Cinema e Argumento

“O Diabo Veste Prada 2” rejeita ideia do mero fan service para medir o pulso do nosso tempo

May the bridges I burn light my way.

Direção: David Frankel

Roteiro: Aline Brosh McKenna

Elenco: Anne Hathaway, Meryl Streep, Emily Blunt, Stanley Tucci, Justin Theroux, Kenneth Branagh, Lucy Liu, B.J. Novak, Simone Ashley, Tracie Thoms, Caleb Hearon, Lady Gaga, Rachel Bloom, Helen J Shen, Patrick Brammall, Pauline Chalamet

The Devil Wears Prada 2, EUA, 2026, Comédia, 119 minutos

Sinopse: De volta às elegantes ruas de Nova York e aos sofisticados escritórios da revista Runway, as personagens de O Diabo Veste Prada se veem envolvidas em uma disputa por receita publicitária em meio ao declínio da mídia impressa, colocando à prova antigas relações e ambições profissionais.

Incrédula, Andy Sachs (Anne Hathaway) testemunha um momento que, vinte anos atrás, poderia ser uma miragem: Miranda Priestly (Meryl Streep) chegando ao escritório da revista Runway e, ela própria, colocando seu casaco em um cabide. Muita coisa mudou desde o lançamento de O Diabo Veste Prada em 2006, tanto para o mundo quanto para suas personagens, e a roteirista Aline Brosh McKenna, que escreveu o longa original e volta para o segundo, entende como tantos reveses são essenciais para revisitar um universo cinematográfico que marcou época e gerações.

Orçado em 35 milhões de dólares, o primeiro O Diabo Veste Prada faturou quase dez vezes mais quando chegou aos cinemas mundialmente, superando as expectativas em torno de um projeto protagonizado por mulheres e encabeçado por uma atriz já então considerada veterana aos 56 anos. Clássicos só podem receber tal distinção com o tempo, e não é exagero afirmar que o filme de David Frankel se tornou um fenômeno na cultura pop. Motivos não faltaram, da interpretação icônica de Meryl Streep ao frescor estético de um império da moda embalado por hits nas vozes de Madonna, Alanis Morissette, U2, Moby, entre outros.

Não só O Diabo Veste Prada foi visto e revisto com o passar dos anos como também reinterpretado em muitas de suas simbologias. A vilania da história reside em Miranda ou no namorado de Andy vivido por Adrian Grenier? A editora-chefe da Runway seria, de fato, o diabo de saias ou é vista dessa maneira apenas por ser uma mulher — e não um homem — em posição de poder? À parte respostas, é indiscutível que Miranda Priestly, por si só, tornou-se um dos papéis mais emblemáticos da carreira de Meryl Streep, o que definitivamente não é pouca coisa.

Agora, após exatas duas décadas, O Diabo Veste Prada 2 apresenta um novo momento na vida de suas personagens. O tempo passou fora e dentro das telas, algo que a sequência dirigida por David Frankel abraça como mote. Não se trata, em suma, de uma continuação alheia às mudanças do mundo ou fabricada para satisfazer a nostalgia de uma legião de fãs. A virada de chave está nessa noção de que Andy e Miranda não podem ser mais as mesmas quando as noções de moda e jornalismo há muito já se transformaram.

Os casacos agora pendurados pela própria chefe são resultado de reclamações feitas ao setor de Recursos Humanos. Não há mais orçamento para viagens de uma semana com o objetivo de produzir a capa do mês. Os transportes executivos dão lugar às corridas por Uber, assim como viagens aéreas agora só são possíveis por meio de classe econômica. E a antes tão poderosa Runway praticamente deixa de existir na versão impressa para existir em uma versão digital que, como lembra Nigel (Stanley Tucci), virou uma mera rolagem no feed quando os usuários de redes sociais tiram um tempo para ir ao banheiro.

