Cinema e Argumento

Os indicados ao Screen Actors Guild Awards 2019

Emily Blunt em O Retorno de Mary Poppins: atriz entra para o seleto grupo de atrizes que conseguiram dupla indicação nas categorias de Cinema do Screen Actors Guild Awards.

Com uma enxurrada de surpresas, o Screen Actors Guild Awards divulgou hoje a lista de indicados para a sua edição comemorativa de 25 anos. Votado exclusivamente por atores, o prêmio é um importante termômetro para o Oscar, visto que uma significativa parte do colegiado que escolhe os vencedores da distinção outorgada pela Academia são atores. Por isso mesmo, não há dúvidas de que Lady Gaga e Nasce Uma Estrela chegam mesmo com força total na temporada (uma cantora emplacar reconhecimento entre atores profissionais é a prova cabal desse prestígio) e que filmes mais populares como Pantera Negra e Bohemian Rhapsody têm tudo para estar estar entre os indicados ao Oscar de melhor filme, dadas as suas indicações a melhor elenco aqui.

No caminho oposto temos Vice, que emplacou lembranças para Amy Adams em coadjuvante (agora aparente favorita após a surpreendente exclusão de Regina King por Se a Rua Beale Falasse) e para Christian Bale em melhor ator, mas não para o elenco na categoria principal. Queridinha do SAG, Viola Davis, que já acumula cinco prêmios do Sindicato, não foi lembrada por As Viúvas, o que comprova de uma vez por todas a baixa do filme de Steve McQueen na temporada. Outra surpresa foi Nicole Kidman ter ficado de fora: se não fosse como protagonista por O Peso do Passado, era de se esperar que ela levasse uma indicação como coadjuvante por Boy Erased: Uma Verdade Anulada.

Considerando séries, minisséries e telefilmes, o SAG costuma ter prestígio extra também pelo fato de não estabelecer prêmios separados para coadjuvantes, que que podem ser considerados na mesma medida que os protagonistas nas categorias de melhor ator ou atriz. E é por isso mesmo que as indicações de Patricia Clarkson (Sharp Objects), Penélope Cruz (The Assassination of Gianni Versace: American Crime Story) e Joseph Fiennes (The Handmaid’s Tale) soam exageradas: não apenas eles não seriam os melhores concorrentes como coadjuvantes por si só como jamais mereciam competir com desempenhos de maiores dimensões, como o do próprio Darren Criss em The Assassination of Gianni Versace. Por outro lado, todos os aplausos do mundo para o SAG ao trazer o devido reconhecimento a Ozark, uma das pérolas da Netflix que pouca gente assiste e que tem um dos grandes desempenhos do ano: o de Julie Ganrer como a tempestuosa e trágica Ruth Langmore, aqui merecidamente equiparada com a colega Laura Linney em melhor atriz.

Mesmo assim, a maior estrela dessa edição do SAG é Emily Blunt, que conseguiu um feito pouco usual: uma indicação dupla nas categorias de Cinema. Como coadjuvante, concorre por Um Lugar Silencioso, onde está ótima em um filme de terror, gênero que costuma ser solenemente ignorado pelos prêmios (Toni Collette, por Hereditário, vem sendo prejudicada por isso). Já como protagonista, emplaca com uma das grandes surpresas dessa temporada: O Retorno de Mary Poppins, musical dirigido por Rob Marshall que vem sendo amplamente abraçado pela crítica. A classificação de coadjuvante por Um Lugar Silencioso é absurda, e se Blunt levará ou não para casa uma das estatuetas é outra história, mas só a dupla indicação já traz um valioso reconhecimento a essa intérprete que já esteve digna de nota em filmes como Sicario: Terra de Ninguém, O Diabo Veste Prada, A Jovem Rainha Victoria, Meu Amor de Verão e até no péssimo A Garota no Trem, mas que nunca chegou ao Oscar.

Os vencedores do Screen Actors Guild Awards 2019 serão conhecidos no dia 27 de janeiro. Fique abaixo com a lista completa de indicados:

CINEMA

MELHOR ELENCO
Bohemian Rhapsody
Infiltrado na Klan
Nasce Uma Estrela
Pantera Negra
Podres de Ricos

MELHOR ATRIZ
Emily Blunt (O Retorno de Mary Poppins)
Glenn Close (A Esposa)
Lady Gaga (Nasce Uma Estrela)
Melissa McCarthy (Poderia Me Perdoar?)
Olivia Colman (A Favorita)

MELHOR ATOR
Bradley Cooper (Nasce Uma Estrela)
Christian Bale (Vice)
John David Washington (Infiltrado na Klan)
Rami Malek (Bohemian Rhapsody)
Viggo Mortensen (Green Book: O Guia)

MELHOR ATRIZ COADJUVANTE
Amy Adams (Vice)
Emily Blunt (Um Lugar Silencioso)
Emma Stone (A Favorita)
Margot Robbie (Duas Rainhas)
Rachel Weisz (A Favorita)

MELHOR ATOR COADJUVANTE
Adam Driver (Infiltrado na Klan)
Mahershala Ali (Green Book: O Guia)
Richard E. Grant (Poderia Me Perdoar?)
Sam Elliott (Nasce Uma Estrela)
Timothée Chalamet (Querido Menino)

 

SÉRIES, MINISSÉRIES E TELEFILMES

MELHOR ELENCO EM DRAMA
The Americans
Better Call Saul
The Handmaid’s Tale
This is Us
Ozark

MELHOR ELENCO EM COMÉDIA
Atlanta
Barry
Glow
The Kominsky Method
The Marvelous Mrs. Maisel

MELHOR ATRIZ EM DRAMA
Elisabeth Moss (The Handmaid’s Tale)
Julia Garner (Ozark)
Laura Linney (Ozark)
Robin Wright (House of Cards)
Sandra Oh (Killing Eve)

MELHOR ATOR EM DRAMA
Bob Odenkirk (Better Call Saul)
Jason Bateman (Ozark)
John Krasinski (Jack Ryan)
Joseph Fiennes (The Handmaid’s Tale)
Sterling K. Brown (This is Us)

MELHOR ATRIZ EM COMÉDIA
Alex Borstein (The Marvelous Mrs. Maisel)
Alison Brie (GLOW)
Jane Fonda (Grace and Frankie)
Lily Tomlin (Grace and Frankie)
Rachel Brosnahan (The Marvelous Mrs. Maisel)

MELHOR ATOR EM COMÉDIA
Alan Arkin (The Kominsky Method)
Bill Hader (Barry)
Henry Winkler (Barry)
Michael Douglas (The Kominsky Method)
Tony Shalhoub (The Marvelous Mrs. Maisel)

MELHOR ATRIZ  EM MINISSÉRIE/TELEFILME
Amy Adams (Sharp Objects)
Emma Stone (Maniac)
Patricia Arquette (Escape at Dannemora)
Patricia Clarkson (Sharp Objects)
Penélope Cruz (The Assassination of Gianni Versace: American Crime Story)

MELHOR ATOR EM MINISSÉRIE/TELEFILME
Anthony Hopkins (King Lear)
Antonio Banderas (Genius: Picasso)
Bill Pullman (The Sinner)
Darren Criss (The Assassination of Gianni Versace: American Crime Story)
Hugh Grant (A Very English Scandal)

“As Viúvas”: certeiro ao renegar definições e criar atmosfera própria, filme de Steve McQueen fraciona potência dramática no excesso de tramas e personagens

No one thinks we have the balls to pull this off.

Direção: Steve McQueen

Roteiro: Gillian Flynn e Steve McQueen, baseado no romance homônimo de Lynda La Plante

Elenco: Viola Davis, Elizabeth Debicki, Michelle Rodriguez, Colin Farrell, Daniel Kaluuya, Robert Duvall, Cynthia Erivo, Liam Neeson, Carrie Coon, Jackie Weaver, Jon Bernthal, Brian Tyree Henry, Manuel Garcia-Rulfo

Widows, EUA/Reino Unido, 2018, Drama/Policial, 129 minutos

Sinopse: Um assalto frustrado faz com que Harry Rawlins (Liam Neeson) e sua gangue sejam mortos pela polícia e o dinheiro que roubaram seja destruído pelas chamas. Isto faz com que a viúva de Harry, Veronica (Viola Davis), seja cobrada para que a quantia roubada seja devolvida. Pressionada, ela encontra um caderno de anotações de Harry que prevê em detalhes aquele que seria seu próximo golpe. Veronica então decide realizar o roubo, tendo a ajuda das demais viúvas dos mortos no assalto frustrado. (Adoro Cinema)

As Viúvas não é exatamente o que você espera, e talvez tenha sido essa a intenção do cineasta Steve McQueen. Em seu primeiro trabalho após a consagração de 12 Anos de Escravidão no Oscar, ele promove uma assumida mistura de gêneros e estilos: não somente As Viúvas está muito longe de ser um mero relato sobre mulheres que orquestram um grande assalto como também renega qualquer traço do dramalhão que poderia nascer de uma história sobre esposas que perdem os maridos mafiosos em um confronto fatídico com a polícia. Aliás, McQueen, que escreveu o roteiro ao lado de Gillian Flynn (Garota Exemplar), prefere encarar o luto com certa distância e frieza, uma vez que Veronica, a protagonista interpretada por Viola Davis, sequer tem tempo para sofrer: no mesmo dia do velório, ela já recebe a visita de um homem perigoso que exige receber os dois milhões de dólares perdidos no ataque da polícia aos falecidos mafiosos. A partir disso, As Viúvas mistura dramas pessoais, ironia, política, crítica social e adrenalina, compondo um relato cuja maior força é, justamente, não ter estilo algum, o que é no mínimo uma provocação para plateias que costumam se incomodar com qualquer dose de indefinição ou imprevisibilidade.

Subversivo no sentido de criar uma história onde mulheres estão na linha de frente de um serviço essencialmente masculino (e retratado pelo Cinema da mesma maneira), As Viúvas é um primor em termos de representatividade, começando pela protagonista, uma mulher negra que, mesmo sabendo, nunca se envolveu com os atos ilícitos de seu marido branco, construindo uma carreira própria e bem sucedida (isso é o que acusa cada look elegantíssimo que Viola Davis, nunca tão bem fotografada, ostenta entre uma cena e outra). Mais uma viúva da trama, a latina vivida por Michelle Rodriguez se preocupa, mas não entra em colapso ao ver ruir o negócio que administrava e até então dava como certo. Pelo contrário: por ser mãe em uma nova condição não tão favorável, ela vai à luta e é a primeira a seguir toda ordem disparada pela personagem de Viola Davis. Já a esguia Alice interpretada por Elizabeth Debicki carrega um perceptível histórico de abuso familiar e matrimonial, mas, aos poucos, começa a juntar forças que ela própria não imaginava ter para, de sua própria maneira, conseguir se desvencilhar dos vícios e malefícios trazidos por esses traumas. Por incrível que pareça, ainda em 2018, é importante festejar decisões como essas quando elas deveriam ser perfeitamente  corriqueiras na maioria esmagadora das produções que vemos ao longo dos anos.

