Cinema e Argumento

50ª Mostra de Cinema de São Paulo #1: “O Outro Lado das Redes”, de Aaron Sorkin

Assim como os algoritmos manipulados por Mark Zuckerberg, O Outro Lado das Redes não parece interessado em pessoas. Filme-irmão do cultuado A Rede Social, de 2010, esse novo olhar sobre os efeitos do Facebook na nossa vida em sociedade não chega a se equiparar, em nenhum aspecto, ao longa anterior dirigido por David Fincher. É contraproducente aproximar os dois, afinal, não só Fincher faz muita falta como Aaron Sorkin, ao abraçar também a direção, falha em capturar qualquer senso de atmosfera ou urgência para questões tão determinantes do nosso tempo. E pior: emoldura a discussão central da forma mais banal possível.

O foco de O Outro Lado das Redes está na cientista de dados do Facebook, Frances Haugen (Mikey Madison), e no repórter investigativo do The Wall Street Journal, Jeff Horwitz (Jeremy Allen White). Seus caminhos se cruzam quando ela, frustrada com os rumos tomados por uma empresa muito distante de sua visão idealizada de mídia social, procura Horwitz para revelar como a manipulação de algoritmos favorece conflitos, extremismos e radicalizações, tanto sociais quanto políticas. Ou seja, embora exponha os bastidores das operações do Facebook, o filme é, essencialmente, uma obra de investigação.

Embora a comparação seja contraproducente, é inevitável aproximar o filme de A Rede Social, cujo olhar clínico e frio para seus personagens descortinava as contradições espinhosas em torno da personalidade de Zuckerberg e da criação de uma plataforma prestes a mudar para sempre a maneira como o mundo se relaciona. A natureza cerebral de A Rede Social surtia efeito porque Fincher sempre se mostrou interessado em potencializar, por meio da linguagem cinematográfica, os textos com que trabalha. O mesmo não pode ser dito sobre Sorkin, que, desde que se tornou diretor, vem demonstrando uma inegável falta de criatividade para contar histórias, como evidenciam títulos como Os 7 de Chicago e Apresentando os Ricardos.

Em O Outro Lado das Redes, ele reduz os dois protagonistas à dinâmica de descoberta e revelação de informações secretas, sem aprofundá-los ou lhes conferir o mínimo de background. Para dar outras tintas a esses personagens, Sorkin apela ao humor ou a referências deslocadas, como na cena em que Horwitz lista os filmes de Frank Capra que Haugen ainda precisa assistir. O recurso soa fraco e gratuito, e logo os protagonistas voltam a ocupar a posição de meros transmissores de teorias, números e documentos. Numa época em que há um volume imenso de informações circulando na internet e no próprio cinema, suas revelações dificilmente surpreendem quem já viu, por exemplo, O Dilema das Redes, popular documentário da Netflix.

O longa também carece de estímulos cinematográficos. Mais afeito a narrativas engessadas e de estrutura expositiva (idas e vindas no tempo, estrutura em capítulos, letreiros com o destino dos personagens), Sorkin parece ter concebido O Outro Lado das Redes sem inspiração. Colaborações valiosas são desperdiçadas, entre elas a do francês Alexandre Desplat, responsável por uma trilha sonora nada memorável — ao contrário daquela que rendeu o Oscar a Trent Reznor e Atticus Ross pelo filme anterior —, e a do diretor de fotografia Jeff Cronenweth, parceiro frequente de Fincher em obras como Clube da Luta, Garota Exemplar e o próprio A Rede Social. Aqui, sua fotografia se restringe a uma estética protocolar.

As limitações de Sorkin como diretor também se refletem nas atuações. Em seu primeiro papel no cinema após o Oscar de melhor atriz por Anora, Mikey Madison é irregular ao tentar equilibrar humor e profundidade em uma personagem quase reduzida a um estereótipo pelo próprio roteiro. Jeremy Allen White, por sua vez, trabalha sempre na mesma nota, repetindo um registro que já conhecemos das temporadas recentes de The Bear. Já Jeremy Strong, como Mark Zuckerberg, se restringe ao terreno da mímica. Mas não culpo os atores: diante de tantas questões a explorar no recorte escolhido, é quase imperdoável a insipidez de O Outro Lado das Redes. Ironicamente, o filme de 16 anos parece mais contemporâneo, do ponto de vista cinematográfico e temático, do que sua continuação.

