Cinema e Argumento

Três atores, três filmes… com Reinaldo Glioche

Reinaldo Glioche é um dos queridos amigos cinéfilos que acompanho à distância há alguns anos. Hoje ele é editor de Cultura e Entretenimento do portal iG, mas nos esbarramos muito antes, mais especificamente quando ele ainda comandava o seu saudoso blog Claquete Cultural. Estreitamos nossos laços cinematográficos no Twitter, plataforma que Reinaldo, como o ótimo jornalista que é, sabe aproveitar tão bem. Dos blockbusters que faturam bilhões mundialmente às pérolas que precisam ser descobertas por todos os públicos, ele, assim como eu, é um grande entusiasta do círculo de premiações. Tanto seus textos no iG quanto a sua presença nas redes sociais são leitura indispensável para quem gosta de se manter informado sobre cinema com a devida dose de senso e crítico e ponderação. Sem mais delongas, deixo com vocês uma breve introdução que ele próprio preparou para a coluna e, claro, com as escolhas que ele defende com a propriedade que sempre lhe foi característica. Entre as três interpretações selecionadas, uma delas conquista o bicampeonato em quase 50 participações contabilizadas até aqui: Meryl Streep, mais uma vez citada com seu inesquecível desempenho em As Pontes de Madison, um dos melhores filmes de Clint Eastwood.

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Comecei a escrever sobre cinema com dez anos. A cinefilia foi algo que despontou em mim muito cedo e me ajudou a me formar como ser humano. Optei pelo jornalismo em detrimento da carreira no direito e mergulhei no sonho e desafio de atuar no jornalismo cultural e promover e viver o cinema da melhor maneira possível. Com o advento da blogsfera e a facilidade que a internet deu às pessoas de expressarem suas paixões e anseios, criei o blog Claquete Cultural, que me possibilitou conhecer pessoas maravilhosas que compartilhavam comigo do mesmo amor febril e impetuoso pelo cinema – ainda que com a maioria dessas pessoas a relação se dê apenas no campo virtual. O blog foi descontinuado em meados de 2014, quando eu já atuava como jornalista cultural no iG, onde entre outras atribuições editava a coluna Cineclube, idealizada para aprofundar a cobertura de cinema de um portal de notícias, mais inclinada a blockbusters por questões comerciais e práticas. Desde junho de 2016 sou editor de Cultura e Entretenimento do portal iG. Sou carioca, mas moro em São Paulo desde 1995 (ano do lançamento de um dos filmes que listo aqui).

Michael Fassbender (Shame)
De vez em quando acontece de um ator ter um ano especial com lançamentos engatilhados. Foi o caso do alemão naturalizado irlandês Michael Fassbender em 2011. Até então o ator era pouco conhecido do público, a despeito de já ter penetrado na epiderme da cinefilia com obras como “Fome” (2008) e “Bastardos Inglórios” (2009). Foram cinco filmes em 2011, sendo o mais famoso deles – e responsável pelo começo de sua popularização – “X-Men: Primeira Classe”, em que encarnava uma versão mais jovem e angustiada de Magneto, um dos personagens mais complexos oriundos das HQs. O romance de época “Jane Enyre”, o espetacular filme de ação de Steven Soderberg “A Toda Prova” e “Um Método Perigoso” de David Cronenberg, foram outros grandes filmes estrelados pelo ator naquele ano. É “Shame”, no entanto, o filme que o distingue. Se é justo dizer que a carreira do ator, mesmo com duas indicações ao Oscar que viriam por “12 Anos de Escravidão” e “Steve Jobs”, entrou em decadência depois do ápice que foi em 2011, é por causa de seu trabalho aqui, um dos mais impressionantes da década. A nudez completa pode ser um desafio para um ator, mas desnudar a alma de um personagem é muito mais estimulante – e complicado. Brandon, seu personagem, que é viciado em sexo, é pura dor. Um misto de tristeza e impulso em uma sonata desesperada que Fassbender tangencia com agudeza sem deixar de ser minimalista. Um equilíbrio tão raro que pode ser tido como imemorial.

