Cinema e Argumento

Três atores, três filmes… com Barbara Demerov

demerovtresNo último mês de abril, a jornalista Barbara Demerov assumiu um novíssimo desafio profissional como repórter de entretenimento da VEJA São Paulo. A novidade é um merecido reconhecimento à bela trajetória que ela já vinha trilhando no Controle Remoto Podcast e, claro, no AdoroCinema, onde era redatora. Barbara, que também já teve a honra de ser uma das entrevistadoras do clássico programa Roda Viva quando Fernando Meirelles comemorava as indicações de Dois Papas ao Oscar e de fazer parte da transmissão do Oscar 2020 como comentarista nas redes sociais da TNT, traz na bagagem entrevistas com nomes nacionais e internacionais do cinema, entre eles George Clooney, Anne Hathaway e M. Night Shyamalan. Ou seja, temos mais uma convidada de peso aqui na coluna! E, para esse desafio — palavras da própria Barbara! — de escolher interpretações marcantes do cinema, ela listou três momentos inegavelmente clássicos das carreiras dos selecionados. Confiram!

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Que desafio incrível esse de pensar em apenas três interpretações marcantes do cinema. Realmente é um convite especial esse do Matheus — aliás, obrigada mais uma vez! Ao longo da minha vida pude assistir a diversos filmes que levo em meu coração até hoje, mas quando falamos sobre atuações, entramos em um lugar mais complexo. Selecionei três que me marcaram tão fortemente que todas chegaram em minha mente de forma muito rápida, sem que eu precisasse refletir muito. São trabalhos de filmes que eu também amo de paixão e que, sem dúvida alguma, não seriam tão bons caso não contassem com essas interpretações tão dedicadas e assustadoramente intensas.

Gena Rowlands (Uma Mulher Sob Influência)
É impossível sair impassível de uma sessão deste filme de John Cassavetes por um único motivo: Gena Rowlands. O mergulho que a musa do diretor faz nesta história na pele de uma mãe incompreendida é surpreendente e, realmente, de cortar o coração. Ao se passar o tempo todo dentro da casa de Mabel, entramos dentro da mente daquela mulher e, ironicamente, conseguimos compreendê-la rapidamente. Ela é invisível aos olhos do próprio marido, por exemplo, que a trata com negligência e falta de afeto ao passo que toma decisões por si só — mas que a afetam diretamente. Ao mesmo tempo, a mãe de três crianças está completamente frágil mentalmente e não pode pedir por socorro sem ser julgada pela própria família. É um filme desesperador, de fato, mas também é uma obra extremamente rica em detalhes e nuances delicadas sobre a vida de uma mulher que demonstra força até quando ela mesma acredita que não tem. Se podemos chamar um filme de “filme de atuação”, este aqui é o meu número 01 da lista.

Heath Ledger (Batman: O Cavaleiro das Trevas)
Um dos raros casos em que eu me peguei “procurando” pelo ator ao longo da narrativa. Nunca vou me esquecer de pensar no cinema, “este é realmente o Heath Ledger?”. É impressionante o que o ator de 28 anos fez no filme de Christopher Nolan ao interpretar meu vilão favorito dos quadrinhos. Para além de se destacar mais do que o próprio herói de Gotham, o Coringa de Ledger é um exemplar do que é uma atuação contida e ao mesmo tempo explosiva. Ledger trabalha muito bem para trazer movimentos e palavras sutis, ao mesmo tempo em que nunca deixa de demonstrar a força e presença do vilão. Um filme para ver e rever graças ao poder que o ator traz à tona na tela.

Jack Nicholson (O Iluminado)
Para quem é amante de cinema de terror como eu, acredito que seja impossível não pensar na força da atuação de Jack Nicholson em O Iluminado. Se a história já possui uma atmosfera sombria e bizarra, o que o ator entrega em sua performance potencializa as sensações estranhas que se passam em nós quando observamos a história dentro do Hotel Overlook. Nicholson já é um ator dedicado e disso todo mundo sabe, mas essa atuação demonstra o ápice da atenção que o ator entrega em seus papéis. Seja na cena icônica em que ele improvisa a frase “Here’s Johnny” ou no momento em que passa a perseguir Wendy, eu acho incrível o poder que o ator emana em seu personagem mesmo sem dizer nenhuma palavra. O olhar, nesse caso, diz muito — e é capaz de aterrorizar bastante também.

Melhores de 2020: com oito indicações, “O Som do Silêncio” lidera lista do blog

Riz Ahmed em “O Som do Silêncio”: filme de Darius Marder concorre em oito categorias, seguido por Luce e Nunca, Raramente, Às Vezes, Sempre, ambos com seis indicações.

