Cinema e Argumento

Apostas para o Emmy 2021

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Na cerimônia que tem tudo para ser a mais desinteresse dos últimos anos, o Emmy tem pouco a fazer com uma lista que apenas estendeu o número de indicações de séries já normalmente reconhecidas. Com a ausência de SuccessionOzarkThe Marvelous Mrs. Maisel, por exemplo, os votantes basicamente terão que se dividir entre o claro domínio de The Crown entre os dramas (será que a Netflix finalmente levará o prêmio de melhor série) e de Ted Lasso entre as comédias. O jogo mais interessante está, a exemplo das últimas edições, nas minisséries, que tem produções marcantes da última temporada como Mare of EasttownI May Destroy You. A cerimônia será transmitida a partir das 21h (horário de Brasília) pelo canal TNT. Confira abaixo a nossa lista de apostas para as categorias principais nos segmentos de drama, comédia e minissérie.

MELHOR SÉRIE DE DRAMA: The Crown / alt: The Handmaid’s Tale
MELHOR ATRIZ EM SÉRIE DE DRAMA: Uzo Aduba (In Treatment) / alt: Emma Corrin (The Crown)

MELHOR ATOR EM SÉRIE DE DRAMA: Billy Porter (Pose) / alt: Josh O’Connor (The Crown)
MELHOR ATRIZ COADJUVANTE EM SÉRIE DE DRAMA: Gillian Anderson (The Crown) / alt: Aunjanue Ellis (Lovecraft Country)
MELHOR ATOR COADJUVANTE EM SÉRIE DE DRAMA: Michael K. Williams (Lovecraft Country) / alt: Bradley Whitford (The Handmaid’s Tale)
MELHOR SÉRIE DE COMÉDIATed Lasso / alt: Hacks
MELHOR ATRIZ EM SÉRIE DE COMÉDIA: Jean Smart (Hacks) / alt: Kaley Cuoco (The Flight Attendant)
MELHOR ATOR EM SÉRIE DE COMÉDIA: Jason Sudeikis (Ted Lasso) / alt: Kenan Thompson (Kenan)
MELHOR ATRIZ COADJUVANTE EM SÉRIE DE COMÉDIA: Hannah Einbinder (Hacks) / alt: Juno Temple (Ted Lasso)
MELHOR ATOR COADJUVANTE EM SÉRIE DE COMÉDIA: Kenan Thompson (Saturday Night Live) / alt: Carl Clemons-Hopkins (Hacks)
MELHOR MINISSÉRIE: Mare of Easttown / alt: I May Destroy You
MELHOR ATRIZ EM MINISSÉRIE/TELEFILME: Kate Winslet (Mare of Easttown) / alt: Anya Taylor-Joy (The Queen’s Gambit)
MELHOR ATOR EM MINISSÉRIE/TELEFILME: Ewan McGregor (Halston) / alt: Hugh Grant (The Undoing)
MELHOR ATRIZ COADJUVANTE EM MINISSÉRIE/TELEFILME: Kathryn Hahn (WandaVision) / alt: Julianne Nicholson (Mare of Easttown)
MELHOR ATOR COADJUVANTE EM MINISSÉRIE/TELEFILME: Evan Peters (Mare of Easttown) / alt: Paapa Essiedu (I May Destroy You)

De Woody Allen a Stephen King, um giro por algumas das séries e minisséries mais recentes

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“Allen Contra Farrow” (HBO Max, minissérie)

É realmente possível desassociar uma obra de seu autor? Os anos passam e, até hoje, não há um consenso em relação a essa discussão, ainda mais quando ela envolve nomes como o de Woody Allen, cineasta admirado por incontáveis gerações com seus mais de 50 longas-metragens como diretor. Minissérie original da HBO, Allen Contra Farrow vem para outra vez cutucar fundo as feridas envolvendo o suposto abuso sexual que Woody teria cometido contra a sua filha adotiva Dylan Farrow e outras diversas histórias bastante problemáticas, como o fato de ele ter largado a esposa Mia Farrow para namorar e depois casar com sua ententeada Soon-Yi Previn, uma adolescente na época em que os dois começaram a se relacionar enquanto Woody já estava na faixa de seus 56 anos. Incompreensivelmente, há quem critique a minissérie por ela tomar partido, e esse julgamento se mostra equivocado por duas razões: além de Woody Allen ter se recusado a participar do projeto, as provas, depoimentos, hipóteses e análises trabalhadas pelos diretores Amy Ziering e Kirby Dick são tão consistentes que fica difícil acreditar que Woody seja um mero inocente e que tudo não passe de uma armação das mais engenhosas contra ele.

Durante quatro episódios, Allen Contra Farrow é detalhista ao defender suas teses, partindo até mesmo para o plano cinematográfico, onde analisa os diversos filmes em que Woody Allen encena a relação de homens mais velhos, normalmente interpretados por ele próprio, com figuras femininas muito mais jovens. O caso mais evidente, claro, é o do clássico Manhattan. Se Ziering e Dick não colocam em xeque os depoimentos da família Farrow, fica evidente, por outro lado, o quanto os fatos estão a favor deles. Afinal, como se explica o julgamento que inocentou Woody ter rompido com muitas normas desse tipo de processo, a exemplo do modo invasivo e irresponsável com que as autoridades interrogaram nove vezes Dylan Farrow, uma criança na época, quando, na realidade, a repetição insistente desse procedimento era vista como imprópria por se tratar de uma criança como depoente? Acreditar na inocência de Woody diante de tantos fatos expostos pela minissérie com embasamento exige uma grande dose de boa vontade — e, em certa medida, uma predisposição a perdoar o diretor e roteirista a qualquer custo.

