Cinema e Argumento

Os vencedores do Emmy 2020

Regina King conquista seu quarto Emmy em apenas cinco anos. Prêmio por Watchmen faz Regina empatar com Alfre Woodard com a atriz negra mais premiada na trajetória do Emmy.

Ao contrário do que as expectativas sugeriam e de tudo que tem sido realizado em nível mundial no tocante a realizações de festivais e premiações no formato online, o Emmy 2020 resolveu com grande esmero o desafio de fazer uma cerimônia interessante em circunstâncias tão atípicas. Tudo funcionou: com humor, dinamismo e interação, a premiação conseguiu reunir os indicados em uma grande videochamada e trouxe alguns nomes pontuais para o próprio palco onde Jimmy Kimmel apresentava. De casa, os vencedores recebiam suas estatuetas, o que rendeu momentos bastante divertidos, especialmente em surpresas como a de Zendaya em melhor atriz por Euphoria, por exemplo. Com essa vitória, aliás, Zendaya se torna a mais jovem atriz a se consagrar na categoria e a apenas a segunda intérprete negra a ganhar o prêmio (inacreditavelmente, a primeira foi Viola Davis, somente em 2015, por How to Get Away With Murder).

Por falar em surpresas, o Emmy 2020 nos reservou poucas. Além de Zendaya, vale a menção para a vitória de Nada Ortodoxa em melhor direção para uma minissérie, desbancando o trabalho brilhante de Stephen Williams no episódio “This Extraordinary Being”, de Watchmen. Por outro lado, não há o que se reclamar dos favoritismos que se confirmaram: tanto Watchmen quanto Succession são realmente as melhores produções da temporada em seus respectivos segmentos, inaugurando um novo momento de glória para a HBO, que, nos últimos anos, parecia refém de prêmios protocolares para Game of ThronesWatchmen, em particular, marca época pela forma com que renova o exercício de adaptar uma história em quadrinhos e por trazer uma quarta estatueta para a maravilhosa Regina King, que agora empata com Alfre Woodard como a atriz negra mais premiada na história do Emmy.

História também foi feita entre as comédias com a celebração massiva de Schitt’s Creek. A série, que exibiu sua última temporada no início deste ano, faturou todos os prêmios principais: melhor série, direção, roteiro, elenco, atriz, ator, atriz coadjuvante e ator coadjuvante. Somente uma produção havia conquistado tal feito até então: a inesquecível minissérie Angels in America, dirigida pelo saudoso Mike Nichols e com um elenco formado por grandes nomes como Meryl Streep, Al Pacino e Emma Thomspon. Schitt’s Creek está definitivamente em excelente companhia.

Confira abaixo a lista de vencedores:

MELHOR SÉRIE DE DRAMASuccession
MELHOR ATRIZ EM SÉRIE DE DRAMA: Zendaya (Euphoria)

MELHOR ATOR EM SÉRIE DE DRAMA: Jeremy Strong (Succession)
MELHOR ATRIZ COADJUVANTE EM SÉRIE DE DRAMA: Julia Garner (Ozark)
MELHOR ATOR COADJUVANTE EM SÉRIE DE DRAMA: Billy Crudup (The Morning Show)
MELHOR DIREÇÃO EM SÉRIE DE DRAMA: Andrij Parekh (Succession, pelo episódio “Hunting”)
MELHOR ROTEIRO EM SÉRIE DE DRAMA: Jesse Armstrong (Succession, pelo episódio “This is Not for Tears”)
MELHOR SÉRIE DE COMÉDIASchitt’s Creek
MELHOR ATRIZ EM SÉRIE DE COMÉDIA: Catherine O’Hara (Schitt’s Creek)
MELHOR ATOR EM SÉRIE DE COMÉDIA: Eugene Levy (Schitt’s Creek)
MELHOR ATRIZ COADJUVANTE EM SÉRIE DE COMÉDIA: Annie Murphy (Schitt’s Creek)
MELHOR ATOR COADJUVANTE EM SÉRIE DE COMÉDIA: Daniel Levy (Schitt’s Creek)
MELHOR DIREÇÃO EM SÉRIE DE COMÉDIA: Andrew Cividino e Daniel Levy (Schitt’s Creek, pelo episódio “Happy Ending”)
MELHOR ROTEIRO EM SÉRIE DE COMÉDIA: Daniel Levy (Schitt’s Creek, pelo episódio “Happy Ending”)
MELHOR MINISSÉRIEWatchmen
MELHOR DIREÇÃO EM MINISSÉRIE: Maria Schrader (Nada Ortodoxa)

MELHOR TELEFILMEBad Education
MELHOR ATRIZ EM MINISSÉRIE/TELEFILME: Regina King (Watchmen)
MELHOR ATOR EM MINISSÉRIE/TELEFILME: Mark Ruffalo (I Know This Much is True)
MELHOR ATRIZ COADJUVANTE EM MINISSÉRIE/TELEFILME: Uzo Aduba (Mrs. America)
MELHOR ATOR COADJUVANTE EM MINISSÉRIE/TELEFILME: Yahya Abdul-Mateen II (Watchmen)

Apostas para o Emmy 2020

Uma cerimônia atípica para um ano atípico: devido à pandemia do Coronavírus, o Emmy revelará os vencedores de 2020 através de um em evento inteiramente virtual. Caso siga o exemplo dos prêmios técnicos entregues até aqui, tudo não passará de chamadas dos indicados gravadas anteriormente, cenas de cada um dos concorrentes e anúncio seguido de discursos também gravados com antecedência (os boatos dão conta de que a organização pediu para que todos os indicados gravassem um agradecimento caso vençam). Tudo sem muita graça, mas seguindo o formato daquilo que é possível realizar em tempos tão complexos.

No que se refere a apostas, o favoritismo está mais do que declarado para SuccessionWatchmen, ambas da HBO, líderes de indicações nos seus respectivos segmentos e merecedoras de toda e qualquer coração. Já entre as comédias, tudo indica que Schitt’s Creek seja reconhecida por sua última temporada, ainda que seja prudente não subestimar o carinho dos votantes por The Marvelous Mrs. Maisel. A TNT transmite a cerimônia virtual a partir das 21h deste domingo (20).

Confira a nossa lista de apostas:

MELHOR SÉRIE DE DRAMASuccession / alt: Ozark
MELHOR ATRIZ EM SÉRIE DE DRAMA: Laura Linney (Ozark) / alt: Jennifer Aniston (The Morning Show)

MELHOR ATOR EM SÉRIE DE DRAMA: Brian Cox (Succession) / alt: Steve Carell (The Morning Show)
MELHOR ATRIZ COADJUVANTE EM SÉRIE DE DRAMA: Meryl Streep (Big Little Lies) / alt: Julia Garner (Ozark)
MELHOR ATOR COADJUVANTE EM SÉRIE DE DRAMA: Billy Crudup (The Morning Show) / alt: Matthew Macfadyen (Succession)
MELHOR SÉRIE DE COMÉDIA: Schitt’s Creek / alt: The Marvelous Mrs. Maisel
MELHOR ATRIZ EM SÉRIE DE COMÉDIA: Catherine O’Hara (Schitt’s Creek) / alt: Rachel Brosnahan (The Marvelous Mrs. Maisel)
MELHOR ATOR EM SÉRIE DE COMÉDIA: Ramy Yousseff (Ramy) / alt: Eugene Levy (Schitt’s Creek)
MELHOR ATRIZ COADJUVANTE EM SÉRIE DE COMÉDIA: Alex Borstein (The Marvelous Mrs. Maisel) / alt: Annie Murphy (Schitt’s Creek)
MELHOR ATOR COADJUVANTE EM SÉRIE DE COMÉDIA: Tony Shalhoub (The Marvelous Mrs. Maisel) / alt: Daniel Levy (Schitt’s Creek)
MELHOR MINISSÉRIE: Watchmen / alt: Mrs. America
MELHOR TELEFILME: Bad Education / alt: American Son
MELHOR ATRIZ EM MINISSÉRIE/TELEFILME: Regina King (Watchmen) / alt: Shira Haas (Unorthodox)
MELHOR ATOR EM MINISSÉRIE/TELEFILME: Mark Ruffalo (I Know This Much is True) / alt: Hugh Jackman (Bad Education)
MELHOR ATRIZ COADJUVANTE EM MINISSÉRIE/TELEFILME: Jean Smart (Watchmen) / alt: Toni Collette (Unbelievable)
MELHOR ATOR COADJUVANTE EM MINISSÉRIE/TELEFILME: Jovan Adepo (Watchmen) / alt: Yahya Abdul-Mateen II (Watchmen)

48º Festival de Cinema de Gramado #2: evento começa nesta sexta-feira (18) em formato multiplataforma

Cidade conta com decoração e Tapete Vermelho, mas evento acontece somenete na tela do Canal Brasil e nas redes sociais oficiais do Festival. Foto: Cleiton Thiele/Pressphoto

Hoje começa o 48º Festival de Cinema de Gramado. Pela primeira vez desde 2011, quando comecei a subir a Serra Gaúcha para acompanhar ou trabalhar no evento, não poderei fazer uma cobertura diária ao longo da programação. O motivo, no entanto, é nobre: neste ano, fui convidado a integrar o júri da crítica do Festival ao lado de Amanda Aouad, Caroline Zatt da Silva, Isabel Wittmann e Lúcio Vilar. É uma honra tremenda fazer parte desse quinteto, e estou desde já ansioso para conferir o que nos aguarda nas mostras de longas brasileiros, longas estrangeiros e curtas estrangeiros (o júri da crítica entrega um Kikito para o melhor filme de cada um desses segmentos).

