Cinema e Argumento

Melhores de 2021: roteiros, direção e filme

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MELHOR ROTEIRO ADAPTADO
Christopher Hampton e Florian Zeller (Meu Pai)

O que mais admiro em adaptações teatrais para o cinema é a capacidade de um roteiro conseguir tirar o melhor da natureza dos palcos e eliminar tudo o que poderia parecer um teatro filmado. Meu Pai faz isso com louvor. Transpondo um texto muito premiado na Europa — Lé Père, vencedor do prestigiado Moliére de melhor peça em 2014 — Christopher Hampton e Florian Zeller transformam o material original de autoria do próprio Zeller em uma grande imersão a partir de elementos que, nas mãos erradas, poderiam limitá-lo: um único cenário, pouquíssimos personagens, ação centrada em diálogos, etc. Zeller foi certeiro ao chamar Hampton para esse trabalho, visto que ele é um mago das adaptações — afinal de contas, não é qualquer roteirista de Hollywood que tem na conta filmes como Ligações PerigosasDesejo e Reparação. Juntos, eles entregam um roteiro de grandes dimensões emocionais e de desdobramentos e surpresas que acompanham o espectador até o último minuto de projeção, quando Meu Pai encerra a sua dolorosa jornada com o momento de maior baque emocional de 2021.

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MELHOR ROTEIRO ORIGINAL
Thomas Vinterberg e Tobias Lindholm
(Druk: Mais Uma Rodada)

Para o espectador mais desavisado, Druk: Mais Uma Rodada pode soar como uma divertida brincadeira, pois a arrancada se dá a partir da descoberta de um estudo sobre como precisamos compensar um déficit de álcool no sangue para equilibrar a vida cotidiana. Só que há uma virada de chave na euforia vivida pelos quatro amigos que abraçam essa teoria, e Druk passa a refletir sobre o que pode ter levado os personagens a buscarem por algum tipo de ânimo em seus dias. Para tanto, o roteiro escrito por Thomas Vinterberg e Tobias Lindholm mergulha nas crescentes doses alcoólicas de Martin (Mads Mikkelsen) e transforma brincadeira em melancolia. O âmago do roteiro é essa acertada decisão de tentar entender como os personagens foram descaracterizando as suas próprias vidas ao ponto de precisarem de alguns goles de vodka já no café da manhã para voltarem a brilhar. Vinterberg e Lindholm se movimentam por essa premissa com profundidade e humanidade, preocupados em manter a palpabilidade desses quatro homens entre o drama e a comédia, regadas pelas habituais inteligências do cinema dinamarquês.

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MELHOR DIREÇÃO
Jane Campion (Ataque dos Cães)

Aproximando-se dos 70 anos de idade, a cineasta Jane Campion diz que já começa a pensar no seu legado. Mais do que olhar para trás, o que importa, segundo ela, é fazer filmes surpreendentes e sem amarras daqui para frente. Ataque dos Cães já é um deles. Não que outros trabalhos de Campion não o sejam, mas esse longa que lhe rendeu o Leão de Prata de melhor direção em Veneza e, posteriormente, o Oscar na mesma categoria representa algo novo em sua carreira: pela primeira, ela conta uma história centrada em uma figura masculina. E o faz, claro, surpreendendo, como bem quer fazer. Após conseguir viabilizar a adaptação do livro homônimo de Thomas Savage que já havia sido planejada pelo menos cinco vezes, Campion imediatamente procurou Annie Proulx, autora do conto que deu origem a O Segredo de Brokeback Mountain para apurar seu olhar sobre um projeto que gosta de enxergar como uma espécie de pós-western. Esse seu comprometimento com a inovação é o que faz de Ataque dos Cães um filme único. Campion recusa ferramentas fáceis e confia na capacidade do público de entrar na psique dos personagens, revelando-os pouco a pouco. Por meio de nuances e de uma rigorosa atmosfera, ela dá aula sobre como as reticências podem ser muito mais poderosas do que qualquer manipulação fabricada.