É surpreendente que O Diabo Veste Prada 2 talvez seja o primeiro filme sobre o estado atual do jornalismo porque Hollywood desaprendeu a fazer grandes projetos comerciais com algo a dizer, muito menos com algum tipo de posicionamento. Pois o roteiro de McKenna, além de fazer observações sobre o sucateamento das mídias, utiliza esse cenário para moldar suas personagens nos planos cômicos e dramáticos. Se o jornalismo virou negócio — e não um dos mais vantajosos para os próprios jornalistas —, tudo passa a se dar na base de negociação, mesmo para quem antes apenas demandava.

McKenna toma o cuidado de não fazer de O Diabo Veste Prada 2 uma lição de moral ou uma espécie de punição em cima da sua personagem-título. Isso acontece porque todos estão no mesmo barco, envoltos em crises e incertezas, inclusive a Andy de Anne Hathaway, que volta à Runway após a demissão em massa realizada pelo jornal onde acreditava estar fazendo um trabalho com princípios e significados. Ao mesmo tempo, são as próprias pessoas da sua geração que tomam o poder através de ricaços da tecnologia, muitos deles invadindo todas as áreas apenas com números e métricas em mente.

Em meio ao naufrágio, o que resta é a colaboração entre os que tentam sobreviver. É quando surgem as transformações dos personagens de um filme para o outro, em especial as das protagonistas. Há quem possa dizer que Miranda está mais suavizada nessa sequência, o que, para mim, na realidade, faz total sentido. E, sendo bem sincero, é reconfortante ver que até o diabo pode mudar, mesmo que conforme a música da vez. Ocorre, enfim, a flexibilização de sentimentos — ou, então, as nuances — que, no fundo, gostaríamos de ter visto no primeiro longa.

Ao buscar novos pilares, O Diabo Veste Prada 2 não abandona, claro, a essência que tornou seu antecessor um marco na cultura pop. Em cena, há diversas referências ao que vimos em 2006, como o retorno de Vogue na trilha sonora e do suéter azul cerúleo no figurino. De Donatella Versace a Lady Gaga, o desfile de participações especiais também segue dando prestígio ao projeto. Felizmente, são inserções calibradas e que resistem à tentação de soarem cacoetes, algo exemplificado no uso do icônico That’s all de Miranda, utilizado uma única vez.

Mesmo com tantos méritos e com a presença gratificante de um elenco que volta aos personagens como se os tivessem interpretado ontem, não dá para se dizer que o raio cai duas vezes no mesmo lugar. O Diabo Veste Prada 2 não incendeia como o anterior, talvez por insistir em elementos que continuam não dando certo (o novo par romântico de Andy é outra vez insípido) e por não corrigir aquelas rotas fáceis demais que contornam problemas aparentemente incontornáveis para as personagens. Há ainda adições que em nada contribuem — e, nesse sentido, me pergunto qual a razão de desperdiçar um grande ator como Kenneth Branagh para um papel tão descartável. E, ah, claro, sem esquecer da estética pouco viva em cores e iluminação que toma conta das produções comerciais atuais.

Pode até ser que eu não reveja O Diabo Veste Prada 2 da mesma maneira incansável com que revejo o primeiro, mas fico feliz em poder dizer que a sequência tem vida própria diante de tantos projetos semelhantes que se sustentam apenas pela nostalgia momentânea. Ao ser comparado com, digamos, Gladiador 2 e Uma Sexta-Feira Mais Louca Ainda, o retorno de Meryl Streep e companhia ao universo da moda justifica sua existência ao apostar em um tipo de cinema outrora bem trabalhado em Hollywood: o que comunica ideias por meio da despretensão. Como o bom jornalismo, O Diabo Veste Prada 2 se sai vitorioso porque nega as expectativas óbvias e busca novos ângulos para explorar.

“Michael” é mais uma cinebiografia como tantas outras (e que, com certeza, frustraria o próprio Rei do Pop)

Keep those feet still, my man!

