Cinema e Argumento

Melhores de 2021: categorias de intepretação

THE POWER OF THE DOG

MELHOR ATOR COADJUVANTE
Kodi Smit-McPhee (Ataque dos Cães)

É praticamente impossível entender o que se passa na mente de Peter, o jovem vivido por Kodi Smit-McPhee que acaba girando as engrenagens de Ataque dos Cães. Alto e esguio, ele parece se movimentar em um universo próprio, revelando-se aos poucos para o espectador e comunicando muito através da linguagem corporal. Para além da questão física, Smit-McPhee brilha por compreender que seu personagem não tem um arco propriamente dito: o que ele faz é estimular e intrigar a plateia com um jovem cujas grandes transformações aconteceram na vida pregressa ao início do filme. Traumas, inseguranças e receios relacionados à sua essência já surgem resolvidos em Ataque dos Cães, e é justamente essa segurança de ser quem ele é que desestabiliza Phil (Benedict Cumberbatch). Entre a delicadeza de ser o filho que zela pela própria mãe e os movimentos sinuosos de uma personalidade bastante particular, o ator dá conta de várias questões sobre ideais de masculinidade ainda muito presentes e confere complexidade a um personagem laudatório das melhores qualidades de Ataque dos Cães.

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MELHOR ATRIZ COADJUVANTE
Jessie Buckley (A Filha Perdida)

Interpretando a mesma personagem, mas em momentos diferentes de vida, Jessie Buckley e Olivia Colman nunca sentaram para conversar ao longo de toda a realização de A Filha Perdida. Inclusive, elas não acreditavam em tal necessidade — o que muito agradou a diretora Maggie Gyllenhaal, que organizou os distintos recortes da protagonista Leda como se elas fossem ecos, previsões e reminiscências de uma vida marcada pela inadequação ao que a sociedade exige das mulheres, especialmente daquelas que se tornam mães. Buckley é uma maravilhosa escalação para a versão nova da personagem porque, claro, é boa atriz, e porque tem instintos parecidos com os de Olivia Colman no que tange escolha de projetos e o tipo de papeis que gosta de interpretar. Sem jamais julgar Leda, ela já dá pistas dos sentimentos e das circunstâncias que a moldaram, equilibrando-se nessa eterna corda bamba que a vida nos coloca de sermos capazes de fazer tanto escolhas boas quanto ruins. É mais um atestado bastante claro e instigante de que Jessie Buckley está entre as melhores atrizes de sua geração.

bactorhopkins

MELHOR ATOR
Anthony Hopkins (Meu Pai)

Anthony Hopkins disse em várias entrevistas que foi muito fácil fazer Meu Pai. Sua teoria é de que Florian Zeller e Christoper Hampton escreveram um roteiro tão extraordinário e Olivia Colman foi uma parceira tão ímpar em cena que tudo o que ele precisava fazer era se deixar levar. Se realmente foi tão fácil como Hopkins diz, só podemos deduzir que o foi porque, à parte o talento, há coisas que um ator conquista apenas com a experiência, entre elas, a capacidade de encarar desafios com naturalidade. Sem nunca ter tido uma experiência próxima envolvendo Alzheimer ou doenças do gênero, o ator, apesar disso, colocou-se na pele do protagonista como se tivesse acompanhado uma história como essa de perto. O olhar profundo e generoso com que ele abarca um complicadíssimo dilema do qual ninguém está livre (o que fazer quando as pessoas que você ama começam a perder as suas estruturas?) é de partir o coração, principalmente porque o protagonista, preso na ideia de que está seguro de si como sempre esteve a vida inteira, luta para tentar dar algum sentido ao que acontece já não consegue mais entender. Tenho sempre muita cautela ao afirmar que determinado desempenho é o melhor da carreira de alguém. No entanto, no caso de Anthony Hopkins em Meu Pai, a exceção pode ser feita sem qualquer medo.