Meryl Streep (As Pontes de Madison)
Eu tinha 12 anos quando “As Pontes de Madison” (1995) foi lançado e pouco mais de 14 quando o assisti. A cinefilia já estava embrenhada em mim desde muito cedo, mas este filme foi a porta de entrada para um dos maiores valores que existe no cinema: Meryl Streep. Sou fã confesso de Clint Eastwood como diretor, mas ali, aos 14 anos, não foi sua direção inequívoca, sensível e resoluta que me cativou, mas sim a densidade da atuação de Streep. Já tinha visto, claro, filmes com ela. Mas permaneciam inéditos alguns tesouros como “Kramer vs. Kramer”, “A Escolha de Sofia” e “Ironweed”. Sua Francesca é a afirmação de uma escolha dolorosamente romântica, um indício dos pesares da vida, das renúncias inerentes, de seus labirintos fortuitos, e é uma heroína que Streep habituou-se a fazer melhor do que ninguém. A filmografia da atriz nos anos 90, tirando duas comédias no alvorecer da década, se construiu sobre esse perfil maravilhosamente iluminado em “As Pontes de Madison”, decididamente um de meus Eastwoods favoritos e um drama romântico atemporal que tem na atuação de Streep não o único, mas o maior de seus virtuosismos.

Bradley Cooper (O Lado Bom da Vida)
Eu queria colocar Daniel Day Lewis por “Trama Fantasma” aqui, mas peço licença ao leitor para explicar esse plot twist na minha escolha. Day Lewis é um gênio e creio haver pouca ou quase nenhuma dissonância quanto a isso. É um ator magnético, metódico que mesmeriza não só a mim, mas a todos os leitores desse espaço a cada novo trabalho. E aí tem Bradley Cooper. Um cara que parecia destinado a comédias bobas lá atrás com “Penetras Bons de Bico” (2005) e “Sim Senhor” (2008) e que virou astro com o surpreendente (e bom, sim!) “Se Beber, Não Case!” (2009), mas que fez a opção por virar ator de verdade (o que é louvável, mas nem sempre possível dentro das engrenagens de Hollywood). “O Lado Bom da Vida” é o sensacional ponto de partida dessa trajetória que ostenta sete indicações ao Oscar nesta década, quatro como ator, sendo três delas seguidas – algo só conquistado por Russell Crowe e Spencer Tracy. Não é um dado desprezível. Cooper também está aqui porque defende uma atuação que conjuga drama e comédia com rara beleza e muita intuitividade. É um trabalho de muitas camadas e que a percepção que se tinha dele à época nublou. À luz de sua realização artística com “Nasce Uma Estrela” esse julgamento pode ser mais bem composto. Em “O Lado Bom da Vida”, ele vive Pat, um cara com transtorno obsessivo compulsivo que quer colocar sua vida em ordem e cisma de reconquistar uma mulher que não o quer mais e acaba se apaixonando pela pessoa errada na hora certa. Ou seria a pessoa certa na hora errada? Cooper dá graciosidade, urgência e fidedignidade a esse homem e ao retrato de uma desordem mental que acomete a tantos nesses tempos de relações líquidas.

“Transparent Musicale Finale”: sem Jeffrey Tambor, série da Amazon acerta ao se transformar em algo inteiramente novo para dizer adeus

Após a demissão de Jeffrey Tambor, Transparent não tenta remendar a ausência do ator: para seu desfecho, o seriado criado por Jill Solloway se transforma em algo inteiramente novo.

Primeiro grande sucesso produzido originalmente pela Amazon, Transparent discutiu, ao longo de quatro temporadas, uma série de temas hiper relevantes para a consciência humana e social de seus espectadores. Entretanto, seria fácil resumir o seriado criado por Jill Solloway a um drama familiar onde o protagonista resolve assumir para família que agora deixa de ser o pai como conheceram a vida inteira para se apresentar como a mulher que sempre sonhou ser. A revelação de Moira Pfefferman (Jeffrey Tambor), agora identificada como Maura, é o ponto de partida para uma sequência de conflitos e reflexões que, aí sim, encorpam a identidade do programa: entre crises familiares, conjugais e sexuais, cada membro desse clã passa a questionar a sua própria identidade e o seu verdadeiro lugar no mundo. Como na própria vida, os Pfeffermans trilham, durante toda a série, caminhos tortuosos e pedregosos para encontrar respostas muito íntimas. E o programa alcançou um notável nível de maturidade porque nunca tentou amenizar ou justificar até mesmo certos personagens que, submersos em imperfeições, muitas vezes se tornavam quase intragáveis.

