Cinema e Argumento

O cinema e os nossos amigos (adeus, querido Rubens!)

Foto de Rafael Roncato

“O cinema é um grande companheiro, todo dia trazendo uma surpresa nova. Revejo os filmes como quem reencontra velhos amigos”.

– Rubens Ewald Filho

Hoje perdemos Rubens Ewald Filho.

No mesmo dia em que é comemorado o Dia do Cinema Brasileiro.

No mesmo dia que marca o centenário de nascimento de Pauline Kael, uma das maiores críticas de cinema que já passaram pelo nosso plano.

Tudo o que Rubens representou para a popularização da crítica de cinema, para a reverberação midiática da cultura e para o cinema brasileiro está aí nas inúmeras homenagens que, com imensa justiça, já estão sendo feitas a ele. No que me toca, posso falar sobre um outro Rubens: aquele que conheci há quase dez anos, no meu primeiro Festival de Cinema de Gramado, e também aquele que, durante todo esse tempo em que convivemos e trabalhamos juntos no evento, sempre me tratou com extrema generosidade e humanidade.

Ao receber a fatídica notícia da sua despedida, imediatamente tentei puxar à memória o último momento em que estive com ele. E — que sorte a minha! — é um momento que lembro de maneira muito viva. Foi logo após a entrega dos Kikitos do Festival de Cinema de Gramado em 2018, quando esbarrei com Rubens na entrada de um hotel da cidade. Com a curiosidade e a preocupação com o trabalho que lhe eram característicos, me perguntou se eu havia achado justos os prêmios daquela noite e se havíamos feito uma boa edição do evento. Concordamos em basicamente tudo, com o que era justo e com o que não era. E ele ouvia. Com atenção e interesse. Algo cada vez mais raro nos dias de hoje.

Ao fim da conversa, Rubens me fez duas cobranças. A primeira por tê-lo convidado a participar apenas uma vez aqui do blog. Ele disse que escreveria sobre o que eu quisesse e que estaria sempre disposto a contribuir para a minha trajetória como crítico de cinema. A segunda foi por eu não ter prometido seguir a sua sugestão de que, com os anos que trabalhei em Gramado, um dia escreveria um livro falando, de forma bem humorada, ficcional e curiosa, sobre tudo o que vemos e vivemos com personalidades e jornalistas nos bastidores de um evento de cinema. O prefácio seria escrito por Rubens Ewald Filho, ele garantiu.

Confesso que, mais uma vez, não prometi que escreveria o tal livro. E registro essa pequena lembrança que hoje me bate de forma tão emocionante como uma forma de reparação, realizando pelo menos um tantinho do que ele queria que eu fizesse. Ou seja, ainda que no blog e em poucas palavras, eu deixo eternizada ao menos uma lembrança de um evento de cinema. E com ninguém menos que Rubens Ewald Filho.

Após a nossa última conversa, abracei Rubens, e prometemos que nos veríamos no próximo Festival. Separei, nesse meio tempo, todos os guias de DVD que ele escreveu ao longo da carreira e que tanto despertaram a cinefilia que hoje existe em mim para que ele autografasse da próxima vez que nos víssemos. Era um absurdo termos trabalhado juntos durante quase dez anos e eu nunca ter levado nenhum livro para que ele pudesse escrever uma dedicatória (malditos tempos digitais!).

Isso, no entanto, não deixa de ser uma bobagem: o tanto que Rubens me incentivou e fez parte da minha história como uma “pessoa de cinema” (termo que ele próprio gostava de usar) não cabe em uma dúzia de palavras assinadas em um papel. O Rubens que fica comigo é aquele que leu meus textos, incentivou minha escrita, deu conselhos quando eu estava nervoso antes de entrevistar uma atriz e que se revelou, de fato, a pessoa querida e generosa que, desde muito jovem, eu imaginava que ele pudesse ser ao ler seus comentários sobre cinema.

Na vez em que escreveu para o Cinema e Argumento em 2013, Rubens falou sobre algumas das interpretações do cinema que mais lhe marcaram, citando, entre as atrizes, Debbie Reynolds. À época, um trecho em particular me comoveu, e agora ganha outro sentido: “Debbie até hoje trabalha (fez há pouco Behind the Candelabra, para a HBO, com Michael Douglas), tem um estúdio de ensaios e faz shows para se sustentar. Vai morrer em cena, sempre gosta de dizer. Como eu também gostaria que fosse comigo”.

Que bom que o destino atendeu esse pedido.

Obrigado por tudo, Rubens!

“Obsessão”: suspense insípido e antiquado desperdiça até mesmo a presença de Isabelle Huppert

I’m like chewing gum.

Direção: Neil Jordan

Roteiro: Neil Jordan e Ray Wright, baseado em história de Ray Wright

Elenco: Chloë Grace Moretz, Isabelle Huppert, Maika Monroe, Colm Feore, Stephen Rea, Zawe Ashton, Thaddeus Daniels, Jane Perry, Jeff Hiller, Parker Sawyers, Raven Dauda, Jessica Preddy

Sinopse: Frances (Chloë Grace Moretz) é uma jovem cuja mãe acabou de falecer. Acabando de se mudar para Manhattan e cheia de problemas com o pai, ela forma uma amizade improvável com Greta (Isabelle Huppert), uma viúva bem mais velha que ela. Porém, conforme as duas se tornam melhores amigas, as atenções da viúva se mostram muito mais sinistras do que ela imaginava. (Adoro Cinema)

Ícone do cinema francês, Isabelle Huppert é uma workaholic nata. Aos 66 anos, a protagonista de Elle e A Professora de Piano, citando os títulos que lhe renderam maior repercussão mundo afora, incluindo, respectivamente, uma indicação ao Oscar e um prêmio de melhor atriz por unanimidade no Festival de Cannes, registra, segundo o IMDb, mais de 130 títulos na carreira entre filmes, séries e minisséries. É um feito e tanto, algo que Huppert aproveitou como ninguém: trabalhando com inúmeros mestres do cinema europeu e mundial, ela conjugou talento e oportunidade como poucas intérpretes, mesmo que, de vez em quando, o resultado de muitos dos filmes com sua presença como protagonista estejam longe de qualquer ideal de excelência. Raramente qualidade acompanha quantidade, principalmente com quem nunca desacelera, mas, em certos casos, é mesmo difícil acreditar como uma atriz do calibre de Huppert pode se envolver com pequenas bombas como esse Obsessão, um suspense que, antiquado e repetitivo, sequer alcança o status de guilty pleasure.

