Cinema e Argumento

Os vencedores do BAFTA 2026

Com seis troféus, Uma Batalha Após a Outra triunfa no BAFTA.

Se comentei que, em termos de indicados, o BAFTA 2026 em nada movimentava a temporada de premiações, a situação é totalmente diferente agora que os britânicos revelaram seus vencedores. Ainda que, na cerimônia realizada hoje (22), Uma Batalha Após a Outra tenha confirmado seu favoritismo, o BAFTA deu conta de bagunçar a corrida de três das quatro categorias de interpretação. Wumni Mosaku (Pecadores) e Sean Penn (Uma Batalha Após a Outra) foram os vitoriosos entre os coadjuvantes, diferindo de outras premiações como o Globo de Ouro e o Critics’ Choice, que, por sua vez, também optaram por candidatos diferentes entre si. Ou seja, o The Actor Awards terá papel fundamental no processo de revelar alguma tendência para ambas as categorias. Já o melhor ator foi, surpreendentemente, Robert Aramayo (I Swear), que não aparece em nenhuma outra lista e que, sendo britânico, aponta para a ideia de vermos o BAFTA retornando aos tempos em que valorizava mais o cinema local e estava menos preocupado em ser apenas uma prévia europeia do Oscar.

Saem consolidados da cerimônia Uma Batalha Após a Outra — que faturou inclusive categorias técnicas como melhor montagem e fotografia — e, claro, Jessie Buckley (Hamnet) como melhor atriz, sendo a única do quarteto de interpretações que deve terminar a corrida pelo Oscar vencendo todos os prêmios televisionados. Quanto às chances do Brasil, Adolpho Veloso perdeu a estatueta de melhor fotografia por Sonhos de Trem, o que pode ser considerado algo inusitado, mas o mesmo não se pode dizer de O Agente Secreto, que, conforme imaginado, saiu da festa sem vitórias. Não faço coro à análise de que o filme de Kleber Mendonça Filho somente perdeu porque o BAFTA tem predileção por obras europeias na categoria de filme de língua não-inglesa (Walter Salles, inclusive, já se consagrou duas vezes nela com Central do Brasil e Diários de Motocicleta, além de receber indicação por Abril Despedaçado). O que me parece é que, pela primeira vez, um grupo tenha confirmado a força de Valor Sentimental, que, não podemos esquecer, concorre a nove Oscars. Temos, sim, um concorrente de peso — e, dessa vez, sem chances de ser escanteado por uma certa Karla Sofía Gascón…

Confira abaixo a lista de vencedores:

MELHOR FILME: Uma Batalha Após a Outra
MELHOR FILME BRITÂNICO: Hamnet: A Vida Antes de Hamlet
MELHOR DIREÇÃO: Paul Thomas Anderson (Uma Batalha Após a Outra)

MELHOR ATRIZ: Jessie Buckley (Hamnet: A Vida Antes de Hamlet)
MELHOR ATOR: Robert Aramayo (I Swear)
MELHOR ATRIZ COADJUVANTE: Wunmi Mosaku (Pecadores)
MELHOR ATOR COADJUVANTE: Sean Penn (Uma Batalha Após a Outra)
MELHOR ESCALAÇÃO DE ELENCO: I Swear
MELHOR ROTEIRO ORIGINAL: Pecadores
MELHOR ROTEIRO ADAPTADO: Uma Batalha Após a Outra
MELHOR FILME EM LÍNGUA NÃO-INGLESA: Valor Sentimental (Noruega)
MELHOR DOCUMENTÁRIO: Mr. Nobody Against Putin
MELHOR ANIMAÇÃO: Zootopia 2
MELHOR FILME PARA CRIANÇAS E FAMÍLIA: Boong
MELHOR MONTAGEM: Uma Batalha Após a Outra

MELHOR FOTOGRAFIA: Uma Batalha Após a Outra
MELHOR TRILHA SONORA: Pecadores
MELHOR DESIGN DE PRODUÇÃO: Frankenstein
MELHOR FIGURINO: Frankenstein
MELHOR SOM: F1: O Filme
MELHORES EFEITOS VISUAIS: Avatar: Fogo e Cinzas
MELHOR CABELO E MAQUIAGEM: Frankenstein

MELHOR ESTREIA DE DIRETOR, PRODUTOR OU ROTEIRISTA BRITÂNICO: A Sombra do Meu Pai
MELHOR CURTA BRITÂNICO: This Is Endometriosis
MELHOR CURTA BRITÂNICO DE ANIMAÇÃO: Dois Meninos em Busca da Liberdade
EE RISING STAR: Robert Aramayo