Em que pese as nuances duvidosas de Mia Farrow deliberadamente deixadas de canto (destaco a sua obsessão em querer que seus parceiros criassem profundos laços com os filhos, mesmo quando eles não desejavam, como é o caso de Woody, que, ao começar relacionamento com a atriz, nunca quis sequer ser pai), Allen Contra Farrow não é uma investigação inescrupulosa ou interesseira de fatos conhecidos desde sempre, mas talvez a devida e merecida dimensão a um lado do conflito que, por misoginia e menos força midiática e artística na balança, sempre foi colocado em dúvida de modo rasteiro. Do ponto de vista formal, os episódios são muito bem estruturados e chegam até os dias da era #MeToo, quando incontáveis celebridades como Kate Winslet e Timothée Chalamet se disseram arrependidos de ter trabalhado com o diretor, enquanto outras, a exemplo de Cate Blanchett, preferiram ficar em cima do muro dizendo que isso era um problema da vida privada da família, isenção que Allen Contra Farrow nunca abraça. E, ao contrário do que se diz sobre a minissérie, vejo isso como algo positivo, pois entrar em contato com perspectivas que questionam pré-julgamentos também é um exercício importante e necessário.

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“The Good Fight” (Paramount +, 5ª temporada)

Após uma temporada que, afetada pela pandemia, praticamente inexistiu em termos dramáticos para a série, The Good Fight retoma o fôlego em um quinto ano muito bem sucedido. O tempo deverá fazer justiça a esse spin-off da célebre The Good Wife não apenas por ela ser um registro muito peculiar da temperatura política dos Estados Unidos a partir da era Donald Trump, mas também por sua constante capacidade de se reinventar. Ainda que baixando o tom no escancarado viés político adotado em outras ocasiões (em particular, defendo o terceiro ano, considerado o mais divisivo da série), os criadores Robert King, Michelle King e Phil Alden Robinson nunca deixam de ser posicionados. Dessa vez, o centro das discussões e reflexões está na figura do juiz Wackner (Mandy Patinkin), um homem que, na verdade, não é juiz coisa alguma e que, ainda assim, decidiu criar seu próprio tribunal para fazer a justiça que ele acredita não estar sendo feita pelo sistema dos Estados Unidos. Pelo menos não da maneira como ele defende.

Observar o lado cômico da quinta temporada de The Good Fight sem saborear as entrelinhas é perder metade da graça e da inteligência desta nova leva de episódios. Todos os absurdimos envolvendo o juiz Wackner e quem acredita no seu método dizem muito sobre o circo que virou o mundo da lei, hoje cada vez mais flexibilizada dos modos mais inacreditáveis e lida conforme a conveniência alheia. Ao desdobrar essa storyline com uma veia hiperbólica, a série não deixa de também fazer um retrato político. Afinal, por mais que Joe Biden hoje seja presidente dos Estados Unidos, tudo o que Trump representa segue reverberando, de um modo ou de outro, em uma sociedade profundamente transformada por sua passagem pelo poder. É muito divertido de acompanhar, até porque Mandy Patinkin se esbalda no papel. No entanto, o tom assumido carrega o ônus de um senso de humor tão particular: é grande a probabilidade desse quinto ano ser rejeitado por uma significativa parcela dos espectadores.

Gostando ou não, a trama de Wackner preencheu com frescor a lacuna deixada pela saída de dois personagens fixos da série. Normalmente, isso não costuma ser bom sinal (a própria The Good Wife se enfraqueceu ano a ano após as baixas consecutivas de Josh Charles e Archie Panjabi), o que, julgando por esta temporada, não parece ser o caso aqui. Tanto The Good Fight ampliou o merecido destaque de Sarah Steele, sempre muito carismática como a jovem Marissa Gold, como também procurou não cair na tentação de abordar fatos recentes da vida real que, sabemos, serão explorados à exaustão pelo cinema e pela TV, como a pandemia da Covid-19, discutida em detalhes apenas em um excelente primeiro episódio capaz de amarrar com habilidade os pontos mal resolvidos da temporada anterior. E não há como falar sobre os episódios sem mencionar And the Fight Had a Détente…, trabalho de estreia da atriz Carrie Preston (a eterna Elsbeth Tascioni!) como diretora. Carrie comanda um episódio com o que existe de melhor em The Good Fight e, de quebra, nos entrega o delicioso exercício de imaginar um romance entre as sempre maravilhosas Christine Baranski e Audra MacDonald. Se não fossem todos os outros méritos, a quinta temporada da série com certeza já valeria só por esse capítulo.

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“Hacks” (1ª temporada, HBO Max)

O conflito é clássico. O desenrolar idem. E Hacks nunca promete reinventar a roda. Gosto disso. E mais: tenho grande afeição por séries que nunca tentam ser maiores do que realmente são e que buscam brilhar na sua própria simplicidade. Receita perfeita, portanto, para a história de Deborah Vance (Jean Smart) e Ava Daniels (Hannah Einbinder) me ganhar por completo. A primeira é uma consagrada comediante que já começa a vislumbrar dias irrelevantes na carreira, enquanto a segunda mal começou no ramo e já enfrenta uma crise profissional. Ambas são opostos que, de cara, não se atraem, mas que, perdidas na vida cada uma a sua maneira, encontrarão formas de se reinventar em um convívio profissional e, inevitavelmente, pessoal. Sem jamais tentar se equiparar ou sequer a se comparar a, por exemplo, The Marvelous Mrs. Maisel, outra série sobre o universo feminino da comédia, Hacks é mesmo pura simplicidade e, do início ao fim, entende a importância do show ser de suas duas protagonistas.

