Cinema e Argumento

“O Animal Cordial”: terror brasileiro subverte o gênero slasher e explora os diferentes sentidos da brutalidade

Sabia que eu já matei muita gente?

Direção: Gabriela Amaral Almeida

Roteiro: Gabriela Amaral Almeida

Elenco: Luciana Paes, Murilo Benício, Irandhir Santos, Camila Morgado, Humberto Carrão, Ernani Moraes, Jiddu Pinheiro, Diego Avelino, Eduardo Gomes, Ariclenes Barroso

Brasil, 2018, Terror/Suspense, 96 minutos

Sinopse: São Paulo. Inácio (Murilo Benício) é o dono de um restaurante de classe média, por ele gerenciado com mão de ferro. Tal postura gera atritos com os funcionários, em especial com o cozinheiro Djair (Irandhir Santos). Quando o estabelecimento é assaltado por Magno (Humberto Carrão) e Nuno (Ariclenes Barroso), Inácio e a garçonete Sara (Luciana Paes) precisam encontrar meios para controlar a situação e lidar com os clientes que ainda estão na casa: o solitário Amadeu (Ernani Moraes) e o casal endinheirado Bruno (Jiddu Pinheiro) e Verônica (Camila Morgado).

É uma questão cultural e histórica: uma significativa parcela das plateias brasileiras alimenta um infundado preconceito com a produção audiovisual de seu próprio país, ainda mais se tratando do chamado “cinema de gênero” (termo que refuto porque sempre me parece redundante, afinal todo cinema tem pelo menos um ou mais gêneros). Recupero essa percepção porque, após conferir O Animal Cordial na programação do Fantaspoa 2018, tive a certeza de que, caso fosse produzido por norte-americanos e estrelado por um elenco Hollywoodiano, o primeiro longa-metragem assinado por Gabriela Amaral Almeida daria o que falar. A partir dessas teoria de que, dada a sua nacionalidade, o filme não será devidamente valorizado, quem sai perdendo é o próprio público, que deixa de apreciar um dos trabalhos mais viscerais do cinema nacional em anos —  e também uma das obras de terror mais impactantes e descontruídas da recente safra do gênero, independente da origem de quem está por trás das câmeras.

Impactante alegoria sobre barbáries sociais, o longa se utiliza da violência e de uma dose cavalar de sangue para discutir o nosso eventual retorno a um estado primitivo quando enfrentamos situações extremas. A trama parte de um assalto, mas o filme captura uma outra perspectiva: a dos comportamentos desencadeados por esse violento acontecimento. E não falamos propriamente das brutalidades cometidas ao longo de um pesadelo vivido em um pequeno restaurante paulista. A força emocional de O Animal Cordial está menos nos acontecimentos e mais na personalidade muito bem definida de personagens carregados de curvas emocionais. Mais: o longa adota como conceito que não há violência física que se equipare, por exemplo, à agressão emocional da homofobia ou ao desprezo de um casal elitista pela garçonete que trabalha no restaurante. Afinal, o verdadeiro terror é se deparar com a pior índole do ser humano.

Por se focar majoritariamente no comportamento e na natureza de seus personagens, O Animal Cordial amplia a inegável tensão que cai nos ombros do espectador durante toda projeção, começando pelos protagonistas Inácio (Murilo Benício) e Sara (Luciana Paes), pessoas que, diante do assalto, de repente encontram um tipo de protagonismo que, talvez, jamais tiveram do ponto de vista profissional e emocional em suas cotidianidades. A abordagem do roteiro é certeira porque ela se distancia de tantos outros relatos de terror ao questionar as complexidades de cada personagem, colocando quase em segundo plano o desenrolar da situação em si. Como um drama tradicional, é possível que O Animal Cordial não tivesse metade do seu impacto, já que muitas das discussões levantadas pelo roteiro — o perigo de amar, os calos emocionais, a exploração profissional — ganham novas leituras e dimensões quando se contrastam com a extrema violência física (e não passa despercebida a maneira como sangue desempenha papel crucial nas diversas construções de sentido do filme).

A diretora Gabriela Amaral Almeida diz que O Animal Cordial representa o seu desejo pessoal de fazer um filme que ela própria nunca viu. E faz total sentido. Gênero que, no geral, objetifica ou despreza as mulheres ao assassiná-las das mais diferentes formas, o terror ganha aqui um exemplar raro, pois Gabriela usa a falência da masculinidade como espinha dorsal do filme, onde o único homem que mostra dignidade e retidão de caráter é justamente o cozinheiro gay. Enquanto isso, a presença feminina, centrada na figura de Luciana Paes, exerce influência direta em praticamente todos os acontecimentos do roteiro. Como um exemplar do terror slasherO Animal Cordial renega a misógina concepção de seu gênero, inclusive em uma poderosa cena de sexo, onde a mulher, novamente, é quem detém o controle absoluto.

