Cinema e Argumento

“O Som do Silêncio” é uma experiência bela, humana e sensorial que dispensa os clichês de filmes sobre deficiência

It just passes. It just fucking passes.

Direção: Darius Marder

Roteiro: Abraham Marder e Darius Marder, baseado em história de Darius Marder e Derek Cianfrance

Elenco: Riz Ahmed, Paul Raci, Olivia Cooke, Mathieu Almaric, Lauren Ridloff, Domenico Toledo, Chelsea Lee, Shaheem Sanchez, Chris Perfetti, Bill Thorpe, Michael Tow, Rena Maliszewski

Sound of Metal, EUA, 2019, Drama, 120 minutos

Sinopse: Um jovem baterista teme por seu futuro quando percebe que está gradualmente ficando surdo. Duas paixões estão em jogo: a música e sua namorada, que é integrante da mesma banda de heavy metal que o rapaz. Essa mudança drástica acarreta em muita tensão e angústia na vida do baterista, atormentado lentamente pelo silêncio. (Adoro Cinema)

Na comunidade de reabilitação voltada para pessoas surdas onde O Som do Silêncio desenvolve boa parte da sua história, todos recebem, com certa periodicidade, uma tarefa a ser cumprida. Alguns pregam madeiras, outros ajustam telhas, enquanto Ruben (Riz Ahmed), o baterista de um duo de heavy metal que está perdendo a audição de forma repentina e vertiginosa, recebe uma missão aparentemente simples, mas, para ele, profundamente complexa: “aprender a ser surdo”.

Tal missão diz muito sobre o protagonista e sobre como O Som do Silêncio desenha sua trajetória com melancolia. Ao abraçar os dilemas de um homem que fica sem chão após perder sua conexão vital com a música e que se recusa a aceitar uma condição irreversível, o diretor Darius Marder refuta os didatismos comumente adotados pelo cinema no arco da “superação” de uma deficiência para focar na jornada interna de um protagonista que, em plena negação quanto a uma nova realidade, é tomado de maneira cumulativa por um sentimento de não pertencimento.

O que torna O Som do Silêncio um filme assertivo na emoção é a sua estreita aproximação com a realidade e com o mínimo de intervenções possíveis por parte de Marder para glamourizar ou espetacularizar o sofrimento do protagonista, o que já se traduz na ideia de ambientar suas vivências em uma comunidade de pessoas surdas. É inteligente porque, ao estar nesse ambiente, Ruben primeiro terá que se reconhecer nas pessoas que agora passam a ser seus semelhantes para somente depois voltar ao mundo como ele antes conhecia.

Primeiro ator de origem muçulmana indicado ao Oscar, Riz Ahmed estudou seis meses de bateria para performar as cenas onde Ruben demonstra todo o seu talento musical. Contudo, as pérolas do ator estão nos momentos em que ele interage com a comunidade surda, aqui representada por pessoas que de fato vivem com a deficiência. Os olhares de estranhamento e, aos poucos, de compreensão que Ahmed dirige aos surdos com os quais ele aprende e convive são tocantes, pois misturam a dor, a angústia, as contradições e, por fim, a evolução de um homem que, apesar da resistência e dos sonhos perdidos, terá que se (re)conhecer como surdo para encontrar novos sentidos e propósitos. É um desempenho excepcional e que, com certeza, marca um novo momento na carreira do ator.

Em certo ponto, Ruben é apadrinhado por Joe, personagem vivido com grande delicadeza por Paul Raci. Coordenador da clínica e um homem que já viu muita coisa na vida, ele clamará pelas mudanças e pelas transformações internas tão rejeitadas pelo protagonista. Joe sabe que as coisas simplesmente não podem mais ser as mesmas quando alguém perde a audição, e sua determinação em transmitir isso para toda a comunidade e especialmente para Ruben é muito humana e natural. A dinâmica estabelecida entre ele e o personagem de Ahmed é um dos pontos altos de O Som do Silêncio porque envolve sabedoria e generosidade mesmo quando as ações e as opiniões dos personagens entram em conflito.