“Antártida”: trama com quebra-cabeça mal montado desconjunta projeto ambicioso em técnica e escala

Ninguém mais encosta em mim!

Direção: Bruno Safadi

Roteiro: Claudia Jouvin

Elenco: Andrea Beltrão, Leandra Leal, Marina Ruy Barbosa, Mariana Sena, Antonio Calloni, Lázaro Ramos, João Vitor Silva, Henrique Barreira, Adelio Lima, Renan Monteiro, Marcos de Andrade, Gero Camilo

Brasil, 2026, Suspense, 93 minutos

Sinopse: Na estação de pesquisas brasileira na Antártida, uma equipe de cientistas e militares se prepara para passar o inverno confinada. Quando a cientista Inês (Marina Ruy Barbosa) é violentada, a subcomandante Elisabeth (Andrea Beltrão) não descansa até descobrir a identidade do agressor. Antártida é um thriller psicológico sobre sobrevivência, justiça e solidariedade feminina em um dos lugares mais inóspitos do planeta.

Com razão, Antártida faz de seus méritos técnicos uma verdadeira bandeira. Rodado inteiramente dentro dos Estúdios Globo, com produção da própria TV Globo, o longa-metragem de Bruno Safadi recria paisagens, nevascas e geleiras sem dever em nada a produções vindas do exterior. Não é pouca coisa — afinal, o cinema brasileiro merece alçar voos maiores do ponto de vista técnico, viabilizando histórias que, anos atrás, não seriam possíveis devido a limitações tecnológicas. A crença da Globo no projeto foi tanta que Antártida foi encomendado para as telas de cinema, e não para o streaming. Durante a estreia no último Festival de Cinema de Gramado — e, até onde sei, em outras ações de divulgação após o evento serrano —, a produtora Isabela Bellenzani também optou por não entrar em detalhes sobre o quanto a obra teria custado. Sinal de que pouco, claro, não foi, até em função do elenco estelar.

Como é de praxe, tanta publicidade sobre fatores externos não resolve o resultado na tela. Antártida pode ser vitorioso tecnicamente, mas patina em todo o resto, inclusive em um problema de origem que me inquieta: como um filme tão feminino, centrado em questões de violência contra a mulher e idealizado há muitos anos por uma cineasta (Claudia Jouvin, do interessante Um Homem Só), acabou sendo comandado por um homem? Não é sobre questionar o talento que Bruno Safadi já provou ter como diretor, especialmente em trabalhos menores, como Éden, que rendeu um Kikito de melhor atriz para Leandra Leal, mas sim sobre estender, para fora do roteiro, bandeiras e representatividades que Antártida busca defender. Pelo menos para mim, me pareceria muito natural — e bonito, dados os marcos envolvidos – uma mulher estar à frente de um projeto como esse.

Adentrando a história em si, outra fragilidade é que não parece fazer muita diferença o filme se passar na Antártida, uma vez que o isolamento, condição central da trama, poderia se dar em qualquer outro contexto, algo que o gênero de terror já explora há décadas ao colocar personagens afastados das cidades e sem comunicação em casas no meio do nada. Isso ainda se reflete na pouca profundidade dada pelo roteiro às atribuições profissionais dos personagens: entre cientistas, militares e tantas subdivisões de títulos entre eles, nunca fica muito claro, ao menos para além da superfície, o que cada um faz. É algo que enfraquece a atmosfera, principalmente quando Inês chega à estação com uma câmera na mão e deslumbrada com as paisagens, convencendo mais como uma repórter fotográfica do que como uma especialista na área de glaciologia.