Na teoria, vale um desconto e um voto de confiança: Obsessão é dirigido por Neil Jordan, que, munido de inspiração ou de apelo junto ao público, realizou Traídos Pelo DesejoEntrevista Com o Vampiro, Fim de Caso e Café da Manhã em Plutão. Na prática, entretanto, é difícil nutrir qualquer interesse por um roteiro escrito no piloto-automático a partir de um amontoado de clichês envolvendo a clássica história da mocinha ingênua e machucada pela vida que passa a se relacionar com uma desconhecida que logo em seguida se revela uma maluca descontrolada. Não há clima em Obsessão, que, além da previsibilidade e da superficialidade com que constrói conflitos, tenta criar envolvimento com personagens que frequentemente tomam decisões inexplicáveis, como entrar em um beco escuro e vazio durante uma perseguição ou resolver situações com suas próprias mãos quando isso claramente era caso de polícia (e o filme se utiliza de desculpas pouco convincentes para descartar a ajuda de autoridades). Toda essa combinação é muito antiquada e, quando não há um quê de homenagem ou esperteza, chegamos a resultados aborrecidos como esse.

No papel da viúva carente e descontrolada que faz da vida da protagonista um verdadeiro inferno, Isabelle Huppert, claro, é o que existe de melhor em Obsessão. Toda sua seriedade como intérprete é mais uma vez perceptível aqui porque sua personagem é extremamente mal trabalhada. Ou seja, se o roteiro não traz o mínimo de curiosidade, sutileza ou complexidade para uma mulher que é obsessiva e perigosa simplesmente por ser (os traços do passado que tentam esclarecer seu comportamento são displicentes e rasteiros), Huppert se empenha ao máximo para ao menos conferir um tom frio e macabro à figura que interpreta. Em um mundo ideal, ela travaria um delicioso duelo físico e psicológico com uma atriz interessante, mas Chloë Grace Moretz, que, um dia despontou como uma boa promessa (Kick-Ass!), é insossa como em tantas outras oportunidades que lhe foram dadas até aqui. Sendo assim, o que temos é uma mocinha cansativa que só toma decisões erradas e uma vilã bem incorporada por uma grande veterana, mas mal aproveitada por um roteiro simplório.

Como diretor, Neil Jordan dá pouquíssima tração a um texto vazio e que depende demais de uma boa condução para se tornar minimamente envolvente. Sem uma mão mais firme ou criativa, Obsessão se mostra frágil por todos os lados, com coadjuvantes unidimensionais e caminhos já esperados para uma obra dessa natureza, incluindo o clímax regado a perucas, sedativos, seringas e revólveres. Se não fosse para ser um suspense de primeira linha, Obsessão poderia ter sido ao menos um passatempo divertido ou uma refinada brincadeira com elementos que, nos anos 1980 e 1990, chegaram a proporcionaram momentos inesquecíveis para grandes atrizes (como esquecer a marcante Alex Forrest de Glenn Close em Atração Fatal, por exemplo?). Não sendo nem uma coisa nem outra, o filme de Neil Jordan, cai no limbo e o potencializa o maior dos seus pecados: o de desperdiçar uma atriz como Isabelle Huppert, que faz qualquer trabalho com o mesmo nível de envolvimento e dedicação. Isso não é coisa que se faça, Neil Jordan!

“Rocketman”: em seu melhor, cinebiografia faz jus ao legado de Elton John com imaginação e autenticidade

It’s going to be a wild ride.

Direção: Dexter Fletcher

Roteiro: Lee Hall

Elenco: Taron Egerton, Jamie Bell, Richard Madden, Bryce Dallas Howard, Gemma Jones, Steven Mackintosh, Tom Bennett, Matthew Illesley, Kit Connor, Charlie Rowe, Peter O’Hanlon, Ross Farrelly

Reino Unido/EUA, 2019, Musical, 121 minutos

Sinopse: A trajetória de como o tímido Reginald Dwight (Taron Egerton) se transformou em Elton John, ícone da música pop. Desde a infância complicada, fruto do descaso do pai pela família, sua história de vida é contada através da releitura das músicas do superstar, incluindo a relação do cantor com o compositor e parceiro profissional Bernie Taupin (Jamie Bell) e o empresário e o ex-amante John Reid (Richard Madden). (Adoro Cinema)

Como um disco arranhado, tenho a sensação de escrever sempre a mesma coisa quando assisto a alguma cinebiografia baseada na trajetória de cantores ou grupos musicais. Em grande parte, isso se dá pelo fato de projetos como ElisBohemian RhapsodyRayJohnny & JuneTim Maia serem os mesmos em sua composição. Se você viu uma, já viu todas. Ao mesmo tempo, não deixa de ser um gosto adquirido: cada vez mais, cinebiografias musicais as plateias, e Bohemian Rhapsody, inspirado na trajetória do Queen e mais especificamente na vida de Freddie Mercury, tornou-se o maior marco recente nesse sentido, arrecadando mais de 900 milhões de dólares ao redor do mundo e conquistando nada menos do que quatro Oscars (ator para Rami Malek, montagem, edição de som e mixagem de som). Assim como as leituras live action da Disney para vários de seus clássicos, as cinebiografias musicais são um caminho sem volta no cinema comercial.

Passada a euforia inicial dessa tendência, vem a questão: afinal, quantas serão de fato lembradas? Raramente, há títulos que quebram barreiras no circuito independente, como Não Estou Lá, por exemplo, que, dirigido por Todd Haynes, homenageou Bob Dylan de maneira bastante inusitada, mas, considerando obras com expressivo apelo popular produzidas por grandes estúdios, poucas são imaginativas e nenhuma deve se comparar a Rocketman, que, em cartaz nos cinemas brasileiros, opta por narrar a vida de Elton John com a lógica clássica de um musical e não simplesmente com um colagem displicente dos melhores hits do cantor. Isso quer dizer que, quebrando a tradição de outros títulos do gênero, o filme assinado por Dexter Fletcher incorpora o repertório de Elton à história, onde o próprio elenco canta as músicas em diferentes sequências ou até mesmo em diálogos corriqueiros. Mesmo quando está no palco, o protagonista não interpreta clássicos como Crocodile Rock e a própria Rocketman com banalidade: na primeira, Elton literalmente flutua com o público, enquanto, na segunda, ele sai direto de uma ambulância para entrar no palco e, logo em seguida, ser lançado ao espaço como um foguete.

Tanta imaginação e tanta assertividade no poder da clássica narrativa de filmes musicais conferem a Rocketman um tom criativo que o difere de outras cinebiografias, abrindo portas para que demais títulos do gênero se sintam validados a seguir caminhos diferentes do que aí estão. Fletcher, que finalizou Bohemian Rhapsody após Bryan Singer ter sido demitido da cadeira de direção quase ao final das gravações, é claramente um realizador afeito a musicais, trazendo grandes contribuições para um projeto que em momento algum se envergonha de sua natureza e muito menos de seu extravagante personagem, aqui representado com total liberdade e naturalidade. Essa, inclusive, foi uma exigência do próprio Elton John: que sua vida não fosse maquiada ou amortecida e que suas fraquezas estivessem tão presentes no filme quanto as suas qualidades. A carta branca dada pelo cantor também na parte musical — ele fez questão que Taron Egerton cantasse as músicas para conferir autenticidade à encenação — engrandece o conceito de Rocketman, que, muito além de não ser um mero lipsync, conta toda uma vida sem amarras e com suas próprias ideias.