THE LOST DAUGHTER. OLIVIA COLMAN as LEDA. CR. COURTESY OF NETFLIX

MELHOR ATRIZ
Olivia Colman (A Filha Perdida)

Resumidamente, a expressão norte-americana taken for granted seria como o ato de tomar algo como certo ou garantido, sem que fosse digno de maior atenção e celebração por já ter se consolidado o suficiente. Pode ser uma percepção prematura, mas desconfio que Olivia Colman, assim como tantas outras atrizes extraordinárias, já se encaixe no taken for granted por ter recebido um Oscar dos mais justos por A Favorita e por não ter errado a mira depois de tal celebração, participando de séries como The CrownFleabag ou do extraordinário Meu Pai, filme em que atuou ao lado de Anthony Hopkins. É apenas esse taken for granted que explica o fato de Olivia não ter varrido premiações e festivais com a sua performance em A Filha Perdida. Olivia traz entendimento e camadas a uma personagem difícil de definir e de gostar, evitando transformá-la em uma louca e, ao mesmo tempo, renegando a ideia de torná-la palatável ao público. A Leda mais madura da atriz e interpretada na juventude por Jessie Buckley carrega remorsos e (in)certezas traduzidos em cada inflexão de uma intérprete com a rara capacidade de sempre surpreender, impactar e fazer com que tudo pareça tão natural. Celebrar Olivia Colman nunca deve ser demais.

shivacast

MELHOR ELENCO
Shiva Baby

São muitas as variáveis que podem definir um bom elenco. Número de atores? Sinergia entre eles? Equivalência na grandeza de interpretações? Acertos em todas as escalações? Ao meu ver, não há uma resposta certa. Há elencos excepcionais que, formados por apenas três ou quatro pessoas, garantem aulas de atuação, como em Dúvida, premiado nessa respectiva categoria aqui no blog, e há casos como o de Shiva Baby, que conjuga de tudo um pouco, passando por um número volumoso de atores, pela excelente dinâmica estabelecida entre eles e por um grande equilíbrio de talentos. Encabeçado pela performance reveladora de Rachel Sennott (apenas em seu segundo longa-metragem, mas demonstrando um domínio singular), o elenco de Shiva Baby se engrandece ao tornar crível a dinâmica de uma família deveras particular e repleta de personalidades tão distintas quanto complementares, com particular também para Polly Draper, que interpreta a mãe da protagonista. Em pouco menos de 80 minutos, todos têm papel fundamental na construção do grande sentimento de claustrofobia que permeia o longa de estreia de Emma Seligman.

Três atores, três filmes… com Otávio Almeida

otaviotresOs colegas e amigos entusiasmados por cinema que a vida na internet me trouxe se tornaram pessoas que, inevitavelmente, eu conheci e passei a ter como referência também através da escrita. Desbravei meus primeiros textos sobre cinema lendo, por exemplo, a Kamila Azevedo, que já participou aqui da coluna, e não tardou para que outros se somassem ao time, como o Otávio Almeida, que hoje é o 60º convidado desta seção sempre cercada de carinho. Acho simbólico ter Otávio como o rosto deste marco justamente em função dos tantos anos virtuais compartilhados com escrita e muitos filmes. Autor do Hollywoodiano (hoje em sua versão no Instagram), ele ainda pode ser encontrado no podcast Era Uma Vez em São Paulo. Em ambos, faz jus ao nome do projeto com o qual cravou bandeira na internet: analisa, como ele próprio gosta de dizer, os filmes da indústria Hollywoodiana de forma debochada, exagerada, mas coerente com sua visão sobre cinema. Não é diferente aqui na coluna. Aproveitem!

Al Pacino (O Poderoso Chefão)
Sou suspeito pra falar da trilogia sagrada de Francis Ford Coppola, mas, como considero o original de 1972 meu filme favorito, não tinha a menor possibilidade aqui de destacar minha atuação preferida em outra produção. Não, não estou falando de Marlon Brando, que é monumental, mas de Al Pacino, que provavelmente ninguém entre nossos pais e avós conhecia na época. Talvez seja o cartão de visitas mais impactante entre os atores do cinema americano. É a viagem ao lado sombrio da Força ou o Breaking Bad mais sutil e impressionante que já testemunhei. O pacífico Michael Corleone dando um passo de cada vez rumo ao inferno do poder, ciente de que isso corrompe e fecha a porta sem dó na cara da esposa (e do público) na cena final. Todo o trabalho de Pacino na trilogia é uma aula, mas é no primeiro filme que ele ganha todo o nosso amor na mesma proporção do ódio. Sublime!

