Cinema e Argumento

47º Festival de Cinema de Gramado #1: conhecendo os filmes em competição e as homenagens de 2019

Com estreia programada inicialmente para agosto, Hebe – A Estrela do Brasil agora integra a competição do Festival de Cinema de Gramado e chegará às salas brasileiras no dia 23 de setembro.

Chegando aos 47 anos, o Festival de Cinema de Gramado anunciou hoje (09), em coletiva de imprensa realizada na Cinemateca Capitólio Petrobrás de Porto Alegre, os filmes que competem pelo Kikito e o quarteto de homenageados que receberá as cobiçadas distinções da mais nova edição do evento. Gramado, que vem de uma recente temporada de perdas (faleceram, desde 2018, o apresentador Leonardo Machado e os curadores Eva Piwowarski e Rubens Ewald Filho), segue levando para o Palácio dos Festivais uma competição formada inteiramente por títulos inéditos em território nacional. Segundo o curador Marcos Santuario, a seleção já havia sido bem desenhada ainda quando Rubens estava em atividade, o que significa que uma boa parcela dos longas escolhidos leva a chancela do saudoso crítico de cinema que perdemos no último mês de junho.

Entre o popular e o autoral, os filmes selecionados representam cinco estados diferentes e reúnem novos nomes da produção recente, assim como cineastas já celebrados inclusive recentemente pelo evento serrano. Da cinebiografia Hebe – A Estrela do Brasil, passando pelo novo filme de Miguel Falabella (Veneza, com ninguém menos que Carmen Maura!), até o retorno de nomes como Iberê Carvalho (O Homem Cordial) e a dupla Andradina Azevedo e Dida Andrade (30 Anos Blues), o Festival peca, entretanto, ao não contemplar qualquer obra dirigida por mulheres, fazendo um amargo contraponto à edição de dois anos atrás, quando quatro dos sete títulos selecionados eram comandados por figuras femininas. Nunca se sabe o que chegou aos curadores, mas é um tanto implausível imaginar que nenhuma cineasta tenha realizado uma obra à altura do evento entre as 195 inscritas no segmento nacional.

Gramado também aposta no ineditismo em território brasileiro quando os títulos estrangeiros entram em pauta. Ainda assim, é uma mostra que segue à sombra dos tempos em que ela própria já premiou Pedro Almodóvar com De Salto Alto, Javier Bardem com Segunda-Feira ao Sol, César Charlone com O Banheiro do Papa e Gustavo Taretto com o irresistível Medianeras – Buenos Aires na Era do Amor Virtual, para citar um exemplo mais recente. São sete países contemplados, mas é consenso que, nos últimos anos, esta não tem sido a vocação cinematográfica mais expressiva do evento. Para completar, 34 curtas-metragens, entre produções gaúchas e nacionais, estão em competição. O filme que abre a maratona de projeções no Palácio dos Festivais em caráter hors-concours é o aguardadíssimo Bacurau, longa de Kleber Mendonça Filho e Juliano Dorneles laureado com o Prêmio do Júri no último Festival de Cannes.

Atração à parte para o público que lota o entorno do Tapete Vermelho na cidade gaúcha, as homenagens são possivelmente o ponto alto da edição deste ano, pois quebram uma questão cultural bastante antiquada e perpetuada por prêmios e festivais ao redor do mundo: a de que atores e cineastas só devem ter carreiras celebradas quando chegam à terceira idade. É saudável sim premiar gerações mais novas, inclusive porque elas estão aí trabalhando, muitas vezes no auge de suas respectivas carreiras. Homenagens não devem simbolizar o fim de uma trajetória ou o saudosismo por tempos que não voltam mais, mas sim o aplauso para carreiras exemplares, artistas inspiradores e contribuições que desde hoje já provam o seu lugar na indústria, independente da idade.

Dito isso, Gramado acerta em cheio ao entregar o Troféu Oscarito para Lázaro Ramos e o Kikito de Cristal para Leonardo Sbaraglia (visto recentemente como uma pulsante paixão de Antonio Banderas em Dor e Glória), atores com 40 e 49 anos, respectivamente. A diretora e atriz Carla Camurati, aos 58, receberá o Troféu Eduardo Abelin. O único ponto inexplicável das homenagens deste ano é Mauricio de Sousa: ainda que se reconheça o legado do cartunista e o fato do Troféu Cidade de Gramado ser um prêmio do município para figuras que contribuíram para a divulgação do evento e da cidade, não deixa de ser estranho ver alguém com laços cinematográficos quase inexistentes recebendo a mesma distinção que já foi parar nas mãos de nomes como Wagner Moura, Lima Duarte, Eva Wilma e Rodrigo Santoro.

O 47º Festival de Cinema de Gramado acontece entre os dias 16 e 24 de agosto de 2019. Confira abaixo a lista completa de filmes selecionados:

LONGAS-METRAGENS BRASILEIROS
30 Anos Blues (SP), de Andradina Azevedo e Dida Andrade
Hebe – A Estrela do Brasil (SP), de Maurício Farias

O Homem Cordial (DF), de Iberê Carvalho
Pacarrete (CE), de Allan Deberton
Raia 4 (RS), de Emiliano Cunha
Veneza (RJ), de Miguel Falabella
Vou Nadar Até Você (SP), de Klaus Mitteldorf e Luciano Patrick

LONGAS-METRAGENS ESTRANGEIROS
A Son of Man – La Maldición del Tesoro de Atahualpa (Equador), de Jamaicanoproblem
Dos Fridas (México e Costa Rica), de Ishtar Yasin
El Despertar de las Hormigas (Costa Rica), de Antonella Sudasassi Furnis
En el Pozo (Uruguai), de Bernardo e Rafael Antonaccio
La Forma de las Horas (Argentina), de Paula de Luque
Muralla (Bolívia), de Rodrigo Alfredo Alejandro Patiño Sanjines
Perro Bomba (Chile), Juan Caceres

CURTAS-METRAGENS BRASILEIROS
Amor aos Vinte Anos (SP), de Felipe Arrojo Poroger e Toti Loureiro
Apneia (PR), de Carol Sakura e Walkir Fernandes
O Balido Interno (PE), de Eder Deó
E o Que a Gente Faz Agora? (BA), de Marina Pontes
A Ética das Hienas (PB), de Rodolpho de Barros
Invasão Espacial (DF), de Thiago Foresti
Marie (PE), de Leo Tabosa
Menino Pássaro (SP), de Diogo Leite
A Mulher Que Sou (PR), de Nathália Tereza
A Pedra (RS), de Iuli Gerbase
Sangro (SP), de Tiago Minamisawa, Bruno H Castro e Guto BR
Um Tempo Só (SP), de Lane Alves
Teoria Sobre um Planeta Estranho (MG), de Marco Antônio Pereira
O Véu de Amani (DF), de Renata Diniz