Surpreende esse ser o primeiro longa-metragem de ficção dirigido por Darius Marder tamanha a disciplina das emoções que ele administra com propriedade e a sua maturidade ao abordar um tema frequentemente banhado em clichês para transformá-lo em uma viagem interna e existencial. Marder parece ter tirado o melhor proveito de seu convívio ao lado do diretor Derek Cianfrance (Namorados Para Sempre, I Know This Much is True), com quem colaborou ao escrever o roteiro do subestimado O Lugar Onde Tudo Termina, absorvendo toda a sua vocação para narrar histórias essencialmente trágicas, mas que jamais se rendem ao histrionismo ou a caminhos simples. O que vemos em O Som do Silêncio é, portanto, um roteirista que segue amadurecendo e que, agora em seu primeiro longa de ficção, passa a se lapidar como um diretor muito promissor.

É importante dar o devido reconhecimento a quem consegue fazer essa transição com pleno êxito porque é frequente o número de roteiristas cujo talento simplesmente não se traduz na cadeira de direção. Um exemplo recente capaz de ilustrar essa tese é o de Aaron Sorkin, autor de roteiros versáteis e respeitados como os de A Rede Social e que agora dirige longas-metragens tradicionais até o último fio de cabelo como Os 7 de Chicago.

Sendo assim, conduzido por um cineasta que faz uma fina leitura de seu próprio texto, O Som do Silêncio esbanja delicadeza no belo trabalho de som que aqui e ali reproduz a (falta de) audição de seu protagonista, no desenho de personagens muito bem explorados (até mesmo a pequena participação do francês Mathieu Almaric é repleta de ressignificados), na ideia de que a deficiência não é algo a ser superado mas sim uma condição que faz parte de quem a tem e, claro, na construção dos desempenhos de Riz Ahmed e Paul Raci. Frente a tudo isso, fica, para mim, a certeza de que ainda vou revisitar O Som do Silêncio muitas vezes.

Os vencedores do BAFTA 2021

Após vitória no Screen Actors Guild Awards, Yuh-Jung Youn também leva o BAFTA de atriz coadjuvante por Minari. Prêmio ajuda a desembaralhar uma categoria incerta até então.

Há uma certa contradição entre a lista de indicados e a lista de vencedores do BAFTA 2021, pois a segunda não necessariamente reflete a imensa diversidade da primeira e volta a reafirmar a vontade dos britânicos em apenas prever o Oscar. Sabemos onde está o gargalo dessa situação: enquanto os indicados das categorias de direção e interpretação tomam forma a partir do crivo de um júri cujo objetivo é garantir a diversidade do prêmio, os vencedores apenas refletem o lugar-comum quando os britânicos se veem obrigados a fazer uma única escolha por categoria, escapando da personalidade altamente fora da curva apresentada na lista de indicados.

O que vimos, portanto, foi Nomadland: Sobreviver na América faturar novamente os prêmios de filme e direção, garantindo de uma vez por todas o seu favoritismo absoluto, especialmente em um ano em que parece não existir qualquer candidato capaz de oferecer alguma ameaça. Idem para Daniel Kaluuya, que não perdeu prêmio algum nesta temporada como ator coadjuvante por Judas e o Messias Negro, o que não foi diferente no BAFTA. E até a vitória de Yuh-Jung Youn como atriz coadjuvante por Minari: Em Busca da Felicidade não vem como uma surpresa, visto que, na semana passada, o SAG já havia antecipado essa tendência.

Não se trata de questionar a excelência dos vencedores, até porque todos estão acima de qualquer suspeita, mas a autoralidade que veio pulsante na lista de indicadas não se fez presente entre os premiados. Era de se esperar que a categoria de melhor atriz, por exemplo, reservasse alguma surpresa que não a de Frances McDormand por Nomadland. Embalada pelo entusiasmo do BAFTA com o filme, Frances levou a melhor na categoria de melhor atriz, a mais imprevisível de todas, onde Carey Mulligan (Bela Vingança) e Viola Davis (A Voz Suprema do Blues) ficaram surpreendentemente de fora e onde quatro atrizes negras concorriam por papeis que iam da comédia ao terror. Talvez seja cedo esperar uma mudança de cultura tão rápida assim, mas houve a promessa…

