Cinema e Argumento

Maratona de séries em tempos de pandemia: “I Know This Much is True”, “The Good Fight”, “Homecoming”, “Mrs. America” e “The New Pope”

“I Know This Much is True” (HBO, minissérie)

O diretor Derek Cianfrance, que já havia estraçalhado meu coração anos atrás com Namorados Para Sempre, adapta o romance homônimo de Wally Lamb para contar a trágica odisseia de dois irmãos gêmeos fadados à dor desde a infância. Um deles é esquizofrênico. O outro tenta seguir a vida de alguma forma mesmo sendo o único porto seguro do irmão. Ambos são interpretados por Mark Ruffalo, que nunca esteve tão bem em toda a sua carreira, apoiado por um elenco feminino de dar inveja (Kathryn Hahn, Rosie O’Donell, Archie Panjabi, Melissa Leo). E a excelente notícia é que I Know This Much is True não cede à clássica tentação de focar no irmão esquizofrênico para mostrar como Ruffalo é bom ator. O que Cianfrance faz é contar tudo sob o ponto de vista do irmão que tenta atravessar a vida sem deixar que a doença do outro defina seus caminhos e escolhas, ainda que, no final das contas, ele não consiga escapar disso.

Poucas vezes vimos tanta desgraça reunida quanto nessa minissérie da HBO: qundo parece que não é mais possível piorar, I Know This Much is True surge com outra paulada. Boa parte desse impacto também vem de um talento muito característico de Cianfrance: o de pincelar a dor através da nossa relação com o tempo, exatamente como vimos em Namorados Para Sempre, onde íamos e voltávamos na história de um casal para entender a sua ruína, ou no subestimado O Lugar Onde Tudo Termina, forte drama sobre como certas feridas são passadas de geração para geração. No caso de I Know This Much is True, o diretor opta novamente pelos flashbacks. Entre a ideia de que certas vidas parecem amaldiçoadas e a tese de que seria muito fácil culpar o destino ao invés de assumir nossas próprias escolhas, a minissérie termina por calibrar muito bem o retrato do sofrimento, sem jamais soar apelativa. Tudo que está nessa dolorosa crônica não passa mesmo de vida real. Uma experiência para os fortes.

“The Good Fight” (CBS All Access, 4ª temporada)

O spin-off da clássica The Good Wife foi diretamente afetada pela pandemia, que impediu a equipe de concluir três dos 10 episódios previstos para essa temporada. A incompletude é sentida na tela, uma vez que fica difícil julgar a quarta temporada porque muitos arcos e conflitos não foram concluídos, como o mistério do Memo 618, responsável por boa parte do entretenimento desses episódios disponibilizados. Da forma como foi exibida, a temporada tem seus problemas: participações especiais que nada acrescentam (personagens inesquecíveis como Louis Canning e David Lee dão às caras sem fazer muita diferença para a história), a protagonista Diane Lockhart (Christine Baranski, sempre impecável) é frequentemente jogada para o campo dos coadjuvantes e alguns atores começam a parecer dispensáveis (não à toa, Delroy Lindo e Cush Jumbo anunciaram sua saída do programa). Já o humor muito particular da série e a identidade que ela construiu com grande esmero se desvinculando de The Good Wife nos últimos anos permanecem intactos.

É perceptível o quanto os criadores Robert e Michelle King recuaram na questão política que tanto marcou o terceiro ano, quando The Good Fight se tornou, com uma subestimada inspiração, a série mais posicionada do ponto de vista político na indústria norte-americana. Tal recuo é um erro, mesmo que o público tenha reclamando do viés excessivamente político. Isso porque, na nova leva de episódios, temos um claro exemplo de como a fórmula pode render episódios brilhantes. Falo especificamente de The Gang Deals with Alternate Reality, onde Diane Lockhart, vivendo um delírio, acorda nos Estados Unidos onde Hillary Clinton ganhou as últimas eleições presidenciais. Inspirado e divertido, o episódio promove importantes reflexões do ponto de vista republicano e democrata, ousando até mesmo ao propôr a tese de que, sem o machismo da campanha e do governo de Donald Trump, movimentos como o #MeToo talvez sequer tivessem vindo à tona. A série já está renovada para uma quinta temporada.

“Homecoming” (Prime Video, 2ª temporada)

É uma desnecessária continuação para a temporada anterior, que tinha na presença de Julia Roberts como protagonista uma imensa ancoragem. Pois Julia não volta (agora só assina como produtora executiva) e quem assume o protagonismo é a “cantriz” Janelle Monáe, cuja presença em nenhum momento preenche a tela ou instiga o espectador. Aliás, quem rouba a cena é mesmo a tailandesa Hong Chau, que tinha papel pequeno na primeira temporada e que esteve em Watchmen, uma das minisséries mais brilhantes de 2019. O segundo ano não se trata necessariamente de um spin-off, pois em partes descobrimos que a trama existe para dar conclusão e expandir conflitos da primeira leva de episódios. A tentativa de conectar os dois anos do programa é falha, especialmente se levarmos em consideração o quanto a hipnotizante estética de Homecoming não consegue sequer dosar algum interesse pela trama fria e vazia.

Com apenas sete episódios de meia hora (três a menos que a temporada anterior), essa sequência frustra inclusive em aspectos mais estruturais, como o fato de parecer um filme picotado em sete partes. Vale perceber como são vários os episódios que dizem muito pouco e acabam sequer tento uma lógica própria, sem falar nos frágeis ganchos deixados a cada desfecho, que não chegam nem perto de estimular a curiosidade como acontecia quando Julia Roberts era protagonista. Fica a sensação de prato requentado, embora tentativas não faltem, a exemplo das aquisições de Chris Cooper e Joan Cusack para o elenco (os dois, contudo, estão reduzidos a papeis subutilizados ou um tanto confusos). Não era de se esperar que Homecoming sucumbisse à previsibilidade e a alguns vícios tão cedo. Sem ter repercutido com público e crítica, o segundo ano pode ser o último do seriado, já que uma nova temporada ainda não foi confirmada.

“Mrs. America” (FX, minissérie)

Mrs. America é um prato cheio caso você seja o tipo de espectador que encontra certo fascínio ao se deparar com personagens detestáveis. Afinal, como não ter os nervos testados por Phyllis Schlafly (Cate Blanchett), a anti-feminista ultraconservadora que fez de tudo para barrar o avanço dos direitos das mulheres nos Estados Unidos durante a década de 1970? Como pano de fundo, a minissérie da FX traz a famosa luta de diversas feministas pela Emenda dos Direitos Iguais (Equal Rights Amendment, em inglês), proposta à Constituição dos Estados Unidos para garantir direitos legais iguais para todos os cidadãos americanos, independentemente do sexo. A ironia é que Schlafly, decidida a sabotar a implementação dessa emenda em todos os cantos dos Estados Unidos, usufruía justamente daquilo que tanto queria tirar das mulheres: entre outros itens, a possibilidade de trabalhar, ter uma carreira e ser independente. Para ela, a população feminina deveria servir ao lar e à família, enquanto ela própria viajava o país e fazia uma carreira reconhecida pelos republicanos conservadores.

Narrada em nove partes, Mrs. America tem todos os episódios com uma mulher na direção e divide o protagonismo de cada uma de suas passagens entre diferentes coadjuvantes que atravessam toda a trama, como a Gloria Steinem de Rose Byrne ou a Bella Abzug de Margo Martindale. Ainda assim, é a partir da figura de Phyllis Schlafly que o programa se desdobra, mostrando como cada uma das ativistas feministas reage à essa figura ultraconservadora inicialmente tratada como piada, mas logo encarada como uma ameça real a importantes lutas. Faz muito bem a minissérie ter esse rodízio de personagens e centrar suas perspectivas no discurso contraditório de uma figura polêmica como Schlafly, interpretada com traços tão complexos quanto detestáveis pela excelente Cate Blanchett. São duas escolhas que arejam Mrs. America e que impedem o programa de ser um daqueles relatos históricos tão convencionais, didáticos e produzidos apenas para mimetizar a vida real como um documentário.