CURTAS-METRAGENS GAÚCHOS (PRÊMIO ASSEMBLEIA LEGISLATIVA)
Budapest_v4_final2 (Porto Alegre), de Gabriel Motta
buitenlanders/estrangeiros (Porto Alegre), de Cassio Tolpolar
O Carnaval de Gregor (Caxias do Sul), de Kiwi Bertola
Dia de Mudança (Porto Alegre), de Boca Migotto
É Assim que Você Parece (São Leopoldo), de Pedro Valadão
Êles (Porto Alegre), de Roberto Burd
Endotermia (Porto Alegre), de Emiliano Cunha
Kerexu (Porto Alegre), de Denis Rodriguez e Leonardo Remor
Linha Travessão (Porto Alegre), de Douglas Roehrs
A Maior Locadora do Mundo (Porto Alegre), de Matheus Mombelli
O Menino da Terra do Sol (Bento Gonçalves), de Michel Marchetti
A Pedra (Porto Alegre), de Iuli Gerbase
Quero ir para Los Angeles (Porto Alegre), de Juh Balhego
Só Sei Que Foi Assim (Pelotas), de Giovanna Muzel
Sonata (Porto Alegre), de Felipe Diniz
Stardust (Porto Alegre), de P.Zaracla
Tempestade e a Janela de Papel (Porto Alegre), de Viviane Locatelli
Tesourinho (Pelotas), de Bruna Dreyer Nery
Veraneio (Porto Alegre), de Nelson Diniz
Who’s That Man Inside My House? (Sapucaia do Sul), de Lucas Reis

“Turma da Mônica: Laços” é a adaptação live action que o público tanto merecia

Tem coisa mais chata do que ser normal?

Direção: Daniel Rezende

Roteiro: Thiago Dottori, baseado na obra de Mauricio de Sousa e inspirado na graphic novel “Laços”, de Vitor Cafaggi e Lu Cafaggi

Elenco: Kevin Vechiatto, Giulia Benite, Gabriel Moreira, Laura Rauseo, Paulo Vilhena, Monica Iozzi, Fafá Rennó, Ravel Cabral, Rodrigo Santoro

Brasil, 2019, Aventura, 97 minutos

Sinopse: Floquinho, o cachorro do Cebolinha (Kevin Vechiatto), desapareceu. O menino desenvolve então um plano infalível para resgatar o cãozinho, mas para isso vai precisar da ajuda de seus fiéis amigos Mônica (Giulia Benite), Magali (Laura Rauseo) e Cascão (Gabriel Moreira). Juntos, eles irão enfrentar grandes desafios e viver aventuras para levar o cão de volta para casa.  

A Disney vem tentando desde os anos 1990, mas é o Brasil que agora mostra como se faz: com imensa graça, carisma e nostalgia, Turma da Mônica: Laços chega às salas de cinema ostentando, com folga, o título de melhor adaptação live action de um universo consagrado no plano dos quadrinhos infantis e das animações. Desde 1994, quando lançou 101 Dálmatas até mais recentemente com DumboAladdin e um estratégico calendário de dominação mundial, a Disney produziu diversas adaptações com pessoas em carne e osso que, no máximo, poderiam ser encaradas como uma boa diversão. Raríssimos foram os títulos do estúdio que deixaram de ser uma mera cópia da animação original para reverenciar o material de origem com qualidades próprias (A Bela e a Fera dividiu opiniões, mas, por se assumir orgulhosamente como musical, ganhou de todas as outras adaptações em autenticidade). Pois Turma da Mônica: Laços, que celebra os icônicos personagens da obra de Mauricio de Sousa a partir da graphic novel de Vitor Cafaggi e Lu Cafaggi, faz tudo isso e mais um pouco, encantando adultos e crianças com a mesma facilidade.

Elogiado em 2017 por sua enérgica estreia como diretor em Bingo – O Rei das Manhãs, Daniel Rezende, antes montador de filmes como Cidade de Deus, Diários de Motocicleta, Tropa de Elite e A Árvore da Vida, segue despontando como um dos realizadores mais interessantes dos últimos anos. Sua versatilidade é tão notável quanto revigorante: se o álcool, as drogas e o politicamente incorreto compuseram com notável presença o centro cômico e dramático de Bingo, a inocência, a delicadeza e a nostalgia tomam conta de Turma da Mônica: Laços com grande frescor cinematográfico. Para início de conversa, há de se celebrar a bela homenagem que o filme faz para uma infância que não existe mais, com personagens que correm pelas ruas, andam de bicicleta, visitam uns aos outros e até mesmo conhecem o dono da única banca de revistas da vizinhança. Tudo isso é simplesmente impensável para os dias de hoje, quando a infância passou a ter outras atribuições. E, ao encenar uma aventura a partir dessa perspectiva, Turma da Mônica: Laços se engrandece, jamais parecendo antiquado ou fake: tanta inocência termina por reforçar todo o caráter saudoso e afetuoso de um universo desenvolvido com incansável criatividade por Mauricio de Sousa desde os anos 1960.

Reconstituído com uma parte técnica por vezes surpreendente (não é sempre que o cinema brasileiro mais “comercial” consegue usar tão bem uma trilha sonora instrumental como aqui), o Bairro do Limoeiro, vizanhança onde vivem Mônica (Giulia Benite), Cebolinha (Kevin Vechiatto), Cascão (Gabriel Moreira) e Magali (Laura Rauseo) pode parecer clean e perfeitinho demais em uma primeira visita, sensação que se dissipa na medida em que adentramos a vida dos personagens e compreendemos o tipo de homenagem que o filme presta a tempos que deixam saudades. A pegada lúdica de Turma da Mônica: Laços tem origem no próprio roteiro, que não se preocupa em desenvolver aventuras mirabolantes, reflexões profundas ou plot twists para uma história de mistério. Na verdade, a simplicidade da história é cristalina, ainda que isso, em determinado momento, custe alguns pontos ao filme: o terceiro ato é a parcela menos interessante da trama justamente porque busca criar maior suspense e expectativa pela resolução do conflito envolvendo o desaparecimento e o resgate do cãozinho Floquinho.

Para chegar ao quarteto de atores mirins que dá vida a personagens amados por incontáveis gerações, Turma da Mônica: Laços realizou aproximadamente dois mil testes em dez cidades brasileiras. A criteriosa seleção resultou em um acerto dos mais preciosos: tanto os atores selecionados são uma simpatia só quanto demonstram ser realmente bons intérpretes. Essa combinação é importante porque o roteiro de Thiago Dottori exige mais do que somente crianças carismáticas em cena. Além de incorporar as características que eternizaram seus respectivos personagens, os atores precisam abraçar certos desafios dramáticos quando o filme, também ciente da esperteza de seu público, coloca Mônica, Cebolinha, Magali e Cascão em conflito com suas próprias diferenças. Turma da Mônica: Laços mostra que conviver não é fácil, mesmo com as nossas pessoas favoritas, mas que são justamente essas relações que nos salvarão de muita coisa no mundo. Entre a celebração da obra de Mauricio de Sousa e a preocupação em realizar um longa com vida própria, Daniel Rezende acerta triplamente, entregando uma excelente adaptação live action, uma divertida aventura para os pequenos e uma sessão que também será aproveitada pelos adultos. Turma da Mônica: Laços é uma experiência para guardar no coração.