Considerando os prêmios principais, o BAFTA só fugiu mesmo do esperado ao premiar Anthony Hopkins, extraordinário em Meu Pai. Não é surpreendente se levarmos em conta o carinho dos britânicos por Hopkins (essa é a quarta estatueta que ele vence!), mas sim se observarmos o domínio absoluto de Chadwick Boseman (A Voz Suprema do Blues) até então e toda a saudade em torno dessa celebração. Entre as categorias técnicas, repetiram-se também os prêmios para Soul (animação e trilha sonora), confirmaram-se outros já esperados (figurino e maquiagem para A Voz Suprema do Blues, design de produção para Mank) e alguns outros se revelaram como possíveis tendências para o Oscar (roteiro adaptado para Meu Pai, montagem para O Som do Silêncio).

Confira abaixo a lista de vencedores:

MELHOR FILME: Nomadland: Sobreviver na América
MELHOR FILME BRITÂNICO: Bela Vingança, de Emerald Fennell
MELHOR DIREÇÃO: Chloé Zhao (Nomadland: Sobreviver na América)
MELHOR ELENCO: Lucy Pardee (Rocks)
MELHOR ATRIZ: Frances McDormand (Nomadland: Sobreviver na América)
MELHOR ATOR: Anthony Hopkins (Meu Pai)
MELHOR ATRIZ COADJUVANTE: Yuh-Jung Youn (Minari: Em Busca da Felicidade)
MELHOR ATOR COADJUVANTE: Daniel Kaluuya (Judas e o Messias Negro)
MELHOR ROTEIRO ORIGINAL: Emerald Fennell (Bela Vingança)
MELHOR ROTEIRO ADAPTADO: Christopher Hampton e Florian Zeller (Meu Pai)
MELHOR FILME EM LÍNGUA NÃO-INGLESA: Druk: Mais Uma Rodada (Dinamarca)
MELHOR DOCUMENTÁRIO: Professor Polvo
MELHOR ANIMAÇÃO: Soul
MELHOR TRILHA SONORA ORIGINAL: Jon Batiste, Trent Reznor e Atticus Ross (Soul)
MELHOR FOTOGRAFIA: Joshua James Richards (Nomadland: Sobreviver na América)
MELHOR MONTAGEM: Mikkel EG Nielsen (O Som do Silêncio)
MELHOR DESIGN DE PRODUÇÃO: Donald Graham Burt e Jan Pascale (Mank)
MELHOR FIGURINO: Ann Roth (A Voz Suprema do Blues)
MELHOR MAQUIAGEM E PENTEADOS: Larry M. Cherry, Matiki Anoff, Mia Neal e Sergio Lopez-Rivera (A Voz Suprema do Blues)
MELHOR SOM: Carlos Cortés, Jaime Baksht, Michelle Couttolenc, Nicolas Becker e Phillip Bladh (O Som do Silêncio)
MELHORES EFEITOS VISUAIS: Andrew Jackson, Andrew Lockley e Scott Fisher (Tenet)
MELHOR ROTEIRISTA, DIRETOR OU PRODUTOR BRITÂNICO REVELAÇÃO: Remi Weekes (Roteiro e Direção), por O Que Ficou Para Trás
MELHOR CURTA-METRAGEM BRITÂNICO: The Present
MELHOR CURTA-METRAGEM BRITÂNICO DE ANIMAÇÃO: The Owl and the Pussycat
EE RISING STAR AWARD: Bukky Bakray

Os vencedores do Screen Actors Guild Awards 2021

Viola Davis conquista o sexto SAG de sua carreira por A Voz Suprema do Blues.

Os vencedores do Screen Actors Guild Awards reforçaram uma ótima tendência dessa temporada: é claro que algumas categorias já estão muito bem encaminhadas (ator para Chadwick Boseman e ator coadjuvante para Daniel Kaluuya), mas ainda há muito a ser definido, especialmente entre as atrizes. Não é sempre que vemos uma falta de consenso tão grande na temporada, onde, por exemplo, o Globo de Ouro premia Andra Day por The United States vs. Billie Holiday, Carey Mulligan ganha o Critics’ Choice por Bela Vingança e agora Viola Davis é consagrada por A Voz Suprema do Blues no SAG (o sexto de sua carreira!).