Bette Davis (A Malvada)
Desculpa, mas Bette Davis é a melhor atriz do mundo em A Malvada. Podemos falar de Meryl, Viola, Nicole, Isabelle Huppert, Cate Blanchett ou Katharine Hepburn, eu entendo. Obviamente, Bette Davis está nesse patamar, porém, cada palavra, postura, gesto e energia desferidas pela atriz na obra-prima de Joseph L. Mankiewicz acertam o coração e o estômago não só do restante do elenco (fica feio pra colega de cena Anne Baxter, a Eve do título original), mas do próprio público. Ela é monstruosa e traz aqui tudo que qualquer jovem atriz precisa saber para arriscar ao menos 10% desse talento na profissão.

Gloria Swanson (Crepúsculo dos Deuses)
Eu disse que Bette Davis é a melhor atriz do mundo em A Malvada? Bom, confesso que eu mesmo fico na dúvida eterna quando (re)vejo Gloria Swanson em Crepúsculo dos Deuses (ou Sunset Boulevard, como nós cinéfilos preferimos falar). Não apenas pela icônica cena final, mas por todas as aparições sinistras que botam o grande William Holden no chinelo.

Melhores de 2021: categorias técnicas

Não faz muito tempo que me culpava por fazer cada vez mais tarde a minha lista de melhores do ano. Hoje, já começo a ter mais carinho por essa ideia, pois não há nada melhor do que tomar certa perspectiva, ter tempo para digerir as coisas e não agir no calor do momento quando se trata de escolhas, principalmente aquelas envolvendo qualquer forma de arte. Dito isso, com o devido hiato para fazer escolhas que agora me parecem devidamente calibradas, aqui vão os primeiros vencedores da lista de melhores de 2021!

maywestart

MELHOR CANÇÃO ORIGINAL
Leos Carax, Ron Mael e Russell Mael
“So May We Start?” (Annette)

Cenas de abertura são importantes em musicais porque assinalam para o público o estilo que será seguido não apenas pelo filme, mas também pela própria parte musical. So May We Start? é muito feliz nessa premissa, revelando o quanto Annette se equilibrará entre a ambição e um tom mais descompromissado, além da mistura de ecleticidades proposta pelo diretor Leos Carax, bem ao estilo do que Ron e Russell Mael, os irmãos Sparks, exploram ao longo de sua carreira e aplicam na idealização deste musical. Para além do tom estabelecido, So May We Start? é um excelente ponto de partida para Annette porque é uma das melhores músicas do filme (meu coração se divide entre ela e We Love Each Other So Much) e porque funciona como uma espécie de abre-alas, começando até um tanto óbvia em um estúdio de música para logo ganhar as ruas com Adam Driver, Marion Cotillard e elenco. É de uma energia envolvente e de uma pegada bastante própria, característica ostentada por Annette como um todo.

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MELHOR TRILHA SONORA
Jonny Greenwood
(Ataque dos Cães)

Pouquíssimas carreiras de compositores para cinema têm tanta personalidade e consistência como a de Jonny Greenwood. O guitarrista de 50 anos da banda Radiohead se tornou parceiro inseparável do diretor Paul Thomas Anderson (as trilhas de Sangue Negro e Trama Fantasma são verdadeiras obras-primas) e também vem colaborando com outros cineastas de ponta. É o caso de seu trabalho para Ataque dos Cães, de Jane Campion, que lhe rendeu sua segunda indicação ao Oscar. Ao mesmo tempo identificável, mas nunca repetitiva, a sonoridade das trilhas de Greenwood são sempre singulares ao evocarem os mais diferentes sentimentos. No caso de Ataque dos Cães, ela tem papel central na criação de toda a tensão que paira sob os personagens. Como esperado, Greenwood não cai na simples homenagem às referências de western e cria um universo próprio para um filme que rompe várias formalidades.