O cinema e os nossos amigos (adeus, querido Rubens!)

Foto de Rafael Roncato

“O cinema é um grande companheiro, todo dia trazendo uma surpresa nova. Revejo os filmes como quem reencontra velhos amigos”.

– Rubens Ewald Filho

Hoje perdemos Rubens Ewald Filho.

No mesmo dia em que é comemorado o Dia do Cinema Brasileiro.

No mesmo dia que marca o centenário de nascimento de Pauline Kael, uma das maiores críticas de cinema que já passaram pelo nosso plano.

Tudo o que Rubens representou para a popularização da crítica de cinema, para a reverberação midiática da cultura e para o cinema brasileiro está aí nas inúmeras homenagens que, com imensa justiça, já estão sendo feitas a ele. No que me toca, posso falar sobre um outro Rubens: aquele que conheci há quase dez anos, no meu primeiro Festival de Cinema de Gramado, e também aquele que, durante todo esse tempo em que convivemos e trabalhamos juntos no evento, sempre me tratou com extrema generosidade e humanidade.

Ao receber a fatídica notícia da sua despedida, imediatamente tentei puxar à memória o último momento em que estive com ele. E — que sorte a minha! — é um momento que lembro de maneira muito viva. Foi logo após a entrega dos Kikitos do Festival de Cinema de Gramado em 2018, quando esbarrei com Rubens na entrada de um hotel da cidade. Com a curiosidade e a preocupação com o trabalho que lhe eram característicos, me perguntou se eu havia achado justos os prêmios daquela noite e se havíamos feito uma boa edição do evento. Concordamos em basicamente tudo, com o que era justo e com o que não era. E ele ouvia. Com atenção e interesse. Algo cada vez mais raro nos dias de hoje.

Ao fim da conversa, Rubens me fez duas cobranças. A primeira por tê-lo convidado a participar apenas uma vez aqui do blog. Ele disse que escreveria sobre o que eu quisesse e que estaria sempre disposto a contribuir para a minha trajetória como crítico de cinema. A segunda foi por eu não ter prometido seguir a sua sugestão de que, com os anos que trabalhei em Gramado, um dia escreveria um livro falando, de forma bem humorada, ficcional e curiosa, sobre tudo o que vemos e vivemos com personalidades e jornalistas nos bastidores de um evento de cinema. O prefácio seria escrito por Rubens Ewald Filho, ele garantiu.

Confesso que, mais uma vez, não prometi que escreveria o tal livro. E registro essa pequena lembrança que hoje me bate de forma tão emocionante como uma forma de reparação, realizando pelo menos um tantinho do que ele queria que eu fizesse. Ou seja, ainda que no blog e em poucas palavras, eu deixo eternizada ao menos uma lembrança de um evento de cinema. E com ninguém menos que Rubens Ewald Filho.

Após a nossa última conversa, abracei Rubens, e prometemos que nos veríamos no próximo Festival. Separei, nesse meio tempo, todos os guias de DVD que ele escreveu ao longo da carreira e que tanto despertaram a cinefilia que hoje existe em mim para que ele autografasse da próxima vez que nos víssemos. Era um absurdo termos trabalhado juntos durante quase dez anos e eu nunca ter levado nenhum livro para que ele pudesse escrever uma dedicatória (malditos tempos digitais!).

Isso, no entanto, não deixa de ser uma bobagem: o tanto que Rubens me incentivou e fez parte da minha história como uma “pessoa de cinema” (termo que ele próprio gostava de usar) não cabe em uma dúzia de palavras assinadas em um papel. O Rubens que fica comigo é aquele que leu meus textos, incentivou minha escrita, deu conselhos quando eu estava nervoso antes de entrevistar uma atriz e que se revelou, de fato, a pessoa querida e generosa que, desde muito jovem, eu imaginava que ele pudesse ser ao ler seus comentários sobre cinema.

Na vez em que escreveu para o Cinema e Argumento em 2013, Rubens falou sobre algumas das interpretações do cinema que mais lhe marcaram, citando, entre as atrizes, Debbie Reynolds. À época, um trecho em particular me comoveu, e agora ganha outro sentido: “Debbie até hoje trabalha (fez há pouco Behind the Candelabra, para a HBO, com Michael Douglas), tem um estúdio de ensaios e faz shows para se sustentar. Vai morrer em cena, sempre gosta de dizer. Como eu também gostaria que fosse comigo”.

Que bom que o destino atendeu esse pedido.

Obrigado por tudo, Rubens!

“Obsessão”: suspense insípido e antiquado desperdiça até mesmo a presença de Isabelle Huppert

I’m like chewing gum.

Direção: Neil Jordan

Roteiro: Neil Jordan e Ray Wright, baseado em história de Ray Wright

Elenco: Chloë Grace Moretz, Isabelle Huppert, Maika Monroe, Colm Feore, Stephen Rea, Zawe Ashton, Thaddeus Daniels, Jane Perry, Jeff Hiller, Parker Sawyers, Raven Dauda, Jessica Preddy

Sinopse: Frances (Chloë Grace Moretz) é uma jovem cuja mãe acabou de falecer. Acabando de se mudar para Manhattan e cheia de problemas com o pai, ela forma uma amizade improvável com Greta (Isabelle Huppert), uma viúva bem mais velha que ela. Porém, conforme as duas se tornam melhores amigas, as atenções da viúva se mostram muito mais sinistras do que ela imaginava. (Adoro Cinema)

Ícone do cinema francês, Isabelle Huppert é uma workaholic nata. Aos 66 anos, a protagonista de Elle e A Professora de Piano, citando os títulos que lhe renderam maior repercussão mundo afora, incluindo, respectivamente, uma indicação ao Oscar e um prêmio de melhor atriz por unanimidade no Festival de Cannes, registra, segundo o IMDb, mais de 130 títulos na carreira entre filmes, séries e minisséries. É um feito e tanto, algo que Huppert aproveitou como ninguém: trabalhando com inúmeros mestres do cinema europeu e mundial, ela conjugou talento e oportunidade como poucas intérpretes, mesmo que, de vez em quando, o resultado de muitos dos filmes com sua presença como protagonista estejam longe de qualquer ideal de excelência. Raramente qualidade acompanha quantidade, principalmente com quem nunca desacelera, mas, em certos casos, é mesmo difícil acreditar como uma atriz do calibre de Huppert pode se envolver com pequenas bombas como esse Obsessão, um suspense que, antiquado e repetitivo, sequer alcança o status de guilty pleasure.