“The New Pope” (HBO/SKY, 2ª temporada)

Sou fã incondicional da temporada anterior, intitulada The Young Pope, onde Jude Law nunca esteve tão inspirado e o cineasta italiano Paolo Sorrentino filmava com sua imponência habitual vista também em títulos como o belo longa-metragem A Juventude. A ideia de uma continuação parecia bacana, mas, conferindo esse segundo ano, penso que poderiam ter ficado apenas com o primeiro. Aqui há aquela famosa tomada de consciência que faz o espectador perceber o quanto um diretor está dedicado a ampliar e repetir os elementos de um projeto anterior. Pois é exatamente isso o que Sorrentino, também autor do roteiro dos nove episódios ao lado de Stefano Bises e Umberto Contarello, faz em The New Pope, uma produção muito mais escrachada, satírica e explícita do que a temporada anterior. O espectro de coadjuvantes também ganha mais espaço, muitas vezes pulverizando o protagonismo agora entregue a John Malkovich. Resultado: com tudo ampliado, The New Pope perde em sutilezas.

Outro aspecto importante para balizarmos os deslizes dessa continuação é o pouco tempo de tela dado a Jude Law, que faz muita falta como o sempre enigmático, sedutor e capcioso Pius XIII. Por razões explicadas na trama e que não serão reproduzidas aqui para evitar spoilers, seus holofotes são transferidos para John Malkovich, visivelmente entretido com as palavras e os maneirismos de um personagem interessante, embora muito longe de representar o fascínio daquele vivido por Jude Law. Não por acaso, Law domina todo o seu limitado espaço em cena e ainda sobrevive aos fracos conflitos do terço final da temporada. Sorrentino continua levantando pontos importantes e interessantes sobre a fé (destaque para a discussão envolvendo a mini-rebelião de um grupo de feiras que decide enfrentar o patriarcado tão marcante do catolicismo), mas a corda foi esticada mais do que deveria, quase descaracterizando a fluidez de provocações e emoções registradas no primeiro ano. Não há pistas de que existirá uma nova temporada.

“Três Verões”: brilho habitual de Regina Casé domina mistura de drama e comédia sobre o desmoronamento dos ricos brasileiros

É tanta coisa difícil nessa vida, né?

Direção: Sandra Kogut

Roteiro: Iana Cossoy Paro e Sandra Kogut

Elenco: Regina Casé, Rogério Fróes, Otávio Müller, Gisele Fróes, Jéssica Ellen, Daniel Rangel, Vilma Mello

Brasil/França, 2019, Comédia/Drama, 93 minutos

Sinopse: ​A cada verão, entre Natal e Ano-Novo, o casal Edgar e Marta recebe amigos e familiares na sua mansão espetacular à beira-mar. Em 2015 tudo parece ir bem, mas em 2016 a mesma festa é cancelada. O que acontece com aqueles que gravitam em torno dos ricos e poderosos quando a vida deles desmorona? Através do olhar de uma empregada e de um velho patriarca, ambos vítimas do sonho neoliberal, vemos um retrato do Brasil contemporâneo.​

Um carinho em meio a tempos tão difíceis no Brasil e no mundo, a iniciativa do Espaço Itaú de Cinema de viabilizar por streaming, ainda que em tempo limitado, a exibição de filmes brasileiros inéditos, muitos deles previstos para estrear nos meses sufocados pela pandemia do Coronavírus, trouxe na programação títulos para todos os gostos e outros tantos que vinham despertando grande curiosidade. Um deles é Três Verões, mistura de drama e comédia dirigida por Sandra Kogut que teve sua primeira exibição mundial na mostra World Contemporary Cinema do Festival de Toronto em 2019. Antes de qualquer coisa, julgo fundamental fazer uma ampla defesa para esse longa já nas linhas gerais de sua proposta: ao contrário do que comparações simplistas podem apontar, Três Verões não traz a brilhante Regina Casé se repetindo no papel de uma mulher humilde que presta serviços domésticos para uma família rica. Reduzir a performance de Regina, bem como as discussões de Três Verões em si, a uma reciclagem da inesquecível Val de Que Horas Ela Volta? ou da adorável Lurdes da novela Amor de Mãe é um desserviço à atriz e à experiência proporcionada pelo novo trabalho de Sandra Kogut.

Ao lado de Iana Cossoy, a diretora criou um roteiro estruturado, como o título indica, em três tempos. Sempre às vésperas das festas de Natal e Ano Novo, Madá (Regina Casé) vê o desmoronamento moral e financeiro da família rica que paga o seu salário, a partir de fatos não exatamente explicitados para o espectador, mas claros o suficiente para que se compreenda o quanto tudo parte de ações da Operação Lava-Jato. Fragmentar os acontecimentos entre três recortes pontuais surte efeito positivo, fazendo de Três Verões um filme muito fluido e agradável de se acompanhar, onde a trama sempre desperta curiosidade pelo que está por vir logo quando vemos o letreiro anunciando a chegada de um verão diferente. Uma discussão, no entanto, define o centro dramático de Três Verões, inclusive a cada salto temporal: a de como ainda vivemos tempos em que a vida dos empregados é diretamente definida pela vida de quem paga seus salários em quase todos os sentidos. Isso quer dizer que, na medida em que Edgar (Otávio Muller) se vê em maus lençóis, é questão de pouquíssimo tempo para que Madá também tenha muitos dos seus seus sonhos e recursos confiscados.

A título de comparação temática, se Que Horas Ela Volta? mostrava um Brasil em que pessoas de origem humilde já conseguiam dar um grito de independência e escrever capítulos importantes de sua história sem depender dos patrões, Três Verões registra o retrocesso vivido pelo Brasil nos últimos anos, onde toda a vida de uma empregada é empurrada para dentro do redemoinho de trambiques provocado pelo provedor de seu salário. De mãos atadas e sem ter para onde ir, ela passa a buscar formas de se sustentar, fazendo também do filme de Kogut uma divertida carta de amor ao poder de reinvenção de uma classe batalhadora. Confinada na mansão sem os patrões, Madá faz alguns bazares, aluga quartos da casa em um Airbnb e arruma outras maneiras de sustentar minimamente essa mansão agora decadente onde tantos outros empregados aguardam salários cada vez mais atrasados. E aí Três Verões se torna delicioso e divertido de se acompanhar, encontrando graça e bom humor em momentos super cotidianos, todos ligados à doce humildade de pessoas que aprenderam desde sempre a lidar com as adversidades da vida.

Entre esses momentos, Kogut aproveita para cultivar aqui e ali símbolos muito pertinentes à história, como o pato inflável que flutua na piscina da família rica e que, na vida real, foi símbolo das manifestações contra o governo da ex-presidente Dilma Rousseff. É possível deduzir muito sobre os patrões ausentes com apenas esse detalhe. Aliás, chama a atenção como Três Verões tem todo o desenrolar da trama ligado a personagens que aparecem muito pouco, mas que conhecemos o bastante, inclusive porque Otávio Müller é um expert em interpretar homens comuns definidos pela mediocridade de seus atos. Contudo, por alguma razão, o filme nunca chega a criar a mesma musculatura vista em tantos outros títulos brasileiros, mais alegóricos ou não, que se assemelham a ele na questão de registrar um momento recente do Brasil. Sim, Três Verões é divertido de acompanhar, combina esperteza e uma linguagem acessível para agradar diversas plateias e tem uma estrutura bem trabalhada, mas talvez tenha um certo descompasso ao criar involuntariamente uma protagonista maior do que a própria história.

A ênfase no involuntário se faz necessária porque Madá ganha contornos luminosos no desempenho mais uma vez milagroso de Regina Casé. É impressionante como Regina tem o talento de se aproximar do espectador. Sua habilidade em observar aspectos cotidiano do povo brasileiro — a pose, os costumes, o temperamento, o humor — é uma fonte inesgotável de criação, e por isso mesmo fiz questão de começar esse texto reforçando a importância de percebermos o quanto Madá, Val e Lurdes são mulheres tão distintas. Ao encapsular a força do humor como ferramenta para traduzir e refletir vidas, ela, além de divertir, prepara o terreno para um momento inesperado de dor ao final de Três Verões, onde, em um monólogo, Madá revela um passado sofrido e muito diferente desses dias em que aprendemos a rir com ela. Somente a mistura entre drama e comédia traz um impacto fascinante e repentino como esse. Regina Casé brilha absoluta no longa de Sandra Kogut, que estende o tapete para atriz sem pensar duas vezes, ainda que isso não dê muito espaço para que Três Verões expanda outras de suas potenciais qualidades. 