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MELHOR FOTOGRAFIA
Joshua James Richards
(Nomadland)

Surpreende a sensibilidade com que Josua James Richards captura a mistura de individualidade e universalidade de Nomadland. Sua carreira é muito recente (o primeiro curta-metragem veio em 2011), prova de que talento de verdade se manifesta em qualquer momento. À parte ter em mente concepções importantes que nem todos diretores de fotografia têm (a de que ela nunca deve chamar atenção para si própria propositalmente) e experimentações que ele diz ter feito de forma deliberada para expandir seu repertório cinematográfico, o que Richard prova no filme de Chloé Zhao é que, acima de tudo, seu trabalho se move carregado de alma. Um exemplo disso é como as paisagens exploradas pelo filme não são apenas paisagens: elas estão ali para expressar as subjetividades de uma protagonista tão singular quanto Faye (Frances McDormand). O olhar é muito sensível, e o trabalho de Joshua é, sem dúvida, um dos pilares emocionais de Nomadland.

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MELHOR MONTAGEM
Yorgos Lamprinos
(Meu Pai)

Somente a habilidade em construir a notável atmosfera labiríntica de Meu Pai já deveria render todo tipo de elogios ao montador greco-francês Yorgos Lamprinos, mas seu trabalho também é louvável em outra questão muita importante: a de conseguir calibrar a imensa oscilação de emoções vivida pelo protagonista Anthony (Anthony Hopkins). Construir o quebra-cabeça com peças as faltantes da memória do personagem deve ter sido um desafio repleto de dificuldades. Afinal, como fazer o espectador conhecer um homem que já não se (re)conhece mais? Pois Lamprinos consegue, emergindo a plateia em uma estrutura elegante, surpreendente e que reflete seu assumido entendimento de que Meu Pai é, de certa forma, uma história de horror. Há ritmo e envolvimento em cada decisão tomada para absorver a perspectiva e as impressões de um personagem cuja empatia junto ao público é definida de maneira decisiva pela montagem.

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MELHOR SOM
Andy Nelson, Brian Chumney, Gary Rydstrom, Shawn Murphy e Tod A. Maitland

(Amor, Sublime Amor)

Mesmo que ostente mais de 100 títulos em um currículo marcado por filmes de todo tipo de gênero, Tod A. Maitland é categórico ao afirmar que nenhuma experiência de sua carreira em mixagem de som foi tão difícil quanto a de Amor, Sublime Amor. Junto a Andy Nelson, Brian Chumney, Gary Rydstrom e Shawn Murphy, ele estabeleceu uma dinâmica definitiva a ser seguida: tornar o set mais realista possível em termos de energia. Nesse sentido, o time de som de Amor, Sublime Amor microfonou todos os bailarinos e cantores do filme, com o objetivo de capturar o máximo possível das sonoridades reais de movimentos, sapateados, acrobacias e tudo o que tornou o musical de Spielberg uma das melhores surpresas de 2021. O resultado é um espetáculo para os ouvidos: do primeiro ao último minuto, Amor, Sublime Amor é impactante nos sentidos e um trabalho à altura da trilha de Leonard Bernstein. 

CRUELLA

MELHOR FIGURINO
Jenny Beavan
(Cruella)

Tente encontrar uma figurinista como Jenny Beavan. Possivelmente, a busca será das mais longas. Os seus três Oscar falam por si só: Uma Janela Para o AmorMad Max: Estrada da Fúria e, agora em 2022, Cruella. Dos filmes de época aos mundos pós-apocalípticos, Beavan é uma figurinista cheia de criatividade, e é isso o que acaba tornando Cruella minimamente divertido. Talvez seja meio óbvio afirmar que, em um filme sobre moda, os figurinos fossem destaque, mas Beavan sai do lugar comum para criar peças tão vistosas quanto cheia de ideias. É interessante como ela mostra a sua própria versatilidade ao contrastar as peças usadas por Emma Stone e Emma Thomson, que interpretam personagens de intenções e vocações bastante opostas. São quase 50 as trocas de figurino realizadas apenas por Stone durante o filme, credenciando de vez, também em termos quantitativos, a importância das vestimentas de Cruella para a história contada.

