Cinema e Argumento

“Bohemian Rhapsody”: mesmo com fórmula tradicional, cinebiografia comove por capturar a essência do Queen com muita música e energia

What on earth is it about? Scaramouche? Galileo? Beelzebub?

Direção: Bryan Singer

Roteiro: Anthony McCarten, baseado em história própria e de Peter Morgan

Elenco: Rami Malek, Lucy Boynton, Gwilym Lee, Ben Hardy, Joseph Mazzello, Aidan Gillen, Allen Leech, Tom Hollander, Mike Myers, Aaron McCusker, Meneka Das, Ace Bhatti

EUA/Reino Unido, 2018, Drama, 134 minutos

Sinopse: Freddie Mercury (Rami Malek) e seus companheiros Brian May (Gwilyn Lee), Roger Taylor (Ben Hardy) e John Deacon (Joseph Mazzello) mudam o mundo da música para sempre ao formar a banda Queen, durante a década de 1970. Porém, quando o estilo de vida extravagante de Mercury começa a sair do controle, a banda tem que enfrentar o desafio de conciliar a fama e o sucesso com suas vidas pessoais cada vez mais complicadas. (Adoro Cinema)

Quantas cinebiografias encomendadas e empacotadas para o grande público você já viu na vida? Por encomendadas e empacotadas me refiro àquelas com início, meio e fim bem pontuados e que tornam palatáveis, em forma e conteúdo, a vida muitas vezes conturbadas de seus respectivos biografados. Se você chutar uma árvore, caem cerca de cinco por ano, enquanto títulos elegantíssimos como Capote, A Rainha e Steve Jobs , surgem a cada dois ou três anos. Tão incomuns quanto essas cinebiografias mais sofisticadas em direção e roteiro são aquelas que, mesmo formais e altamente previsíveis, conseguem transpôr para a tela, com alma e dignidade, a força-motriz dos personagens reais retratados na tela. É assim com Bohemian Rhapsody, um filme que supera as suas claras limitações criativas para, dentro do possível, ajustar certos vícios e se tornar uma experiência viva, espirituosa e até mesmo vibrante. 

Difícil seria não alcançar esse status quando estamos falando do Queen, uma das bandas mais originais e viscerais de que se tem notícia até os dias de hoje. Bohemian Rhapsody, em termos cinematográficos, não se equivale à revolução trazida pelo grupo no meio musical, mas sabe exatamente o que precisa mostrar para justificar as razões que levaram essa história a ser contada na tela grande. A passagem que melhor representa isso é aquela em que o Queen, já surfando na onda de certo sucesso, enfrenta o produtor de sua então gravadora para convencê-lo de que a canção Bohemian Rhapsody, mesmo com seis minutos de duração e um estilo de difícil definição, deveria ser o carro-chefe da promoção do mais recente álbum. O produtor não aceita de jeito nenhum, e os garotos, extremamente confiantes do produto diferenciado que têm em mãos, demitem a gravadora, provando que nada era mais importantante para cada um deles do que a total fidelidade ao trabalho que desenvolviam com tanta convicção criativa e artística.

Ao longo do filme, são mostrados outros tantos momentos que evidenciam a singularidade do Queen. A própria gravação da canção-título é uma das sequências mais hilariantes por explorar os métodos poucos convencionais adotados pelo grupo na criação de canções que desafiavam acomodados padrões da indústria musical. Compreendemos a originalidade do Queen por essa boa curadoria de acontecimentos que o filme faz, ainda que, em uma grande quantidade de vezes, o roteiro escrito por Anthony McCarten (A Teoria de TudoO Destino de Uma Nação) ajuste datas e fatos para causar maior impacto dramático, decisão que tem causado inúmeras controvérsias mundo afora — e, sinceramente, só posso ver esse descontentamento como equivalentes às bobas reclamações de quem implica com as adaptações que um livro eventualmente sofre ao ser transposto para o Cinema. Fatos podem ser ajustados sim, desde que se mantenha a honestidade. A total fidelidade aos fatos deve ficar com os documentários.