Melhores de 2019 – Filme

Foi com um misto de choque e maravilhamento que o diretor Bong Joon-ho recebia cada uma das estatuetas entregues a Parasita na última cerimônia do Oscar. O êxtase do cineasta era mais do que compreensível, pois nunca uma produção de língua não-inglesa havia chegando tão longe na cerimônia, recebendo, inclusive, a histórica estatueta de melhor filme. E ainda foi pouco: com Parasita, Bong Joon-ho entrega uma obra que será eternamente referenciada como um dos melhores títulos dos anos 2010, mas também como um brilhante retrato sobre as contradições e as disparidades sociais vividas pelo mundo nesse período. É um registro poderoso e surpreendente, potencializado pelas possibilidades narrativas do cinema que Bong Joo-ho domina com imensa sabedoria e rigor. Aqui no blog, também faz história: consagrado em sete categorias (filme, direção, elenco, ator coadjuvante, roteiro original e design de produção), o longa desbanca o então recordista Gravidade como o recordista de vitórias na nossa premiação. Ainda disputavam a categoria: Bacurau, Cafarnaum, Dor e Glória e A Favorita.

EM ANOS ANTERIORES: 2018 Trama Fantasma | 2017 – Mãe! | 2016 – Carol | 2015 – Mad Max: Estrada da Fúria | 2014 – Relatos Selvagens | 2013 – Gravidade | 2012 – Precisamos Falar Sobre o Kevin | 2011 – Harry Potter e as Relíquias da Morte – Parte 2 | 2010 – Direito de Amar | 2009 – Dúvida | 2008 – WALL-E | 2007 – O Ultimato Bourne

Melhores de 2019 – Direção

Após realizar filmes mais alegóricos e de grande orçamento (Expresso do AmanhãOkja), o diretor Bong Joon-ho resolveu voltar para a escala cotidiana e microscópica que ele já havia explorado em títulos como MotherMemórias de Um Assassino. E o fez criando esse clássico instantâneo chamado Parasita, que é grandioso ao maximizar ideias aparentemente simples com criatividade e inteligência. O rigor apresentado por Bong Joon-ho atrás das câmeras é embasbacante: partindo de um roteiro originalíssimo, ele explora um punhado de personagens sem perder qualquer um deles de vista, faz do design de produção um componente fundamental para a identidade de seu filme, confere um pique invejável ao desenvolvimento da trama e ainda acerta nas camadas de todos os gêneros que busca pincelar aqui ou ali para compôr uma tremenda leitura sobre esse país chamado capitalismo em que todos nós vivemos. Parasita é lindo de se ver pois, como uma grande orquestra, tem cada precioso detalhe funcionando no tempo certo, o que é resultado direto da irretocável direção de um contador de histórias que sabe exatamente onde e como quer chegar, da forma mais envolvente e surpreendente possível. Ainda disputavam a categoria: Barry Jenkins (Se a Rua Beale Falasse), Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles (Bacurau), Nadine Labaki (Cafarnaum) e Pedro Almodóvar (Dor e Glória).

EM ANOS ANTERIORES: 2018 – Gabriela Amaral Almeida (O Animal Cordial) e Lynne Ramsay (Você Nunca Esteve Realmente Aqui) | 2017 – Darren Aronofsky (Mãe!| 2016 – José Pedro Goulart (Ponto Zero| 2015 – George Miller (Mad Max: Estrada da Fúria| 2014 – David Fincher (Garota Exemplar| 2013 – Alfonso Cuarón (Gravidade| 2012 – Leos Carax (Holy Motors| 2011 – Darren Aronofsky (Cisne Negro| 2010 – Christopher Nolan (A Origem| 2009 – Danny Boyle (Quem Quer Ser Um Milionário?| 2008 – Paul Thomas Anderson (Sangue Negro| 2007 – Alejandro González Iñárritu (Babel)

Melhores de 2019 – Elenco

Em janeiro deste ano, antes de marcar época no Oscar como a primeira produção de língua não-inglesa a levar o prêmio de melhor filme em mais de 90 anos de história, Parasita já havia deixado sua marca pioneira no Screen Actors Guild Awards, onde levou a estatueta de melhor elenco, algo até então também inédito para produções em outro idioma que não seja o inglês. A consagração é inquestionável, pois o elenco de Parasita é a perfeita definição de um talentoso grupo de atores que sustenta com louvor a equação quantidade versus qualidade. Por mais que alguns atores tenham mais destaque do que outros em função do que a própria história exige (Song-kang Ho, Cho Yeo-jeong são dois destaques pontuais) todos estão em perfeita sintonia e inspiração, especialmente se tratando de um coletivo que, durante o desenrolar da trama, precisa alternar entre tantos gêneros diferentes sem jamais perder consistência e unidade. Ainda disputavam a categoria: Assunto de Família, Bacurau, Entre Facas e Segredos e A Favorita.

EM ANOS ANTERIORES: 2018 – O Animal Cordial | 2017 – Um Mergulho no Passado | 2016 – Animais Noturnos | 2015 – Birdman ou (A Inesperada Virtude da Ignorância) | 2014 – Relatos Selvagens | 2013 – Álbum de Família | 2012 – O Impossível | 2011 – Tudo Pelo Poder | 2010 – Minhas Mães e Meu Pai | 2009 – Dúvida | 2008 – Vicky Cristina Barcelona | 2007 – Bobby

Não tem na Netflix: 20 ótimos filmes para serem assistidos em diferentes plataformas de streaming

Se existe uma habilidade que perdi nos últimos anos foi a de responder a pergunta “tem um filme pra me indicar?”. E não é porque não tenho filmes para indicar, mas porque, além dos filtros habituais que devem ser considerados para cada pessoa, agora existe a famosa réplica: “tem na Netflix?”. E nunca sei dizer, pois não sou assinante da plataforma (recorro à conta de um amigo sempre quando desejo ver algo isoladamente), e fico de certa forma triste quando vejo as pessoas perdendo a chance de ver um grande filme simplesmente porque não está disponível por lá.

Durante esse período de isolamento, tirei um tempinho para desbravar outras plataformas e compilar dicas de excelentes filmes, todos disponíveis não na Netflix, mas em outras plataformas de streaming. Vejam bem, acho que Netflix faz um lindo trabalho ao redimensionar a popularização do cinema e das séries, mas é sempre muito importante, assim como na TV, por exemplo, o incentivo à pluralidade e não ao monopólio. Não podemos nos limitar. Ou seja, para quem deseja buscar outras alternativas e circuitos, espero que a listinha abaixo seja um bom incentivo.

P.S.: Quando terminei a seleção, imediatamente me dei conta de que somente dois longas levam a assinatura de diretoras mulheres. Uma falha terrível de minha parte. Para compensar esse tremendo equívoco, deixo como dica algumas postagens do Mulher no Cinema, site que celebra o trabalho das mulheres nas telas. A primeira traz dicas de filmes assinados por sete grande diretoras que estão disponíveis no streaming do Telecine. Já as demais, elencam os filmes dirigido por mulheres que chegaram em diferentes plataformas nos meses de janeiro, fevereiro, março e abril

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Dois Dias, Uma Noite, de Jean-Pierre e Luc Dardenne

GLOBOBLAY

120 Batimentos Por Minuto (2017), de Robin Campillo

Sinopse: França, início dos anos 1990. O grupo ativista Act Up está intensificando seus esforços para que a sociedade reconheça a importância da prevenção e do tratamento em relação a AIDS. Recém-chegado ao grupo, Nathan (Arnaud Valois) logo fica impressionado com a dedicação de Sean (Nahuel Pérez Biscayart), apesar de seu estado de saúde cada vez mais delicado.

Por que assistir? É o raro tipo de história que funciona ao misturar o registro quase documental de um movimento verídico (o Act Up, criado para exigir do governo medidas de prevenções contra a AIDS) e a jornada muito íntima e dolorosa de um personagem diagnosticado com a doença. Trata-se de uma sessão difícil, equivalente a um soco no estômago, mas com uma discussão muito bonita e, como podemos constatar ainda hoje, sempre muito urgente.


Acima das Nuvens (2014), de Olivier Assayas

Sinopse: Maria Enders (Juliette Binoche) é uma famosa atriz que fica perturbada com o fato de que JoAnn (Chloë Moretz), jovem estrela de Hollywood, irá interpretar o papel que a fez famosa há vinte anos. Convidada a dividir o palco com a novata, uma insegura Enders viaja até os Alpes para ensaiar e conta com o apoio de sua assistente (Kristen Stewart) no confrontamento com seu passado.