Spirit Awards 2026 tem poucas intersecções com o Oscar — e, por isso mesmo, traz frescor para a temporada de premiações

É raro acontecer, mas, em 2026, o Independent Spirit Awards praticamente não tem intersecção com o Oscar. Se, em anos anteriores, o prêmio mais importante do cinema independente realizado nos Estados Unidos fez dobradinha com a Academia ao consagrar títulos como Anora, Tudo em Todo o Lugar ao Mesmo Tempo, Nomadland e Moonlight na categoria principal, hoje temos um cenário bastante atípico, onde nenhum dos cinco concorrentes ao Spirit Awards de melhor filme aparece no Oscar em qualquer categoria. No mais, apenas cinco títulos são compartilhados pelas duas premiações nas demais categorias técnicas e de interpretação: Sonhos de Trem, O Agente Secreto, Sirāt, A Vizinha Perfeita e Se Eu Tivesse Pernas, Eu Te Chutaria. E isso é demérito? Muito pelo contrário: a seleção, na verdade, traz frescor para uma temporada de premiações cada vez mais abarrotada de associações que, na prática, apesar da pluralidade de origens e vocações, acabam premiando sempre os mesmos concorrentes.

O Dia de Peter Hujar é o filme mais indicado do Spirit Awards 2026.

O líder de indicações deste ano no Spirit Awards é O Dia de Peter Hujar, tradução cinematográfica do diretor Ira Sachs (Passagens, O Amor é Estranho, Deixe a Luz Acesa) para uma conversa gravada em 1974 entre o fotógrafo Peter Hujar (Ben Whishaw, sempre excelente) e a escritora Linda Rosenkrantz (Rebecca Hall). Trata-se de um diálogo sobre 24 horas aparentemente banais na vida de Hujar, artista que se tornou uma das figuras centrais da lendária cena cultural nova-iorquina das décadas de 1970 e 80. A banalidade é aparente porque o relato acaba documentando as movimentações artísticas de uma Nova York em plena efervescência, o que pode ser muito interessante para quem se interessa pelo recorte ou perfeitamente tedioso frente à estrutura adotada. Tudo ocorre em um mesmo espaço, somente com dois atores conversando e gravando diálogos que foram encontrados em fitas na vida real. Há poucas engrenagens cinematográficas em O Dia de Peter Hujar, daí a minha incredulidade com tamanho amor do Spirit Awards pelo resultado final.

Kathleen Chalfant brilha em Toque Familiar.

Pelo menos quatro outros títulos mereciam mais reconhecimento. Começo com Toque Familiar, indicado somente a melhor performance protagonista e ao prêmio John Cassavetes, limitado a obras com orçamento de até um milhão de dólares. A belíssima e delicada performance de Kathleen Chalfant é, por óbvio, o grande destaque, mas como um todo, a diretora Sarah Friedland se sai admiravelmente bem ao não cair nas armadilhas tão tradicionais envolvendo relatos de personagens que se confrontam com a perda da memória e o Mal de Alzheimer na velhice. Tudo é elegante, silencioso e meticulosamente bordado em intimismo. Por falar em discrição, Depois do Fogo, o mais novo trabalho do diretor Max Walker-Silverman, também se ampara na lógica de que menos é mais para abordar uma circunstância familiar aos Estados Unidos em sua história recente: a do cowboy Dusty (Josh O’Connor), que, após ver incêndios florestais tomarem conta de seu rancho, chega a um acampamento tendo que reconstruir sua vida e seus laços. Assim como em Uma Noite no Lago, Walker-Silverman filma a solidão e os recomeços com melancolia e humanidade. A única indicação foi para a coadjuvante Kali Reis, o que em nada reflete a beleza cotidiana do longa.

Ainda na conta dos subestimados, coloco Hedda, adaptação da diretora Nia DaCosta para a famosa peça de 1891 do aclamado dramaturgo Henrik Ibsen. A promessa de que a nova leitura seria cativante e de grande escala, a meu ver, é cumprida: à parte as merecidas indicações para Tessa Thompson e Nina Hoss em performance protagonista e coadjuvante, respectivamente, a obra em si é ambiciosa do ponto de vista técnico e de ideias. Nia DaCosta tem ótimo tino para lidar com a malícia, a insegurança e a ardilosidade das personagens centrais, todas femininas e emolduradas por uma atmosfera instigante que traz, por exemplo, mais um ótimo trabalho da Oscarizada compositora islandesa Hildur Guðnadóttir (Coringa, Chernobyl). E o que dizer sobre O Testamento de Ann Lee, um dos casos mais emblemáticos de campanha mal conduzida nos últimos anos? Um musical de época que poderia ter emplacado múltiplas indicações em todos os prêmios acabou relegado exclusivamente a uma indicação de melhor montagem no Spirit Awards. Ainda que nem sempre o filme de Mona Fastvold convença na mitologia criada em torno da personagem de Amanda Seyfried, é inegável que os outros vários méritos do filme, como a fabulosa trilha de Daniel Blumberg, mereciam muito mais atenção.