Direção: Antoine Fuqua

Roteiro: John Logan

Elenco: Jaafar Jackson, Colman Domingo, Juliano Valdi, Nia Long, Miles Teller, Mike Myers, Kendrick Sampson, Jayden Harville, Jaylen Lyndon Hunter, Judah Edwards, Nathaniel Logan McIntyre, Tre’ Horton, Rhyan Hill, Joseph David-Jones, Jamal Henderson

EUA/Reino Unido, 2026, Drama, 127 minutos

Sinopse: O filme conta a história da vida de Michael Jackson além da música, acompanhando sua jornada desde a descoberta de seu talento extraordinário como líder dos Jackson Five, até se tornar o artista visionário cuja ambição criativa impulsionou uma busca incansável para ser o maior entertainer do mundo.

A sensação é de déjà-vu imediato: tão logo Michael começa, surge a silhueta icônica do protagonista, aquecendo-se antes de entrar no palco, enquanto um público delirante grita por seu nome ao fundo. Vemos Michael Jackson apenas de costas para, logo em seguida, retrocedermos algumas décadas até a sua infância nas mãos de um rígido pai que tinha por missão de vida treinar os filhos rumo ao estrelato. É o tipo de história e estrutura que, no campo das cinebiografias, já vimos dezenas de vezes e que Michael, mesmo com um personagem sui generis, não faz questão nenhuma de subverter. De todas as frustrações que um projeto como esse poderia causar, trata-se da maior: a de colocar a vida do Rei do Pop em uma caixinha de caminhos prontos e fáceis, sem minimamente evocar, em termos cinematográficos, a pulsante criatividade de um brilhante repertório musical.

Bem como aconteceu com Wicked, Michael chega aos cinemas camuflando — pelo menos em seus materiais promocionais — a informação de que haverá uma sequência e que, por óbvio, os acontecimentos desse primeiro são apenas a primeira parte de um arco a ser finalizado na segunda obra. A ambição poderia ser justificada caso o diretor Antoine Fuqua (Dia de Treinamento, O Protetor) se utilizasse da imaginação para ir além da narrativa tradicional e investigar a mente do cantor, a exemplo do que Dexter Fletcher fez no ótimo Rocketman, ainda a melhor cinebiografia musical realizada por Hollywood nos últimos anos. Contudo, Fuqua não é exatamente um diretor inspirado, basta olharmos para sua carreira que, em retrospecto, é apenas marcada por obras de ação muito parecidas entre si.

Junte a isso o fato de Michael passar pelo crivo da família Jackson e ter eliminado polêmicas como as acusações de abuso infantil contra o cantor, tornando-se mais um projeto chapa branca entre tantos. Tal abordagem não é novidade se considerarmos como as celebridades norte-americanas vêm sendo retratadas pelo cinemão já há certo tempo, e talvez seja por já esperar pouco de Michael que meu problema tenha ficado mais com a decisão mercadológica — e nunca artística — de narrar a vida de Jackson em dois filmes. Há uma série de efeitos colaterais resultantes dessa escolha, a começar, sem dúvida, pela sensação de incompletude. Afinal, a partir do roteiro de John Logan (O Aviador, 007 – Operação Skyfall), Fuqua pouco consegue fazer com que Michael se sustente sozinho, embora já entregue vários hits como Thriller, Billie Jean e Beat It.

Se a história tem bastante para contar – ela até o final dos anos 1980, quando Michael Jackson já havia se tornado uma febre mundial e detentor do título de álbum mais vendido de todos os tempos —, há, por outro lado, um enorme vazio em como tudo é retratado. A condução formulaica nunca alcança a verve extasiante das músicas, e o roteiro não descortina o cantor para além da superfície. Percebam, por exemplo, como, mesmo se dedicando a abarcar um bom pedaço da infância de Michael, saímos da sessão sem sequer compreender os perfis dos quatro irmãos que, com ele, formaram a banda The Jackson 5. Seu próprio processo criativo é um mistério: à parte o momento em que Beat It ganha vida, em uma das melhores passagens do filme, ou quando Michael começa os trabalhos do videoclipe de Thriller, a origem do seu álbum mais célebre é resumida a um mural onde o protagonista fixa o nome de cada música produzida para escolher qual servirá como título.