Ainda fazendo uma comparação com outras cinebiografias, em especial aquelas voltadas a relatos de personalidades musicais, Bohemian Rhapsody é mais madura porque limpa arestas características do gênero. Por mais que o longa seja essencialmente sobre o vocalista Freddie Mercury, o roteiro faz questão de jamais perder de vista os outros integrantes da banda, que, em outras obras, costumam ser reduzidos a meros figurantes que somem após o sucesso isolado do protagonista. Em Bohemian Rhapsody, Mercury não é ninguém sem seus companheiros e vice-versa. É por situar o grupo de forma tão central na trama que o filme de Bryan Singer ganha mais força musicalmente: o repertório do Queen já seria entusiasmante por si só, mas há uma importante vontade de situar a origem da maior parte das canções, tratando com cuidado um um legado musical que não surge na tela apenas para que o longa contemple o maior número de hits possíveis.

É fato, entretanto, que Bohemian Rhapsody não tem maiores profundidades do ponto de vista dramatúrgico, incluindo em pontos cruciais da carreira da banda e de Freddie Mercury. A homossexualidade do protagonista é, no geral, bem explorada, mas não evita leituras simplistas, como no recorte em que Mercury se afasta de tudo e de todos porque se sente isolado (os outros integrantes da banda casaram, tiveram filhos e constituíram famílias), depositando todas as suas fichas em um namorado que, desde a primeira aparição, sabemos que não é flor que se cheire e que, claro, será responsável por vários ruídos de comunicação na carreira do cantor. A escolha de não tornar a descoberta do HIV uma via crucis apelativa é um ponto a ser considerado em Bohemian Rhapsody (quatro em cinco longas não resistiram à ideia de encenar os pormenores da doença apenas para fazer o protagonista passar por transformações físicas), o que, por outro lado, acaba de certa maneira se tornando apenas um subterfúgio dramático para que o personagem rapidamente remende as pontas deixadas soltas em sua vida pessoal e profissional, como a marcante conexão afetiva que Mercury viveu durante anos com uma mulher e que é mostrada sem muita consistência pelo roteiro. 

Na pele de Mercury, Rami Malek leva certo tempo para se empoderar do ícone que está incorporando: na primeira metade, o ator é quase vítima da caracterização, principalmente porque rivaliza com uma prótese dentária medonha que é o centro das atenções nessa fase em que o vocalista é jovem e ainda não assumiu o visual que viria a lhe tornar icônico. Por outro lado, quando surge de bigode e cabelo curto, Malek entra naquele fascinante transe em que o ator some diante do personagem. E é louco quem diz o contrário ao assistir à inesquecível sequência final, onde o diretor Bryan Singer reproduz, quase na íntegra, o icônico show do Queen no Live Aid, considerada por muitos como uma das mais icônicas performances musicais de todos os tempos. É pura energia e emoção por Malek, pela ambição do projeto em retratar tal momento e porque encerra Bohemian Rhapsody com grandiosidade e potência, fazendo jus à grandiosidade e à potência de um grupo musical cujo repertório musical surge intensamente celebrado. É a síntese perfeita do que existe de mais precioso nesse filme imperfeito e formal, mas vibrante pela clara admiração que nutre por seus biografados.

Três atores, três filmes… com Simone Zuccolotto

Uma das principais vozes quando o assunto é a divulgação do cinema brasileiro, a jornalista Simone Zuccolotto entrou para o célebre Canal Brasil no ano de 2003. Ao longo desses 15 anos de atuação na emissora comandada por Paulo Mendonça, já esteve à frente e atrás das câmeras de séries jornalísticas como A Mulher no Cinema, Nas Sombas do Medo, Rir é o Melhor Remédio e De Semelhanças e Coincidências. Hoje, ela também comanda o Cinejornal, que faz um balanço semanal dos principais eventos de Cinema no Brasil, além, claro, de mostrar os bastidores de inúmeras produções realizadas em território nacional com entrevistas exclusivas. Nessa caminhada, não poderia faltar, claro, a cobertura de festivais Brasil afora, incluindo o Festival de Cinema de Gramado, onde já a encontrei diversas vezes, seja no Tapete Vermelho, nos bastidores ou na própria sala de cinema. Por isso mesmo,  dada toda essa experiência e conhecimento, é uma imensa satisfação recebê-la aqui na coluna, especialmente quando ela comenta atuações de três atrizes de talento gigante e inquestionável. E uma curiosidade: com a menção da Simone, o desempenho de Gena Rowlands em Uma Mulher Sob Influência empata com o de Kate Winslet em Brilho Eterno de Uma Mente Sem Lembrança como o mais lembrado entre as atrizes, com três citações cada.