Lurker investiga os caminhos tortuosos da obsessão e da falta de identidade.

Tematicamente, percebo aproximação entre vários indicados, caso de Lurker, Twinless e The Plague, que, cada um à sua maneira, versam sobre os caminhos tortos traçados por protagonistas que buscam algum senso de pertencimento, nem que, para tanto, precisem abrir mão de suas histórias verdadeiras para assumir outros papeis. O primeiro adota o tom de suspense e tensão, extraindo excelentes interpretações de Théodore Pellerin e Archie Madekwe, que fazem um duelo não tão velado de pessoas cujas carências e egocentrismos se retroalimentam. Já Twinless é bem sucedido e envolvente ao lidar com as camadas complicadas do luto, aqui visto sob a ótica de um personagem que se aproveita da dor do próximo para, secretamente, conseguir o que precisa para administrar suas próprias feridas emocionais. E, por fim, The Plague pisa no terreno da adolescência – e nos lembra de levantar as mãos do céu para agradecer que só passamos por essa fase uma vez na vida. Jovens podem ser muito cruéis, especialmente diante do diferente, e o diretor Charlie Polinger cria um incômodo palpável ao explorar as possibilidades das crueldades sociais às quais os adolescentes se submetem para encontrar alguma construção de personalidade.

Blue Sun Palace e Lucky Lu também rendem uma sessão conjunta, mas ficam estacionados em um certo lugar-comum. Ambos se debruçam sobre a chegada de personagens asiáticos em Nova York e a extenuante rotina adotada por eles para tentar sobreviver em uma Big Apple pouco amigável aos que vêm de fora. Se os estilos são distintos – Blue Sun Palace tem olhar feminino e subjetivo para o desenvolvimento íntimo de cada figura em cena, enquanto Lucky Lu se agarra à jornada individual de um homem em meio a uma série de adversidades que testam sua resiliência –, os resultados são semelhantes até demais em discursos. Esperava que os dois tivessem mais a dizer sobre a dureza com que os Estados Unidos tratam imigrantes. Ao fim e ao cabo, valem sobretudo pela ótica oriental dada a um viés que é predominantemente encenado a partir da vivência de personagens latinos.

Nick Offerman e Jacob Tremblay são pai e filho no potente Sovereign.

Enquanto isso, Sovereign e A Little Prayer questionam a reverberação paterna na criação dos filhos. O retrato de Sovereign é desolador, no caso, o de Jerry (Nick Offerman), que, declaradamente antigoverno, vê conspiração em tudo o que os Estados Unidos colocam como regra ou lei para a sociedade. Da carteira de habilitação que ele se nega a tirar para poder dirigir às aulas que dá ao próprio filho para não o colocar em uma escola, Jerry cria Joe (Jacob Tremblay) em uma redoma de alienação e negacionismo que, claro, só poderia resultar em tragédia. É um dos meus favoritos entre os indicados ao Spirit Awards 2026 – e, por ser baseado em uma história real, torna-se ainda mais impactante no estudo de uma paternidade falida. Em contraste, A Little Prayer é sensível na busca de um pai para entender como seu filho, um homem que ele criou com retidão e carinho em uma pequena cidade do interior, vem traindo a esposa. Afinal, quais valores são realmente absorvidos de uma geração para outra? Há alguma culpa paterna na traição reiterada do filho? A condução é simples, quase artesanal, característica de um cinema pequeno e independente bastante raro nos dias de hoje.

Para fechar o balanço de títulos assistidos, há Sorry, Baby, do qual gosto muito e já falei aqui; A Longa Marcha: Caminha ou Morra, ótima adaptação da obra homônima de Stephen King cujo elenco recebe o prêmio Robert Altman; a comédia-pastelão Um Dia Daqueles, que coloca duas mulheres negras (Keke Palmer e SZA) no centro de uma divertida história sobre a busca quase impossível pelo dinheiro devido do aluguel até o fim do dia; e O Bom Bandido, sobre a história verídica de um ladrão profissional (Channing Tatum) que encontra um esconderijo numa loja de brinquedos, sobrevivendo por meses sem ser detectado enquanto planeja seu próximo passo. Esses dois últimos talvez sejam mais convencionais se tratando de forma e desenvolvimento, mas, nem por isso deixam de ter brilho próprio, em especial Um Dia Daqueles no que se refere às presenças cativantes de suas duas protagonistas.

