Cinema e Argumento

Os indicados ao BAFTA 2026

Uma Batalha Após a Outra lidera lista do BAFTA com 14 indicações.

O BAFTA 2026 gravita entre os favoritismos de Uma Batalha Após a Outra e Pecadores, assim como repete o volume de indicações já dado a títulos como Hamnet e Valor Sentimental em outras premiações. Isso quer dizer que os britânicos pouco mexem no tabuleiro geral da corrida pelo Oscar, que, aliás, revelou seus indicados antes do BAFTA. Mesmo as indicações mais bairristas, como todas recebidas por I Swear, ou a de Carey Mulligan em melhor atriz coadjuvante por The Ballad of Wallis Island, são casos isolados e sem chances de levar estatuetas para casa. Como mais do mesmo, o BAFTA desempenhará apenas o papel de confirmar muito do que já sabemos e, eventualmente, o de iluminar favoritos em categorias técnicas ausentes em outros termômetros importantes da temporada. A cerimônia acontece no dia 22 de fevereiro.

Confira abaixo os indicados:

MELHOR FILME
Uma Batalha Após a Outra
Hamnet: A Vida Antes de Hamlet
Marty Supreme
Pecadores
Valor Sentimental

MELHOR FILME BRITÂNICO
The Ballad of Wallis Island
Bridget Jones: Louca pelo Garoto
Extermínio: A Evolução
H is for Hawk
Hamnet: A Vida Antes de Hamlet
I Swear
Morra, Amor
Mr. Burton
Pillion
Steve

MELHOR DIREÇÃO
Chloé Zhao (Hamnet: A Vida Antes de Hamlet)

Joachim Trier (Valor Sentimental)
Josh Safdie (Marty Supreme)
Paul Thomas Anderson (Uma Batalha Após a Outra)
Ryan Coogler (Pecadores)
Yorgos Lanthimos (Bugonia)

MELHOR ATRIZ
Chase Infiniti (Uma Batalha Após a Outra)
Emma Stone (Bugonia)
Jessie Buckley (Hamnet: A Vida Antes de Hamlet)
Kate Hudson (Song Sung Blue: Um Sonho a Dois)
Renate Reinsve (Valor Sentimental)
Rose Byrne (Se Eu Tivesse Pernas, Eu Te Chutaria)

MELHOR ATOR
Ethan Hawke (Blue Moon)
Jesse Plemons (Bugonia)
Leonardo DiCaprio (Uma Batalha Após a Outra)
Michael B. Jordan (Pecadores)
Robert Aramayo (I Swear)
Timothée Chalamet (Marty Supreme)

MELHOR ATRIZ COADJUVANTE
Carey Mulligan (The Ballad of Wallis Island)
Emily Watson (Hamnet: A Vida Antes de Hamlet)
Inga Ibsdotter Lilleaas (Valor Sentimental)
Odessa A’zion (Marty Supreme)
Teyana Taylor (Uma Batalha Após a Outra)
Wunmi Mosaku (Pecadores)

MELHOR ATOR COADJUVANTE
Benicio Del Toro (Uma Batalha Após a Outra)
Jacob Elordi (Frankenstein)
Paul Mescal (Hamnet: A Vida Antes de Hamlet)
Peter Mullan (I Swear)

Sean Penn (Uma Batalha Após a Outra)
Stellan Skarsgård (Valor Sentimental)

MELHOR ESCALAÇÃO DE ELENCO
Uma Batalha Após a Outra
I Swear
Marty Supreme
Pecadores
Valor Sentimental

MELHOR ROTEIRO ORIGINAL
O Agente Secreto
I Swear
Marty Supreme
Pecadores
Valor Sentimental

MELHOR ROTEIRO ADAPTADO
The Ballad of Wallis Island
Uma Batalha Após a Outra
Bugonia
Hamnet: A Vida Antes de Hamlet
Pillion

MELHOR FILME EM LÍNGUA NÃO-INGLESA
O Agente Secreto (Brasil)
Foi Apenas um Acidente
(França)

Valor Sentimental (Noruega)
Sirāt (Espanha)
A Voz de Hind Rajab (Tunísia)

MELHOR DOCUMENTÁRIO
A 2000 Metros de Andriivka
Apocalipse nos Trópicos
Cover-Up
Mr. Nobody Against Putin
A Vizinha Perfeita

