eu Me Importo)
MELHOR ATOR – COMÉDIA/MUSICAL: Sacha Baron Cohen (Borat: Fita de Cinema Seguinte)
MELHOR ATRIZ COADJUVANTE: Jodie Foster (The Mauritanian)
MELHOR ATOR COADJUVANTE: Daniel Kaluuya (Judas e o Messias Negro)
MELHOR ROTEIRO: Aaron Sorkin (Os 7 de Chicago)
MELHOR ANIMAÇÃOSoul
MELHOR FILME ESTRANGEIROMinari (Estados Unidos)

MELHOR CANÇÃO ORIGINAL: “Io Sí” (Rosa e Momo)
MELHOR TRILHA SONORA: Trenz Reznor, Atticus Ross e Jon Batiste (Soul)

SÉRIES, MINISSÉRIES E TELEFILMES

MELHOR SÉRIE – DRAMAThe Crown
MELHOR SÉRIE – COMÉDIASchitt’s Creek
MELHOR MINISSÉRIE/TELEFILME: O Gambito da Rainha

MELHOR ATRIZ – DRAMA: Emma Corrin (The Crown)
MELHOR ATOR – DRAMA: Josh O’Connor (The Crown)
MELHOR ATRIZ – COMÉDIA: Catherine O’Hara (Schitt’s Creek)
MELHOR ATOR – COMÉDIA: Jason Sudeikis (Ted Lasso)
MELHOR ATRIZ – MINISSÉRIE/TELEFILME: Anya Taylor-Joy (O Gambito da Rainha)
MELHOR ATOR – MINISSÉRIE/TELEFILME: Mark Ruffalo (I Know This Much is True)
MELHOR ATRIZ COADJUVANTE – SÉRIE/MINISSÉRIE/TELEFILME: Gillian Anderson (The Crown)
MELHOR ATOR COADJUVANTE – SÉRIE/MINISSÉRIE/TELEFILME: John Boyega (Small Axe)

Apostas para o Globo de Ouro 2021

Começa hoje (28) a temporada dos prêmios televisionados com o anúncio dos vencedores do Globo de Ouro 2021. Envolta em novos escândalos que reforçam sua folclórica fama de uma associação corruptível, a Hollywood Foreign Press Association apresentou a pior seleção dos últimos anos, incluindo indicações constrangedoras como as de Emily in Paris, seriado da Netlix que não deve ser levado a sério, e as de Music, debut da cantora Sia como diretora e um fracasso retumbante de crítica.

Com uma cerimônia online por conta da pandemia, a missão da HFPA é tentar recuperar algum tipo de relevância ou seriedade em seus vencedores. Nesse sentido, há chances para Nomadland, de Chloé Zhao, ainda que seja extremamente provável que Os 7 de Chicago, um trabalho palatável e agregador para o senso comum de um corpo de votantes, possa faturar a categoria principal para consolidar a tendência de que as premiações querem apenas prever os resultados do Oscar, algo que não tem dado muito certo nos últimos anos. A cerimônia do Globo de Ouro será transmitida a partir das 22h na TNT. Confira abaixo as nossas apostas.