Na teoria, vale um desconto e um voto de confiança: Obsessão é dirigido por Neil Jordan, que, munido de inspiração ou de apelo junto ao público, realizou Traídos Pelo DesejoEntrevista Com o Vampiro, Fim de Caso e Café da Manhã em Plutão. Na prática, entretanto, é difícil nutrir qualquer interesse por um roteiro escrito no piloto-automático a partir de um amontoado de clichês envolvendo a clássica história da mocinha ingênua e machucada pela vida que passa a se relacionar com uma desconhecida que logo em seguida se revela uma maluca descontrolada. Não há clima em Obsessão, que, além da previsibilidade e da superficialidade com que constrói conflitos, tenta criar envolvimento com personagens que frequentemente tomam decisões inexplicáveis, como entrar em um beco escuro e vazio durante uma perseguição ou resolver situações com suas próprias mãos quando isso claramente era caso de polícia (e o filme se utiliza de desculpas pouco convincentes para descartar a ajuda de autoridades). Toda essa combinação é muito antiquada e, quando não há um quê de homenagem ou esperteza, chegamos a resultados aborrecidos como esse.

No papel da viúva carente e descontrolada que faz da vida da protagonista um verdadeiro inferno, Isabelle Huppert, claro, é o que existe de melhor em Obsessão. Toda sua seriedade como intérprete é mais uma vez perceptível aqui porque sua personagem é extremamente mal trabalhada. Ou seja, se o roteiro não traz o mínimo de curiosidade, sutileza ou complexidade para uma mulher que é obsessiva e perigosa simplesmente por ser (os traços do passado que tentam esclarecer seu comportamento são displicentes e rasteiros), Huppert se empenha ao máximo para ao menos conferir um tom frio e macabro à figura que interpreta. Em um mundo ideal, ela travaria um delicioso duelo físico e psicológico com uma atriz interessante, mas Chloë Grace Moretz, que, um dia despontou como uma boa promessa (Kick-Ass!), é insossa como em tantas outras oportunidades que lhe foram dadas até aqui. Sendo assim, o que temos é uma mocinha cansativa que só toma decisões erradas e uma vilã bem incorporada por uma grande veterana, mas mal aproveitada por um roteiro simplório.

Como diretor, Neil Jordan dá pouquíssima tração a um texto vazio e que depende demais de uma boa condução para se tornar minimamente envolvente. Sem uma mão mais firme ou criativa, Obsessão se mostra frágil por todos os lados, com coadjuvantes unidimensionais e caminhos já esperados para uma obra dessa natureza, incluindo o clímax regado a perucas, sedativos, seringas e revólveres. Se não fosse para ser um suspense de primeira linha, Obsessão poderia ter sido ao menos um passatempo divertido ou uma refinada brincadeira com elementos que, nos anos 1980 e 1990, chegaram a proporcionaram momentos inesquecíveis para grandes atrizes (como esquecer a marcante Alex Forrest de Glenn Close em Atração Fatal, por exemplo?). Não sendo nem uma coisa nem outra, o filme de Neil Jordan, cai no limbo e o potencializa o maior dos seus pecados: o de desperdiçar uma atriz como Isabelle Huppert, que faz qualquer trabalho com o mesmo nível de envolvimento e dedicação. Isso não é coisa que se faça, Neil Jordan!

“Rocketman”: em seu melhor, cinebiografia faz jus ao legado de Elton John com imaginação e autenticidade

It’s going to be a wild ride.

Direção: Dexter Fletcher

Roteiro: Lee Hall

Elenco: Taron Egerton, Jamie Bell, Richard Madden, Bryce Dallas Howard, Gemma Jones, Steven Mackintosh, Tom Bennett, Matthew Illesley, Kit Connor, Charlie Rowe, Peter O’Hanlon, Ross Farrelly

Reino Unido/EUA, 2019, Musical, 121 minutos

Sinopse: A trajetória de como o tímido Reginald Dwight (Taron Egerton) se transformou em Elton John, ícone da música pop. Desde a infância complicada, fruto do descaso do pai pela família, sua história de vida é contada através da releitura das músicas do superstar, incluindo a relação do cantor com o compositor e parceiro profissional Bernie Taupin (Jamie Bell) e o empresário e o ex-amante John Reid (Richard Madden). (Adoro Cinema)

Como um disco arranhado, tenho a sensação de escrever sempre a mesma coisa quando assisto a alguma cinebiografia baseada na trajetória de cantores ou grupos musicais. Em grande parte, isso se dá pelo fato de projetos como ElisBohemian RhapsodyRayJohnny & JuneTim Maia serem os mesmos em sua composição. Se você viu uma, já viu todas. Ao mesmo tempo, não deixa de ser um gosto adquirido: cada vez mais, cinebiografias musicais as plateias, e Bohemian Rhapsody, inspirado na trajetória do Queen e mais especificamente na vida de Freddie Mercury, tornou-se o maior marco recente nesse sentido, arrecadando mais de 900 milhões de dólares ao redor do mundo e conquistando nada menos do que quatro Oscars (ator para Rami Malek, montagem, edição de som e mixagem de som). Assim como as leituras live action da Disney para vários de seus clássicos, as cinebiografias musicais são um caminho sem volta no cinema comercial.

Passada a euforia inicial dessa tendência, vem a questão: afinal, quantas serão de fato lembradas? Raramente, há títulos que quebram barreiras no circuito independente, como Não Estou Lá, por exemplo, que, dirigido por Todd Haynes, homenageou Bob Dylan de maneira bastante inusitada, mas, considerando obras com expressivo apelo popular produzidas por grandes estúdios, poucas são imaginativas e nenhuma deve se comparar a Rocketman, que, em cartaz nos cinemas brasileiros, opta por narrar a vida de Elton John com a lógica clássica de um musical e não simplesmente com um colagem displicente dos melhores hits do cantor. Isso quer dizer que, quebrando a tradição de outros títulos do gênero, o filme assinado por Dexter Fletcher incorpora o repertório de Elton à história, onde o próprio elenco canta as músicas em diferentes sequências ou até mesmo em diálogos corriqueiros. Mesmo quando está no palco, o protagonista não interpreta clássicos como Crocodile Rock e a própria Rocketman com banalidade: na primeira, Elton literalmente flutua com o público, enquanto, na segunda, ele sai direto de uma ambulância para entrar no palco e, logo em seguida, ser lançado ao espaço como um foguete.

Tanta imaginação e tanta assertividade no poder da clássica narrativa de filmes musicais conferem a Rocketman um tom criativo que o difere de outras cinebiografias, abrindo portas para que demais títulos do gênero se sintam validados a seguir caminhos diferentes do que aí estão. Fletcher, que finalizou Bohemian Rhapsody após Bryan Singer ter sido demitido da cadeira de direção quase ao final das gravações, é claramente um realizador afeito a musicais, trazendo grandes contribuições para um projeto que em momento algum se envergonha de sua natureza e muito menos de seu extravagante personagem, aqui representado com total liberdade e naturalidade. Essa, inclusive, foi uma exigência do próprio Elton John: que sua vida não fosse maquiada ou amortecida e que suas fraquezas estivessem tão presentes no filme quanto as suas qualidades. A carta branca dada pelo cantor também na parte musical — ele fez questão que Taron Egerton cantasse as músicas para conferir autenticidade à encenação — engrandece o conceito de Rocketman, que, muito além de não ser um mero lipsync, conta toda uma vida sem amarras e com suas próprias ideias.