MELHOR ANIMAÇÃO
Elio
A Pequena Amélie
Zootopia 2

MELHOR FILME PARA CRIANÇAS E FAMÍLIA
Arco
Boong
Lilo & Stitch
Zootopia 2

MELHOR MONTAGEM
Uma Batalha Após a Outra
Casa de Dinamite
F1: O Filme
Marty Supreme
Pecadores

MELHOR FOTOGRAFIA
Uma Batalha Após a Outra
Frankenstein
Marty Supreme
Pecadores
Sonhos de Trem

MELHOR TRILHA SONORA
Uma Batalha Após a Outra
Bugonia
Frankenstein
Hamnet: A Vida Antes de Hamlet
Pecadores

MELHOR DESIGN DE PRODUÇÃO
Uma Batalha Após a Outra
Frankenstein
Hamnet: A Vida Antes de Hamlet
Marty Supreme
Pecadores

MELHOR FIGURINO
Frankenstein
Hamnet: A Vida Antes de Hamlet
Marty Supreme
Pecadores
Wicked: Parte 2

MELHOR SOM
Uma Batalha Após a Outra
F1: O Filme
Frankenstein
Pecadores
Tempo de Guerra

MELHORES EFEITOS VISUAIS
Avatar: Fogo e Cinzas
Como Treinar o Seu Dragão
F1: O Filme
Frankenstein
O Ônibus Perdido

MELHOR CABELO E MAQUIAGEM
Frankenstein
Hamnet: A Vida Antes de Hamlet
Marty Supreme
Pecadores
Wicked: Parte 2

MELHOR ESTREIA DE DIRETOR, PRODUTOR OU ROTEIRISTA BRITÂNICO
The Ceremony
My Father’s Shadow
Pillion
A Want In Her
Wasteman

MELHOR CURTA BRITÂNICO
Magid / Zafar
Nostalgie
Terence
This Is Endometriosis
Welcome Home Freckles

MELHOR CURTA BRITÂNICO DE ANIMAÇÃO
Cardboard
Solstice
Two Black Boys in Paradise

EE RISING STAR
Archie Madekwe
Chase Infiniti
Miles Caton
Posy Sterling
Robert Aramayo

Os indicados ao Oscar 2026

Lembrado em 16 categorias, Pecadores é o novo recordista de indicações ao Oscar.

Não são poucos os filmes do Oscar 2026 que concorrem em várias categorias, a começar por Pecadores, agora detentor do recorde absoluto de indicações ao prêmio da Academia em seus quase 100 anos de existência. O longa de Ryan Coogler disputa nada menos do que 16 estatuetas, ultrapassando as estatísticas de títulos como Titanic, A Malvada e La La Land: Cantando Estações. Ele é seguido de perto por Uma Batalha Após a Outra, indicado a 13. Já Marty Supreme, Frankenstein e Valor Sentimental aparecem com nove. Os números refletem um ano forte e, acima de tudo, diverso em gêneros e nacionalidades. Resta saber qual será a lógica do Oscar na hora de mapear seus vencedores diante dessa gama.

Para o Brasil, em termos de indicações, as notícias são excelentes. Pelo segundo ano consecutivo, estamos disputando a categoria principal de melhor filme, dessa vez, com O Agente Secreto, lembrado ainda em melhor ator para Wagner Moura, melhor filme internacional e melhor escalação de elenco, a mais nova categoria criada pela Academia. O paulista Adolpho Veloso também nos representa com a indicação de melhor fotografia para Sonhos de Trem. A disputa é árdua — afinal, Valor Sentimental, que parecia ter perdido o fôlego com os resultados do Critics’ Choice e do Globo de Ouro, recobrou forças com expressivas nove indicações —, mas, tratando-se de Oscar, tudo pode acontecer até o último minuto antes da cerimônia, a ser realizada no dia 16 de março.