A situação é a mesma em atriz coadjuvante, com prêmios divididos entre Maria Bakalova (Critics’ Choice) e Yuh-jung Youn (SAG), com Jodie Foster, vencedora do Globo de Ouro, ausente no Oscar. O gosto amargo ficou com a vitória de Os 7 de Chicago em melhor elenco, em uma decisão inexplicável do corpo de votantes que, no ano passado, foi o primeiro grande prêmio a colocar Parasita no topo. Em uma seleção com três elencos negros e um asiático concorrendo, o SAG optou por celebrar o único branco e masculino. Foi a maior frustração de uma noite que, no geral, fluiu com agilidade preservou o tom de incertezas visto até aqui.

Confira abaixo a lista de vencedores:

CINEMA

MELHOR ELENCOOs 7 de Chicago
MELHOR ATRIZ: Viola Davis (A Voz Suprema do Blues)
MELHOR ATOR: Chadwick Boseman (A Voz Suprema do Blues)
MELHOR ATRIZ COADJUVANTE: Yuh-jung Youn (Minari)
MELHOR ATOR COADJUVANTE: Daniel Kaluuya (Judas e o Mesias Negro)

SÉRIES, MINISSÉRIES E TELEFILMES

MELHOR ELENCO – DRAMAThe Crown
MELHOR ELENCO – COMÉDIASchitt’s Creek
MELHOR ATRIZ – DRAMA: Gillian Anderson (The Crown)
MELHOR ATOR – DRAMA: Jason Bateman (Ozark)
MELHOR ATRIZ – COMÉDIA: Catherine O’Hara (Schitt’s Creek)
MELHOR ATOR – COMÉDIA: Jason Sudeikes (Ted Lasso)
MELHOR ATRIZ – MINISSÉRIE/TELEFILME: Anya Taylor-Joy (O Gambito da Rainha)
MELHOR ATOR – MINISSÉRIE/TELEFILME: Mark Ruffalo (I Know This Much is True)

Apostas para o Screen Actors Guild Awards 2021

O Screen Actors Guild Awards marca hoje (04) mais um capítulo desta que é a temporada de premiações mais longa de que temos notícia, uma consequência, claro, dos tempos de exceção que vivemos com a chegada da Covid-19. A cerimônia não será ao vivo, já que os organizadores do SAG optaram por um pré-gravação que será compactada em um programa de uma hora de duração. Ou seja, nessa altura do campeonato, os atores já sabem se venceram ou não o prêmio. Para o público, o resultado será revelado a partir das 22h, sem transmissão aqui no Brasil.

As vitórias do SAG serão importantes para esclarecer os caminhos de categorias bastante divididas, como a de melhor atriz coadjuvante, por exemplo, onde a vencedora do Globo de Ouro (Jodie Foster, por The Mauritanian) sequer concorre aqui. Teria Maria Bakalova, portanto, o apoio dos atores por um filme de comédia tão específico e lançado diretamente em streaming? Parece que sim, mas tudo pode acontecer nessa categoria. Também é hora de saber a real aderência de Carey Mulligan, que, por Bela Vingança, ganhou apenas o Critics’ Choice até agora, perdendo o seu esperado Globo de Ouro para Andra Day em The United States vs. Billie Holiday, outra atriz ausente na lista do SAG.

Entre os homens, a situação parece melhor definida, ainda que fique a dúvida: será que Chadwick Boseman fatura mesmo o prêmio como protagonista por A Voz Suprema do Blues? Ou o SAG optará por premiá-lo como coadjuvante por Destacamento Blood para, enfim, dar a sua primeira estatueta Anthony Hopkins? É possível. Por fim, o prêmio de melhor elenco que até pouco tempo atrás parecia certo para Os 7 de Chicago perdeu tração nas últimas semanas considerando a má performance do filme de Aaron Sorkin nas premiações, o que pode abrir caminho para Minari, filme amplamente abraçado pelo Oscar e que pode repetir o feito de Parasita no ano passado ao faturar a categoria principal.