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MELHOR FILME
Meu Pai

Meu Pai pode muito bem ser considerado o filme definitivo sobre demência que o cinema de língua inglesa tenta fazer há muitos anos. Escapa à memória qualquer projeto tão devastador e imersivo como esse assinado pelo diretor Florian Zeller, adaptando um espetáculo teatral de autoria própria. Encharcado de terror ao colocar o espectador diante de um destino de vida do qual ninguém está livre, Meu Pai é um exercício de empatia executado com maestria, da interpretação magistral de Anthony Hopkins a detalhes técnicos que se revelam fundamentais para a narrativa, como a montagem e o design de produção. Também transfere um texto teatral para o cinema sem cacoetes tão comuns em adaptações dessa natureza, muito em função da parceria de Zeller com Christopher Hampton no roteiro. É o tipo de filme que perdurará como um relato avassalador da demência, mas, acima de tudo, como um verdadeiro exemplo de como ainda é possível revolucionar o relato de temas desgastados por fórmulas e impressionar cinematograficamente sem maneirismos ou distrações.

Melhores de 2021: categorias de intepretação

THE POWER OF THE DOG

MELHOR ATOR COADJUVANTE
Kodi Smit-McPhee (Ataque dos Cães)

É praticamente impossível entender o que se passa na mente de Peter, o jovem vivido por Kodi Smit-McPhee que acaba girando as engrenagens de Ataque dos Cães. Alto e esguio, ele parece se movimentar em um universo próprio, revelando-se aos poucos para o espectador e comunicando muito através da linguagem corporal. Para além da questão física, Smit-McPhee brilha por compreender que seu personagem não tem um arco propriamente dito: o que ele faz é estimular e intrigar a plateia com um jovem cujas grandes transformações aconteceram na vida pregressa ao início do filme. Traumas, inseguranças e receios relacionados à sua essência já surgem resolvidos em Ataque dos Cães, e é justamente essa segurança de ser quem ele é que desestabiliza Phil (Benedict Cumberbatch). Entre a delicadeza de ser o filho que zela pela própria mãe e os movimentos sinuosos de uma personalidade bastante particular, o ator dá conta de várias questões sobre ideais de masculinidade ainda muito presentes e confere complexidade a um personagem laudatório das melhores qualidades de Ataque dos Cães.

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MELHOR ATRIZ COADJUVANTE
Jessie Buckley (A Filha Perdida)

Interpretando a mesma personagem, mas em momentos diferentes de vida, Jessie Buckley e Olivia Colman nunca sentaram para conversar ao longo de toda a realização de A Filha Perdida. Inclusive, elas não acreditavam em tal necessidade — o que muito agradou a diretora Maggie Gyllenhaal, que organizou os distintos recortes da protagonista Leda como se elas fossem ecos, previsões e reminiscências de uma vida marcada pela inadequação ao que a sociedade exige das mulheres, especialmente daquelas que se tornam mães. Buckley é uma maravilhosa escalação para a versão nova da personagem porque, claro, é boa atriz, e porque tem instintos parecidos com os de Olivia Colman no que tange escolha de projetos e o tipo de papeis que gosta de interpretar. Sem jamais julgar Leda, ela já dá pistas dos sentimentos e das circunstâncias que a moldaram, equilibrando-se nessa eterna corda bamba que a vida nos coloca de sermos capazes de fazer tanto escolhas boas quanto ruins. É mais um atestado bastante claro e instigante de que Jessie Buckley está entre as melhores atrizes de sua geração.