A lista completa de indicados ao Spirit Awards pode ser conferida aqui.

Os indicados ao BAFTA 2026

Uma Batalha Após a Outra lidera lista do BAFTA com 14 indicações.

O BAFTA 2026 gravita entre os favoritismos de Uma Batalha Após a Outra e Pecadores, assim como repete o volume de indicações já dado a títulos como Hamnet e Valor Sentimental em outras premiações. Isso quer dizer que os britânicos pouco mexem no tabuleiro geral da corrida pelo Oscar, que, aliás, revelou seus indicados antes do BAFTA. Mesmo as indicações mais bairristas, como todas recebidas por I Swear, ou a de Carey Mulligan em melhor atriz coadjuvante por The Ballad of Wallis Island, são casos isolados e sem chances de levar estatuetas para casa. Como mais do mesmo, o BAFTA desempenhará apenas o papel de confirmar muito do que já sabemos e, eventualmente, o de iluminar favoritos em categorias técnicas ausentes em outros termômetros importantes da temporada. A cerimônia acontece no dia 22 de fevereiro.

Confira abaixo os indicados:

MELHOR FILME
Uma Batalha Após a Outra
Hamnet: A Vida Antes de Hamlet
Marty Supreme
Pecadores
Valor Sentimental

MELHOR FILME BRITÂNICO
The Ballad of Wallis Island
Bridget Jones: Louca pelo Garoto
Extermínio: A Evolução
H is for Hawk
Hamnet: A Vida Antes de Hamlet
I Swear
Morra, Amor
Mr. Burton
Pillion
Steve

MELHOR DIREÇÃO
Chloé Zhao (Hamnet: A Vida Antes de Hamlet)

Joachim Trier (Valor Sentimental)
Josh Safdie (Marty Supreme)
Paul Thomas Anderson (Uma Batalha Após a Outra)
Ryan Coogler (Pecadores)
Yorgos Lanthimos (Bugonia)

MELHOR ATRIZ
Chase Infiniti (Uma Batalha Após a Outra)
Emma Stone (Bugonia)
Jessie Buckley (Hamnet: A Vida Antes de Hamlet)
Kate Hudson (Song Sung Blue: Um Sonho a Dois)
Renate Reinsve (Valor Sentimental)
Rose Byrne (Se Eu Tivesse Pernas, Eu Te Chutaria)

MELHOR ATOR
Ethan Hawke (Blue Moon)
Jesse Plemons (Bugonia)
Leonardo DiCaprio (Uma Batalha Após a Outra)
Michael B. Jordan (Pecadores)
Robert Aramayo (I Swear)
Timothée Chalamet (Marty Supreme)

MELHOR ATRIZ COADJUVANTE
Carey Mulligan (The Ballad of Wallis Island)
Emily Watson (Hamnet: A Vida Antes de Hamlet)
Inga Ibsdotter Lilleaas (Valor Sentimental)
Odessa A’zion (Marty Supreme)
Teyana Taylor (Uma Batalha Após a Outra)
Wunmi Mosaku (Pecadores)

MELHOR ATOR COADJUVANTE
Benicio Del Toro (Uma Batalha Após a Outra)
Jacob Elordi (Frankenstein)
Paul Mescal (Hamnet: A Vida Antes de Hamlet)
Peter Mullan (I Swear)

Sean Penn (Uma Batalha Após a Outra)
Stellan Skarsgård (Valor Sentimental)

MELHOR ESCALAÇÃO DE ELENCO
Uma Batalha Após a Outra
I Swear
Marty Supreme
Pecadores
Valor Sentimental

MELHOR ROTEIRO ORIGINAL
O Agente Secreto
I Swear
Marty Supreme
Pecadores
Valor Sentimental

MELHOR ROTEIRO ADAPTADO
The Ballad of Wallis Island
Uma Batalha Após a Outra
Bugonia
Hamnet: A Vida Antes de Hamlet
Pillion

MELHOR FILME EM LÍNGUA NÃO-INGLESA
O Agente Secreto (Brasil)
Foi Apenas um Acidente
(França)

Valor Sentimental (Noruega)
Sirāt (Espanha)
A Voz de Hind Rajab (Tunísia)

MELHOR DOCUMENTÁRIO
A 2000 Metros de Andriivka
Apocalipse nos Trópicos
Cover-Up
Mr. Nobody Against Putin
A Vizinha Perfeita