Ainda estou com um pé em 2020 porque somente agora consigo iniciar o ritual que fecha meus anos cinematográficos. Trata-se, claro, da lista de melhores do ano, premiação que realizo aqui no blog desde 2007. Como de praxe, repito pela milésima vez — porque nunca é demais lembrar — que listas dizem mais sobre quem as faz do que sobre os filmes propriamente ditos. E é bem provável que o tempo coloque muitas escolhas imediatas em xeque, revelando filmes e trabalhos que, com o passar dos anos, ganham dimensões muito maiores (e eu, claro, tenho a minha cota de surpresas ao olhar para o histórico das listas aqui do blog e constatar que há um punhado de vencedores que hoje não seriam a minha escolha, mas isso eu deixo em segredo).

Portanto, recapitulando essa contextualização que tomo como base para a forma como encaro listas e o próprio cinema, chegou a hora de escolher o que mais me impactou em 2020. Uma alteração importante é a expansão da lista de melhor filme, que agora contempla até dez indicados (como sempre faço um top 10 pessoal mesmo, nada mais justo do que aplicar a lógica aqui também). Tendo considerado os lançamentos inéditos em circuito comercial no Brasil (cinema ou streaming), chego a essa seleção que é liderada por O Som do Silêncio com oito indicações, seguido de perto por LuceNunca, Raramente, Às Vezes, Sempre com seis. Os vencedores serão conhecidos em três postagens: uma com as categorias técnicas, outra somente com interpretações e, por fim, a que revela melhor filme, direção, roteiro original e roteiro adaptado. Como sempre, espero vocês!

MELHOR FILME
Babenco – Alguém Tem Que Ouvir o Coração e Dizer: Parou
Clemência
Destacamento Blood
O Farol
Luce
Má Educação
Nunca, Raramente, Às Vezes, Sempre
Pacarrete
Retrato de Uma Jovem em Chamas

O Som do Silêncio

MELHOR DIREÇÃO
Bárbara Paz (Babenco – Alguém Tem Que Ouvir o Coração e Dizer: Parou)
Céline Sciamma (Retrato de Uma Jovem em Chamas)
Chinonye Chukwu (Clemência)
Darius Marder (O Som do Silêncio)
Eliza Hittman (Nunca, Raramente, Às Vezes, Sempre)

MELHOR ELENCO
Adoráveis Mulheres
Destacamento Blood
Luce
Má Educação

Pacarrete

MELHOR ATRIZ
Adèle Haenel (Retrato de Uma Jovem em Chamas)

Alfre Woodard (Clemência)
Marcélia Cartaxo (Pacarrete)
Noémie Merlant (Retrato de Uma Jovem em Chamas)
Sidney Flanigan (Nunca, Raramente, Às Vezes, Sempre)

MELHOR ATOR
Delroy Lindo (Destacamento Blood)
Kelvin Harrison Jr. (Luce)

Riz Ahmed (O Som do Silêncio)
Robert Pattinson (O Farol)
Willem Dafoe (O Farol)

MELHOR ATRIZ COADJUVANTE
Florence Pugh (Adoráveis Mulheres)

Kathy Bates (O Caso Richard Jewell)
Octavia Spencer (Luce)
Talia Ryder (Nunca, Raramente, Às Vezes, Sempre)
Toni Collette (Estou Pensando em Acabar Com Tudo)

MELHOR ATOR COADJUVANTE
João Miguel (Pacarrete)
Paul Raci (O Som do Silêncio)

Sam Rockwell (O Caso Richard Jewell)
Sterling K. Brown (As Ondas)
Tom Hanks (Um Lindo Dia na Vizinhança)

MELHOR ROTEIRO ORIGINAL
Abraham Marder e Darius Marder (O Som do Silêncio)
Chinonye Chukwu (Clemência)
Danny Bilson, Kevin Willmott, Spike Lee e Paul De Meo (Destacamento Blood)
Eliza Hittman (Nunca, Raramente, Às VezesSempre)
Céline Sciamma (Retrato de Uma Jovem em Chamas)

MELHOR ROTEIRO ADAPTADO
Charlie Kaufman (Estou Pensando em Acabar Com Tudo)
Greta Gerwig (Adoráveis Mulheres)
J.C. Lee e Julius Onah (Luce)
Mart Crowley e Ned Martel (The Boys in the Band)
Mike Makowsky (Má Educação)

MELHOR MONTAGEM
Bárbara Paz, Cao Guimarães, Eduardo Escorel, Felipe Bibian, Felipe Nepomuceno, Joaquim Castro, Juliana Guanais, Marilia Moraes e Vitor Mafra (Babenco – Alguém Tem Que Ouvir o Coração e Dizer: Parou)
Louise Ford (Má Educação)
Madeleine Gavin (Luce)
Mikkel E.G. Nielsen (O Som do Silêncio)
Robert Frazen (Estou Pensando em Acabar Com Tudo)