Com números musicais originais e encantadores, o filme esbanja dignidade por incorporar uma fantasia que sempre esteve presente tanto nos figurinos hiperbólicos que marcaram a carreira de Elton John quanto na sua própria imaginação, algo que fez o cantor sobreviver a uma vida familiar de desamparo e a um vivência afetiva quase inexistente até meados da vida adulta. É tão bonito ver uma cinebiografia reverenciar seu biografado rompendo as formalidades que, por isso mesmo, é frustrante constatar a fragilidade do filme quando a história está com os pés firmados no chão. Ao tentar dimensionar seus personagens sem o uso da música ou da imaginação, Rocketman se limita, inclusive porque a trajetória de ascensão-queda-reerguimento do cantor é menos complexa do que o filme supõe ou tenta engrandecer dramaticamente. Elton John chegou ao topo sem muitas dificuldades profissionais, e o ponto baixo de sua carreira foi uma longa temporada de problemas com álcool e drogas. Há drama nisso? Com certeza, mas o roteiro insiste em pesar a mão nessa crise existencial, tomando tempo demais da projeção e fazendo com que o espectador deseje logo a chegada do próximo número musical.

Quando segue caminhos desprovido de música e sonhos, o roteiro de Rocketman segue a cartilha das cinebiografias que vemos de tempos em tempos: manchetes de jornais jogadas na tela para contextualizar a repercussão pública do protagonista, momentos registrados de maneira tão displicente que parecem fazer parte de uma checklist de fatos que precisam constar na tela sobre a vida do biografado (o casamento de Elton com Renate Blauel dura, no máximo, duas cenas) e há, claro, todo um ciclo de descida ao inferno e reconciliação com diálogos e mensagens expositivas. Entre a imaginação e a convencionalidade, o longa de Dexter Fletcher oscila bastante, o que é sentindo também em função de escalações equivocadíssimas, como a de Bryce Dallas Howard (caricata como de costume, ela vive a mãe do protagonista e perde a chance de trazer qualquer sutileza a uma personagem nada empática), e de tratamentos unidimensionais de figuras importantes, como o namorado de Elton vivido por Richard Madden, retratado como uma figura simplória em sua personalidade fria, interesseira e cruel.

Ainda assim, o roteiro escrito por Lee Hall (Cavalo de Guerra, Victoria e Abdul: O Confidente da Rainha) acerta na construção específica de uma relação que, no final das contas, é o comovente centro emocional de Rocketman: a amizade entre Elton John e Bernie Taupin, que compôs praticamente todos os clássicos emoldurados pelo cantor com inesquecíveis melodias. A relação entre os dois é tocante porque tanto celebra algo inerente a todos nós (a amizade) quanto é muito bem personificada pela química entre Taron Egeron e Jamie Bell. Egerton, que merece aplausos pela entrega emocional e pelo absoluto empenho em cantar e dançar todas as sequências musicais, é o dono do show, mas é quando contracena com Bell que o filme encontra os seus sentimentos mais genuínos. O coração de Rocketman está nessa história, e ela é importante para compreendermos o quanto essa versão cinematográfica da vida de Elton não deixa de ser uma forma do próprio cantor expurgar seus próprios demônios. Dexter Fletcher pode até ter dirigido um filme com abordagens infinitamente mais interessantes do que outras, mas, no geral, foi fidelíssimo a seu biografado em todas as facetas. Em seu melhor, Rocketman é puro Elton John.

Melhores de 2018 – Filme

Filme que logo após a sessão já concluímos que será lembrado como um futuro clássico, Trama Fantasma é outro trabalho de altíssimo nível do diretor Paul Thomas Anderson, que já marcou época com títulos inesquecíveis como Boogie NightsMagnóliaSangue NegroO Mestre. Nesta sua nova investida, Anderson encena uma sinuosa e por vezes perturbadora relação romântica com foco em personagens únicos em suas complexidades. Ao observar com proximidade o dia a dia de Reynolds (Daniel Day-Lewis, em seu último trabalho antes da aposentadoria) e Alma (Vicky Krieps), o espectador se depara como uma história que, lá no fundo, diz muito sobre a forma torta com que encaramos o amor, sentimento embaralhado por vícios, egos, perfeccionismos e idealizações.

Como em toda a filmografia de Anderson, tal abordagem, entretanto, em nada se assemelha a qualquer expectativa nutrida antes de assistir ao longa. Trama Fantasma tem grandes interpretações, uma trilha sonora marcante, belos figurinos e uma impactante fotografia, mas é fascinantemente estranho e incômodo, uma vez que tudo no filme acontece no seu próprio tempo e na sua própria forma, criando uma clássica atmosfera Andersoniana, onde drama, romance e até mesmo mistério se entrelaçam de maneira muito tênue, quase imperceptível. Irretocável em todo o seu conjunto — não há o que tirar nem por nas atuações centrais, no roteiro, na direção e no trabalho técnico —, Trama Fantasma é outra experiência inebriante proporcionada por um dos maiores realizadores da nossa geração.

Ainda disputavam a categoria: O Animal Cordial, Benzinho, As Boas Maneiras e Você Nunca Esteve Realmente Aqui.

EM ANOS ANTERIORES: 2017 – Mãe! | 2016 – Carol | 2015 – Mad Max: Estrada da Fúria | 2014 – Relatos Selvagens | 2013 – Gravidade | 2012 – Precisamos Falar Sobre o Kevin | 2011 – Harry Potter e as Relíquias da Morte – Parte 2 | 2010 – Direito de Amar | 2009 – Dúvida | 2008 – WALL-E | 2007 – O Ultimato Bourne

Melhores de 2018 – Direção

Dois dos filmes mais destemidos e anti-convencionais que assisti em 2018 foram dirigidos por mulheres. E elas têm muito em comum: tanto a brasileira Gabriela Amaral Almeida quanto a britânica Lynne Ramsay costumam tocar em inquietudes humanas e traduzi-las para as telas com uma linguagem que caminha na direção oposta do que o grande público está acostumado a ver. Enquanto Gabriela revigorou o chamado cinema de “gênero” brasileiro com o terror O Animal Cordial, Lynne Ramsay lançou um olhar cru e provocador para a violência através da sombria e solitária trajetória de um matador de aluguel. Não à toa, a penúltima categoria da lista de melhores de 2018 do blog acaba com um empate entre duas realizadoras excepcionais e responsáveis por filmes que merecem ser referenciados e analisados por muito tempo.