Ao renegar escolhas convencionais quando retrata o processo de luto, As Viúvas ganha em sobriedade, inclusive criando uma atmosfera gélida que casa com a ameaça e a instabilidade da sociedade corrompida e calejada que procura retratar. Tanto essa contextualização dá certo que o longa parece no mínimo artificial, para não dizer novelesco, quando tenta criar alguma passagem mais calorosa, como aquela em que a personagem de Viola Davis coloca Wild is the Wind, da icônica Nina Simone, para tocar e imagina um abraço do falecido marido ao ver seu reflexo da janela da sala. É buscando a sobriedade que McQueen cria os melhores momentos de As Viúvas, quase como se quisesse criar um certo distanciamento de 12 Anos de Escravidão, longa onde não poupou sofrimento, sangue e violência ao falar sobre racismo e escravidão. Para quem desejava algo na linha do premiado filme estrelado por Chiwetel Ejiofor ou até mesmo algo mais comercial como o recente Oito Mulheres e Um Segredo por se tratar de uma história de roubo, o resultado pode ser deveras anti-climático, o que, ao meu ver, nada mais é do que uma grata surpresa.

Há, contudo, um certo estranhamento, dessa vez bem menos interessante, que é o de uma trama fracionada em uma grande quantidade de situações e personagens. Temos uma protagonista conduzindo a história, mas, em muitos casos, ela divide praticamente o mesmo tempo de tela entre com os outros personagens. Alguns deles são interessantíssimos, enquanto outros desapontam por estarem quase em um relato a parte, a exemplo do político interpretado sem muita energia ou criatividade por Colin Farell. Com isso, As Viúvas não constrói necessariamente uma unidade e acaba se embolando, como se prometesse um clímax engenhoso pra amarrar tantas jornadas paralelas. E mais: com o meio de campo tão lotado, há pouco aproveitamento de excelentes intérpretes, tanto masculinos quanto femininos, a exemplo da grande Carrie Coon, cujo potencial testemunhamos durante três anos do seriado The Leftovers. Nesse balanço irregular, os acertos são preciosos: Viola Davis traz sua intensidade de sempre para uma mulher que se vê obrigada a colocar a razão antes de qualquer emoção, Daniel Kaluuya surge com uma energia macabra como um criminoso que exala perigo e Elizabeth Debicki se destaca pela delicadeza com que tateia o reerguimento de uma mulher bastante fragilizada do ponto de vista emocional.

Como um exemplar mais sofisticado de tantos filmes de suspense que se eternizaram nas madrugadas da TV aberta, As Viúvas traz a sua boa dose de reviravoltas e revelações. Prepare-se para ver personagens virando a casaca, surpresas de última hora em situações decisivas, coadjuvantes se revelando mais fundamentais para o encaixe das pessoas do que se poderia supor e até mesmo o clássico disparo de revólver que, na verdade, não foi feito por quem o longa nos sugeriu. Quando se encaminha para o desfecho, As Viúvas traz plot twists e explicações de maneira equivalente ao seu número de personagens, o que fragiliza um tanto mais o roteiro, pois não há tempo hábil para encorpar certas reviravoltas que mereciam mais digestão e construção de atmosfera. Como exercício de direção, o longa se engrandece muito mais, e por isso mesmo o descompasso é sentido. Na dificuldade em ser conciso (até chegar a sua versão final, o primeiro corte teria registrado, segundo o próprio McQueen, um filme de três horas de duração), As Viúvas fragiliza uma potência madura e envolvente que, sejamos francos, é sempre muito difícil de ser encontrada por aí. 

Os indicados ao Globo de Ouro 2019

Se a Rua Beale Falasse, de Barry Jenkins, é um dos três títulos dirigidos por cineastas negros que concorrem ao Globo de Ouro 2019 de melhor filme dramático.

Se os prêmios outorgados pelas associações de críticos servem mais para colocar no radar uma primeira leva de filmes que podem pipocar na temporada pelos próximos meses, prêmios televisionados como o Globo de Ouro chegam para organizar o meio de campo e finalmente traçar possibilidades mais concretas para a temporada de premiações. Foi o que vimos hoje na lista apresentada pela Hollywood Foreign Press, que ontem também anunciou Andy Samberg e Sandra Oh como os apresentadores de sua próxima edição.

Uma conclusão é clara com a lista: as comédias chegam com uma disputa infinitamente mais interessante este ano, enquanto, nos dramas, parece bastante provável que o Globo de Ouro estrague a festa de três ótimos realizadores negros (Ryan Coogler com Pantera Negra, Barry Jenkins com Se a Rua Beale Falasse e Spike Lee com Infiltrado na Klan) ao se entregar à exacerbada comoção cultivada por Nasce Uma Estrela nos últimos meses. Aliás, com Roma fora da disputa em em melhor drama (o filme não pode concorrer devido a uma absurda regra do Globo de Ouro que impede produções estrangeiras de figurarem categoria principal), a disputa se torna ainda menos encorpada.

Chegando como uma grande favorita ao Oscar, Glenn Close emplacou sua esperada indicação como melhor atriz por A Esposa, mas, a exemplo do que aconteceu no Oscar de 1988 quando perdeu para Cher em Feitiço da Lua, a veterana pode ter mais uma cantora pop no caminho de sua aguardada consagração: Lady Gaga, que já tem um Globo de Ouro em casa pelo seriado American Horror Story (e nunca é prudente duvidar do amor dos votantes por uma grande estrela). Seguindo nas interpretações, não deixam de ser sentidas as ausências de Ethan Hawke (No Coração da Escuridão) e Toni Collette (Hereditário), que vivem uma boa fase entre os críticos (mais uma prova de que prêmios televisionados são um assunto à parte). Hawke, aliás, pode muito bem ser substituído, em um cenário geral daqui para frente, por Lucas Hedges, indicado a melhor ator por sua interpretação em Boy Erased: Uma Verdade Anulada.

Surpreendentemente, a briga é acirrada entre as comédias, cuja lista endossou até mesmo o excelente momento vivido por O Retorno de Mary Poppins, que chegou aos 45 do segundo tempo com excelente repercussão e uma recente menção no TOP 10 do ano promovido pelo American Film Institute. Ainda que equivocada na classificação de gênero, a maravilhosa performance de Charlize Theron em Tully é outra preciosa lembrança da lista. Time dos bons também nas canções originais (escritas, entre outros, por Lady Gaga, Troye Sivan, Dolly Parton e Kendrick Lamar) e nos indicados a trilha sonora (incluindo a ótima trilha de Justin Hurwitz para O Primeiro Homem, drama de Damien Chazelle que, no geral, foi solenemente ignorado).

Para quem acompanha seriados, o Globo de Ouro fez a sua miscelânea habitual pontuando algumas novas temporadas de programas já consagrados (a fresquíssima segunda temporada de The Marvelous Mrs. Maisel já se qualificou para essa lista!) e outros programas que fizeram sua estreia nos últimos meses (e que mal ouvimos falar), como é o caso de Kidding, série que repete a parceria entre Jim Carrey e o diretor Michel Gondry (Brilho Eterno de Uma Mente Sem Lembranças).

Além da lista de indicados, o Globo de Ouro anunciou a criação de um novo prêmio honorário, dessa vez voltado para os profissionais de TV. “Os homenageados serão selecionados com base em suas realizações e na influência e impacto que suas carreiras trouxeram para a indústria e para o público”, adiantou Meher Tatna, presidente da Hollywood Foreign Press. O agraciado desta edição será revelado futuramente. Lembrando que o Globo de Ouro 2019 acontece no dia seis de janeiro. Confira abaixo a lista completa de indicados:

CINEMA

MELHOR FILME DRAMA
Bohemian Rhapsody

Infiltrado na Klan
Nasce Uma Estrela
Pantera Negra

Se a Rua Beale Falasse

MELHOR FILME COMÉDIA/MUSICAL
A Favorita
Green Book: O Guia
Podres de Ricos

O Retorno de Mary Poppins
Vice

MELHOR DIREÇÃO
Adam McKay (Vice)

Alfonso Cuaron (Roma)
Bradley Cooper (Nasce Uma Estrela)
Peter Farrelly (Green Book: O Guia)
Spike Lee (Infiltrado na Klan)

MELHOR ATRIZ DRAMA
Glenn Close (A Esposa)

Lady Gaga (Nasce Uma Estrela)
Nicole Kidman (O Peso do Passado)
Melissa McCarthy (Poderia Me Perdoar?)
Rosamund Pike (A Private War)

MELHOR ATOR DRAMA
Bradley Cooper (Nasce Uma Estrela)

John David Washington (Infiltrado na Klan)
Lucas Hedges (Boy Erased: Uma Verdade Anulada)
Rami Malek (Bohemian Rhapsody)
Willem Dafoe (No Portal da Eternidade)

MELHOR ATRIZ COMÉDIA/MUSICAL
Charlize Theron (Tully)

Constance Wu (Podres de Ricos)
Elsie Fisher (Oitava Série)
Emily Blunt (O Retorno de Mary Poppins)
Olivia Colman (A Favorita)

MELHOR ATOR COMÉDIA/MUSICAL
Christian Bale (Vice)

John C. Reilly (Stan & Ollie)
Lin-Manuel Miranda (O Retorno de Mary Poppins)
Robert Redford (The Old Man & the Gun)
Viggo Mortensen (Green Book: O Guia)

MELHOR ATRIZ COADJUVANTE
Amy Adams (Vice)

Claire Foy (O Primeiro Homem)
Emma Stone (A Favorita)
Rachel Weisz (A Favorita)
Regina King (Se a Rua Beale Falasse)

MELHOR ATOR COADJUVANTE
Adam Driver (Infiltrado na Klan)

Mahershala Ali (Green Book: O Guia)
Richard E. Grant (Poderia Me Perdoar?)
Sam Rockwell (Vice)
Timothee Chalamet (Querido Menino)

MELHOR ANIMAÇÃO
Homem-Aranha no Aranhaverso
Ilha de cachorros
Os Incríveis 2

Mirai
WiFi Ralph: Quebrando a internet

MELHOR CANÇÃO ORIGINAL
“All the Stars” (Pantera Negra)
“Girl in the Movies” (Dumplin’)
“Requiem for a Private War” (A Private War)
“Revelation” (Boy Erased: Uma Verdade Anulada)
“Shallow” (Nasce Uma Estrela)

MELHOR TRILHA SONORA
Ilha dos Cachorros
Um Lugar Silencioso
Pantera Negra
O Primeiro Homem
O Retorno de Mary Poppins

MELHOR FILME ESTRANGEIRO
Assunto de Família (Japão)

Cafarnaum (Líbano)
Girl (Bélgica)
Never Look Away (Alemanha)
Roma (México)

MELHOR ROTEIRO
A Favorita
Green Book: O Guia
Roma
Se a Rua Beale Falasse
Vice

SÉRIES, MINISSÉRIES E TELEFILMES

MELHOR SÉRIE DRAMA
The Americans

Bodyguard
Homecoming
Killing Eve
Pose

MELHOR SÉRIE COMÉDIA/MUSICAL
Barry
The Good Place
Kidding
The Kominsky Method
The Marvelous Mrs. Maisel

MELHOR MINISSÉRIE/TELEFILME
The Alienist

The Assassination of Gianni Versace: American Crime Story
Escape at Dannemora
Sharp Objects
A Very English Scandal

MELHOR ATRIZ EM SÉRIE DRAMA
Caitriona Balfe (Outlander)

Elisabeth Moss (The Handmaid’s Tale)
Julia Roberts (Homecoming)
Keri Russell (The Americans)
Sandra Oh (Killing Eve)

MELHOR ATRIZ EM SÉRIE COMÉDIA/MUSICAL
Alison Brie (Glow)

Candice Bergen (Murphy Brown)
Debra Messing (Will & Grace)
Kristen Bell (The Good Place)
Rachel Brosnahan (The Marvelous Mrs. Maisel)

MELHOR ATRIZ EM MINISSÉRIE/TELEFILME
Amy Adams (Sharp Objects)

Connie Britton (Dirty John)
Laura Dern (O Conto)
Patricia Arquette (Escape at Dannemora)
Regina King (Seven Seconds)

MELHOR ATOR EM SÉRIE DRAMA
Billy Porter (Pose)

Jason Bateman (Ozark)
Matthew Rhys (The Americans)
Richard Madden (Bodyguard)
Stephan James (Homecoming)

MELHOR ATOR EM SÉRIE COMÉDIA/MUSICAL
Bill Hader (Barry)

Donald Glover (Atlanta)
Jim Carrey (Kidding)
Michael Douglas (The Kominsky Method)
Sacha Baron Cohen (Who is America?)