Por fazer parte desse júri, obviamente não poderei escrever críticas sobre eles durante o evento, mas, após a entrega dos Kikitos, compartilharei com vocês as minhas impressões sobre os filmes aqui no blog. A programação que começa hoje (18) e se estende até o dia 26 poderá ser conferida nacionalmente, já que o 48º Festival de Cinema de Gramado acontece em formato multiplataforma, com exibição de filmes e homenagens no Canal Brasil (TV e streaming) e demais programações, debates e painéis nas redes sociais oficiais do evento (Facebook, Instagram e YouTube). O longa-metragem brasileiro que abre a programação, a partir das 20h, é Por Que Você Não Chora?, de Cibele Amaral. Confira aqui a programação completa. 

Cinema e Argumento de volta ao YouTube!

Depois de quase três anos, o canal do Cinema e Argumento retoma agora as suas atividades no YouTube!

Nele, compartilharei dicas de filmes que considero excelentes e que merecem ser (re)descobertos, em diferentes plataformas. Além das críticas, essa nova temporada traz entrevistas com muita gente bacana e que eu admiro. O vídeo que inaugura essa reestreia faz uma breve análise sobre Luce, um drama muito instigante e provocativo que não chegou a passar nos cinemas brasileiros, mas que já está disponível em streaming.

Desde já, aproveito para deixar registrado aqui o meu imenso agradecimento a todos os convidados que toparam participar das entrevistas até agora e a todos que me aconselharem e me incentivaram na concepção dessa versão repaginada do canal. É um trabalho singelo, mas feito com muita dedicação e carinho. Outro detalhe importante: todos os vídeos contam com legendas produzidas e revisadas especialmente para esses conteúdos, buscando incluir a população surda.

Por fim, deixo ainda um agradecimento muito especial para o meu amigo Acauã Brondani, responsável pela linda edição dos vídeos, e para o Rodolfo Moschen, que assina a maravilhosa identidade visual do blog e do canal.

Os conteúdos serão publicados semanalmente. Espero vocês lá!

Rapidamente: “Má Educação”, “Música Para Morrer de Amor”, “Palm Springs” e “O Tempo Com Você”

Hugh Jackman e Allison Janney em Má Educação: dupla entrega excelentes performances para uma história que se constrói a partir da desconstrução de seus personagens.

MÁ EDUCAÇÃO (Bad Education, 2019, de Cory Finley): Baseado na maior fraude envolvendo o sistema público de ensino dos Estados Unidos, o ótimo Má Educação, da HBO, explora o desmoronamento pessoal e profissional de personagens que se apropriaram do dinheiro destinado ao orçamento da Roslyn High School em benefício de suas próprias despesas particulares e familiares. E não qualquer dinheiro: cerca de 11 milhões de dólares foi o montante desviado pelo esquema que se tornou público em 2004. A melhor sacada do roteiro escrito por Mike Makowsky, com base no artigo “The Bad Superintenent”, de Robert Kolker, é não encenar como se deu essa grande fraude, e sim apresentar personagens aparentemente perfeitos para logo em seguida lançar a bomba do escândalo, desconstruindo cada um deles. A partir daí, começa um efeito dominó que funciona ainda mais para o público pouco familiarizado com a história real, pois é intrigante tentar entender quem faz parte de um crime que, de início, parece ter pequenas dimensões. Ao construir personagens através de suas respectivas desconstruções, Má Educação ganha força como uma experiência surpreendente, de ritmo envolvente e com uma atmosfera propositalmente incômoda (vale, por exemplo, prestar atenção nos tons frios da fotografia e na trilha sonora nada óbvia de Michael Abels). Elogios também se estendem a Hugh Jackman e Allison Janney, ambos excelentes. Jackman, ator com outros desempenhos admiráveis na carreira (Os Suspeitos, LoganOs Miseráveis), acerta na vaidade engessada e na perfeição artificial de um homem que, tentando preservar as aparências, passa a perder o controle de tudo a sua volta. Já Janney, em papel coadjuvante, usa seu vasto repertório como uma talentosa intérprete para introduzir parte das as dúvidas e das desconstruções responsáveis por nortear o filme como um todo. Má Educação é outro acerto acerto muito bem-vindo na tradição tão característica da HBO de entregar ótimos telefilmes.

MÚSICA PARA MORRER DE AMOR (idem, 2020, de Rafael Gomes): Coautor do roteiro do belo De Onde Eu Te Vejo, Rafael Gomes volta a falar sobre relacionamentos amorosos na imensidão da cidade de São Paulo, dessa vez em forma de mosaico, acompanhando as turbulências românticas de vários personagens jovens que, apesar de decepções e sofrimentos, seguem acreditando no amor. Entre um coração partido e outro, Música Para Morrer de Amor traz uma trilha sonora com canções sobre as dores de se apaixonar, rendendo inclusive uma divertida sessão de karaokê onde Caio Horowicz e Denise Fraga cantam “Não Aprendi a Dizer Adeus”, a clássica música eternizada na voz da dupla Leandro e Leonardo. Contudo, o filme funciona melhor na teoria do que na prática. Talvez o principal problema seja a dificuldade do espectador em criar uma real conexão com personagens pouco empáticos e centrados nas especificidades da classe média branca, jovem e paulista. E mais: é difícil criar laços com figuras que fazem de tudo para sabotar os seus sentimentos e o dos outros. Na medida em que isso faz parte, claro, do confuso processo de se apaixonar e manter uma relação, Música Para Morrer de Amor prefere ilustrar tal turbilhão emocional com o máximo de atitudes erradas ou imaturas entre os personagens para, ao longo disso, refletir sobre as consequências desses atos e os sentimentos acerca deles com frases de efeito que parecem pensadas para postagens de Instagram. Isso pode ser reflexo da natureza teatral do projeto, uma vez que o roteiro é inspirado no espetáculo Música Para Cortar os Pulsos, também da autoria de Rafael e vencedor do prêmio APCA de Melhor Peça Jovem. Ainda assim, sinto falta de uma maior delicadeza e concisão nessa transposição, características que ele mesmo já havia apresentado ao discutir diferentes vertentes dos relacionamentos no já citado De Onde Eu Te Vejo, onde, aí sim, tive plena facilidade em me identificar ou me solidarizar com as atitudes tortuosas dos personagens em relação ao amor. 

PALM SPRINGS (idem, 2020, de Max Barbakow): A comparação imediata é com Feitiço do Tempo, mas Palm Springs pouco se assemelha a essa adorada comédia dos anos 1990 estrelada por Bill Murray. À parte o fato de que ambos falam sobre protagonistas presos na repetição de um mesmo dia, Palm Springs apresenta para a plateia um personagem que há muito tempo já habita essa realidade. Ou seja, o roteiro escrito por Andy Siara não segue o longo e tradicional arco introdutório onde Nyles (Andy Samberg) descobre a cada cena uma nova particularidade de um estranho universo. O momento é outro: há anos confinado nessa misteriosa condição, ele de repente vê sua rotina abalada quando Sarah (Cristin Milioti) passa a viver a mesma realidade. O cenário é a festa de um casamento, onde, cercados de dezenas de pessoas, eles são os únicos que vivem juntos uma infinita repetição. Nesse confinamento, é claro que surge um interesse romântico entre os dois, o que mais uma vez não é desculpa para que Palm Springs seja óbvio: renegando caminhos tradicionais, o roteiro explora as particularidades de personagens agradáveis, descolados e carismáticos em um recorte que encena a diversão de amigos-logo-apaixonados em um universo onde eles podem fazer qualquer coisa sem consequência alguma (e o clima de festa de casamento ajuda muito nesse sentido!) quanto refletir sobre suas vidas passadas, a falta de perspectiva de um futuro e as sensações felizes e conturbadas de construir um relacionamento em uma circunstância deveras inimaginável. Em breves 90 minutos, o diretor Max Barbakow confere personalidade e muita graça ao resultado, impulsionado pela química de alta sintonia entre Andy Samberg e Cristin Milioti. É o tipo de entretenimento que, especialmente agora em um ano tão difícil como 2020, surge como uma excelente opção para aqueles dias em que queremos desligar a cabeça e curtir uma sessão com boas vibrações.