CINEMA

MELHOR FILME – DRAMAOs 7 de Chicago / alt: Nomadland
MELHOR FILME COMÉDIA/MUSICAL: Borat: Fita de Cinema Seguinte / alt: Palm Springs
MELHOR DIREÇÃO: Chloé Zhao (Nomadland) / alt: David Fincher (Mank)
MELHOR ATRIZ – DRAMA: Carey Mulligan (Bela Vingança) / alt: Frances McDormand (Nomadland)
MELHOR ATOR – DRAMA: Anthony Hopkins (Meu Pai) / alt: Chadwick Boseman (A Voz Suprema do Blues)
MELHOR ATRIZ – COMÉDIA/MUSICAL: Maria Bakalova (Borat: Fita de Cinema Seguinte) / alt: Rosamund Pike (Eu Me Importo)
MELHOR ATOR – COMÉDIA/MUSICAL: Sacha Baron Cohen (Borat: Fita de Cinema Seguinte) / alt: Lin-Manuel Miranda (Hamilton)
MELHOR ATRIZ COADJUVANTE: Glenn Close (Era Uma Vez Um Sonho) / alt: Olivia Colman (Meu Pai)
MELHOR ATOR COADJUVANTE: Leslie Odom Jr. (Uma Noite em Miami…) / alt: Sacha Baron Cohen (Os 7 de Chicago)
MELHOR ROTEIRO: Aaron Sorkin (Os 7 de Chicago) / alt: Emerald Fennell (Bela Vingança)
MELHOR ANIMAÇÃO: Soul / alt: Dois Irmãos: Uma Jornada Fantástica
MELHOR FILME ESTRANGEIROMinari (Estados Unidos) / alt: Druk: Mais Uma Rodada (Dinamarca)

MELHOR CANÇÃO ORIGINAL: “Speak Now” (Uma Noite em Miami…) / alt: “Io Sí” (Rosa e Momo)
MELHOR TRILHA SONORA: Trenz Reznor, Atticus Ross e Jon Batiste (Soul) / alt: Ludwig Göransson (Tenet)

SÉRIES, MINISSÉRIES E TELEFILMES

MELHOR SÉRIE – DRAMAThe Crown / alt: Lovecraft Country
MELHOR SÉRIE – COMÉDIA: Schitt’s Creek / alt: The Great
MELHOR MINISSÉRIE/TELEFILME: O Gambito da Rainha / alt: Small Axe

MELHOR ATRIZ – DRAMA: Emma Corrin (The Crown) / alt: Sarah Paulson (Ratched)
MELHOR ATOR – DRAMA: Matthew Rhys (Perry Mason) / alt: Al Pacino (Hunters)
MELHOR ATRIZ – COMÉDIA: Catherine O’Hara (Schitt’s Creek) / alt: Elle Fanning (The Great)
MELHOR ATOR – COMÉDIA: Nicholas Hoult (The Great) / alt: Jason Sudeikis (Ted Lasso)
MELHOR ATRIZ – MINISSÉRIE/TELEFILME: Anya Taylor-Joy (O Gambito da Rainha) / alt: Cate Blanchett (Mrs. America)
MELHOR ATOR – MINISSÉRIE/TELEFILME: Mark Ruffalo (I Know This Much is True) / alt: Hugh Grant (The Undoing)
MELHOR ATRIZ COADJUVANTE – SÉRIE/MINISSÉRIE/TELEFILME: Gillian Anderson (The Crown) / alt: Annie Murphy (Schitt’s Creek)
MELHOR ATOR COADJUVANTE – SÉRIE/MINISSÉRIE/TELEFILME: Daniel Levy (Schitt’s Creek) / alt: John Boyega (Small Axe)

“Pieces of a Woman”: do início ao fim, um drama realista e doloroso sobre o luto materno

I lifted my head. That’s what I’m asking you to do now.

Direção: Kornél Mundruczó

Roteiro: Kata Wéber

Elenco: Vanessa Kirby, Shia LaBeouf, Ellen Burstyn, Molly Parker, Sarah Snook, Iliza Shlesinger, Benny Safdie, Steven McCarthy, Tyrone Benskin, Frank Schorpion, Harry Standjofski

EUA/Canadá/Hungria, 2020, Drama, 126 minutos

Sinopse: Pieces of a Woman é a jornada emocional de uma mãe que acaba de perder seu bebê. Diante dessa perda, ela terá que lidar com as consequências que seu luto tem nas relações com o marido e a mãe, lutando para que seu mundo não desabe por completo. (Adoro Cinema)