MELHOR ATOR EM MINISSÉRIE/TELEFILME
Antonio Banderas (Genius: Picasso)

Benedict Cumberbatch (Patrick Melrose)
Daniel Bruhl (The Alieniest)
Darren Criss (The Assassination of Gianni Versace: American Crime Story)
Hugh Grant (A Very English Scandal)

MELHOR ATRIZ COADJUVANTE EM SÉRIE/MINISSÉRIE/TELEFILME
Alex Bornstein (The Marvelous Mrs. Maisel)

Patricia Clarkson (Sharp Objects)
Penelope Cruz (The Assassination of Gianni Versace: American Crime Story)
Thandie Newton (Westworld)
Yvonne Strahovski (The Handmaid’s Tale)

MELHOR ATOR COADJUVANTE EM SÉRIE/MINISSÉRIE/TELEFILME
Alan Arkin (The Kominsky Method)

Ben Whishaw (A Very English Scandal)
Edgar Ramirez (The Assassination of Gianni Versace: American Crime Story)
Henry Winkler (Barry)
Kieran Culkin (Succession)

Dez ótimos filmes que completaram dez anos de lançamento em 2018

Uma boa maneira constatar a rápida passagem do tempo é elencando quais filmes estão completando aniversário em determinado ano. E, já que entramos em dezembro, mês tradicionalmente dedicado a listas de melhores do ano e ao início da temporada de premiações, resolvi entrar nesse espírito. Em 2018, diversos filmes completaram dez anos de lançamento (aproveito para lembrar que, aqui no blog, sempre levo a estreia comercial nos cinemas brasileiros no parâmetro para definir a minha cronologia cinematográfica), entre eles, obras consagradas entre público e crítica, como Batman: O Cavaleiro das Trevas. Também tivemos o aniversário de Sangue NegroOnde os Fracos Não Têm Vez, O Escafandro e a Borboleta e Na Natureza Selvagem. Alguns chegaram a receber até uma continuação para marcar seus dez anos de lançamento, caso de Mamma Mia!, que, em 2008, considerando suas intenções e dimensões, foi um estrondoso sucesso de bilheteria. Contudo, deixo de lado esses títulos já amplamente referenciados para selecionar dez dos meus favoritos pessoais que, há exata uma década, chegavam em terras brasileiras. Quais deles também fazem parte dos queridinhos de vocês? 

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Philip Seymour Hoffman e Laura Linney brilham como dois irmãos em conflito no drama A Família Savage.

A FAMÍLIA SAVAGE, de Tamara Jenkins: Em 2018, a diretora e roteirista Tamara Jenkins finalmente voltou à ativa com Mais Uma Chance, seu primeiro filme desde o maravilhoso A Família Savage, lançado em 2008 e que reuniu uma dupla para ninguém colocar defeito: Laura Linney e Philip Seymour Hoffman (ela chegou a ser merecidamente indicada ao Oscar por seu desempenho). Muito mais do que um registro tradicional sobre dois filhos que precisam lidar com um pai doente, A Família Savage descortina o processo de envelhecimento sem qualquer firula ou maquiagem, mas o que torna esse trabalho tão humano e contundente é a relação entre os dois irmãos, ambos tão diferentes e ao mesmo tempo tão semelhantes — e por isso mesmo distantes do ponto de vista físico e emocional. Nas complexidades dos pequenos momentos e comportamentos tanto dos personagens quanto de todos nós, Jenkins cria uma história franca, colada à realidade e elevada a níveis tocantes por dois grandes atores em estado de graça.

CHEGA DE SAUDADE, de Laís Bodanzky: Por falar em histórias sobre envelhecimento, Chega de Saudade, da premiada diretora Laís Bodanzky, é outro título que contempla a temática da terceira idade e completa uma década de lançamento em 2018. O clima, entretanto, é totalmente diferente de A Família Savage: acompanhando cinco personagens frequentadores de um baile de dança em São Paulo, Chega de Saudade tem como cenário um animado salão que, em uma nova noite de música e dança, abre as portas para o seu público tão querido e fiel. Na pista e nos bastidores, os personagens amam, desejam, flertam, gargalham e choram, representando a inegável complexidade de longas histórias de vida. O elenco é um primor (Cássia Kis, Tônia Carrero, Clarisse Abujamra, Betty Faria, Stepan Nercessian), assim como a trilha compartilhada entre Elza Soares, Marku Ribas e a banda Luar de Prata que revive grandes sucessos dos salões de baile. Humano e simples como poucos diretores conseguiriam registrar.

APENAS UMA VEZ, de John Carney: Veio da Irlanda um dos romances comoventes dos últimos dez anos. Vencedor do Oscar de melhor canção original (“Falling Slowly”), Apenas Uma Vez é a perfeita síntese de como a simplicidade pode andar de mãos dadas com a emoção. Além disso, essa é uma produção que utiliza a música como elemento narrativo primordial, sem jamais reduzi-la a mero entretenimento ou curiosidade. É, afinal, por meio das canções que atravessamos as ruas de Dublin para conhecer um casal sem nome que muito se aproxima dos sonhos e dos anseios vividos por pessoas como eu e você. Apenas Uma Vez tem corpo, alma e uma coesão musical que muitos exemplares ambiciosos do gênero somente sonham em alcançar. Anos depois, o diretor John Carney viria a realizar outro drama romântico construído através da música, novamente na mesma batida de dramas cotidianos: o também adorável Mesmo Se Nada Der Certo.

Grandioso em escala e sentimento, Desejo e Reparação ainda é o ponto mais alto na carreira do diretor Joe Wright.

DESEJO E REPARAÇÃO, de Joe Wright: São raros os filmes que conseguem ser épicos em escala e intimismo, mas Desejo e Reparação é inquestionavelmente um deles. O que Joe Wright faz aqui ainda marca o auge de sua carreira: fora o apuro estético que permanece irretocável mesmo após uma década (e que provavelmente eternizará a sua áurea de clássico contemporâneo), Desejo e Reparação avança por diferentes tempos e perspectivas para falar sobre atos, consequências e suas diferentes reverberações através da culpa. No elenco, Keira Knightley e James McAvoy formam um casal como os melhores dos clássicos norte-americanos, mas é Saoirse Ronan, Romola Garai e Vanessa Regrave que roubam a cena quando dão vida à complexa Briony Tallis em diferentes fases (e, ainda que de certa forma polêmica, a personagem é capaz de passar um turbilhão de emoções ao espectador, principalmente no desfecho avassalador). Destaque ainda para a inesquecível trilha do italiano Dario Marianelli e o impressionante plano-sequência na batalha de Dunquerque.

LONGE DELA, de Sarah Polley: Sem dirigir ou atuar desde 2012, quando realizou o documentário Histórias Que Nós Contamos, Sarah Polley provou toda sua elegância, sobriedade e delicadeza como realizadora anos antes, ao lançar, em 2008, o drama Longe Dela, sua estreia na direção de longas após quarto curtas e uma breve experiência na TV. O resultado tem consistência como se fosse assinado por uma veterana: ao adaptar o conto The Bear Came Over the Mountain, de Alice Munro, Polley registra a clássica história do marido que lida com o Mal de Alzheimer da esposa, mas o relato, centrado mais na cotidianidade emocional de seus personagens do que no sofrimento trazido pela doença, propõe olhares diferenciados para uma temática já explorada extensivamente. Ao traduzir as complexidades e as transformações de um casal que compartilhou uma vida inteira juntos, Longe Dela se torna maduro e comovente por seu respeito à vida e ao quanto nos adaptamos ao longo e ao fim dela.

WALL-E, de Andrew Stanton: Foram nada menos do que seis indicações ao Oscar (e, claro, o troféu de melhor animação daquele ano), número que já sugere um prestígio raro inclusive para hoje os dias de hoje se tratando de produções com o selo Disney/Pixar, mas a verdade é que WALL-E representa mesmo um dos mais inesquecíveis momentos na carreira de todos os envolvidos no projeto. Com um emblemático personagem-título, a animação é impactante do ponto de vista visual e envolvente ao desenvolver uma trama ambiciosa que flutua entre o planeta Terra e o espaço sideral, preservando, mesmo após dez anos, a atualidade das questões tecnológicas e ambientais levantadas na época. Em suma, é uma animação inusitada e altamente criativa, exatamente no padrão das que elevaram o nome da Pixar, estúdio que hoje já não realiza exemplares semelhantes com a mesma frequência após ter sido comprado pela Disney.

Subestimado por público e crítica, Ensaio Sobre a Cegueira teve a validação do consagrado escritor José Saramago.

ENSAIO SOBRE A CEGUEIRA, de Fernando Meirelles: Da morna recepção em Cannes ao pouco apreço do público no circuito comercial, Ensaio Sobre a Cegueira teve, no entanto, a aprovação que o diretor Fernando Meirelles mais precisava: a de José Saramago, autor da obra homônima cuja adaptação era tida como impossível e que não escondeu a sua comoção ao ver seu trabalho transposto para as telas. Não concordo com as recepções medianas que Ensaio Sobre a Cegueira recebeu em seu lançamento e tenho esse filme como mais um ótimo exemplo de toda a solidez de Fernando Meirelles como realizador mesmo em terras estrangeiras. Explorando a barbárie de seres humanos que regridem para seu instinto mais primitivo após uma cegueira repentina, o relato é cru na medida exata, levando esse acertado ponto de equilíbrio dramático para a parte técnica (lembram da impactante fotografia de César Charlone?) e também para as interpretações, onde a grande Julianne Moore tem um dos desempenhos mais subestimados de toda a sua carreira.