Por que assistir? La Binoche está em um de seus melhores papeis recentes, e isso já seria o suficiente para justificar a espiada, mas Acima das Nuvens também transformou de vez a carreira de Kristen Stewart, que, aqui, finalmente se firmou como uma das atrizes mais interessantes de sua geração. O diretor Sem nunca soar erudito ou ininteligível, o diretor Olivier Assayas é espetacular ao misturar a linguagem cinematográfica e teatral, explorando com fascínio duas personagens femininas muito complexas e refletindo sobre processos artísticos, aqui representados no ofício da interpretação.


Mapas Para as Estrelas (2014), de David Cronenberg

Sinopse: Agatha Weiss (Mia Wasikowska) acabou de chegar a Los Angeles e logo conhece Jerome Fontana (Robert Pattinson), um jovem motorista de limusine que sonha se tornar ator. Não demora muito para que ela comece a trabalhar para Havana Segrand (Julianne Moore), uma atriz decadente que está desesperada para conseguir o papel principal da refilmagem de um sucesso estrelado por sua mãe, décadas atrás. Paralelamente, o garoto Benjie Weiss (Evan Bird) enfrenta problemas ao lidar com seu novo colega de elenco. 

Por que assistir? Com esse filme, Julianne Moore completou a sua trinca de consagrações nos festivais de cinema mais importantes do mundo, levando o prêmio de melhor atriz em Cannes (ela já havia vencido Berlim por As Horas e Veneza por Longe do Paraíso). Ácido e provocador, o filme de David Cronenberg carrega o DNA dos melhores trabalhos da carreira da atriz, propondo uma viagem bastante crítica por uma Hollywood vista aqui essencialmente como indústria — e, por isso mesmo, tão viciada, destrutiva e ilusória.


Ausência (2014), de Chico Teixeira

Sinopse: Serginho (Matheus Fagundes) é um menino de 14 anos muito mais maduro que os outros jovens de sua idade. Ele cuida de seu irmão mais novo, Wiliam, e de sua mãe ausente e alcoolatra, Luzia. O único adulto com quem Serginho tem um relacionamento de afeto é o professor Ney, que o ajuda com o dever de casa durante à noite. A confusão entre o despertar de sua sexualidade e a busca de uma figura paterna faz Serginho perceber que ele está sozinho no mundo.

Por que assistir? Foi o último longa-metragem do cineasta Chico Teixeira, falecido em dezembro do ano passado, e talvez o seu mais marcante. Agraciado no Festival de Cinema de Gramado com os prêmios de melhor filme, direção, roteiro e trilha sonora, o drama retrata o cotidiano desolador de seu protagonista focando na maneira íntima e introspectiva com que ele lida com tanto desamparo e solidão. É um bonito e tocante relato sobre um garoto que a vida insiste em tornar adulto antes da hora.


Dois Dias, Uma Noite (2014), de Jean-Pierre e Luc Dardenne

Sinopse: Após se afastar do trabalho por conta da depressão, Sandra (Marion Cotillard) perde seu emprego pois outros trabalhadores da fábrica preferiram receber um bônus ao invés de mantê-la na equipe. Ela descobre que alguns de seus colegas foram persuadidos e abraça uma tarefa complicada para o final de semana: visitar os colegas de trabalho e convencê-los a abrir mão de seus bônus para que possa manter o seu emprego.

Por que assistir? Se não fosse por Piaf – Um Hino ao Amor, essa certamente seria a melhor interpretação da bela carreira de Marion Cotillard. Aqui ela está sem uma grama de maquiagem para dar vida à protagonista de um filme naturalista, falado em francês, resumido a diálogos e que é tanto o humano retrato de uma mulher enfrentando a depressão quanto uma provocadora análise sobre a hipocrisia, o individualismo e mercantilização das relações trabalhistas. É o combo perfeito: uma atriz espetacular à frente de um filme cuja trama fornece todas as ferramentas para que ela possa brilhar.

Tully, de Jason Reitman

AMAZON PRIME

Trama Fantasma (2017), de Paul Thomas Anderson

Sinopse: Década de 1950. Reynolds Woodcock (Daniel Day-Lewis) é um renomado e confiante estilista que trabalha ao lado da irmã, Cyril (Lesley Manville), para vestir grandes nomes da realeza e da elite britânica. Sua inspiração surge através das mulheres que constantemente entram e saem de sua vida. Mas tudo muda quando ele conhece a forte e inteligente Alma (Vicky Krieps), que vira sua musa e amante.

Por que assistir? Para investigar os vícios e os malefícios das relações amorosas, Paul Thomas Anderson cria dois protagonistas fascinantes justamente por serem tão opostos e difíceis. Daniel Day-Lewis, no último filme antes de sua aposentadoria, tem em Vicky Krieps uma companheira de tela à altura, e ambos redimensionam os inúmeros significados dessa obra elegantíssima que, entres outros tantos pontos brilhantes, ainda tem uma interpretação irretocável da coadjuvante Lesley Manville e uma trilha hipnotizante de Jonny Greenwood.


Precisamos Falar Sobre o Kevin (2011), de Lynne Ramsay

Sinopse: Eva (Tilda Swinton) mora sozinha e teve sua casa e carro pintados de vermelho. Maltratada nas ruas, ela tenta recomeçar a vida com um novo emprego e vive temorosa, evitando as pessoas. O motivo desta situação vem de seu passado, da época em que era casada com Franklin (John C. Reilly), com quem teve dois filhos: Kevin e Lucy. Seu relacionamento com o primogênito, Kevin, sempre foi complicado, desde quando ele era bebê. Com o tempo a situação foi se agravando mas, mesmo conhecendo o filho muito bem, Eva jamais imaginaria do que ele seria capaz de fazer.

Por que assistir? Poucos crimes da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood foram tão indesculpáveis dos anos 2000 para cá quanto o esquecimento de Tilda Swinton na disputa pelo Oscar de melhor atriz em 2012. Melhor do que todas as concorrentes daquele ano, Tilda é um assombro nesse conto perturbador sobre a difícil relação de uma mãe com o filho que, no fundo, ela nunca quis ter. Lynne Lamsay adapta o best-seller homônimo de Lionel Shriver com liberdade e identidade, navegando da maternidade à psicopatia em uma obra dramaticamente assustadora.


A Garota Ideal (2007), de Craig Gillespie

Sinopse: Lars Lindstrom (Ryan Gosling) é um homem tímido e introvertido que vive na garagem de seu irmão mais velho. Lars apenas acompanha o desenrolar de sua vida, sem se mexer para algo. Até que um dia ele encontra Bianca, uma missionária religiosa, através da internet. O problema é que para as pessoas Bianca não é alguém real, mas a réplica de uma mulher, feita de silicone. Só que Lars acredita piamente que ela é um ser humano, o que faz com que se torne seu apoio emocional.

Por que assistir? É uma das interpretações menos lembradas da carreira de Ryan Gosling, mesmo sendo, possivelmente, o seu momento mais interessante. Conhecendo a carreira de Craig Gillespie (Eu, Tonya e diversos episódios da série United States of Tara com Toni Collete), já é possível prever que essa não será uma sessão comum. E a impressão se confirma: comédia e drama se misturam em um filme que renega convenções e que investiga a nossa (in)capacidade de ressignificar a compreensão, a superação e aceitação.


Tully (2018), de Jason Reitman

Sinopse: Marlo (Charlize Theron), mãe de três filhos, sendo um deles um recém-nascido, vive uma vida muito atarefada, e, certo dia, ganha de presente de seu irmão: uma babá para cuidar das crianças durante a noite. Antes um pouco hesitante, Marlo acaba se surpreendendo com Tully (Mackenzie Davis).

Por que assistir? Pouco se falou sobre esse belo e singelo filme de Jason Reitman que atesta sua maturidade cada vez maior como observador da vida urbana. Dessa vez, novamente acompanhado da roteirista Diablo Cody (em seu melhor texto), ele explora a maternidade a partir de tudo o que ela pode trazer de mais cansativo. Claro que ele não abandona a beleza proporcionada pela chegada de um filho, mas o viés é outro: cansada, sem vaidade e sempre enrolada em uma rotina caótica, a Margo de Charlize Theron mostra como a maternidade pode ser um dos momentos mais solitários e exaustivos da vida de uma mulher. Tudo muito real, agridoce e com um desempenho excepcional de Charlize.