Dramaticamente falando, temos apenas um grande conflito: o do artista que tenta sair da sombra do pai. Para o bem e para o mal, Joseph (Colman Domingo) exerceu papel fundamental na criação dos filhos, e é interessante como Michael não se furta de mostrar, em especial, como o controle do pai fez mal para toda a família, até mesmo para a mãe (Nia Long), que, pouco a pouco, tenta se impor em uma casa dominada por uma voz masculina. Defensor da ideia de que sucesso não vem de mão beijada e que, sendo negro, é preciso fazer todo tipo de sacrifício, seja ele qual for, para ser alguém na vida, Joseph alçou os filhos ao sucesso, mas também produziu uma série de traumas, negando, inclusive, o prazer da infância a eles. Não por acaso, Michael vivia em uma eterna síndrome de Peter Pan, adotando macacos e girafas ou fazendo de sua mansão um lugar dos mais recreativos — a famosa Neverland que, espera-se, seja abordada futuramente.

Fuqua e Logan não se aprofundam nas leituras possíveis em cima desses fatos, fazendo do protagonista um personagem raso em emoções, condição perfeita para que várias lacunas se abram no estudo do biografado. É nula, por exemplo, qualquer sugestão aos desejos afetivos e sexuais de Michael — ou à falta deles. E como podemos acreditar que a família é tão importante para o protagonista quando não conhecemos mais facetas da sua mãe e de seus irmãos? O dilema da trama está, enfim, na busca por libertação de um artista e de um filho, o que rende alguma densidade até determinado ponto, mas que não dá sustentação ao filme no geral. Ao dar tanta atenção a isso, Michael termina suas duas horas de duração sem navegar nas tantas possibilidades envolvendo um grande ícone, mesmo no que ele tinha de mais mundano e humano.

Para Jaafar Jackson, sobrinho de Michael na vida real, resta o trabalho de mimetizar o tio, o que ele executa com precisão do ponto de vista técnico. Acontece que, como meu interesse nesse tipo de interpretação reside na alma e na essência, não cheguei a me impressionar, muito em função de Jaafar ter pouco material dramático para revelar uma verdadeira vocação para atuar neste que é o seu primeiro papel no cinema. Ele, junto a Michael como um todo, tem missões árduas para o segundo filme, entre elas, a de dar mais camadas a um personagem que, no primeiro longa, surge deveras plano em uma homenagem aquém de sua grandeza. Se Michael Jackson pensava cada trabalho e aparição para causar impacto ou fazer a diferença como artista, sua cinebiografia deveria, no mínimo, tentar o mesmo, sem medo de assumir riscos. Tenho certeza de que o Rei do Pop concordaria.

Melhores de 2025: “Uma Batalha Após a Outra” é o líder isolado da lista com dez indicações

Leonardo DiCaprio e Paul Thomas Anderson nos bastidores de Uma Batalha Após a Outra

Deve ser efeito da passagem do tempo – quanto mais os anos avançam, mais difícil fica comprimir em uma única lista as minhas experiências favoritas de um determinado ano cinematográfico. Em 2025, gostei de tudo um pouco: de títulos brasileiros excepcionais a documentários, animações, musicais e produções em diferentes idiomas, mergulhei de cabeça em histórias tão específicas quanto universais.

Se faço coro a merecidos sucessos como Uma Batalha Após a Outra e Pecadores, também tenho opiniões dissonantes em relação a filmes amplamente detratados, caso do musical Emilia Pérez, de Jacques Audiard. E aí está a beleza do cinema: em sua multiplicidade, ele é aberto a todo tipo de interpretação do público, que jamais pode ser acusado de certo ou errado diante de suas próprias bagagens, afinidades e predileções.  