O NEVOEIRO, de Frank Darabont: Último longa-metragem dirigido pelo prestigiado Frank Darabont (Um Sonho de LiberdadeÀ Espera de Um Milagre) até o presente momento, O Nevoeiro adapta o romance homônimo do mestre Stephen King com vigor tanto no suspense quanto nas diversas provocações suscitadas ao longo de uma história aparentemente corriqueira sobre pessoas que ficam presas em um supermercado em função de um forte nevoeiro. Para absorver o que existe de melhor do longa, é preciso compreender que o verdadeiro horror não está no que os personagens deduzem ter no lado de fora do estabelecimento, mas sim nas conturbadas e perigosas relações humanas que passam a estabelecer coletivamente em um espaço restrito. O desfecho é atordoante e a condução até lá exercita o suspense com questões cotidianas a partir de um plano mais fantástico, proporcionando momentos assustadores e que fazem emergir o pior da mente humana — e nesse sentido, a magnífica interpretação de Marcia Gay Harden dificilmente sairá da sua cabeça após a sessão.

[REC], de Jaume Balagueró e Paco Plaza: É o tipo de terror estrangeiro que o cinema norte-americano tentou copiar posteriormente, mas que, assim como tantos outros, não rendeu qualquer produção equivalente longe de sua terra nativa. Concebido na Espanha, [REC] acompanha uma repórter e um operador de câmera que, chamados para fazer a cobertura de uma situação de emergência em um grande prédio, acabam presos no local após acontecimentos misteriosos. A proposta de gravar tudo em primeira pessoa (o repórter, apesar de todos os acontecimentos possíveis, nunca desliga a câmera) parece batida, mas, na época e ainda hoje, [REC] a utilizou com uma visceralidade única, levando diversas plateias ao redor do mundo para os mais sombrios e angustiantes lugares que a nossa imaginação pode criar (pouco é de fato mostrado no longa, o que deixa basicamente tudo para a mente do espectador). Pela eletrizante viagem orquestrada, dá até para relevar uma certa implausibilidade do operador de câmera nunca desligar o equipamento mesmo nas situações mais desesperadoras.

VICKY CRISTINA BARCELONA, de Woody Allen: Um dos trabalhos mais inspirados de Woody Allen considerando tudo o que ele realizou desde o início dos anos 2000, Vicky Cristina Barcelona tem muito a encantar com as charmosas paisagens e locações espanholas. No entanto, o mais interessante do filme é explorar as decisões irresistivelmente tortas e inconscientes que tomamos quando não sabemos exatamente o que queremos para a vida. Assim são todos os personagens do longa: fascinantes por serem erráticos nessa busca incessante que alimentamos por um suposto caminho certo, quando, na verdade, irremediavelmente, todos não deixam de ser errados dependendo da perspectiva. Scarlett Johansson, Rebecca Hall e Javier Bardem desdobram tais reflexões com uma química impecável, mas é Penélope Cruz, em uma fase iluminada depois da merecida e positiva reviravolta trazida para a sua carreira por Volver, que rouba a cena. É, enfim, um momento inspirado na prolífera carreira de um diretor cuja trajetória no Cinema hoje está basicamente encerrada após a avassaladora onda do movimento #MeToo.

“Animais Fantásticos: Os Crimes de Grindelwald”: de escritora à roteirista, J.K. Rowling limita potência criativa do mundo bruxo com excessivo controle artístico

Their arrogance is a key to our victory.

Direção: David Yates

Roteiro: J.K. Rowling

Elenco: Eddie Redmayne, Johnny Depp, Jude Law, Ezra Miller, Katherine Waterston, Zoë Kravitz, Dan Fogler, Callum Turner, Alison Sudol, Claudia Kim, Kevin Guthrie, Brontis Jodorowsky

Fantastic Beasts: The Crimes of Grindelwald, EUA, 2018, Aventura, 134 minutos

Sinopse: Newt Scamander (Eddie Redmayne) reencontra os queridos amigos Tina Goldstein (Katherine Waterston), Queenie Goldstein (Alison Sudol) e Jacob Kowalski (Dan Fogler). Ele é recrutado pelo seu antigo professor em Hogwarts, Alvo Dumbledore (Jude Law), para enfrentar o terrível bruxo das trevas Gellert Grindelwald (Johnny Depp), que escapou da custódia da MACUSA (Congresso Mágico dos EUA) e reúne seguidores, dividindo o mundo entre seres de magos sangue puro e seres não-mágicos. (Adoro Cinema)

Criatividade é uma das qualidades que a escritora J.K. Rowling tem de sobra, e é impossível dizer o contrário quando qualquer espectador entra em contato, especialmente pela primeira vez, com a saga Harry Potter, um dos maiores ícones cinematográficos dos anos 2000. Por isso mesmo, é natural que a autora queira cuidar da sua galinha de ovos de ouro (a Forbes já chegou a estimar que a fortuna de Rowling tenha ultrapassado um bilhão de dólares, tornando-a mais rica do que a Rainha Elizabeth II, sua conterrânea britânica). Contudo, há uma linha muito tênue entre o zelo saudável com esse material de prestígio estratosférico e o prejudicial controle criativo por um projeto que precisa de outros olhares e interpretações para ganhar novas qualidades. Pois com Animais Fantásticos: Os Crimes de Grindelwald, Rowling está no limite de romper essa linha: se no primeiro filme dessa nova saga estrelada por Eddie Redmayne as suas limitações ao assumir o posto de roteirista absoluta da franquia já eram perceptíveis, a situação se complica por definitivo neste segundo capítulo, onde o excessivo controle criativo da autora coloca em risco todo o potencial criativo de uma história que parece se prolongar de maneira tão desnecessária e desestimulante quanto os três intermináveis capítulos de O Hobbit dirigidos por Peter Jackson.

Encarando a saga Animais Fantásticos mais como um parque de diversões destinado aos fãs incondicionais do que como um produto cinematográfico a ser entregue para o mundo, J.K. Rowling escreve a trama de Os Crimes de Grindelwald sem uma peneira cinematográfica. Isso é um grande problema porque parte do sucesso da saga Harry Potter (e de grande parte das grandes adaptações feitas para o Cinema) se deu pelo olhar compartilhado com roteiristas e diretores. Não que exista algum problema em escritores tornando-se roteiristas (autora de Garota Exemplar, Gillian Flynn foi talentosíssima ao fazer a transposição cinematográfica de seu próprio livro), mas, se o dinheiro não falar mais alto e Rowling tiver bons amigos, alguém certamente precisa avisá-la de que Animais Fantásticos tem tudo para se tornar uma dessas desestimulantes franquias que servem apenas para agradar aos fãs. Além de ser claramente conduzido com estrutura e ritmo de uma obra literária, Os Crimes de Gindelwald pouco avança com uma trama que cai no vício de plantar todo tipo de curiosidade do mundo de Harry Potter para que os fãs se divirtam isso. Em incontáveis sequências, Rowling resgata cenários, feitiços e personagens de Harry Potter para pegar os espectadores pelo afeto, o que, na prática, não acrescenta muito pouco ao que o filme tem a dizer.

Com o mérito de não ter pressa alguma ao desenvolver conflitos, Os Crimes de Grindelwald ao mesmo tempo se embola ao contar diversas histórias paralelas para, ao fim, não contar muita coisa. Com isso, Newt Scamander, o suposto protagonista da franquia, termina por se tornar tão coadjuvante quanto os outros personagens, desperdiçando assim toda a doçura que Eddie Redmayne imprime a um adorável e atípico herói e a despedaçada jornada pessoal de Credence (Ezra Miller). Menos sofisticado dramaticamente do que poderia se esperar, o roteiro ainda opta por caminhos simplistas, como na sequência em que faz determinados personagens se voltarem para o lado do mal porque, sem isso, eles não teriam mais razão para existir nos próximos capítulos da saga. Até mesmo para um livro Os Crimes de Grindelwald seria uma obra menor e pouco interessante, inclusive porque a sensação de ameaça trazida pelo personagem-título interpretado por Johnny Depp muito se assemelha a de Lorde Voldemort (Ralph Fiennes) em Harry Potter.

Frente a tudo isso, a maior surpresa de Os Crimes de Grindelwald é mesmo a aparente volta por cima de Johnny Depp, que, pelo menos na última década, interpretava todo e qualquer personagens com indiscutível descaso ou desinteresse. Aqui, ele parece ter acordado para a questionável oportunidade de ouro que lhe foi entregue: enigmático, reticente e intimidante como Grindelwald, o ator tem presença suficiente para criar um personagem que, tratando-se da composição de um intérprete, facilmente se distancia do vilão outrora vivido por Ralph Fiennes no mundo bruxo. Enquanto isso, Jude Law, que vem do melhor desempenho de sua carreira na minissérie The Young Pope, também é uma boa adesão ao elenco, mesmo que seja um tanto difícil acreditar que seu Alvo Dumbledore possa ter tido qualquer tipo de ligação próxima (inclusive afetiva!) com o agora temido antagonista. Em nome da interessante composição dessa dupla, é justo esperar que Animais Fantásticos consiga se oxigenar daqui para frente, ainda que isso não pareça tão provável, uma vez que não só J.K. Rowling segue no comando no roteiro como o diretor David Yates, que assumiu o cargo de direção desde Harry Potter e a Ordem da Fênix, repetirá a dose atrás das câmeras (e ele já vem liderando essa nova saga sem qualquer inovação). Como um grande fã de Harry Potter fico sempre na torcida, mas, antes de tudo, como um cinéfilo incondicional, já não me sinto estimulado esperar maiores comoções com Animais Fantásticos depois de Os Crimes de Grindelwald.

“Bohemian Rhapsody”: mesmo com fórmula tradicional, cinebiografia comove por capturar a essência do Queen com muita música e energia

What on earth is it about? Scaramouche? Galileo? Beelzebub?

Direção: Bryan Singer

Roteiro: Anthony McCarten, baseado em história própria e de Peter Morgan

Elenco: Rami Malek, Lucy Boynton, Gwilym Lee, Ben Hardy, Joseph Mazzello, Aidan Gillen, Allen Leech, Tom Hollander, Mike Myers, Aaron McCusker, Meneka Das, Ace Bhatti

EUA/Reino Unido, 2018, Drama, 134 minutos

Sinopse: Freddie Mercury (Rami Malek) e seus companheiros Brian May (Gwilyn Lee), Roger Taylor (Ben Hardy) e John Deacon (Joseph Mazzello) mudam o mundo da música para sempre ao formar a banda Queen, durante a década de 1970. Porém, quando o estilo de vida extravagante de Mercury começa a sair do controle, a banda tem que enfrentar o desafio de conciliar a fama e o sucesso com suas vidas pessoais cada vez mais complicadas. (Adoro Cinema)

Quantas cinebiografias encomendadas e empacotadas para o grande público você já viu na vida? Por encomendadas e empacotadas me refiro àquelas com início, meio e fim bem pontuados e que tornam palatáveis, em forma e conteúdo, a vida muitas vezes conturbadas de seus respectivos biografados. Se você chutar uma árvore, caem cerca de cinco por ano, enquanto títulos elegantíssimos como Capote, A Rainha e Steve Jobs , surgem a cada dois ou três anos. Tão incomuns quanto essas cinebiografias mais sofisticadas em direção e roteiro são aquelas que, mesmo formais e altamente previsíveis, conseguem transpôr para a tela, com alma e dignidade, a força-motriz dos personagens reais retratados na tela. É assim com Bohemian Rhapsody, um filme que supera as suas claras limitações criativas para, dentro do possível, ajustar certos vícios e se tornar uma experiência viva, espirituosa e até mesmo vibrante. 