Sem Fôlego (2017), de Todd Haynes

Sinopse: Gunlint, Minnesota, 1977. Ao atender um telefonema, o garoto Ben (Oakes Fegley) é atingido pelo reflexo de um raio, que caiu bem em sua casa. Esta situação faz com que seja levado a um hospital em Nova York, onde descobre que não consegue mais ouvir um som sequer. Em 1927, a jovem surda Rose (Millicent Simonds) foge de sua casa em Nova York para encontrar sua mãe, a consagrada atriz Lillian Mayhew (Julianne Moore). A vida destes dois garotos que não conseguem mais ouvir está interligada a partir de um livro de curiosidades que os leva ao Museu de História Natural.

Por que assistir? Logo após ter conquistado o coração de incontáveis plateias mundo afora com Carol, o diretor Todd Haynes realizou essa fábula que passou despercebida pelo circuito comercial e que dividiu opiniões entre os críticos. Ainda que imperfeito, Sem Fôlego ganha pontos por não ser um filme acomodado e que constrói tudo com ritmo e personalidade próprios. Bem diferente do cinema fantástico, ritmado e comercial que, inevitavelmente, a sua promoção sugere, o longa coloca dois personagens na linha de frente para examinar a busca de cada um por algum tipo de pertencimento. Vale pela parte técnica, por seu universo particular e pela comovente participação especial de Julianne Moore

Desobediência, de Sebastián Lelio

HBO GO

Até o Fim (2013), de J.C. Chandor

Sinopse: Um navegador experiente (Robert Redford) está viajando pelo Oceano Pacífico, quando uma colisão com um contâiner leva à destruição parcial do veleiro. Ele consegue remendar o casco, mas terá a difícil tarefa de resistir às tormentas e aos tubarões para sobreviver, além de contar apenas com mapas e com as correntes marítimas para chegar ao seu destino.

Por que assistir? Espécie de Gravidade em alto-mar, Até o Fim é a jornada solo e sem diálogos de um homem que, após perder tudo (não sabemos exatamente o quê nem como), passa a encarar a vida como uma penitência. Ao invés de ser simplesmente uma aventura de sobrevivência, tudo é reinterpretado a partir da forma como o protagonista encara tudo o que vive. No rosto envelhecido de Robert Redford e em sua interpretação minimalista, encontramos um homem que, ao se deparar com tormentas e naufrágios parece seguir em frente por acreditar que, através deles, encontrará algum tipo de redenção. Quase nada é dito e respostas não são dadas, mas, ainda assim, tudo parece devidamente preenchido. 

Boogie Night – Prazer Sem Limites (1997), de Paul Thomas Anderson

Sinopse: Eddie Adams (Mark Wahlberg) é um jovem de 17 anos sexualmente bem-dotado. Ele é descoberto por Jack Horner (Burt Reynolds), um diretor veterano que o transforma em Dirk Diggler, uma celebridade da subcultura do mundo pornô no apogeu dos anos 70. O sucesso faz com que Eddie se envolva no mundo das drogas e a súbita fama pode ter seu preço.

Por que assistir? Segundo longa-metragem de Paul Thomas Anderson, Boogie Nights é um filme para maiores porque, claro, fala sobre a indústria pornográfica, mas porque pisa no acelerador para mostrar toda a turbulência de uma indústria cujos bastidores eram cercados por muito sexo, música e drogas. Exatamente como viria a fazer logo em seguida no também cultuado Magnólia, PTA cria um mosaico de personagens muito fortes e distintos. Temos destaques pontuais no elenco (minha favorita é Julianne Moore, como uma atriz pornô que luta pela guarda dos filhos), mas Boogie Nights é redondinho, além de muito pop (não deixem de revisitar a trilha sonora sempre que possível) e afinado com o melhor do cinema dos anos 1990.

Desobediência (2017), de Sebastián Lelio

Sinopse: A fotógrafa Ronit (Rachel Weisz) retorna para a cidade natal pela primeira vez em muitos anos em virtude da morte do pai, um respeitado rabino. Seu afastamento foi bastante abrupto e o reaparecimento é visto com desconfiança na comunidade, mas ela acaba acolhida por um amigo de infância (Alessandro Nivola), para sua surpresa atualmente casado sua paixão de juventude, Esti (Rachel McAdams).

Por que assistir? Depois de realizar pérolas como Gloria Uma Mulher Fantástica, o diretor chileno foi para os Estados Unidos realizar seu primeiro longa-metragem em língua inglesa. O interessante é que, ao contrário do que costuma acontecer com diretores “estrangeiros” que estreiam em Hollywood, Sebastián Lelio continua muito fiel a sua identidade como realizador, tocando em conflitos clássicos como o da religião versus homossexualidade sem o menor resquício de estereótipos ou apelações. Desobediência é uma obra sóbria e discreta, o que potencializa a relação tão intensa mas silenciosa das protagonistas, interpretadas com excelência por Rachel Weisz e Rachel McAdams.

Eu, Meu Irmão e Nossa Namorada (2007), de Peter Hedges

Sinopse: Dan Burns (Steve Carell) é um pai viúvo de três garotas que escreve uma coluna periódica em jornal onde compreende e resolve os problemas dos outros. Quando sai de férias com a família ele conhece Marie (Juliette Binoche), uma mulher inteligente e simpática por quem se apaixona. Só que, já na casa de praia e cercado por familiares, Dan descobre que Marie é a nova namorada de seu irmão mais novo, Mitch (Dane Cook), que diz estar profundamente apaixonado por ela.

Por que assistir? Juliette Binoche fazendo par romântico com Steve Carell? E com um ótimo elenco de coadjuvantes formado por Dianne Wiest, Amy Ryan, Allison Pill e John Mahoney? Pois Eu, Meu Irmão e Nossa Namorada aproveita é mesmo um filme tocante e bem interpretado. Também é trágico e cômico nas mesmas proporções (o protagonista se apaixona logo pela namorada do irmão após anos de luto!), como vários dos melhores papeis de Steve Carell, um grande ator especialista em personagens dessa natureza. É uma comédia com toques de melancolia e que encontra profundidade na leveza, algo difícil de construir. 

Guerreiro (2011), de Gavin O’Connor

Sinopse: Tommy Conlon (Tom Hardy) é o filho mais novo de Paddy (Nick Nolte) e voltou há pouco tempo para casa. Tommy supera os problemas do pai com bebida e passa a treinar com ele para poder participar de campeonatos de MMA (Mixed Martial Arts), o famoso vale-tudo. Só que sua trajetória faz com que tenha que enfrentar no ringue Brendan Conlon (Joel Edgerton), seu próprio irmão.

Por que assistir? Em sua premissa, Guerreiro exala masculinidade ao falar sobre dois irmãos envolvidos com a prática MMA. No entanto, o filme de Gavin O’Connor só tem a casca grossa. Por dentro, é capaz de fazer qualquer marmanjo se emocionar. As lutas e a testosterona são, na realidade, mero pano de fundo para uma história sobre cicatrizes familiares e sobre dos irmãos diferentes, distantes e abandonados por um pai alcoolista. Os dramas são clássicos, e Guerreiro não se preocupa muito em se distanciar dessa ideia, o que não é desculpa para que o longa se afunde em melodramas. Pelo contrário: Gavin O’Connor dirige com firmeza e encontra em Joel Edgerton, Tom Hardy e Nick Nolte a dinâmica perfeita para encontrar a emoção de almas frágeis em meio aos socos e pontapés de homens musculosos.

Minha Vida de Abobrinha, de Claude Barras

NOW

Luce (2019), de Julius Onah

Sinopse: Luce (Kelvin Harrison Jr.) é um jovem brilhante, além de ser muito estudioso, campeão em debates e um excelente atleta. Tudo isso faz com que seus pais adotivos (Naomi Watts e Tim Roth) sejam muito orgulhosos. No entanto, a professora de Lucas, Harriet (Octavia Spencer), descobre um artigo político escrito por ele que revela traços obscuros de sua personalidade desencadeando uma série de situações negativas na vida de todos os envolvidos.

Por que assistir? Para quem gostou de Dúvida, o provocador Luce é uma excelente pedida. Novamente, está em jogo a índole de personagens que, a partir de um acontecimento específico não encenado pelo filme, acabam se confrontando para provar sua própria inocência ou sanidade. Dessa vez, discussões raciais, sociais e familiares dos Estados Unidos se espalham pela trama, sem tons panfletários, instiganto tanto os personagens do filme que frequentemente oscilam suas opiniões diante dos fatos quanto o espectador que, sem ter a exatidão de cada motivação, se vê encurralado a não tomar nada como certo. Importante: Octavia Spencer está melhor aqui do que em qualquer indicação que já recebeu ao Oscar.