O TEMPO COM VOCÊ (Tenki No Ko, 2019, de Makoto Shinkai): Aos 44 anos, o diretor Makoto Shinkai viu Your Name, seu quinto longa-metragem, ultrapassar A Viagem de Chihiro, do mestre Hayao Miyazaki, como a maior bilheteria já registrada por um anime em escala mundial. É o caso onde o hype está proporcionalmente de acordo com a qualidade trabalho em questão: apesar da premissa batida, Your Name se desdobra como uma animação originalíssima e empolgante que jamais subestima o espectador (não por acaso, Hollywood já desenvolve uma adaptação live action dirigida por Marc Webb, ainda sem data prevista de estreia). O sucesso estrondoso inevitavelmente acabou criando expectativas em torno do trabalho seguinte de Shinkai, e o resultado é O Tempo Com Você, onde ele volta a pegar uma premissa muito simples para desfiá-la com um olhar mais adulto e menos previsível. O foco desse novo trabalho é a relação entre um jovem que foge sozinho para Tóquio e uma garota da sua mesma faixa de idade que tem o poder de controlar o tempo (não o do relógio, mas sim a chuva, o sol, o frio…). O Tempo Com Você lança um olhar muito adulto para a vida urbana, onde os dois protagonistas, apesar de muito jovens, enfrentam problemas financeiros, solidão, carências e angústias, tudo em meio a uma Tóquio reproduzida com impressionante realismo em suas lindas arquiteturas. É um espetáculo visual belíssimo, no padrão de tudo que Shinkai faz, mas aqui a influência de todo o peso de Your Name se faz sentir, já que há uma perceptível vontade do diretor em querer repetir a fórmula desse filme que lhe trouxe um recorde mundial. A última meia hora de O Tempo Com Você em especial é similar demais a Your Name, inclusive no que se refere à questão estética, com frames que parecem transferidos de um filme para o outro. O uso excessivo de uma trilha com canções sentimentais para dar emoção ao clímax também nos remete à vontade, seja ela involuntária ou não, de Shinkai evocar seu trabalho anterior, que, vale lembrar, ainda é comparativamente superior em objetividade de tramas, duração e ritmo.

48º Festival de Cinema de Gramado #1: com edição híbrida para TV e streaming, evento apresenta lista de filmes concorrentes e homenagens

Exibido no Festival de Berlim, Todos os Mortos, de Caetano Gotardo e Marco Dutra, integra a competição de longas brasileiros do 48º Festival de Cinema de Gramado, que será realizado de forma híbrida.

Mais uma vez em clima de reinvenção, o Festival de Cinema de Gramado, a exemplo de outros eventos brasileiros do gênero durante a pandemia do Coronavírus, realizará a sua 48ª edição em formato híbrido. A novidade, além de coerente e bem-vinda, é pioneira: toda a programação será transmitida pelo Canal Brasil (TV e streaming), incluindo os filmes em competição. E as expectativas são várias: dos novos longas de Ruy Guerra, Felipe Bragança e Camilo Cavalcante, até documentários sobre grandes figuras da música brasileira como Alcione e Sidney Magal, passando pelo aguardado Todos os Mortos e três títulos dirigidos por mulheres, Gramado preserva o seu status de festival de cinema mais importante do Brasil, agora sob a curadoria do trio Marcos Santuario, Soledad Villamil e Pedro Bial. Todos os títulos brasileiros, assim como os estrangeiros (oriundos de nada menos do que sete países diferentes), são inéditos em território nacional. Outros 33 curtas em competição ainda serão exibidos no Canal Brasil, em uma iniciativa que levará o cinema do evento serrano para plateias antes nunca alcançadas em território nacional. É uma solução criativa e democrática para um festival que, em 48 anos de trajetória, nunca deixou de realizar uma edição sequer. Cinema é o que não vai faltar para ficar em casa!

Também atendendo o formato online, as homenagens serão entregues a um quarteto de respeito. Marco Nanini receberá o Troféu Oscarito, dedicado a grandes atores do cinema brasileiro. Vale lembrar que Nanini recentemente protagonizou Greta, um dos papeis mais marcantes e desafiadores de toda a sua carreira, reforçando o belo momento dessa homenagem. Já a diretora Laís Bodanzky, diretora de ótimos filmes como Bicho de Sete CabeçasChega de SaudadeComo Nossos Pais, receberá o Troféu Eduardo Abelin, destinado a profissionais que trabalham atrás das câmeras. Não só a distinção é justa como também vem embrulhada por um ótimo timing: hoje Bodanzky faz uma excelente gestão como presidente da Spcine, empresa municipal de fomento ao audiovisual da cidade de São Paulo. Considerando o cinema latino-americano, o ator uruguaio César Troncoso fica com o Kikito de Cristal, que já foi entregue a nomes como Cecilia Roth, musa de Pedro Almodóvar.

Por fim, a maravilhosa Denise Fraga fica com o troféu Cidade de Gramado. Nesse caso, no entanto, faço uma observação: criado em 2012, o troféu segue sem um conceito muito definido (já chegou tanto a homenagear o aniversário de Sargento Getúlio como a carreira do cartunista Mauricio de Sousa!), seguidamente celebrando nomes dignos de Oscarito, a distinção mais antiga e emblemática do evento. Foi assim com Wagner Moura, Rodrigo Santoro e, agora, Denise Fraga. Atriz ativa e prolífera, Denise já atuou em mais de 25 filmes, indo do comercial ao autoral. Ela ainda passou por clássicos como O Auto da Compadecida e chegou a conquistar um Kikito de melhor atriz pelo longa Por Trás do Pano, dirigido por Luiz Villaça, seu companheiro de vida e carreira. Toda homenagem entregue a Denise é merecida, mas sou da opinião de que, assim como outros colegas celebrados com o Cidade de Gramado, a estatura de seu talento como intérprete merecia ser reservada à tradição e ao emblema do Troféu Oscarito.

O 48º Festival de Cinema de Gramado acontecerá entre os dias 18 e 26 de setembro. Mais informações podem ser conferidas no site oficial do evento. Confira abaixo a lista completa de filmes concorrentes:

LONGAS-METRAGENS BRASILEIROS
Um Animal Amarelo, de Felipe Bragança (RJ)
Aos Pedaços, de Ruy Guerra (RJ)
King Kong em Asunción, de Camilo Cavalcante (PE)
Me Chama Que Eu Vou, de Joana Mariani (SP)
Por Que Você Não Chora?, de Cibele Amaral (DF)
O Samba é Primo do Jazz, de Angela Zoé (RJ)
Todos os Mortos, de Caetano Gotardo e Marco Dutra (SP)

LONGAS-METRAGENS ESTRANGEIROS
Dias de Inverno, de Jaiziel Hernández (México)
La Frontera, de David David (Colômbia)
Los Fuertes, de Omar Zúñiga (Chile)
El Gran Viaje al País Pequeño, de Mariana Viñoles (Uruguai)
Matar a un Muerto, de Hugo Giménez (Paraguai)
El Silencio del Cazador, de Martin Desalvo (Argentina)
Tu Me Manques, de Rodrigo Bellott (Bolívia)

CURTAS-METRAGENS BRASILEIROS
4 Bilhões de Infinitos, Marco Antonio Pereira (MG)
Atordoado, Eu Permaneço Atento, de Henrique Amud e Lucas H. Rossi dos Santos (RJ)
O Barco e o Rio, de Bernardo Ale Abinader (AM)
Blackout, de Rossandra Leone (RJ)
Dominique, de Tatiana Issa e Guto Barra (RJ)
Extratos, de Sinai Sganzerla (SP)
Inabitável, de Matheus Farias e Enock Carvalho (PE)
Joãosinho da Goméa: O Rei do Candomblé, de Janaina Oliveira ReFem e Rodrigo Dutra (RJ)
Receita de Caranguejo, de Issis Valenzuela (SP)
Remoinho, de Tiago A. Nevers (PB)
Subsolo, de Erica Maradona e Otto Guerra (RS)
Trincheira, de Paulo Silver (AL)
Você Tem Olhos Tristes, de Diogo Leite (SP)
Wander Vi, de Augusto Borges e Nathalya Brum (DF)