Como espectadores, fomos acostumados a esperar que o grande ato de um filme se situe, por razões óbvias, no recorte final da trama, quando respostas finalmente são dadas ou quando o desfecho, mesmo que inconclusivo, é capaz de fazer conexões simbólicas ou emocionais para que tudo o que vimos até ali encontre o seu propósito. Vou além ao instintivamente teorizar que o grande ato de um filme também pode ser um momento poderoso, um pico inesperado ou uma sequência de fatos envolventes e fascinantes estejam onde eles estiverem na linha temporal da trama. E aí me pego pensando: o que acontece quando esse grande ato está, por exemplo, no início de um filme, como acontece em Pieces of a Woman? A resposta é tão simples quanto injusta: tudo o que vem depois acaba subvalorizado pelo público. Aceitamos que um longa-metragem compense todos os seus defeitos prévios com um final capaz de superar expectativas, mas, quando um relato começa no seu ápice para depois trilhar caminhos menos poderosos, o nosso veredito de que o filme falha em preservar as expectativas criadas é imediato, como se ele tivesse a obrigação de alcançar o seu máximo do início ao fim, uma tarefa basicamente impossível. Trata-se de uma reação naturalmente instintiva e que, entretanto, deveria nos exigir um trabalho maior de reflexão, pois, no caso de Pieces of a Woman, ela desvaloriza outros aspectos bastante interessantes de um relato que analisa o luto materno com franqueza e pungência.

Adquirido pela Netflix após exibição no último Festival de Veneza, onde a protagonista Vanessa Kirby se saiu vitoriosa com a Volpi Cup de melhor atriz, Pieces of a Woman começa indiscutivelmente majestoso, com uma longa sequência de mais de 30 minutos que retrata o momento em que Martha (Kirby) entra em trabalho de parto na própria casa, local escolhido por ela para que a filha nascesse. Contudo, o tão sonhado momento vira pesadelo quando — e isso já está explícito na própria sinopse — a filha não sobrevive e Martha se vê obrigada a enfrentar um luto materno antes de sequer ter aprendido o que é ser mãe. A abertura é marcante por mostrar todo o processo de um parto natural com imensa verossimilhança. Não há espaço para glamourização aqui: em tempo real, o diretor húngaro Kornél Mundruczó, a partir de um roteiro de sua esposa Kata Wéber, retrata o parto como um momento difícil e exaustivo, onde a mulher se vê vulnerável e indefesa, amparada por uma figura masculina que, apesar das boas intenções, é quase inútil nesse momento. Funciona como uma imediata imersão no universo emocional da personagem que acompanharemos por todo o filme e como um excelente exemplo da direção equilibrada entre economia e emoção de Mundruczó, inclusive no que se refere à condução dos atores, uma vez que é particularmente formidável o trabalho de Molly Parker como a parteira de Martha. Entre a delicadeza e a angústia de uma mulher responsável por aquele parto, é através de todas as inflexões e expressões da atriz que entendemos cada movimento em cena.

Após esse prólogo, Pieces of a Woman avança para o dia em que a protagonista começa a retomar algum tipo de rotina. Sua via crucis, no entanto, continua: da discussão em torno do que será feito com o corpo do bebê até os sufocantes abraços de compaixão que recebe de conhecidos, Martha se blinda de tudo e de todos para tentar manter o mínimo de equilíbrio interno diante de um momento tão inimaginável. Para ela, essa parece ser a única saída diante de seus próprios fantasmas, enquanto todos a sua volta acham que, por evitar lágrimas e sofrimentos públicos, Martha não está sofrendo o suficiente pela filha perdida. A patrulha em cima do sofrimento alheio é uma das discussões centrais de Pieces of a Woman, já que não são apenas os olhares estranhos no trabalho e na rua que a protagonista precisa administrar, mas também o temperamento controlador de uma mãe decidida a assinar até mesmo os cheques de trâmites funerários e a desestabilização emocional de um marido que, através de discussões cotidianas e da tentativa de relações sexuais estranhas e forçadas, tenta extrair da esposa os estímulos esperados. Ao mostrar a figura masculina fragilizada e a feminina impenetrável, Mundruczó traz uma importante e atualíssima provocação sobre o peso que a sociedade coloca nos ombros das mulheres e das mães, sempre julgadas pela maneira com que externalizam um tipo de sofrimento que, em circunstância alguma, deveria ser alvo de questionamentos.