Nas três primeiras temporadas de Transparent, Jill Solloway, que teve ampla participação nos bastidores do icônico seriado Six Feet Under como produtora e roteirista, criou uma verdadeira pérola, sempre impulsionada por um excelente elenco e pela inesquecível interpretação de Jeffrey Tambor como Maura, facilmente uma das melhores dessa década. Já no quarto ano, a série misteriosamente sai dos eixos com um conjunto de episódios desfocados, dispersos e que mais pareciam um filme pouco interessante dividido em dez episódios. A frustração maior ainda estava por vir: em fevereiro de 2018, Tambor foi demitido pela Amazon após uma acusação de assédio sexual durante as filmagens do programa feita por sua colega de elenco Trace Lysette. Tambor negou — e segue negando até hoje —, mas a Amazon se manteve firme, cortando o ator desse projeto que chegou a lhe render dois Emmys e um Globo de Ouro de melhor ator em série de comédia (a classificação do gênero é altamente duvidosa, diga-se de passagem). 

Subitamente sem protagonista, Transparent se viu na mesma situação de House of Cards, que também perdeu Kevin Spacey durante a enxurrada de acusações de assédio sexual que se tornaram públicas graças ao movimento #MeToo. Enquanto House of Cards resolveu remendar a situação, realizando uma temporada inteiramente nova e entregando o protagonismo absoluto à atriz Robin Wright, Transparent adotou uma estratégia diferente: pensar o desfecho em forma de filme, sem prolongar uma história que, apesar dos pesares, não teria muitas chances de sobreviver com o mesmo vigor após tamanho desfalque. Mais do que isso, a série resolveu chutar o balde com a decisão de rodar o desfecho como um musical. Há um lindo momento de Judith Light cantando Hands in My Pocket ao final da terceira temporada, mas, dado o histórico geral do programa, tal transformação era realmente impossível de antecipar como uma tendência para os momentos derradeiros da trama.

Ainda que em novo formato, Transparent Musicale Finale segue levantando as bandeiras que sempre levantou e não perde de vista as lembranças deixadas por Maura Pfefferman (Jeffrey Tambor) nas temporadas anteriores.

Como acontece com basicamente todos os musicais, Transparent Musicale Finale, já disponível na plataforma de streaming da Amazon, não agradará gregos e troianos por ser uma obra cantada. É justa a indignação de quem se incomoda, afinal, como é possível um programa fazer tamanha inovação justamente em seu ato final? Jill Solloway enlouqueceu? Contudo, é possível enxergar a decisão sob outro prisma. Fazendo jus às suas reflexões sobre as mais diversas formas de transições (emocionais, físicas e de identidade), Transparent acaba, em um momento de divisão de águas, sendo ela própria sobre transformação. É importante constatar que o surgimento dessa natureza musical nos leva à ideia de que Solloway sabia o quanto seria complicado fazer um desfecho sem Jeffrey Tambor e seguindo a mesma batida dos anos anteriores. A ausência do ator seria sentida, e transformar Transparent em algo novo talvez fosse a saída perfeita para amenizar um problema irremediável.

Não se trata de fuga, mas sim de estratégia e, por que não, de posicionamento: mesmo que nem sempre assertivo ao adaptar situações cotidianas para o plano musical, Transparent Musicale Finale é um sopro de valentia em meio a seriados que, tão preocupados em agradar os espectadores, acabam se tornando reféns do próprio público, em sua maioria intolerante a conceitos que fujam das fórmulas e dos terrenos já conhecidos em uma atração. Ao mesmo tempo, o musical que encerra a jornada dos Pfeffermans não nega o legado da protagonista vivida por Jeffrey Tambor: o roteiro respira Maura por todos os lados, seja nas músicas, nos diálogos ou na própria atmosfera de luto que permeia toda a projeção. Transparent Musicale Finale assume a falta que a personagem faz e presta sua homenagem a tudo o que ela deixou em forma de reverberação emocional para os membros da família. É bonito, agridoce e com soluções dignas para contemplar a lembrança de Maura mesmo sem a presença de Jeffrey Tambor.