CURTAS-METRAGENS GAÚCHOS (PRÊMIO ASSEMBLEIA LEGISLATIVA)
Bochincho – O Filme, de Guilherme Suman (Porto Alegre)
O Céu da Pandemia, de Marina Kerber (Porto Alegre)
Construção, de Leonardo da Rosa (Pelotas)
Corpo Mudo, de Marcela Schild (Santa Cruz do Sul)
Desencanto, de Richard Tavares (Porto Alegre)
Deserto Estrangeiro, de Davi Pretto (Porto Alegre)
Dois Homens ao Mar, de Gabriel Motta (Porto Alegre)
Fragmentos ao Vento, de Ulisses da Motta (Porto Alegre)
Lacrimosa, de Matheus Heinz (Porto Alegre)
Letícia Monte Bonito, de Julia Regis (Pelotas)
O Luto Impossível, de Bruno Carboni (Porto Alegre)
Magnética, de Marco Arruda (Porto Alegre)
Um Pedal, de Alexandre Derlam (Canoas)
Pra Ficar Perto, de Lucas dos Reis (Sapucaia do Sul)
Quando Te Avisto, de Denise Copetti e Neli Mombelli (Santa Maria)
O Que Pode Um Corpo?, de Victor Di Marco e Márcio Picoli (Bagé)
Sopa Noir, de Beatrice Petry Fontana (São Leopoldo)
Teste de Elenco, de Marcos Kligman e Mariany Espíndola (Porto Alegre)
Ver a Vista, de Daniel de Bem (Porto Alegre)

Três atores, três filmes… com Ronaldo Trancoso Jr.

Trocar ideias com pessoas apaixonadas por cinema sempre foi um dos meus prazeres favoritos nesse ofício de escrever sobre filmes na internet. Raras são as vezes, no entanto, que a gente se depara com colegas cinéfilos tão ponderados, democráticos e com um alto nível de conhecimento como o Ronaldo Trancoso Jr., criador do blog Cinematic Tips e colaborador dos blogs Trash to Tarkovsky e You! Me! Dancing. Destaco essas qualidades no Ronaldo pois admiro a forma como ele se utiliza do seu próprio conhecimento para propôr novos olhares, questionar o que está aí pré-estabelecido e estimular o público a ser o mais plural possível na busca por novos filmes. Aliás, basta vocês também acompanharem o Twitter do Ronaldo para saber do que eu estou falando. Garanto que, muito mais do que se informar sobre tudo o que está rolando no cinema e também nas temporadas de premiações, vocês encontrarão opiniões bem posicionadas e que fogem do lugar-comum. Não por acaso, as escolhas dele para a coluna não poderiam fugir disso. Do Brasil à China, temos três mulheres maravilhosas selecionadas por desempenhos que indiscutivelmente marcam as suas respectivas carreiras. Valeu, Ronaldo!

Marcélia Cartaxo (A Hora da Estrela)
Com muita sutileza, Marcélia Cartaxo deu vida a uma das personagens mais arrebatadoras da nossa literatura. Na adaptação do livro de Clarice Lispector, Cartaxo nos faz lembrar que todos já tivemos uma Macabéa dentro de nós em algum momento. A delicadeza da atriz nos cativa do início ao fim, revelando toda a profundidade da personagem em olhares que ficam para sempre na memória. Curiosamente, Cartaxo conseguiu o mesmo efeito no recente Pacarrete, mais uma prova de sua facilidade para mesclar drama com leveza.

Michelle Pfeiffer (Batman: O Retorno)
A atuação de Michelle Pfeiffer em Batman: O Retorno sempre me fascinou, não só por sua presença física inesquecível, mas também pela complexidade da performance. A entrega total da atriz faz da personagem uma figura trágica e multifacetada, sem nunca deixar de mostrar sua vulnerabilidade, até nos momentos em que precisa intimidar outras pessoas. Antagonistas assim, cheios de nuances, sempre foram uma raridade em blockbusters, geralmente povoados por vilões unidimensionais. Selina Kyle é uma pessoa que, mesmo tomando as rédeas do próprio destino, continua marcada por traumas e conflitos internos, que se refletem em cada fala e gesto de Pfeiffer. O desempenho da atriz é tão fantástico que fica difícil escolher sua cena mais icônica.

Tao Zhao (As Montanhas se Separam)
Quando assisti a As Montanhas se Separam, estava numa das piores fases da minha vida. Eis que dei uma chance a este filme de Jia Zhangke e senti novamente o poder transformador do cinema. A atuação fenomenal de Tao Zhao foi fundamental para isso. A cada bola curva lançada sobre a personagem, a atriz carrega um mundo de emoções em seu semblante, mostrando uma evolução constante até o desfecho catártico do filme, que coroa Zhao como uma das melhores atrizes de sua geração.

Os indicados ao Emmy 2020

Regina King em Watchmen: com 26 indicações, minissérie criada por Damon Lindelof e produzida pela HBO lidera lista e é favorita absoluta entre as minisséries.

Mesmo com o Coronavírus se alastrando de forma latente nos Estados Unidos, o Emmy permanece firme e forte com a data inicialmente programada para a sua cerimônia de premiação, seja ela em qual formato for. No dia 20 de setembro, portanto, conheceremos os vencedores da lista de indicados divulgada hoje (28), que traz Watchmen, da HBO, liderando com o maior número de menções entre todos os segmentos. Foram 26 indicações para a minissérie criada por Damon Lindelof, um número surpreendente até mesmo para os que estavam mais otimistas com a performance do programa entre os votantes. Essa imensa justiça se estende a outros dois seriados: Succession, também da HBO, e Ozark, uma produção original Netflix, ambas com 18 indicações cada no segmento dramático. Já entre as comédias, The Marvelous Mrs. Maisel lidera acumulando 20, mesmo em seu momento menos cativante. 

Há uma boa notícia a ser comemorada no Emmy 2020: 34,3% dos atores indicados este ano são negros, o maior número já registrado na premiação. Também há evolução no espaço para as mulheres: seis dos nove roteiros indicados por minisséries/telefilmes são assinados por mulheres, assim como quatro dos seis episódios indicados a direção. Sabemos que o caminho a ser percorrido ainda é longo e que muito dessa pluralidade vem do fato de que a TV e o streaming há muitos anos têm se mostrado mercados menos conservadores do que o cinema, mas é importante celebrar vitórias que já dão indícios de um futuro mais democrático, justo e igual em oportunidades. Ainda em números, a Netflix está no topo com 160 indicações para seus projetos contra 107 da HBO, invertendo o cenário de liderança visto no ano passado. No entanto, a Netflix ainda espera pelo dia em que uma de suas séries vencerá o prêmio principal. Parece que novamente não será dessa vez…

Por ora, aqui estão alguns comentários pontuais (e muito pessoais) sobre os indicados:

Watchmen e Succession são tudo isso que suas indicações sugerem, provando que a HBO ficou sem ressaca alguma após a era Game of Thrones. Na verdade, dá até para reivindicar mais indicações para ambas: enquanto a primeira deveria ter rendido a Tim Blake Nelson uma lembrança entre os coadjuvantes, a segunda poderia ter incluído Holly Hunter ao lado de Cherry Jones e Harriet Walter na disputa de atrizes convidadas. Em suma, qualquer resultado diferente da consagração de Watchmen e Succession será motivo de choque…

– Empatada com Succession no número de indicações, Ozark parecia destinada a render mais. Ainda que tenha, por exemplo, indicação tripla na categoria de roteiro, a série estrelada por Jason Bateman e Laura Linney ficou sem duas de suas indicações mais essenciais pela terceira temporada: ator coadjuvante para Tom Pelphrey e atriz coadjuvante para Janet McTeer;

– A briga será de foice entre as coadjuvantes de série dramática. Resultado de novas regras do Emmy, temos nada menos do que oito concorrentes: de Meryl Streep a Laura Dern por Big Little Lies, passando por grandes nomes como Helena Bonham Carter em The Crown e Fiona Shaw em Killing Eve, a antigas vencedoras como Thandie Newton (Westworld) e Julia Garner (Ozark), é praticamente impossível tentar adivinhar a futura vencedora. É o tipo de disputa que dá gosto de ver — não pela quantidade, e sim pela qualidade;