MELHOR FOTOGRAFIA
Bárbara Paz , Carolina Costa e Stefan Ciupek (Babenco – Alguém Tem Que Ouvir o Coração e Dizer: Parou)
Claire Mathon (Retrato de Uma Jovem em Chamas)
Jarin Blaschke (O Farol)
Lukasz Zal (Estou Pensando em Acabar Com Tudo)
Roger Deakins (1917)

MELHOR TRILHA SONORA
Alexandre Desplat (Adoráveis Mulheres)
Michael Abels (Má Educação)
Salloma Salomão (Todos os Mortos)
Thomas Newman (1917)
Trent Reznor, Atticus Ross e Jon Batiste (Soul)

MELHOR DESIGN DE PRODUÇÃO
Anne Kuljian e Grant Major (Mulan)
Claire Kaufman e Jess Gonchor (Adoráveis Mulheres)
Donald Graham Burt e Jan Pascale (Mank)
Juliana Lobo (Todos os Mortos)
Rodrigo Frota (Pacarrete)

MELHOR FIGURINO
Chris Garrido (Pacarrete)
Gabriella Marra (Todos os Mortos)
Jacqueline Durran (Adoráveis Mulheres)
Jany Temime (Judy: Muito Além do Arco-Íris)
Trish Summerville (Mank)

MELHOR SOM
Carlos Cortés, Jaime Baksht, Michelle Couttolenc, Nicolas Becker e Phillip Bladh (O Som do Silêncio)
Christophe Vingtrinier, Gabriela Cunha e Rubén Valdes (Todos os Mortos)
Coya Elliott, David Parker e Ren Klyce (Soul)
David Parker, Drew Kunin, Jeremy Molod, Nathan Nance e Ren Klyce (Mank)
Mark Taylor, Oliver Tarney, Rachael Tate e Stuart Wilson (1917)

MELHORES EFEITOS VISUAIS
Aevar Bjarnason, Jonathan Dearing, Marcus Bolton e Matt Ebb (O Homem Invisível)
Anders Langlands, Sean Andrew Faden, Seth Maury e Steve Ingram (Mulan)
Andrew Lockley, Andrew Jackson, David Lee e Scott R. Fisher (Tenet)
Bill Watral, Dana Murray, Michael Fong e Pete Docter (Soul)
Dominic Tuohy, Greg Butler e Guillaume Rocheron (1917)

MELHOR MAQUIAGEM & PENTEADOS
Adam Bailey, Anouck Sullivan e Sarah Hindsgaul (Estou Pensando em Acabar Com Tudo)
Anne Morgan, Kazu Hiro e Vivian Baker (O Escândalo)
Dannelle Satherley (Jojo Rabbit)
Eryn Krueger Mekash, Matthew W. Mungle e Patricia Dehaney (Era Uma Vez Um Sonho)
Jeremy Woodhead (Judy: Muito Além do Arco-Íris)

MELHOR CANÇÃO ORIGINAL
Abraham Marder, por “Green” (O Som do Silêncio)
Laura Mvula, por “Brighter Dawn” (Clemência)
Celeste e Daniel Pemberton, por “Hear My Voice” (Os 7 de Chicago)
Diane Warren e Laura Pausini, por “Io Sí (Seen)” (Rosa e Momo)
Sharon Van Etten, por “Staring at a Mountain” (Nunca, Raramente, Às Vezes, Sempre)

Os vencedores do Oscar 2021

Com os prêmios de filme, direção e atriz, Nomadland foi o grande vencedor do Oscar 2021.

Contrariando a opinião geral das redes sociais e da imprensa especializada, tenho para mim que a cerimônia do Oscar 2021 foi uma das melhores desde que comecei a acompanhar a premiação. De começo, o produtor Steven Soderbergh, ao lado de Jesse Collins e Stacey Sher, conseguiu reverter algo que me incomoda profundamente há anos: fazendo jus ao título do seu último filme, Let Them All Talk, ele pensou uma cerimônia onde os infinitos clipes com trechos de filmes e os intermináveis monólogos de incontáveis apresentadores ficaram em segundo plano para dar protagonismo ao discurso dos vencedores, que puderam falar por quanto tempo quiseram, rendendo momentos comoventes, como o da fala de Thomas Vinterberg ao receber o prêmio de melhor filme internacional (bastante comovido, o diretor dinamarquês homenageou a filha adolescente que faleceu durante as filmagens do longa em um acidente de carro). A majestosa entrada de Regina King percorrendo os corredores do Union Station para chegar até ao palco e apresentar o primeiro prêmio da noite seguiu a linha de valorizar quem tem o nome marcado na história do Oscar.