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MELHOR ATOR
Anthony Hopkins (Meu Pai)

Anthony Hopkins disse em várias entrevistas que foi muito fácil fazer Meu Pai. Sua teoria é de que Florian Zeller e Christoper Hampton escreveram um roteiro tão extraordinário e Olivia Colman foi uma parceira tão ímpar em cena que tudo o que ele precisava fazer era se deixar levar. Se realmente foi tão fácil como Hopkins diz, só podemos deduzir que o foi porque, à parte o talento, há coisas que um ator conquista apenas com a experiência, entre elas, a capacidade de encarar desafios com naturalidade. Sem nunca ter tido uma experiência próxima envolvendo Alzheimer ou doenças do gênero, o ator, apesar disso, colocou-se na pele do protagonista como se tivesse acompanhado uma história como essa de perto. O olhar profundo e generoso com que ele abarca um complicadíssimo dilema do qual ninguém está livre (o que fazer quando as pessoas que você ama começam a perder as suas estruturas?) é de partir o coração, principalmente porque o protagonista, preso na ideia de que está seguro de si como sempre esteve a vida inteira, luta para tentar dar algum sentido ao que acontece já não consegue mais entender. Tenho sempre muita cautela ao afirmar que determinado desempenho é o melhor da carreira de alguém. No entanto, no caso de Anthony Hopkins em Meu Pai, a exceção pode ser feita sem qualquer medo.

THE LOST DAUGHTER. OLIVIA COLMAN as LEDA. CR. COURTESY OF NETFLIX

MELHOR ATRIZ
Olivia Colman (A Filha Perdida)

Resumidamente, a expressão norte-americana taken for granted seria como o ato de tomar algo como certo ou garantido, sem que fosse digno de maior atenção e celebração por já ter se consolidado o suficiente. Pode ser uma percepção prematura, mas desconfio que Olivia Colman, assim como tantas outras atrizes extraordinárias, já se encaixe no taken for granted por ter recebido um Oscar dos mais justos por A Favorita e por não ter errado a mira depois de tal celebração, participando de séries como The CrownFleabag ou do extraordinário Meu Pai, filme em que atuou ao lado de Anthony Hopkins. É apenas esse taken for granted que explica o fato de Olivia não ter varrido premiações e festivais com a sua performance em A Filha Perdida. Olivia traz entendimento e camadas a uma personagem difícil de definir e de gostar, evitando transformá-la em uma louca e, ao mesmo tempo, renegando a ideia de torná-la palatável ao público. A Leda mais madura da atriz e interpretada na juventude por Jessie Buckley carrega remorsos e (in)certezas traduzidos em cada inflexão de uma intérprete com a rara capacidade de sempre surpreender, impactar e fazer com que tudo pareça tão natural. Celebrar Olivia Colman nunca deve ser demais.

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MELHOR ELENCO
Shiva Baby

São muitas as variáveis que podem definir um bom elenco. Número de atores? Sinergia entre eles? Equivalência na grandeza de interpretações? Acertos em todas as escalações? Ao meu ver, não há uma resposta certa. Há elencos excepcionais que, formados por apenas três ou quatro pessoas, garantem aulas de atuação, como em Dúvida, premiado nessa respectiva categoria aqui no blog, e há casos como o de Shiva Baby, que conjuga de tudo um pouco, passando por um número volumoso de atores, pela excelente dinâmica estabelecida entre eles e por um grande equilíbrio de talentos. Encabeçado pela performance reveladora de Rachel Sennott (apenas em seu segundo longa-metragem, mas demonstrando um domínio singular), o elenco de Shiva Baby se engrandece ao tornar crível a dinâmica de uma família deveras particular e repleta de personalidades tão distintas quanto complementares, com particular também para Polly Draper, que interpreta a mãe da protagonista. Em pouco menos de 80 minutos, todos têm papel fundamental na construção do grande sentimento de claustrofobia que permeia o longa de estreia de Emma Seligman.

Três atores, três filmes… com Otávio Almeida

otaviotresOs colegas e amigos entusiasmados por cinema que a vida na internet me trouxe se tornaram pessoas que, inevitavelmente, eu conheci e passei a ter como referência também através da escrita. Desbravei meus primeiros textos sobre cinema lendo, por exemplo, a Kamila Azevedo, que já participou aqui da coluna, e não tardou para que outros se somassem ao time, como o Otávio Almeida, que hoje é o 60º convidado desta seção sempre cercada de carinho. Acho simbólico ter Otávio como o rosto deste marco justamente em função dos tantos anos virtuais compartilhados com escrita e muitos filmes. Autor do Hollywoodiano (hoje em sua versão no Instagram), ele ainda pode ser encontrado no podcast Era Uma Vez em São Paulo. Em ambos, faz jus ao nome do projeto com o qual cravou bandeira na internet: analisa, como ele próprio gosta de dizer, os filmes da indústria Hollywoodiana de forma debochada, exagerada, mas coerente com sua visão sobre cinema. Não é diferente aqui na coluna. Aproveitem!