As reflexões propostas por Pieces of a Woman passam pela própria história de vida do diretor e da roteirista. Casados há vários, Mundruczó e Kata Wéber perderam um bebê enquanto ela ainda estava grávida, e a escrita do roteiro se deu para ela como um processo de cura e terapia após o trauma. Há, portanto, o chamado de lugar de fala porque Wéber transpõe para o roteiro questões que ela viveu na pele. Afinal, o quanto falamos sobre o luto e sobre os dolorosos espectros da maternidade? Ou de onde vem a nossa obsessão em tentar encontrar algum tipo de compensação – judicial, financeira, midiática – para vivências tão acidentais e aleatórias quanto a morte? O longa é certeiro e equilibrado no tocante a essas discussões centradas no universo feminino, o que já não pode ser dito quando o roteiro se volta para Sean, o marido interpretado por Shia LaBeouf. Por si só, o personagem já é consideravelmente menos interessante do que a protagonista vivida por Vanessa Kirby, e a sua subtrama com a personagem de Sarah Snooke (a Siobhan do ótimo seriado Succession) não colabora para a unidade do drama, tanto por soar descartável quanto por não ter maiores conclusões. Nesse sentido, a atenção dada à mãe de Martha surte melhor efeito. Não é o caso de uma personagem notável — inclusive porque suas aparições são pequenas e, por vezes, cíclicas —, mas a escalação da grande Ellen Burstyn eleva a presença da personagem, colocando-a como uma peça bastante interessante na composição da história.

Sem ter vivido a experiência materna na vida real, Vanessa Kirby assistiu a diversos documentários e a partos em hospitais de Londres para entender a dimensão do episódio que dá origem aos conflitos de sua personagem. E ela se sai maravilhosamente bem. Não é porque sua Martha toma distância de tudo e de todos (inclusive dela própria) que nada acontece internamente, o que Vanessa compreende com perfeição. Esse complexo contraste entre o interno e o externo é trabalho dos mais difíceis e se resolve com excelência na interpretação da atriz, cuja beleza e juventude contribuem para o retrato dessa mulher tão precocemente calejada e despedaçada pela vida. O estado enclausurado com que ela incorpora os choros represados e a inabilidade em retomar qualquer normalidade do cotidiano é verossímil e alinhado com o melhor de Pieces of a Woman, um filme que vai na contramão dos retratos clássicos sobre o luto e que nunca se entrega ao mero voyeurismo do sofrimento alheio. Afinal, a perda de uma filha já carrega elementos trágicos por si só. Inexplicavelmente lançado no Brasil sem título em português, o trabalho de Mundruczó tem seus tropeços, como os personagens e as subtramas que, na tentativa de ampliar o espectro dramático, soam como tentativas incompletas. E há, sem dúvida, para muitas pessoas, os 30 minutos iniciais tão comentados por darem uma tração que o restante do longa não consegue manter. Entretanto, comparados ao que Pieces of a Woman tem de melhor, como a performance de Vanessa Kirby e a reflexão sobre o luto materno, são aspectos menores e que não deveriam abalar o valor deste filme bonito e doloroso.

Os indicados ao Screen Actors Guild Awards 2021

Em feito inédito, Chadwick Boseman recebeu quatro indicações ao Screen Actors Guild Awards 2021, duas delas por Destacamento Blood, filme de Spike Lee antes ignorado pelo Globo de Ouro.

