Cinema e Argumento

50ª Mostra de Cinema de São Paulo #4: “Ney Por Trás das Máscaras”, de Esmir Filho

Fui à sessão do documentário Ney Por Trás das Máscaras com certa desconfiança. Por que, afinal, Esmir Filho lançaria mais um longa-metragem sobre Ney Matogrosso após o sucesso de público e crítica de Homem com H? O que mais ele teria a mostrar sobre o cantor? Ou seria apenas um projeto protocolar para pegar o embalo do filme anterior? Felizmente, me surpreendi ao encontrar um projeto que, a seu modo, é quase como uma extensão de Homem com H. Não se trata de um documentário-retrospectiva sobre a vida e a obra de Ney, mas sobre como são os seus dias hoje, tendo como pano de fundo os preparativos para o desfile da escola de samba Imperatriz Leopoldinense que o homenageou em fevereiro deste ano.

Mesmo diante de todo o inegável legado de seu personagem, Ney Por Trás das Máscaras se interessa, como o próprio título indica, por quem ele é na vida real, comendo sua torradinha com vitaminas e creatina no café da manhã para depois andar de pé descalço pela natureza, plantando mudas de árvore ou devolvendo animais capturados ao seu habitat. No dia a dia do cantor, encontramos uma pessoa intimamente ligada à vida e ao planeta Terra, filho afetuoso e homem trabalhador, alguém hoje mais interessado no afeto e sem vergonha de dizer que ainda sente tesão depois dos 80 anos. Se, nos palcos, Ney é inspirador, ele também o é nos bastidores, capaz de nos convocar a um desprendimento que parece tão improvável atualmente.

Há pouquíssimos depoimentos de amigos ou colegas em Ney Por Trás das Máscaras. O mais significativo é o de Gilberto Gil, que, em estúdio com o colega, fala sobre como Ney é sempre Carnaval, um homem que, ao longo da carreira, se mascarava no palco para, na verdade, desmascarar toda a hipocrisia e as certezas erradas do Brasil. Esmir Filho também não cede à tentação de se valer de apresentações musicais para rechear a obra com sucessos . A turnê de Bloco na Rua, por exemplo, é registrada majoritariamente no camarim do cantor, onde ele próprio usa um lápis usado e pequeno para fazer sua maquiagem. Nos trechos que exploram a criação carnavalesca de sua vida, o filme prioriza o encontro com os amigos e os carinhos muito pessoais que Ney recebe de quem ajuda a colocar todo aquele espetáculo em pé.

Como documentário, principalmente no que se refere à linguagem e à forma, Ney Por Trás das Máscaras não se propõe a inventar a roda, encontrando suas pequenas belezas em conversas corriqueiras ou na naturalidade com que seu personagem se despe (em determinado momento, literalmente) diante das câmeras. O documentário é dedicado à Dona Beita, mãe de Ney, que faleceu no último mês de março, aos 103 anos. Sua citação rende um dos melhores momentos do filme: ao refletir sobre a finitude da mãe, que, à época das filmagens, já estava acamada e sem falar, Ney conta que, em vez de ficar mal, vê tudo aquilo como um percurso natural da vida. Para ele, a morte, por ser a única certeza da vida, não deveria ser temida. Não somos donos de absolutamente nada. A gente passa, o resto continua. E aí me peguei pensando: quando crescer, quero ter um pouco da compreensão e da aceitação de Ney Matogrosso sobre a vida.

50ª Mostra de Cinema de São Paulo #3: “Minotauro”, de Andrey Zvyagintsev

Se uma esposa está feliz com seu casamento, é porque ela não sabe de nada — e, se sabe, seu casamento é, então, uma farsa. É o que diz Galina (Iris Lebedeva) em uma noite de jantar com os amigos do seu marido, Gleb (Dmitriy Mazurov), quando ele insiste para que os dois façam algo fora da rotina e tentem se conectar com quem eram antes. A frase pode muito bem dizer respeito à insatisfação que Galina vem tendo com sua vida matrimonial, assim como, em um filme como Minotauro, pode se aplicar ainda ao contexto político de uma Rússia em desintegração — moral, ética, social — na década de 2020. Se algum russo está feliz com este momento do país, é porque não sabe de nada — e, caso saiba, deve viver em alienação.