Não há um novo protagonista nesse desfecho, o que é justo com um elenco que assume tempos equivalentes em cena, como um coral. Duas atrizes, porém, têm brilho extra. Uma delas é Gaby Hoffman, que da vida à Ali (agora Ari), a filha mais abalada pela ausência de Maura justamente por ela própria, agora em plena transição de identidade de gênero, ser a pessoa que melhor compreendia os turbilhões íntimos de uma figura que agora não está mais presente para lhe propôr certas respostas e interrogações. A outra é Judith Light, que sempre teve um dos papeis mais difícil do programa: como a histriônica matriarca Shelly, a atriz transita entre as delicadezas de uma personagem cercada de situações complicadíssimas (abuso na infância, falta de conexão com os filhos, a verdade sobre o marido que assume uma identidade feminina) e o seu modus operandi agitado, hiperativo e não muito empático com as pessoas a sua volta. Pois agora nesse musical, Shelly passa por transformações internas importantes em relação a isso, todas capturadas com talento pela excelente atriz que é Judith Light.

Judith Light solta a voz mais uma vez: junto a Gaby Hoffman, atriz é um dos pontos altos desse desfecho que pode ser acusado de tudo, menos de preguiça ou comodismo.

Sobre a parte musical, o filme tanto acerta quanto deixa um certo gostinho de frustração. Há números que exaltam toda faceta empolgante e alegre do gênero (Joyocaust, o excelente número de encerramento), enquanto outros iluminam a natureza dialogada dessas produções, como Your Boundary is My Trigger, que, menos ritmado e sem necessariamente um refrão marcante, expõe os sentimentos e as frustrações de duas personagens a partir de uma discussão. O que corta uma parte do barato é o visível playback para disfarçar a falta de experiência de alguns atores com a cantoria. São dominantes as passagens em que o tom alcançado pelas músicas (e pelos ajustes de pós-produção delas) não condiz com as expressões em cena. Isso acontece com frequência no gênero, o que tira um pouco da veracidade que algumas sequências tentam imprimir. Transparent Musicale Finale ainda aposta em números imaginários em um único palco. Às vezes funciona, e em outras é mais do mesmo, como Rob Marshall já fez aos montes em títulos como Chicago e Nine. Como um representante do gênero, o filme é divertido e ocasionalmente tocante, ainda que nem sempre sofisticado em suas concepções.

Em uma jornada do luto ao renascimento, Transparent Musicale Finale não abre novas histórias para o filme de encerramento. Acontece o oposto: em sua despedida, a série busca amarrar todas as pontas soltas, e em 102 minutos consegue fazer isso com folga. Para a alegria de muitos, o musical, ao se aproximar do final, não resiste ao tom novelesco. Há finais felizes um tanto abruptos, assim como o resgate de personagens que poderiam muito bem ter permanecido intocados (a rabina Raquel, interpretada por Kathryn Hahn) e uma fila de outros tantos que, entre pequenas participações e figurações, ressurgem porque, claro, fizeram parte da série e não poderiam ficar de fora da festa (Cherry Jones, Bradley Whitford). Permeado por acertos e fragilidades, Transparent, enfim, despede-se como um programa inteiramente novo, e o público precisa entender isso para embarcar na versão musical. A atração não é mais a mesma, e é claro que não poderia ser. Não sem Jeffrey Tambor. Sendo assim, gostando ou não de uma cantoria, você pode acusar Transparent Musicale Finale de tudo, exceto de preguiça ou comodismo — e já não seria esse um excelente argumento de convencimento?

Os vencedores do Emmy 2019

Julia Garner, melhor atriz coadjuvante por Ozark: merecido prêmio da intérprete foi um dos pontos altos de uma noite com várias surpresas, mas igualmente empoeirada por um apego irremediável a Game of Thrones.

Tão oxigenada quanto empoeirada. Assim podemos definir a cerimônia de premiação do Emmy 2019. Afinal, é difícil entender como os votantes compreendem que o tempo de Veep já passou, mas seguem apegados a um passado glorioso já distante de Game of Thrones. É no mínimo desmoralizada a vitória do hit da HBO: segundo os votantes, o programa não tem o melhor roteiro, nem a melhor direção, muito menos os melhores protagonistas. No entanto, é a melhor série do ano? No final das contas, só quem fez par com o prêmio de melhor série pela mesma atração foi Peter Dinklage como ator coadjuvante.