Inês, por sinal, é a vítima da violência que Antártida aborda por meio de um quebra-cabeça repleto de peças que, infelizmente, o roteiro se atrapalha para embaralhar e, enfim, encaixar. Ela se torna coadjuvante da própria história na medida em que o longa abraça o whodunnit e opta por observar os personagens pela ótica da suspeita, sem desenvolvê-los previamente para, então, plantar a dúvida. Trata-se de uma tática que sempre me incomoda porque ficamos à mercê das manobras do roteiro para plantar pistas falsas e desviar a nossa atenção, sem que o foco seja a grave situação que deu origem a tudo. É o que confirma a própria estrutura do roteiro de Jouvin: frequentemente recorrendo ao uso de flashbacks, o suspense não só sublinha a prioridade pelo “entretenimento” como vai esquecendo de personagens interessantes, como a médica vivida por Leandra Leal.

Ainda assim, o que mata boa fatia do mistério é como Antártida facilmente dá munições para que o espectador resolva a charada envolvendo a violência contra Inês. Um projeto tão woke jamais teria, por exemplo, um personagem negro ou gay como estuprador — e somente isso já elimina pelo menos dois personagens da lista de suspeitos. A situação piora no clímax, que se estende além do necessário, além de descambar para discursos em forma de diálogo, gritos a plenos pulmões diante de injustiças e uma sequência de ação inverossímil para fechar o arco. Depois de tudo isso, pelo menos, Antártida “congela” seu último frame no rosto de quem é a força inegável frente a tantas fragilidades: Andréa Beltrão, que tira leite de pedra e, por isso mesmo, reafirma sua inegável excelência como atriz.

54º Festival de Cinema de Gramado: em noite de Kikitos para todos os concorrentes, evento serrano coloca os três melhores filmes no topo

Atores negros foram premiados em todas as categorias de interpretação do 54º Festival de Cinema de Gramado. Foto: Edison Vara/Pressphoto.

Como tem sido de praxe em grande parte dos festivais brasileiros, o júri do 54º Festival de Cinema de Gramado não quis ficar mal na foto com ninguém. Isso porque todos os seis longas-metragens brasileiros em competição levaram pelo menos um Kikito para casa na cerimônia de premiação realizada neste sábado (22). Quem levou a melhor foi Nosso Segredo, eleito o melhor filme desta edição pelo júri oficial, enquanto os júris popular e da crítica premiaram Feito Pipa e Leite em Pó. Só elogios para a trinca: esses são de fato os três trabalhos mais marcantes e diferenciados do Festival de Gramado deste ano, conforme já havia comentado aqui.

Aliás, os três poderiam ter sido mais reconhecidos, em especial Nosso Segredo e Leite em Pó, na medida em que, aqui em casa, Chorão: Só os Loucos Sabem e Pele de Rinoceronte sairiam de mãos abanando. O primeiro, apesar do inegável e bem-sucedido esforço de José Loreto, que acabou levando melhor ator em empate com Christian Malheiros (Justino – Nos Bastidores do Reino), não me parece material à altura de prêmios — e nem de uma seleção como a de Gramado. Já o segundo teve seu melhor aspecto — a interpretação de Naruna Costa — reconhecido apenas em função de uma manobra duvidosa do júri, que a categorizou como coadjuvante e não como protagonista, evitando ter que escolher entre ela e a ótima Teca Pereira, que levou como melhor protagonista por Feito Pipa, em escolha unânime.

Ainda assim, no geral, as escolhas foram boas, a começar por Nosso Segredo, que não era exatamente o meu favorito para melhor filme, mas que traz um trabalho de estreia excepcional e instigante de Grace Passô como diretora. Também é lindo ver que atores negros foram reconhecidos em cada uma das categorias de interpretação, inclusive nas menções honrosas, mesmo que seja um tanto decepcionante essa mania bastante frequente dos júris de premiarem crianças e intérpretes transexuais apenas com citações à parte e não nas categorias propriamente competitivas. Felizmente, os três melhores filmes do 54º Festival de Cinema de Gramado saem cada um com ótimos reconhecimentos.

Confira abaixo a lista completa de vencedores de todas as mostras competitivas deste ano, incluindo aquelas realizadas em dias anteriores, como as de curtas gaúchos (Prêmio Assembleia Legislativa), curtas brasileiros e longas gaúchos (Mostra Sedac Iecine).