O cineasta Andrey Zvyagintsev (Leviatã, Sem Amor) não chega a ter uma visão fatalista sobre a vida ou sobre sua nação, mas a perspectiva seca e dura que adota para falar sobre a sociedade por meio de um microcosmo específico reflete a forma sombria com que a Rússia (e boa parte do mundo) se encara hoje em dia. Em Minotauro, ele volta a examinar uma relação de longa data, agora focado no período em que a estafa do cotidiano e da mesmice começa a se impor para um dos lados, revelando que, talvez, um rompimento seja inevitável. Para Galina, que mente ao dizer que passa os dias em cafeterias e salões de beleza, o distanciamento já está posto, enquanto Gleb, afundado em um trabalho estratégico que exige dele posicionamentos diante da guerra travada contra a Ucrânia, parece acreditar que o melhor caminho é varrer as coisas para debaixo do tapete.

Há, enfim, uma violência específica que mudará a dinâmica da história para os dois protagonistas, acentuando as proximidades que Zvyagintsev busca estabelecer entre a vida do casal e o país. Ocupando um cargo de poder, Gleb tem a missão de escolher quais funcionários de sua corporação indicará ao governo para convocação à guerra. Em uma reunião com o prefeito, tendo o quadro de Vladimir Putin ao fundo, ele compreende que precisa tratar o assunto como qualquer negócio, e assim o faz. É algo aterrorizante e que, ao ser tratado como uma tarefa cotidiana por Gleb, coloca em pauta a banalização da guerra, da violência e da falta de empatia, em um contexto no qual a vida humana não tem qualquer valor. Normalizado no trabalho, esse mindset respinga na vida pessoal do personagem a partir do momento em que ele administra com rapidez os desdobramentos da violência que será definidora para seu casamento.

Minotauro é uma releitura do francês A Mulher Infiel, de Claude Chabrol, e o termo “releitura” se encaixa bem aqui, pois Zvyagintsev se mostra cirúrgico ao transferir as ideias de Chabrol para o contexto russo, transformando o material original em uma obra à parte. Mais do que no plano temático, o cineasta faz deste um filme verdadeiramente seu, da rigorosa mise-en-scène, sempre pronta para revelar mais sobre os personagens, à própria ambientação, em sua maioria trabalhada dentro de uma casa imensa e envidraçada, que simboliza uma série de duplicidades e transparências. Sua disciplina cinematográfica, aliada à vontade de falar sobre um espectro social com honestidade, é palpável, o que chega a disfarçar os momentos em que o roteiro se alonga demais e se torna reiterativo. Na forma e no conteúdo, entre o íntimo e o coletivo, Minotauro traduz na tela um país em crise consigo mesmo. País esse que, não por acaso, acaba por definir quem as pessoas são dentro de suas próprias casas.

50ª Mostra de Cinema de São Paulo #2: “Tigre de Papel”, de James Gray

Irwin (Miles Teller) reage do modo mais crível possível quando, por acidente, pisa nos calos de uma poderosa máfia russa na Nova York da década de 1980. Temendo pela segurança da mulher e dos dois filhos, ele, inicialmente, vai para debaixo da asa do irmão Gary (Adam Driver), a pessoa que foi sua porta de entrada para esse universo subterrâneo. Contudo, apesar do carisma, da pompa e do passado de Gary como ex-policial, nada parece ser resolvido com a devida urgência, aumentando seu nervosismo, multiplicando as noites mal dormidas e, enfim, alimentando a descrença no próprio irmão.

É simples, mas faz toda a diferença: desde o primeiro momento em que Tigre de Papel decide fazer um filme sobre máfia e a desconstrução do sonho americano com os pés bem firmes no chão, preocupado mais com o efeito do medo na vida de uma pessoa banal do que com os bastidores do crime, todo o resto flui que é uma beleza. Trazer realismo a um gênero comumente ligado a tramas mirabolantes, arcos de longa duração e violência bruta só poderia vir de um talentoso contador de histórias como James Gray, cuja especialidade reside na capacidade de trazer qualquer temática para o plano íntimo e pessoal.