MELHOR ANIMAÇÃO
Elio
A Pequena Amélie
Zootopia 2

MELHOR FILME PARA CRIANÇAS E FAMÍLIA
Arco
Boong
Lilo & Stitch
Zootopia 2

MELHOR MONTAGEM
Uma Batalha Após a Outra
Casa de Dinamite
F1: O Filme
Marty Supreme
Pecadores

MELHOR FOTOGRAFIA
Uma Batalha Após a Outra
Frankenstein
Marty Supreme
Pecadores
Sonhos de Trem

MELHOR TRILHA SONORA
Uma Batalha Após a Outra
Bugonia
Frankenstein
Hamnet: A Vida Antes de Hamlet
Pecadores

MELHOR DESIGN DE PRODUÇÃO
Uma Batalha Após a Outra
Frankenstein
Hamnet: A Vida Antes de Hamlet
Marty Supreme
Pecadores

MELHOR FIGURINO
Frankenstein
Hamnet: A Vida Antes de Hamlet
Marty Supreme
Pecadores
Wicked: Parte 2

MELHOR SOM
Uma Batalha Após a Outra
F1: O Filme
Frankenstein
Pecadores
Tempo de Guerra

MELHORES EFEITOS VISUAIS
Avatar: Fogo e Cinzas
Como Treinar o Seu Dragão
F1: O Filme
Frankenstein
O Ônibus Perdido

MELHOR CABELO E MAQUIAGEM
Frankenstein
Hamnet: A Vida Antes de Hamlet
Marty Supreme
Pecadores
Wicked: Parte 2

MELHOR ESTREIA DE DIRETOR, PRODUTOR OU ROTEIRISTA BRITÂNICO
The Ceremony
My Father’s Shadow
Pillion
A Want In Her
Wasteman

MELHOR CURTA BRITÂNICO
Magid / Zafar
Nostalgie
Terence
This Is Endometriosis
Welcome Home Freckles

MELHOR CURTA BRITÂNICO DE ANIMAÇÃO
Cardboard
Solstice
Two Black Boys in Paradise

EE RISING STAR
Archie Madekwe
Chase Infiniti
Miles Caton
Posy Sterling
Robert Aramayo

Os indicados ao Oscar 2026

Lembrado em 16 categorias, Pecadores é o novo recordista de indicações ao Oscar.

Não são poucos os filmes do Oscar 2026 que concorrem em várias categorias, a começar por Pecadores, agora detentor do recorde absoluto de indicações ao prêmio da Academia em seus quase 100 anos de existência. O longa de Ryan Coogler disputa nada menos do que 16 estatuetas, ultrapassando as estatísticas de títulos como Titanic, A Malvada e La La Land: Cantando Estações. Ele é seguido de perto por Uma Batalha Após a Outra, indicado a 13. Já Marty Supreme, Frankenstein e Valor Sentimental aparecem com nove. Os números refletem um ano forte e, acima de tudo, diverso em gêneros e nacionalidades. Resta saber qual será a lógica do Oscar na hora de mapear seus vencedores diante dessa gama.

Para o Brasil, em termos de indicações, as notícias são excelentes. Pelo segundo ano consecutivo, estamos disputando a categoria principal de melhor filme, dessa vez, com O Agente Secreto, lembrado ainda em melhor ator para Wagner Moura, melhor filme internacional e melhor escalação de elenco, a mais nova categoria criada pela Academia. O paulista Adolpho Veloso também nos representa com a indicação de melhor fotografia para Sonhos de Trem. A disputa é árdua — afinal, Valor Sentimental, que parecia ter perdido o fôlego com os resultados do Critics’ Choice e do Globo de Ouro, recobrou forças com expressivas nove indicações —, mas, tratando-se de Oscar, tudo pode acontecer até o último minuto antes da cerimônia, a ser realizada no dia 16 de março.

Abaixo, algumas outras considerações sobre a lista de indicados:

Valor Sentimental emplaca, merecidamente, quatro indicações individuais para seus atores, mas fica de fora da categoria de melhor escalação de elenco. Difícil entender como um filme com interpretações tão celebradas não se configura automaticamente como um indicado da categoria estreante;

– Entre os reconhecimentos dados ao filme de Joachim Trier, fico feliz, em especial, pela lembrança à Elle Fanning em atriz coadjuvante, que já era praticamente dada como carta fora do baralho. Não deveria ser sua estreia no Oscar: no ano passado, em meio ao exagero de indicações para Um Completo Desconhecido, Fanning deveria ter concorrido ao lado de Monica Barbaro;

– É de se chatear que Paul Mescal tenha ficado de fora por sua performance em Hamnet, que concorre em oito categorias. Ao mesmo tempo, a entrada de Delroy Lindo (Pecadores) traz surpresa e frescor à categoria, além de ser justo o reconhecimento a um ótimo ator;