LONGAS-METRAGENS BRASILEIROS

MELHOR FILME: Nosso Segredo
MELHOR DIREÇÃO: Allan Deberton (Feito Pipa)
MELHOR ATRIZ: Teca Pereira (Feito Pipa)
MELHOR ATOR: José Loreto (Chorão: Só os Loucos Sabem) e Christian Malheiros (Justino – Nos Bastidores do Reino)
MELHOR ATRIZ COADJUVANTE: Naruna Costa (Pele de Rinoceronte)
MELHOR ATOR COADJUVANTE: Lázaro Ramos (Feito Pipa)
MELHOR ROTEIRO: Carlos Segundo e Rafael Copel (Leite em Pó)
MELHOR FOTOGRAFIA: Wilssa Esser (Nosso Segredo)
MELHOR MONTAGEM: André Finotti e José Eduardo Belmonte (Justino – Nos Bastidores do Reino)
MELHOR TRILHA MUSICAL: Otávio de Moraes (Chorão: Só os Loucos Sabem)
MELHOR DIREÇÃO DE ARTE: Lucas Osório (Nosso Segredo)
MELHOR DESENHO DE SOM: Waldir Xavier (Leite em Pó)
MELHOR DOCUMENTÁRIO: Gonzaguinha, da Maior Liberdade
MELHOR FILME – JÚRI POPULAR: Feito Pipa

MELHOR FILME – JÚRI DA CRÍTICA: Leite em Pó

LONGAS-METRAGENS GAÚCHOS – MOSTRA SEDAC/IECINE

MELHOR FILME: Filhas da Lua
MELHOR DIREÇÃO: Hique Montanari (A História Mais Triste do Mundo)

MELHOR ATRIZ: Áurea Baptista (Remanente – Voltagem)
MELHOR ATOR: Arthur Seidel (A História Mais Triste do Mundo)
MELHOR ROTEIRO Hique Montanari (A História Mais Triste do Mundo)
MELHOR MONTAGEM: Gabriel Sager Rodrigues (Filhas da Lua)
MELHOR TRILHA MUSICAL: João Vitor Costa Dias (A História Mais Triste do Mundo)
MELHOR DESENHO DE SOM: Gabriela Bervian (A História Mais Triste do Mundo)
MELHOR FOTOGRAFIA: Juarez Pavelak (A História Mais Triste do Mundo)
MELHOR DIREÇÃO DE ARTE: Tiago Retamal (Remanente – Voltagem)
MELHOR FILME – JÚRI POPULAR: Filhas da Lua

CURTAS-METRAGENS BRASILEIROS

MELHOR FILME: 씨발 (Shibal)
MELHOR DIREÇÃO
: Wesley Gabriel Silva Santos (Pão Doce)

MELHOR ATRIZ: Chris Couto (Um Passeio)
MELHOR ATOR
: Francisco Gaspar (Pão Doce)

MELHOR ROTEIRO: Camila Tarifa (Mulher Papaya)
MELHOR FOTOGRAFIA: Felipe Ovelha (Pique-Pega)
MELHOR MONTAGEM: Gilson Costa e Thamires Coelho (Divino: Sua Alma, Sua Lente)
MELHOR TRILHA MUSICAL: Ângelo de Souza (Graxa e o Zepelim)
MELHOR DIREÇÃO DE ARTE: Jackson Abacatu (A Menina que Queria Ser Pedra)
MELHOR DESENHO DE SOM: Marcos Lopes (Fúrias)
PRÊMIO ESPECIAL DO JÚRI: Revelação
PRÊMIO CANAL BRASIL DE CURTAS: Revelação
MELHOR FILME – JÚRI POPULAR: Divino: Sua Alma, Sua Lente
MELHOR FILME – JÚRI DA CRÍTICA: Mulher Papaya

MOSTRA DE CURTAS GAÚCHOS – PRÊMIO ASSEMBLEIA LEGISLATIVA

MELHOR FILME: Grão
MELHOR DIREÇÃO: Gabriel Motta (O Véu)
MELHOR ATRIZ: Gaby Buffon (Elisete Tem que Casar!)
MELHOR ATOR
: Leandro Gomes (Grão)
MELHOR ROTEIRO
: Thais Fernandes (Estátuas Também Morrem?)