Bixa Travesty (2018), de Claudia Priscilla e Kiko Goifman

Sinopse: O corpo político de Linn da Quebrada, cantora transexual negra, é a força motriz desse documentário que captura a sua esfera pública e privada, ambas marcadas não só por sua presença de palco inusitada, mas também por sua incessante luta pela desconstrução de esteriótipos de gênero, classe e raça. 

Por que assistir? Caso você se considere uma pessoa desconstruída, espere até ver um show de Linn da Quebrada. E se você não tiver a oportunidade, talvez Bixa Travesty seja o suficiente para constatar que, apesar dos avanços, precisamos sempre discutir muito sobre raça, corpo e sexualidade. Com tamanha força, Linn acaba sendo maior do que Bixa Travesty em si, um documentário totalmente entregue a sua personagem. Isso não chega a ser um problema quando a personagem é de fato forte e interessante como acontece aqui, o que acaba fazendo com que o documentário só abra ainda mais os nossos horizontes.

As Herdeiras (2018), de Marcelo Martinessi

Sinopse: Chela (Ana Brun) e Chiquita (Margarita Irún), herdeiras de famílias abastadas do Paraguai, vivem da venda de seus bens. Quando Chiquita acaba presa por dívidas jamais acertadas, a até então submissa e reclusa Chela precisa se virar e começa por acaso a prestar serviço para um grupo de senhoras ricas como motorista. Logo a nova realidade, e especialmente a exuberante Angy (Ana Ivanova), a quem conhece durante o trabalho, afetam os interesses, prioridades e atitudes da taxista amadora.

Por que assistir? Representante do Paraguai na disputa por uma vaga ao Oscar de melhor filme internacional em 2019, As Herdeiras varreu o 46º Festival de Cinema de Gramado, onde levou, entre seis categorias, a rara tríplice coroa de melhor filme pelos júris oficial, popular e da crítica. Merecidíssimo, tendo em vista que o longa de Marcelo Martinessi é um delicado mergulho na autodescoberta — afetiva, sexual, emocional — de uma mulher nos seus 60 anos. O trio principal de atrizes é maravilhoso, mas Ana Brun é um show à parte, com uma atuação tão contida quanto imensa.

45 Anos (2015), de Andrew Haigh

Sinopse: Kate (Charlotte Rampling) está planejando a festa de comemoração dos 45 anos de casada. Porém, cinco dias antes do evento, o marido recebe uma carta: o corpo de seu primeiro amor foi encontrado congelado no meio dos Alpes Suíços. A estrutura emocional dele é seriamente abalada e Kate já não sabe se vai ter o que comemorar durante a festa.

Por que assistir? Em seus melhores momentos, o diretor Andre Haigh é um exímio observador de relacionamentos amorosos mais cotidianos. Foi assim com Weekend, seu primeiro longa-metragem, centrado no fim de semana romântico de dois personagens gays, e depois com o espetacular 45 Anos, que acompanha a semana em que um casal já na terceira idade prepara a sua festa de 45 anos de matrimônio. Dizer que Charlotte Rampling é uma força da natureza nesse filme não é o suficiente, uma vez que o próprio 45 Anos acompanha a grandeza de sua protagonista: em detalhes, Haigh analisa o efeito que o tempo causa nas relações e o quanto elas nos definem para o bem e para o mal. Assombroso.

Minha Vida de Abobrinha (2016), de Claude Barras

Sinopse: Apelidado Abobrinha, Icare, um sensível menino de nove anos, é deixado pela polícia em um orfanato depois que sua mãe falece. Deslocado neste novo universo, ele aos poucos começa a se relacionar com as outras crianças e descobre o significado de amizade e confiança.

Por que assistir? Céline Sciamma, a diretora de Tomboy Retrato de Uma Jovem Chamas, é coautora do roteiro dessa delicada animação francesa que chegou a concorrer ao Oscar. Apesar dos personagens carismáticos e do adorável visual, não estamos falando, entretanto, de um trabalho tematicamente destinado às crianças. Aliás, tudo é bastante adulto: ambientado em um orfanato, Minha Vida de Abobrinha fala sobre a vida de crianças criadas por pais acoolistas e abusivos ou então abandonadas por eles. Sem conhecer o real significado de amor e companheirismo, elas encontram a generosidade ao serem unidas pelas histórias trágicas que compartilham. É de cortar o coração, mas também capaz de deixar um esperançoso sorriso no rosto.

Melhores de 2019 – Ator

Sem saber escrever seu próprio nome, Zain al Rafeea foi descoberto aos 12 anos pela cineasta Nadine Labaki nas ruas de Beirut, quando ela procurava o protagonista de Cafarnaum. Refugiado, pobre e desamparado nesse país que lhe obrigou a crescer muito antes do esperado, o pequeno Zain, assim como outros tantos outros integrantes do elenco, tem em Cafarnaum a sua primeira experiência com interpretação, o que não transparece ao longo do filme: trazendo dentro de si vivências muito próximas àquelas que são mostradas ao longo da projeção, além de um grandioso talento, Zain dá vida a um personagem dolorosamente real, fruto de uma performance tão verdadeira quanto devastadora.

Ainda que pese o fato de Cafarnaum ter um tom praticamente documental ao colocar pessoas da vida real para interpretar fatos muito parecidos com os de sua própria existência — e há quem considere isso um demérito —, é simplesmente impossível diminuir o talento de Zain al Rafeea. Certamente nós vimos filmes diferentes se você, assim como eu, não testemunhou um desempenho miraculoso, onde um garoto inexperiente domina a tela e carrega quase sozinho um filme de duas horas. E não qualquer filme, mas um absurdamente triste, fulminante e narrado quase como uma jornada solo, algo capaz de intimidar até mesmo atores experientes.

Com carisma e profundidade, Zain faz o retrato perfeito de uma criança obrigada a ser adulta e que diariamente se vê agredida por uma vida que jamais lhe dá a mão. Suas lágrimas são genuínas e a empatia que ele desperta no espectador é inquestionável. Como ele conseguiu fazer tudo o que vemos em Cafarnaum? Nem Nadine Labaki sabe explicar. Quando o longa foi exibido pela primeira vez no Festival de Cannes, a diretora disse que apenas ligava a câmera e Zain entregava tudo aquilo que está registrado em Cafarnaum, praticamente sem orientações, como um ator nato. Há quem passe a vida inteira tentando despertar um fascínio como esse. Ainda disputavam a categoria: Adam Driver (História de Um Casamento), Antonio Banderas (Dor e Glória), Joaquin Phoenix (Coringa) e Marco Nanini (Greta).

EM ANOS ANTERIORES: 2018 – Daniel Day-Lewis (Trama Fantasma) | 2017 – Casey Affleck (Manchester à Beira-Mar| 2016 – Nelson Xavier – A Despedida | 2015 – David Oyelowo (Selma: Uma Luta Pela Igualdade| 2014 – Jake Gyllenhaal (O Abutre| 2013 – Joaquin Phoenix (O Mestre| 2012 – Rodrigo Santoro (Heleno| 2011 – Colin Firth (O Discurso do Rei| 2010 – Colin Firth (Direito de Amar| 2009 – Sean Penn (Milk – A Voz da Igualdade| 2008 – Daniel Day-Lewis (Sangue Negro| 2007 – Forest Whitaker (O Último Rei da Escócia)

Melhores de 2019 – Atriz

Uma das raríssimas atrizes agraciadas com o Oscar pelo papel certo, Olivia Colman é um furacão em A Favorita. Mesmo quando ela não está em cena, o filme de Yorgos Lanthimos respira a sua presença, o que não é pouca coisa, especialmente quando também temos Rachel Weisz e Emma Stone em momentos inspirados. Não há como contestar: é genial a forma como ela dá vida à conturbada rainha Anne, sempre com muita humanidade e sem cair no risco de torná-la caricata. E a missão era muito difícil, visto que a personagem transita por uma gama de emoções com extrema velocidade e tem na insanidade a matéria-prima para variáveis de drama e humor.

Quando questionada sobre como conduziu sua performance, Olivia pede desculpas e revela que ela, como atriz, não têm processos muito claros. Isso pode ser motivo de decepção para muitos entrevistadores (o que ela mais cita sobre sua vivência em A Favorita é o fato de ter comido muito durante as gravações), mas talvez seja a sua maior qualidade como intérprete. Esse mistério de não se encaixar em definições fáceis e que lhe permite ser escalada para qualquer papel acabou encantando Yorgos Lanthimos, que deu a Colman o palco perfeito para ela criar o tipo de performance que define uma carreira. Ainda disputavam a categoria: Camila Morgado (Vergel), Glenn Close (A Esposa), Lupita Nyong’o (Nós) e Scarlett Johansson (História de Um Casamento).