Abaixo, algumas outras considerações sobre a lista de indicados:

Valor Sentimental emplaca, merecidamente, quatro indicações individuais para seus atores, mas fica de fora da categoria de melhor escalação de elenco. Difícil entender como um filme com interpretações tão celebradas não se configura automaticamente como um indicado da categoria estreante;

– Entre os reconhecimentos dados ao filme de Joachim Trier, fico feliz, em especial, pela lembrança à Elle Fanning em atriz coadjuvante, que já era praticamente dada como carta fora do baralho. Não deveria ser sua estreia no Oscar: no ano passado, em meio ao exagero de indicações para Um Completo Desconhecido, Fanning deveria ter concorrido ao lado de Monica Barbaro;

– É de se chatear que Paul Mescal tenha ficado de fora por sua performance em Hamnet, que concorre em oito categorias. Ao mesmo tempo, a entrada de Delroy Lindo (Pecadores) traz surpresa e frescor à categoria, além de ser justo o reconhecimento a um ótimo ator;

 – De dez indicações pelo primeiro filme a zero pelo segundo, Wicked teve o pior desempenho entre todos os candidatos em potencial dessa temporada. Chega a ser até chocante que o Oscar tenha garimpado uma canção do documentário Viva Verdi! para não indicar qualquer uma das duas canções originais do musical de John M. Chu;

– Ainda fico surpreso com tanto amor depositado em Bugonia, finalista em melhor filme, atriz (Emma Stone), roteiro adaptado e trilha sonora. É um trabalho pueril, com discursos óbvios e que, assim como aconteceu em Tipos de Gentileza, mostra que, talvez, Yorgos Lanthimos esteja fazendo coisas demais em pouco tempo;

– Qual a razão de indicar mais uma vez Diane Warren a melhor canção? Azarada nata da categoria, concorreu 17 vezes ao longo da carreira e perdeu de todos os jeitos possíveis. Não à toa, a Academia já lhe outorgou um prêmio honorário. Precisa mesmo concorrer mais uma vez por uma canção esquecível?

– A vaga ocupada por F1: O Filme na categoria principal causou certo espanto, mas me parece coerente: com o declínio de Wicked e Avatar: Fogo e Cinzas na temporada, Hollywood tinha de encontrar algum blockbuster para representar o cinema comercial na seleção principal. Só é uma pena que isso tenha acontecido às custas do reconhecimento ao ótimo Foi Apenas Um Acidente;

– Kate Hudson entrou praticamente de última hora na categoria de melhor atriz pelo fraquíssimo Song Sung Blue: Um Sonho a Dois, escanteando Chase Infiniti (Uma Batalha Após a Outra). Não é só injustiça com Chase: outras interpretações reconhecidas na temporada mereciam muito mais, como as de Jennifer Lawrence (Morra, Amor), Julia Roberts (Depois da Caçada) e Tessa Thompson (Hedda).

Confira a lista completa de indicados:

MELHOR FILME
O Agente Secreto
Uma Batalha Após a Outra
Bugonia
F1: O Filme
Frankenstein
Hamnet: A Vida Antes de Hamlet
Marty Supreme
Pecadores
Sonhos de Trem
Valor Sentimental

MELHOR DIREÇÃO
Chloé Zhao (Hamnet: A Vida Antes de Hamlet)
Joachim Trier (Valor Sentimental)
Josh Safdie (Marty Supreme)
Paul Thomas Anderson (Uma Batalha Após a Outra)
Ryan Coogler (Pecadores)

MELHOR ATRIZ
Emma Stone (Bugonia)
Jessie Buckley (Hamnet: A Vida Antes de Hamlet)
Kate Hudson (Song Sung Blue: Um Sonho a Dois)
Renate Reinsve (Valor Sentimental)
Rose Byrne (Se Eu Tivesse Pernas, Eu Te Chutaria)

MELHOR ATOR
Ethan Hawke (Blue Moon)
Leonardo DiCaprio (Uma Batalha Após a Outra)
Michael B. Jordan (Pecadores)
Timothée Chalamet (Marty Supreme)
Wagner Moura (O Agente Secreto)

MELHOR ATRIZ COADJUVANTE
Amy Madigan (A Hora do Mal)
Elle Fanning (Valor Sentimental)
Inga Ibsdotter Lilleaas (Valor Sentimental)
Teyana Taylor (Uma Batalha Após a Outra)
Wunmi Mosaku (Pecadores)

MELHOR ATOR COADJUVANTE
Benicio Del Toro (Uma Batalha Após a Outra)

Delroy Lindo (Pecadores)
Jacob Elordi (Frankenstein)
Sean Penn (Uma Batalha Após a Outra)
Stellan Skarsgård (Valor Sentimental)

MELHOR ESCALAÇÃO DE ELENCO
O Agente Secreto
Uma Batalha Após a Outra
Hamnet: A Vida Antes de Hamlet
Marty Supreme
Pecadores