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MELHOR DESIGN DE PRODUÇÃO
Cathy Featherstone e Peter Francis
(Meu Pai)

Segmento que, na totalidade das premiações, acaba resumido a reconstituições de épocas e imponências de blockbusters, o design de produção costuma ser muito mais surpreendente e narrativo em filmes como Meu ´Pai. No filme dirigido por Florian Zeller, a dupla Cathy Featherston e Peter Francis é minimalista de um jeito que pode até passar de forma despercebida pelo público, mas que, é peça fundamental na construção das inúmeras emoções desta poderosa jornada interior estrelada por Anthony Hopkins. Mergulhando na mente de um homem que tenta se agarrar a certezas e memórias que estão se desintegrando, Cathy e Peter acompanham o labirinto proposto pelo diretor ao criar ambientes cujas composições variam de forma gradativa. Cores, móveis e quadros mudam sutilmente de tempos em tempos, contribuindo para a grande desorientação do protagonista e da própria plateia — algo que, no caso de Meu Pai é, sem dúvida, o maior elogio possível.

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MELHORES EFEITOS VISUAIS
Brian Connor, Gerd Nefzer, Paul Lambert e Tristan Myles
(Duna)

Brinco que blockbusters hollywoodianos não fazem mais do que obrigação quando entregam bons efeitos visuais. Com orçamentos milionários no caixa, é preciso certo esforço para chegar a algo ruim. É por isso que, diante da imensa profusão de filmes de super heróis no mercado cinematográfico, os filmes que se interessam são aqueles que se utilizam dos efeitos para criar uma atmosfera de imersão e não apenas um espetáculo vistoso. Duna segue a tradição do diretor canadense Denis Villeneuve de tentar ser o mais realista possível em luzes, contrastes e cenários criados ou adaptados virtualmente especialmente para o filme. Muito do que o quarteto Brian Connor, Gerd Nefzer, Paul Lambert e Tristan Myles fez para este projeto foi abarcar as sensações e as texturas de uma vida no deserto, interferindo o mínimo possível em elementos como luminosidade e animação. O não à artificialidade é o que faz de Duna uma experiência grandiosa do ponto de vista de efeitos.

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MELHOR MAQUIAGEM & PENTEADOS
Julia Vernon, Nadia Stacey e Naomi Donne
(Cruella)

Partindo de inúmeras referências que pudessem reproduzir o estilo de uma jovem na Londres dos anos 1970, Julia Vernon, Nadia Stacey e Naomi Donne conceberam Cruella como um filme divido em dois momentos diferentes. O primeiro envolvia uma garota que ainda não se (re)conhecia e que, ao entrar na indústria da moda, passa a buscar sua própria identidade, permitindo permitiu que maquiagem e penteados se alternassem com frequência, representando a busca da personagem por seu estilo. Já o segundo é quando Cruella (Emma Stone) finalmente se torna Cruella, fase em que a caracterização expressa não só a identidade pop de uma personagem marcante como também a maneira da protagonista mascarar quem sua verdadeira identidade e se apresentar ao mundo como uma pessoa inteiramente nova. São fronteiras bem desenhadas, mas, ao mesmo tempo, bastante interligadas pelo trabalho de Vernon, Stacey e Donne.

Desfecho de “Ozark” é amargo, incômodo e, por isso mesmo, totalmente fiel à trajetória da série

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Jason Bateman e Laura Linney em Ozark: episódios finais da série estrearam no último dia 29.

Finais de série são sempre um assunto muito complicado porque costumam ser julgados por aquilo que o público gostaria de ver e não por aquilo que de fato faz mais sentido para a história. Lembro, particularmente, de ter me sentido deslocado ao ter apreciado o desfecho de The Good Wife, por exemplo. Não era um final de grandes ideias ou muito menos de sofisticada construção, mas servia perfeitamente ao importante propósito de não desvirtuar a trajetória da protagonista e permanecer convicto até o último minuto de quem ela havia se tornado ao longo de sete temporadas. O público detestou, e o mesmo parece estar acontecendo com a última temporada de Ozark, cujos últimos episódios foram disponibilizados no último dia 29.

Menos popular do que poderia ter se tornado na Netflix, a série criada pela dupla Bill Dubuque and Mark Williams começou com repercussão comedida até mesmo entre crítica e prêmios. O que talvez explique o reconhecimento tardio a Ozark seja o tempo que boa parte da plateia levou para compreender que defini-la como a “Breaking Bad da Netflix” era definitivamente um equívoco. Desde o primeiro ano, os roteiristas já eram destemidos em escapar de qualquer semelhança com o seriado de Vince Gilligan. Isso porque, em sua própria superfície, Ozark já fazia diferente: a jornada de Marty Byrde (Jason Bateman) nunca foi de deslumbramento com o crime, e as naturezas escusas de seu trabalho eram reveladas aos filhos já no primeiro episódio.