MELHOR FOTOGRAFIA: Lívia Pasqual (Drunken Car)
MELHOR MONTAGEM: Gabriela Kopp (Claudete)
MELHOR DIREÇÃO DE ARTE: Marco Arruda (Raidinalha)
MELHOR TRILHA SONORA/MELHOR MÚSICA: Otávio Vassão (Grão)
MELHOR EDIÇÃO/DESENHO DE SOM: Fernando Efron (Raidinalha)
MELHOR PRODUÇÃO EXECUTIVA: Allan Riggs e Guilherme Suman (Terra Bruta)
MELHOR FIGURINO: Beatriz Pieratti (Drunken Car)
MENÇÃO HONROSA: O Acumulador de Memórias
MELHOR FILME – JÚRI DA CRÍTICA: Grão

54º Festival de Cinema de Gramado #11: entre o literal e o alegórico, mais filmes da mostra de longas brasileiros

Terminada a mostra competitiva de longas-metragens brasileiros do 54º Festival de Cinema de Gramado, percebo uma estatística interessante: dos seis longas de ficção, três têm linguagem mais arrojada e um novo olhar sobre questões importantes da nossa atualidade, enquanto os outros três apresentam narrativas lineares e que não correm riscos. Seria, talvez, uma tentativa curatorial de contemplar tanto a crítica quanto o público? Já tendo abordado um representante de cada caso — Feito Pipa, o belíssimo longa-metragem de Allan Deberton que lança um olhar delicado e até inédito no cinema brasileiro para a infância queer, e Pele de Rinoceronte, produção mais discursiva/expositiva sobre as reverberações do feminicídio — agora me debruço um pouco nos demais, que seguem revelando essa alternância da seleção.

Justino – Nos Bastidores do Reino, de José Eduardo Belmonte

Começo com aqueles que, a meu ver, têm pouquíssimas novidades ou não fazem questão alguma de serem minimamente sofisticados. Não à toa, duas cinebiografias. Hoje um habitué do Festival de Cinema de Gramado, o diretor José Eduardo Belmonte volta ao evento após O Pastor e o Guerrilheiro e Uma Família Feliz, ambos títulos que saíram da Serra Gaúcha de mãos abanando na cerimônia de entrega dos Kikitos. Dessa vez, ele chega com Justino – Nos Bastidores do Reino, que adapta a história real de um pastor que fez parte da popularização de uma poderosa instituição religiosa e viu sua vida ruir pelas mãos da própria comunidade que lhe alçou ao reconhecimento. O filme toma como base o livro “Nos Bastidores do Reino”, de Mário Justino, navegando entre as décadas de 1960 e 1990, entre Brasil, os Estados Unidos e a Europa.

É excelente a ideia de finalmente termos um longa de ficção que se proponha a descortinar as hipocrisias e até mesmo os crimes cometidos por instituições religiosas que se aproveitam da fé alheia, especialmente no Brasil, país em que elas detêm imenso poder, inclusive na política. E Belmonte se sai bem na reconstituição de época, na extensa seleção de temas a serem abordados e na condução do próprio elenco, conduzido com bastante solidez pelo protagonista vivido por Christian Malheiros. Por outro lado, a narrativa clássica demais acaba encaretando um relato que, dada a sua natureza, poderia também ser transgressor na forma. Isso prejudica o ritmo, que já enfrenta seus problemas por, em determinado ponto, acumular muitos fatos e reviravoltas, banalizando o impacto que uma narrativa criativa poderia criar.