MELHOR ROTEIRO ORIGINAL
Blue Moon
Foi Apenas um Acidente
Marty Supreme
Pecadores
Valor Sentimental

MELHOR ROTEIRO ADAPTADO
Uma Batalha Após a Outra
Bugonia
Frankenstein
Hamnet: A Vida Antes de Hamlet
Sonhos de Trem

MELHOR FILME INTERNACIONAL
O Agente Secreto (Brasil)
Foi Apenas um Acidente (França)
Sirāt (Espanha)
Valor Sentimental (Noruega)
A Voz de Hind Rajab (Tunísia)

MELHOR DOCUMENTÁRIO
Alabama: Presos do Sistema
Cutting Through Rocks
Embaixo da Luz Neon
Mr. Nobody Against Putin
A Vizinha Perfeita

MELHOR ANIMAÇÃO
Arco
Elio
Guerreiras do K-Pop
A Pequena Amélie
Zootopia 2

MELHOR MONTAGEM
Uma Batalha Após a Outra
F1: O Filme
Marty Supreme
Pecadores
Valor Sentimental

MELHOR FOTOGRAFIA
Uma Batalha Após a Outra
Frankenstein
Marty Supreme
Pecadores
Sonhos de Trem

MELHOR DESIGN DE PRODUÇÃO
Uma Batalha Após a Outra
Frankenstein
Hamnet: A Vida Antes de Hamlet
Marty Supreme
Pecadores

MELHOR FIGURINO
Avatar: Fogo e Cinzas
Frankenstein
Hamnet: A Vida Antes de Hamlet
Marty Supreme
Pecadores

MELHOR TRILHA SONORA
Uma Batalha Após a Outra
Bugonia
Frankenstein
Hamnet: A Vida Antes de Hamlet
Pecadores

MELHOR CANÇÃO ORIGINAL
“Dear Me” (Diane Warren: Relentless)
“Golden” (Guerreiras do K-Pop)
“I Lied to You” (Pecadores)
“Sweet Dreams of Joy” (Viva Verdi!)
“Train Dreams” (Sonhos de Trem)

MELHOR SOM
Uma Batalha Após a Outra
F1: O Filme
Frankenstein
Pecadores
Sirāt

MELHORES EFEITOS VISUAIS
Avatar: Fogo e Cinzas
F1: O Filme
Jurassic World: Recomeço
O Ônibus Perdido
Pecadores

MELHOR MAQUIAGEM E CABELO
Coração de Lutador: The Smashing Machine
Frankenstein
Kokuho
A Meia-Irmã Feia
Pecadores

MELHOR CURTA-METRAGEM
Butcher’s Stain
A Friend of Dorothy
Jane Austen’s Period Drama
The Singers
Two People Exchanging Saliva

MELHOR CURTA-METRAGEM DE ANIMAÇÃO
Butterfly
Forevergreen
The Girl Who Cried Pearls
Retirement Plan
The Three Sisters

MELHOR CURTA-METRAGEM DE DOCUMENTÁRIO
All the Empty Rooms
Armed Only with a Camera: The Life and Death of Brent Renaud
Children No More: Were and Are Gone
The Devil Is Busy
Perfectly a Strangeness

“Hamnet” é sobre o homem, não o ícone — e, mais ainda, sobre a mulher que definiu a sua vida

The rest is silence.

Direção: Chloé Zhao

Roteiro: Chloé Zhao e Maggie O’Farrell, baseado no romance “Hamnet: A Novel of the Plague”, de Maggie O’Farrell

Elenco: Jessie Buckley, Paul Mescal, Emily Watson, Joe Alwyn, Jacobi Jupe, Noah Jupe, Olivia Lynes, Bodhi Rae Breathnach, David Wilmot, Freya Hannan-Mills, Dainton Anderson, James Skinner, Louisa Harland

Hamnet, Reino Unido/Estados Unidos, 2025, Drama, 125 minutos

Sinopse: Um dos mais importantes escritores do cânone ocidental, William Shakespeare (Paul Mescal) vive uma tragédia ao lado de sua esposa Agnes (Jessie Buckley) quando o casal perde o filho de 11 anos para uma das várias pragas que assolaram o século XVI. Hamnet era o nome do menino. Explorando os temas da perda e da morte, o filme acompanha a rotina e o dia a dia de uma família, as alegrias e as tristezas de viver numa pequena vila na Inglaterra do passado e a história de amor poderosa que inspirou a criação da peça Hamlet.