No que podemos chamar de baixa fervura, Ozark começou a descentralizar a atenção em Marty e a enredar pessoas próximas que, de cúmplices silenciosas da sua atividade de lavagem de dinheiro, passaram a fazer parte daquele jogo, caso de Wendy Byrde (Laura Linney), uma das personagens com as camadas mais interessantes e provocadoras da trama. À medida em que o círculo do crime se abria e não parava de jogar pessoas para dentro dele, Ozark criava um sentimento crescente de sufocamento, muito porque sua ação e seu suspense rejeitaram espetáculos estrondosos. Na verdade, tudo parecia ter o mesmo senso de urgências cotidianas, trazendo uma atmosfera de incômodo que não sabíamos exatamente de onde vinha e que fazia com que o espectador se sentisse em apuros tanto quando a família Byrde.

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Ascensão de Wendy e sua relação com Marty é um dos pontos altos do seriado.

O jogo se agrava quando Wendy passa a tomar gosto pela coisa, naquele que pode ser o único eco minimamente comparável a Breaking Bad — e, ao mesmo tempo, é curioso como o Walter White de Bryan Cranston se tornou ícone de cultura pop enquanto Wendy é, com frequência, tida como uma personagem desagradável. Além de dar os grandes momentos que uma atriz do calibre de Laura Linney merece, como se ela interpretasse a sua própria versão de Lady Macbeth, os novos movimentos da personagem acabam ditando todos os rumos da série. É impressionante o engrandecimento de Wendy episódio a episódio, desafiando, em viradas muito orgânicas, até mesmo o seu marido, que, a partir de uma performance muito generosa e sem vaidades de Jason Bateman, cede espaço a ela primeiro por conveniência e, logo após, por não ter mais controle sobre quem a eposa se tornou.

Para dar conta de um emaranhado de crimes e personagens, Ozark nunca teve medo de tomar decisões drásticas, sem que isso parecesse muleta ou uma opção do choque pelo choque. O desfile de participações especiais sempre contribuiu para a construção da narrativa e nos brindava com atores que tiraram o melhor de seus personagens, caso de Janet McTeer e Tom Pelphrey, ambos com excelentes momentos na terceira temporada e solenemente ignorados pela temporada de premiações. Eles foram marcantes complementos a um elenco fixo já brilhante por si só, em que se destaca a força das intérpretes femininas, devidamente valorizadas por um roteiro que fez questão de colocá-las no centro de todos os conflitos (e aqui não posso deixar de citar, claro, a marcante Darlene, vivida com visceralidade por Lisa Emery).

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A trágica história de Ruth Langmore carrega os maiores vislumbres de emoção da trama. 

No meio da frieza e do calculismo inerentes a uma vida encharcada de crimes, Ozark aplicou sua cota de emoção na trágica Ruth Langmore. Única figura da série definida pelo mínimo de afeto, Ruth foi magnificamente interpretada por Julia Garner como essa menina com a qual a vida foi muito injusta, desprovida de qualquer acolhimento familiar e de condições financeiras que pudessem lhe tirar do mundo à margem em que vivia. A personagem estabeleceu uma dinâmica das mais interessantes com Marty Byrde, caminhando na fronteira entre o ressentimento e o carinho por esse homem que ela esperou cumprir o vazio paternal de sua vida. De um jeito muito peculiar, Ozark foi, aqui e ali, um retrato sobre as relações familiares tortuosas que a vida nos dá, tema também explorado pelos Byrdes e até mesmo pelo cartel mexicano dos Navarros. Conseguir propor esse tipo de leitura a partir de personagens tão difíceis de empatizar é outro mérito dos roteiristas. 