Confira abaixo a minha tradicional lista de melhores do ano, liderada, em 2025, por Uma Batalha Após a Outra, de Paul Thomas Anderson, com dez indicações. Como é de costume, são considerados para essa seleção apenas títulos lançados comercialmente no Brasil, seja nas salas de cinema ou diretamente em plataformas de streaming.

MELHOR FILME
Uma Batalha Após a Outra
Depois da Caçada
Emilia Pérez
O Filho de Mil Homens
Foi Apenas Um Acidente
Flow
Homem com H
Oeste Outra Vez
Pecadores
A Vizinha Perfeita

MELHOR DIREÇÃO
Erico Rassi (Oeste Outra Vez)
Jacques Audiard (Emilia Pérez)
Kleber Mendonça Filho (O Agente Secreto)
Paul Thomas Anderson (Uma Batalha Após a Outra)
Ryan Coogler (Pecadores)

MELHOR ELENCO
O Agente Secreto
Uma Batalha Após a Outra
Conclave
Foi Apenas um Acidente

Valor Sentimental

MELHOR ATRIZ
Jennifer Lawrence (Morra, Amor)
Julia Roberts (Depois da Caçada)
Kathleen Chalfant (Toque Familiar)
Sally Hawkins (Faça Ela Voltar)
Tessa Thompson (Hedda)

MELHOR ATOR
Adrien Brody (O Brutalista)
Leonardo DiCaprio (Uma Batalha Após a Outra)
Ralph Fiennes (Conclave)
Jesuíta Barbosa (Homem com H)
Wagner Moura (O Agente Secreto)

MELHOR ATRIZ COADJUVANTE
Amy Madigan (A Hora do Mal)
Elle Fanning (Valor Sentimental)
Inga Ibsdotter Lilleaas (Valor Sentimental)
Nina Hoss (Hedda)
Teyana Taylor (Uma Batalha Após a Outra)

MELHOR ATOR COADJUVANTE
Franz Rogowski (Bird)
Ralph Fiennes (Extermínio: A Evolução)
Rodger Rogério (Oeste Outra Vez)
Sean Penn (Uma Batalha Após a Outra)
Stanley Tucci (Conclave)

MELHOR ROTEIRO ORIGINAL
Depois da Caçada
Foi Apenas um Acidente
Pecadores

Sorry, Baby
Valor Sentimental

MELHOR ROTEIRO ADAPTADO
Uma Batalha Após a Outra
Conclave

O Filho de Mil Homens
Ladrões
A Longa Marcha: Caminhe ou Morra

MELHOR MONTAGEM
Uma Batalha Após a Outra
Casa de Dinamite
Conclave
Oeste Outra Vez
A Vizinha Perfeita

MELHOR FOTOGRAFIA
O Agente Secreto
Uma Batalha Após a Outra

A Cozinha
O Filho de Mil Homens
Sonhos de Trem

MELHOR TRILHA SONORA
Uma Batalha Após a Outra
O Brutalista
Conclave
Emilia Pérez
Flow

MELHOR DESIGN DE PRODUÇÃO
O Agente Secreto
O Brutalista
Conclave
Frankenstein
Nosferatu

MELHOR FIGURINO
O Agente Secreto
Frankenstein
Hedda
Maria Callas
Nosferatu

MELHOR SOM
O Agente Secreto
F1: O Filme
Flow
Oeste Outra Vez
Pecadores

MELHOR CANÇÃO ORIGINAL
“Golden” (Guerreiras do K-Pop)
“I Lied to You” (Pecadores)
“El Mal” (Emília Pérez)
“Mi Camino” (Emília Pérez)
“Train Dreams” (Sonhos de Trem)

MELHORES EFEITOS VISUAIS
Avatar: Fogo e Cinzas
F1: O Filme
A Longa Marcha: Caminhe ou Morra
O Ônibus Perdido
Pecadores

MELHOR MAQUIAGEM & PENTEADOS
Frankenstein
Homem com H
A Hora do Mal
Nosferatu
Pecadores

Os vencedores do Oscar 2026

Uma Batalha Após a Outra foi o melhor filme do Oscar 2026.