Se Justino não surpreende na forma, o mesmo, de certa forma, pode ser dito sobre a tônica de seu discurso. Primeiro porque, em grande parte, o protagonista é construído com certa inocência, como se, aqui ou ali, ele fosse surpreendido pelas canalhices ou injustiças de um sistema claramente corrupto desde o primeiro momento. Há poucas nuances na maneira como ele tem sua percepção modificada diante dos acontecimentos. E segundo porque, justamente, nós próprios, como espectadores, já sabemos – ou, pelo menos, imaginamos –, a sujeira envolvendo os bastidores de um eixo de poder tão influente no Brasil. Creio que Justino possa ser um filme bacana e correto, às vezes até corajoso, mas pouco informativo.

Chorão: Só os Loucos Sabem, de Hugo Prata e Thiago Novaes

Outra cinebiografia do 54º Festival de Cinema de Gramado, Chorão: Só os Loucos Sabem é o novo trabalho do diretor Hugo Prata (Elis, Ângela), que agora assina a direção ao lado de Thiago Novaes. Ambos fizeram, em 2009, Chorão: Marginal Alado, que conta a vida do vocalista da banda Charlie Brown Jr. em formato de documentário. Tenho imensa dificuldade com o cinema de Prata porque sua especialidade é o que hoje mais me causa exaustão: as cinebiografias de músicos. Esclareço que o problema não é o “gênero” exatamente em si, mas sim os cacoetes narrativos trabalhados sempre da mesma forma.

Chorão contempla tudo o que já podemos esperar de uma cinebiografia de caráter comercial: um punhado de músicas, o maior número de fatos possíveis acumulados na tela, o arco de ascensão e queda, as alegrias e agruras do anonimato ao sucesso, e por aí vai… Tomo a liberdade de não os comentar em detalhes para não me repetir. Até porque o problema maior do longa reside em elipses e saltos temporais muito mal trabalhados, o que contribui para a sensação de que o longa avança na cronologia com certa displicência, ainda que amparado pelo ajuste dos fatos para fins dramáticos.

Enquanto José Loreto dá o sangue em um papel com o qual está visivelmente comprometido (e pelo qual lutou para conquistar), o roteiro avança na vida do protagonista com buracos inexplicáveis. Há um momento, por exemplo, em que Chorão surge com um bebê no colo quando sequer sabíamos que ele tinha um relacionamento (até se casou!) e que a criança havia nascido. Também descobrimos que ele tem uma banda somente quando o grupo já está em estúdio. De onde veio essa vocação musical? Quem são essas pessoas que tocam com ele? Como seus caminhos se cruzaram? Omissões incompreensíveis para uma produção que, até para os padrões atuais das cinebiografias, fica aquém em construção dramática.

Leite em Pó, de Carlos Segundo

Os dois filmes que trilham caminhos completamente opostos aos de Justino e Chorão são Leite em Pó, de Carlos Segundo, e Nosso Segredo, de Grace Passô. Trata-se de uma dobradinha que conversa muito entre si porque seus respectivos cineastas apostam em narrativas cifradas, além de confiarem na capacidade de leitura de cada espectador. Não é coincidência, portanto, que os dois trabalhos tenham causado tanto debate em Gramado, provando que o estímulo ao improvável e ao inusitado só engrandece a reflexão cinematográfica.

Em Leite em Pó, temos Vinicius de Oliveira – o eterno Josué de Central do Brasil – na pele de Vicente, músico sem talento que, enfrentando uma perda pessoal, se vê obrigado a sair da sombra de quem partiu para tentar descobrir sua própria identidade. Sal, cocaína e cinzas frequentemente aparecem no filme, isso sem falar no leite em pó do título, simbolizando a dissolução de um personagem sem identidade e cuja busca por si talvez não tenha resultados concretos. Como uma colagem – e não como um quebra-cabeça –, o diretor Carlos Segundo, em seu longa de estreia, desenha um protagonista transeunte em todos os sentidos, emoldurando-o a partir de um luto que, na verdade, revela uma ausência mais potente do que a presença.

A seu próprio modo, Leite em Pó é um road movie, pois, na busca por entender quem é, Vicente encontra pelo caminho pessoas com algum tipo de significado para sua história. É o caso da personagem de Rejane Faria (Marte Um, A Melhor Mãe do Mundo), com quem ele se identifica na solidão e estabelece uma conexão olho no olho de amizade. Entre uma e outra apresentação musical desafinada, o protagonista conhece pessoas com sua outra profissão inusitada: a de vender álbuns de fotografias. Não deixa de ser simbólico para o próprio filme, que, com o protagonista ou com as pessoas que ele encontra cotidianamente, junta peças de uma vida, mesmo que, por vezes, incompletas ou borradas.