– Outra competição acirradíssima é a de atriz em série dramática. A categoria que nos reservou a surpresa de ver Zendaya (Euphoria) chegando de última hora após ter passado em branco nos demais prêmios televisionados confirmou o que era esperado: pelo menos três atrizes disputam o favoritismo. Será a vez de Olivia Colman (The Crown), vencedora do último Globo de Ouro? Ou então de Jennifer Aniston (The Morning Show), que já levou o Screen Actors Guild Awards para casa? E como não colocar Laura Linney (Ozark) na dianteira por sua melhor temporada na série e pelo seu histórico invicto no Emmy, onde já foi premiada por todos os papéis que concorreu?;

– Seguindo na pauta de atrizes, é criminoso o esquecimento de Merrit Wever e Kaitlyn Dever como protagonistas de Unbelievable no segmento de minisséries. Toni Collette, com uma pequena fraude de categoria, garantiu a lembrança entre as coadjuvantes, mas é a clássica situação em que as indicações só fazem real sentido quando todas estão na disputa. Não há justificativa para tal esquecimento, especialmente quando Unbelievable concorre como melhor minissérie, o que comprova o apreço dos votantes pelo programa em um ano muito disputado;

– Considerando as devidas dimensões, outras ausências e descompassos que me bateram de forma muito particular envolvem I Know This Much is True (concorre somente em melhor ator pelo grandioso desempenho de Mark Ruffalo quando merecia muito mais), Years and Years (uma das experiências mais marcantes da temporada e sequer citada em qualquer categoria) e The Great (série criada pelo roteirista de A Favorita que misteriosamente emplacou lembranças em direção e roteiro, mas não em melhor série ou para seu excelente elenco).

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Confira abaixo a lista de indicados: 

MELHOR SÉRIE DE DRAMA
Better Call Saul
The Crown
The Handmaid’s Tale
Killing Eve
The Mandalorian
Ozark
Stranger Things
Succession

MELHOR ATRIZ EM SÉRIE DE DRAMA
Jennifer Aniston (The Morning Show)
Jodie Comer (Killing Eve)
Laura Linney (Ozark)
Olivia Colman (The Crown)
Sandra Oh (Killing Eve)
Zendaya (Euphoria)

MELHOR ATOR EM SÉRIE DE DRAMA
Billy Porter (Pose)
Brian Cox (Succession)
Jason Bateman (Ozark)
Jeremy Strong (Succession)
Sterling K. Brown (This is Us)
Steve Carell (The Morning Show)

MELHOR ATRIZ COADJUVANTE EM SÉRIE DE DRAMA
Fiona Shaw (Killing Eve)
Helena Bonham Carter (The Crown)
Julia Garner (Ozark)
Laura Dern (Big Little Lies)
Meryl Streep (Big Little Lies)
Samira Wiley (The Handmaid’s Tale)
Sarah Snook (Succession)
Thandie Newton (Westworld)

MELHOR ATOR COADJUVANTE EM SÉRIE DE DRAMA
Billy Crudup (The Morning Show)
Bradley Whitford (The Handmaid’s Tale)
Giancarlo Esposito (Better Call Saul)
Jeffrey Wright (Westworld)
Kieran Culkin (Succession)
Mark Duplass (The Morning Show)
Matthew Macfadyen (Succession)
Nicholas Braun (Succession)

MELHOR SÉRIE DE COMÉDIA
Curb Your Enthusiasm
Dead to Me
The Good Place
Insecure
The Kominsky Method
The Marvelous Mrs. Maisel
Schitt’s Creek
What We Do in the Shadows

MELHOR ATRIZ EM SÉRIE DE COMÉDIA
Catherine O’Hara (Schitt’s Creek)
Christina Applegate (Dead to Me)
Issa Rae (Insecure)
Linda Cardellini (Dead to Me)
Rachel Brosnahan (The Marvelous Mrs. Maisel)
Tracee Ellis Ross (Black-ish)

MELHOR ATOR EM SÉRIE DE COMÉDIA
Anthony Anderson (Black-ish)
Don Cheadle (Black Monday)
Eugene Levy (Schitt’s Creek)
Michael Douglas (The Kominsky Method)
Ramy Yousseff (Ramy)
Ted Danson (The Good Place)

MELHOR ATRIZ COADJUVANTE EM SÉRIE DE COMÉDIA
Annie Murphy (Schitt’s Creek)
Alex Borstein (The Marvelous Mrs. Maisel)
Betty Gilpin (GLOW)
Cecily Strong (Saturday Night Live)
D’Arcy Carden (The Good Place)
Kate McKinnon (Saturday Night Live)
Marin Hinkle (The Marvelous Mrs. Maisel)
Yvonne Orji (Insecure)

MELHOR ATOR COADJUVANTE EM SÉRIE DE COMÉDIA
Alan Arkin (The Kominsky Method)
Andre Braugher (Brooklyn Nine-Nine)
Daniel Levy (Schitt’s Creek)
Kenan Thompson (Saturday Night Live)
Mahershala Ali (Ramy)
Sterling K. Brown (The Marvelous Mrs. Maisel)
Tony Shalhoub (The Marvelous Mrs. Maisel)
William Jackson Harper (The Good Place)

MELHOR MINISSÉRIE
Little Fires Everywhere
Mrs. America
Unbelievable
Unorthodox
Watchmen

MELHOR TELEFILME
American Son
Bad Education
Dolly Parton’s Heartstrings: These Old Bones
El Camino: A Breaking Bad Movie
Unbreakable Kimmy Schmidt: Kimmy vs. The Reverend

MELHOR ATRIZ EM MINISSÉRIE/TELEFILME
Cate Blanchett (Mrs. America)
Kerry Washington (Little Fire Everywhere)
Octavia Spencer (Self Made)
Regina King (Watchmen)
Shira Haas (Unorthodox)

MELHOR ATOR EM MINISSÉRIE/TELEFILME
Hugh Jackman (Bad Education)
Jeremy Irons (Watchmen)
Jeremy Pope (Hollywood)
Mark Ruffalo (I Know This Much is True)
Paul Mescal (Normal People)

MELHOR ATRIZ COADJUVANTE EM MINISSÉRIE/TELEFILME
Holland Taylor (Hollywood)
Jean Smart (Watchmen)
Margo Martindale (Mrs. America)
Toni Collette (Unbelievable)
Tracey Ullman (Mrs. America)
Uzo Aduba (Mrs. America)

MELHOR ATOR COADJUVANTE EM MINISSÉRIE/TELEFILME
Dylan McDermott (Hollywood)
Jim Parsons (Hollywood)
Jovan Adepo (Watchmen)
Louis Gossett Jr (Watchmen)
Tituss Burgess (Unbreakable Kimmy Schmidt: Kimmy vs. The Reverend)
Yahya Abdul-Mateen II (Watchmen)

* Categorias de direção, roteiro, variedades, reality shows e outros segmentos técnicos podem ser encontrados no relação completa de indicados disponibilizada em inglês pelo Emmy.

Das salas de cinema para o streaming: como ressignificar a condição de espectador e crítico a partir da pandemia?

* texto originalmente escrito para o site da Associação de Críticos de Cinema do Rio Grande do Sul

A pandemia do Coronavírus colocou o mundo de pernas para o ar e fez o isolamento social se tornar um dos pilares de prevenção e contenção em um cenário indiscutivelmente grave. Para os bem afortunados, privilegiados e empáticos que tiveram condições de aderir às medidas de isolamento, importantes reflexões vêm se apresentando quando o único universo físico que habitamos é a nossa própria casa. Afinal, sem o que realmente não conseguimos viver? Quais hábitos podem ser substituídos? Como adaptar para dentro de casa aquilo que nos deixa minimamente em dia com a nossa sanidade?

Pertencendo a esse grupo que se viu repentinamente isolado, descobri que posso, na medida em que o contexto exige até segunda ordem, viver sem muitas coisas, como um passeio de bicicleta em um sábado pela manhã ou uma noite com os amigos em uma mesa de bar. Também posso adaptar outras: o trabalho, antes restrito a um escritório, por exemplo, agora se revela perfeitamente viável no regime home office. Descobri, no entanto, que sem uma coisa de fato não posso viver: os filmes.

O cenário, até pouco tempo atrás, era inimaginável: gravações paralisadas, possíveis projetos engavetados indefinidamente, aguardadas estreias sem nova data para encontrar o público, emblemáticos festivais de cinema como o de Gramado realizados apenas em formato online… À parte a romantização de que não há experiência equiparável a assistir a uma obra em uma sala de cinema, creio que não podemos mesmo viver sem cinema. Toda arte teve esse poder potencializado agora: o de nos (re)conectar com o mundo, de nos levar a diferentes lugares, de despertar o exercício da empatia e de expandir o nosso repertório humano e intelectual quando o mundo tanto sofre.