Difícil seria não alcançar esse status quando estamos falando do Queen, uma das bandas mais originais e viscerais de que se tem notícia até os dias de hoje. Bohemian Rhapsody, em termos cinematográficos, não se equivale à revolução trazida pelo grupo no meio musical, mas sabe exatamente o que precisa mostrar para justificar as razões que levaram essa história a ser contada na tela grande. A passagem que melhor representa isso é aquela em que o Queen, já surfando na onda de certo sucesso, enfrenta o produtor de sua então gravadora para convencê-lo de que a canção Bohemian Rhapsody, mesmo com seis minutos de duração e um estilo de difícil definição, deveria ser o carro-chefe da promoção do mais recente álbum. O produtor não aceita de jeito nenhum, e os garotos, extremamente confiantes do produto diferenciado que têm em mãos, demitem a gravadora, provando que nada era mais importantante para cada um deles do que a total fidelidade ao trabalho que desenvolviam com tanta convicção criativa e artística.

Ao longo do filme, são mostrados outros tantos momentos que evidenciam a singularidade do Queen. A própria gravação da canção-título é uma das sequências mais hilariantes por explorar os métodos poucos convencionais adotados pelo grupo na criação de canções que desafiavam acomodados padrões da indústria musical. Compreendemos a originalidade do Queen por essa boa curadoria de acontecimentos que o filme faz, ainda que, em uma grande quantidade de vezes, o roteiro escrito por Anthony McCarten (A Teoria de TudoO Destino de Uma Nação) ajuste datas e fatos para causar maior impacto dramático, decisão que tem causado inúmeras controvérsias mundo afora — e, sinceramente, só posso ver esse descontentamento como equivalentes às bobas reclamações de quem implica com as adaptações que um livro eventualmente sofre ao ser transposto para o Cinema. Fatos podem ser ajustados sim, desde que se mantenha a honestidade. A total fidelidade aos fatos deve ficar com os documentários.

Ainda fazendo uma comparação com outras cinebiografias, em especial aquelas voltadas a relatos de personalidades musicais, Bohemian Rhapsody é mais madura porque limpa arestas características do gênero. Por mais que o longa seja essencialmente sobre o vocalista Freddie Mercury, o roteiro faz questão de jamais perder de vista os outros integrantes da banda, que, em outras obras, costumam ser reduzidos a meros figurantes que somem após o sucesso isolado do protagonista. Em Bohemian Rhapsody, Mercury não é ninguém sem seus companheiros e vice-versa. É por situar o grupo de forma tão central na trama que o filme de Bryan Singer ganha mais força musicalmente: o repertório do Queen já seria entusiasmante por si só, mas há uma importante vontade de situar a origem da maior parte das canções, tratando com cuidado um um legado musical que não surge na tela apenas para que o longa contemple o maior número de hits possíveis.

É fato, entretanto, que Bohemian Rhapsody não tem maiores profundidades do ponto de vista dramatúrgico, incluindo em pontos cruciais da carreira da banda e de Freddie Mercury. A homossexualidade do protagonista é, no geral, bem explorada, mas não evita leituras simplistas, como no recorte em que Mercury se afasta de tudo e de todos porque se sente isolado (os outros integrantes da banda casaram, tiveram filhos e constituíram famílias), depositando todas as suas fichas em um namorado que, desde a primeira aparição, sabemos que não é flor que se cheire e que, claro, será responsável por vários ruídos de comunicação na carreira do cantor. A escolha de não tornar a descoberta do HIV uma via crucis apelativa é um ponto a ser considerado em Bohemian Rhapsody (quatro em cinco longas não resistiram à ideia de encenar os pormenores da doença apenas para fazer o protagonista passar por transformações físicas), o que, por outro lado, acaba de certa maneira se tornando apenas um subterfúgio dramático para que o personagem rapidamente remende as pontas deixadas soltas em sua vida pessoal e profissional, como a marcante conexão afetiva que Mercury viveu durante anos com uma mulher e que é mostrada sem muita consistência pelo roteiro. 

Na pele de Mercury, Rami Malek leva certo tempo para se empoderar do ícone que está incorporando: na primeira metade, o ator é quase vítima da caracterização, principalmente porque rivaliza com uma prótese dentária medonha que é o centro das atenções nessa fase em que o vocalista é jovem e ainda não assumiu o visual que viria a lhe tornar icônico. Por outro lado, quando surge de bigode e cabelo curto, Malek entra naquele fascinante transe em que o ator some diante do personagem. E é louco quem diz o contrário ao assistir à inesquecível sequência final, onde o diretor Bryan Singer reproduz, quase na íntegra, o icônico show do Queen no Live Aid, considerada por muitos como uma das mais icônicas performances musicais de todos os tempos. É pura energia e emoção por Malek, pela ambição do projeto em retratar tal momento e porque encerra Bohemian Rhapsody com grandiosidade e potência, fazendo jus à grandiosidade e à potência de um grupo musical cujo repertório musical surge intensamente celebrado. É a síntese perfeita do que existe de mais precioso nesse filme imperfeito e formal, mas vibrante pela clara admiração que nutre por seus biografados.

Três atores, três filmes… com Simone Zuccolotto

Uma das principais vozes quando o assunto é a divulgação do cinema brasileiro, a jornalista Simone Zuccolotto entrou para o célebre Canal Brasil no ano de 2003. Ao longo desses 15 anos de atuação na emissora comandada por Paulo Mendonça, já esteve à frente e atrás das câmeras de séries jornalísticas como A Mulher no Cinema, Nas Sombas do Medo, Rir é o Melhor Remédio e De Semelhanças e Coincidências. Hoje, ela também comanda o Cinejornal, que faz um balanço semanal dos principais eventos de Cinema no Brasil, além, claro, de mostrar os bastidores de inúmeras produções realizadas em território nacional com entrevistas exclusivas. Nessa caminhada, não poderia faltar, claro, a cobertura de festivais Brasil afora, incluindo o Festival de Cinema de Gramado, onde já a encontrei diversas vezes, seja no Tapete Vermelho, nos bastidores ou na própria sala de cinema. Por isso mesmo,  dada toda essa experiência e conhecimento, é uma imensa satisfação recebê-la aqui na coluna, especialmente quando ela comenta atuações de três atrizes de talento gigante e inquestionável. E uma curiosidade: com a menção da Simone, o desempenho de Gena Rowlands em Uma Mulher Sob Influência empata com o de Kate Winslet em Brilho Eterno de Uma Mente Sem Lembrança como o mais lembrado entre as atrizes, com três citações cada.

Gena Rowlands (Uma Mulher Sob Influência)
Aos 88 anos, a atriz americana tem uma carreira profícua no cinema e em séries de TV, mas foi a parceria com o marido John Cassavetes que lhe rendeu as melhores atuações. Filmes como Noite de Estreia e Gloria, mas especialmente Uma Mulher Sob Influência deixaram marcado o turbilhão de emoções que cabe nessa atriz. Por esse filme, inclusive, ela recebeu o Globo de Ouro de melhor atriz de drama e foi indicada ao Oscar. Inicialmente escrito como uma peça de teatro, o texto, a pedido de Gena, acabou virando cinema, no melhor estilo Cassavetes, conhecido como o “autor do improviso” ou o expoente do “cinéma vérité” (atribuído a Jean Rouch). A levada experimental (mais radical do que as convenções tanto dramáticas quanto narrativas), a câmera na mão, a utilização de luz natural e, sobretudo a coautoria oferecida/exigida dos atores… E é aí que surfa Gena, na história da “problemática” dona de casa de classe média baixa americana, mãe de três filhos e casada com um funcionário de estaleiro. O tom intenso, os nervos à flor da pele e a sensação de um mundo prestes a ruir são radiografados pela atriz que, na pele de Mabel, passa por um transe, com inúmeras camadas sutis que retratam a loucura de uma forma assustadora (destaque para a cena do almoço com os parceiros de trabalho do marido).

Charlotte Gainsbourg (Ninfomaníaca)
A parceria de Charlotte com Lars Von Trier começou em Anticristo (2009) e seguiu com Melancolia (2011). No caso de Ninfomaníaca, a atriz disse que aceitou o convite sem nem ler o roteiro, o que atesta uma cumplicidade nos assuntos e na maneira como o diretor dinamarquês faz seus filmes. Joe é uma mulher viciada em sexo e, por conta da obsessão, vai às ultimas consequências no assunto. Como é comum no cinema de Trier, não há limites e, quando há, eles os testa o tempo inteiro. É disso que Gainsbourg gosta: de personagens intensos e desequilibrados, à beira da insanidade – e, de fato, ela mergulha nessas performances, não necessariamente para se perder em neuroses, mas parece que para sair da zona de conforto e testar a si mesma. A atriz, filha de Serge Gainsbourg e Jane Birkin, se joga, e sem rede. Em Ninfomaníaca usou prótese de vagina, fez cenas de sadomasoquismo humilhantes e constrangedoras, e o que resulta dessa parceria é uma interpretação que imprime na tela uma disponibilidade de alguém que nasceu pra ser testada e, em minha opinião, aprovada. E, além de tudo, a danada canta que é uma beleza!

Romy Schneider (L’Enfer / O Inferno de Henri-Georges Clouzot)
A atriz austríaca ficou conhecida pela personagem Sissi na trilogia Sissi / Sissi, a Imperatriz / Sissi e Seu Destino, dirigida por Ernst Marischka, entre 1955 e 1957; foi indicada ao Globo de Ouro por O Cardeal, de Otto Preminger; ganhou dois César por O Importante é Amar, de Andrzej Zulawski, e Uma História Simples, de Claude Sautet; trabalhou com nomes como Luchino Visconti, Orson Welles, Costa-Grava e teve uma vida pessoal trágica (a morte precoce do filho, o suicídio do ex-marido, traições). Tudo isso a transformou num mito que morreu aos 43 anos, mas deixou interpretações inesquecíveis. Elegi sua atuação em L’Enfer, de Henri-Georges Clouzot (realizador dos excelentes O Salário do Medo e As Diabólicas), filme inacabado que virou assunto do documentário O Inferno de Henri-Georges Clouzot, de Serge Bromberg e Ruxandra Medrea. Do roteiro, uma delirante história de ciúme, pouco se vê, mas as imagens recuperadas – cenas e os flagrantes de testes de luz, figurino e maquiagem – embora avulsas e costuradas com depoimentos de colaboradores, não perdem a magnitude da interpretação de Schneider, sedutora, brincalhona, forte, leve e livre, e ao mesmo tempo amarrada na técnica e na obsessão de Clouzot. Mais do que isso, deixam uma sensação de quão avassaladora teria sido o desempenho de Romy. P.S. – Destaque para dois momentos: a cena que a atriz brinca com um brinquedo de mola que vai passeando pelo seu corpo e quando ela se diverte com uma taça de champagne.

“Nasce Uma Estrela”: estreia de Bradley Cooper como diretor ganha em sinceridade, mas faz mais do mesmo em comparação a títulos semelhantes

I think you might be a songwriter.