Voltando, enfim, ao desfecho, é importante celebrar como os produtores souberam fazer algo óbvio, mas cada vez mais restrito a poucos programas atuais: parar na hora certa. Ainda que o terceiro ano tenha sido o mais popular de Ozark, já ficava evidente que os roteiristas estavam esticando a corda, precisando inclusive trazer novos personagens fixos para movimentar a trama ao invés de apenas complementá-la. Na quarta temporada, prolongada para 14 episódios e dividida em duas partes, a sensação foi um tanto parecida, principalmente porque o programa entregou conclusões menos explosivas do que o esperado. Difícil saber, aliás, o que foi criativo ou comercial em relação a momentos como o do flashforward que abre a temporada e se revela um inexplicável maneirismo sem propósitos dramáticos. Ir além da quarta temporada fragilizaria demais o projeto, tanto pelo fato de a série ser refém de uma trama que precisa ser bem amarrada em tantos desdobramentos quanto pela verossimilhança.

Felizmente, o ponto final foi colocado em A Hard Way to Go após uma última temporada centrada, com muita justiça, em Ruth Langmore e nas diferenças com que Marty e Wendy lidam com os gargalos de situações cada vez mais escabrosas. O episódio vem desagradando a crítica e os fãs do seriado, em função, ao meu ver, dos roteiristas terem feito o que precisava ser feito, sendo coerente com a série como um todo. Os personagens de Ozark sempre levaram uma vida difícil de ser vivida sem consequências ou alentos, e seria incoerente um caminho diferente para a reta final. Não sei se as pessoas estavam vendo a mesma Ozark do que eu, mas um final bonitinho, bem amarrado e de momentos resolutivos jamais esteve no horizonte. Para além da coesão estética e de ritmo mantida ao longo de quatro temporadas, o programa ficará marcado por ter se mantido fiel ao que queria contar do início ao fim, mesmo que isso tenha lhe obrigado a tomar decisões desagradáveis aos olhares do público, mas coerentes com o lado mais sombrio, cínico e amargo das quatro temporadas. É, enfim, um final que espera do público a maturidade que a série sempre lhe confiou.

“Medida Provisória” é o filme que Lázaro Ramos precisava fazer (e nós precisávamos assistir) no Brasil atual

Como é que a gente deixou chegar nesse ponto? Como é que a gente riu disso?

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Direção: Lázaro Ramos

Roteiro: Aldri Anunciação, Elisio Lopes Jr., Lázaro Ramos e Lusa Silvestre, baseado no texto teatral “Namíbia, Não!”, de Aldri Anunciação

Elenco: Alfred Enoch, Taís Araújo, Seu Jorge, Adriana Esteves, Renata Sorrah, Emicida, Dona Diva, Mariana Xavier, Aldri Anunciação, Pablo Sanábio, Flavio Bauraqui, Hilton Cobra

Brasil, 2022, Drama, 94 minutos

Sinopse: Em um futuro distópico, o governo brasileiro decreta uma medida provisória, em uma iniciativa de reparação pelo passado escravocrata, provocando uma reação no Congresso Nacional, que aprova uma medida que obriga os cidadãos negros a migrarem para a África na intenção de retornar a suas origens. Sua aprovação afeta diretamente a vida do casal formado pela médica Capitú (Taís Araújo) e pelo advogado Antonio (Alfred Enoch), bem como a de seu primo, o jornalista André (Seu Jorge), que mora com eles no mesmo apartamento. Nesse apartamento, os personagens debatem questões sociais e raciais, além de compartilharem anseios que envolvem a mudança de país. Vendo-se no centro do terror e separados por força das circunstâncias, o casal não sabe se conseguirá se reencontrar. (Adoro Cinema)

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Guardadas as devidas proporções e assertividades, Medida Provisória tem muito em comum com Não Olhe Para Cima, o hit mais recente produzido originalmente pela Netflix. Assim como o filme dirigido por Adam McKay, a estreia na direção do ator Lázaro Ramos é extremamente literal em tudo que se propõe a discutir. Isso quer dizer que não há espaço para sutilezas e que as representações são as mais explícitas possíveis, da composição de personagens ao desenrolar da trama. A adoção de tal estilo não é boa ou ruim por si só, mas, no Brasil em que vivemos atualmente, creio ser uma necessidade: quando precisamos sempre (re)explicar o que significa respeito, civilidade e bom senso, o trabalho de quem tem a paciência e vontade de dizer o que deve ser dito com todas as letras é mais do que bem vindo. 