Ainda que não tenha constrangimentos como aqueles proporcionados pela lista do Globo de Ouro, o Screen Actors Guild Awards apresentou hoje (04) os seus indicados provando mais uma vez que criatividade e boas descobertas deixaram de pautar os prêmios que antecedem o Oscar. Tudo é basicamente sobre tentar prever as escolhas da Academia. Créditos devem ser dados para a reparação com Destacamento Blood, filme de Spike Lee ignorado pelo Globo de Ouro, e pelo reconhecimento a Minari, que parecia circunscrito às associações de críticos, mas estamos diante de mais do mesmo e de uma seleção distante daquilo que o SAG já foi capaz de garimpar com indicações como a de Sarah Silverman, em 2015, por I Smile Back, um drama muito pequeno e pouco visto que caiu na graça dos votantes, ou como a de Emile Hirsch, em 2008, por Na Natureza Selvagem, que não concorreu ao Oscar, ao Globo de Ouro ou ao BAFTA de melhor ator.

Baterei na tecla da falta de criatividade ao longo desta temporada porque oportunidades não faltaram em tempos de pandemia para que descobertas fossem feitas. Por que não indicar, por exemplo, Julia Garner como melhor atriz por A Assistente ao invés de Amy Adams, que faz o que pode no problemático Era Uma Vez Um Sonho? Por mais que pese a admiração e o carinho que os atores tenham por Amy, fica muito claro que, no frigir dos ovos, a alternativa é sempre o lugar-comum de indicar alguma produção da Netflix, mesmo quando elas são bastante questionáveis, como é o caso do filme dirigido por Ron Howard. Assim como vem acontecendo com o BAFTA, o SAG confirma sua descaracterização como premiação, o que deixa a temporada mais desinteressante, repetitiva e desestimulante. Que os vencedores possam mudar esse cenário!

Por fim, mas não menos importante, o Screen Actors Guild Awards 2021 já está marcado por eternizar o nome de Chadwick Boseman. O ator que nos deixou prematuramente em agosto do ano passado tem quatro indicações ao prêmio, um feito até então inédito. Por Destacamento Blood e A Voz Suprema do Blues, Boseman concorre tanto individualmente quanto como melhor elenco. É o reconhecimento a uma carreira que ganhava grande tração e que foi interrompida tão abruptamente pela morte do ator. No dia 4 de abril, quando o SAG revela seus vencedores, saberemos se alguma dessas indicações será convertida em prêmio.

Confira abaixo a lista completa de indicados:

CINEMA

MELHOR ELENCO
Os 7 de Chicago

Destacamento Blood
Minari
Uma Noite em Miami…
A Voz Suprema do Blues

MELHOR ATRIZ
Amy Adams (Era Uma Vez um Sonho)

Carey Mulligan (Bela Vingança)
Frances McDormand (Nomadland)
Vanessa Kirby (Pieces of a Woman)
Viola Davis (A Voz Suprema do Blues)

MELHOR ATOR
Anthony Hopkins (Meu Pai)

Chadwick Boseman (A Voz Suprema do Blues)
Gary Oldman (Mank)
Riz Ahmed (O Som do Silêncio)
Steven Yeun (Minari)

MELHOR ATRIZ COADJUVANTE
Glenn Close (Era Uma Vez um Sonho)

Helena Zengel (Relatos do Mundo)
Maria Bakalova (Borat: Fita de Cinema Seguinte)
Olivia Colman (Meu Pai)
Yuh-Jung Yeun (Minari)

MELHOR ATOR COADJUVANTE
Chadwick Boseman (Destacamento Blood)
Daniel Kaluuya (Judas e o Messias Negro)
Jared Leto (The Little Things)
Leslie Odom Jr. (Uma Noite em Miami…)
Sacha Baron Cohen (Os 7 de Chicago)

SÉRIES, MINISSÉRIES E TELEFILMES

MELHOR ELENCO – DRAMA
Better Call Saul

Bridgerton
The Crown
Lovecraft Country
Ozark

MELHOR ELENCO – COMÉDIA
Dead to Me
The Flight Attendant
The Great
Schitt’s Creek
Ted Lasso

MELHOR ATRIZ – DRAMA
Gillian Anderson (The Crown)