Al Pacino (O Poderoso Chefão)
Sou suspeito pra falar da trilogia sagrada de Francis Ford Coppola, mas, como considero o original de 1972 meu filme favorito, não tinha a menor possibilidade aqui de destacar minha atuação preferida em outra produção. Não, não estou falando de Marlon Brando, que é monumental, mas de Al Pacino, que provavelmente ninguém entre nossos pais e avós conhecia na época. Talvez seja o cartão de visitas mais impactante entre os atores do cinema americano. É a viagem ao lado sombrio da Força ou o Breaking Bad mais sutil e impressionante que já testemunhei. O pacífico Michael Corleone dando um passo de cada vez rumo ao inferno do poder, ciente de que isso corrompe e fecha a porta sem dó na cara da esposa (e do público) na cena final. Todo o trabalho de Pacino na trilogia é uma aula, mas é no primeiro filme que ele ganha todo o nosso amor na mesma proporção do ódio. Sublime!

Bette Davis (A Malvada)
Desculpa, mas Bette Davis é a melhor atriz do mundo em A Malvada. Podemos falar de Meryl, Viola, Nicole, Isabelle Huppert, Cate Blanchett ou Katharine Hepburn, eu entendo. Obviamente, Bette Davis está nesse patamar, porém, cada palavra, postura, gesto e energia desferidas pela atriz na obra-prima de Joseph L. Mankiewicz acertam o coração e o estômago não só do restante do elenco (fica feio pra colega de cena Anne Baxter, a Eve do título original), mas do próprio público. Ela é monstruosa e traz aqui tudo que qualquer jovem atriz precisa saber para arriscar ao menos 10% desse talento na profissão.

Gloria Swanson (Crepúsculo dos Deuses)
Eu disse que Bette Davis é a melhor atriz do mundo em A Malvada? Bom, confesso que eu mesmo fico na dúvida eterna quando (re)vejo Gloria Swanson em Crepúsculo dos Deuses (ou Sunset Boulevard, como nós cinéfilos preferimos falar). Não apenas pela icônica cena final, mas por todas as aparições sinistras que botam o grande William Holden no chinelo.

Melhores de 2021: categorias técnicas

Não faz muito tempo que me culpava por fazer cada vez mais tarde a minha lista de melhores do ano. Hoje, já começo a ter mais carinho por essa ideia, pois não há nada melhor do que tomar certa perspectiva, ter tempo para digerir as coisas e não agir no calor do momento quando se trata de escolhas, principalmente aquelas envolvendo qualquer forma de arte. Dito isso, com o devido hiato para fazer escolhas que agora me parecem devidamente calibradas, aqui vão os primeiros vencedores da lista de melhores de 2021!

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MELHOR CANÇÃO ORIGINAL
Leos Carax, Ron Mael e Russell Mael
“So May We Start?” (Annette)

Cenas de abertura são importantes em musicais porque assinalam para o público o estilo que será seguido não apenas pelo filme, mas também pela própria parte musical. So May We Start? é muito feliz nessa premissa, revelando o quanto Annette se equilibrará entre a ambição e um tom mais descompromissado, além da mistura de ecleticidades proposta pelo diretor Leos Carax, bem ao estilo do que Ron e Russell Mael, os irmãos Sparks, exploram ao longo de sua carreira e aplicam na idealização deste musical. Para além do tom estabelecido, So May We Start? é um excelente ponto de partida para Annette porque é uma das melhores músicas do filme (meu coração se divide entre ela e We Love Each Other So Much) e porque funciona como uma espécie de abre-alas, começando até um tanto óbvia em um estúdio de música para logo ganhar as ruas com Adam Driver, Marion Cotillard e elenco. É de uma energia envolvente e de uma pegada bastante própria, característica ostentada por Annette como um todo.