É importante lembrar que a criticada decisão de apresentar as categorias de melhor ator e melhor atriz depois de melhor filme não é invenção do Oscar 2021. Na realidade, essa foi uma tradição da Academia durante muitos anos, e não apenas uma jogada esperta dos produtores esperando que a cerimônia terminasse em seu mais alto tom de homenagem para o saudoso Chadwick Boseman (A Voz Suprema do Blues). O que mais gosto nessa decisão é o fato dos produtores terem entendido que as categorias de melhor atriz e ator se eram as mais aguardadas dessa edição, independentemente do resultado, superando inclusive melhor filme, que, convenhamos, sabíamos que seria entregue com muito mérito a Nomadland, de Chloé Zhao, também vencedora do prêmio de melhor direção (outro prêmio anunciado mais cedo, corroborando a intenção de preservar os melhores suspenses para o final). É bastante provável que, predominantemente verbalizada e sem chamariscos de números musicais, a audiência da cerimônia tenha caído drasticamente assim como a de todas as outras temporadas da premiação, o que nos leva a seguinte pergunta: quem é o público do Oscar e para quem ele deve ser feito? Não creio que seja destinado a quem está zapeando na TV e sintoniza para assistir apenas porque o Eminem está cantando. Dito isso, ter dado espaço absoluto para os vencedores faz novamente sentido.

Mais do que isso, as críticas à decisão de colocar as categorias de melhor ator e atriz para o final é uma plena injustiça com duas das melhores surpresas da cerimônia (e que orgulhosamente já estavam previstas nas minhas apostas). Anthony Hopkins é um verdadeiro monstro em Meu Pai, e sua vitória carrega não apenas o reconhecimento a um dos melhores atores de língua inglesa (e em franca atividade, vale lembrar, depois de outra indicação no ano passado por Dois Papas), mas também a coroação de uma das melhores interpretações masculinas a ganhar o Oscar de melhor ator nas últimas décadas. Chadwick Boseman teve o desempenho de sua carreira em A Voz Suprema do Blues, porém, considerando a competição, seu prêmio seria muito mais uma homenagem do que uma celebração ao desempenho em si. Hopkins mereceu, e isso é consenso. Enquanto isso, apesar da imprevisibilidade da categoria, parecia um tanto quanto inconcebível Frances McDormand perder como melhor atriz. Ela é o coração e a protagonista absoluta de Nomadland, além de trabalhar uma gama de nuances e delicadezas que não costuma lhe ser oportunizada com tanta frequência. Se há algo a reclamar de seu terceiro Oscar é o fato de ele vir depois de uma equivocada celebração por Três Anúncios Para Um Crime.

Para encerrar, minha felicidade foi equivalente entre as categorias técnicas, onde discordei somente das surpresas de melhor fotografia (o preto-e-branco de Mank é muito bonito, mas o trabalho desse segmento é fundamental para a imersão de Nomadland), já que a vitória de Judas e o Messias Negro em canção original foi de muito bom gosto (era, de fato, a melhor na categoria) e que a consagração de O Som do Silêncio em melhor montagem (uma vitória que eu não levava fé) revela uma Academia muito mais refinada no que diz respeito à categoria depois de vitórias bizarras ou óbvias como a de Bohemian Rhapsody e Ford vs. Ferrari. Claro que faria ajustes aqui e ali (a trilha de Minari me encanta muito mais do que a de Soul), mas, no geral, a cerimônia foi justa e equilibrada, sem parecer que os votantes quiseram optaram por uma distribuição de para fazer média. Gostos pela cerimônia à parte, tenho certeza que o Oscar 2021, quando avaliado daqui alguns anos (se não já agora), será lembrado justamente por isso: pela sua coerência e pela coragem ao fazer escolhas pontualmente autênticas, sendo coerente com o que a vitória de Parasita sinalizou ano passado – e não com as lembranças indigestas de Green Book ganhando o prêmio de melhor filme dois anos depois de Moonlight: Sob a Luz do Luar.