Direção: Bradley Cooper

Roteiro: Bradley Cooper, Eric Roth e Will Fetters, baseado na história Robert Carson e William A. Wellmann, e nos roteiros dos filmes homônimos de 1954 e 1976, escritos respectivamente por Moss Hart e Frank Pierson, Joan Didion e John Gregory Dunne

Elenco: Bradley Cooper, Lady Gaga, Sam Elliott, Andrew Dice Clay, Rafi Gavron, Anthony Ramos, Dave Chappelle, Marlon Williams, Brandi Carlile, Michael D. Roberts, Ron Rifkin, Michael Harney, Rebecca Field

A Star is Born, EUA, 2018, Drama, 136 minutos

Sinopse: Jackson Maine (Bradley Cooper) é um cantor no auge da fama. Um dia, após deixar uma apresentação, ele para em um bar para beber algo. É quando conhece Ally (Lady Gaga), uma insegura cantora que ganha a vida trabalhando em um restaurante. Jackson se encanta pela mulher e seu talento, decidindo acolhê-la debaixo de suas asas. Ao mesmo tempo em que Ally ascende ao estrelato, Jackson vive uma crise pessoal e profissional devido aos problemas com o álcool. (Adoro Cinema)

Originalmente um projeto do veterano Clint Eastwood a ser estrelado por Beyoncé, Nasce Uma Estrela, em sua quarta versão para as telas, inevitavelmente puxa à memória, somente nos últimos anos, vários títulos de diferentes nacionalidades que contam basicamente a mesmíssima história, como o ótimo Johnny & June, também sobre a relação entre dois músicos minada pelo alcoolismo de um deles, ou até mesmo o poderoso Alabama Monroe, longa belga sobre um casal de cantores que, entre a música, o amor e a tragédia, são esmagados pela dura realidade de um relacionamento que, no final das contas, parece não ser destinado a dar certo. Não é só por ser a quarta versão de uma mesma história que Nasce Uma Estrela parece ser mais do mesmo, mas também por lembrar uma infinidade de títulos semelhantes (e superiores). Ao mesmo tempo, você pode perguntar: a estreia de Bradley Cooper precisava mesmo ter algo de novo a dizer? Bom, a resposta para essa questão dá a medida do quanto você embarcará ou não nessa obra que vem surpreendendo pela ótima recepção acumulada desde as suas primeiras exibições mundiais e que já tem sido cotada para receber uma boa quantidade de indicações ao Oscar.

Há, sem dúvida, o fator curiosidade que já garante uns bons trocados para o estúdio. Afinal, Bradley Cooper, que estreia agora atrás das câmeras, é um bom diretor? E Lady Gaga dá conta do recado como atriz de Cinema? É o tipo de filme-evento que, independente do que se diz por aí, você verá para tirar as suas próprias conclusões. Considerando as duas perguntas, o que se conclui é que Cooper pode até não ser o diretor mais sofisticado, mas é sincero e convicto quanto aquilo que deseja fazer. Nasce Uma Estrela, mesmo redundante no tipo de história que conta, não tenta dar um passo maior do que a própria perna, assumindo, sem vergonha alguma, a sua proposta de não ser uma obra de maiores pretensões. Ponto, portanto, para Cooper, que em nenhum momento usa a câmera com vaidade, o que seria muito tentador por ele também ser o real protagonista de Nasce Uma Estrela. Aliás, como ator, Bradley é melhor ainda: talvez até ciente do papel batido, ele não cria uma caricatura de seu Jackson Maine, inclusive porque, em mais uma consciência colaborativa, sabe que a sua construção de personagem depende da ótima química que estabelece com Lady Gaga, a agora “cantriz” de Cinema que incendeia a tela toda a vez que canta e que se esforça a cada cena como intérprete, mas que tem suas limitações e que jamais consegue se equiparar ao colega.

A partir desses aspectos, Nasce Uma Estrela tem momentos que podem, de fato, validar o excelente status que vem alcançando em suas projeções mundo afora. Um exemplo real disso é a cena onde Cooper e Gaga cantam pela primeira vez Shallow para uma multidão: não só a cantora é de uma talento vocal absurdo como o momento registra emocionalmente a sintonia entre dois personagens perdidos e desiludidos que encontram um no outro uma razão para sorrir e seguir em frente. O problema é que o filme dura 2h30 e, nesse meio tempo, pouco vibra como na cena citada. Escrito por Cooper junto à dupla Eric Roth e Will Feters, o roteiro é o maior problema de Nasce Uma Estrela por cair em armadilhas óbvias, como a de muitas vezes ter música demais e histórias de menos. Entre uma canção e outra, um conflito cai de para-quedas para dar uma movimentada na trama ao mesmo tempo em que, logo em seguida, depois de uma nova apresentação musical, já é solucionado. A falta de uma construção sólida de dilemas em detrimento da música dilui o impacto dos desdobramentos dramáticos e românticos de um filme que, no frigir dos ovos, depende da química de seus protagonistas para segurar uma vivacidade que o roteiro não consegue emanar.

Da metade da projeção em diante, Nasce Uma Estrela muda um pouco a pegada ao transferir boa parte da sua narrativa para a perspectiva de Ally (Gaga) e sua escalada rumo ao tão sonhado sucesso. Os problemas antes pontualmente diagnosticados no roteiro agora se tornam amplos e evidentes: com menos música, as fragilidades emergem com mais facilidade, impulsionadas por uma inegável falta de ritmo. São rasas as saídas que Cooper, Roth e Fetter encontram para minar a relação do casal principal: a cena passada no Grammy, por exemplo, parece produzida por uma novela da Globo tamanha a implausibilidade. Nasce Uma Estrela ainda tenta fazer uma crítica à indústria pop, mas como encontrar alguma profundidade se tudo se resume a um produtor unidimensional cuja única missão é fazer todo tipo de exigência comercial para desconstruir a verdadeira personalidade de Ally? São tentativas válidas no sentido de tornar contemporânea a refilmagem de uma obra encenada pela primeira vez nos anos 1930, mas, na prática, tais circunstâncias não surgem orgânicas, e mais soam como meras ferramentas encontradas pelo roteiro para bagunçar um pouquinho mais a vida do casal, como se o centro de todo o drama fosse o que os fatos fazem com eles e não como cada um administra o peso que a vida joga em suas costas.

Nasce Uma Estrela se sustenta comercialmente e goza de imenso hype pela força do estrelato de Lady Gaga, uma cantora que estourou como ícone pop e que, aos poucos, foi reinventando e pluralizando sua carreira, hoje também marcada por criações e colaborações para o country e para o jazz. Gaga é uma artista nata, fato comprovado inclusive por suas belíssimas participações no Oscar até aqui, em especial aquela em que ela homenageou A Noviça Rebelde, dando voz a clássicos desse inesquecível musical estrelado pela grande Julie Andrews. Cito esse momento porque ele é uma prova cabal do poder cênico e vocal da cantora, que poderia facilmente trilhar uma carreira na Broadway (e é difícil entender como isso ainda não aconteceu!). Já na tela grande, Gaga encanta toda vez que canta, além de ser a base do sucesso conquistado pelo filme, o que não quer dizer que a sua forte presença seja o suficiente para alçar o longa ao status de emoção e narrativa sofisticada que público e crítica vêm lhe atribuindo. Até porque não custava Nasce Uma Estrela ser um tantinho menos previsível e brega para despertar, pelo menos, emoções que já não tenhamos vivido em outros projetos de temáticas hiper semelhantes.

“O Primeiro Homem”: sem narrativa musical e roteiro de autoria própria, Damien Chazelle pouco impressiona em um terreno atípico na sua carreira

Your dad’s going to the Moon.

Direção: Damien Chazelle

Roteiro: Josh Singer, baseado no livro “First Man: The Life of Neil A. Armstrong”, de James R. Hansen

Elenco: Ryan Gosling, Claire Foy, Kyle Chandler, Christopher Abbott, Pablo Schreiber, Ciarán Hinds, Ethan Embry, Jason Clarke, Corey Stoll, Shea Whigham, Patrick Fugit, Lukas Haas

First Man, EUA, 2018, Drama, 141 minutos

Sinopse: A vida do astronauta norte-americano Neil Armstrong (Ryan Gosling) e sua jornada para se tornar o primeiro homem a andar na Lua. Os sacrifícios e custos de Neil e toda uma nação durante uma das mais perigosas missões na história das viagens espaciais. (Adoro Cinema)

O Primeiro Homem não deixa de ser um terreno desconhecido para Damien Chazelle, diretor que vem trilhando uma carreira exitosa no Cinema com títulos premiados como Whiplash: Em Busca da PerfeiçãoLa La Land: Cantando Estações. É de certa forma desconhecido porque, pela primeira vez, Chazelle tanto não dirige um roteiro de autoria própria quanto deixa de lado qualquer tipo de narrativa musical, característica que permeou sua filmografia desde a estreia com o longa Guy and Madeline on a Park Bench. Somente o cineasta pode dizer se tais mudanças de alguma forma afetaram partes do processo criativo, mas, como espectador, é possível aceitar a teoria com alguma convicção, pois é frustrante ver um filme inegavelmente bem dirigido ser limitado por um roteiro morno e que jamais se equivale ao imenso imaginário despertado pela chegada dos astronautas norte-americanos à Lua. 

Originalmente um projeto destinado ao veterano Clint Eastwood, O Primeiro Homem traz Steven Spielberg na produção executiva, o que tem sido utilizado como grande atrativo em manchetes de portais e em materiais de divulgação. Na verdade, não passa de puro chamarisco, já que o longa de Chazelle não tenta se equivaler ou emular o terreno de ficção que Spielberg tanto ajudou a criar e a popularizar ao longo das décadas. Para ser justo, o filme é, na realidade, um relato espacial mais íntimo, propondo uma série de contrastes entre a vida cotidiana na Terra e as dimensões infinitas do espaço sideral. Para isso, o roteiro escrito por John Singer (The Post: A Guerra SecretaSpotlight: Segredos Revelados) se afasta do ícone Neil Armstrong (Ryan Gosling) para tratá-lo como um homem comum que, após passar por uma dolorosa perda familiar, encontra-se deslocado junto à família e aos amigos. Exercer a profissão, portanto, nunca fez tanto sentido para Armstrong: viajar ao espaço é, antes de qualquer coisa, um processo pessoal e uma fuga íntima dessa vida bagunçada e dolorosa na Terra.

Considerando o todo, é justo dizer que O Primeiro Homem funciona por explorar o plano humano em meio a cenários intergaláticos (a sequência que mostra a chegada de Neil à Lua é poderosa porque mostra o quanto nós, seres humanos, somos realmente insignificantes aqui na Terra ou em qualquer ponto do universo). No entanto, o mesmo não se aplica para uma visão mais microscópica do roteiro, que é quase banal na dramatização cotidiana da vida do protagonista. A própria perda familiar que acontece na arrancada da história e motiva boa parte das decisões do personagem é resgatada pontualmente, como se fosse apenas uma forma de encorpar o combustível dramático do filme. Outro aspecto raso a ser considerado é a participação da esposa de Armstrong, vivida por Claire Foy e aqui traduzida como a clássica dona-de-casa que segura a barra, os destemperos e a ausência de um marido que abraça o trabalho ao invés da família em um momento de grande confusão emocional. Por sorte, Foy é boa atriz e muito maior do que o papel que lhe foi proporcionado.