Nosso Segredo, de Grace Passô

Encerrando a mostra competitiva de longas-metragens brasileiros do 54º Festival de Cinema de Gramado, Nosso Segredo também provocou Gramado com uma narrativa ainda mais metafórica e elaborada. Aliás, é impressionante o trabalho de Grace Passô como diretora em seu primeiro longa-metragem atrás das câmeras. Ela, que vem do teatro e construiu prolífica carreira no cinema como atriz (Temporada, O Dia que te Conheci, No Coração do Mundo), apresenta raro domínio estético e cênico como cineasta, em uma das primeiras incursões mais interessantes do cinema brasileiro recente.

Passô escreve e dirige uma adaptação de Amores Surdos, sua premiada peça teatral, apresentada pela primeira vez no ano de 2012. Em cena, dentro das quatro paredes de casa, uma família tenta reconstruir sua rotina após uma perda recente. Enquanto cada um foge do luto à sua maneira, o filho caçula guarda um segredo capaz de fazê-los enfrentar a dor e, juntos, descobrir um novo caminho. Acertadamente, a sinopse aponta para uma trama clássica, mas o que encontramos é algo atípico.

Ainda que, em uma perspectiva emocional, a identificação varie de espectador para espectador – eu admiro o resultado, mas não exatamente sou apaixonado por ele –, Nosso Segredo não deixa de impactar com seu refinamento técnico (destaque para o desenho de som e a trilha sonora original, ambos excepcionais), inclusive porque a casa habitada pela família é incorporada à história como elemento essencial para entendermos medos, dinâmicas e afetos. Trata-se de um exemplo impecável de como o teatro pode ser transposto para o cinema com outra linguagem e sem perder a essência.

Quando questionada no Festival de Gramado sobre o significado de um certo animal em cena, Passô respondeu que jamais responderia àquela pergunta. Admirei-a ainda mais, uma vez que ela endossa aquilo que Nosso Segredo defende na tela por meio de imagens: cinema é algo que só se completa com o olhar de quem está vendo, e não há respostas certas ou erradas para histórias que assumidamente passam a bola para o espectador. Em tempos de afirmações empacotadas por inteligências artificiais e o total desincentivo ao pensamento crítico inclusive no cinema, obras como Nosso Segredo reafirmam o poder proposital da alegoria e do indefinível.

54º Festival de Cinema de Gramado #10: Marieta Severo sobre Andrea Beltrão

O que falar da Andrea? 

Falar da atriz brilhante, criativa, com trabalhos de excelência na TV, no teatro e no cinema? OK, mas isso vocês já conhecem, assistem, aplaudem. 

O testemunho que posso dar, o que posso falar que talvez não saibam, mas até desconfiem, é do que está por trás da qualidade excepcional do trabalho que ela apresenta a vocês. 

Andrea é absolutamente perfeccionista, se entrega a cada trabalho com dedicação absoluta. Pesquisa, lê, investiga, traz material, desequilibra o estabelecido. Cutuca, sugere, dá ideias. Debocha, ri, traz o inesperado. Ela navega por águas profundas e, não mais do que de repente, surge com o mais leve e divertido. 

Tudo serve ao seu balaio criativo profundo e denso. 

É delicioso ver como ela é uma usina de ideias que ajudam a dar forma a um espetáculo, a um filme. Talvez seja por isso, por exemplo, que, no filme “Ela e Eu”, suas opiniões tenham sido tantas e tão preciosas que acabou virando corroteirista. Porque ela é realmente coautora dos trabalhos que faz.

Mas o melhor mesmo é ser amiga e comadre dela. É contar com seu afeto, sua disponibilidade de amar, de cuidar. 

Obrigada, vida! 

Marieta Severo, atriz
para o catálogo do 54º Festival de Cinema de Gramado