Confira abaixo a lista de vencedores:

MELHOR FILME: Nomadland
MELHOR DIREÇÃO: Chloé Zhao (Nomadland)
MELHOR ATRIZ: Frances McDormand (Nomadland)
MELHOR ATOR: Anthony Hopkins (Meu Pai)
MELHOR ATRIZ COADJUVANTE: Yuh-jung Youn (Minari)
MELHOR ATOR COADJUVANTE: Daniel Kaluuya (Judas e o Messias Negro)
MELHOR ROTEIRO ORIGINAL: Emerald Fennell (Bela Vingança)
MELHOR ROTEIRO ADAPTADO: Christopher Hampton e Florian Zeller (Meu Pai)
MELHOR FILME INTERNACIONAL: Druk: Mais Uma Rodada (Dinamarca)
MELHOR DOCUMENTÁRIO: Professor Polvo
MELHOR ANIMAÇÃO: Soul
MELHOR TRILHA SONORA: Jon Batiste, Trent Reznor e Atticus Ross (Soul)
MELHOR CANÇÃO ORIGINAL: D’Mile, H.E.R. e Tiara Thomas, por “Fight for You” (Judas e o Messias Negro)
MELHOR MONTAGEM: E.G. Nielsen (O Som do Silêncio)
MELHOR DESIGN DE PRODUÇÃO: Donald Graham Burt (Mank)
MELHOR FOTOGRAFIA: Erik Messerschmidt (Mank)
MELHOR FIGURINO: Ann Roth (A Voz Suprema do Blues)
MELHOR SOM: Carlos Cortés, Jaime Baksht, Michelle Couttolenc, Nicolas Becker e Phillip Bladh (O Som do Silêncio)
MELHOR MAQUIAGEM & PENTEADOS: Jamika Wilson, Mia Neal e Sergio Lopez-Rivera (A Voz Suprema do Blues)
MELHORES EFEITOS VISUAIS: Andrew Jackson, Andrew Lockley, David Lee e Scott R. Fisher (Tenet)
MELHOR CURTA-METRAGEM: Dois Estranhos
MELHOR CURTA-METRAGEM (DOCUMENTÁRIO): Colette
MELHOR CURTA-METRAGEM (ANIMAÇÃO): Se Algo Acontecer… Te Amo

Apostas para o Oscar 2021 (e também palpites, impressões e preferências acerca dos indicados)

Naquele que é, possivelmente, o ano mais atípico em toda a trajetória do Oscar, não faltaram filmes para todos os gostos. A pandemia pode ter afetado o calendário da temporada, mas não a qualidade geral dos filmes selecionados, considerando as devidas proporções, claro. Há pelo menos três longas indicados na categoria principal que já moram no meu coração, algo realmente muito raro de acontecer: Nomadland, Meu Pai e O Som do Silêncio. Muito diferentes entre si, Minari e Judas e o Messias Negro são dois ótimos relatos que, da técnica à emoção, transitam entre a delicadeza e energia, respectivamente. No mais, ainda que eu não seja fã de Bela Vingança e muito menos menos de Mank e Os 7 de Chicago, fica nítido que os três filmes reúnem torcidas e entusiastas, especialmente o primeiro. Hoje à noite, a partir das 21h, saberemos qual deles leva a melhor. Tudo leva a crer que o jogo está ganho para Nomadland, assim como já esteve para Boyhood, La La Land, Três Anúncios Para Um Crime e 1917, todos derrotados de última hora no Oscar. Ou seja, é prudente não descartar uma possível surpresa na categoria principal, inclusive porque o sistema de votação do Oscar para melhor filme se distingue do processo das demais premiações.

Nomadland é o favorito absoluto da categoria de melhor filme. Entretanto, vale sempre considerar a capacidade da Academia de surpreender.

Como forma de aquecimento para a cerimônia, faço aqui o meu ligeiro balanço das categorias principais e técnicas, começando, claro, com melhor filme, uma categoria bastante harmônica, talvez uma das mais equilibradas dos últimos anos. O favorito, repito, é Nomadland, que não perdeu um prêmio sequer nesta temporada, seja em sindicados ou em premiações televisionadas. E é difícil discordar: o que Chloé Zhao faz nesse filme é de uma delicadeza imensa. Lindo de ver e de sentir, Nomadland constrói uma ficção de contornos documentais para refletir sobre o íntimo e o coletivo de pessoas que resolveram largar tudo para viver na estrada, refletindo a realidade de diversas questões políticas e sociais dos Estados Unidos que são perfeitamente identificáveis em todos os cantos do mundo. De sofisticação equivalente, Meu Pai de Florian Zeller foi a grande surpresa da lista por fazer algo raro de se ver: a transposição de uma peça de teatro para o cinema sem qualquer vício ou linguagem dos palcos. Seria justo — e não necessariamente surpreendente — se esse filme performasse melhor do que o esperado na cerimônia. No entanto, meu sinal de alerta é para Os 7 de Chicago, dirigido pelo adorado Aaron Sorkin e que atende todos os pré-requisitos do público que adora um filme mais acadêmico e comportado.