Como Deborah Vance, a sensacional Jean Smart vive, aos 70 anos de idade, o grande momento da sua extensa carreira. Eterna coadjuvante em seriados como 24 Horas Samantha Who?, Jean vive em Hacks um protagonismo que nunca havia caído no seu colo até aqui. E ela agarra a oportunidade com o  seu talento habitual. Impressiona a maneira como a atriz desperta no público o fascínio por essa comediante que, nos palcos e na vida pública, é elegante, talentosa e esperta ao extremo, mas impaciente e vaidosa nos bastidores. O mais brilhante do desempenho de Jean Smart está na sua capacidade de transitar por todas essas camadas da personagem sempre com o intuito de explorá-la através das mais diferentes nuances. Para Jean, nada é gratuito ou passageiro: a cada cena, conhecemos uma nova faceta dessa mulher que, em outras circunstâncias, poderia apenas ser uma figura detestável. Se começamos a série passando certa raiva com Deborah, terminamos até empatizando com suas imperfeições. Tudo graças ao grande talento de uma intérprete em franca escalada após outras excelentes participações em seriados como WatchmenMare of Easttown.

Fazendo dupla com Jean Smart, Hannah Einbeinder também é habilidosa ao tornar crível uma Ava hiperconectada e em pleno conflito com muitas questões de sua geração. Talentosa e, assim como Smart, capaz de tornar interessante uma personagem não exatamente simpática, Hahhah se beneficia com um dos pontos mais interessante de Hacks: o do roteiro capturar a parte majoritária da história através da perspectiva de Ava. Pelo olhar da personagem, vários paralelos são traçados, como o fato de Ava, uma principiante, observar tudo o que outra comediante já conseguiu alcançar na carreira, ao mesmo tempo em que, considerando diversos aspectos, ela parece tão frustrada e desmotivada quanto Deborah, mesmo sendo década mais jovem. Hacks tem seus melhores momentos quando joga com esses opostos e complementos das protagonistas, principalmente quando as aproxima ou as coloca em conflito. São dez episódios rápidos e enxutos de meia hora. Tudo realizado sem muito alarde, apoiado na simplicidade e, por isso, pelo menos para mim, tão eficiente.

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“Love: A História de Lisey” (Apple TV+, minissérie)

É de se desconfiar quando um número muito grande de talentos e estrelas se reúne para fazer um filme ou uma série. Não pelos envolvidos em si, mas porque são raros os casos em que essa composição originou produções verdadeiramente grandes. A minissérie Love: A História de Lisey não foge à regra. Em cena, estão Julianne Moore, Clive Owen, Jennifer Jason Leigh, Joan Allen e Dane DeHaan sob a batuta do já cultuado Pablo Larraín, diretor de filmes como NoJackie e, mais recentemente, do aguardado Spencer. O roteiro não só é baseado em um livro de Stephen King como tem o próprio autor na sua escrita. Parecia a fórmula perfeita para uma minissérie de alto nível, expectativa que se esvai de forma vertiginosa a cada episódio dessa experiência desinteressante e repetitiva. Com isso, outra tese se reafirma: a de que nem todo grande escritor é grande roteirista.

O ponto de partida é o romance lançado por King em 2006 e que ele logo classificou como um dos seus trabalhos favoritos. Julgando pela minissérie, é difícil entender as razões que o levam a afirmar isso. No centro da história, temos duas linhas temporais. Uma se passa no presente, quando Lisey (Julianne Moore) ainda lida com a morte do marido, um escritor de grande sucesso chamado Scott (Clive Owen), e com a obsessão de um fã do seu finado companheiro. A outra se desenrola no passado ao conhecermos um pouco mais sobre o romance entre Lisey e Scott, aléde detalhes sobre a própria vida dele, um homem assombrado por grandes traumas de infância. De início, o ritmo mais literário do que audiovisual cadenciado pelo roteiro de King beira o elegante, como se estivéssemos sendo apresentados, com a devida calma, a um universo cujas interrogações futuramente trarão excelentes recompensas. No entanto, o ritmo jamais varia e tudo não passa mesmo de uma trama bastante monótona, pouco dinâmica e sem mergulhos instigantes.

Enquanto King erra a mão ao construir episódios longos demais e ao demonstrar falta de familiaridade com a concepção da estrutura de uma minissérie, Pablo Larraín, um diretor afeito a relatos fora da curva, emoldura o roteiro com uma atmosfera inebriante. Da bela fotografia assinada pelo iraniano Darius Khondjin ao trabalho de Clark para entrelaçar beleza, tragédia e horror na trilha sonora, Love: A História de Lisey se sustenta só até determinado ponto em função de seus atributos técnicos. Passado o primeiro impacto, a história, já submersa em relatos complicados de acompanhar (todas as sequências envolvendo a participação de Michael Pitt parecem não terminar nunca), acaba contaminada pelo que o conjunto promete e não entrega. E aí não há o que uma atriz talentosa como Julianne Moore possa fazer para segurar a barra, inclusive porque ela compartilha seu maior tempo de cena com um Clive Owen de pouquíssima expressão e com um Dane DeHaan fora de tom na busca pelo assombro de uma vilania. Infelizmente, Love: A História de Lisey é, em todos os aspectos, uma das grandes decepções de 2021.

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“Manhãs de Setembro” (Prime Video, 1ª temporada)

Se há uma série brasileira que você precisa descobrir em 2021, essa é a bela Manhãs de Setembro, cuja curtíssima temporada de apenas cinco episódios está disponível no Prime Video. Uma segunda temporada já foi encomendada, e é o caso de renovação que me deixa muito alegre, pois, mesmo que a história pudesse terminar tranquilamente neste primeiro ano, há material e potencial de sobra para vermos mais dos personagens no futuro. Aplaudo também a sensibilidade da Amazon em ter abraçado um projeto tão humano sobre uma personagem trans e sobre pessoas tão comuns quanto imperfeitas desse Brasil, começando com a protagonista Cassandra (Liniker), uma motogirl que, às noites, canta em um bar e, de repente, descobre ter um filho que nunca imaginou ter. Sua vida é muito batalhada, e a chegada do menino acaba sendo um caminho sem volta para a forma como ela vê o mundo.