Emma Corrin (The Crown)
Julia Garner (Ozark)
Laura Linney (Ozark)
Olivia Colman (The Crown)

MELHOR ATOR – DRAMA
Bob Odenkirk (Better Call Saul)

Jason Bateman (Ozark)
Josh O’Connor (The Crown)
Regé-Jean Page (Bridgerton)
Sterling K. Brown (This is Us)

MELHOR ATRIZ – COMÉDIA
Annie Murphy (Schitt’s Creek)

Catherine O’Hara (Schitt’s Creek)
Christina Applegate (Dead to Me)
Kaley Cuoco (The Flight Attendant)
Linda Cardellini (Dead to Me)

MELHOR ATOR – COMÉDIA
Daniel Levy (Schitt’s Creek)

Eugene Levy (Schitt’s Creek)
Nicholas Hoult (The Great)
Jason Sudeikis (Ted Lasso)
Ramy Yousef (Ramy)

MELHOR ATRIZ – MINISSÉRIE/TELEFILME
Anya Taylor-Joy (O Gambito da Rainha)

Cate Blanchett (Mrs. America)
Kerry Washington (Little Fires Everywhere)
Michaela Coel (I May Destroy You)
Nicole Kidman (The Undoing)

MELHOR ATOR – MINISSÉRIE/TELEFILME
Bill Camp (O Gambito da Rainha)

Daveed Diggs (Hamilton)
Ethan Hawke (The Good Lord Bird)
Hugh Grant (The Undoing)
Mark Ruffalo (I Know This Much is True)

Os indicados ao Globo de Ouro 2021

Mank, de David Fincher, lidera a lista do Globo de Ouro 2021 com seis indicações.

Fazia certo tempo que o Globo de Ouro não era tão Globo de Ouro. Ou seja, o que vimos na lista de indicados revelada hoje para a edição 2021 do prêmio entregue pela Hollywood Foreign Press Association oscilou entre o lugar-comum e a bizarrice. Para não ser injusto, faço uma correção: é de lavar a alma ver nada menos do que três mulheres concorrendo na categoria de direção, algo importantíssimo e simbólico em inúmeros sentidos. E fica por aí. Na própria categoria de direção, por exemplo, a decepção já se faz presente com as indicações de David Fincher (Mank) e Aaron Sorkin (Os 7 de Chicago). Ambos são profissionais talentosos, mas, dessa vez, entregam trabalhos sem inspiração. Não deixa de ser reflexo de um grupo de votantes acomodado com os lançamentos da Netflix, que lidera a lista com 22 indicações, seguida muito de longe pela Amazon Studios com apenas sete.

Há outros fatos inexplicáveis, como James Corden concorrendo como melhor ator em comédia/musical pelo pavoroso A Festa de Formatura, enquanto sua colega Meryl Streep ficou de fora em uma categoria basicamente sem concorrência, onde ela também poderia ter emplacado por Let Them All Talk. Aliás, o segmento das comédias poucas vezes esteve tão fraco: para efeitos de projeção ao Oscar, é provável que nenhum dos indicados, sejam eles filmes ou atores, caiam nas graças da Academia. A ausência total do ótimo Destacamento Blood, de Spike Lee, também deixa um inegável gosto amargo por múltiplas razões, começando pelo fato de que a lista não incluiu filmes protagonizados por negros na categoria principal e sequer indicou Delroy Lindo como protagonista ou o próprio Spike Lee a diretor em um ano que, como já comentado, David Fincher e Aaron Sorkin são lembrados por trabalhos nada marcantes.