Se a categoria de melhor filme tem um favorito claro seguido de outras possibilidades, o mesmo não acontece em melhor direção, onde o jogo já está ganho para Chloé Zhao. É para apostar de olhos fechados: ela será, sim, a segunda mulher a vencer o Oscar de direção em quase 100 anos de Oscar, fazendo par com Kathryn Bigelow, vencedora em 2010 por Guerra ao Terror. Essa categoria nos reservou uma das mais gratas surpresas da lista — a indicação de melhor direção para Thomas Vinterberg (Druk: Mais Uma Rodada) —, mas, em uma realidade paralela, a minha seleção teria dois ajustes: a substituição de David Fincher (Mank) por Florian Zeller (Meu Pai) e a de Emerald Fennell (Bela Vingança) por Regina King (Uma Noite em Miami…). Já entrando nas categorias de atuação, temos outra barbada: Daniel Kaluuya como melhor ator coadjuvante por Judas e o Messias Negro. Contesto radicalmente: Kaluuya está mais uma vez excelente, o que não justifica o redimensionamento de seu posto de protagonista a coadjuvante pelos prêmios, assim como acontece com o seu colega Lakeith Stanfield, também indicado. É preciso refutar esse tipo de fraude, o que me leva a torcer por Paul Raci com sua delicada performance em O Som do Silêncio. Situação semelhante de favoritismo vive Yuh-Jung Youn em melhor atriz coadjuvante com Minari. Além de ser uma coadjuvante — coisa que Maria Bakalova (Borat: Fita de Cinema Seguinte) e Olivia Colman (Meu Pai) não são —, ela dá um baile em Glenn Close (Era Uma Vez Um Sonho) e Amanda Seyfried (Mank).

Extraordinário em Meu Pai, Anthony Hopkins concorre a melhor ator. Caso aconteça, sua vitória seria uma das mais merecidas do Oscar 2021 (e das últimas décadas categoria).

Entre os protagonistas, a situação é mais embaralhada, quando não deliciosamente caótica, como é o caso de melhor atriz. Para quem chegou de última hora, a matemática explica: Andra Day (Estados Unidos vs. Billie Holiday) venceu o Globo de Ouro, Carey Mulligan (Bela Vingança) levou a melhor no Critics Choice, Viola Davis (A Voz Suprema do Blues) se consagrou no Screen Actors Guild Awards, Frances McDormand (Nomadland) faturou o BAFTA e Vanessa Kirby traz na bagagem o prêmio de melhor atriz no Festival de Veneza, que já antecipou prêmios como os de Olivia Colman (A Favorita) e Emma Stone (La La Land). É muito simples: faça unidunitê para fazer a sua aposta, pois todas têm narrativa para vencer nessa seleção bastante equilibrada. A versão que eu abraço é a de Frances McDormand, por ela estar maravilhosa em Nomadland, por ser o rosto absoluto do filme de Chloé Zhao e por protagonizar o grande favorito da temporada. Em melhor ator, o jogo parecia ganho até pouco tempo atrás para Chadwick Boseman (A Voz Suprema do Blues), em um prêmio mais de homenagem do que de merecimento, mas as duas derrotas consecutivas que ele sofreu nas últimas premiações (BAFTA e Independent Spirit Awards) parecem abrir caminho para o vencedor moral da categoria: Anthony Hopkins, em desempenho extraordinário. Particularmente, antes de Boseman e como segundo na fila, ainda prefiro Riz Ahmed, que tem, em O Som do Silêncio, uma virada de jogo na carreira.

Inclinado pela minha afeição a Meu Pai, acredito que a vitória de Anthony é possível porque também me parece que o filme de Florian Zeller tem chances em outras categorias, como melhor roteiro adaptado, uma vez que a adaptação é mesmo fantástica e que talvez os votantes entendam que o roteiro de Nomadland seja mais fruto do acaso e das histórias de pessoas reais que aparecem no filme do que de uma escrita de Chloé Zhao. Enquanto isso, em melhor roteiro original, Emerald Fennell deve receber a estatueta por Bela Vingança, garantindo a cota do filme na tendência distributivista adotada pelo Oscar nos últimos anos. Entretanto, vale sempre a pena ficar de olho em Aaron Sorkin (Os Sete de Chicago), autor de um roteiro que cai como uma luva para o gosto dos votantes mais conservadores da Academia. Por falar em tendência distributivista, outras categorias já parecem definidas, como melhor figurino e melhor cabelo e maquiagem para A Voz Suprema do Blues, melhor trilha e melhor animação para Soul, melhor filme internacional para Druk: Mais Uma Rodada, melhor fotografia para Nomadland e melhor som para O Som do Silêncio. Nas demais, jogo dividido entre candidatos específicos, o que exige nossa intuição na hora de apostar. Enfim, era isso! Nos vemos logo mais para comentar os vencedores? Não esqueçam de me seguir no Twitter (@mathpann) onde comentarei a cerimônia ao vivo. Espero vocês!