Ser tão literal reserva alguns riscos dos quais Medida Provisória nem sempre ileso, com destaque para os momentos em que personagens discursam sem muita naturalidade ou quando transita aqui ou ali entre diferentes gêneros. Entretanto, são passagens pontuais em comparação a outros acertos de maior peso. Lázaro Ramos, também autor do roteiro, ao lado de Aldri Anunciação, Elisio Lopes Jr. e Lusa Silvestre, entende que, infelizmente, vivemos uma espécie de luta do bem contra o mal, o que não é motivo para caricaturas (nem todo branco é necessariamente maquiavélico, por exemplo) ou para ignorar a discussão de pontos passíveis de problematização, como o do casal protagonista de classe média viver uma posição privilegiada quando comparada a de tantos outros negros em meio à medida provisória do título.

Cuidados como esse costumam passar despercebidos na apreciação de filmes menos sutis, mas eles elevam o material e revelam a existência de artesanalidade no que é convencionalmente chamado de “comercial” ou “popular”. Medida Provisória é baseado no espetáculo teatral “Namíbia, Não!”, de 2011, dirigido pelo próprio Lázaro, e essa é outra informação importante, pois evidencia o olhar apurado do ator como um diretor capaz de transitar por diferentes formatos e gêneros sem confundir linguagens ou ficar preso a formalidades. A capacidade de Lázaro de transformar um espetáculo teatral protagonizado por apenas dois atores em um longa-metragem de dimensões muito maiores e com focos distintos comprova que ele tem futuro como o tipo de realizador que assumidamente deseja ser: o mais plural possível, algo que já está sendo explorado no seu contrato com a Amazon, pelo qual acaba de rodar um musical.

Medida Provisória constrói com eficiência um clima de distopia porque, mesmo tendo sido finalizado ainda em 2019, aponta para inúmeras questões que nos são muito familiares. Como vítimas ou testemunhas de uma sociedade acostumada a destilar racismos tanto de forma explícita quanto em pequenas violências diárias, nós, espectadores, jamais duvidamos deste universo criado pelo filme em que políticos — ou até mesmo os vizinhos da porta ao lado — apoiam a ideia de que a população negra deve ser devolvida à África, revelando um ódio disfarçado do discurso de “reparação histórica”. Dos comentários racistas murmurados nos bares aos panfletos espalhados abertamente em um condomínio, Medida Provisória até compensa um certo excesso de subtextos abertos pelo roteiro com essa tônica da vida real.

Sem economizar também nas homenagens, sejam elas políticas, históricas ou musicais, da cantora Elza Soares à vereadora Marielle Franco, Lázaro reúne um elenco cuja presença é fundamental para consolidar a energia do projeto. Há protagonistas que se saem muito bem em momentos mais potentes do ponto de vista emocional, como Taís Araújo; coadjuvantes que não se limitam a alívios cômicos e funcionam também nas contribuições dramáticas dadas à história, a exemplo de Seu Jorge; e outros exercitam papeis que costumam tiram de letra, caso de Adriana Esteves na pele da odiável Isabel. O bom elenco dá sustentação a um pilar muito importante de Medida Provisória: o da cumplicidade entre os personagens que, narrativamente falando, potencializa o senso de proximidade e envolvimento com o conflito principal. 

Em entrevista ao programa Roda Viva, Lázaro Ramos comentou que sua intenção com Medida Provisória era ir além de uma radiografia do racismo no Brasil. O que ele também queria era cruzar o terreno da distopia com um viés mais utópico. A utopia de Lázaro está, segundo ele, no poder do afeto. É o que de fato vemos em Medida Provisória, o filme brasileiro com o maior número de negros em frente e atrás das câmeras: há, em diversas passagens, um convite ao pensamento, ao diálogo e ao sentimento, colocando luz na resistência e na persistência, mas sem nunca ter a ingenuidade de acreditar que somente isso é o suficiente. O projeto vai muito ao encontro do que escreveu o poeta Sérgio Vaz: “Não confunda briga com luta. Briga tem hora para acabar. Luta é para a vida inteira.”. Lázaro sabe que seu filme não ficará datado tão cedo porque a luta retratada já se arrasta desde que o mundo é mundo. Medida Provisória era o filme que ele precisava fazer agora, mesmo que imperfeito e com pontos ainda a serem amadurecidos. Afinal, suas ideias são do tipo que nunca devem ser deixadas para depois.

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