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MELHOR TRILHA SONORA
Jonny Greenwood
(Ataque dos Cães)

Pouquíssimas carreiras de compositores para cinema têm tanta personalidade e consistência como a de Jonny Greenwood. O guitarrista de 50 anos da banda Radiohead se tornou parceiro inseparável do diretor Paul Thomas Anderson (as trilhas de Sangue Negro e Trama Fantasma são verdadeiras obras-primas) e também vem colaborando com outros cineastas de ponta. É o caso de seu trabalho para Ataque dos Cães, de Jane Campion, que lhe rendeu sua segunda indicação ao Oscar. Ao mesmo tempo identificável, mas nunca repetitiva, a sonoridade das trilhas de Greenwood são sempre singulares ao evocarem os mais diferentes sentimentos. No caso de Ataque dos Cães, ela tem papel central na criação de toda a tensão que paira sob os personagens. Como esperado, Greenwood não cai na simples homenagem às referências de western e cria um universo próprio para um filme que rompe várias formalidades.

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MELHOR FOTOGRAFIA
Joshua James Richards
(Nomadland)

Surpreende a sensibilidade com que Josua James Richards captura a mistura de individualidade e universalidade de Nomadland. Sua carreira é muito recente (o primeiro curta-metragem veio em 2011), prova de que talento de verdade se manifesta em qualquer momento. À parte ter em mente concepções importantes que nem todos diretores de fotografia têm (a de que ela nunca deve chamar atenção para si própria propositalmente) e experimentações que ele diz ter feito de forma deliberada para expandir seu repertório cinematográfico, o que Richard prova no filme de Chloé Zhao é que, acima de tudo, seu trabalho se move carregado de alma. Um exemplo disso é como as paisagens exploradas pelo filme não são apenas paisagens: elas estão ali para expressar as subjetividades de uma protagonista tão singular quanto Faye (Frances McDormand). O olhar é muito sensível, e o trabalho de Joshua é, sem dúvida, um dos pilares emocionais de Nomadland.

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MELHOR MONTAGEM
Yorgos Lamprinos
(Meu Pai)

Somente a habilidade em construir a notável atmosfera labiríntica de Meu Pai já deveria render todo tipo de elogios ao montador greco-francês Yorgos Lamprinos, mas seu trabalho também é louvável em outra questão muita importante: a de conseguir calibrar a imensa oscilação de emoções vivida pelo protagonista Anthony (Anthony Hopkins). Construir o quebra-cabeça com peças as faltantes da memória do personagem deve ter sido um desafio repleto de dificuldades. Afinal, como fazer o espectador conhecer um homem que já não se (re)conhece mais? Pois Lamprinos consegue, emergindo a plateia em uma estrutura elegante, surpreendente e que reflete seu assumido entendimento de que Meu Pai é, de certa forma, uma história de horror. Há ritmo e envolvimento em cada decisão tomada para absorver a perspectiva e as impressões de um personagem cuja empatia junto ao público é definida de maneira decisiva pela montagem.

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MELHOR SOM
Andy Nelson, Brian Chumney, Gary Rydstrom, Shawn Murphy e Tod A. Maitland

(Amor, Sublime Amor)

Mesmo que ostente mais de 100 títulos em um currículo marcado por filmes de todo tipo de gênero, Tod A. Maitland é categórico ao afirmar que nenhuma experiência de sua carreira em mixagem de som foi tão difícil quanto a de Amor, Sublime Amor. Junto a Andy Nelson, Brian Chumney, Gary Rydstrom e Shawn Murphy, ele estabeleceu uma dinâmica definitiva a ser seguida: tornar o set mais realista possível em termos de energia. Nesse sentido, o time de som de Amor, Sublime Amor microfonou todos os bailarinos e cantores do filme, com o objetivo de capturar o máximo possível das sonoridades reais de movimentos, sapateados, acrobacias e tudo o que tornou o musical de Spielberg uma das melhores surpresas de 2021. O resultado é um espetáculo para os ouvidos: do primeiro ao último minuto, Amor, Sublime Amor é impactante nos sentidos e um trabalho à altura da trilha de Leonard Bernstein. 