APOSTAS

MELHOR FILME: Nomadland / alt: Os 7 de Chicago
MELHOR DIREÇÃO: Chloé Zhao (Nomadland) / alt: Emerald Fennell (Bela Vingança)
MELHOR ATRIZ: Frances McDormand (Nomadland) / alt: Viola Davis (A Voz Suprema do Blues)
MELHOR ATOR: Anthony Hopkins (Meu Pai) / alt: Chadwick Boseman (A Voz Suprema do Blues)
MELHOR ATRIZ COADJUVANTE: Yuh-jung Youn (Minari) / alt: Glenn Close (Era Uma Vez Um Sonho)
MELHOR ATOR COADJUVANTE: Daniel Kaluuya (Judas e o Messias Negro) / alt: Paul Raci (O Som do Silêncio)
MELHOR ROTEIRO ORIGINAL: Emerald Fennell (Bela Vingança) / alt: Aaron Sorkin (Os 7 de Chicago)
MELHOR ROTEIRO ADAPTADO: Christopher Hampton e Florian Zeller (Meu Pai) / alt: Chloé Zhao (Nomadland)
MELHOR FILME INTERNACIONAL: Druk: Mais Uma Rodada (Dinamarca) / alt: Quo Vadis, Aida? (Bósnia e Herzegovina)
MELHOR DOCUMENTÁRIO: Professor Polvo / alt: Crip Camp: Revolução Pela Inclusão
MELHOR ANIMAÇÃO: Soul / alt: Wolfwalkers
MELHOR TRILHA SONORA: Jon Batiste, Trent Reznor e Atticus Ross (Soul) / alt: Emile Mosseri (Minari)
MELHOR CANÇÃO ORIGINAL: Diane Warren e Laura Pausini, por “Io Sí (Seen)” (Rosa e Momo) / alt: Leslie Odom Jr. e Sam Ashworth, por “Speak Now” (Uma Noite em Miami…
MELHOR MONTAGEM: Alan Baumgarten (Os 7 de Chicago) / alt: E.G. Nielsen (O Som do Silêncio)
MELHOR DESIGN DE PRODUÇÃO: Donald Graham Burt (Mank) / alt: Peter Francis (Meu Pai)
MELHOR FOTOGRAFIA: Joshua James Richards (Nomadland) / alt: Erik Messerschmidt (Mank)
MELHOR FIGURINO: Ann Roth (A Voz Suprema do Blues) / alt: Trish Summerville (Mank)
MELHOR SOM: Carlos Cortés, Jaime Baksht, Michelle Couttolenc, Nicolas Becker e Phillip Bladh (O Som do Silêncio) / alt: Coya Elliott, David Parker e Ren Klyce (Soul)
MELHOR MAQUIAGEM & PENTEADOS: Jamika Wilson, Mia Neal e Sergio Lopez-Rivera (A Voz Suprema do Blues) / alt: Dalia Colli, Francesco Pegoretti e Mark Coulier (Pinóquio)
MELHORES EFEITOS VISUAIS: Andrew Jackson, Andrew Lockley, David Lee e Scott R. Fisher (Tenet) / alt: Chris Lawrence, David Watkins, Matt Kasmir e Max Solomon (O Céu da Meia-Noite)

“O Som do Silêncio” é uma experiência bela, humana e sensorial que dispensa os clichês de filmes sobre deficiência

It just passes. It just fucking passes.

Direção: Darius Marder

Roteiro: Abraham Marder e Darius Marder, baseado em história de Darius Marder e Derek Cianfrance

Elenco: Riz Ahmed, Paul Raci, Olivia Cooke, Mathieu Almaric, Lauren Ridloff, Domenico Toledo, Chelsea Lee, Shaheem Sanchez, Chris Perfetti, Bill Thorpe, Michael Tow, Rena Maliszewski

Sound of Metal, EUA, 2019, Drama, 120 minutos

Sinopse: Um jovem baterista teme por seu futuro quando percebe que está gradualmente ficando surdo. Duas paixões estão em jogo: a música e sua namorada, que é integrante da mesma banda de heavy metal que o rapaz. Essa mudança drástica acarreta em muita tensão e angústia na vida do baterista, atormentado lentamente pelo silêncio. (Adoro Cinema)

Na comunidade de reabilitação voltada para pessoas surdas onde O Som do Silêncio desenvolve boa parte da sua história, todos recebem, com certa periodicidade, uma tarefa a ser cumprida. Alguns pregam madeiras, outros ajustam telhas, enquanto Ruben (Riz Ahmed), o baterista de um duo de heavy metal que está perdendo a audição de forma repentina e vertiginosa, recebe uma missão aparentemente simples, mas, para ele, profundamente complexa: “aprender a ser surdo”.