Não está errado quem classifica a primeira temporada de Manhãs de Setembro como previsível ou até mesmo clichê — sabemos que o coração de Cassandra amolecerá e que ela se transformará em uma pessoa completamente diferente —, mas isso não é demérito quando a série trata os seus conflitos mais óbvios como o retrato fiel da vida como ela é. Agora, se há algo que não pode ser chamado de clichê em Manhãs de Setembro, esse é o tratamento dado à personagem Cassandra. Liniker se sai muito bem ao interpretar uma protagonista que não tem em sua identidade de gênero (ou na aceitação ou rejeição dela) o conflito norteador da trama. Pelo contrário: como uma pessoa aplicada na busca por uma vida melhor e pela realização de seus próprios sonhos, Cassandra é feliz no palco, cultiva um relacionamento amoroso e tem orgulho de se sustentar com as próprias pernas. Isso é inspirador e mais do que bem-vindo.

Tipo de temporada que é possível ver de uma única vez tanto pela objetividade dos episódios quanto pela fluidez, Manhãs de Setembro também brilha no elenco coadjuvante de primeira, que traz nomes como Gero Camilo, Thomás Aquino, Paulo Miklos e até Elisa Lucinda fazendo a voz da cantora Vanusa, figura importante no desenrolar da série e cujo repertório é homenageado com grande beleza por Liniker. Em termos de interpretação, contudo, a maior das joias é Karine Teles, uma das nossas melhores atrizes em atividade e que aqui demonstra, pela milésima vez, o quanto o seu repertório camaleônico vem de uma fonte inesgotável de talento. É tocante as escolhas que ela faz ao conduzir uma personagem tão errática quanto repleta de boas intenções, trazendo para o plano da compreensão uma figura que poderia apenas servir de muleta para alguns dos conflitos principais. A exemplo de Manhãs de Setembro como um todo, essa é uma qualidade que faz da primeira temporada uma pérola caracterizada por beleza, envolvimento e delicadeza ao ler os acontecimentos mais familiares do cotidiano com grande humanidade. 

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“The White Lotus” (1ª temporada, HBO Max)

Tem sido catártica essa nova anda de séries que lançam um olhar sobre a hipocrisia, o privilégio e a falta de noção de uma população branca privilegiada e situada em uma bolha própria, alheias ao mundo real e sem o mínimo senso de compreensão ou conexão por qualquer coisa que fuja do raio traçado por seu status social e econômico. A sensacional Succession, da HBO, talvez seja o maior e mais célebre exemplo dessa visão crítica aplicada a personagens atuais e críveis em seus absurdos, mas agora ela já pode dizer que tem uma irmã caçula: The White Lotus, também da HBO, já com uma segunda temporada planejada em formato de antologia. Ainda que ambas tenham em comum todos os elementos citados, além de um fascinante sentimento de incômodo e constrangimento pelos personagens, as duas séries são inegavelmente autênticas e distintas.

Criada por Mike White, autor da singular Enlightened que Laura Dern estrelou em em 2011, The White Lotus tem como cenário um resort paradisíaco no Havaí. Lá, acompanhamos alguns dos funcionários que, trabalhando dia e noite, precisam estar à disposição dos hóspedes. E também seguimos de perto as pessoas hospedadas no local, todas riquíssimas, brancas e cercadas de todos os tipos de privilégio. Por adotar duas visões diferentes e diretamente opostas, The White Lotus encenará uma série de conflitos entre classes. A diferença é que quase toda a tensão entre esses dois núcleos tão diferentes está nas entrelinhas, no silêncio forçado, no jogo de palavras e no sorriso forçado para mascarar sensações internalizadas. É por isso que sempre há um tom de algo prestes a explodir, mesmo que, com exceção de um flashforward do primeiro episódio, a história não chegue a se focar em algum clima de suspense ou mistério. Afinal, há conflito de sobra nas relações estabelecidas entre pessoas desse nosso mundo tão desigual em muitas camadas, e a série bebe dessa fonte.

Proporcionalmente, The White Lotus se foca mais nos hóspedes do que nos funcionários, o que permite que Mike White, diretor e roteirista de todos os episódios, explore as nuances de tantos personagens insuportáveis entre si. Da mulher carente que viaja para jogar as cinzas da mãe no mar e que, através de diferentes maneiras, suga qualquer pessoa à frente para suprir sua solidão ao homem recém-casado que entra em um surto gradual por não ser colocado no quarto que havia reservado. Em cada um deles, surgem as maiores qualidades de um texto desconfortavelmente contemporâneo e que discute muitos pontos sobre como dinheiro e privilégios colocam pessoas em uma realidade paralela, onde elas acreditam ser donas da verdade em toda opinião omitida simplesmente por falarem de uma posição onde tudo está ao seus pés. Não à toa, o mundo de cada um deles entra em colapso ao menor sinal de que suas ideias certezas podem estar sendo ameaçadas. Essa espécie de surto em baixa fervura é traduzido por uma trilha sonora hipnótica do canadense Cristobal Tapia de Veer e por um elenco irretocável, onde destaco a peculiar e inteligente performance de Jennifer Coolidge. Cômica sem necessariamente ser uma comédia e intrigante por não ter definições óbvias, The White Lotus é um inteligente registro dos nossos tempos com as qualidades que sempre fizeram a HBO ser HBO.