Em Tigre de Papel, por sinal, a máfia é silenciosa: invade casa sem arrombar portas ou estilhaçar vidros, desorganiza toda uma sala de estar na calada da noite e deixa na poltrona as polaroides tiradas de cada membro da família em sono profundo. O próprio líder russo poderia muito bem passar despercebido na rua, já que se revela um senhorzinho de bigode que não precisa cortar a garganta na frente de ninguém para impor medo. Tamanha sobriedade muito me agrada porque contribui para a noção de verossimilhança e porque encontra, na baixa fervura, uma tensão bastante eficiente.

Contudo, a máfia é apenas pretexto para que James Gray, também autor do roteiro, mergulhe nas verdadeiras camadas do filme, como o silêncio que também passa a invadir a casa de uma típica família norte-americana. Se Irwin decide não contar para a esposa Linda (Scarlett Johansson) sobre a ameaça que sofreu junto aos filhos em um passeio noturno, ela opta por esconder da família o prognóstico fatalista que recebeu em uma consulta médica. Tudo vai se emaranhando entre o desejo do filho mais velho de fazer uma festa de 18 anos e o sonho do mais novo de ter uma Mercedes. O foco, repito, está nesse entrelaçamento com o cotidiano.

Ainda no âmbito familiar, Gray faz as engrenagens de Tigre de Papel se moverem a partir da relação entre dois irmãos muito distintos, mas que têm a ternura um pelo outro em comum. Ternura, aliás, que o roteiro trabalha com complexidade e inteligente contradição, afinal, ao mesmo tempo em que Gary deseja ver o irmão prosperar na vida, resolve ajudá-lo desse jeito torto, colocando-o em negócios escusos, para dizer o mínimo. E Irwin, sempre tão aberto e reverente ao primogênito, gradativamente vê sua admiração se misturar a uma certa necessidade de considerar o irmão como alguém pertencente a um universo à parte, sem conexão com a mulher e os filhos.

Não posso deixar de mencionar que todos os atores estão ótimos em cena, mas é de fato o domínio narrativo e estético de James Gray que faz de Tigre de Papel um longa-metragem maduro. Sua escolha por registrar as imagens em película, em rima com as texturas características do bairro Queens dos anos 1980, é para lá de acertada. O mesmo se aplica ao uso econômico de outros recursos, como a trilha original de Christopher Spelman, que só entra em cena quando estritamente necessário. Ao longo de quase duas horas, me peguei envolvido com a história, mesmo não sendo exatamente um fã do gênero — e pode ser exatamente por isso que eu considere Tigre de Papel seu melhor trabalho em pelo menos uma década.

50ª Mostra de Cinema de São Paulo #1: “O Outro Lado das Redes”, de Aaron Sorkin

Assim como os algoritmos manipulados por Mark Zuckerberg, O Outro Lado das Redes não parece interessado em pessoas. Filme-irmão do cultuado A Rede Social, de 2010, esse novo olhar sobre os efeitos do Facebook na nossa vida em sociedade não chega a se equiparar, em nenhum aspecto, ao longa anterior dirigido por David Fincher. É contraproducente aproximar os dois, afinal, não só Fincher faz muita falta como Aaron Sorkin, ao abraçar também a direção, falha em capturar qualquer senso de atmosfera ou urgência para questões tão determinantes do nosso tempo. E pior: emoldura a discussão central da forma mais banal possível.

O foco de O Outro Lado das Redes está na cientista de dados do Facebook, Frances Haugen (Mikey Madison), e no repórter investigativo do The Wall Street Journal, Jeff Horwitz (Jeremy Allen White). Seus caminhos se cruzam quando ela, frustrada com os rumos tomados por uma empresa muito distante de sua visão idealizada de mídia social, procura Horwitz para revelar como a manipulação de algoritmos favorece conflitos, extremismos e radicalizações, tanto sociais quanto políticas. Ou seja, embora exponha os bastidores das operações do Facebook, o filme é, essencialmente, uma obra de investigação.