Outro aspecto que chama a atenção é o elenco estelar e de primeiríssima qualidade, algo raro se tratando de obras específicas como essa. Murilo Benício, possivelmente no papel de sua vida, e Luciana Paes, uma atriz que segue despontando como uma das mais talentosas e autorais de sua geração, encabeçam o time de atores, acompanhados de coadjuvantes igualmente intensos, como Irandhir Santos, certeiro na caracterização de um cozinheiro que reivindica seus direitos profissionais e humanos, e Camila Morgado, representando a mulher rica que se vê em uma situação onde jamais imaginou que um dia pudesse estar. A presença e o comprometimento de profissionais reconhecidos como eles com um projeto cru, brutal e despudorado comprova o grande prestígio de um filme que, sim, deve satisfazer os dedicados fãs de terror, mas também impactar — e muito — quem estiver aberto a pensar o ser humano por outras vias que não sejam as tradicionais.

Melhores de 2017 – Filme

Filme que ficará para a posteridade independente da avaliação rasteira por boa parte do público e da crítica, Mãe! brilha por sua provocação e por sua falta de padrões, qualidades que, ao contrário do que se percebe na banalização do exercício da crítica de cinema, não deveriam ser tratadas como deméritos e sim como grandes qualidades. Darren Aronofsky, que fez o filme que bem entendeu, pouco se preocupando com o que qualquer pessoa (estúdio, público, crítica) acharia ou não de seu trabalho, restaura nossa fé não na realização de um cinema pretensioso, mas sim livre, autêntico e convicto. Rico em análises, o longa pode ser visto como uma releitura de questões bíblicas, como a via crucis do que é ser uma mulher sem voz em um mundo dominado por homens ou como o retrato do lado mais obscuro do amor, onde nos doamos e nos anulamos tanto que, ao fim, o que resta é simplesmente arrancar nossos corações para seguir em frente. E por que não colocar drama, suspense, guerra, metáforas, hipérboles e literalmente todo o universo dentro de uma casa para discutir tudo isso? Cinema que divide plateias, Mãe! terá o tempo ao seu lado, sendo lembrada infinitamente mais do que obras unanimemente premiadas mundo afora. Ainda disputavam a categoriaLa La Land: Cantando Estações, Logan, Manchester à Beira-Mar e Personal Shopper.

EM ANOS ANTERIORES: 2016 – Carol | 2015 – Mad Max: Estrada da Fúria | 2014 – Relatos Selvagens | 2013 – Gravidade | 2012 – Precisamos Falar Sobre o Kevin | 2011 – Harry Potter e as Relíquias da Morte – Parte 2 | 2010 – Direito de Amar | 2009 – Dúvida | 2008 – WALL-E | 2007 – O Ultimato Bourne

“O Processo”: o registro desolador de um pesadelo recente (e ainda presente)

É um jogo de cartas marcadas.

Direção: Maria Augusta Ramos

Roteiro: Maria Augusta Ramos

Brasil, 2018, Documentário, 142 minutos

Sinopse: O documentário acompanha a crise política que afeta o Brasil desde 2013 sem nenhum tipo de abordagem direta, como entrevistas ou intervenções nos acontecimentos. A diretora Maria Augusta Ramos passou meses no Planalto e no Congresso Nacional captando imagens sobre votações e discussões que culminaram com a destituição da presidenta Dilma Rousseff do cargo. (Adoro Cinema)

Abraçando a ideia de que a realidade pode ser mais chocante do que a ficção, a cineasta Maria Augusta Ramos realizou O Processo sem qualquer tipo de intervenção: o que se vê na tela durante os 142 minutos de projeção são imagens de bastidores do Planalto e do Congresso Nacional durante o andamento do processo de impeachment da presidente Dilma Rousseff. Não há depoimentos registrados especialmente para o documentário, tampouco condução de entrevistas ou análises de especialistas das áreas jurídicas, políticas ou econômicas. A matéria-prima do documentário são imagens já históricas, como a embaraçosa votação na Câmara dos Deputados e o discurso de despedida de Dilma como presidente do Brasil, complementadas por tudo o que a equipe capturou em seu acesso exclusivo a reuniões estratégicas realizadas ao longo do processo de impeachment da então presidente Dilma. Acreditado, com toda a razão, que as imagens por si só seriam suficientes para dar a devida dimensão do circo e da farsa montadas para destituir a primeira mulher governante do Brasil, Maria Augusta Ramos toca fundo não apenas na ferida de um sistema político seletivo e intransigente, mas também na desesperança de uma população que segue a deus-dará.