Melhores de 2020: roteiros, direção e filme

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MELHOR ROTEIRO ADAPTADO
J.C. Lee e Julius Onah (Luce)

Quando apresentado pela primeira em 2013, o espetáculo teatral Luce, escrito por J.C. Lee, foi saudado como um trabalho “reflexivo e bem interpretado” nas palavras do jornal The New York Times, elogios que também podem ser atribuídos à versão cinematográfica, onde Lee contou com a parceria do diretor Julius Onah na escrita do roteiro. A transposição para as telas não guarda resquícios teatrais, mesmo quando a trama é centrada mais em diálogos e suposições do que necessariamente em acontecimentos. Por meio do texto, Lee e Onah criam um filme muito intrigante e inteligente, com personagens repletos de camadas, sejam eles protagonistas ou coadjuvantes, e leituras tão pertinentes quanto assertivas para muitas questões envolvendo a forma como a sociedade enxerga a população negra em diferentes esferas. Os labirintos criados por Luce são dos mais interessantes, rejeitando a panfletagem e se apoiando na grande dimensão dada a personagens que nos puxam de um lado para o outro. Sem respostas prontas ou fáceis, a adaptação brilha ao compreender o poder da dúvida e ao confiar na maturidade do espectador para entregar (ou não) os elementos que ele precisa para tirar algumas de suas próprias conclusões.

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MELHOR ROTEIRO ORIGINAL
Eliza Hittman (Nunca, Raramente, Às Vezes, Sempre)

Tenho a sensação de que o tempo fará justiça a essa pérola chamada Nunca, Raramente, Às Vezes, Sempre, filme escrito e dirigido por Eliza Hittman sobre uma adolescente que, ao descobrir uma gravidez indesejada, viaja com uma amiga para outro estado com o objetivo de fazer legalmente um aborto. A propriedade com que Hittman navega nos anseios e silêncios de uma jovem que aos poucos se revela para o espectador é um assombro. Da tocante explicação do título do longa ao retrato muito discreto dos mais diferentes sentimentos vividos pela por ela, o roteiro descortina um universo particular pelo qual é difícil ficar indiferente. E, se a maravilhosa interpretação de Sidney Flanigan já nos coloca nos lugares mais íntimos da personagem, o texto impulsiona essa sensação de proximidade por fazer com que acompanhemos a jovem naqueles momentos aparentemente cotidianos e banais mas que, na verdade, refletem tudo o que precisamos saber sobre ela. Hittman versa sobre família, juventude e aborto sem jamais espetacularizar qualquer um desses temas, e talvez seja por isso mesmo que Nunca, Raramente, Às Vezes, Sempre tenha uma dramaticidade tão certeira e de crescimento gradativo. É um roteiro de pequenas grandiosidades. Exatamente como a vida.

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MELHOR DIREÇÃO
Céline Sciamma (Retrato de Uma Jovem em Chamas)

Aos 42 anos de idade, a cineasta francesa Céline Sciamma contabiliza apenas quatro longas-metragens como diretora. A ênfase no apenas é necessária porque, apesar do número relativamente baixo de trabalhos, Sciamma demonstra um domínio técnico e emocional que alguns diretores demoram uma carreira inteira para alcançar. Como roteirista, sua carreira é mais extensa (e eu destaco aqui o belo trabalho feito por ela na animação Minha Vida de Abobrinha), o que também acaba contribuindo para toda a beleza que impressa ao ótimo Retrato de Uma Jovem em Chamas. Céline é um deslumbro em todas as escolhas técnicas e também compreende o quanto é necessário que o filme tenha seu próprio ritmo para desbravar todas as nuances de uma paixão secreta entre duas mulheres em pleno século XVIII. Seu olhar feminino faz a diferença para um romance de época cercado de escolhas minuciosas e diretamente ligadas à essência do filme, como a discreta potência conferida às cenas íntimas entre as duas personagens e toda a influência da geografia local no estado de espírito de cada uma delas. Antes, conhecendo longas como o também belo Tomboy, eu já ficava ansioso para ver mais de Céline Sciamma. Agora, tendo testemunhado Retrato de Uma Jovem Chamas, a sensação se multiplica.

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MELHOR FILME
O Som do Silêncio, de Darius Marder

O Som do Silêncio é o tipo de filme que, nas mãos erradas, poderia ser uma experiência qualquer. Poderia também ser um dramalhão dos mais manjados ou, então, uma história motivacional construída em cima de lições de moral. Felizmente, não vemos nada disso no surpreendente trabalho de estreia de Darius Marder como diretor de ficções (antes, ele havia realizado apenas o documentário Loot). Meu fascínio pelo que Marder apresenta em O Som do Silêncio reside justamente em sua capacidade de se esquivar do óbvio através das escolhas mais simples. Tudo em O Som do Silêncio está no lugar certo: a abordagem do universo de pessoas com deficiência, o ritmo certo para que a história tenha a devida imersão, o trabalho técnico para nos colocar no lugar do protagonista, o desempenho espetacular de Darius Marder, o suporte do ótimo Paul Raci e até as pequenas participações como o do francês Mathieu Almaric. Em muitos sentidos, é um filme que merece ser referenciado por sua capacidade de explorar tantas camadas humanas com muita sutileza e sem alardes, provando que, sim, ainda existem novas perspectivas possíveis para temáticas já tão abordadas pelo cinema.

49º Festival de Cinema de Gramado #8: “Carro Rei” é o grande vencedor da mostra competitiva de longas brasileiros

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Carro Rei, de Renata Pinho, é o terceiro longa-metragem pernambucano a vencer o Festival de Cinema de Gramado nos últimos dez anos. Foto: Edison Vara/Pressphoto.