Embora a comparação seja contraproducente, é inevitável aproximar o filme de A Rede Social, cujo olhar clínico e frio para seus personagens descortinava as contradições espinhosas em torno da personalidade de Zuckerberg e da criação de uma plataforma prestes a mudar para sempre a maneira como o mundo se relaciona. A natureza cerebral de A Rede Social surtia efeito porque Fincher sempre se mostrou interessado em potencializar, por meio da linguagem cinematográfica, os textos com que trabalha. O mesmo não pode ser dito sobre Sorkin, que, desde que se tornou diretor, vem demonstrando uma inegável falta de criatividade para contar histórias, como evidenciam títulos como Os 7 de Chicago e Apresentando os Ricardos.

Em O Outro Lado das Redes, ele reduz os dois protagonistas à dinâmica de descoberta e revelação de informações secretas, sem aprofundá-los ou lhes conferir o mínimo de background. Para dar outras tintas a esses personagens, Sorkin apela ao humor ou a referências deslocadas, como na cena em que Horwitz lista os filmes de Frank Capra que Haugen ainda precisa assistir. O recurso soa fraco e gratuito, e logo os protagonistas voltam a ocupar a posição de meros transmissores de teorias, números e documentos. Numa época em que há um volume imenso de informações circulando na internet e no próprio cinema, suas revelações dificilmente surpreendem quem já viu, por exemplo, O Dilema das Redes, popular documentário da Netflix.

O longa também carece de estímulos cinematográficos. Mais afeito a narrativas engessadas e de estrutura expositiva (idas e vindas no tempo, estrutura em capítulos, letreiros com o destino dos personagens), Sorkin parece ter concebido O Outro Lado das Redes sem inspiração. Colaborações valiosas são desperdiçadas, entre elas a do francês Alexandre Desplat, responsável por uma trilha sonora nada memorável — ao contrário daquela que rendeu o Oscar a Trent Reznor e Atticus Ross pelo filme anterior —, e a do diretor de fotografia Jeff Cronenweth, parceiro frequente de Fincher em obras como Clube da Luta, Garota Exemplar e o próprio A Rede Social. Aqui, sua fotografia se restringe a uma estética protocolar.

As limitações de Sorkin como diretor também se refletem nas atuações. Em seu primeiro papel no cinema após o Oscar de melhor atriz por Anora, Mikey Madison é irregular ao tentar equilibrar humor e profundidade em uma personagem quase reduzida a um estereótipo pelo próprio roteiro. Jeremy Allen White, por sua vez, trabalha sempre na mesma nota, repetindo um registro que já conhecemos das temporadas recentes de The Bear. Já Jeremy Strong, como Mark Zuckerberg, se restringe ao terreno da mímica. Mas não culpo os atores: diante de tantas questões a explorar no recorte escolhido, é quase imperdoável a insipidez de O Outro Lado das Redes. Ironicamente, o filme de 16 anos parece mais contemporâneo, do ponto de vista cinematográfico e temático, do que sua continuação.

“Antártida”: trama com quebra-cabeça mal montado desconjunta projeto ambicioso em técnica e escala

Ninguém mais encosta em mim!

Direção: Bruno Safadi

Roteiro: Claudia Jouvin

Elenco: Andrea Beltrão, Leandra Leal, Marina Ruy Barbosa, Mariana Sena, Antonio Calloni, Lázaro Ramos, João Vitor Silva, Henrique Barreira, Adelio Lima, Renan Monteiro, Marcos de Andrade, Gero Camilo

Brasil, 2026, Suspense, 93 minutos

Sinopse: Na estação de pesquisas brasileira na Antártida, uma equipe de cientistas e militares se prepara para passar o inverno confinada. Quando a cientista Inês (Marina Ruy Barbosa) é violentada, a subcomandante Elisabeth (Andrea Beltrão) não descansa até descobrir a identidade do agressor. Antártida é um thriller psicológico sobre sobrevivência, justiça e solidariedade feminina em um dos lugares mais inóspitos do planeta.