Há dois universos em conflito quando fazemos nossas apostas para o Oscar. O primeiro envolve a matemática propriamente dita — aquela que considera os prêmios precursores, as estatísticas históricas da Academia e a soma de probabilidades criada até o dia da cerimônia. Já o segundo — e é ele que bagunça tudo — fica apenas no terreno da especulação, quando nos deixamos levar pelo instinto, por aquilo que supostamente tem chance de surpreender ou por certezas que só existem nas nossas teorias. Na maior parte dos casos, a matemática sempre vence, e foi o que aconteceu com a consagração absoluta de Uma Batalha Após a Outra, que levou seis Oscars para casa, incluindo o de melhor filme e o da categoria caçula de escalação de elenco. Tudo o que se especulava sobre uma possível força de última hora para Pecadores não se confirmou. Para dizer bem a verdade, talvez o filme de Ryan Coogler, apesar do recorde de indicações, não tenha sequer chegado perto de arranhar as chances de Uma Batalha Após a Outra, longa responsável por enfim dar a estatueta dourada a um diretor icônico como Paul Thomas Anderson.

As confirmações se deram em uma cerimônia das mais inexpressivas já produzidas pelo Oscar em termos de entretenimento. Do roteiro paupérrimo em ideias ao desrespeito com vários vencedores que tiveram seus microfones cortados durante os discursos, a Academia entregou um programa televisionado sem vida e que em nada justificou o tanto de tempo disposto aos produtores para pensar a cerimônia, este ano realizada tardiamente, mais de 45 dias após o anúncio dos indicados. A lista de equívocos segue: apenas duas das cinco canções indicadas foram apresentadas, como se as outras não tivessem importância alguma; o tempo dado aos apresentadores das categorias é excessivo e mal aproveitado; e até mesmo o In Memoriam — este ano mais povoado do que o habitual devido ao número de importantes despedidas recentes — pareceu feito de improviso, inclusive no próprio layout das fotos do telão, que pareciam ter saído diretamente de um Paint qualquer.

Sobre os vencedores, algumas considerações:

– Tem causado certa insatisfação o terceiro Oscar de Sean Penn (Uma Batalha Após a Outra), muito pelo fato de ele não ter comparecido à cerimônia. Penn estava na Ucrânia defendendo as causas que sempre defende e sua campanha para o prêmio foi nula. Por que ele haveria de aparecer quando nunca deu sinal de que estaria lá? E desde quando o merecimento de um prêmio se mede pela presença ou não de alguém no Oscar? Para completar, também não sou da turma que não o premiaria porque ele já tem duas estatuetas. É em função desse tipo de pensamento que as injustiças cometidas pela Academia viraram uma bola de neve. Acho Penn um espetáculo no filme de Paul Thomas Anderson e defendo essa vitória.

– Também fico muito feliz com a vitória de Amy Madigan em atriz coadjuvante com A Hora do Mal. Depois de anos dando rasteiras em performances de terror (Toni Collette em Hereditário, Lupita Nyong’o em Nós) ou alimentando expectativa em torno delas para, no fim, se recusar a premiá-las (Demi Moore em A Substância), o Oscar parece ter compreendido a necessidade de reconhecer um gênero popular e que há anos vem sendo preterido por um tolo preconceito. Madigan é o ponto alto de A Hora do Mal e, sem dúvida, sua estatueta já envelhece muito bem, pois é a vitória certa, na hora certa, pela interpretação certa.

– Sei que muita gente gosta da ideia de Michael B. Jordan ter um Oscar de melhor ator por Pecadores, mas não chego a me entusiasmar com o reconhecimento. Gosto muito de Jordan desde Fruitvale Station — e acho, inclusive, que ele ofuscou Chadwick Boseman em Pantera Negra —, mas, dessa vez, ele não era o ator mais interessante nem dentro do próprio filme, que dirá do ano. Era o indicado menos interessante dentro da categoria, que, aqui em casa, foi conquistada por Ethan Hawke em Blue Moon. Jordan se tornou o sexto ator negro a conquistar o prêmio de melhor protagonista, evidenciando uma disparidade que merece ser notada: em melhor atriz, até hoje, em quase cem anos de Oscar, somente uma mulher negra levou a estatueta (Halle Berry, por A Última Ceia). O que significa essa resistência?