Com números musicais originais e encantadores, o filme esbanja dignidade por incorporar uma fantasia que sempre esteve presente tanto nos figurinos hiperbólicos que marcaram a carreira de Elton John quanto na sua própria imaginação, algo que fez o cantor sobreviver a uma vida familiar de desamparo e a um vivência afetiva quase inexistente até meados da vida adulta. É tão bonito ver uma cinebiografia reverenciar seu biografado rompendo as formalidades que, por isso mesmo, é frustrante constatar a fragilidade do filme quando a história está com os pés firmados no chão. Ao tentar dimensionar seus personagens sem o uso da música ou da imaginação, Rocketman se limita, inclusive porque a trajetória de ascensão-queda-reerguimento do cantor é menos complexa do que o filme supõe ou tenta engrandecer dramaticamente. Elton John chegou ao topo sem muitas dificuldades profissionais, e o ponto baixo de sua carreira foi uma longa temporada de problemas com álcool e drogas. Há drama nisso? Com certeza, mas o roteiro insiste em pesar a mão nessa crise existencial, tomando tempo demais da projeção e fazendo com que o espectador deseje logo a chegada do próximo número musical.

Quando segue caminhos desprovido de música e sonhos, o roteiro de Rocketman segue a cartilha das cinebiografias que vemos de tempos em tempos: manchetes de jornais jogadas na tela para contextualizar a repercussão pública do protagonista, momentos registrados de maneira tão displicente que parecem fazer parte de uma checklist de fatos que precisam constar na tela sobre a vida do biografado (o casamento de Elton com Renate Blauel dura, no máximo, duas cenas) e há, claro, todo um ciclo de descida ao inferno e reconciliação com diálogos e mensagens expositivas. Entre a imaginação e a convencionalidade, o longa de Dexter Fletcher oscila bastante, o que é sentindo também em função de escalações equivocadíssimas, como a de Bryce Dallas Howard (caricata como de costume, ela vive a mãe do protagonista e perde a chance de trazer qualquer sutileza a uma personagem nada empática), e de tratamentos unidimensionais de figuras importantes, como o namorado de Elton vivido por Richard Madden, retratado como uma figura simplória em sua personalidade fria, interesseira e cruel.

Ainda assim, o roteiro escrito por Lee Hall (Cavalo de Guerra, Victoria e Abdul: O Confidente da Rainha) acerta na construção específica de uma relação que, no final das contas, é o comovente centro emocional de Rocketman: a amizade entre Elton John e Bernie Taupin, que compôs praticamente todos os clássicos emoldurados pelo cantor com inesquecíveis melodias. A relação entre os dois é tocante porque tanto celebra algo inerente a todos nós (a amizade) quanto é muito bem personificada pela química entre Taron Egeron e Jamie Bell. Egerton, que merece aplausos pela entrega emocional e pelo absoluto empenho em cantar e dançar todas as sequências musicais, é o dono do show, mas é quando contracena com Bell que o filme encontra os seus sentimentos mais genuínos. O coração de Rocketman está nessa história, e ela é importante para compreendermos o quanto essa versão cinematográfica da vida de Elton não deixa de ser uma forma do próprio cantor expurgar seus próprios demônios. Dexter Fletcher pode até ter dirigido um filme com abordagens infinitamente mais interessantes do que outras, mas, no geral, foi fidelíssimo a seu biografado em todas as facetas. Em seu melhor, Rocketman é puro Elton John.

Melhores de 2018 – Filme

Filme que logo após a sessão já concluímos que será lembrado como um futuro clássico, Trama Fantasma é outro trabalho de altíssimo nível do diretor Paul Thomas Anderson, que já marcou época com títulos inesquecíveis como Boogie NightsMagnóliaSangue NegroO Mestre. Nesta sua nova investida, Anderson encena uma sinuosa e por vezes perturbadora relação romântica com foco em personagens únicos em suas complexidades. Ao observar com proximidade o dia a dia de Reynolds (Daniel Day-Lewis, em seu último trabalho antes da aposentadoria) e Alma (Vicky Krieps), o espectador se depara como uma história que, lá no fundo, diz muito sobre a forma torta com que encaramos o amor, sentimento embaralhado por vícios, egos, perfeccionismos e idealizações.

Como em toda a filmografia de Anderson, tal abordagem, entretanto, em nada se assemelha a qualquer expectativa nutrida antes de assistir ao longa. Trama Fantasma tem grandes interpretações, uma trilha sonora marcante, belos figurinos e uma impactante fotografia, mas é fascinantemente estranho e incômodo, uma vez que tudo no filme acontece no seu próprio tempo e na sua própria forma, criando uma clássica atmosfera Andersoniana, onde drama, romance e até mesmo mistério se entrelaçam de maneira muito tênue, quase imperceptível. Irretocável em todo o seu conjunto — não há o que tirar nem por nas atuações centrais, no roteiro, na direção e no trabalho técnico —, Trama Fantasma é outra experiência inebriante proporcionada por um dos maiores realizadores da nossa geração.

Ainda disputavam a categoria: O Animal Cordial, Benzinho, As Boas Maneiras e Você Nunca Esteve Realmente Aqui.

EM ANOS ANTERIORES: 2017 – Mãe! | 2016 – Carol | 2015 – Mad Max: Estrada da Fúria | 2014 – Relatos Selvagens | 2013 – Gravidade | 2012 – Precisamos Falar Sobre o Kevin | 2011 – Harry Potter e as Relíquias da Morte – Parte 2 | 2010 – Direito de Amar | 2009 – Dúvida | 2008 – WALL-E | 2007 – O Ultimato Bourne

Melhores de 2018 – Direção

Dois dos filmes mais destemidos e anti-convencionais que assisti em 2018 foram dirigidos por mulheres. E elas têm muito em comum: tanto a brasileira Gabriela Amaral Almeida quanto a britânica Lynne Ramsay costumam tocar em inquietudes humanas e traduzi-las para as telas com uma linguagem que caminha na direção oposta do que o grande público está acostumado a ver. Enquanto Gabriela revigorou o chamado cinema de “gênero” brasileiro com o terror O Animal Cordial, Lynne Ramsay lançou um olhar cru e provocador para a violência através da sombria e solitária trajetória de um matador de aluguel. Não à toa, a penúltima categoria da lista de melhores de 2018 do blog acaba com um empate entre duas realizadoras excepcionais e responsáveis por filmes que merecem ser referenciados e analisados por muito tempo.