Confira abaixo a nossa lista de apostas:

CINEMA

MELHOR ELENCO: Minari / alt: Os 7 de Chicago
MELHOR ATRIZ: Carey Mulligan (Bela Vingança) / alt: Viola Davis (A Voz Suprema do Blues)
MELHOR ATOR: Chadwick Boseman (A Voz Suprema do Blues) / alt: Anthony Hopkins (Meu Pai)
MELHOR ATRIZ COADJUVANTE: Maria Bakalova (Borat: Fita de Cinema Seguinte) / alt: Olivia Colman (Meu Pai)
MELHOR ATOR COADJUVANTE: Daniel Kaluuya (Judas e o Mesias Negro) / alt: Chadwick Boseman (Destacamento Blood)

SÉRIES, MINISSÉRIES E TELEFILMES

MELHOR ELENCO – DRAMAThe Crown / alt: Ozark
MELHOR ELENCO – COMÉDIA: Schitt’s Creek / alt: The Great
MELHOR ATRIZ – DRAMA: Emma Corrin (The Crown) / alt: Gillian Anderson (The Crown)
MELHOR ATOR – DRAMA: Josh O’Connor (The Crown) / alt: Jason Bateman (Ozark)
MELHOR ATRIZ – COMÉDIA: Catherine O’Hara (Schitt’s Creek) / alt: Kayley Cuoco (The Flight Attendant)
MELHOR ATOR – COMÉDIA: Jason Sudeikes (Ted Lasso) / alt: Eugene Levy (Schitt’s Creek)
MELHOR ATRIZ – MINISSÉRIE/TELEFILME: Anya Taylor-Joy (O Gambito da Rainha) / alt: Michaela Coel (I May Destroy You)
MELHOR ATOR – MINISSÉRIE/TELEFILME: Mark Ruffalo (I Know This Much is True) / alt: Hugh Grant (The Undoing)

O que aprendi tendo aulas de interpretação com Helen Mirren

Já fazia bastante tempo que eu estava de olho nos cursos do Masterclass antes de finalmente tomar a decisão de me matricular em um deles. Não pensei duas vezes ao escolher a minha primeira investida: um curso sobre interpretação com ninguém menos do que Helen Mirren. Não sou ator. Nem tenho a pretensão de ser. Mas, como alguém que ama atrizes e escreve sobre cinema, achei que essa seria a oportunidade perfeita para ampliar meu olhar e entender um pouco melhor sobre vários processos de criação que vemos se materializar em frente às câmeras. E, após 28 aulas, o que tenho a dizer é que eu deveria ter apostado antes nos cursos do Masterclass. Certamente farei outros pela frente.

Não estou aqui, no entanto, para fazer propaganda da marca e sim para compartilhar com vocês um pouco do que aprendi com Helen Mirren sobre ela, sobre ser atriz e sobre os bastidores de um longa-metragem a partir de um ponto de vista particular. Mirren diz que essa é a primeira vez que fala sobre seu ofício de forma tão sistemática. Ela começa, aliás, dizendo que não existe nada mais difícil o que ser ela mesma em frente às câmeras. Bobagem. Ao longo das 28 aulas, a atriz é muitíssimo autêntica, natural e inspiradora em todos os tópicos que pontua, refletindo sobre leituras de roteiro, audições, escolhas de papeis, construções de personagens e as relações que precisam ser estabelecidas tanto com outros atores quanto com qualquer profissional no set de filmagens.

De Bette Davis a Al Pacino, passando por Hamlet, Shakespeare e tantos outros escritores, roteiristas, atores e diretores, Helen Mirren não poupa elogios e menções a todos aqueles que lhe inspiram desde o momento em que se viu em um caminho sem volta quando foi pela primeira ao teatro. Ela incorpora todas as suas vivências e relações a aulas com tópicos específicos e também aos estudos de caso de sua carreira, passando por obras como Elizabeth I, Prime Suspect e A Rainha. É fascinante descobrir os segredos de interpretação de uma atriz tão respeitada e premiada. Obrigado, Helen Mirren! Daqui para frente, como espectador e crítico, me sinto muito mais enriquecido para testemunhar uma interpretação. Abaixo, compartilho com vocês, em 20 tópicos, o que aprendi sobre interpretação a partir de uma perspectiva “mirreniana”.