Com razão, Antártida faz de seus méritos técnicos uma verdadeira bandeira. Rodado inteiramente dentro dos Estúdios Globo, com produção da própria TV Globo, o longa-metragem de Bruno Safadi recria paisagens, nevascas e geleiras sem dever em nada a produções vindas do exterior. Não é pouca coisa — afinal, o cinema brasileiro merece alçar voos maiores do ponto de vista técnico, viabilizando histórias que, anos atrás, não seriam possíveis devido a limitações tecnológicas. A crença da Globo no projeto foi tanta que Antártida foi encomendado para as telas de cinema, e não para o streaming. Durante a estreia no último Festival de Cinema de Gramado — e, até onde sei, em outras ações de divulgação após o evento serrano —, a produtora Isabela Bellenzani também optou por não entrar em detalhes sobre o quanto a obra teria custado. Sinal de que pouco, claro, não foi, até em função do elenco estelar.

Como é de praxe, tanta publicidade sobre fatores externos não resolve o resultado na tela. Antártida pode ser vitorioso tecnicamente, mas patina em todo o resto, inclusive em um problema de origem que me inquieta: como um filme tão feminino, centrado em questões de violência contra a mulher e idealizado há muitos anos por uma cineasta (Claudia Jouvin, do interessante Um Homem Só), acabou sendo comandado por um homem? Não é sobre questionar o talento que Bruno Safadi já provou ter como diretor, especialmente em trabalhos menores, como Éden, que rendeu um Kikito de melhor atriz para Leandra Leal, mas sim sobre estender, para fora do roteiro, bandeiras e representatividades que Antártida busca defender. Pelo menos para mim, me pareceria muito natural — e bonito, dados os marcos envolvidos – uma mulher estar à frente de um projeto como esse.

Adentrando a história em si, outra fragilidade é que não parece fazer muita diferença o filme se passar na Antártida, uma vez que o isolamento, condição central da trama, poderia se dar em qualquer outro contexto, algo que o gênero de terror já explora há décadas ao colocar personagens afastados das cidades e sem comunicação em casas no meio do nada. Isso ainda se reflete na pouca profundidade dada pelo roteiro às atribuições profissionais dos personagens: entre cientistas, militares e tantas subdivisões de títulos entre eles, nunca fica muito claro, ao menos para além da superfície, o que cada um faz. É algo que enfraquece a atmosfera, principalmente quando Inês chega à estação com uma câmera na mão e deslumbrada com as paisagens, convencendo mais como uma repórter fotográfica do que como uma especialista na área de glaciologia.

Inês, por sinal, é a vítima da violência que Antártida aborda por meio de um quebra-cabeça repleto de peças que, infelizmente, o roteiro se atrapalha para embaralhar e, enfim, encaixar. Ela se torna coadjuvante da própria história na medida em que o longa abraça o whodunnit e opta por observar os personagens pela ótica da suspeita, sem desenvolvê-los previamente para, então, plantar a dúvida. Trata-se de uma tática que sempre me incomoda porque ficamos à mercê das manobras do roteiro para plantar pistas falsas e desviar a nossa atenção, sem que o foco seja a grave situação que deu origem a tudo. É o que confirma a própria estrutura do roteiro de Jouvin: frequentemente recorrendo ao uso de flashbacks, o suspense não só sublinha a prioridade pelo “entretenimento” como vai esquecendo de personagens interessantes, como a médica vivida por Leandra Leal.

Ainda assim, o que mata boa fatia do mistério é como Antártida facilmente dá munições para que o espectador resolva a charada envolvendo a violência contra Inês. Um projeto tão woke jamais teria, por exemplo, um personagem negro ou gay como estuprador — e somente isso já elimina pelo menos dois personagens da lista de suspeitos. A situação piora no clímax, que se estende além do necessário, além de descambar para discursos em forma de diálogo, gritos a plenos pulmões diante de injustiças e uma sequência de ação inverossímil para fechar o arco. Depois de tudo isso, pelo menos, Antártida “congela” seu último frame no rosto de quem é a força inegável frente a tantas fragilidades: Andréa Beltrão, que tira leite de pedra e, por isso mesmo, reafirma sua inegável excelência como atriz.