Pelo segundo ano consecutivo, o Festival de Cinema de Gramado se viu obrigado a acontecer em um formato televisivo e online, atendendo de forma responsável aos efeitos da pandemia da Covid-19. Um tanto mais desgastado do que o ano passado em diversos sentidos, o Festival tomou forma sem a garra que poderia se esperar para um evento que, em 2022, comemora nada menos do que 50 anos de existência, o que inclui desde modificações bastante complicadas na grade horária (antes exibida às 20h no Canal Brasil, a programação saltou para às 21h30, levando os filmes madrugada adentro) até percalços recorrentes na concepção técnica e artística de transmissões ao vivo e das próprias premiações. Foi uma edição menor e novamente realizada em tempos de exceção, mas que não se mostrou tão presente como a do ano passado, também concebida no mesmo formato. Que, em 2022, possamos celebrar o cinquentenário de Gramado presencialmente!

Responsável por tentar traduzir em prêmios o melhor de uma seleção de longas-metragens irregular, o júri formado por Catarina Apolonio, Carol Castro, Fabricio Boliveira, Ana Paula Mendes e Tabajara Ruas acertou em cheio ao consagrar o pernambucano Carro Rei, de Renata Pinheiro, como o melhor filme da 49ª edição. Trata-se da terceira vez, em menos de uma década, que o cinema pernambucano de consagra na Serra Gaúcha: em 2019, a coprodução King Kong em Asunción levou a melhor, e Tatuagem foi o grande vencedor do ano de 2013. Mistura visceral de diversos gêneros e referências, Carro Rei também levou os prêmios de melhor desenho de som, trilha sonora, direção de arte e uma menção honrosa para o maravilhoso desempenho de Matheus Nachtergaele. É talvez o filme mais peculiar a vencer Gramado em muitos anos e também o tipo de experiência que ficará para a posteridade.

Outro aspecto bacana e muito sintomático da premiação é o de que a trinca de melhor filme — júri oficial, popular e da crítica — foi toda entregue a filmes dirigidos por mulheres. E, de fato, elas dirigiram, em maior e menor escala, os melhores longas desta edição: o júri oficial ficou com Carro Rei, enquanto o júri popular escolheu O Novelo, de Claudia Pinheiro. Já a crítica especializada consagrou A Primeira Morte de Joana, de Cristiane Oliveira. Por outro lado, é de se estranhar que a comédia Jesus Kid, de Aly Muritiba, tenha conquistado prêmios bastante importantes como o de direção e roteiro, tanto por essa constatação de um claro domínio feminino quanto pelo fato de ser mesmo uma produção de gosto duvidoso. E outra: como um filme que é o melhor em duas categorias centrais não se consagra na categoria principal? Sem dúvida, trata-se de uma dupla incoerência entre as escolhas do júri.

Além do meu apreço pela vitória de Carro Rei, gosto do amplo reconhecimento dado ao elenco de O Novelo, da participação especial de Isabel Zuaa aos atores jovens. Entre os protagonistas adultos e masculinos do filme, o prêmio de melhor ator coube a Nando Cunha, uma verdadeira surpresa considerando que o longa de Claudia Pinheiro tem vários personagens principais e que outros dois grandes atores eram franco favoritos: Matheus Nachtergaele (Carro Rei), que acabou ficando com uma menção honrosa, e Chico Díaz, cujo Homem Onça levou apenas um prêmio muito justo de atriz coadjuvante para Bianca Byington. Quanto aos prêmios técnicos, boa coerência entre os vitoriosos, seja pelas categorias faturadas por Carro Rei ou pelos prêmios para A Primeira Morte de Joana em melhor montagem e fotografia (o segundo Kikito de Bruno Polidoro na noite, já que ele também conquistou a estatueta na mostra gaúcha de longas com A Colmeia).

Por ter participado da seleção dos filmes que concorreram no segmento de curtas-metragens brasileiros, não comentarei em detalhes sobre os vencedores. No entanto, tendo abarcado um recorte muito específico para representar o Brasil em que vivemos, digo que gostei muito das escolhas do quarteto formado por Elisa Volpatto, Janaina Oliveira ReFem, Marco Antônio Pereira, Valéria Verba e Ulisses Arthur. A lista do júri foi muito feliz em conjugar os méritos cinematográficos e temáticos presentes na mostra. No que tange aos longas estrangeiros e gaúchos, tenho pouco a dizer, uma vez que as sessões, pelo menos no formato televisivo, acabavam muito tarde, o que é inviável para quem precisa acordar cedo no dia seguinte. Por fim, entre os curtas gaúchos, cuja cerimônia aconteceu no domingo à tarde, as esperadas lideranças de Desvirtude Eu Não Sou Um Robô realmente se concretizaram, já que estavam um passo à frente com o aval de duas comissões de seleção distintas: a dos gaúchos e a brasileira.

Confira abaixo a lista completa de vencedores:

LONGAS-METRAGENS BRASILEIROS

MELHOR FILME: Carro Rei, de Renata Pinheiro
MELHOR DIREÇÃO: Aly Muritiba (Jesus Kid)
MELHOR ATRIZ: Glória Pires (A Suspeita)
MELHOR ATOR: Nando Cunha (O Novelo)
MELHOR ATRIZ COADJUVANTE: Bianca Byington (Homem Onça)
MELHOR ATOR COADJUVANTE: Leandro Daniel Colombo (Jesus Kid)
MELHOR ROTEIRO: Aly Muritiba (Jesus Kid)
MELHOR FOTOGRAFIA: Bruno Polidoro (A Primeira Morte de Joana)
MELHOR MONTAGEM: Tula Anagnostopoulos (A Primeira Morte de Joana)
MELHOR TRILHA MUSICAL: Dj Dolores (Carro Rei)
MELHOR DIREÇÃO DE ARTE: Karen Araújo (Carro Rei)
MELHOR DESENHO DE SOM: Guile Martins (Carro Rei)
MELHOR FILME (JÚRI POPULAR): O Novelo, de Claudia Pinheiro
MELHOR FILME (JÚRI DA CRÍTICA): A Primeira Morte de Joana, de Cristiane Oliveira
PRÊMIO ESPECIAL DO JÚRI: Matheus Nachtergaele (Carro Rei), pela construção e domínio do personagem e pela brilhante capacidade de se reinventar.
MENÇÃO HONROSA: Fernando Lufer, Michel Gomes, Victor Alves, Kaike Pereira, Pedro Guilherme e Caio Patricio por seu talento e potência em O Novelo.
MENÇÃO HONROSA: Isabél Zuaa, pela bela e impactante atuação em O Novelo.