Sobre Gabriela Amaral Almeida, que já contabiliza oito títulos como diretora e 26 como roteirista, é fundamental salientar sua vocação para criar personagens cujas contradições humanas ela própria diz não saber resolver. E, em O Animal Cordial, Gabriela firma os pés nessa zona de desconforto, transpondo para o terror tudo aquilo que, atualmente, contribui para o verdadeiro pânico social e político instalado em um Brasil despedaçado. Entre o preconceito em suas mais variadas formas e todas as tortas consequências originadas pela falência moral e social do sexo masculino, ela filma um elenco excepcional em um único ambiente (um restaurante na cidade de São Paulo), reproduzindo —  e também questionando —  muitos elementos do chamado terror slasher. O resultado é um longa imprevisível do início ao fim, comandando pela cineasta com uma vitalidade invejável.

Tão incômodo quanto fascinante é o trabalho de direção de Lynne Ramsay em Você Nunca Esteve Realmente Aqui. Ramsay, que não filmava desde 2011, quando realizou o assombroso Precisamos Falar Sobre o Kevin, dispensa qualquer expectativa neste novo trabalho onde dirige Joaquin Phoenix como um atormentado matador de aluguel. Primeiro porque Você Nunca Esteve Realmente Aqui não se encaixa em qualquer pré-conceito que o espectador possa ter sobre um filme centrado em um matador de aluguel e segundo porque Ramsay levanta infinitas perguntas, mas praticamente nenhuma resposta sobre o misterioso protagonista. A partir disso isso, a cineasta radiografa a natureza e as reverberações da violência com muita crueza, mas também com um plano muito bem elaborado para cada gota de sangue, trauma ou ato violento encenado em cena.

Ainda disputavam a categoria: Alfonso Cuarón (Roma), Juliana Rojas e Marco Dutra (As Boas Maneiras) e Paul Thomas Anderson (Trama Fantasma).

EM ANOS ANTERIORES: 2017 – Darren Aronofsky (Mãe!| 2016 – José Pedro Goulart (Ponto Zero| 2015 – George Miller (Mad Max: Estrada da Fúria| 2014 – David Fincher (Garota Exemplar| 2013 – Alfonso Cuarón (Gravidade| 2012 – Leos Carax (Holy Motors| 2011 – Darren Aronofsky (Cisne Negro| 2010 – Christopher Nolan (A Origem| 2009 – Danny Boyle (Quem Quer Ser Um Milionário?| 2008 – Paul Thomas Anderson (Sangue Negro| 2007 – Alejandro González Iñárritu (Babel)

Com “Escape at Dannemora” e “The Act”, Patricia Arquette vive a era de ouro da sua carreira

Patricia Arquette nunca foi uma atriz particularmente impressionante, mas começou a ser vista de outra maneira após vencer o Oscar de melhor atriz coadjuvante por Boyhood com uma fala que viria a impulsionar os movimentos em busca de igualdade e justiça para as mulheres na indústria hollywoodiana. À época, em uma entrevista concedida ao The Guardian, ela falou justamente sobre como, em termos culturais, o “cinema” deixou de ser “cinema” para ser referenciado como “indústria”, levantando uma interessante provocação: a de que hoje, por exemplo, Vivien Leigh, uma atriz quase desconhecida antes de realizar …E o Vento Levou, jamais seria escalada para uma produção dessa ambição e magnitude. Para Arquette, quando o “cinema” deixa de ser “cinema” (arte) para ser chamado de “indústria” (negócio), ganha quem é a maior estrela ou a figura mais pop para determinado papel, e não a melhor atriz.

Curiosamente, a carreira de Patricia Arquette não deixa de estar associada a essa afirmação. Se pouco ela impressionou ao longo de uma carreira resumida a papeis pequenos e pouco memoráveis, muito se deve à falta de oportunidades para quem não é uma estrela. Ela, que atua desde os anos 1980 e tem um Emmy de melhor atriz por Medium (em 2005 o prêmio não tinha o mesmo significado de hoje, quando celebrações por séries, minisséries ou telefilme são sim sinônimo de grande prestígio), demorou a dar uma guinada na carreira mesmo após o Oscar por Boyhood. Aliás, foi somente cinco anos após a consagração pelo filme de Linklater que Patricia se viu envolvida em dois projetos consecutivos que, lançados entre novembro de 2018 e março 2019, vieram para marcar a era de ouro da sua carreira: com Escape at DannemoraThe Act, ela finalmente recebe os papeis fascinantes que toda atriz deveria receber com a devida dose de frequência para reforçar a tese de que uma escalação certeira é muito mais importante do que qualquer estrelato.

“ESCAPE AT DANNEMORA” (Showtime)

Na temporada de premiações em que todos esperavam que Amy Adams se consagrasse com a minissérie Sharp Objects, da HBO, Patricia Arquette chegou de mansinho e terminou faturando o Globo de Ouro, o Screen Actors Guild Awards e o Critics’ Choice Awards por essa minissérie dirigida pelo ator Ben Stiller para a Showtime. Baseada em uma história real, Escape at Dannemora dramatiza a fuga de dois dois detentos da Clinton Correctional Facility, em Nova Iorque, nos Estados Unidos, em 2015. A dupla de presidiários interpretada na ficção por Benicio Del Toro e Paul Dano escapa da instituição com a ajuda de Joyce “Tilly” Mitchell, uma das funcionárias que, logo se descobre, cultivava uma relação instável e sexual com os dois detentos. A verdadeira Joyce Mitchell não falava publicamente desde 2015, quando foi presa por ajudar a orquestrar a fuga de David Sweat e Richard Matt, mas quebrou o silêncio em 2018 para comentar a minissérie, alegando que jamais teve qualquer relação sexual com a dupla e que Ben Stiller não passar de um oportunista querendo faturar dinheiro com a sua dramática história.

Julgando pelo que vemos em Escape at Dannemora (é importante lembrar que a minissérie é ficção e não documentário), Tilly Mitchell se apresenta como uma mulher mentalmente instável que toma decisões motivada por surtos de carência e impulsos sexuais. É desbravando a mente de uma figura feminina conturbadíssima que Patricia Arquette trabalha uma série de complexidades para, ao longo de sete episódios com duração de praticamente uma hora cada, criar uma personagem fascinante em sua instabilidade, sem permitir que ela vire uma caricatura. Sob um trabalho impressionante de maquiagem, Arquette se transforma em cena como nunca antes em sua carreira, e o faz com uma busca minuciosa pelas razões que, para além da questão psíquica, levaram essa mulher a infringir tanto a lei quanto a confiança de seus próprios colegas e familiares para libertar dois presidiários. A transformação da atriz foi tamanha que, antes do início das filmagens, ela encontrou Benicio Del Toro já devidamente maquiada e não foi reconhecida pelo colega, que pensou ter esbarrado em uma senhora maluca no set. Sua caracterização, contudo, jamais serve como muleta, e sim como uma ferramenta para potencializar os tantos conflitos internos que também se manifestam corporalmente na personagem.