– Ainda em melhor ator, o caso de Timothée Chalamet ficará para a posteridade como um caso de campanha às avessas. À parte as polêmicas envolvendo suas declarações sobre ópera e ballet, Chalamet, a meu ver, já vinha perdendo esse Oscar desde o ano passado, quando fez um discurso constrangedor no Screen Actors Guild Awards ao vencer o prêmio de melhor ator por Um Completo Desconhecido. Citando que trabalhava para estar no mesmo panteão de Marlon Brando, Viola Davis e Daniel Day-Lewis, o jovem começou uma obcecada busca pelo Oscar. Não há problema na ambição. Ela, inclusive, pode ser um belo combustível. Mas há algo de errado quando um artista encara prêmios como balizadores de grandeza e sucesso. Timothée caiu vertiginosamente nessa armadilha e colocou fora um Oscar que provavelmente viria de forma natural.

– O Brasil acabou não levando estatuetas para casa, como era de se imaginar, apesar das nossas torcidas. No caso de O Agente Secreto, ganhou mesmo a narrativa de que é muito difícil um país levar o Oscar de melhor filme internacional por dois anos seguidos. Talvez tenhamos vencido os precursores porque eles não premiaram Ainda Estou Aqui no ano passado. O Oscar não tinha dívida com o Brasil. Nem mesmo o BAFTA, que já havia nos reconhecido com Central do Brasil. Nem por isso saímos menores: a visibilidade que o cinema brasileiro vem ganhando é imensa, e O Agente Secreto tem parte fundamental nessa construção. O trabalho agora é outro: não podemos nos importar com nosso cinema apenas em época de Oscar, principalmente quando estatísticas nos dizem que mais da metade dos lançamentos brasileiros comercialmente sequer chegam a mil espectadores nas salas de cinema cada um.

Confira abaixo a lista completa de vencedores do Oscar 2026:

MELHOR FILME: Uma Batalha Após a Outra
MELHOR DIREÇÃO: Paul Thomas Anderson (Uma Batalha Após a Outra)

MELHOR ATRIZ: Jessie Buckley (Hamnet: A Vida Antes de Hamlet)
MELHOR ATOR: Michael B. Jordan (Pecadores)
MELHOR ATRIZ COADJUVANTE: Amy Madigan (A Hora do Mal)
MELHOR ATOR COADJUVANTE: Sean Penn (Uma Batalha Após a Outra)
MELHOR ESCALAÇÃO DE ELENCO: Uma Batalha Após a Outra
MELHOR ROTEIRO ORIGINAL: Pecadores
MELHOR ROTEIRO ADAPTADO: Uma Batalha Após a Outra

MELHOR FILME INTERNACIONAL: Valor Sentimental (Noruega)
MELHOR DOCUMENTÁRIO: Mr. Nobody Against Putin
MELHOR ANIMAÇÃO: Guerreiras do K-Pop
MELHOR MONTAGEM: Uma Batalha Após a Outra
MELHOR FOTOGRAFIA: Pecadores
MELHOR DESIGN DE PRODUÇÃO: Frankenstein
MELHOR FIGURINO: Frankenstein

MELHOR TRILHA SONORA: Pecadores
MELHOR CANÇÃO ORIGINAL: “Golden” (Guerreiras do K-Pop)

MELHOR SOM: F1: O Filme
MELHORES EFEITOS VISUAIS: Avatar: Fogo e Cinzas
MELHOR MAQUIAGEM E CABELO: Frankenstein
MELHOR CURTA-METRAGEM: The Singers e Two People Exchanging Saliva
MELHOR CURTA-METRAGEM DE ANIMAÇÃO: The Girl Who Cried Pearls