Há poucas certezas e muitas conjecturas no que se sabe sobre a vida pessoal do dramaturgo inglês William Shakespeare (1564 – 1616). Tanto que a escritora Maggie O’Farrell e a diretora Chloé Zhao, tomaram a liberdade de abraçar a imaginação na confecção do roteiro de Hamnet: A Vida Antes de Hamlet, que deixa quase em segundo plano o Shakespeare autor para adentrar as possibilidades de quem ele teria sido como um homem comum. E o ponto de vista adotado pelo longa não poderia ser mais humano em sua cotidianidade: o de Agnes (Jessie Buckley), mulher com quem William (Paul Mescal) escolheu viver sua vida e com quem teve três filhos.

Conhecendo-se a filmografia da chinesa Chloé Zhao, a abordagem não vem como nenhuma surpresa. Pelo contrário: a delicadeza inerente aos seus trabalhos autorais distancia Hamnet da ideia que temos de uma mera cinebiografia para aproximá-lo de um drama palpável e muito próximo do espectador. Ou seja, não se trata de uma obra que pretende reverenciar o ícone William Shakespeare e olhar pela fechadura de sua vida íntima. Todos saem ganhando: Zhao, que pode fazer um filme com a sua assinatura; e a própria plateia, que não se vê enredada em mais uma cinebiografia pretensiosa ou enfadonha.

Se, por um lado, a estrutura do texto nem sempre funciona — Hamnet avança a partir de inúmeras elipses, o que suprime a reverberação de determinadas construções dramáticas —, todo o resto compensa eventuais efeitos colaterais, como o próprio ritmo da história. Isso é perceptível desde a primeira cena, centrada em Agnes e já fundamental para entendermos o quanto sua relação com a natureza e com o místico terá papel importante na relação com William e até mesmo na tragédia que acometeu um dos seus três filhos. Tragédia essa que acabou levando o dramaturgo a criar Hamlet, possivelmente sua obra mais icônica.

Como a observação do encontro entre duas pessoas comuns, Hamnet nos apresenta a uma Agnes deslocada, tida em sua cidade como “a filha de uma bruxa da floresta”, em função do poder que teria de ver o futuro das pessoas apenas ao tocar em suas mãos. Em casa, excetuando a relação com o irmão, tem pouca conexão com a família, que já lhe cobra um casamento. Em William, ela encontra um semelhante: tutor de latim, ele também tem lá seus percalços familiares e confessa ter dificuldade em se comunicar com as pessoas. A aproximação é imediata, e Agnes logo entende que tudo se dá porque ele a ama por quem ela é, não por aquilo que os outros querem que ela seja.

Não tarda para que Hamnet comece a desconstruir o relacionamento, a começar pela maneira com que explora a insatisfação de William consigo mesmo. Ele teme beber demais, ter rompantes violentos ou, quem sabe, precisar de uma morada em Londres onde possa desenvolver seu lado de autor. Agnes aceita e o que vem dessa decisão muda para sempre a dinâmica entre os dois: longe de casa, ela terá filhos sem a presença do marido — e, eventualmente, perderá um deles amparada apenas pela sogra, vivida por Emily Watson em papel pequeno, mas de presença forte.

Entre as várias elipses do filme, Chloé Zhao ora encena a sinergia muito verossímil de uma família feliz quando William está presente, ora o profundo abismo em que Agnes se encontra com a ausência de um homem cujo trabalho ela sequer conhece — enquanto imaginava que Shakespeare escrevia uma comédia, ele estreava, na verdade, uma tragédia que, antes mesmo de estrear, já despertava o boca-a-boca do público londrino. É um arco sempre doloroso o do casal outrora feliz que se desintegra, ainda mais quando acometido por um luto indescritível, e Zhao, sabendo disso, faz o mínimo de intervenções técnicas ou estéticas para sublinhar o drama.

Há quem diga que o filme manipula emoções e que se regozija no sofrimento dos personagens para ensaiar algum estofo. Assim como nos recentes Morra, Amor e Se Eu Tivesse Pernas, Eu Te Chutaria — outras duas obras que, cada uma à sua maneira, discute o pesado fardo da maternidade —, discordo de tal afirmação porque sou profundamente solidário aos conflitos das personagens e, como homem, acredito ser no mínimo pretensioso ou equivocado o conceito de tentar dimensionar as profundezas dos dilemas femininos, em especial os maternos. Para mim, foram três sessões que só me trouxeram ainda mais empatia pelas mulheres.