Sobre Gabriela Amaral Almeida, que já contabiliza oito títulos como diretora e 26 como roteirista, é fundamental salientar sua vocação para criar personagens cujas contradições humanas ela própria diz não saber resolver. E, em O Animal Cordial, Gabriela firma os pés nessa zona de desconforto, transpondo para o terror tudo aquilo que, atualmente, contribui para o verdadeiro pânico social e político instalado em um Brasil despedaçado. Entre o preconceito em suas mais variadas formas e todas as tortas consequências originadas pela falência moral e social do sexo masculino, ela filma um elenco excepcional em um único ambiente (um restaurante na cidade de São Paulo), reproduzindo —  e também questionando —  muitos elementos do chamado terror slasher. O resultado é um longa imprevisível do início ao fim, comandando pela cineasta com uma vitalidade invejável.

Tão incômodo quanto fascinante é o trabalho de direção de Lynne Ramsay em Você Nunca Esteve Realmente Aqui. Ramsay, que não filmava desde 2011, quando realizou o assombroso Precisamos Falar Sobre o Kevin, dispensa qualquer expectativa neste novo trabalho onde dirige Joaquin Phoenix como um atormentado matador de aluguel. Primeiro porque Você Nunca Esteve Realmente Aqui não se encaixa em qualquer pré-conceito que o espectador possa ter sobre um filme centrado em um matador de aluguel e segundo porque Ramsay levanta infinitas perguntas, mas praticamente nenhuma resposta sobre o misterioso protagonista. A partir disso isso, a cineasta radiografa a natureza e as reverberações da violência com muita crueza, mas também com um plano muito bem elaborado para cada gota de sangue, trauma ou ato violento encenado em cena.

Ainda disputavam a categoria: Alfonso Cuarón (Roma), Juliana Rojas e Marco Dutra (As Boas Maneiras) e Paul Thomas Anderson (Trama Fantasma).

EM ANOS ANTERIORES: 2017 – Darren Aronofsky (Mãe!| 2016 – José Pedro Goulart (Ponto Zero| 2015 – George Miller (Mad Max: Estrada da Fúria| 2014 – David Fincher (Garota Exemplar| 2013 – Alfonso Cuarón (Gravidade| 2012 – Leos Carax (Holy Motors| 2011 – Darren Aronofsky (Cisne Negro| 2010 – Christopher Nolan (A Origem| 2009 – Danny Boyle (Quem Quer Ser Um Milionário?| 2008 – Paul Thomas Anderson (Sangue Negro| 2007 – Alejandro González Iñárritu (Babel)

Com “Escape at Dannemora” e “The Act”, Patricia Arquette vive a era de ouro da sua carreira

Patricia Arquette nunca foi uma atriz particularmente impressionante, mas começou a ser vista de outra maneira após vencer o Oscar de melhor atriz coadjuvante por Boyhood com uma fala que viria a impulsionar os movimentos em busca de igualdade e justiça para as mulheres na indústria hollywoodiana. À época, em uma entrevista concedida ao The Guardian, ela falou justamente sobre como, em termos culturais, o “cinema” deixou de ser “cinema” para ser referenciado como “indústria”, levantando uma interessante provocação: a de que hoje, por exemplo, Vivien Leigh, uma atriz quase desconhecida antes de realizar …E o Vento Levou, jamais seria escalada para uma produção dessa ambição e magnitude. Para Arquette, quando o “cinema” deixa de ser “cinema” (arte) para ser chamado de “indústria” (negócio), ganha quem é a maior estrela ou a figura mais pop para determinado papel, e não a melhor atriz.

Curiosamente, a carreira de Patricia Arquette não deixa de estar associada a essa afirmação. Se pouco ela impressionou ao longo de uma carreira resumida a papeis pequenos e pouco memoráveis, muito se deve à falta de oportunidades para quem não é uma estrela. Ela, que atua desde os anos 1980 e tem um Emmy de melhor atriz por Medium (em 2005 o prêmio não tinha o mesmo significado de hoje, quando celebrações por séries, minisséries ou telefilme são sim sinônimo de grande prestígio), demorou a dar uma guinada na carreira mesmo após o Oscar por Boyhood. Aliás, foi somente cinco anos após a consagração pelo filme de Linklater que Patricia se viu envolvida em dois projetos consecutivos que, lançados entre novembro de 2018 e março 2019, vieram para marcar a era de ouro da sua carreira: com Escape at DannemoraThe Act, ela finalmente recebe os papeis fascinantes que toda atriz deveria receber com a devida dose de frequência para reforçar a tese de que uma escalação certeira é muito mais importante do que qualquer estrelato.

“ESCAPE AT DANNEMORA” (Showtime)

Na temporada de premiações em que todos esperavam que Amy Adams se consagrasse com a minissérie Sharp Objects, da HBO, Patricia Arquette chegou de mansinho e terminou faturando o Globo de Ouro, o Screen Actors Guild Awards e o Critics’ Choice Awards por essa minissérie dirigida pelo ator Ben Stiller para a Showtime. Baseada em uma história real, Escape at Dannemora dramatiza a fuga de dois dois detentos da Clinton Correctional Facility, em Nova Iorque, nos Estados Unidos, em 2015. A dupla de presidiários interpretada na ficção por Benicio Del Toro e Paul Dano escapa da instituição com a ajuda de Joyce “Tilly” Mitchell, uma das funcionárias que, logo se descobre, cultivava uma relação instável e sexual com os dois detentos. A verdadeira Joyce Mitchell não falava publicamente desde 2015, quando foi presa por ajudar a orquestrar a fuga de David Sweat e Richard Matt, mas quebrou o silêncio em 2018 para comentar a minissérie, alegando que jamais teve qualquer relação sexual com a dupla e que Ben Stiller não passar de um oportunista querendo faturar dinheiro com a sua dramática história.

Julgando pelo que vemos em Escape at Dannemora (é importante lembrar que a minissérie é ficção e não documentário), Tilly Mitchell se apresenta como uma mulher mentalmente instável que toma decisões motivada por surtos de carência e impulsos sexuais. É desbravando a mente de uma figura feminina conturbadíssima que Patricia Arquette trabalha uma série de complexidades para, ao longo de sete episódios com duração de praticamente uma hora cada, criar uma personagem fascinante em sua instabilidade, sem permitir que ela vire uma caricatura. Sob um trabalho impressionante de maquiagem, Arquette se transforma em cena como nunca antes em sua carreira, e o faz com uma busca minuciosa pelas razões que, para além da questão psíquica, levaram essa mulher a infringir tanto a lei quanto a confiança de seus próprios colegas e familiares para libertar dois presidiários. A transformação da atriz foi tamanha que, antes do início das filmagens, ela encontrou Benicio Del Toro já devidamente maquiada e não foi reconhecida pelo colega, que pensou ter esbarrado em uma senhora maluca no set. Sua caracterização, contudo, jamais serve como muleta, e sim como uma ferramenta para potencializar os tantos conflitos internos que também se manifestam corporalmente na personagem.