Ainda assim, o vexame maior fica com as indicações de melhor série e melhor atriz em comédia/musical para Emily in Paris, uma produção da Netflix repleta de clichês, tolas ingenuidades, fórmulas ultrapassadas e sem o mínimo de inspiração ou capacidade de dizer algo que já não tenha sido dito por outros programas. Seguindo linha semelhante, não há como defender a presença de Ratched em melhor série dramática, atriz e atriz coadjuvante. A série é, sem dúvidas algo exagerado e desconjuntado até mesmo para os padrões de Ryan Murphy. Tão inaceitável quanto tudo isso é o fato de I May Destroy You, da HBO, ter sido completamente ignorada, quando, na verdade, é uma minissérie que compreende como poucas os sentimentos, as relações, os traumas e as dinâmicas da juventude atual. 

Para um ano que tanto nos exigiu garimpar filmes e séries diferentes devido aos efeitos da pandemia, o Globo de Ouro se limitou a fazer mais do mesmo. E com direito a ideias bastante indigestas. Os vencedores serão revelados no dia 28 de fevereiro. Confira abaixo a lista completa de indicados:

CINEMA

MELHOR FILME – DRAMA
Os 7 de Chicago
Bela Vingança
Mank
Meu Pai
Nomadland

MELHOR FILME – COMÉDIA/MUSICAL
Borat: Fita de Cinema Seguinte
A Festa de Formatura
Hamilton
Music
Palm Springs

MELHOR DIREÇÃO
Aaron Sorkin (Os 7 de Chicago)
Chloé Zhao (Nomadland)
David Fincher (Mank)
Emerald Fennell (Bela Vingança)
Regina King (Uma Noite em Miami…)

MELHOR ATRIZ – DRAMA
Andra Day (The United States vs. Billie Holiday)
Carey Mulligan (Bela Vingança)
Frances McDormand (Nomadland)
Vanessa Kirby (Pieces of a Woman)
Viola Davis (A Voz Suprema do Blues)

MELHOR ATOR – DRAMA
Anthony Hopkins (Meu Pai)
Chadwick Boseman (A Voz Suprema do Blues)
Gary Oldman (Mank)
Riz Ahmed (O Som do Silêncio)
Tahar Rahim (The Mauritanian)

MELHOR ATRIZ – COMÉDIA/MUSICAL
Anya Taylor-Joy (Emma.)
Kate Hudson (Music)
Maria Bakalova (Borat: Fita de Cinema Seguinte)
Michelle Pfeiffer (French Exit)
Rosamund Pike (Eu Me Importo)

MELHOR ATOR – COMÉDIA/MUSICAL
Andy Samberg (Palm Springs)
Dev Patel (A História Pessoal de David Copperfield)
James Corden (A Festa de Formatura)
Lin-Manuel Miranda (Hamilton)
Sacha Baron Cohen (Borat: Fita de Cinema Seguinte)

MELHOR ATRIZ COADJUVANTE
Amanda Seyfried (Mank)
Glenn Close (Era Uma Vez Um Sonho)
Helena Zengel (Relatos do Mundo)
Jodie Foster (The Mauritanian)
Olivia Colman (Meu Pai)

MELHOR ATOR COADJUVANTE
Bill Murray (On the Rocks)
Daniel Kaluuya (Judas e o Messias Negro)
Jared Leto (Os Pequenos Vestígios)
Leslie Odom Jr. (Uma Noite em Miami…)
Sacha Baron Cohen (Os 7 de Chicago)

MELHOR ROTEIRO
Aaron Sorkin (Os 7 de Chicago)
Chloé Zhao (Nomadland)
Christopher Hampton e Florian Zeller (Meu Pai)
Emerald Fennell (Bela Vingança)
Jack Fincher (Mank)

MELHOR FILME EM LÍNGUA ESTRANGEIRA
Druk: Mais Uma Rodada (Dinamarca)
La Llorona (Guatemala/França)
Minari (Estados Unidos)
Nós Duas (França/Estados Unidos)
Rosa e Momo (Itália)

MELHOR ANIMAÇÃO
A Caminho da Lua
Os Croods 2: Uma Nova Era

Dois Irmãos: Uma Jornada Fantástica
Soul
Wolfwalkers

MELHOR TRILHA SONORA
Alexandre Desplat (O Céu da Meia-Noite)
James Newton Howard (News of the World)
Ludwig Göransson (Tenet)
Trent Reznor e Atticus Ross (Mank)
Trenz Reznor, Atticus Ross e Jon Batiste (Soul)