Gostando-se ou não de Hamnet, creio ser impossível sair ileso à sequência final, que coloca no palco, enfim, o Hamlet de William Shakespeare como viemos o conhecer em sua influência dramatúrgica mundial. Ao mesmo tempo, tudo ganha um novo sentido ali depois de tudo que testemunhamos. É quando Zhao termina seu longa no auge, por diversas razões. Talvez porque ali estejam melhor exemplificadas as maravilhosas performances de Jessie Buckley e Paul Mescal. Ou, então, porque ela reverbera a sempre comovente mensagem de como a arte é capaz de expurgar e ressignificar as dores mais intransponíveis. Contudo, desconfio que seja mesmo porque ali estão concentrados, de vez, os sentimentos mais verdadeiros e profundos que Chloé Zhao e Maggie O’Farrell quiseram extrair do específico mundo de Shakespeare para que se tornassem universais, como todo bom drama produzido pelo cinema.

Os vencedores do Globo de Ouro 2026 (e deu Brasil de novo, agora em dose dupla!)

Wagner Moura e o seu Globo de Ouro de melhor ator em filme de drama por O Agente Secreto.

É mais do que oficial: o cinema brasileiro vive uma verdadeira era de ouro. Não bastasse o Globo de Ouro de melhor atriz em filme de drama para Fernanda Torres e o Oscar de melhor filme internacional para Ainda Estou Aqui em 2025, agora O Agente Secreto garante nosso protagonismo na temporada de premiações pelo segundo ano consecutivo. E, mesmo já colecionando consagrações desde o Festival de Cannes, é novamente no Globo de Ouro que um representante brasileiro vê suas chances serem consolidadas na corrida pelo Oscar. O resultado, aliás, foi melhor do que o imaginado: não só o favoritismo de Wagner Moura se confirmou na categoria de melhor ator em drama, como o próprio O Agente Secreto acabou levando o prêmio de melhor filme em língua não-inglesa. A segunda conquista dá enorme gás para a produção pernambucana porque ela foi capaz de desbancar Valor Sentimental, indicado em nada menos do que oito categorias, e Foi Apenas Um Acidente, que concorria em segmentos importantíssimos como os de direção e roteiro. É uma vitória triunfante e que muda de forma radical o jogo na disputa entre os filmes internacionais. Os caminhos abertos por Ainda Estou Aqui realmente não foram poucos.

Outros ótimos momentos de uma cerimônia bastante em discursos e seus respectivos posicionamentos diante do que vem acontecendo no mundo e, mais especificamente, nos Estados Unidos, ficaram por conta dos coadjuvantes. Primeiro, Teyana Taylor voltou a tomar a dianteira na disputa de atriz coadjuvante com seu reconhecimento por Uma Batalha Após a Outra. Logo em seguida, no mesmo bloco, Stellan Skarsgård foi escolhido o melhor ator coadjuvante por Valor Sentimental. Ambos os troféus movimentam disputas ainda suscetíveis a mudanças daqui para a frente, o que é sempre muito bom para qualquer temporada. O Globo de Ouro também não fez mais do mesmo em melhor filme de drama, desbancando o favorito Pecadores — que acabou vitorioso na categoria de conquista cinematográfica e de bilheteria — para premiar Hamnet: A Vida Antes de Hamlet. A surpresa é excelente notícia para Jessie Buckley, pois evidencia o quanto sua celebração em melhor atriz vem ampliada pelo amor ao filme de Chloé Zhao. E, por falar em amor, acho que já dá para dizer que Uma Batalha Após a Outra é mesmo imparável. Definitivamente, chegou a hora de Paul Thomas Anderson.