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MELHOR FIGURINO
Jenny Beavan
(Cruella)

Tente encontrar uma figurinista como Jenny Beavan. Possivelmente, a busca será das mais longas. Os seus três Oscar falam por si só: Uma Janela Para o AmorMad Max: Estrada da Fúria e, agora em 2022, Cruella. Dos filmes de época aos mundos pós-apocalípticos, Beavan é uma figurinista cheia de criatividade, e é isso o que acaba tornando Cruella minimamente divertido. Talvez seja meio óbvio afirmar que, em um filme sobre moda, os figurinos fossem destaque, mas Beavan sai do lugar comum para criar peças tão vistosas quanto cheia de ideias. É interessante como ela mostra a sua própria versatilidade ao contrastar as peças usadas por Emma Stone e Emma Thomson, que interpretam personagens de intenções e vocações bastante opostas. São quase 50 as trocas de figurino realizadas apenas por Stone durante o filme, credenciando de vez, também em termos quantitativos, a importância das vestimentas de Cruella para a história contada.

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MELHOR DESIGN DE PRODUÇÃO
Cathy Featherstone e Peter Francis
(Meu Pai)

Segmento que, na totalidade das premiações, acaba resumido a reconstituições de épocas e imponências de blockbusters, o design de produção costuma ser muito mais surpreendente e narrativo em filmes como Meu ´Pai. No filme dirigido por Florian Zeller, a dupla Cathy Featherston e Peter Francis é minimalista de um jeito que pode até passar de forma despercebida pelo público, mas que, é peça fundamental na construção das inúmeras emoções desta poderosa jornada interior estrelada por Anthony Hopkins. Mergulhando na mente de um homem que tenta se agarrar a certezas e memórias que estão se desintegrando, Cathy e Peter acompanham o labirinto proposto pelo diretor ao criar ambientes cujas composições variam de forma gradativa. Cores, móveis e quadros mudam sutilmente de tempos em tempos, contribuindo para a grande desorientação do protagonista e da própria plateia — algo que, no caso de Meu Pai é, sem dúvida, o maior elogio possível.

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MELHORES EFEITOS VISUAIS
Brian Connor, Gerd Nefzer, Paul Lambert e Tristan Myles
(Duna)

Brinco que blockbusters hollywoodianos não fazem mais do que obrigação quando entregam bons efeitos visuais. Com orçamentos milionários no caixa, é preciso certo esforço para chegar a algo ruim. É por isso que, diante da imensa profusão de filmes de super heróis no mercado cinematográfico, os filmes que se interessam são aqueles que se utilizam dos efeitos para criar uma atmosfera de imersão e não apenas um espetáculo vistoso. Duna segue a tradição do diretor canadense Denis Villeneuve de tentar ser o mais realista possível em luzes, contrastes e cenários criados ou adaptados virtualmente especialmente para o filme. Muito do que o quarteto Brian Connor, Gerd Nefzer, Paul Lambert e Tristan Myles fez para este projeto foi abarcar as sensações e as texturas de uma vida no deserto, interferindo o mínimo possível em elementos como luminosidade e animação. O não à artificialidade é o que faz de Duna uma experiência grandiosa do ponto de vista de efeitos.