Por outro lado, Escape at Dannemora é menos fascinante do que se poderia esperar, e a causa disso está no fato da minissérie criada pela dupla Brett Johnson e Michael Tolkin não ser majoritariamente sobre Tilly Mitchell, que, a certa altura, passa a ser uma coadjuvante para a história centrada em David Sweat e Richard Matt, dois personagens de personalidades opostas e bem defendidas por Benicio Del Toro e Paul Dano. E a história dos dois não é tão interessante quanto a de Tilly, ainda que a minissérie acerte ao demorar a revelar as razões que fizeram com que David e Richard fossem parar atrás das grades (é uma decisão importante porque nos aproxima dos personagens e não os tacha logo de cara como bandidos indignos de empatia). Fora isso, toda a preparação para a fuga dos detentos é longa demais e o desenrolar é menos surpreendente do que a minissérie acaba nos levando a crer. Tanto essa sensação é verdadeira que os últimos episódios, centrados ora no passado dos personagens (difícil algum roteirista não cair na tentação de escrever capítulos em flashbacks para mostrar as razões que levaram certas figuras até onde elas chegaram), ora no detalhado desfecho de cada uma das figuras em cena, só nos chamam de volta para a Tilly Mitchell de Patricia Arquette, que, cada vez que está em cena, resgata Escape at Dannemora de toda e qualquer redundância.

“THE ACT” (Hulu)

Interpretando outra figura da vida real, Patricia Arquette chega aos serviços de streaming com The Act, nova antologia criada pela Hulu, a mesma plataforma que lançou a multipremiada The Handmaid’s Tale. A cada temporada, um novo (e bizarro) crime verídico será encenado, e o primeiro ano não poderia ter dado o pontapé inicial com uma história mais macabra: durante quase duas décadas, Dee Dee Blanchard (Arquette) fez com que sua filha Gypsy acreditasse ser uma menina extremamente doente, dependendo da mãe para qualquer mínima tarefa do dia a dia. Gypsy, que tomava incontáveis remédios, andava com a ajuda de uma carreira de rodas e não sabia nem ao certo a sua data de nascimento, eventualmente descobriu toda a verdade e arquitetou o assassinato da própria mãe. Dee Dee, na verdade, sofria de um distúrbio chamado Síndrome de Münchausen por Procuração, que nada mais é do que uma forma de abuso infantil onde cuidadores provocam/imaginam de forma deliberada a existência de doenças em crianças como forma de chamarem atenção para si mesmos. Por isso mesmo, The Act é duplamente perturbadora: primeiro pelo transtorno de uma mãe que faz sua filha passar desnecessariamente por pesadelos inimagináveis e segundo pelo fato da garota, uma jovem criada basicamente em cativeiro, ter orquestrado a morte de sua própria progenitora.

Ao longo de oito episódios, The Act não é o que podemos chamar de uma dramaturgia sofisticada e complexa. Há muita dramatização e ajuste dos fatos para que o programa consiga assumidamente chocar o espectador. Não há firulas quanto a essa opção, uma vez que todo capítulo termina com letreiros que reforçam o quanto a série manipula determinados fatos para alcançar efeitos dramáticos. Em paz com isso, o espectador tem tudo para se abismar com os absurdos que Dee Dee impunha à filha, que chegava a comer uma pizza batida em liquidificador por sonda e era privada de ingerir qualquer tipo de açúcar em função de uma diabetes que só existia na cabeça da mãe. The Act tem grandes méritos ao construir a percepção conflituosa que Gypsy nutria por quem lhe deu a vida: na medida em que a garota começa a perceber que, como o próprio título da série indica, sua vida não passava de uma encenação, a revolta não é suficientemente grande para que Gypsy despreze por completo a sua mãe, inclusive porque a única vida que ela conhece é aquela entre quatro paredes com essa mulher. Gradativamente, claro, a situação começa a mudar de cenário, e a desconstrução de um mundo antes visto como inocente e infantil pelos olhos de uma criança começa a ganhar contornos sombrios e urgentes.

Como a garotinha Gypsy, Joey King oscila entre sentimentos de inocência e corrompimento, despertando reações mistas na plateia: afinal, como dimensionar os pensamentos e as atitudes de uma criança que nunca viu o mundo como ele realmente é e foi criada em um ambiente incrivelmente doentio e abusivo? Ao passo que The Act desperdiça a chance de versar com mais atenção sobre questões éticas e morais da sociedade (todas elas muitas vezes reduzidas à dinâmica das protagonistas com as vizinhas não muito interessantes vividas por Chloë Sevigny e AnnaSophia Robb), King e, claro, Patricia Arquette dão conta de tornar todo o contexto tão incômodo quanto assombroso. Há outras participações no elenco como as de Calum Worthy e Margo Martindale que impulsionam a estranheza desse conjunto de relações tortuosas e problemáticas, mas King e Arquette dominam a cena. A segunda, por sinal, impressiona um degrau acima visto a dobradinha com Escape at Dannemora: em ambas as séries, Arquette interpreta mulheres desequilibradas e envolvidas em situações extremas. Porém, Tilly Mitchell e Dee Dee Blanchard são, nas mãos da atriz, pessoas indiscutivelmente distintas em qualquer tipo de comparação, o que é o atestado definitivo da era de ouro de uma atriz antes subaproveitada e que agora, graças às chances certas oferecidas, coloca nas telas uma versatilidade digna de Meryl Streep.

Melhores de 2018 – Elenco

Se olharmos bem de perto, veremos o Brasil inteiro dentro do restaurante onde se passa O Animal Cordial. Em maior ou menor grau e com uma boa dose alegórica, estamos lá, expostos com nossas cicatrizes e idiossincrasias. E é entusiasmante como o elenco talentoso e plural do longa-metragem dirigido por Gabriela Amaral Almeida abraçou tanto a forte identidade de personagens tão distintos e pressionados contra a parede quanto a proposta violenta e sanguinolenta de um filme de terror. Pois Murilo Benício e Luciana Paes, ambos excepcionais, lideram com proeza esse grupo de atores que também reúne, no âmbito dos coadjuvantes, excelentes performances de (re)conhecidos talentos do nosso cinema, a exemplo de Irandhir Santos e Camila Morgado, bem como nomes em ascensão (caso de Humberto Carrão, que já foi ao Festival de Cannes com Aquarius). Por si só, O Animal Cordial favorece o trabalho de cada um deles ao desenvolver uma história ambientada em um único local, mas todos são maiores do que essa valiosa circunstância. Afinal, não é todo elenco que consegue, por experiência e talento, criar personas tão fortes e simbólicas para um filme de gênero, seja ele brasileiro ou estrangeiro. Ainda disputavam a categoria: Benzinho, Infiltrado na Klan, The Post: A Guerra Secreta e As Viúvas.