Confira abaixo a lista de vencedores:

CINEMA

MELHOR FILME DE DRAMA: Hamnet: A Vida Antes de Hamlet
MELHOR FILME DE COMÉDIA/MUSICALUma Batalha Após a Outra
MELHOR DIREÇÃO: Paul Thomas Anderson (Uma Batalha Após a Outra)

MELHOR ATRIZ EM FILME DE DRAMA: Jessie Buckley (Hamnet: A Vida Antes de Hamlet)
MELHOR ATRIZ EM FILME DE COMÉDIA/MUSICAL: Rose Byrne (Se Eu Tivesse Pernas, Eu te Chutaria)
MELHOR ATOR EM FILME DE DRAMA: Wagner Moura (O Agente Secreto)
MELHOR ATOR EM FILME DE COMÉDIA/MUSICAL: Timothée Chalamet (Marty Supreme)
MELHOR ATRIZ COADJUVANTE: Teyana Taylor (Uma Batalha Após a Outra)
MELHOR ATOR COADJUVANTE: Stellan Skarsgård (Valor Sentimental)
MELHOR ROTEIROUma Batalha Após a Outra
MELHOR FILME EM LÍNGUA NÃO-INGLESAO Agente Secreto (Brasil)

MELHOR ANIMAÇÃOGuerreiras do K-Pop
MELHOR TRILHA SONORAPecadores

MELHOR CANÇÃO ORIGINAL: “Golden” (Guerreiras do K-Pop)
CONQUISTA CINEMATOGRÁFICA E DE BILHETERIA: Pecadores

SÉRIES, MINISSÉRIES E TELEFILMES

MELHOR SÉRIE DE DRAMAThe Pitt
MELHOR SÉRIE DE COMÉDIAThe Studio
MELHOR MINISSÉRIE OU TELEFILMEAdolescência

MELHOR ATRIZ EM SÉRIE DE DRAMA: Rhea Seehorn (Pluribus)
MELHOR ATOR EM SÉRIE DE DRAMA: Noah Wyle (The Pitt)
MELHOR ATRIZ EM SÉRIE DE COMÉDIA: Jean Smart (Hacks)
MELHOR ATOR EM SÉRIE DE COMÉDIA: Seth Rogen (The Studio)
MELHOR ATRIZ EM MINISSÉRIE OU TELEFILME: Michelle Williams (Morrendo por Sexo)
MELHOR ATOR EM MINISSÉRIE OU TELEFILME: Stephen Graham (Adolescência)
MELHOR ATRIZ COADJUVANTE EM SÉRIE, MINISSÉRIE OU TELEFILME: Erin Doherty (Adolescência)
MELHOR ATOR COADJUVANTE EM SÉRIE, MINISSÉRIE OU TELEFILME: Owen Cooper (Adolescência)
MELHOR PERFORMANCE DE STAND-UP: Ricky Gervais (Ricky Gervais: Mortality)

Apostas para o Globo de Ouro 2026

Quem diria que, após tantos anos ausente na corrida pelo Oscar, o cinema brasileiro teria duas temporadas consecutivas com chances reais de cair nas graças da Academia e ainda conquistar outras estatuetas pelo caminho? E é novamente no Globo de Ouro que temos as maiores chances: se Fernanda Torres se consagrou como melhor atriz em filme de drama no ano passado com Ainda Estou Aqui, agora é Wagner Moura quem chega forte na competição de melhor ator com O Agente Secreto. Wagner se beneficia da divisão de drama e comédia no Globo de Ouro porque o favorito da temporada até aqui — Timothée Chalamet com Marty Supreme — concorre em uma categoria diferente. Também não seria surpresa ver o próprio filme de Kleber Mendonça Filho ganhando entre as produções de língua não-inglesa, visto, por exemplo, a recente vitória no Critics’ Choice Awards em cima do favorito Valor Sentimental. Há motivos para muita torcida!

Para os segmentos principais, não vejo como Uma Batalha Após a Outra possa ser desbancado em melhor filme de comédia/musical e direção. Trata-se do Oppenheimer deste ano: ao que tudo indica, desde já, é favorito absoluto ao Oscar e em todas as premiações que percorrerá até lá. Pecadores também deve confirmar sua ótima repercussão com o prêmio de melhor filme de drama, além de algum outro como trilha sonora e conquista cinematográfica/box office. O Globo também deve esclarecer se Amy Madigan (A Hora do Mal) tem mesmo o favorotismo para romper barreiras e ser premiada em melhor atriz coadjuvante por um terror. E Jacob Elordi? Será que ele, também, coadjuvante, foi apenas um caso isolado do Critics’ Choice ou tem mesmo a preferência na temporada por sua performance em Frankenstein? Em séries e minisséries, pouco a especular: basicamente todas as categorias são encabeçadas por candidatos que já gabaritaram outras premiações.