 – De dez indicações pelo primeiro filme a zero pelo segundo, Wicked teve o pior desempenho entre todos os candidatos em potencial dessa temporada. Chega a ser até chocante que o Oscar tenha garimpado uma canção do documentário Viva Verdi! para não indicar qualquer uma das duas canções originais do musical de John M. Chu;

– Ainda fico surpreso com tanto amor depositado em Bugonia, finalista em melhor filme, atriz (Emma Stone), roteiro adaptado e trilha sonora. É um trabalho pueril, com discursos óbvios e que, assim como aconteceu em Tipos de Gentileza, mostra que, talvez, Yorgos Lanthimos esteja fazendo coisas demais em pouco tempo;

– Qual a razão de indicar mais uma vez Diane Warren a melhor canção? Azarada nata da categoria, concorreu 17 vezes ao longo da carreira e perdeu de todos os jeitos possíveis. Não à toa, a Academia já lhe outorgou um prêmio honorário. Precisa mesmo concorrer mais uma vez por uma canção esquecível?

– A vaga ocupada por F1: O Filme na categoria principal causou certo espanto, mas me parece coerente: com o declínio de Wicked e Avatar: Fogo e Cinzas na temporada, Hollywood tinha de encontrar algum blockbuster para representar o cinema comercial na seleção principal. Só é uma pena que isso tenha acontecido às custas do reconhecimento ao ótimo Foi Apenas Um Acidente;

– Kate Hudson entrou praticamente de última hora na categoria de melhor atriz pelo fraquíssimo Song Sung Blue: Um Sonho a Dois, escanteando Chase Infiniti (Uma Batalha Após a Outra). Não é só injustiça com Chase: outras interpretações reconhecidas na temporada mereciam muito mais, como as de Jennifer Lawrence (Morra, Amor), Julia Roberts (Depois da Caçada) e Tessa Thompson (Hedda).

Confira a lista completa de indicados:

MELHOR FILME
O Agente Secreto
Uma Batalha Após a Outra
Bugonia
F1: O Filme
Frankenstein
Hamnet: A Vida Antes de Hamlet
Marty Supreme
Pecadores
Sonhos de Trem
Valor Sentimental

MELHOR DIREÇÃO
Chloé Zhao (Hamnet: A Vida Antes de Hamlet)
Joachim Trier (Valor Sentimental)
Josh Safdie (Marty Supreme)
Paul Thomas Anderson (Uma Batalha Após a Outra)
Ryan Coogler (Pecadores)

MELHOR ATRIZ
Emma Stone (Bugonia)
Jessie Buckley (Hamnet: A Vida Antes de Hamlet)
Kate Hudson (Song Sung Blue: Um Sonho a Dois)
Renate Reinsve (Valor Sentimental)
Rose Byrne (Se Eu Tivesse Pernas, Eu Te Chutaria)

MELHOR ATOR
Ethan Hawke (Blue Moon)
Leonardo DiCaprio (Uma Batalha Após a Outra)
Michael B. Jordan (Pecadores)
Timothée Chalamet (Marty Supreme)
Wagner Moura (O Agente Secreto)

MELHOR ATRIZ COADJUVANTE
Amy Madigan (A Hora do Mal)
Elle Fanning (Valor Sentimental)
Inga Ibsdotter Lilleaas (Valor Sentimental)
Teyana Taylor (Uma Batalha Após a Outra)
Wunmi Mosaku (Pecadores)

MELHOR ATOR COADJUVANTE
Benicio Del Toro (Uma Batalha Após a Outra)

Delroy Lindo (Pecadores)
Jacob Elordi (Frankenstein)
Sean Penn (Uma Batalha Após a Outra)
Stellan Skarsgård (Valor Sentimental)

MELHOR ESCALAÇÃO DE ELENCO
O Agente Secreto
Uma Batalha Após a Outra
Hamnet: A Vida Antes de Hamlet
Marty Supreme
Pecadores

MELHOR ROTEIRO ORIGINAL
Blue Moon
Foi Apenas um Acidente
Marty Supreme
Pecadores
Valor Sentimental

MELHOR ROTEIRO ADAPTADO
Uma Batalha Após a Outra
Bugonia
Frankenstein
Hamnet: A Vida Antes de Hamlet
Sonhos de Trem

MELHOR FILME INTERNACIONAL
O Agente Secreto (Brasil)
Foi Apenas um Acidente (França)
Sirāt (Espanha)
Valor Sentimental (Noruega)
A Voz de Hind Rajab (Tunísia)