A decisão surge um tanto imperdoável no ano em que o Emmy reservou surpresas pioneiras e agradabilíssimas, como o prêmio de atriz coadjuvante em série dramática para Julia Garner (Ozark), o de melhor ator em minissérie para Jharrel Jerome (When They See Us) e o de atriz coadjuvante em minissérie para Patricia Arquette (The Act). Mesmo Fleabag, que levou mais prêmios do que deveria em comparação à obra-prima que é a segunda temporada de The Marvelous Mrs. Maisel, é um excelente sinal de renovação para o Emmy. Coloque ainda na conta surpresas aclamadas como Billy Porter levando melhor ator por Pose, Michelle Willims sendo consagrada pela minissérie Fosse/Verdon e Jason Bateman surpreendendo em melhor direção de série dramática com Ozark.

E aí o Emmy resolve puxar o freio de mão com Game of Thrones no último prêmio da noite. Fica o mistério sobre o que passou pela cabeça dos votantes para celebrar a última temporada tão criticada por público e crítica do programa… Consagração pelo conjunto da obra? Prêmios como esse não são feitos para servir a tal propósito. Estamos aqui para eleger melhor série do ano (não o melhor legado), título que Game of Thrones já havia conquistado em quatro ocasiões no Emmy. Ano que vem, ao menos, estamos livres de uma estatueta como essa entregue no piloto-automático ou por algum tipo de saudosismo antecipado…

Confira abaixo a lista de vencedores do Emmy 2019:

MELHOR SÉRIE DRAMA: Game of Thrones
MELHOR SÉRIE COMÉDIA: Fleabag
MELHOR MINISSÉRIE: Chernobyl
MELHOR TELEFILMEBlack Mirror: Bandersnatch

MELHOR ATRIZ EM DRAMA: Jodie Comer (Killing Eve)
MELHOR ATRIZ EM COMÉDIA: Phoebe Waller-Bridge (Fleabag)
MELHOR ATRIZ EM MINISSÉRIE/TELEFILME: Michelle Williams (Fosse/Verdon)

MELHOR ATOR EM DRAMA: Billy Porter (Pose)
MELHOR ATOR EM COMÉDIA: Bill Hader (Barry)
MELHOR ATOR EM MINISSÉRIE/TELEFILME: Jharrel Jerome (When They See Us)
MELHOR ATRIZ COADJUVANTE EM DRAMA: Julia Garner (Ozark)
MELHOR ATRIZ COADJUVANTE EM COMÉDIA: Alex Borstein (The Marvelous Mrs. Maisel)
MELHOR ATRIZ COADJUVANTE EM MINISSÉRIE/TELEFILME: Patricia Arquette (The Act)
MELHOR ATOR COADJUVANTE EM DRAMA: Peter Dinklage (Game of Thrones)
MELHOR ATOR COADJUVANTE EM COMÉDIA: Tony Shalhoub (The Marvelous Mrs. Maisel)
MELHOR ATOR COADJUVANTE EM MINISSÉRIE/TELEFILME: Ben Whishaw (A Very English Scandal)
MELHOR DIREÇÃO EM DRAMA: Jason Bateman (Ozark, pelo episódio Reparations)
MELHOR ROTEIRO EM DRAMA: Jesse Armstrong (Succession, pelo episódio Nobody is Ever Missing)
MELHOR DIREÇÃO EM COMÉDIA: Harry Bradbeer (Fleabag, por Episode #2.1)
MELHOR ROTEIRO EM COMÉDIA: Phoebe Waller-Bridge (Fleabag, por Episode #2.1)
MELHOR DIREÇÃO EM MINISSÉRIE: Johan Renck (Chernobyl)
MELHOR ROTEIRO EM MINISSÉRIE: Craig Mazin (Chernobyl)

Apostas para o Emmy 2019

Na noite em que o Emmy provavelmente consagrará a última temporada de Game of Thrones que até mesmo os atores da série se esquivaram de comentar ou elogiar, as comédias e as minisséries podem muito bem roubar a cena da cerimônia. Se entre os dramas a disputa é apática, os outros segmentos reservam disputas tão interessantes quanto de alto nível. Afinal, seria o retorno de Veep com uma última temporada suficiente para acabar com o reinado absoluto de The Marvelous Mrs. Maisel, que, no ano passado, faturou as categorias de melhor série, atriz, atriz coadjuvante, roteiro e direção? E como os votantes irão reagir ao embate entre When They See UsChernobyl, as duas minisséries mais aclamadas de 2019? O suspense se estende às categorias de atuação, que estão tão plurais e indefinidas quanto o talento dos concorrentes? Abaixo, deixo alguns palpites para a cerimônia de hoje à noite, que será transmitida a partir das 21h, pela TNT. Antes disso, não deixe de passar na página oficial do Cinema e Argumento no Facebook para conferir, às 19h, a nossa live com comentários sobre cada uma dessas apostas.