LONGAS-METRAGENS ESTRANGEIROS

MELHOR FILME: La Teoría De Los Vidrios Rotos, de Diego Fernández Pujol
MELHOR FILME (JÚRI POPULAR): La Teoría De Los Vidrios Rotos, de Diego Fernández Pujol
MELHOR FILME (JÚRI DA CRÍTICA): Planta Permanente, de Ezequiel Radusky
PRÊMIO ESPECIAL DO JÚRIPlanta Permanente, de Ezequiel Radusky, pela abordagem de temas tão presentes em nossa sociedade que refletem as consequências de um sistema corrompido e afetam diretamente os valores humanos, e pelas interpretações das protagonistas femininas que representam a força das mulheres latinas em nosso cinema.

LONGAS-METRAGENS GAÚCHOS

MELHOR FILME: Cavalo de Santo, de Carlos Eduardo Caramez e Mirian Fichtner
MELHOR DIREÇÃO: Gilson Vargas (A Colmeia)
MELHOR ATRIZ: Luciana Renatha, Alexia Kobayashi e Veronica Challfom (Extermínio)
MELHOR ATOR: João Pedro Prates (A Colmeia)
MELHOR ROTEIRO: Carlos Eduardo Caramez (Cavalo de Santo)
MELHOR FOTOGRAFIA: Bruno Polidoro (A Colmeia)
MELHOR DIREÇÃO DE ARTE: Gilka Vargas e Iara Noemi (A Colmeia)
MELHOR MONTAGEM: Joana Bernardes e Mirela Kruel (Extermínio)
MELHOR DESENHO DE SOM: Gabriela Bervian (A Colmeia)
MELHOR TRILHA MUSICAL: Cânticos Sagrados dos Orixás preservados pelos Terreiros gaúchos e Alabê Oni (Cavalo de Santo)
MELHOR FILME: (JÚRI POPULAR) Cavalo de Santo, de Carlos Eduardo Caramez e Mirian Fichtner

CURTAS-METRAGENS BRASILEIROS

MELHOR FILME: A Fome de Lázaro, de Diego Benevides
MELHOR DIREÇÃO: Fabio Rodrigo (Entre Nós e o Mundo)
MELHOR ATRIZ: Tieta Macau (Quanto Pesa)
MELHOR ATOR: Lucas Galvino (Fotos Privadas)
MELHOR ROTEIRO: Marcelo Grabowsky, Aline Portugal e Manoela Sawitzki (Fotos Privadas)
MELHOR FOTOGRAFIA: Rodolpho Barros (Animais na Pista)
MELHOR MONTAGEM: Caroline Neves (Entre nós e o Mundo)
MELHOR TRILHA MUSICAL: Eli-Eri Moura (Animais na Pista)
MELHOR DIREÇÃO DE ARTE: Torquato Joel (A Fome de Lázaro)
MELHOR DESENHO DE SOM: Breno Nina (Quanto Pesa)
MELHOR FILME (JÚRI POPULAR): Desvirtude, de Gautier Lee
MELHOR FILME (JÚRI DA CRÍTICA): Entre Nós e o Mundo, de Fábio Rodrigo
PRÊMIO ESPECIAL DO JÚRI: Fabio Rodrigo (Entre Nós e o Mundo), por responder de forma consciente em termos estéticos, afetivos e narrativos a pergunta “como falar sobre a dor da perda e ainda ter esperança?”.
MENÇÃO HONROSA: A Beleza de Rose, de Natal Portela, por fazer um delicado recorte da vida de muitas mulheres negras no nordeste do Brasil.
PRÊMIO CANAL BRASIL: A Beleza de Rose, de Natal Portela

CURTAS-METRAGENS GAÚCHOS (PRÊMIO ASSEMBLEIA LEGISLATIVA)

MELHOR FILME: Desvirtude, de Gautier Lee
MELHOR DIREÇÃO: Gautier Lee (Desvirtude)
MELHOR ATRIZ: Evellyn Santos (Desvirtude)
MELHOR ATOR: Álvaro Rosacosta (Rufus)
MELHOR ROTEIRO: Felipe Yurgel, Gabriela Lamas e Maurilio Almeida (Eu Não Sou Um Robô)
MELHOR FOTOGRAFIA: Lívia Pasqual (Eu Não Sou Um Robô)
MELHOR MONTAGEM: Gabriel Borges (Desvirtude)
MELHOR DIREÇÃO DE ARTE: Gabriela Lamas (Eu Não Sou Um Robô)
MELHOR TRILHA SONORA: Renan Franzen (Noite Macabra)
MELHOR DESENHO DE SOM: Kiko Ferraz e Chrístian Vaisz (Um Dia de Primavera)
MELHOR PRODUÇÃO EXECUTIVA: Álvaro Rosa Costa, Carmem Fernandes, Fernanda Kern, Laura Cohen, Lisiane Cohen, Maurício Borges de Medeiros (Era Uma Vez Uma Princesa)
MELHOR FILME (JÚRI DA CRÍTICA): Eu Não Sou Um Robô, de Gabriela Lamas
MENÇÃO HONROSARota, de Mariani Ferreira, por nos colocar diante de uma relação complexa de forma inteligente, cuidadosa e provocadora; pelas atuações, que em momentos certeiros, ampliam profundamente a distancia entre pai e filha; e, por fim, pela elaboração do roteiro, pela direção, montagem, desenho de som, e pela força de toda a equipe de produzir Rota em um tempo tão diferente.