MELHOR DOCUMENTÁRIO
Alabama: Presos do Sistema
Cutting Through Rocks
Embaixo da Luz Neon
Mr. Nobody Against Putin
A Vizinha Perfeita

MELHOR ANIMAÇÃO
Arco
Elio
Guerreiras do K-Pop
A Pequena Amélie
Zootopia 2

MELHOR MONTAGEM
Uma Batalha Após a Outra
F1: O Filme
Marty Supreme
Pecadores
Valor Sentimental

MELHOR FOTOGRAFIA
Uma Batalha Após a Outra
Frankenstein
Marty Supreme
Pecadores
Sonhos de Trem

MELHOR DESIGN DE PRODUÇÃO
Uma Batalha Após a Outra
Frankenstein
Hamnet: A Vida Antes de Hamlet
Marty Supreme
Pecadores

MELHOR FIGURINO
Avatar: Fogo e Cinzas
Frankenstein
Hamnet: A Vida Antes de Hamlet
Marty Supreme
Pecadores

MELHOR TRILHA SONORA
Uma Batalha Após a Outra
Bugonia
Frankenstein
Hamnet: A Vida Antes de Hamlet
Pecadores

MELHOR CANÇÃO ORIGINAL
“Dear Me” (Diane Warren: Relentless)
“Golden” (Guerreiras do K-Pop)
“I Lied to You” (Pecadores)
“Sweet Dreams of Joy” (Viva Verdi!)
“Train Dreams” (Sonhos de Trem)

MELHOR SOM
Uma Batalha Após a Outra
F1: O Filme
Frankenstein
Pecadores
Sirāt

MELHORES EFEITOS VISUAIS
Avatar: Fogo e Cinzas
F1: O Filme
Jurassic World: Recomeço
O Ônibus Perdido
Pecadores

MELHOR MAQUIAGEM E CABELO
Coração de Lutador: The Smashing Machine
Frankenstein
Kokuho
A Meia-Irmã Feia
Pecadores

MELHOR CURTA-METRAGEM
Butcher’s Stain
A Friend of Dorothy
Jane Austen’s Period Drama
The Singers
Two People Exchanging Saliva

MELHOR CURTA-METRAGEM DE ANIMAÇÃO
Butterfly
Forevergreen
The Girl Who Cried Pearls
Retirement Plan
The Three Sisters

MELHOR CURTA-METRAGEM DE DOCUMENTÁRIO
All the Empty Rooms
Armed Only with a Camera: The Life and Death of Brent Renaud
Children No More: Were and Are Gone
The Devil Is Busy
Perfectly a Strangeness

“Hamnet” é sobre o homem, não o ícone — e, mais ainda, sobre a mulher que definiu a sua vida

The rest is silence.

Direção: Chloé Zhao

Roteiro: Chloé Zhao e Maggie O’Farrell, baseado no romance “Hamnet: A Novel of the Plague”, de Maggie O’Farrell

Elenco: Jessie Buckley, Paul Mescal, Emily Watson, Joe Alwyn, Jacobi Jupe, Noah Jupe, Olivia Lynes, Bodhi Rae Breathnach, David Wilmot, Freya Hannan-Mills, Dainton Anderson, James Skinner, Louisa Harland

Hamnet, Reino Unido/Estados Unidos, 2025, Drama, 125 minutos

Sinopse: Um dos mais importantes escritores do cânone ocidental, William Shakespeare (Paul Mescal) vive uma tragédia ao lado de sua esposa Agnes (Jessie Buckley) quando o casal perde o filho de 11 anos para uma das várias pragas que assolaram o século XVI. Hamnet era o nome do menino. Explorando os temas da perda e da morte, o filme acompanha a rotina e o dia a dia de uma família, as alegrias e as tristezas de viver numa pequena vila na Inglaterra do passado e a história de amor poderosa que inspirou a criação da peça Hamlet.

Há poucas certezas e muitas conjecturas no que se sabe sobre a vida pessoal do dramaturgo inglês William Shakespeare (1564 – 1616). Tanto que a escritora Maggie O’Farrell e a diretora Chloé Zhao, tomaram a liberdade de abraçar a imaginação na confecção do roteiro de Hamnet: A Vida Antes de Hamlet, que deixa quase em segundo plano o Shakespeare autor para adentrar as possibilidades de quem ele teria sido como um homem comum. E o ponto de vista adotado pelo longa não poderia ser mais humano em sua cotidianidade: o de Agnes (Jessie Buckley), mulher com quem William (Paul Mescal) escolheu viver sua vida e com quem teve três filhos.