Por isso, como não reverenciar a força e a revolução das plataformas de streaming que já se tornaram parte sólida dos nossos hábitos cinematográficos? Sem estreias, eventos e salas de cinema, espectadores do mundo inteiro voltaram-se exclusivamente ao streaming para continuar consumindo filmes, quando não aos links de obras gentilmente disponibilizadas de forma gratuita por realizadores como incentivo à necessidade do isolamento social. Ao migrarmos para esse formato de exibição, outro desafio se apresentou: nos vimos obrigados a repensar nossas condições como espectadores e críticos.

Sem calendário de estreias — e agora?

Para todos aqueles guiados pelas estreias semanais, o susto é imediato: qual a alternativa para um mundo com cada vez menos filmes inéditos? Tenho a resposta muito clara para mim. Ora, por que não ir atrás de todas aquelas obras que, devido à correria da rotina e à sedução de tantos filmes novos entrando em cartaz em um “mundo normal”, ficavam de lado nas nossas listas. Ou então desbravar novas narrativas, realizadores que não conhecemos e gêneros que não são os que costumamos consumir? É, enfim, uma bela oportunidade para mergulhar na pluralidade tão inerente ao cinema e que, em muitos casos, as plataformas de streaming barram com algoritmos pensados para o público assistir sempre o mesmo tipo de produção.

Nesse sentido, é inquestionável o papel crucial e até mesmo pioneiro da Netflix, por exemplo, na popularização exponencial dos streamings e na criação dessa nova cultura que envolve assistir filmes e séries em casa, mas vale sempre lembrar: há toda uma galáxia a ser descoberta, com plataformas para todos os gostos e bolsos. Como na infinidade de canais de uma TV por assinatura, não só podemos como devemos consumir de tudo um pouco. Dos clássicos do cinema japonês a títulos brasileiros contemporâneos, as plataformas de streaming estão aí, pedindo para serem descobertas, cada uma com suas respectivas propostas e particularidades. Por que se limitar a só uma delas?

Um exercício que me parece ainda mais gratificante do que alternar democraticamente entre streamings como Prime Video, Spcine Play, Looke, Now, Hulu, MUBI, Belas Artes à La Carte, é fazer uma lista própria do que queremos ver, sem consultar as plataformas, e, a partir dela, buscar onde esses filmes estão disponíveis. Afirmo sem medo de errar que esse é um belo exercício porque, ao fazê-lo recentemente, fiquei bastante surpreso com o aumento de variedade e a disponibilidade de obras de diferentes perfis. Está disponível no Looke, por exemplo, A Hora da Estrela, dirigido por Suzana Amaral, que nos deixou recentemente. Em plataformas mais populares como Netflix e Globoplay, títulos como Estou Me Guardando Para Quando o Carnaval Chegar, de Marcelo Gomes, e Ausência, do saudoso Chico Teixeira, também estão prontos para serem (re)vistos. E, no Now, temos inclusive clássicos do Mazzaroppi!

Garimpando pérolas do nosso cinema

Cito títulos brasileiros porque sabemos o quanto os longas produzidos nacionalmente, em especial aqueles menores e mais independentes, sofrem para encontrar espaço no circuito exibidor tradicional das salas de cinema, onde correm o risco de ficar restritos a horários limitados e durante poucas semanas em cartaz. Pois as plataformas de streaming dão lugar e vez para esses trabalhos, mesmo que em iniciativas com prazo de validade, como o Espaço Itaú Play, que recentemente exibiu, em regime de pré-estreia, filmes como Pacarrete, Três Verões, Aos Olhos de Ernesto e Música Para Morrer de Amor, que, em uma realidade sem pandemia, não chegariam a moradores de todos os estados do Brasil e dependeriam de um bom retorno do público para sobreviver em cartaz por mais de um mês.

A pluralidade dos streamings aponta ainda para outro aspecto muito importante e que, até pouco tempo atrás, poderia ser visto com preocupação: o da preservação da memória, que começou a evaporar quando o mercado testemunhou a extinção das videolocadoras e o desinteresse do público hiper conectado pela mídia física. Para onde iriam os filmes raros que só encontrávamos em uma videolocadora? Onde seria possível conferir aquele longa independente e autoral que você milagrosamente só encontrava na coleção de um amigo e que não tinha espaço no catálogo de streamings que, recém surgidos, apontavam para uma predileção por obras de senso mais comum?

Durante muito tempo, como um orgulhoso colecionador de DVDs e blu-rays, vivi essa angústia, mas hoje é com otimismo que encaro tal questão ao encontrar nos streamings obras que, mesmo na era da mídia física, caíram no limbo ao sequer serem lançadas no mercado, como Gretchen Filme Estrada, excelente documentário de Eliane Brum e Paschoal Samora que foge da armadilha de ser um mero relato sobre a vida da cantora Gretchen para se tornar uma reflexão sobre a decadência artística e para discutir, de forma até profética, aspectos políticos do nosso Brasil que hoje vivemos de forma tão clara e escancarada. Sem lançamento em DVD, o filme estava há anos desaparecido, fora de alcance por meios legais, e agora pode novamente ser e descoberto pelo Looke.

Seguindo a linha da pluralidade de plataformas e de preservar a memória especificamente do cinema brasileiro fora do circuito mainstream, cito outros dois documentários que (re)descobri ao me confrontar com uma relação mais próxima com os streamings em tempos de isolamento social. O primeiro é Bixa Travesty, de Cláudia Priscilla e Kiko Goifman, um instigante estudo de personagem que, a partir da vida e da música da cantora transexual Linn da Quebrada, desafia o espectador a ressignificar conceitos e tabus envolvendo identidade, gênero, raça, sexualidade e liberdade. Premiado no Festival de Berlim com o Teddy de melhor documentário, Bixa Travesty teve passagem tímida pelos cinemas brasileiros, mas hoje ganha visibilidade nacional no catálogo do Now.

Já o segundo é O Caso do Homem Errado, dirigido por Camila de Moraes. Mais urgente do que nunca, a história do operário negro Júlio César — que, ao ser confundido com um assaltante, foi executado pela Polícia Militar do Rio Grande do Sul, no dia 14 de maio de 1987 — recupera um triste acontecimento que, mesmo depois de três décadas, reverbera em carne viva, expondo a cultura ainda racista e segregacionista de um Brasil inteiro. Mulher, negra e, por isso mesmo, munida de lugar de fala, Camila narra O Caso do Homem Errado com emoção e sem meias palavras, interseccionando a eterna e incansável busca por direitos humanos, a reivindicação por uma sociedade antirracista e a história muito íntima de Júlio César, cuja vida interrompida ganha traços comoventes especialmente nos depoimentos de sua esposa. Também com passagem limitada pelos cinemas, o filme está disponível gratuitamente no Looke.

Explorar streamings para expandir olhares

Citando brevemente esses títulos, percebo novamente a importância de ampliar nossos horizontes como críticos e espectadores. Não é sobre se tornar o estereótipo do crítico exigente, técnico e chato que já foi até parodiado em animação da Pixar, mas de perceber que o mundo (e consequentemente a arte) é muito maior do que o algoritmo popular da Netflix ou o confortável calendário de grandes estreias que tanto guia a busca por sessões ao redor do mundo. Estar em casa e com uma infinidade de plataformas à disposição reforça esse exercício por vezes esquecido na correria do dia a dia de valorizar a pluralidade que o “circuitão” não costuma reconhecer.

No tocante ao cinema produzido aqui no Brasil, dar musculatura e esse tipo de hábito é também um grito de resistência para manter viva, atuante e visível uma produção cinematográfica que, já sistematicamente sabotada antes mesmo da pandemia, agora terá de enfrentar os difíceis efeitos desse cenário global para se reerguer, como se as políticas de desmonte do atual governo Bolsonaro já não fossem penosas o suficiente. Quando valorizamos filmes de gêneros diferentes, dirigidos por mulheres, com narrativas negras e descentralizados do eixo Rio-São Paulo, fortalecemos nosso pequeno grande papel no incentivo a nossa cinematografia.

Claro que sou suspeito para falar, mas a crítica de cinema, hoje já definitivamente imersa na cultura do streaming como um caminho sem volta, parece de grande ajuda para apontar novas tendências, fugir do lugar-comum, educar diferentes olhares e incrementar a formação cinematográfica das plateias, respeitando sempre, claro, as respectivas bagagens, afinidades e preferências de cada espectador. Cada vez mais, estamos aqui para isso.

“Crítica em Transe”: promovido pela ACCIRS, debate entre críticos reflete sobre nossa relação com o streaming na pandemia

A pandemia do Coronavírus transformou a nossa relação com o cinema? Onde é possível encontrar opções que fogem dos catálogos habituais oferecidos pelas plataformas de streaming mais populares? O ritual de assistir a filmes tem se modificado?