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MELHOR MAQUIAGEM & PENTEADOS
Julia Vernon, Nadia Stacey e Naomi Donne
(Cruella)

Partindo de inúmeras referências que pudessem reproduzir o estilo de uma jovem na Londres dos anos 1970, Julia Vernon, Nadia Stacey e Naomi Donne conceberam Cruella como um filme divido em dois momentos diferentes. O primeiro envolvia uma garota que ainda não se (re)conhecia e que, ao entrar na indústria da moda, passa a buscar sua própria identidade, permitindo permitiu que maquiagem e penteados se alternassem com frequência, representando a busca da personagem por seu estilo. Já o segundo é quando Cruella (Emma Stone) finalmente se torna Cruella, fase em que a caracterização expressa não só a identidade pop de uma personagem marcante como também a maneira da protagonista mascarar quem sua verdadeira identidade e se apresentar ao mundo como uma pessoa inteiramente nova. São fronteiras bem desenhadas, mas, ao mesmo tempo, bastante interligadas pelo trabalho de Vernon, Stacey e Donne.

Desfecho de “Ozark” é amargo, incômodo e, por isso mesmo, totalmente fiel à trajetória da série

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Jason Bateman e Laura Linney em Ozark: episódios finais da série estrearam no último dia 29.

Finais de série são sempre um assunto muito complicado porque costumam ser julgados por aquilo que o público gostaria de ver e não por aquilo que de fato faz mais sentido para a história. Lembro, particularmente, de me sentir deslocado ao ter apreciado o desfecho de The Good Wife, por exemplo. Não era um final de grandes ideias ou muito menos de sofisticada construção, mas servia perfeitamente ao importante propósito de não desvirtuar a trajetória da protagonista e permanecer convicto até o último minuto de quem ela havia se tornado ao longo de sete temporadas. O público detestou, e o mesmo parece estar acontecendo com a última temporada de Ozark, cujos episódios derradeiros foram disponibilizados no último dia 29.

Menos popular do que merecia ter se tornado junto ao público da Netflix, a série criada pela dupla Bill Dubuque and Mark Williams começou com repercussão comedida até mesmo entre crítica e prêmios. O que talvez explique o reconhecimento tardio a Ozark seja o tempo que boa parte da plateia levou para compreender que defini-la como a “Breaking Bad da Netflix” era definitivamente um equívoco. Desde o primeiro ano, os roteiristas já eram destemidos em escapar de qualquer semelhança com o seriado de Vince Gilligan. Isso porque, em sua própria superfície, Ozark já fazia diferente: a jornada de Marty Byrde (Jason Bateman) nunca foi de deslumbramento com o crime, e as naturezas escusas de seu trabalho eram reveladas aos filhos já na arrancada.

No que podemos chamar de baixa fervura, Ozark começou a descentralizar a atenção em Marty e a enredar pessoas próximas que, de cúmplices silenciosas da sua atividade de lavagem de dinheiro, passaram a fazer parte daquele jogo, caso de Wendy Byrde (Laura Linney), uma das personagens com as camadas mais interessantes e provocadoras da trama. À medida em que o círculo do crime se abria e não parava de jogar pessoas para dentro dele, Ozark criava um sentimento crescente de sufocamento, muito porque sua ação e seu suspense sempre rejeitaram espetáculos estrondosos. Na verdade, tudo parecia ter o mesmo senso de urgência, trazendo uma atmosfera de incômodo cotidiano que não sabíamos exatamente de onde vinha e que fazia com que o espectador se sentisse em apuros tanto quando a família Byrde.

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Ascensão de Wendy e sua relação com Marty é um dos pontos altos do seriado.

O jogo se agrava quando Wendy passa a tomar gosto pela coisa, naquele que pode ser o único eco minimamente comparável a Breaking Bad — e, ao mesmo tempo, é curioso como o Walter White de Bryan Cranston se tornou ícone de cultura pop enquanto Wendy é, com frequência, tida como uma personagem desagradável. Além de dar os grandes momentos que uma atriz do calibre de Laura Linney merece, como se ela interpretasse a sua própria versão de Lady Macbeth, os novos movimentos da personagem acabam ditando todos os rumos da série. É impressionante o engrandecimento de Wendy episódio a episódio, desafiando, em viradas muito orgânicas, até mesmo o seu marido, que, a partir de uma performance muito generosa e sem vaidades de Jason Bateman, cede espaço a ela primeiro por conveniência e, logo após, por não ter mais controle sobre quem a esposa se tornou.