MELHOR CURTA-METRAGEM DE DOCUMENTÁRIO: All the Empty Rooms

Apostas para o Oscar 2026

Hoje é dia de arriscar no bolão e ficar feliz em perder pontos. O motivo? Das categorias principais do Oscar 2026, somente duas têm seus favoritos plenamente posicionados: Paul Thomas Anderson em melhor direção com Uma Batalha Após a Outra e Jessie Buckley em melhor atriz com Hamnet: A Vida Antes de Hamlet. Nas demais, abre-se espaço para diversas conjecturas, como em melhor ator e melhor atriz coadjuvante. Mesmo entre as categorias técnicas, fica no ar a possibilidade de Pecadores surpreender converter em vitórias o seu número recorde de indicações ao prêmio da Academia. E quanto ao Brasil? Vamos sorrir entre algumas das cinco possibilidades que temos de levar a estatueta para casa? A situação é mais difícil do que a do ano passado, mas podemos ter esperança, e deposito a minha em filme internacional.

Abaixo, minhas apostas para todas as categorias:

MELHOR FILME: Uma Batalha Após a Outra / alt: Hamnet: A Vida Antes de Hamlet
MELHOR DIREÇÃO: Paul Thomas Anderson (Uma Batalha Após a Outra) / alt: Ryan Coogler (Pecadores)

MELHOR ATRIZ: Jessie Buckley (Hamnet: A Vida Antes de Hamlet) / alt: Rose Byrne (Se Eu Tivesse Pernas, Eu Te Chutaria)
MELHOR ATOR: Timothée Chalamet (Marty Supreme) / alt: Michael B. Jordan (Pecadores)
MELHOR ATRIZ COADJUVANTE: Teyana Taylor (Uma Batalha Após a Outra) / alt: Amy Madigan (A Hora do Mal)
MELHOR ATOR COADJUVANTE: Sean Penn (Uma Batalha Após a Outra) / alt: Delroy Lindo (Pecadores)
MELHOR ESCALAÇÃO DE ELENCO: Pecadores / alt: O Agente Secreto
MELHOR ROTEIRO ORIGINAL: Pecadores / alt: Valor Sentimental
MELHOR ROTEIRO ADAPTADO: Uma Batalha Após a Outra / alt: Hamnet: A Vida Antes de Hamlet

MELHOR FILME INTERNACIONAL: O Agente Secreto (Brasil) / alt: Valor Sentimental (Noruega)
MELHOR DOCUMENTÁRIO: A Vizinha Perfeita / alt: Mr. Nobody Against Putin
MELHOR ANIMAÇÃO: Guerreiras do K-Pop / alt: Zootopia 2
MELHOR MONTAGEM: Uma Batalha Após a Outra / alt: F1: O Filme
MELHOR FOTOGRAFIA: Pecadores / alt: Uma Batalha Após a Outra
MELHOR DESIGN DE PRODUÇÃO: Frankenstein / alt: Pecadores
MELHOR FIGURINO: Frankenstein / alt: Pecadores

MELHOR TRILHA SONORA: Pecadores / alt: Uma Batalha Após a Outra
MELHOR CANÇÃO ORIGINAL: “Golden” (Guerreiras do K-Pop) / alt: “I Lied to You” (Pecadores)

MELHOR SOM: F1: O Filme / alt: Sirāt
MELHORES EFEITOS VISUAIS: Avatar: Fogo e Cinzas / alt: Pecadores
MELHOR MAQUIAGEM E CABELO: Frankenstein / alt: Pecadores
MELHOR CURTA-METRAGEM: Two People Exchanging Saliva / alt: The Singers
MELHOR CURTA-METRAGEM DE ANIMAÇÃO: Butterfly / alt: The Girl Who Cried Pearls

MELHOR CURTA-METRAGEM DE DOCUMENTÁRIO: All the Empty Rooms / alt: Armed Only With a Camera: The Life and Death of Brent Renaud