Fui convidado pela Associação de Críticos de Cinema do Rio Grande do Sul (ACCIRS) a participar de um bate-papo com outros colegas da crítica sobre cinema em tempos de pandemia. Na conversa, fomos desde o cinema japonês dos anos 1950 até pérolas do cinema brasileiro contemporâneo, refletindo sobre nossa relação com as plataformas de streaming. Conversam comigo os queridos colegas e associados da ACCIRS, Fatimarlei Lunardelli e Renato Cabral.

Assista ao debate na íntegra:

Maratona de séries em tempos de pandemia: “I Know This Much is True”, “The Good Fight”, “Homecoming”, “Mrs. America” e “The New Pope”

“I Know This Much is True” (HBO, minissérie)

O diretor Derek Cianfrance, que já havia estraçalhado meu coração anos atrás com Namorados Para Sempre, adapta o romance homônimo de Wally Lamb para contar a trágica odisseia de dois irmãos gêmeos fadados à dor desde a infância. Um deles é esquizofrênico. O outro tenta seguir a vida de alguma forma mesmo sendo o único porto seguro do irmão. Ambos são interpretados por Mark Ruffalo, que nunca esteve tão bem em toda a sua carreira, apoiado por um elenco feminino de dar inveja (Kathryn Hahn, Rosie O’Donell, Archie Panjabi, Melissa Leo). E a excelente notícia é que I Know This Much is True não cede à clássica tentação de focar no irmão esquizofrênico para mostrar como Ruffalo é bom ator. O que Cianfrance faz é contar tudo sob o ponto de vista do irmão que tenta atravessar a vida sem deixar que a doença do outro defina seus caminhos e escolhas, ainda que, no final das contas, ele não consiga escapar disso.

Poucas vezes vimos tanta desgraça reunida quanto nessa minissérie da HBO: qundo parece que não é mais possível piorar, I Know This Much is True surge com outra paulada. Boa parte desse impacto também vem de um talento muito característico de Cianfrance: o de pincelar a dor através da nossa relação com o tempo, exatamente como vimos em Namorados Para Sempre, onde íamos e voltávamos na história de um casal para entender a sua ruína, ou no subestimado O Lugar Onde Tudo Termina, forte drama sobre como certas feridas são passadas de geração para geração. No caso de I Know This Much is True, o diretor opta novamente pelos flashbacks. Entre a ideia de que certas vidas parecem amaldiçoadas e a tese de que seria muito fácil culpar o destino ao invés de assumir nossas próprias escolhas, a minissérie termina por calibrar muito bem o retrato do sofrimento, sem jamais soar apelativa. Tudo que está nessa dolorosa crônica não passa mesmo de vida real. Uma experiência para os fortes.

“The Good Fight” (CBS All Access, 4ª temporada)

O spin-off da clássica The Good Wife foi diretamente afetada pela pandemia, que impediu a equipe de concluir três dos 10 episódios previstos para essa temporada. A incompletude é sentida na tela, uma vez que fica difícil julgar a quarta temporada porque muitos arcos e conflitos não foram concluídos, como o mistério do Memo 618, responsável por boa parte do entretenimento desses episódios disponibilizados. Da forma como foi exibida, a temporada tem seus problemas: participações especiais que nada acrescentam (personagens inesquecíveis como Louis Canning e David Lee dão às caras sem fazer muita diferença para a história), a protagonista Diane Lockhart (Christine Baranski, sempre impecável) é frequentemente jogada para o campo dos coadjuvantes e alguns atores começam a parecer dispensáveis (não à toa, Delroy Lindo e Cush Jumbo anunciaram sua saída do programa). Já o humor muito particular da série e a identidade que ela construiu com grande esmero se desvinculando de The Good Wife nos últimos anos permanecem intactos.

É perceptível o quanto os criadores Robert e Michelle King recuaram na questão política que tanto marcou o terceiro ano, quando The Good Fight se tornou, com uma subestimada inspiração, a série mais posicionada do ponto de vista político na indústria norte-americana. Tal recuo é um erro, mesmo que o público tenha reclamando do viés excessivamente político. Isso porque, na nova leva de episódios, temos um claro exemplo de como a fórmula pode render episódios brilhantes. Falo especificamente de The Gang Deals with Alternate Reality, onde Diane Lockhart, vivendo um delírio, acorda nos Estados Unidos onde Hillary Clinton ganhou as últimas eleições presidenciais. Inspirado e divertido, o episódio promove importantes reflexões do ponto de vista republicano e democrata, ousando até mesmo ao propôr a tese de que, sem o machismo da campanha e do governo de Donald Trump, movimentos como o #MeToo talvez sequer tivessem vindo à tona. A série já está renovada para uma quinta temporada.

“Homecoming” (Prime Video, 2ª temporada)

É uma desnecessária continuação para a temporada anterior, que tinha na presença de Julia Roberts como protagonista uma imensa ancoragem. Pois Julia não volta (agora só assina como produtora executiva) e quem assume o protagonismo é a “cantriz” Janelle Monáe, cuja presença em nenhum momento preenche a tela ou instiga o espectador. Aliás, quem rouba a cena é mesmo a tailandesa Hong Chau, que tinha papel pequeno na primeira temporada e que esteve em Watchmen, uma das minisséries mais brilhantes de 2019. O segundo ano não se trata necessariamente de um spin-off, pois em partes descobrimos que a trama existe para dar conclusão e expandir conflitos da primeira leva de episódios. A tentativa de conectar os dois anos do programa é falha, especialmente se levarmos em consideração o quanto a hipnotizante estética de Homecoming não consegue sequer dosar algum interesse pela trama fria e vazia.

Com apenas sete episódios de meia hora (três a menos que a temporada anterior), essa sequência frustra inclusive em aspectos mais estruturais, como o fato de parecer um filme picotado em sete partes. Vale perceber como são vários os episódios que dizem muito pouco e acabam sequer tento uma lógica própria, sem falar nos frágeis ganchos deixados a cada desfecho, que não chegam nem perto de estimular a curiosidade como acontecia quando Julia Roberts era protagonista. Fica a sensação de prato requentado, embora tentativas não faltem, a exemplo das aquisições de Chris Cooper e Joan Cusack para o elenco (os dois, contudo, estão reduzidos a papeis subutilizados ou um tanto confusos). Não era de se esperar que Homecoming sucumbisse à previsibilidade e a alguns vícios tão cedo. Sem ter repercutido com público e crítica, o segundo ano pode ser o último do seriado, já que uma nova temporada ainda não foi confirmada.

“Mrs. America” (FX, minissérie)

Mrs. America é um prato cheio caso você seja o tipo de espectador que encontra certo fascínio ao se deparar com personagens detestáveis. Afinal, como não ter os nervos testados por Phyllis Schlafly (Cate Blanchett), a anti-feminista ultraconservadora que fez de tudo para barrar o avanço dos direitos das mulheres nos Estados Unidos durante a década de 1970? Como pano de fundo, a minissérie da FX traz a famosa luta de diversas feministas pela Emenda dos Direitos Iguais (Equal Rights Amendment, em inglês), proposta à Constituição dos Estados Unidos para garantir direitos legais iguais para todos os cidadãos americanos, independentemente do sexo. A ironia é que Schlafly, decidida a sabotar a implementação dessa emenda em todos os cantos dos Estados Unidos, usufruía justamente daquilo que tanto queria tirar das mulheres: entre outros itens, a possibilidade de trabalhar, ter uma carreira e ser independente. Para ela, a população feminina deveria servir ao lar e à família, enquanto ela própria viajava o país e fazia uma carreira reconhecida pelos republicanos conservadores.

Narrada em nove partes, Mrs. America tem todos os episódios com uma mulher na direção e divide o protagonismo de cada uma de suas passagens entre diferentes coadjuvantes que atravessam toda a trama, como a Gloria Steinem de Rose Byrne ou a Bella Abzug de Margo Martindale. Ainda assim, é a partir da figura de Phyllis Schlafly que o programa se desdobra, mostrando como cada uma das ativistas feministas reage à essa figura ultraconservadora inicialmente tratada como piada, mas logo encarada como uma ameça real a importantes lutas. Faz muito bem a minissérie ter esse rodízio de personagens e centrar suas perspectivas no discurso contraditório de uma figura polêmica como Schlafly, interpretada com traços tão complexos quanto detestáveis pela excelente Cate Blanchett. São duas escolhas que arejam Mrs. America e que impedem o programa de ser um daqueles relatos históricos tão convencionais, didáticos e produzidos apenas para mimetizar a vida real como um documentário.