Tal missão diz muito sobre o protagonista e sobre como O Som do Silêncio desenha sua trajetória com melancolia. Ao abraçar os dilemas de um homem que fica sem chão após perder sua conexão vital com a música e que se recusa a aceitar uma condição irreversível, o diretor Darius Marder refuta os didatismos comumente adotados pelo cinema no arco da “superação” de uma deficiência para focar na jornada interna de um protagonista que, em plena negação quanto a uma nova realidade, é tomado de maneira cumulativa por um sentimento de não pertencimento.

O que torna O Som do Silêncio um filme assertivo na emoção é a sua estreita aproximação com a realidade e com o mínimo de intervenções possíveis por parte de Marder para glamourizar ou espetacularizar o sofrimento do protagonista, o que já se traduz na ideia de ambientar suas vivências em uma comunidade de pessoas surdas. É inteligente porque, ao estar nesse ambiente, Ruben primeiro terá que se reconhecer nas pessoas que agora passam a ser seus semelhantes para somente depois voltar ao mundo como ele antes conhecia.

Primeiro ator de origem muçulmana indicado ao Oscar, Riz Ahmed estudou seis meses de bateria para performar as cenas onde Ruben demonstra todo o seu talento musical. Contudo, as pérolas do ator estão nos momentos em que ele interage com a comunidade surda, aqui representada por pessoas que de fato vivem com a deficiência. Os olhares de estranhamento e, aos poucos, de compreensão que Ahmed dirige aos surdos com os quais ele aprende e convive são tocantes, pois misturam a dor, a angústia, as contradições e, por fim, a evolução de um homem que, apesar da resistência e dos sonhos perdidos, terá que se (re)conhecer como surdo para encontrar novos sentidos e propósitos. É um desempenho excepcional e que, com certeza, marca um novo momento na carreira do ator.

Em certo ponto, Ruben é apadrinhado por Joe, personagem vivido com grande delicadeza por Paul Raci. Coordenador da clínica e um homem que já viu muita coisa na vida, ele clamará pelas mudanças e pelas transformações internas tão rejeitadas pelo protagonista. Joe sabe que as coisas simplesmente não podem mais ser as mesmas quando alguém perde a audição, e sua determinação em transmitir isso para toda a comunidade e especialmente para Ruben é muito humana e natural. A dinâmica estabelecida entre ele e o personagem de Ahmed é um dos pontos altos de O Som do Silêncio porque envolve sabedoria e generosidade mesmo quando as ações e as opiniões dos personagens entram em conflito.

Surpreende esse ser o primeiro longa-metragem de ficção dirigido por Darius Marder tamanha a disciplina das emoções que ele administra com propriedade e a sua maturidade ao abordar um tema frequentemente banhado em clichês para transformá-lo em uma viagem interna e existencial. Marder parece ter tirado o melhor proveito de seu convívio ao lado do diretor Derek Cianfrance (Namorados Para Sempre, I Know This Much is True), com quem colaborou ao escrever o roteiro do subestimado O Lugar Onde Tudo Termina, absorvendo toda a sua vocação para narrar histórias essencialmente trágicas, mas que jamais se rendem ao histrionismo ou a caminhos simples. O que vemos em O Som do Silêncio é, portanto, um roteirista que segue amadurecendo e que, agora em seu primeiro longa de ficção, passa a se lapidar como um diretor muito promissor.

É importante dar o devido reconhecimento a quem consegue fazer essa transição com pleno êxito porque é frequente o número de roteiristas cujo talento simplesmente não se traduz na cadeira de direção. Um exemplo recente capaz de ilustrar essa tese é o de Aaron Sorkin, autor de roteiros versáteis e respeitados como os de A Rede Social e que agora dirige longas-metragens tradicionais até o último fio de cabelo como Os 7 de Chicago.

Sendo assim, conduzido por um cineasta que faz uma fina leitura de seu próprio texto, O Som do Silêncio esbanja delicadeza no belo trabalho de som que aqui e ali reproduz a (falta de) audição de seu protagonista, no desenho de personagens muito bem explorados (até mesmo a pequena participação do francês Mathieu Almaric é repleta de ressignificados), na ideia de que a deficiência não é algo a ser superado mas sim uma condição que faz parte de quem a tem e, claro, na construção dos desempenhos de Riz Ahmed e Paul Raci. Frente a tudo isso, fica, para mim, a certeza de que ainda vou revisitar O Som do Silêncio muitas vezes.

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