Boa parte dos políticos de direita negaram o acesso da equipe de filmagens aos seus bastidores, o que torna O Processo um documentário intimamente ligado aos discursos pró-Dilma, aqui centralizados em duas figuras protagonistas: o advogado José Eduardo Cardozo e a senadora Gleisi Hofmann. Mesmo com a limitação imposta pela política de direita, o documentário dá ampla visibilidade aos dois lados da trincheira quando recupera momentos-chave tanto dos bastidores quanto de sessões públicas. A diretora Maria Augusta Ramos e a montadora Karen Akerman ouvem os dois lados em todos os momentos cruciais, evitando qualquer acusação de terem selecionado depoimentos quando eles melhor serviam a algum posicionamento político do filme. E é aí que o fato da câmera só observar os bastidores faz a completa diferença: enquanto Dilma Rousseff e a cúpula do PT surgem racionais, objetivos e bem articulados, nomes da oposição como a jurista Janaína Paschoal, coautora do pedido de impeachment, beiram o descontrole, causando inclusive momentos de humor involuntário tamanha a quantidade de discursos que são mais passionais do que realmente argumentativos. 

Em ordem cronológica, O Processo coloca na tela um período nefasto e recente de nossa política que, desde agora, pode e deve ser visto com certa perspectiva. Sentado na sala de cinema para conferir uma longa narrativa sobre o impeachment, fica ainda mais clara a forma orquestrada, seletiva e irresponsável com que o esse processo foi conduzido, começando pela tenebrosa votação na Câmara dos Deputados que abre o documentário, onde Eduardo Cunha, presidente da Câmara, liderava o movimento pró-impeachment mesmo com incontáveis provas e acusações que deveriam ter lhe tirado do cargo antes mesmo de qualquer movimento contra a Dilma Rousseff. A partir daí, O Processo faz uma detalhada retrospectiva desse longo jogo de cartas marcadas, onde se percebe, a cada cena registrada, que os argumentos e os recursos bem defendidos pelo PT jamais teriam chance frente ao sistema imposto. O documentário causa um embrulho no estômago por conta disso: caso você não tenha percebido na época, agora está representado, com extrema clareza, que nada de fato poderia ser feito para reverter um jogo cujo resultado já estava decidido muito antes do início da partida.

Considerando a passionalidade, milhões de pessoas apoiavam a destituição da presidente, mas O Processo nos lembra que, independente de seu posicionamento, os fins não justificam os meios. E, nesse momento específico da trajetória brasileira, os meios foram escusos e suficientes para escancarar que a corrupção não é o mal de um partido, mas sim de toda uma sociedade. Impossível, no entanto, acusar O Processo de não problematizar a política de esquerda, por assim dizer: é essencial a cena em que os representantes do Partido dos Trabalhadores versam sobre as razões que levaram ao enfraquecimento da presidente e ao fortalecimento do pedido de impeachment. A falta de inserção de Dilma nos movimentos feministas e do próprio partido nas reivindicações populares despertam reflexões e autocríticas necessárias para a compreensão de toda a engrenagem que culminou no afastamento de Dilma, inclusive, e não menos importante, a relação com a imprensa, sempre tão difícil e parcial, mas tratada, de certa forma, como um simples argumento de vitimização do partido (conforme levantado pelo documentário, o PT foi o governo democrático que mais fechou rádios comunitárias em todo o Brasil, uma contradição difícil de justificar).  

Verdade seja dita que é quase impossível avaliar O Processo sem se deixar levar por posicionamentos políticos, mas essa é uma questão do próprio espectador, uma vez que o documentário faz o mínimo possível para influenciar plateias. Além de não ser propaganda eleitoral, o resultado estarrece justamente por sua narrativa sóbria, onde nem mesmo o nome de cada documentado aparece na tela. Prova maior disso são os simples, mas assombrosos letreiros finais que listam todas as mudanças políticas e sociais promovidas Michel Temer após assumir a presidência. Os fatos falam por si só e confirmam todo o interesse que havia por trás do impeachment, cujas razões oficiais que formalizaram o processo, no final das contas, dificilmente serão lembradas pela população. Como eleitor de Dilma (sinto que devia esclarecer isso, caso já não estivesse evidente pelo texto), fiquei, ao final da sessão, com um inconsolável sentimento tristeza por reviver tamanho pesadelo. Já como cinéfilo, há comemoração, pois O Processo é de uma dignidade tremenda —  e de uma relevância histórica indiscutivelmente urgente.