“The New Pope” (HBO/SKY, 2ª temporada)

Sou fã incondicional da temporada anterior, intitulada The Young Pope, onde Jude Law nunca esteve tão inspirado e o cineasta italiano Paolo Sorrentino filmava com sua imponência habitual vista também em títulos como o belo longa-metragem A Juventude. A ideia de uma continuação parecia bacana, mas, conferindo esse segundo ano, penso que poderiam ter ficado apenas com o primeiro. Aqui há aquela famosa tomada de consciência que faz o espectador perceber o quanto um diretor está dedicado a ampliar e repetir os elementos de um projeto anterior. Pois é exatamente isso o que Sorrentino, também autor do roteiro dos nove episódios ao lado de Stefano Bises e Umberto Contarello, faz em The New Pope, uma produção muito mais escrachada, satírica e explícita do que a temporada anterior. O espectro de coadjuvantes também ganha mais espaço, muitas vezes pulverizando o protagonismo agora entregue a John Malkovich. Resultado: com tudo ampliado, The New Pope perde em sutilezas.

Outro aspecto importante para balizarmos os deslizes dessa continuação é o pouco tempo de tela dado a Jude Law, que faz muita falta como o sempre enigmático, sedutor e capcioso Pius XIII. Por razões explicadas na trama e que não serão reproduzidas aqui para evitar spoilers, seus holofotes são transferidos para John Malkovich, visivelmente entretido com as palavras e os maneirismos de um personagem interessante, embora muito longe de representar o fascínio daquele vivido por Jude Law. Não por acaso, Law domina todo o seu limitado espaço em cena e ainda sobrevive aos fracos conflitos do terço final da temporada. Sorrentino continua levantando pontos importantes e interessantes sobre a fé (destaque para a discussão envolvendo a mini-rebelião de um grupo de feiras que decide enfrentar o patriarcado tão marcante do catolicismo), mas a corda foi esticada mais do que deveria, quase descaracterizando a fluidez de provocações e emoções registradas no primeiro ano. Não há pistas de que existirá uma nova temporada.

“Três Verões”: brilho habitual de Regina Casé domina mistura de drama e comédia sobre o desmoronamento dos ricos brasileiros

É tanta coisa difícil nessa vida, né?

Direção: Sandra Kogut

Roteiro: Iana Cossoy Paro e Sandra Kogut

Elenco: Regina Casé, Rogério Fróes, Otávio Müller, Gisele Fróes, Jéssica Ellen, Daniel Rangel, Vilma Mello

Brasil/França, 2019, Comédia/Drama, 93 minutos

Sinopse: ​A cada verão, entre Natal e Ano-Novo, o casal Edgar e Marta recebe amigos e familiares na sua mansão espetacular à beira-mar. Em 2015 tudo parece ir bem, mas em 2016 a mesma festa é cancelada. O que acontece com aqueles que gravitam em torno dos ricos e poderosos quando a vida deles desmorona? Através do olhar de uma empregada e de um velho patriarca, ambos vítimas do sonho neoliberal, vemos um retrato do Brasil contemporâneo.​

Um carinho em meio a tempos tão difíceis no Brasil e no mundo, a iniciativa do Espaço Itaú de Cinema de viabilizar por streaming, ainda que em tempo limitado, a exibição de filmes brasileiros inéditos, muitos deles previstos para estrear nos meses sufocados pela pandemia do Coronavírus, trouxe na programação títulos para todos os gostos e outros tantos que vinham despertando grande curiosidade. Um deles é Três Verões, mistura de drama e comédia dirigida por Sandra Kogut que teve sua primeira exibição mundial na mostra World Contemporary Cinema do Festival de Toronto em 2019. Antes de qualquer coisa, julgo fundamental fazer uma ampla defesa para esse longa já nas linhas gerais de sua proposta: ao contrário do que comparações simplistas podem apontar, Três Verões não traz a brilhante Regina Casé se repetindo no papel de uma mulher humilde que presta serviços domésticos para uma família rica. Reduzir a performance de Regina, bem como as discussões de Três Verões em si, a uma reciclagem da inesquecível Val de Que Horas Ela Volta? ou da adorável Lurdes da novela Amor de Mãe é um desserviço à atriz e à experiência proporcionada pelo novo trabalho de Sandra Kogut.

Ao lado de Iana Cossoy, a diretora criou um roteiro estruturado, como o título indica, em três tempos. Sempre às vésperas das festas de Natal e Ano Novo, Madá (Regina Casé) vê o desmoronamento moral e financeiro da família rica que paga o seu salário, a partir de fatos não exatamente explicitados para o espectador, mas suficientemente claros para que o público compreenda o quanto tudo parte de ações da Operação Lava-Jato. Fragmentar os acontecimentos entre três recortes pontuais surte efeito positivo, fazendo de Três Verões um filme muito fluido e agradável de se acompanhar, onde a trama sempre desperta curiosidade pelo que está por vir logo quando vemos o letreiro anunciando a chegada de um verão diferente. Uma discussão, no entanto, define o centro dramático de Três Verões, inclusive a cada salto temporal: a de como ainda vivemos tempos em que a vida dos empregados é diretamente definida pela vida de quem paga seus salários em quase todos os sentidos. Isso quer dizer que, na medida em que Edgar (Otávio Müller) se vê em maus lençóis, é questão de pouquíssimo tempo para que Madá também tenha muitos dos seus seus sonhos e recursos confiscados.

A título de comparação temática, se Que Horas Ela Volta? mostrava um Brasil em que pessoas de origem humilde já conseguiam dar um grito de independência e escrever capítulos importantes de sua história sem depender dos patrões, Três Verões registra o retrocesso vivido pelo Brasil nos últimos anos, onde toda a vida de uma empregada é empurrada para dentro do redemoinho de trambiques provocado pelo provedor de seu salário. De mãos atadas e sem ter para onde ir, ela passa a buscar formas de se sustentar, fazendo também do filme de Kogut uma divertida carta de amor ao poder de reinvenção de uma classe batalhadora. Confinada na mansão sem os patrões, Madá faz alguns bazares, aluga quartos da casa em um Airbnb e arruma outras maneiras de sustentar minimamente essa mansão agora decadente onde tantos outros empregados aguardam salários cada vez mais atrasados. E aí Três Verões se torna delicioso e divertido de se acompanhar, encontrando graça e bom humor em momentos super cotidianos, todos ligados à doce humildade de pessoas que aprenderam desde sempre a lidar com as adversidades da vida.

Entre esses momentos, Kogut aproveita para cultivar aqui e ali símbolos muito pertinentes à história, como o pato inflável que flutua na piscina da família rica e que, na vida real, foi símbolo das manifestações contra o governo da ex-presidente Dilma Rousseff. É possível deduzir muito sobre os patrões ausentes com apenas esse detalhe. Aliás, chama a atenção como Três Verões tem todo o desenrolar da trama ligado a personagens que aparecem muito pouco, mas que conhecemos o bastante, inclusive porque Otávio Müller é um expert em interpretar homens comuns definidos pela mediocridade de seus atos. Contudo, por alguma razão, o filme nunca chega a criar a mesma musculatura vista em outros títulos brasileiros, mais alegóricos ou não, que se assemelham a ele na questão de registrar um momento recente do Brasil. Sim, Três Verões é divertido de acompanhar, combina esperteza e uma linguagem acessível para agradar diversas plateias e tem uma estrutura bem trabalhada, mas talvez tenha um certo descompasso ao criar involuntariamente uma protagonista maior do que a própria história.

A ênfase no involuntário se faz necessária porque Madá ganha contornos luminosos no desempenho mais uma vez milagroso de Regina Casé. É impressionante como Regina tem o talento de se aproximar do espectador. Sua habilidade em observar aspectos cotidiano do povo brasileiro — a pose, os costumes, o temperamento, o humor — é uma fonte inesgotável de criação, e por isso mesmo fiz questão de começar esse texto reforçando a importância de percebermos o quanto Madá, Val e Lurdes são mulheres distintas. Ao encapsular a força do humor como ferramenta para traduzir e refletir vidas, ela, além de divertir, prepara o terreno para um momento inesperado de dor ao final de Três Verões, onde, em um monólogo, Madá revela um passado sofrido e muito diferente desses dias em que aprendemos a rir com ela. Somente a mistura entre drama e comédia traz um impacto fascinante e repentino como esse. Regina Casé brilha absoluta no longa de Sandra Kogut, que estende o tapete para a atriz sem pensar duas vezes, ainda que isso não dê muito espaço para que Três Verões expanda outras de suas potenciais qualidades. 

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