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1. Uma atriz precisa fazer todos os seus trabalhos com a mesma dedicação. Ela própria diz ter feito Red e A Tempestade, por exemplo, sem distinguir seu nível de interesse ou comprometimento com os respectivos filmes;

2. Não há nada melhor do que ouvir os instintos e encontrar liberdade naquilo que se faz. Somos pessoas únicas, e não há ninguém nesse mundo com quem possamos nos comparar;

3. Uma atriz não deve “desaparecer” em seus papeis, mas sim se revelar;

4. Antes de uma atriz entender se é a pessoa certa para determinado papel, ela deve descobrir se consegue trabalhar com o diretor em questão, sem ter medo de compartilhar suas ideias;

5. A melhor forma de uma intérprete avaliar um roteiro é o lendo de trás para frente: frequentemente, se a personagem aparece nas cenas finais, o papel vale a pena, pois significa que ela foi marcante para a trama. Quanto mais cedo e de maneira mais displicente a personagem sai de cena, menos ela importa;

6. As primeiras reações ao ler um roteiro são sempre as mais confiáveis. Uma atriz é sempre a primeira espectadora do filme que ainda está no papel;

7. Não existe texto mais difícil para interpretar do que qualquer um escrito por Shakespeare. No entanto, o fascínio de interpretá-lo é que, a cada novo espetáculo ou filme, sempre surgem novos significados, incluindo aqueles que, a princípio, só você descobre;

8. Se puder, pegue o metrô ou o ônibus para imaginar as histórias das pessoas que você encontra. A realidade é sempre mais interessante do que qualquer roteiro que possa ser escrito;

9. Vá além do que lhe é entregue: imagine o background do seu personagem e imagine aquilo que ele possa ter vivido e que não está no roteiro. Detalhe importante: não compartilhe com ninguém esse exercício de imaginação e use apenas na sua interpretação;

10. Se o filme em questão é de viés histórico, uma atriz deve fazer a sua pesquisa como uma atriz e não como uma historiadora. Por exemplo: reis e rainhas acreditam que foram colocados no trono por Deus. A informação é interessante, mas o que isso pode significar para a sua construção dramática de uma personagem?;

11. Conheça antes o set e os cenários. Observe as cores, a decoração e tudo aquilo que pode ajudar ou atrapalhar o uso dos figurinos. Torne toda roupa usada em cena real: amasse, dobre, tire qualquer vestígio de que as peças saíram dos costureiros direto para você;

12. Nunca tome como certo aquilo que você “acha” que conhece. Pesquise, leia, vivencie o que você tem qualquer suspeita de não conhecer. Busque sempre ter propriedade;

13. O papel exige sotaque? Então trabalhe e ensaie muito. Não há métodos ou o que se fazer em relação a isso. Um bom auxílio é ter algum nativo do idioma em questão trabalhando junto na preparação, mas alguém que não tenha formação ou experiência em interpretação;

14. Você não pode ser uma boa atriz sem ter o mínimo de técnica e disciplina. Trabalhar apenas a partir do improviso e da intuição pode levar uma intérprete ao completo caos;

15. Uma atriz precisa sempre estar aberta a refazer uma cena, seja por causa do som ou de qualquer outro detalhe técnico. Pouco importa se ela deu a performance da vida. Ser sensível ao trabalho dos colegas é indispensável;

16. É fundamental dar atenção especial aos detalhes, gestos e olhares que podem fazer a diferença na composição de uma personagem. Valorize as cenas sem falas e diálogos porque elas destacam o interior e outras formas de se expressar que valem mais do que monólogos;

17. Toda atriz precisa ter a coragem e se sentir à vontade para falar como se sente em relação às cenas a serem gravadas. O que faz sentido para um diretor ou para um fotógrafo pode não fazer para quem interpreta uma personagem;

18. Como um filme pode ser gravado fora de ordem cronológica, é fundamental saber o contexto da cena que está sendo filmada. Ter um diálogo constante com o montador pode ajudar a atriz a a modular a interpretação e encontrar um bom ritmo;

19. Jamais ensaie em frente a um espelho. Isso vai na direção oposta da essência da profissão. O que deve ser priorizado é o que se passa por dentro;

20. Tente sempre que o próximo papel seja o mais diferente possível do atual. Nem sempre é possível, mas vale abraçar essa lógica toda vez que surgir a oportunidade.

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