EM ANOS ANTERIORES: 2017 Um Mergulho no Passado | 2016 – Animais Noturnos | 2015 – Birdman ou (A Inesperada Virtude da Ignorância) | 2014 – Relatos Selvagens | 2013 – Álbum de Família | 2012 – O Impossível | 2011 – Tudo Pelo Poder | 2010 – Minhas Mães e Meu Pai | 2009 – Dúvida | 2008 – Vicky Cristina Barcelona | 2007 – Bobby

Melhores de 2018 – Ator

Nem Jack Nicholson que é Jack Nicholson conseguiu se aposentar com grandeza semelhante a de Daniel Day-Lewis. Enquanto o veterano de filmes como Um Estranho no Ninho, O Iluminado e Melhor é Impossível abandonou a carreira de ator com um pequeno papel em Como Você Sabe (uma comédia insípida e tediosa dirigida por seu amigo James L. Brooks), Day-Lewis deixou o ofício com Trama Fantasma, a mais recente obra-prima dirigida pelo mestre Paul Thomas Anderson. E não só esse filme nos lembra o quanto o terceiro Oscar do ator foi protocolar (ele é ótimo em Lincoln, mas o ano era tão forte para os atores que fica difícil nutrir maior entusiasmo com tal consagração) como registra um dos melhores momentos da carreira de um intérprete que sempre colecionou desempenhos inesquecíveis.

Como o perfeccionista estilista Reynolds Woodcock, o ator alcança um timbre que só alguém com um talento à altura do seu conseguiria alcançar: o de criar complexidade e algum tipo de interesse pela natureza egocêntrica, machista e intolerante de um personagem essencialmente insuportável. Day-Lewis, que é conhecido por não sair de seus personagens quando está no set de filmagens, realmente se torna Woodcock ao surgir em cena com a imensa presença que lhe é tão característica e ao estabelecer um comportamento muito peculiar e complexo para um estilista que parece desprezar praticamente tudo e todos. É um trabalho impressionante até mesmo para o padrão Daniel Day-Lewis, algo que, para quem conhece o trabalho do ator, realmente não é pouca coisa. Ainda disputavam a categoria: Joaquin Phoenix (Você Nunca Esteve Realmente Aqui), Murilo Benício (O Animal Cordial), Shico Menegat (Tinta Bruta) e Timothée Chalamet (Me Chame Pelo Seu Nome).

EM ANOS ANTERIORES: 2017 – Casey Affleck (Manchester à Beira-Mar) | 2016 – Nelson Xavier – A Despedida | 2015 – David Oyelowo (Selma: Uma Luta Pela Igualdade| 2014 – Jake Gyllenhaal (O Abutre| 2013 – Joaquin Phoenix (O Mestre| 2012 – Rodrigo Santoro (Heleno| 2011 – Colin Firth (O Discurso do Rei| 2010 – Colin Firth (Direito de Amar| 2009 – Sean Penn (Milk – A Voz da Igualdade| 2008 – Daniel Day-Lewis (Sangue Negro| 2007 – Forest Whitaker (O Último Rei da Escócia)

Melhores de 2018 – Atriz

Nada necessariamente extraordinário acontece com Irene, a humilde protagonista de Benzinho que, de repente, recebe a notícia de que o filho está prestes a se mudar para Alemanha, onde jogará handebol. Ela, como tantas mulheres desse Brasil, carrega uma família nas costas, busca soluções para os mais diversos problemas, trabalha com o que pode para sustentar os filhos e, no meio disso, tudo, ainda encontra força e afeto para distribuir carinho aos que dividem o mesmo teto que ela. Como a atriz extraordinária que é, Karine Teles mergulha em todas as camadas de uma personagem que é uma clara homenagem às tantas mulheres que passam pelas ruas despercebidas e também àquelas que fazem toda a diferença dentro das nossas próprias casas. Interiorizando o turbilhão de emoções de uma mãe que busca não transparecer sua insegurança, Karine dá vida a uma mulher incrivelmente real e comovente, elevando a beleza das tantas complexidades que a vida em si nos traz todos os dias e que o filme ilumina com delicadeza. Ela, que já era grandiosa em filmes como Riscado Que Horas Ela Volta?, tem em Benzinho o tipo de papel que marca uma carreira. Ainda disputavam a categoria: Charlize Theron (Tully), Charlotte Rampling (Hannah), Toni Collette (Hereditário) e Vicky Krieps (Trama Fantasma).

EM ANOS ANTERIORES: 2017 – Jennifer Lawrence (Mãe!) | 2016 – Isabelle Huppert (Elle| 2015 – Camila Márdila e Regina Casé (Que Horas Ela Volta?) | 2014 – Rosamund Pike (Garota Exemplar| 2013 – Adèle Exarchopoulos (Azul é a Cor Mais Quente| 2012 – Tilda Swinton (Precisamos Falar Sobre o Kevin| 2011 – Kirsten Dunst e Charlotte Gainsbourg (Melancolia| 2010 – Carey Mulligan (Educação| 2009 – Kate Winslet (Foi Apenas Um Sonho| 2008 – Meryl Streep (Mamma Mia!| 2007 – Marion Cotillard (Piaf – Um Hino ao Amor)

Melhores de 2018 – Roteiro Original

Normalmente reverenciado pelo sua grandeza como cineasta, Paul Thomas Anderson também é um roteirista excepcional, e deveria receber mais reconhecimento por isso. Trama Fantasma, seu mais recente filme, é outro exemplo que corrobora essa afirmação. Ambientado na Londres dos anos 1950, o longa explora a linha tênue entre o amor e o poder, no melhor estilo Andersoniano de inverter expectativas e convencionalidades. Ao mergulhar nos malefícios das disputas de controle que contaminam relações amorosas, o diretor traz para o roteiro ecos romanticamente sinistros de muitos de seus filmes favoritos, alguns deles clássicos dos anos 1940, como Rebecca, a Mulher Inesquecível, de Alfred Hitchcock, e À Meia-Luz, estrelado por Ingrid Bergman.