MELHOR SÉRIE DRAMA: Game of Thrones / alt: Ozark
MELHOR SÉRIE COMÉDIA: The Marvelous Mrs. Maisel / alt: Veep
MELHOR MINISSÉRIE: When They See Us / alt: Chernobyl
MELHOR TELEFILMEBlack Mirror: Bandersnatch / alt: Deadwood

MELHOR ATRIZ EM DRAMA: Sandra Oh (Killing Eve) / alt: Laura Linney (Ozark)
MELHOR ATRIZ EM COMÉDIA: Julia Louis-Dreyfus (Veep) / alt: Rachel Brosnahan (The Marvelous Mrs. Maisel)
MELHOR ATRIZ EM MINISSÉRIE/TELEFILME: Patricia Arquette (Escape at Dannemora) / alt: Michelle Williams (Fosse/Verdon)

MELHOR ATOR EM DRAMA: Jason Bateman (Ozark) / alt: Billy Porter (Pose)
MELHOR ATOR EM COMÉDIA: Bill Hader (Barry) / alt: Michael Douglas (The Kominsky Method)
MELHOR ATOR EM MINISSÉRIE/TELEFILME: Jharrel Jerome (When They See Us) / alt: Mahershala Ali (True Detective)
MELHOR ATRIZ COADJUVANTE EM DRAMA: Julia Garner (Ozark) / alt: Fiona Shaw (Killing Eve)
MELHOR ATRIZ COADJUVANTE EM COMÉDIA: Alex Borstein (The Marvelous Mrs. Maisel) / alt: Olivia Colman (Fleabag)
MELHOR ATRIZ COADJUVANTE EM MINISSÉRIE/TELEFILME: Patricia Clarskson (Sharp Objects) / alt: Emily Watson (Chernobyl)
MELHOR ATOR COADJUVANTE EM DRAMA: Peter Dinklage (Game of Thrones) / alt: Nikolaj Coster-Waldau (Game of Thrones)
MELHOR ATOR COADJUVANTE EM COMÉDIA: Tony Shalhoub (The Marvelous Mrs. Maisel) / alt: Henry Winkler (Barry)
MELHOR ATOR COADJUVANTE EM MINISSÉRIE/TELEFILME: Asante Blackk (When They See Us) / alt: Stellan Skarsgård (Chernobyl)

“Midsommar: O Mal Não Espera a Noite”: apático e sem ritmo, novo terror de Ari Aster não cumpre as expectativas em torno do diretor

Do you feel held by him? Does he feel like home to you?

Direção: Ari Aster

Roteiro: Ari Aster

Elenco: Florence Pugh, Jack Reynor, Vilhelm Blomgren, William Jackson Harper, Will Poulter, Ellora Torchia, Archie Madekwe, Henrik Norlén, Gunnel Fred, Isabelle Grill, Julia Ragnarsson

Midsommar, EUA/Suécia, 2019, Terror/Drama, 137 minutos

Sinopse: Após vivenciar uma tragédia pessoal, Dani (Florence Pugh) vai com o namorado Christian (Jack Reynor) e um grupo de amigos até a Suécia para participar de um festival local de verão. Mas, ao invés das férias tranquilas com a qual todos sonhavam, o grupo vai se deparar com rituais bizarros de uma adoração pagã.  (Adoro Cinema)

Se há uma vertente do terror que reagrupou força e relevância nos últimos anos, essa foi a que investiga o ser humano em seus sentimentos mais nebulosos, sofridos e atordoantes. De natureza antropológica e nada comercial, A Bruxa, por exemplo, mostrou as fraquezas morais, religiosas e sociais de uma família que, entre outras coisas, não sabe sequer lidar com o crescimento de uma filha que já começa a amadurecer e a entrar na vida adulta. Já aqui no Brasil, produções maravilhosas como O Animal Cordial, As Boas ManeirasMormaço lançaram um olhar muito crítico para as profundas feridas de um país ainda assolado pelo preconceito, pela intolerância e pela desigualdade. E também existe Ari Aster que, nos Estados Unidos, exorcizou os dramas de uma família em profundo luto com o cultuado Hereditário e que agora é mais uma vez aclamado com Midsommar: O Mal Não Espera à Noite, onde encena a deterioração de um relacionamento amoroso marcado pelo individualismo, pela incomunicabilidade e pela falta de empatia.