À parte o roteiro morno, que pouco se esmera em curiosidade ou criatividade ao se infiltrar nas pesquisas e simulações da NASA para chegar à Lua, a maior limitação de O Primeiro Homem era realmente difícil de prever: Ryan Gosling. Um dos atores mais queridos de sua geração, Gosling também é um dos mais versáteis (veja ou relembre A Garota IdealDriveNamorados Para SempreO Lugar Onde Tudo Termina Amor a Toda Prova para comprovar), e por isso mesmo impressiona a sua falta de presença como Neil Armstrong. Mirando na interpretação econômica ou no chamado minimalismo, o ator acerta na apatia, sem dar as merecidas dimensões para as pequenas ou grandes complexidades vividas por um personagem que não sabe muito bem onde se sente com os pés mais firmes no chão. Além da falta de tempero do roteiro, O Primeiro Homem carece de um protagonista marcante e que, principalmente, desperte algum tipo de torcida.

Transcorridos cinco anos entre o lançamento de Gravidade e agora o de O Primeiro Homem, conclui-se que a febre de filmes ambientados no espaço ainda não resultou em nenhuma obra capaz de se equiparar à ficção dirigida pelo mexicano Alfonso Cuarón em termos de qualidade. Não que elas tenham essa obrigação, mas, dada a lembrança ainda intacta de uma obra que redefiniu a recente safra das obras do gênero, a comparação segue inevitável. Damien Chazelle, que reúne aqui praticamente os mesmos colaboradores de WhiplashLa La Land, faz de sua incursão espacial uma experiência sólida sob a perspectiva técnica e sensorial, evidenciando o contraponto com uma história que, dessa vez sem a sua assinatura no roteiro, não corresponde à dimensão que o diretor se propõe a traduzir em imagens. Coincidência ou não, Chazelle já pavimenta um caminho de retorno às origens: atualmente, ele está em plena produção de The Eddy, uma série dramática encomendada pela Netflix onde a música se apresenta mais uma vez como epicentro narrativo. Dito isso, é de se perguntar mais uma vez: teria sido O Primeiro Homem um rápido parênteses em sua carreira?

O Cinema diz: #elenão (participação no blog Classe de Cinema)

Murilo Benício e Luciana Paes, protagonistas de O Animal Cordial: através do horror, filme de Gabriela Amaral Almeida radiografa muitas das agruras políticas e sociais do Brasil atual.

Recentemente, fui convidado pelo Yuri Célico, do blog Classe de Cinema, a participar da série “O Cinema diz: #elenão”. A ideia do projeto é trazer convidados que escrevam sobre um filme que converse com a nossa situação política, no intuito de refletir e ilustrar os riscos que estamos correndo com um certo presidenciável que representa sérios riscos à democracia e que tanto dissemina ódio e preconceito Brasil afora. Ao receber o convite do Yuri, constatei que tenho visto mais filmes brasileiros do que estrangeiros nos últimos anos. Parando para pensar nas razões que me levaram a essa nova estatística, percebo que, sim, o cinema brasileiro tem crescido em quantidade e pluralidade, mas o que mais tem me fascinado nessa recente safra é o número de produções que radiografam determinados momentos e condições atuais do nosso Brasil. Por isso mesmo, escolhi para a minha participação O Animal Cordial, uma obra brasileira, que, em formato, temática e gênero, é um grito por #elenão, escancarando muitas das feridas abertas do Brasil em que vivemos. E o que considero mais brilhante no filme é transpor essas cicatrizes para o plano do horror. O Animal Cordial faz jus à clássica definição de que a realidade pode ser muito mais aterrorizante que a ficção. Abaixo eu reproduzo as razões que elenquei no Classe de Cinema!

1 – É dirigido por uma mulher em um gênero essencialmente dominado por homens
Segundo dados da ANCINE, apenas 19,7% dos 142 filmes brasileiros lançados comercialmente em 2016 levam a assinatura de mulheres. Tendo apenas isso em vista, O Animal Cordial já seria um caso a ser notado. No entanto, se levarmos em consideração que essa é uma chamada obra de “gênero”, a situação é ainda mais rara. Afinal, quantos filmes de horror dirigidos por mulheres você conhece, inclusive em uma perspectiva mundial? O longa é mesmo um ponto fora da curva e, por que não, um (delicioso) atrevimento: ora, como assim uma mulher tem o topete de dirigir um filme de horror? Pois Gabriela Amaral Almeida tem mesmo, e isso é incrível, já que O Animal Cordial coloca na tela discussões que as produções brasileiras, em sua maioria masculina, raramente ousariam colocar.

2 – Utiliza o terror como metáfora social
As doses de sangue são cavalares. O pânico é constante. Os personagens são imprevisíveis. Mas quer saber o que incomoda mesmo em O Animal Cordial? É o fato de tanto horror representar fielmente os nossos tempos, quebrando as convenções do gênero para, sim, ser um angustiante slasher, mas, também para se tornar, a cada personagem, a cada reviravolta, a cada diálogo, um mosaico sobre as agruras que atingem a sociedade brasileira. Sempre considerei os melhores filmes de horror aqueles que se utilizam das ferramentas do gênero para falar sobre questões humanas, íntimas ou sociais. E, se você presta a mínima atenção no Brasil que está aí, verá que o sangue que escorre no longa é, na verdade, o de um país em plena convulsão.

3 – Mostra o autoritarismo e o abuso de poder no ambiente de trabalho
Vejam de onde parte O Animal Cordial: após um longo dia de trabalho em um restaurante, o chefe decide manter os funcionários além do expediente porque mais dois ou três clientes chegaram ao estabelecimento que já deveria estar fechado. Os funcionários reclamam. O chefe não ouve. Manda quem pode, obedece quem precisa. Logo mais, um acontecimento inesperado vira o restaurante de pernas para o ar, mas já no início da projeção você percebe as discussões de um roteiro super contemporâneo: em tempos que as taxas de desemprego crescem e que trabalhamos o dobro para pagar o mesmo custo de vida que tínhamos até pouco tempo atrás, parece não haver muita solução a não ser entrar no sistema e aceitar as cada vez mais terríveis condições de trabalho para conseguir pagar as contas, aguentando até mesmo os surtos autoritários de um chefe que, com os empregados na palma da mão, faz questão de mostrar quem é dono e quem é empregado.

4 – Lembra que falta de educação é coisa de gente rica
Diria a já eterna Clara de Sonia Braga em Aquarius que falta de educação não é coisa de gente pobre, e sim de gente rica que acredita que dinheiro define caráter. Verdade. E, quando a personagem de Camila Morgado entra no restaurante de O Animal Cordial  bem vestida, maquiada e acompanhada do marido, logo se percebe isso: na maneira como não dirige o olhar à atendente, como faz seu pedido praticamente questionando o entendimento da garçonete em relação ao que é servido e até mesmo na postura com que se coloca em uma mesa de jantar, ela é a afiadíssima na representação daquela parte elitista da população que, entre outras coisas, acredita que, por pagar um serviço, está acima de quem o presta. Na prática diária, aplicam o que defendem na política que acreditam ser a melhor para o país: exclusão e indiferença, especialmente em relação a quem não se equipara ao seu alto padrão de vida.

5 – Renega os estereótipos femininos dos filmes de horror
Pense nos filmes de horror que você já viu. Na maioria deles, provavelmente as figuras femininas têm pouca influência. Ou pior: surgem apenas com pouca roupa para morrer de maneiras sádicas ou voyeurísticas. Pois O Animal Cordial desconstrói tudo isso. O personagem vivido por Murilo Benício pode ditar boa parte dos acontecimentos da trama, mas é a figura de Luciana Paes que toma as rédeas do filme. Muitos dos desdobramentos são conduzidos por ela, inclusive a única cena de sexo onde é a mulher quem comanda cada centímetro de uma poderosíssima interação sexual. Sem idealizações ou estereótipos, Luciana, como a atriz gigante que é, dá ainda mais intensidade e complexidade a uma protagonista que subverte o que o gênero costuma fazer com o sexo feminino, tornando-o peça decisiva de uma trama que não faria o menor sentido sem ele.

6 – Entrega ao personagem LGBTQI+ a bússola moral da trama
Normalmente retratados como mero alívio cômico ou figuras cujos dilemas se resumem à questão da sexualidade, os personagens LGBTQI+ também ganham nova roupagem em O Animal Cordial. À parte o fato de Irandhir Santos ser um grande ator, a construção de seu cozinheiro de gênero fluido o coloca como a única pessoa verdadeiramente sã e com alguma bússola moral dentro do rico mosaico construído pelo roteiro. Capaz de racionalizar situações sem jamais recorrer a escolhas ou instintos primitivos, o cozinheiro é a voz da razão em um ambiente onde todos, anestesiados pelo pânico, só conseguem expor o lado mais sombrio de suas naturezas. Há um universo dentro de cada olhar e de cada decisão tomada pelo personagem de Irandhir, que, mesmo sendo um coadjuvante, consegue, junto ao material que lhe é dado, construir um tocante background para o cozinheiro e para tudo o que ele representa.

7 – Defende a ideia de que a pior violência é, na verdade, a emocional
Em um filme com expressivas doses de sangue fatalidades, Gabriela Amaral Almeida propõe que a maior violência não é a física, e sim outras que eu e você vivemos ou presenciamos diariamente no cotidiano. Já falei sobre a forma como a elitista passiva-agressiva de Camila Morgado despreza a garçonete do restaurante. No entanto, há outro momento altamente simbólico: aquele em que Irandhir Santos tem seus cabelos cortados. A cena é dolorosa porque representa, mais uma vez, o ódio gratuito e infundado à uma minoria que precisa lutar diariamente pela aceitação de sua identidade na vida e no trabalho. É golpe duríssimo ver uma identidade julgada e agredida pela sociedade que, sabe-se lá o porquê, tanto se incomoda com o fato do próximo ser simplesmente quem é. Muito mais do que qualquer sangue escorrendo pelas paredes após o disparo certeiro de uma arma.

8 – Alerta para o perigo da paixão e do fanatismo
Secretamente, uma personagem de O Animal Cordial está apaixonada. E, em nome da paixão e do desejo de ser notada, toma decisões que, em um dia qualquer de sua existência, não tomaria. Essa personagem também é capaz de se adaptar à personalidade do amado, frequentemente se anulando para apenas agradá-lo. Em determinado ponto, enfim, também não há mais problema em cometer crimes em nome do amor. Paixão e fanatismo podem muito bem caminhar juntos, e O Animal Cordial alerta para essa linha tênue, utilizando, claro, a metáfora do horror. É uma representação assombrosa do período polarizado que vivemos no Brasil, quando, a todo custo, movimentos e militâncias rompem as barreiras do bom senso moral e ético para atacar o oponente e defender cegamente qualquer ídolo que julguem digno de veneração.