Anderson está focado primordialmente em um comportamento que ele próprio diz perceber a sua volta — a alternância de poderes entre os envolvidos em qualquer relação amorosa — para descortinar as idiossincrasias e as contradições da natureza relativa aos romances. Daniel Day-Lews, que colaborou ativamente na construção dos personagens, afirma que não existe estranheza maior no universo do que aquela que habita a vida aparentemente normal de pessoas comuns entre quatro paredes. Verdade. E se, de um jeito ou de outro, Anderson já dissecava tudo isso em filmes como Embriagado de AmorO Mestre, é de se considerar que, com Trama Fantasma, ele alcança sua discussão mais sofisticada acerca de tal temática. Ainda disputavam a categoria: As Boas ManeirasBenzinhoSem Amor Tully.

EM ANOS ANTERIORES: 2017 Manchester à Beira-Mar | 2016 – Aquarius | 2015 – Que Horas Ela Volta? | 2014 – Relatos Selvagens |  2013 – Antes da Meia-Noite | 2012 – A Separação | 2011 – Melancolia | 2010 – A Origem | 2009 – (500) Dias Com Ela | 2008 – WALL-E | 2007 – Ratatouille

Melhores de 2018 – Fotografia

Quando o multipremiado diretor de fotografia Emmanuel Lubezki precisou desistir de Roma em função de conflitos de agenda, o cineasta Alfonso Cuarón imediatamente assumiu, pela primeira vez, o cargo do seu amigo e colaborador de longa data. Para essa nova empreitada, Cuarón diz ter sempre se perguntado quais seriam as escolhas que Lubezki teria feito para a fotografia de Roma, reproduzindo os tantos aprendizados de colaborações como E Sua Mãe Também, Filhos da Esperança e Gravidade. Mesmo inspirado pelo amigo, o diretor quis criar uma identidade própria, o que começa logo na decisão de filmar Roma em preto-e-branco: descartando o mero apelo estético, Cuarón cria um filme que, visualmente falando, não parece vintage ou datado, mas de certa forma moderno e contemporâneo ao capturar, com imensa beleza, memórias distantes e muito íntimas. Essa dualidade entre presente e passado é fascinante porque a câmera flutua e captura histórias como se estivesse em um tempo diferente e como se soubesse todos os detalhes e reverberações de um universo que os próprios personagens só virão a (re)conhecer com o passar dos anos. Lubezki, que assistiu ao longa, diz que a fotografia de Roma é elegante e cadenciada como um complexo número de jazz. Para um trabalho de estreia, Cuarón nem precisaria do Oscar que recebeu na respectiva categoria para se sentir realizado: somente esse elogio de um mestre como Lubezki já é o suficiente para coroar o seu trabalho. Ainda disputavam a categoriaA Forma da ÁguaSem FôlegoTrama Fantasma Você Nunca Esteve Realmente Aqui.

EM ANOS ANTERIORES: 2017 Blade Runner 2049 | 2016 – Ponto Zero | 2015 – Macbeth: Ambição e Guerra | 2014 – Ida | 2013 – Gravidade | 2012 – As Aventuras de Pi | 2011 – A Árvore da Vida | 2010 – Direito de Amar | 2009 – Quem Quer Ser Um Milionário? | 2008 – Ensaio Sobre a Cegueira

“Querido Menino”, “O Retorno de Ben” e “Boy Erased”: três garotos em conflito com a vida, com a família e com eles próprios

“QUERIDO MENINO”, de Felix Van Groeningen

Responsável por um dos filmes mais devastadores dos últimos anos (o belga Alabama Monroe), Felix Van Groeningen faz sua estreia como diretor nos Estados Unidos com Querido Menino, filme subavaliado pela crítica e que preserva a identidade de um cineasta “estrangeiro” desembarcando em Hollywood. Assim como em Alabama Monroe, Van Groeningen mais conta uma história centrada em uma dupla cujo drama tem a tragédia como matéria-prima. A narrativa é igualmente fragmentada e truncada, com idas e vindas no tempo. Ou seja, é fácil se perder em Querido Menino, algo que uma maioria esmagadora da crítica considerou um grande defeito, mas que, na verdade, é um acerto por imprimir à história sentimentos tão incômodos e desnorteadores quanto aqueles vividos pelos personagens.

Adaptando as memórias reais de David e Nic Sheff, pai e filho que, respectivamente, atravessaram anos turbulentos quando Nic se entregou às drogas, Querido Menino está menos interessado na discussão do vício em si e mais nas cicatrizes que uma condição como essa cria nas relações familiares. Ao conhecermos a triste situação de um jovem talentoso entregue às drogas, Querido Menino se torna mais doloroso quando retrocede para os tempos em que Nic era uma criança doce e afetuosa. Isso ajuda a construir tanto a verossimilhança da relação entre pai e filho quanto a própria dramaticidade do longa, que se apoia na exaustão física e emocional de seus personagens: assim como David se sente impotente como pai ao não conseguir ajudar o filho, Nic é sufocado pela angústia de reconhecer um vício que ele simplesmente não consegue vencer.

Entre os fragmentos de Querido Menino, existe ainda uma mãe bastante ausente por razões pouco explicadas (Amy Ryan), assim como uma madrasta que tenta ajudar o marido enquanto toma certa distância para proteger seus próprios filhos (Maura Tierney). Entretanto, o coração do filme está todo com a dupla protagonista, que se destaca pela humanidade com que representa os percalços enfrentados por pessoas comuns e sem a mínima noção de como lidar com um problema complicado como o vício por drogas. Timothée Chalamet, que chegou a ser indicado a importantes prêmios como o Globo de Ouro e o Screen Actors Guild Awards, reafirma todo o talento que havia apresentado em Me Chame Pelo Seu Nome, mas é importante salientar como Steve Carell, em mais uma interpretação que encorpa a sua bela e eclética carreira no cinema norte-americano, é excelente ao conferir ao personagem todas as sutilezas que têm se tornado uma preciosa marca de sua vertente dramática como ator.

Estruturalmente, Querido Menino costura uma instigante narrativa quando decide, desde o princípio, pulverizar sua história e renegar uma narrativa linear. Porém, isso não deixa de acarretar repetições: são inúmeras as vezes em que ficamos com a sensação de que já vimos os mesmos arcos e os mesmos caminhos apresentados pelo longa. Talvez isso até seja uma decisão consciente do diretor para reforçar os cíclicos processos de convivência com um viciado irremediável, mas o efeito se esvazia diante de uma reprodução que não chega a expandir o íntimo dos personagens. Com isso, as duas horas de projeção são sentidas, amortecendo, na meia hora final, o impacto emocional de um filme mais sólido do que as mornas recepções acusavam e que, ao registrar a luz e a escuridão como dois lados de uma mesma moeda, mantém viva a identidade de um cineasta que chega a Hollywood sem domesticar as ideias que anos atrás fizeram com que ele chegasse entre os finalistas ao Oscar de filme estrangeiro com o já citado (e reverenciado) Alabama Monroe.