EM ANOS ANTERIORES: 2018 – Karine Teles (Benzinho) | 2017 – Jennifer Lawrence (Mãe!| 2016 – Isabelle Huppert (Elle| 2015 – Camila Márdila e Regina Casé (Que Horas Ela Volta?) | 2014 – Rosamund Pike (Garota Exemplar| 2013 – Adèle Exarchopoulos (Azul é a Cor Mais Quente| 2012 – Tilda Swinton (Precisamos Falar Sobre o Kevin| 2011 – Kirsten Dunst e Charlotte Gainsbourg (Melancolia| 2010 – Carey Mulligan (Educação| 2009 – Kate Winslet (Foi Apenas Um Sonho| 2008 – Meryl Streep (Mamma Mia!| 2007 – Marion Cotillard (Piaf – Um Hino ao Amor)

Melhores de 2019 – Roteiro Original

Em mais de 20 anos de carreira, o cineasta Bong Joon-ho sempre trabalhou com todo tipo de gênero, e Parasita não deixa de ser mais um trabalho onde ele mistura e subverte muitos deles, mas sua maior preocupação ao escrever o roteiro do filme era contar uma história sobre pessoas mundanas e que podem muito bem ser nossos vizinhos. Inicialmente pensado como uma peça de teatro, Parasita aos poucos foi tomando forma como uma experiência cinematográfica, com sua gênese dramática centrada na relação entre ricos e pobres, discussão já presente em Expresso do Amanhã, ficção científica assinada por Bong Joon Ho ainda quando o roteiro de Parasita estava sendo escrito por ele em parceria com Jin Won Han.

Sem estereótipos, a dupla cria dois núcleos de poder aquisitivo muito distintos, desfiando perspectivas inteligentíssimas, como a questão da (falta de) privacidade de cada família (os ricos moram em uma espécie castelo isolado, enquanto os pobre vivem em um apartamento subterrâneo cuja única janela está à altura do chão da rua, como se eles fossem mendigos). Conjugando uma trama de disparidades sociais e dinâmicas familiares, o roteiro de Parasita não limita seus personagens à mera definição de mocinhos e vilões, desenvolvendo todos com desenvoltura em um emaranhado de acontecimentos surpreendentes e empolgantes. Ainda disputavam a categoria: Bacurau, Dor e Glória, Entre Facas e Segredos e A Favorita.

EM ANOS ANTERIORES: 2018 – Trama Fantasma | 2017 – Manchester à Beira-Mar | 2016 – Aquarius | 2015 – Que Horas Ela Volta? | 2014 – Relatos Selvagens | 2013 – Antes da Meia-Noite | 2012 – A Separação | 2011 – Melancolia | 2010 – A Origem | 2009 – (500) Dias Com Ela | 2008 – WALL-E | 2007 – Ratatouille

“After Life”: em fase melancólica e tragicômica, Ricky Gervais encena o luto sem fim de um homem comum

Criador, ator, produtor, roteirista e diretor do seriado After Life, Ricky Gervais abraça a melancolia e a tragicomédia para narrar a história de um homem que vive um luto sem fim. 

Esqueça o Ricky Gervais que, como apresentador do Globo de Ouro em três ocasiões, chocou meio mundo com monólogos de abertura polêmicos. Esqueça também o Ricky Gervais que deixou incontáveis plateias desconfortáveis com seriados como Extras e The Office (a versão britânica que deu origem ao sucesso estrelado por Steve Carell nos Estados Unidos). Obviamente Gervais não abriu mão de sua própria personalidade, mas o que vemos em After Life, cuja segunda temporada estreou dia 24 de abril na Netflix, é uma versão mais sentimental e melancólica de um humorista que, perto de completar 60 anos, resolveu refletir sobre a finitude da vida e sobre o estado de luto que todos nós um dia vivenciaremos.

Se antes o humor de Ricky Gervais era gosto adquirido (piadas ácidas, politicamente incorretas e até mesmo constrangedoras são para um certo nicho), agora a situação muda de cenário, pois After Life, além de trazer toda a ironia e a inteligência das melhores comédias britânicas, consegue ser universal ao equilibrar certas características do humor que consagrou Gervais e doses de emoção realmente surpreendentes se levarmos em consideração a trajetória mais célebre do humorista. Para quem gosta de ver tudo de uma tacada só, uma boa notícia: After Life é estruturada em temporadas de somente seis episódios de 30 minutos, o que também pode ser a tristeza para quem gosta de saborear histórias por um longo período.

As duas temporadas lançadas até agora são todas dirigidas e roteirizadas pelo próprio Gervais. Cada uma, pela curtíssima duração, parece um filme dirigido em seis partes. Gervais, no entanto, como um veterano dos seriados, sabe construir uma estrutura episódica para o programa. Resumidamente, a história gira em torno de Tony, um jornalista que, após ter perdido a esposa para o câncer, passa a enxergar o pessimismo como filosofia de vida. Para ele, o trabalho é uma atividade tola, as pessoas ao seu redor são desprezíveis e tudo parece uma conspiração para para irritá-lo. Sem a esposa, Tony apenas sobrevive.

A partir de amizades improváveis e de personagens que buscam a humanidade do protagonista, After Life dosa humor e comédia para evitar o risco de se tornar o relato sobre um homem intragável.

Receita fácil para criar um personagem insuportável, a sinopse depressiva de After Life é colocada abaixo na prática. Primeiro porque Ricky Gervais, que interpreta o próprio Tony, opta por utilizar a sua cota de humor justamente para retratar o pessimismo do protagonista. Ora, é mesmo tragicômico o fato de Tony trabalhar no jornal decadente de uma pequena cidade, entrevistando pessoas que talvez nenhum jornalista sonha entrevistar, como uma senhora que diz ter o poder de falar com gatos ou o homem que vê o rosto de Kenneth Branagh em uma infiltração da casa. Também é divertido ver Tony se tratar com um psicólogo que está cansado de ouvir seus pacientes e que, no final das contas, quer apenas falar sobre ele próprio.

Além de explorar com humor as situações cotidianas afim de aliviar o peso que ele visivelmente carrega nas costas, After Life cerca o protagonista de personagens que clamam por sua humanidade, como Emma (Ashley Jensen), a enfermeira que cuida do pai de Tony em uma clínica para idosos, ou então a sua mais nova amiga Anne (Penelope Wilton), uma senhora que perdeu o marido e com quem ele tem alguns dos melhores diálogos em ambas as temporadas. A partir do convívio com essas pessoas, Tony começa gradativamente a se abrir para o mundo mais uma vez, ainda que nunca consiga se libertar das memórias da esposa, muitas delas registradas em gravações caseiras que ele assiste ao acordar e antes de dormir.

Fragmentos de memórias: nos vídeos que Tony assiste diariamente como um ritual, conhecemos um pouco sobre quem ele era antes de perder a esposa.

No tocante à discussão do luto, Ricky Gervais não cai na tentação de querer encenar contar a história do protagonista de forma linear. Seria fácil nos introduzir à esposa de Tony, passar alguns episódios com ela e depois fazê-lo sofrer a perda. O que After Life faz é apresentar um personagem que, depois de meses, ainda não seguiu em frente — e nem tem a intenção de seguir tamanho o vazio existencial que sente. Através das gravações que Tony guarda da esposa, a série revela, a cada episódio, fragmentos do relacionamento sincero, cúmplice e espontâneo dos dois, e aí entendemos ainda mais a razão de todo luto. Cada vez que vemos o protagonista encerrar um dia com um sorriso ou algumas lágrimas no rosto ao revisitar alguma gravação no computador, percebemos que também sentimos falta de vê-lo feliz.

O humor pessimista desse homem em luto rende momentos hilários para After Life, que busca a piada no absurdismo do dia a dia. Entretanto, é a angústia de Tony com ele próprio e com a sua incapacidade de seguir em frente que dá verniz à série. Com simplicidade, Gervais olha para o cotidiano com um olhar afiado e revelador: assim como acontece na vida, o protagonista começa a colecionar amizades improváveis (a prostituta vivida por Roisin Conaty é excelente, muito em função da série não problematizar ou estereotipar a natureza da sua profissão) e a perceber que, apesar dos pesares, precisamos abraçar aquilo que a vida tem a nos oferecer, inclusive os colegas estranhos de trabalho que podem muito bem ser o ombro amigo que precisamos. No meio disso tudo, Ricky comove e diverte como ator, em um desempenho discreto e repleto de nuances.