Individualismo, incomunicabilidade e falta de comunicação são definições até generosas para o que Christian (Jack Reynor) faz com Dani (Florence Pugh). Forçando-se a cuidar da namorada que não ama mais apenas por pena ou por não conseguir terminar com ela, Christian ilude emocionalmente uma garota marcada por uma recente tragédia familiar. Sem saber dispensar a namorada, Christian convida Dani para uma viagem que ele faria com seus amigos homens para a Suécia, o que desperta uma imediata frustração no grupo que já esquematizava a frequência com que fariam sexo em terras estrangeiras. Chegando na Suécia, eles ficam hospedados em uma pequena comunidade que vive um festival de verão muito particular, onde todos são convidados a testemunhar e até mesmo participar de determinados rituais. E isso é tudo o que você precisa saber sobre a tônica de Midsommar, que passa a colocar as suas cartas na mesa a partir daí. Antes disso, Ari Aster claramente bebia da fonte do que Hereditário tinha de melhor: o luto como matéria-prima para o desatino mental e  para sentimentos desencontrados que despertam a imprevisibilidade nas ações humanas.

Vale lembrar que Aster despontou como uma verdadeira promessa ao lançar Hereditário. Ainda que irregular (e até um tanto desonesto) ao jogar fora a promessa de um terror psicológico para sucumbir a várias explicações e vícios tão comuns do gênero, o diretor mostrava grande personalidade atrás das câmeras. Tecendo comparações entre um filme e outro, Midsommar tem mais unidade do que Hereditário, sem grandes incompatibilidades narrativas ou estéticas. Por outro lado, Hereditário tinha potência quando acertava, algo que não podemos afirmar sobre Midsommar. Longa demais, a trama carece de de atmosfera. Pessoas e rituais estranhos existem aos montes (e a decisão de tentar criar tensão em um ambiente idílico, ensolarado e florido é interessante), mas fazer personagens sumirem aqui ou ali por motivos misteriosos não é necessariamente sinônimo de tensão. Tampouco instiga os desdobramentos que Aster, também autor do roteiro, faz das peculiaridades daquela comunidade: no máximo, ele desperta estranhamento quando registra um ritual que coloca em xeque os valores pré-concebidos que temos sobre suicídio e o fim da vida (e também sobre como somos intolerantes a culturas diferentes das nossas).

Entre a apatia do terror e a fragilidade das discussões dramáticas diante disso, Midsommar não é superlativo em nenhuma abordagem. Há um ponto digno de nota: o clímax, que mistura orgasmo, destruição e violência como uma recompensa direta da tomada de consciência de uma personagem que, diante do estranho, passa a se (re)conhecer. É nesse momento que o filme encorpa a vitalidade que lhe faltava até ali e que existia de sobra na primeira metade de Hereditário. Contudo, a frustração maior é mesmo a oportunidade perdida de fazer terror com as nossas angústias e com as nossas fraquezas mais íntimas. Outro ponto fraco que contribui para tal percepção é a irregularidade do elenco, que varia entre momentos bons (a maior parte deles entregues a Florence Pugh) e inexpressivos, para não dizer perfeitamente dispensáveis (Will Poulter, como o homem mais desprezível do grupo de amigos, é a perfeita representação do personagem que deveria ter sido eliminado no primeiro tratamento de roteiro). Portanto, quando é impossível se importar com os personagens, não há mesmo escapatória: sem atmosfera, empatia, ritmo ou até mesmo Toni Collette, Midsommar fica à deriva, sem jamais cumprir as expectativas criadas tanto pela ascensão recente Ari Aster quanto por tudo aquilo que o filme, em vão, tenta sinalizar.

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