Melhores de 2017 – Direção

Não é apenas o talento que diferencia os grandes diretores dos demais: a convicção também é uma qualidade que faz toda a diferença. Darren Aronofsky sempre teve ambas as qualidades, e por isso mesmo não é à toa que sua filmografia é respeitadíssima e repleta de filmes inesquecíveis, como Réquiem Para Um SonhoCisne Negro e, agora, Mãe!, a obra mais polarizadora de 2018. Em seu melhor, ele sempre foi um diretor de personalidade marcante e de narrativas fortes, mas Mãe! é possivelmente o longa mais autêntico de sua carreira: ame ou odeie, você há de reconhecer que ele foi feito por alguém que queria levar suas escolhas ao limite, sem medo de que as ideias extremas pudessem afastar o público ou até mesmo os executivos de qualquer estúdio na fase embrionária do projeto. Aronofsky tem controle absoluto de seu filme, o que se percebe na forma claustrofóbica com que ele acompanha cada passo de Jennifer Lawrence em cena ou na grandiosidade técnica de uma história passada apenas em um casarão, mas que ganha leituras inegavelmente ambiciosas em termos técnicos e dramáticos. Maximizando cada detalhe com o talento sensorial que lhe é tão habitual, o diretor, a cada nova leitura provocada ou a cada potência explorada em tom, som e imagem, deixa o recado de que você pode dizer muitas coisas sobre ele, menos que ele não fez Mãe! do jeito que sempre quis: livre, convicto e sem abrir mão de qualquer uma de suas escolhas. Ainda disputavam a categoria: Damien Chazelle (La La Land: Cantando Estações), Jordan Peele (Corra!), Kenneth Lonnergan (Manchester à Beira-Mar) e Olivier Assayas (Personal Shopper).

EM ANOS ANTERIORES: 2016 – José Pedro Goulart (Ponto Zero) | 2015 – George Miller (Mad Max: Estrada da Fúria) | 2014 – David Fincher (Garota Exemplar) | 2013 – Alfonso Cuarón (Gravidade) | 2012 – Leos Carax (Holy Motors) | 2011 – Darren Aronofsky (Cisne Negro) | 2010 – Christopher Nolan (A Origem) | 2009 – Danny Boyle (Quem Quer Ser Um Milionário?) | 2008 – Paul Thomas Anderson (Sangue Negro) | 2007 – Alejandro González Iñárritu (Babel)

Melhores de 2017 – Elenco

Pouco antes de ganhar um amplo e merecido reconhecimento pelo drama Me Chame Pelo Seu Nome, o diretor italiano Luca Guadagnino havia assinado uma outra pérola que, no geral, foi subavaliada pela crítica, ignorada pelos prêmios e preterida no circuito comercial. Trata-se de Um Mergulho no Passado, refilmagem do francês A Piscina, dirigido por Jacques Deray em 1969. O remake por si só é bem conduzido e rico em leituras, mas a preciosidade do elenco é um show à parte, onde dois veteranos centralizam a força dramática da trama: Tilda Swinton, vivendo uma cantora de rock que passa basicamente o tempo inteiro sem falar (sua personagem se recupera de uma cirurgia nas pregas vocais), e Ralph Fiennes, que é o completo oposto como o ex-namorado que ressurge depois de anos como um estonteante furacão verbal. E se Dakota Fanning misteriosamente consegue imprimir aqui a malícia e a sexualidade que inexistiam nos três capítulos da franquia Cinquenta Tons de Cinza, o belga Matthias Schoeanaerts se sai muito bem ao vencer a sua indiscutível beleza para dar vida a um homem comum que, de certa maneira, tenta ser a normalidade em meio a figuras tão pulsantes e extremas entre si. Na maratona de entrevistas concedidas para o lançamento do filme, Guadagnino revelou que esse era, até então, o melhor grupo de atores com quem  já havia trabalhado. Basta assistir ao resultado para entender por completo tal afirmativa. Ainda disputavam a categoriaComo Nossos PaisEstrelas Além do TempoO Estranho Que Nós AmamosMoonlight: Sob a Luz do Luar.