“O RETORNO DE BEN”, de Peter Hedges

Em uma dessas coincidências não tão benéficas do destino, O Retorno de Ben chega aos cinemas à sombra de Querido Menino, uma vez que ambos narram histórias de garotos envolvidos em problemas com drogas e que, com a ajuda dos pais, tentam atravessar períodos doídos e sombrios. Enquanto Querido Menino contempla a relação entre pai e filho, O Retorno de Ben captura os dias de um jovem enfrentando seus próprios fantasmas com a ajuda de uma mãe resiliente e destemida. O enfoque, ao menos, é outro: aqui, Ben acaba de voltar da clínica de reabilitação e tenta se reconectar com a família e com o mundo mesmo sabendo que, ao reencontrar o lugar onde a família vive, precisará revisitar lembranças desagradáveis e enfrentar uma importante jornada de resistência e (des)confiança pós-vício. Afinal, é possível uma família manter a tranquilidade perante alguém que já foi responsável por tanto transtorno? E teria o garoto realmente encontrado a paz com ele próprio?

Escrito e dirigido por Peter Hedges (pai do protagonista Lucas na vida real), O Retorno de Ben reapresenta a vocação do cineasta para histórias cotidianas e familiares. Hedges é o autor de duas pequenas pérolas do cinema independente norte-americano — Do Jeito Que Ela ÉEu, Meu Irmão e Nossa Namorada — e, ainda que O Retorno de Ben, não seja tão lapidado em delicadezas quanto os trabalhos anteriores do diretor, é acertada a escolha de narrar a história não sob o ponto de vista do garoto que volta para casa, mas sob o da mãe que, com outros três filhos e um novo marido, tenta dar um novo voto de confiança ao filho. As devidas dimensões são dadas ao jovem Ben, mas é na mãe Holly que o longa ancora as suas principais facetas dramáticas. Por outro lado, surpreendentemente, o que parecia ser o pequeno relato de uma família de classe média tentando superar fantasmas do passado durante uma festiva semana de Natal tem a sua proposta subvertida lá pela metade, quando o filme vira quase um thriller envolvendo ecos do passado de Ben e uma noite angustiante onde o amor e a força de uma mãe serão colocados à prova.

A guinada de estilo causa certa estranheza porque traz a velha sensação de dois filmes distintos dentro de um e porque muda o tom de uma trama que, até então, parecia destinada a contar mais do mesmo, especialmente quando comparada a Querido Menino. Entretanto, em ambos os casos, Julia Roberts e Lucas Hedges conferem a consistência dramática que, muitas vezes, o filme tenta construir com desdobramentos que, perto de outros longas sobre protagonistas erráticos em uma espiral de carmas (o drama Bom Comportamento é uma excelente pedida), não chegam a ser surpreendentes. O Retorno de Ben causa maior empatia por causa dos dois, que criam uma ótima química em cena. Curiosidade: o diretor não queria escalar o próprio filho para o papel, mas, por insistência de Julia Roberts, que havia se encantado com a performance de Hedges em Manchester à Beira-Mar, essa decisão foi repensada. Julia estava certa: ainda que à sombra de Querido MeninoO Retorno de Ben é, sem dúvida alguma, elevado pelos dois.

“BOY ERASED: UMA VERDADE ANULADA”, de Joel Edgerton

Assim como O Retorno de BenBoy Erased: Uma Verdade Anulada tem seu impacto de certa forma amortecido quando comparado a outro título de temática equivalente. Por mais que dessa vez o espaço de tempo entre uma obra e outra seja muito maior, é impossível não traçar comparações entre o novo longa-metragem assinado pelo ator Joel Edgerton e o telefilme Orações Para Bobby, produzido pela emissora Lifetime e estrelado pela grande Sigourney Weaver em 2009. Quase dez anos separam Orações Para BobbyBoy Erased, mas a potência emocional do primeiro permanece tão intocada e referenciada que fica difícil uma obra se equiparar em potência com a mesmíssima temática. Para quem não não conhece um ou outro, ambos são títulos que encenam a história de garotos que, ao se descobrirem gays, são reprimidos por famílias conservadoras, fervorosamente religiosas e simpatizantes à ideia de que a homossexualidade pode ser curada através de tratamentos. 

Mais um filme estrelado pelo prolífero Lucas Hedges, Boy Erased é baseado nas memórias de Garrard Conley, um jovem que, na vida real, foi obrigado pelos pais a passar por uma terapia de conversão após revelar a sua homossexualidade. Com flashbacks que ilustram a fase em que o protagonista começava a perceber os sinais de sua natureza sexual, o filme explora amplamente as inacreditáveis sessões que tentam “curar” o jovem em meados de 2004: dos exercícios de postura para eliminar qualquer resquício de afetação até as lavagens cerebrais repletas de lições de moral e orações, é chocante constatar que, 15 anos depois dos acontecimentos que deram origem ao filme, tais ideias ainda sejam muito reais e potencializadas pelos tempos conservadores que vivemos.

Ao mesmo tempo, Boy Erased dilui sua consistência dramática ao preferir falar majoritariamente sobre esse sistema. Até sabemos bastante sobre o protagonista Jared Eamons (Hedges) e as relações que ele estabelece com a família, mas o roteiro, também escrito por Joel Edgerton, prefere dimensionar o personagem através do choque das terapias e não tanto pelas complexidades de sua jornada íntima, o que termina por criar uma experiência bastante cíclica, por vezes frustrante. Se as cenas de “cura gay” impactam nos primeiros registros, logo nos interessamos mais pelas vivências pessoais do protagonista com a família e com as pessoas em sua volta (uma cena no dormitório da faculdade é particularmente impactante), mais tais registros nem sempre recebem a devida atenção e dimensão.

Excetuando a recorrente insipidez do roteiro, Lucas Hedges se sai muito bem ao registrar a angústia e as transformações de um jovem que se encontra em um verdadeiro inferno pessoal. Seu Jared Eamons é um jovem resistente, o que traz momentos interessantes para o ator (a cena final com Russell Crowe é tocante pela maturidade com que o personagem evolui na nossa frente). Há outras facetas que Hedges pode explorar aqui ou ali, chance pouco oferecida nas mesmas proporções para Nicole Kidman, que não tem um texto à altura de sua caracterização para uma personagem cujas motivações e transformações soam verdadeiras mais pelo seu trabalho do que pela construção do roteiro propriamente dita. Hedges e Kidman mereciam uma obra mais pungente em emoção, bem ao estilo de Orações Para Bobby, longa que merece ser sempre revisto, inclusive depois de Boy Erased.

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