Para dar conta de um emaranhado de crimes e personagens, Ozark nunca teve medo de tomar decisões drásticas, sem que isso parecesse muleta ou uma opção do choque pelo choque. O desfile de participações especiais sempre contribuiu para a construção da narrativa e nos brindava com atores que tiraram o melhor de seus personagens, caso de Janet McTeer e Tom Pelphrey, ambos com excelentes momentos na terceira temporada e solenemente ignorados pelas premiações. Eles foram marcantes complementos a um elenco fixo já brilhante por si só, em que se destaca a força das intérpretes femininas, devidamente valorizadas por um roteiro que fez questão de colocá-las no centro de todos os conflitos (e aqui não posso deixar de citar, claro, a marcante Darlene, vivida com visceralidade por Lisa Emery).

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A trágica história de Ruth Langmore carrega os maiores vislumbres de emoção da trama. 

No meio da frieza e do calculismo inerentes a uma vida encharcada de crimes, Ozark aplicou sua cota de emoção na trágica Ruth Langmore. Única figura da série definida pelo mínimo de afeto, Ruth foi magnificamente interpretada por Julia Garner como essa menina com a qual a vida foi muito injusta, desprovida de qualquer acolhimento familiar e de condições financeiras que pudessem lhe tirar do mundo à margem em que vivia. A personagem estabeleceu uma dinâmica das mais interessantes com Marty Byrde, caminhando na fronteira entre o ressentimento e o carinho por esse homem que ela esperou cumprir o vazio paternal de sua vida. De um jeito muito peculiar, Ozark foi, aqui e ali, um retrato sobre as relações familiares tortuosas que a vida nos dá, tema também explorado pelos Byrdes e até mesmo pelo cartel mexicano dos Navarros. Conseguir propor esse tipo de leitura a partir de personagens tão difíceis de empatizar é outro mérito dos roteiristas. 

Voltando, enfim, ao desfecho, é importante celebrar como os produtores souberam fazer algo óbvio, mas cada vez mais restrito a poucos programas atuais: parar na hora certa. Ainda que o terceiro ano tenha sido o mais popular de Ozark, já ficava evidente que os roteiristas estavam esticando a corda, precisando inclusive trazer novos personagens fixos para movimentar a trama ao invés de apenas complementá-la. Na quarta temporada, prolongada para 14 episódios e dividida em duas partes, a sensação foi um tanto parecida, principalmente porque o programa entregou conclusões menos explosivas do que o esperado. Difícil saber, aliás, o que foi criativo ou comercial em relação a momentos como o do flashforward que abre a temporada e se revela um inexplicável maneirismo. Ir além da quarta temporada fragilizaria demais o projeto, tanto pelo fato de a série ser refém de uma trama que precisa ser bem amarrada em vários desdobramentos quanto pela verossimilhança.

Felizmente, o ponto final foi colocado em A Hard Way to Go após uma última temporada centrada, com muita justiça, em Ruth Langmore e nas diferenças com que Marty e Wendy lidam com os gargalos de situações cada vez mais escabrosas. O episódio vem desagradando a crítica e os fãs do seriado, em função, ao meu ver, dos roteiristas terem feito o que precisava ser feito, sendo fiéis à série como um todo. Os personagens de Ozark sempre levaram uma vida difícil de ser vivida sem consequências ou alentos, e seria incoerente um caminho diferente para a reta final. Não sei se as pessoas estavam vendo a mesma Ozark do que eu, mas um final bonitinho, bem amarrado e de momentos resolutivos jamais esteve no horizonte. Para além da coesão estética e de ritmo mantida ao longo de quatro temporadas, o programa ficará marcado por ter preservado a essência do que queria contar do início ao fim, mesmo que isso tenha lhe obrigado a tomar decisões desagradáveis aos olhares do público, mas de acordo com o lado mais sombrio, cínico e amargo das quatro temporadas. É, portanto, um final que espera do público a maturidade que a série sempre lhe confiou.

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