Por outro lado, Escape at Dannemora é menos fascinante do que se poderia esperar, e a causa disso está no fato da minissérie criada pela dupla Brett Johnson e Michael Tolkin não ser majoritariamente sobre Tilly Mitchell, que, a certa altura, passa a ser uma coadjuvante para a história centrada em David Sweat e Richard Matt, dois personagens de personalidades opostas e bem defendidas por Benicio Del Toro e Paul Dano. E a história dos dois não é tão interessante quanto a de Tilly, ainda que a minissérie acerte ao demorar a revelar as razões que fizeram com que David e Richard fossem parar atrás das grades (é uma decisão importante porque nos aproxima dos personagens e não os tacha logo de cara como bandidos indignos de empatia). Fora isso, toda a preparação para a fuga dos detentos é longa demais e o desenrolar é menos surpreendente do que a minissérie acaba nos levando a crer. Tanto essa sensação é verdadeira que os últimos episódios, centrados ora no passado dos personagens (difícil algum roteirista não cair na tentação de escrever capítulos em flashbacks para mostrar as razões que levaram certas figuras até onde elas chegaram), ora no detalhado desfecho de cada uma das figuras em cena, só nos chamam de volta para a Tilly Mitchell de Patricia Arquette, que, cada vez que está em cena, resgata Escape at Dannemora de toda e qualquer redundância.

“THE ACT” (Hulu)

Interpretando outra figura da vida real, Patricia Arquette chega aos serviços de streaming com The Act, nova antologia criada pela Hulu, a mesma plataforma que lançou a multipremiada The Handmaid’s Tale. A cada temporada, um novo (e bizarro) crime verídico será encenado, e o primeiro ano não poderia ter dado o pontapé inicial com uma história mais macabra: durante quase duas décadas, Dee Dee Blanchard (Arquette) fez com que sua filha Gypsy acreditasse ser uma menina extremamente doente, dependendo da mãe para qualquer mínima tarefa do dia a dia. Gypsy, que tomava incontáveis remédios, andava com a ajuda de uma carreira de rodas e não sabia nem ao certo a sua data de nascimento, eventualmente descobriu toda a verdade e arquitetou o assassinato da própria mãe. Dee Dee, na verdade, sofria de um distúrbio chamado Síndrome de Münchausen por Procuração, que nada mais é do que uma forma de abuso infantil onde cuidadores provocam/imaginam de forma deliberada a existência de doenças em crianças como forma de chamarem atenção para si mesmos. Por isso mesmo, The Act é duplamente perturbadora: primeiro pelo transtorno de uma mãe que faz sua filha passar desnecessariamente por pesadelos inimagináveis e segundo pelo fato da garota, uma jovem criada basicamente em cativeiro, ter orquestrado a morte de sua própria progenitora.

Ao longo de oito episódios, The Act não é o que podemos chamar de uma dramaturgia sofisticada e complexa. Há muita dramatização e ajuste dos fatos para que o programa consiga assumidamente chocar o espectador. Não há firulas quanto a essa opção, uma vez que todo capítulo termina com letreiros que reforçam o quanto a série manipula determinados fatos para alcançar efeitos dramáticos. Em paz com isso, o espectador tem tudo para se abismar com os absurdos que Dee Dee impunha à filha, que chegava a comer uma pizza batida em liquidificador por sonda e era privada de ingerir qualquer tipo de açúcar em função de uma diabetes que só existia na cabeça da mãe. The Act tem grandes méritos ao construir a percepção conflituosa que Gypsy nutria por quem lhe deu a vida: na medida em que a garota começa a perceber que, como o próprio título da série indica, sua vida não passava de uma encenação, a revolta não é suficientemente grande para que Gypsy despreze por completo a sua mãe, inclusive porque a única vida que ela conhece é aquela entre quatro paredes com essa mulher. Gradativamente, claro, a situação começa a mudar de cenário, e a desconstrução de um mundo antes visto como inocente e infantil pelos olhos de uma criança começa a ganhar contornos sombrios e urgentes.

Como a garotinha Gypsy, Joey King oscila entre sentimentos de inocência e corrompimento, despertando reações mistas na plateia: afinal, como dimensionar os pensamentos e as atitudes de uma criança que nunca viu o mundo como ele realmente é e foi criada em um ambiente incrivelmente doentio e abusivo? Ao passo que The Act desperdiça a chance de versar com mais atenção sobre questões éticas e morais da sociedade (todas elas muitas vezes reduzidas à dinâmica das protagonistas com as vizinhas não muito interessantes vividas por Chloë Sevigny e AnnaSophia Robb), King e, claro, Patricia Arquette dão conta de tornar todo o contexto tão incômodo quanto assombroso. Há outras participações no elenco como as de Calum Worthy e Margo Martindale que impulsionam a estranheza desse conjunto de relações tortuosas e problemáticas, mas King e Arquette dominam a cena. A segunda, por sinal, impressiona um degrau acima visto a dobradinha com Escape at Dannemora: em ambas as séries, Arquette interpreta mulheres desequilibradas e envolvidas em situações extremas. Porém, Tilly Mitchell e Dee Dee Blanchard são, nas mãos da atriz, pessoas indiscutivelmente distintas em qualquer tipo de comparação, o que é o atestado definitivo da era de ouro de uma atriz antes subaproveitada e que agora, graças às chances certas oferecidas, coloca nas telas uma versatilidade digna de Meryl Streep.

Melhores de 2018 – Elenco

Se olharmos bem de perto, veremos o Brasil inteiro dentro do restaurante onde se passa O Animal Cordial. Em maior ou menor grau e com uma boa dose alegórica, estamos lá, expostos com nossas cicatrizes e idiossincrasias. E é entusiasmante como o elenco talentoso e plural do longa-metragem dirigido por Gabriela Amaral Almeida abraçou tanto a forte identidade de personagens tão distintos e pressionados contra a parede quanto a proposta violenta e sanguinolenta de um filme de terror. Pois Murilo Benício e Luciana Paes, ambos excepcionais, lideram com proeza esse grupo de atores que também reúne, no âmbito dos coadjuvantes, excelentes performances de (re)conhecidos talentos do nosso cinema, a exemplo de Irandhir Santos e Camila Morgado, bem como nomes em ascensão (caso de Humberto Carrão, que já foi ao Festival de Cannes com Aquarius). Por si só, O Animal Cordial favorece o trabalho de cada um deles ao desenvolver uma história ambientada em um único local, mas todos são maiores do que essa valiosa circunstância. Afinal, não é todo elenco que consegue, por experiência e talento, criar personas tão fortes e simbólicas para um filme de gênero, seja ele brasileiro ou estrangeiro. Ainda disputavam a categoria: Benzinho, Infiltrado na Klan, The Post: A Guerra Secreta e As Viúvas.