Conhecendo-se a filmografia da chinesa Chloé Zhao, a abordagem não vem como nenhuma surpresa. Pelo contrário: a delicadeza inerente aos seus trabalhos autorais distancia Hamnet da ideia que temos de uma mera cinebiografia para aproximá-lo de um drama palpável e muito próximo do espectador. Ou seja, não se trata de uma obra que pretende reverenciar o ícone William Shakespeare e olhar pela fechadura de sua vida íntima. Todos saem ganhando: Zhao, que pode fazer um filme com a sua assinatura; e a própria plateia, que não se vê enredada em mais uma cinebiografia pretensiosa ou enfadonha.

Se, por um lado, a estrutura do texto nem sempre funciona — Hamnet avança a partir de inúmeras elipses, o que suprime a reverberação de determinadas construções dramáticas —, todo o resto compensa eventuais efeitos colaterais, como o próprio ritmo da história. Isso é perceptível desde a primeira cena, centrada em Agnes e já fundamental para entendermos o quanto sua relação com a natureza e com o místico terá papel importante na relação com William e até mesmo na tragédia que acometeu um dos seus três filhos. Tragédia essa que acabou levando o dramaturgo a criar Hamlet, possivelmente sua obra mais icônica.

Como a observação do encontro entre duas pessoas comuns, Hamnet nos apresenta a uma Agnes deslocada, tida em sua cidade como “a filha de uma bruxa da floresta”, em função do poder que teria de ver o futuro das pessoas apenas ao tocar em suas mãos. Em casa, excetuando a relação com o irmão, tem pouca conexão com a família, que já lhe cobra um casamento. Em William, ela encontra um semelhante: tutor de latim, ele também tem lá seus percalços familiares e confessa ter dificuldade em se comunicar com as pessoas. A aproximação é imediata, e Agnes logo entende que tudo se dá porque ele a ama por quem ela é, não por aquilo que os outros querem que ela seja.

Não tarda para que Hamnet comece a desconstruir o relacionamento, a começar pela maneira com que explora a insatisfação de William consigo mesmo. Ele teme beber demais, ter rompantes violentos ou, quem sabe, precisar de uma morada em Londres onde possa desenvolver seu lado de autor. Agnes aceita e o que vem dessa decisão muda para sempre a dinâmica entre os dois: longe de casa, ela terá filhos sem a presença do marido — e, eventualmente, perderá um deles amparada apenas pela sogra, vivida por Emily Watson em papel pequeno, mas de presença forte.

Entre as várias elipses do filme, Chloé Zhao ora encena a sinergia muito verossímil de uma família feliz quando William está presente, ora o profundo abismo em que Agnes se encontra com a ausência de um homem cujo trabalho ela sequer conhece — enquanto imaginava que Shakespeare escrevia uma comédia, ele estreava, na verdade, uma tragédia que, antes mesmo de estrear, já despertava o boca-a-boca do público londrino. É um arco sempre doloroso o do casal outrora feliz que se desintegra, ainda mais quando acometido por um luto indescritível, e Zhao, sabendo disso, faz o mínimo de intervenções técnicas ou estéticas para sublinhar o drama.

Há quem diga que o filme manipula emoções e que se regozija no sofrimento dos personagens para ensaiar algum estofo. Assim como nos recentes Morra, Amor e Se Eu Tivesse Pernas, Eu Te Chutaria — outras duas obras que, cada uma à sua maneira, discute o pesado fardo da maternidade —, discordo de tal afirmação porque sou profundamente solidário aos conflitos das personagens e, como homem, acredito ser no mínimo pretensioso ou equivocado o conceito de tentar dimensionar as profundezas dos dilemas femininos, em especial os maternos. Para mim, foram três sessões que só me trouxeram ainda mais empatia pelas mulheres.

Gostando-se ou não de Hamnet, creio ser impossível sair ileso à sequência final, que coloca no palco, enfim, o Hamlet de William Shakespeare como viemos o conhecer em sua influência dramatúrgica mundial. Ao mesmo tempo, tudo ganha um novo sentido ali depois de tudo que testemunhamos. É quando Zhao termina seu longa no auge, por diversas razões. Talvez porque ali estejam melhor exemplificadas as maravilhosas performances de Jessie Buckley e Paul Mescal. Ou, então, porque ela reverbera a sempre comovente mensagem de como a arte é capaz de expurgar e ressignificar as dores mais intransponíveis. Contudo, desconfio que seja mesmo porque ali estão concentrados, de vez, os sentimentos mais verdadeiros e profundos que Chloé Zhao e Maggie O’Farrell quiseram extrair do específico mundo de Shakespeare para que se tornassem universais, como todo bom drama produzido pelo cinema.