49º Festival de Cinema de Gramado #7: “A Primeira Morte de Joana” e “Jesus Kid”

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“A Primeira Morte de Joana”,

de Cristiane Oliveira

Ainda há algo de novo a ser dito em relação às histórias de ritos de passagem? Do cinema brasileiro ao Hollywoodiano, o chamado coming of age ganhou grande popularidade nos últimos anos e agora parece chegar a um ponto de virada, onde a temática deixa de encantar por si só e o que acaba pesando na balança é a capacidade de cada cineasta mergulhar na temática propondo novos olhares. Não sou um entusiasta de Mulher do Pai, filme anterior da gaúcha Cristiane Oliveira, mas embarquei em A Primeira Morte de Joana, onde ela demonstra uma admirável facilidade em identificar o tipo de história que lhe interessa e em estabelecer uma identidade muito própria como realizadora. Neste caso, Cristiane busca as especificidades e as camadas de um coming of age ambientado em Osório, cidade localizada a 95 quilômetros de distância de Porto Alegre, capital do Rio Grande do Sul.

A geografia é fundamental para que A Primeira Morte de Joana não seja um relato reiterativo da temática, inclusive no que tange à descoberta da protagonista sobre a sua própria homossexualidade. Não só as dinâmicas conservadoras e reprimidas do povo gaúcho quanto à diversidade se apresentam aqui em tom mais íntimo e familiar como também os elementos da natureza — no caso, os ventos tão característicos de Osório, que abriga a segunda maior usina eólica da América Latina — contribuem para entendermos as transformações internas de Joana (Letícia Kacperski). O ponto de partida também é curioso, pois a protagonista inicia uma jornada de autodescoberta a partir de um segredo familiar: o de que a sua tia-avó faleceu aos 70 anos sem nunca ter namorado alguém. A partir daí, A Primeira Morte de Joana lança um olhar para as relações entre diferentes gerações femininas daquela família.

Capturando com perfeição os costumes e os sentidos da vivência gaúcha contemporânea em uma cidade como Osório, Cristiane Oliveira faz um filme muito honesto e que chega à competição do 49º Festival de Cinema de Gramado após ter passado outros eventos do gênero em países como Índia, Suécia, Alemanha e Estados Unidos. Em contraponto, o fato de A Primeira Morte de Joana ser uma experiência tão redondinha e “com tudo no lugar” traz certo afastamento, como se faltasse uma garra maior em termos criativos, de ritmo e atmosfera. Trata-se da já conhecida sensação de que, mesmo agradável, delicado e com méritos facilmente identificáveis ao longo da projeção, o longa desperta mais envolvimento enquanto estamos em contato com ele, reverberando menos após a chegada dos créditos finais — sensação essa que, claro, depende de espectador para espectador, ainda mais em um filme sobre questão tão íntimas de uma personagem bastante identificável.

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“Jesus Kid”, de Aly Muritiba

O que explica um diretor ir de todo o impacto da minissérie O Caso Evandro para um apanhado de descompassos e desarranjos como Jesus Kid? É o tipo de involução surpreendente, inclusive por estarmos diante de um projeto que se propõe a adaptar uma obra do sempre criativo Lourenço Mutarelli. Pois, em Jesus Kid, o baiano Aly Muritiba erra mão em uma comédia desencontrada, para dizer o mínimo. O que seria ela, afinal? Sátira? Deboche? Pastelão? Nonsense? Difícil saber em qual humor ele quer acertar, e não em um bom sentido. O caos visto em Jesus Kid não é, por exemplo, aquele proposital e metafórico que já vimos neste 49º Festival de Cinema de Gramado com Carro Rei. A confusão aqui é mesmo reflexo de um projeto mal calibrado e sem unidade. 

No centro do longa está Eugênio (Paulo Miklos), escritor de western que sê vê em dificuldades quando seu personagem mais famoso, Jesus Kid, começa a ir mal de vendas. Mas eis que aparece uma possível salvação: ele é contratado para escrever o roteiro de um filme. Quem vive Jesus Kid é Sérgio Marone, que adquiriu os direitos de adaptação da obra de Mutarelli e convidou o baiano Aly Muritiba para assumir a direção. Também autor do roteiro, Muritiba fez ajustes no texto original, incorporando à trama piadas e referências relacionadas ao estado político atual do Brasil. Infelizmente, elas não são orgânicas e soam forçadas quando Jesus Kid as adota como muleta. É uma oportunidade perdida porque o longa poderia construir algo muito mais refinado em sua proposta de western contemporâneo e povoado por homens armados e pseudo-vilões.

Na medida em que se perde e se confunde em todas as brincadeiras já um tanto confusas, o filme de Muritiba logo se torna cansativo. As metalinguagens entre literatura e cinema reforçam essa impressão, algo que afeta o próprio elenco. Paulo Miklos, que vem se dedicando cada vez mais ao cinema (em 2019, ele chegou a ganhar o Kikito de melhor ator pelo drama O Homem Cordial, talvez a sua melhor interpretação até aqui), interpreta o protagonista Eugênio tateando qual linha cômica usar o tempo inteiro, mas sem encontrá-la. Enquanto isso, Sérgio Marone, que sempre foi mais galã do que bom ator, funciona até melhor do que o próprio Miklos em diversos momentos, pois seu porte físico, sua estatura de 1,93m e até mesmo seu ar canastrão servem ao propósito desse caubói inusitado. Ou seja, quando se torna possível fazer esse tipo de constatação entre atores de estilos e repertórios opostos, é porque algo está errado. E, em Jesus Kid, não é difícil afirmar que realmente está. 

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