EM ANOS ANTERIORES: 2016 – Animais Noturnos | 2015 – Birdman ou (A Inesperada Virtude da Ignorância) |  2014 – Relatos Selvagens | 2013 – Álbum de Família | 2012 – O Impossível | 2011 – Tudo Pelo Poder | 2010 – Minhas Mães e Meu Pai | 2009 – Dúvida | 2008 – Vicky Cristina Barcelona | 2007 – Bobby

Melhores de 2017 – Atriz

Jennifer Lawrence se tornou a jovem atriz mais bem sucedida dos últimos anos em Hollywood por uma série de razões, entre elas as colaborações com o diretor David O. Russell, as frequentes indicações ao Oscar e o sucesso grandioso da franquia Jogos Vorazes. Ao mesmo tempo, a superexposição prejudicou imensamente a atriz: em determinado ponto, ela estava em todos os lugares, aparecia em todo tipo de entrevista, virava notícia por qualquer coisa e até interpretava papeis que claramente não se encaixam com seu perfil, mas que ainda assim lhe rendiam novas indicações ao Oscar (Joy – O Home do Sucesso é o caso mais questionável nesse sentido). Lawrence, enfim, havia se tornado uma atriz expansiva também em frente às câmeras: não havia filme em que ela passasse despercebida ou papel que não a iluminasse em cena. Até chegar Mãe!, que pode ser hiperbólico em muita coisa, menos no desempenho de sua protagonista.

Oportunidades não faltaram para que Lawrence também o fosse, já que o diretor Darren Aronofsky optou, por exemplo, por estar sempre com a câmera grudada no rosto do atriz, fazendo com que não exista qualquer cena do filme sem a sua presença. E Lawrence, apesar da imensa tentação, não cai na vaidade: ao abandonar propositalmente a sua tão marcante persona, ela está contida e neutra como poucas vezes na carreira, o que reflete uma maturidade muito marcante da intérprete, aqui totalmente alinhada com essa personagem sem voz, reprimida, apática e intimidada pela principal figura masculina de sua vida. A neutralidade da atriz é consciente e certeira, trazendo o equilíbrio perfeito para um filme deliciosamente estonteante, mas que Lawrence, mesmo em baixa fervura e na contracorrente de todo o tom da obra, jamais deixa engoli-la. Ainda disputavam a categoria: Emma Stone (A Guerra dos Sexos), Jessica Chastain (Armas na Mesa), Kate Winslet (Roda Gigante) e Kristen Stewart (Personal Shopper).

EM ANOS ANTERIORES: 2016 – Isabelle Huppert (Elle) | 2015 – Camila Márdila e Regina Casé (Que Horas Ela Volta?) | 2014 – Rosamund Pike (Garota Exemplar| 2013 – Adèle Exarchopoulos (Azul é a Cor Mais Quente| 2012 – Tilda Swinton (Precisamos Falar Sobre o Kevin| 2011 – Kirsten Dunst e Charlotte Gainsbourg (Melancolia| 2010 – Carey Mulligan (Educação| 2009 – Kate Winslet (Foi Apenas Um Sonho| 2008 – Meryl Streep (Mamma Mia!| 2007 – Marion Cotillard (Piaf – Um Hino ao Amor)

Melhores de 2017 – Fotografia

Nova prova de que prêmios são muito relativos é saber que o mestre Roger Deakins ganhou seu primeiro Oscar apenas em 2018, quando, aos 68 anos, ergueu a estatueta por Blade Runner 2049. Ainda que tardia, a consagração é mais do que merecida, pois o longa se destaca dentro da filmografia de um diretor de fotografia que, ao longo de uma grande carreira, compôs muitas das mais belas imagens do cinema norte-americano contemporâneo. Parte da imponência do longa assinado por Denis Villeneuve vem da fotografia de Deakins, que não procurou emular o longa original do diretor Ridley Scott. Em 2049, a fotografia é baseada em uma minuciosa pesquisa que Deakins revela ter feito sobre a relação entre arquitetura e iluminação, o que contribuiu diretamente na sua proposta de fazer com que cada cenário, seja ele grandioso ou não, fosse capturado de maneira viva e influente em seu respectivo universo. Mais do que isso, a magnífica relação estabelecida entre luz, sombra e cores permeia todo o filme: é ela que define o quanto vemos e somos impactados por sequências fundamentais da drama. Até mesmo para um veterano talentosíssimo como Deakins, essa é uma fotografia que está realmente um degrau acima de todas as outras. Ainda disputavam a categoriaDunkirk, La La Land: Cantando Estações, Moonlight: Sob a Luz do Luar e Roda Gigante.

EM ANOS ANTERIORES: 2016 Ponto Zero | 2015 – Macbeth: Ambição e Guerra | 2014 – Ida | 2013 – Gravidade | 2012 – As Aventuras de Pi | 2011 – A Árvore da Vida | 2010 – Direito de Amar | 2009 – Quem Quer Ser Um Milionário? | 2008 – Ensaio Sobre a Cegueira

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