O Globo de Ouro será transmitido a partir das 21h30 no canal TNT e na plataforma de streaming HBO Max. Já a Rede Globo exibe a premiação após o fim do Fantástico.

Confira abaixo as minhas apostas:

CINEMA

MELHOR FILME DE DRAMA: Pecadores / alt: Hamnet: A Vida Antes de Hamlet
MELHOR FILME DE COMÉDIA/MUSICAL: Uma Batalha Após a Outra / alt: Marty Supreme
MELHOR DIREÇÃO: Paul Thomas Anderson (Uma Batalha Após a Outra) / alt: Jafar Panahi (Foi Apenas Um Acidente)

MELHOR ATRIZ EM FILME DE DRAMA: Jessie Buckley (Hamnet: A Vida Antes de Hamlet) / alt: Renate Reinsve (Valor Sentimental)
MELHOR ATRIZ EM FILME DE COMÉDIA/MUSICAL: Rose Byrne (Se Eu Tivesse Pernas, Eu te Chutaria) / alt: Kate Hudson (Song Sung Blue – Um Sonho a Dois)
MELHOR ATOR EM FILME DE DRAMA: Wagner Moura (O Agente Secreto) / alt: Michael B. Jordan (Pecadores)
MELHOR ATOR EM FILME DE COMÉDIA/MUSICAL: Timothée Chalamet (Marty Supreme) / alt: Ethan Hawke (Blue Moon)
MELHOR ATRIZ COADJUVANTE: Amy Madigan (A Hora do Mal) / alt: Teyana Taylor (Uma Batalha Após a Outra)
MELHOR ATOR COADJUVANTE: Stellan Skarsgård (Valor Sentimental) / alt: Sean Penn (Uma Batalha Após a Outra)
MELHOR ROTEIROUma Batalha Após a Outra / alt: Foi Apenas Um Acidente
MELHOR FILME EM LÍNGUA NÃO-INGLESA: O Agente Secreto (Brasil) / Valor Sentimental (Noruega)

MELHOR ANIMAÇÃO: Guerreiras do K-Pop / alt: Zootopia 2
MELHOR TRILHA SONORA: Pecadores / alt: Sirāt

MELHOR CANÇÃO ORIGINAL: “Golden” (Guerreiras do K- Pop) / alt: “I Lied to You” (Pecadores)
CONQUISTA CINEMATOGRÁFICA E DE BILHETERIA: Avatar: Fogo e Cinzas / alt: Pecadores

SÉRIES, MINISSÉRIES E TELEFILMES

MELHOR SÉRIE DE DRAMA: The Pitt / alt: Pluribus
MELHOR SÉRIE DE COMÉDIA: The Studio / alt: Hacks
MELHOR MINISSÉRIE OU TELEFILME: Adolescência / alt: All Her Fault

MELHOR ATRIZ EM SÉRIE DE DRAMA: Rhea Seehorn (Pluribus) / alt: Kathy Bates (Matlock)
MELHOR ATOR EM SÉRIE DE DRAMA: Noah Wyle (The Pitt) / alt: Mark Ruffalo (Task)
MELHOR ATRIZ EM SÉRIE DE COMÉDIA: Jean Smart (Hacks) / alt: Kristen Bell (Nobody Wants This)
MELHOR ATOR EM SÉRIE DE COMÉDIA: Seth Rogen (The Studio) / alt: Martin Short (Only Murders in the Building)
MELHOR ATRIZ EM MINISSÉRIE OU TELEFILME: Sarah Snook (All Her Fault) / alt: Claire Danes (O Monstro em Mim)
MELHOR ATOR EM MINISSÉRIE OU TELEFILME: Stephen Graham (Adolescência) / alt: Matthew Rhys (O Monstro em Mim)
MELHOR ATRIZ COADJUVANTE EM SÉRIE, MINISSÉRIE OU TELEFILME: Erin Doherty (Adolescência) / alt: Catherine O’Hara (The Studio)
MELHOR ATOR COADJUVANTE EM SÉRIE, MINISSÉRIE OU TELEFILME: Owen Cooper (Adolescência) / alt: Tramell Tillman (Ruptura)
MELHOR PERFORMANCE DE STAND-UP: Ricky Gervais (Ricky Gervais: Mortality) / alt: Sarah Silverman (Sarah Silverman: Postmortem)