EM ANOS ANTERIORES: 2017 Um Mergulho no Passado | 2016 – Animais Noturnos | 2015 – Birdman ou (A Inesperada Virtude da Ignorância) | 2014 – Relatos Selvagens | 2013 – Álbum de Família | 2012 – O Impossível | 2011 – Tudo Pelo Poder | 2010 – Minhas Mães e Meu Pai | 2009 – Dúvida | 2008 – Vicky Cristina Barcelona | 2007 – Bobby

Melhores de 2018 – Ator

Nem Jack Nicholson que é Jack Nicholson conseguiu se aposentar com grandeza semelhante a de Daniel Day-Lewis. Enquanto o veterano de filmes como Um Estranho no Ninho, O Iluminado e Melhor é Impossível abandonou a carreira de ator com um pequeno papel em Como Você Sabe (uma comédia insípida e tediosa dirigida por seu amigo James L. Brooks), Day-Lewis deixou o ofício com Trama Fantasma, a mais recente obra-prima dirigida pelo mestre Paul Thomas Anderson. E não só esse filme nos lembra o quanto o terceiro Oscar do ator foi protocolar (ele é ótimo em Lincoln, mas o ano era tão forte para os atores que fica difícil nutrir maior entusiasmo com tal consagração) como registra um dos melhores momentos da carreira de um intérprete que sempre colecionou desempenhos inesquecíveis.

Como o perfeccionista estilista Reynolds Woodcock, o ator alcança um timbre que só alguém com um talento à altura do seu conseguiria alcançar: o de criar complexidade e algum tipo de interesse pela natureza egocêntrica, machista e intolerante de um personagem essencialmente insuportável. Day-Lewis, que é conhecido por não sair de seus personagens quando está no set de filmagens, realmente se torna Woodcock ao surgir em cena com a imensa presença que lhe é tão característica e ao estabelecer um comportamento muito peculiar e complexo para um estilista que parece desprezar praticamente tudo e todos. É um trabalho impressionante até mesmo para o padrão Daniel Day-Lewis, algo que, para quem conhece o trabalho do ator, realmente não é pouca coisa. Ainda disputavam a categoria: Joaquin Phoenix (Você Nunca Esteve Realmente Aqui), Murilo Benício (O Animal Cordial), Shico Menegat (Tinta Bruta) e Timothée Chalamet (Me Chame Pelo Seu Nome).

EM ANOS ANTERIORES: 2017 – Casey Affleck (Manchester à Beira-Mar) | 2016 – Nelson Xavier – A Despedida | 2015 – David Oyelowo (Selma: Uma Luta Pela Igualdade| 2014 – Jake Gyllenhaal (O Abutre| 2013 – Joaquin Phoenix (O Mestre| 2012 – Rodrigo Santoro (Heleno| 2011 – Colin Firth (O Discurso do Rei| 2010 – Colin Firth (Direito de Amar| 2009 – Sean Penn (Milk – A Voz da Igualdade| 2008 – Daniel Day-Lewis (Sangue Negro| 2007 – Forest Whitaker (O Último Rei da Escócia)

Melhores de 2018 – Atriz

Nada necessariamente extraordinário acontece com Irene, a humilde protagonista de Benzinho que, de repente, recebe a notícia de que o filho está prestes a se mudar para Alemanha, onde jogará handebol. Ela, como tantas mulheres desse Brasil, carrega uma família nas costas, busca soluções para os mais diversos problemas, trabalha com o que pode para sustentar os filhos e, no meio disso, tudo, ainda encontra força e afeto para distribuir carinho aos que dividem o mesmo teto que ela. Como a atriz extraordinária que é, Karine Teles mergulha em todas as camadas de uma personagem que é uma clara homenagem às tantas mulheres que passam pelas ruas despercebidas e também àquelas que fazem toda a diferença dentro das nossas próprias casas. Interiorizando o turbilhão de emoções de uma mãe que busca não transparecer sua insegurança, Karine dá vida a uma mulher incrivelmente real e comovente, elevando a beleza das tantas complexidades que a vida em si nos traz todos os dias e que o filme ilumina com delicadeza. Ela, que já era grandiosa em filmes como Riscado Que Horas Ela Volta?, tem em Benzinho o tipo de papel que marca uma carreira. Ainda disputavam a categoria: Charlize Theron (Tully), Charlotte Rampling (Hannah), Toni Collette (Hereditário) e Vicky Krieps (Trama Fantasma).

EM ANOS ANTERIORES: 2017 – Jennifer Lawrence (Mãe!) | 2016 – Isabelle Huppert (Elle| 2015 – Camila Márdila e Regina Casé (Que Horas Ela Volta?) | 2014 – Rosamund Pike (Garota Exemplar| 2013 – Adèle Exarchopoulos (Azul é a Cor Mais Quente| 2012 – Tilda Swinton (Precisamos Falar Sobre o Kevin| 2011 – Kirsten Dunst e Charlotte Gainsbourg (Melancolia| 2010 – Carey Mulligan (Educação| 2009 – Kate Winslet (Foi Apenas Um Sonho| 2008 – Meryl Streep (Mamma Mia!| 2007 – Marion Cotillard (Piaf – Um Hino ao Amor)

Melhores de 2018 – Roteiro Original

Normalmente reverenciado pelo sua grandeza como cineasta, Paul Thomas Anderson também é um roteirista excepcional, e deveria receber mais reconhecimento por isso. Trama Fantasma, seu mais recente filme, é outro exemplo que corrobora essa afirmação. Ambientado na Londres dos anos 1950, o longa explora a linha tênue entre o amor e o poder, no melhor estilo Andersoniano de inverter expectativas e convencionalidades. Ao mergulhar nos malefícios das disputas de controle que contaminam relações amorosas, o diretor traz para o roteiro ecos romanticamente sinistros de muitos de seus filmes favoritos, alguns deles clássicos dos anos 1940, como Rebecca, a Mulher Inesquecível, de Alfred Hitchcock, e À Meia-Luz, estrelado por Ingrid Bergman.

Anderson está focado primordialmente em um comportamento que ele próprio diz perceber a sua volta — a alternância de poderes entre os envolvidos em qualquer relação amorosa — para descortinar as idiossincrasias e as contradições da natureza relativa aos romances. Daniel Day-Lews, que colaborou ativamente na construção dos personagens, afirma que não existe estranheza maior no universo do que aquela que habita a vida aparentemente normal de pessoas comuns entre quatro paredes. Verdade. E se, de um jeito ou de outro, Anderson já dissecava tudo isso em filmes como Embriagado de AmorO Mestre, é de se considerar que, com Trama Fantasma, ele alcança sua discussão mais sofisticada acerca de tal temática. Ainda disputavam a categoria: As Boas ManeirasBenzinhoSem Amor Tully.

EM ANOS ANTERIORES: 2017 Manchester à Beira-Mar | 2016 – Aquarius | 2015 – Que Horas Ela Volta? | 2014 – Relatos Selvagens |  2013 – Antes da Meia-Noite | 2012 – A Separação | 2011 – Melancolia | 2010 – A Origem | 2009 – (500) Dias Com Ela | 2008 – WALL-E | 2007 – Ratatouille

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