9 – Retrata a busca pelo protagonismo em uma sociedade de winners
O que a vida costuma nos exigir é o seguinte: você se torna alguém ou, então, nada vale a pena. E ser alguém pode se resumir a ser o dono de um estabelecimento de respeito. Também pode se resumir a algum tipo de reconhecimento por parte de “superiores”. Ou, enfim, pode ser também a vontade de ser protagonista de sua própria vida. Os personagens de Murilo Benício e Luciana Paes englobam tudo isso, cada um à sua maneira. Gosto especialmente dela, que, garçonete tratada com descaso pelo chefe, faz o que é preciso para ter algum tipo de importância dentro do restaurante onde trabalha ou que toma decisões radicais para sair do status de mulher comum e pouco desejada para, enfim, ser vista como uma figura influente, atraente e, por que, não temida. Em uma sociedade que tanto festeja os winners, os personagens de O Animal Cordial caem mais um pouco na escuridão ao serem movidos por essa pressão sócio-cultural.

10 – Reforça a falência da dita masculinidade
Murilo Benício dá vida à figura masculina central de O Animal Cordial. No entanto, o personagem é, no fundo, um homem falido em reputação e masculinidade. Ele tenta provar a sua hombridade de maneiras equivocadas, machistas e preconceituosas, o que está evidente em toda e qualquer interação que ele estabelece com qualquer outro personagem. Dono de um restaurante, abusa do seu poder de chefe para (tentar) mostrar que tem alguma autoridade ou que é um relevante profissional. Homem supostamente forte em uma situação de perigo, pensa que, por ter uma arma na mão e por ter o controle de um momento extraordinário, pode submeter todos às situações que bem entender. É o chamado macho alfa que, na ameaça, no machismo, no preconceito e no grito, busca se provar homem e que, ao fazer isso, só mostra o quão pequeno e insignificante é como ser humano. Exatamente como o inominável que motiva essa série do Classe de Cinema.

“As Herdeiras”: drama paraguaio mergulha nos delicados significados de uma autodescoberta feminina após os 60 anos

Direção: Marcelo Martinessi

Roteiro: Marcelo Martinessi

Elenco: Ana Brun, Margarita Irun, Ana Ivanova, María Martins, Nilda Gonzalez, Alicia Guerra, Mecha Armele, Ana Banks, Beto Barsotti, Regina Duarte, Norma Codas, Natalia Calcena, Clotilde Cabral

Las Herederas, Paraguai/Alemanha/Uruguai/Brasil/Noruega/França, 2018, Drama, 98 minutos

Sinopse: Chela (Ana Brun) e Chiquita (Margarita Irún), herdeiras de famílias abastadas do Paraguai, vivem da venda de seus bens. Quando Chiquita acaba presa por dívidas jamais acertadas, a até então submissa e reclusa Chela precisa se virar e começa por acaso a prestar serviço para um grupo de senhoras ricas como motorista. Logo a nova realidade, e especialmente a exuberante Angy (Ana Ivanova), a quem conhece durante o trabalho, afetam os interesses, prioridades e atitudes da taxista amadora. (Adoro Cinema)

Considerando que um Kikito esculpido em bronze pesa em torno de 3,5 kg, as atrizes Margarita Irun e Ana Ivanova, representantes do filme paraguaio As Herdeiras na cerimônia de premiação do 46º Festival de Cinema de Gramado, devem ter saído do Brasil pagando excesso de bagagem no aeroporto, pois foram nada menos do que seis categorias conquistadas pelo longa no evento serrano, entre elas a raríssima tríplice coroa de melhor filme pelo júris oficial, popular e da crítica. Aliás, um dos Kikitos ainda se transformou em três, já que o prêmio de melhor atriz foi divido entre as três intérpretes principais do filme. Tudo bem que a seleção de longas estrangeiros não foi lá muito elogiada este ano em Gramado, mas, conferindo As Herdeiras, dá para entender o porquê de tanto carinho por essa obra que tem muitas chances de, pela primeira vez e com muita justiça, levar o Paraguai para o quinteto de finalistas ao Oscar de melhor filme estrangeiro.

Centrado exclusivamente em figuras femininas (os homens mal são vistos em cena e, quando o são, estão desfocados ou fora de quadro), As Herdeiras registra a temporada em que Chela (Ana Brun) precisa lidar com a ausência de sua companheira que acaba de ir para a prisão por ter acumulado dívidas jamais acertadas. O longa parte de um encarceramento, mas, no fundo, é sobre libertação: quando passa a ter que encarar a vida com as próprias pernas, a protagonista, antes tão dependente da mulher com quem viveu por mais de 30 anos, começa a se abrir para um mundo que ela nunca se permitiu conhecer. A pegada é menos óbvia do que pode parecer, pois As Herdeiras é o tipo de filme que explora aqueles pequenos acontecimentos do cotidiano que, isoladamente, não parecem significar muita coisa, mas que, quando vistos com certa perspectiva, traduzem toda uma vida. O cinema brasileiro, inclusive, produziu uma obra de conceito semelhante: o tocante Pela Janela, de Caroline Leone, que pode muito bem ser considerado um filme-irmão de As Herdeiras.

As mais delicadas significações começam quando Chela decide fazer bicos como uma espécie de taxista, transportando diversas senhoras de sua vizinhança para hospitais ou jogos de carteado. Para uma mulher que nunca conduziu a sua própria vida, é altamente simbólico que ela vença o seu receio de dirigir, como se estivesse finalmente assumindo a direção de sua existência. Chela também resiste em receber presentes de suas clientes e, mesmo com os problemas financeiros que enfrenta, também parece não se importar tanto com o dinheiro que recebe pelos serviços, situações que refletem o quanto ela inconscientemente faz aquilo pela nova vida que descobriu na ausência de sua companheira e não exatamente pela necessidade de alguns trocados. A transformação da personagem é minuciosa e silenciosa, bem ao estilo do filme com um todo, o que entrega um tremendo desafio para Ana Brun, uma atriz que, pasmem, está em seu primeiro trabalho no cinema! Brun é grandiosa no minimalismo, e por isso é tamanha a surpresa de sua estreia: tal força, em boa parte dos casos, só emana de quem já tem vasta experiência na dramaturgia, mas ela é um ponto fora da curva, dona de um talento nato.

Com a mesmíssima surpresa se descobre que o diretor e roteirista Marcelo Martinessi também está em seu primeiro longa-metragem. Martinessi havia feito três curtas anteriormente, informação que não chega a nos preparar para a expressiva maturidade que vemos em As Herdeiras. Sua direção lapida com firmeza um roteiro que desenvolve com consistência três universos muito particulares e suscetíveis a estereótipos ou superficialidades: o feminino, o homossexual e o da terceira idade, todos representados com sutileza nas passagens onde a protagonista, que sempre teve dificuldade em assumir e verbalizar a sua orientação sexual, de repente se vê desejando uma de suas clientes e percebendo que, mesmo solitária e depois dos 60, uma mulher ainda tem sim muito a descobrir sobre si própria. Premiado também no Festival de Berlim, onde levou os prêmios de melhor atriz para Ana Brun e de melhor filme pelo júri da crítica, As Herdeiras é mais uma merecida viagem repleta de consagrações que o cinema de língua latina faz pelo mundo. E o melhor: levando para diferentes telas a sua indiscutível vocação para pequenas grandes histórias que empoderam as vidas de uma parcela da sociedade que ainda não é tão representada na ficção quanto deveria.

Os vencedores do Emmy 2018

Rachel Brosnahan na noite dominada por The Marvelous Mrs. Maisel entre as comédias: programa levou a Amazon pela primeira vez ao prêmio de melhor série.

Se há uma vencedora poderosíssima na edição comemorativa de 70 anos do Emmy, essa é a Amazon, que, pela primeira vez, faturou a categoria melhor série na premiação, depois de não ter conseguido o feito com a celebrada Transparent. E não há como questionar as seis estatuetas principais conquistadas pela irresistível The Marvelous Mrs. Maisel no segmento de comédia: melhor série, direção, roteiro, atriz (Rachel Brosnahan), atriz coadjuvante (Alex Borstein) e elenco. Enquanto a Netflix sofre para tentar ganhar algum prêmio que não seja de minissérie para Black Mirror, a Amazon se firma como uma das plataformas on demand mais conceituadas da atualidade, entregando produções sofisticadas, elegantes e que trabalham de forma exemplar a equação quantidade X qualidade, como é o caso da própria Mrs. Maisel

Por outro lado, a premiação dos dramas foi fracionada do início ao fim, com estatuetas para diversos seriados: The AmericansWestworldThe Crown e, claro, a grande surpresa da noite que foi Game of Thrones como a melhor série dramática, surgindo aos 45 do segundo tempo para tomar o prêmio que até então era dado como certo para The Handmaid’s Tale, que despencou em uma queda vertiginosa sem uma vitória sequer, e depois para The Crown, que, ao longo da premiação, começou a tomar espaço com prêmios importantes (atriz, direção e, na semana passada, melhor elenco). Por fim, a minissérie da noite foi, como esperado, The Assassination of Gianni Versace: American Crime Story, mais pela pompa da produção e pelo status dos envolvidos do que necessariamente por merecimento, inclusive em um ano pouco expressivo para a categoria.

Confira abaixo a lista dos vencedores entre as categorias de drama, comédia e minissérie:

MELHOR SÉRIE DRAMAGame of Thrones
MELHOR SÉRIE COMÉDIA: The Marvelous Mrs. Maisel
MELHOR MINISSÉRIE: The Assassination of Gianni Versace: American Crime Story

MELHOR ATRIZ EM DRAMA: Claire Foy (The Crown)
MELHOR ATRIZ EM COMÉDIA: Rachel Brosnahan (The Marvelous Mrs. Maisel)
MELHOR ATRIZ EM MINISSÉRIE/TELEFILME: Regina King (Seven Seconds)

MELHOR ATOR EM DRAMA: Matthew Rhys (The Americans)
MELHOR ATOR EM COMÉDIA: Bill Hader (Barry)
MELHOR ATOR EM MINISSÉRIE/TELEFILME: Darren Criss (The Assassination of Gianni Versace: American Crime Story)
MELHOR ATRIZ COADJUVANTE EM DRAMA: Thandie Newton (Westworld)
MELHOR ATRIZ COADJUVANTE EM COMÉDIA: Alex Borstein (The Marvelous Mrs. Maisel)
MELHOR ATRIZ COADJUVANTE EM MINISSÉRIE/TELEFILME: Merritt Wever (Godless)
MELHOR ATOR COADJUVANTE EM DRAMA: Peter Dinklage (Game of Thrones)
MELHOR ATOR COADJUVANTE EM COMÉDIA: Henry Winkler (Barry)
MELHOR ATOR COADJUVANTE EM MINISSÉRIE/TELEFILME: Jeff Daniels (Godless)
MELHOR ROTEIRO EM COMÉDIAThe Marvelous Mrs. Maisel, pelo episódio Pilot
MELHOR DIREÇÃO EM COMÉDIAThe Marvelous Mrs. Maisel, pelo episódio Pilot
MELHOR ROTEIRO EM MINISSÉRIE/TELEFILME: USS Callister: Black Mirror
MELHOR DIREÇÃO EM MINISSÉRIE/TELEFILME: The Assassination of Gianni Versace: American Crime Story, pelo episódio The Man Who Would Be on Vogue
MELHOR ROTEIRO EM DRAMA: The Americans, pelo episódio Start
MELHOR DIREÇÃO EM DRAMA: The Crown, pelo episódio Paterfamilias

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