MELHOR CANÇÃO ORIGINAL
“Fight for You” (Judas e o Messias Negro)
Música de Dernst Emile II e H.E.R.
Letra de H.E.R. e Tiara Thomas

“Hear My Voice” (Os 7 de Chicago)
Música de Daniel Pemberton
Letra de Celeste Waite e Daniel Pemberton

“Io Sí” (Rosa e Momo)
Música de Diane Warren
Letra de Diane Warren, Laura Pausini e Niccolò Agliardi

“Speak Now” (Uma Noite em Miami…)
Música e Letra de Leslie Odom Jr. e Sam Ashworth

“Tigrees & Tweed” (The United States vs. Billie Holiday)
Música e Letra de Andra Day e Raphael Saadiq

SÉRIES, MINISSÉRIES, ANTOLOGIAS E TELEFILMES

MELHOR SÉRIE – DRAMA
The Crown

Lovecraft Country
The Mandalorian
Ozark
Ratched

MELHOR SÉRIE – COMÉDIA/MUSICAL
Emily in Paris

The Flight Attendant
The Great
Schitt’s Creek
Ted Lasso

MELHOR MINISSÉRIE/ANTOLOGIA/TELEFILME
O Gambito da Rainha

Nada Ortodoxa
Normal People
Small Axe
The Undoing

MELHOR ATRIZ – DRAMA
Emma Corrin (The Crown)
Olivia Colman (The Crown)
Jodie Comer (Killing Eve)
Laura Linney (Ozark)
Sarah Paulson (Ratched)

MELHOR ATOR – DRAMA
Al Pacino (Hunters)

Bob Odenkirk (Better Call Saul)
Jason Bateman (Ozark)
Josh O’Connor (The Crown)
Matthew Rhys (Perry Mason)

MELHOR ATRIZ – COMÉDIA/MUSICAL
Catherine O’Hara (Schitt’s Creek)

Elle Fanning (The Great)
Jane Levy (Zoey’s Extraordinary Playlist)
Kaley Cuoco (The Flight Attendant)
Lily Collins (Emily in Paris)

MELHOR ATOR – COMÉDIA/MUSICAL
Don Cheadle (Black Monday)
Eugene Levy (Schitt’s Creek)
Jason Sudeikis (Ted Lasso)
Nicholas Hoult (The Great)
Ramy Youssef (Ramy)

MELHOR ATRIZ – MINISSÉRIE/ANTOLOGIA/TELEFILME
Cate Blanchett (Mrs. America)

Daisy Edgar-Jones (Normal People)
Shira Haas (Nada Ortodoxa)
Nicole Kidman (The Undoing)
Anya Taylor-Joy (O Gambito da Rainha)

MELHOR ATOR – MINISSÉRIE/ANTOLOGIA/TELEFILME
Bryan Cranston (Your Honor)

Ethan Hawke (The Good Lord Bird)
Hugh Grant (The Undoing)
Jeff Daniels (The Comey Rule)
Mark Ruffalo (I Know This Much is True)

MELHOR ATRIZ COADJUVANTE – SÉRIE/MINISSÉRIE/ANTOLOGIA/TELEFILME
Annie Murphy (Schitt’s Creek)

Cynthia Nixon (Ratched)
Gillian Anderson (The Crown)
Helena Bonham Carter (The Crown)
Julia Garner (Ozark)

MELHOR ATOR COADJUVANTE – SÉRIE/MINISSÉRIE/ANTOLOGIA/TELEFILME
Brendan Gleeson (The Comey Rule)

Daniel Levy (Schitt’s Creek)
Donald Sutherland (The Undoing)
Jim Parsons (Hollywood)
John Boyega (Small Axe)

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