Na primeira temporada, After Life apostou com mais frequência no humor, muito para contextualizar o quanto Tony passou a ver a vida com pessimismo. Já no segundo ano, a melancolia toma conta do seriado porque testemunhamos vários desdobramentos de suas novas relações. A mais significativa é a que ele estabelece com a enfermeira que cuida de seu pai e que logo se apresenta como um interesse amoroso que talvez o faça finalmente virar a página. Nada maniqueísta ou clichê, mas de uma sobriedade que costuma definir os trabalhos mais interessantes vindos do Reino Unido. Com o passar do tempo, Ricky Gervais realmente se tornou mais sentimental. E, partindo do que ele realiza em After Life, tal constatação só comprova a velha tese de que nem todo ator é um grande comediante, mas que, sim, todo comediante é necessariamente um grande ator. Aliás, no caso de Ricky, grande ator, produtor, diretor, roteirista…

Três atores, três filmes… com Vera Fischer

Com mais de 40 anos de carreira, Vera Fischer já ultrapassou a marca de 30 participações em novelas e seriados. No meu imaginário de ex-noveleiro, ela mora, claro, como a protagonista Helena de Laços de Família, novela do ano 2000 que, escrita por Manoel Carlos, chegou a registrar o maior índice de audiência do Canal Viva quando foi reprisada em 2016. Vera também fez filmes — mais de 20 — e sempre foi uma cinéfila de carteirinha. Recentemente, passou a compartilhar suas aventuras cinematográficas no Instagram. De grandes clássicos a sucessos modernos, ela também registra por lá os seus comentários sobre premiações como o Globo de Ouro e o Oscar (aliás, Rede Globo, já fica registrada aqui a dica para que a Vera comente a transmissão do ano que vem!). Sou grande fã da completa espontaneidade e autenticidade com que Vera produz suas postagens. Mais ainda da frequência com que ela assiste diferentes filmes para, logo em seguida, recomendar aos seus seguidores. Convidada a elencar três interpretações do cinema que lhe marcaram, Vera selecionou para a nossa coluna dois desempenhos agraciados com o Oscar e um eternizado pelo tempo. Os três primeiros comentários abaixo foram enviados por ela especialmente para o blog. Já os demais foram publicados recentemente no Instagram da Vera, onde ela também comenta especificamente sobre desempenhos de seus colegas de profissão. Tão importantes quanto os críticos não são os espectadores assíduos? Que privilégio tê-la por aqui!

Holly Hunter (O Piano)
No filme de Jane Campion, ela faz uma mulher muda que fala por sinais e que ama o seu piano mais do que tudo na vida, a ponto do piano falar por ela. Com um desempenho tão forte, tão maduro, e ao mesmo tempo tão surreal, ela me tocou profundamente.

Liza Minelli (Cabaret)
Ela estava maravilhosa nesse filme dirigido pelo coreógrafo Bob Fosse! A sua Sally Bowles, uma sonhadora americana, que canta e dança no Cabaret KitKat, em Berlim, durante a ascensão do nazismo, é digna dos maiores elogios. Ela criou, através da maquiagem e das roupas, uma personagem meio clown, uma figura patética no meio daquele ambiente decadente. Adorei como Liza conseguiu me emocionar, a cada cena, seja dançando, cantando ou apenas em silêncio, no close.

Jack Nicholson (O Iluminado)
O primeiro épico de terror que ficou amedrontador não apenas por ser uma historia de Stephen King dirigida por Kubrick, mas também pelo horror, loucura e insanidade que o ator vai revelando ao longo do filme. É impossível ficar impassível! É um grande trabalho de Nicholson e dá mesmo muito medo.

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Rita Hayworth (Gilda)
A lendária Rita Hayworth, dama da Columbia Pictures, brilha neste filme de 1946, dirigido por Charles Vidor. Com muita sensualidade e magnetismo, ela canta “Put the Blame on Mame”, num cassino ilegal em uma cidade da América Latina; é uma história cheia de reviravoltas. Gilda, mulher infiel, sedutora, ciumenta, vingativa, intimidadora e… maravilhosa. Dizem que, nunca houve uma mulher como Gilda!

Forest Whitaker (O Último Rei da Escócia)
Encantador. Fascinante. Assassino. É assim o filme O Último Rei da Escócia, com o vencedor do Oscar e do Globo de Ouro de 2007, Forest Whitaker. No papel de Idi Amin Dada, o ditador se Uganda, Forest nos brinda com uma das melhores interpretações da história do cinema moderno. Esta é a incrível história de Amin, vista através dos olhos de Nicholas Garrigan (James McAvoy, também excelente!), um jovem escocês que foi médico pessoal do instável líder, em parte devido à inesperada paixão de Amin pela cultura escocesa. Amin até se autoproclamou “O Último Rei da Escócia”. Seduzido pelo carisma de Amin e cegado pela decadência, a vida dos sonhos de Garrigan torna-se um pesadelo de traição e loucura, da qual não há fuga. Inspirado em pessoas e acontecimentos reais, esta história de grande impacto e cheia de suspense é repleta de interpretações inesquecíveis. Forest Whitaker me inspira sempre. É tão bom ator que você é fisgado no primeiro instante. Esse é um filmaço. Daqueles que, sempre que você o vê, nunca mais vai ser a mesma pessoa.

Audrey Hepburn (Bonequinha de Luxo)
Quem ainda não viu Bonequinha de Luxo, esta comédia com Audrey Hepburn, que brilha como diamante? Claro que todos já viram! Mas nunca é demais. Desde os acordes de abertura da inesquecível canção “Moon River”, de Henry Mancini e Johnny Mercer (vencedora do Oscar), todos ficam sob o encanto desta maluquinha garota de Nova York, conhecida como Holly Golightly (Audrey), nesta história baseada no best-seller de Truman Capote. George Peppard é um jovem e esforçado escritor que conhece Holly e é arrebatado para o seu intrigante e delicioso estilo de vida, mas Holly quer apenas encontrar um milionário para casar-se. Grande clássico do diretor Blake Edwards. Eu adoro, particularmente, as cenas em que ela está vestindo um Givenchy preto, diante da Tiffany’s, comendo um sanduíche ao amanhecer, admirando os diamantes, e, o momento em que, ao lado de Peppard, sentada na janela, ela canta “Moon River”. Audrey forever.

Melhores de 2019 – Roteiro Adaptado

Foi necessário um período dois anos para que o roteiro de A Vida Invisível chegasse à sua estrutura final. Ao longo desse tempo, Karim Aïnouz e Murilo Hauser, que tomavam como base, claro, o livro A Vida Invisível de Eurídice Gusmão, de Martha Batalha, discutiram muitos pontos que poderiam funcionar na literatura, mas que, no cinema, talvez pudessem soar menos orgânicos para o ritmo da narrativa (a grande quantidade de saltos no tempo, por exemplo). Procurando manter a essência do romance de Martha Batalha, a dupla também propôs ajustes pontuais, como o fato de Eurídice tocar piano — e não flauta, como originalmente escrito —, um instrumento muito mais visual e que amplia a linguagem corporal da personagem.

A mistura de reverência ao livro de origem com a plena consciência de que literatura é uma coisa e cinema é outra confere ao roteiro de A Vida Invisível uma grande delicadeza. Estruturalmente bem resolvido (Karim e Murilo ainda desconstruíram o texto original para colocá-lo em ordem cronológica e, a partir daí, definirem a gênese dramática e o formato da narrativa), a adaptação contempla diversos temas — a emancipação feminina, o machismo, a relação entre irmãs, a passagem do tempo — com grande comoção, provando que é possível sim fazer um melodrama bem dosado e com raízes novelescas admiráveis. Ainda disputavam a categoria: Greta, Poderia Me Perdoar?, Querido Menino e Se a Rua Beale Falasse.

EM ANOS ANTERIORES: 2018 – Me Chame Pelo Seu Nome | 2017 – Minha Vida de Abobrinha | 2016 – Carol |  2015 – 45 Anos | 2014 – Garota Exemplar | 2013 – Azul é a Cor Mais Quente | 2012 – Precisamos Falar Sobre o Kevin | 2011 – A Pele Que Habito | 2010 – Direito de Amar | 2009 – Dúvida | 2008 – Desejo e Reparação | 2007 – Notas Sobre Um Escândalo

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