Gena Rowlands (Uma Mulher Sob Influência)
Aos 88 anos, a atriz americana tem uma carreira profícua no cinema e em séries de TV, mas foi a parceria com o marido John Cassavetes que lhe rendeu as melhores atuações. Filmes como Noite de Estreia e Gloria, mas especialmente Uma Mulher Sob Influência deixaram marcado o turbilhão de emoções que cabe nessa atriz. Por esse filme, inclusive, ela recebeu o Globo de Ouro de melhor atriz de drama e foi indicada ao Oscar. Inicialmente escrito como uma peça de teatro, o texto, a pedido de Gena, acabou virando cinema, no melhor estilo Cassavetes, conhecido como o “autor do improviso” ou o expoente do “cinéma vérité” (atribuído a Jean Rouch). A levada experimental (mais radical do que as convenções tanto dramáticas quanto narrativas), a câmera na mão, a utilização de luz natural e, sobretudo a coautoria oferecida/exigida dos atores… E é aí que surfa Gena, na história da “problemática” dona de casa de classe média baixa americana, mãe de três filhos e casada com um funcionário de estaleiro. O tom intenso, os nervos à flor da pele e a sensação de um mundo prestes a ruir são radiografados pela atriz que, na pele de Mabel, passa por um transe, com inúmeras camadas sutis que retratam a loucura de uma forma assustadora (destaque para a cena do almoço com os parceiros de trabalho do marido).

Charlotte Gainsbourg (Ninfomaníaca)
A parceria de Charlotte com Lars Von Trier começou em Anticristo (2009) e seguiu com Melancolia (2011). No caso de Ninfomaníaca, a atriz disse que aceitou o convite sem nem ler o roteiro, o que atesta uma cumplicidade nos assuntos e na maneira como o diretor dinamarquês faz seus filmes. Joe é uma mulher viciada em sexo e, por conta da obsessão, vai às ultimas consequências no assunto. Como é comum no cinema de Trier, não há limites e, quando há, eles os testa o tempo inteiro. É disso que Gainsbourg gosta: de personagens intensos e desequilibrados, à beira da insanidade – e, de fato, ela mergulha nessas performances, não necessariamente para se perder em neuroses, mas parece que para sair da zona de conforto e testar a si mesma. A atriz, filha de Serge Gainsbourg e Jane Birkin, se joga, e sem rede. Em Ninfomaníaca usou prótese de vagina, fez cenas de sadomasoquismo humilhantes e constrangedoras, e o que resulta dessa parceria é uma interpretação que imprime na tela uma disponibilidade de alguém que nasceu pra ser testada e, em minha opinião, aprovada. E, além de tudo, a danada canta que é uma beleza!

Romy Schneider (L’Enfer / O Inferno de Henri-Georges Clouzot)
A atriz austríaca ficou conhecida pela personagem Sissi na trilogia Sissi / Sissi, a Imperatriz / Sissi e Seu Destino, dirigida por Ernst Marischka, entre 1955 e 1957; foi indicada ao Globo de Ouro por O Cardeal, de Otto Preminger; ganhou dois César por O Importante é Amar, de Andrzej Zulawski, e Uma História Simples, de Claude Sautet; trabalhou com nomes como Luchino Visconti, Orson Welles, Costa-Grava e teve uma vida pessoal trágica (a morte precoce do filho, o suicídio do ex-marido, traições). Tudo isso a transformou num mito que morreu aos 43 anos, mas deixou interpretações inesquecíveis. Elegi sua atuação em L’Enfer, de Henri-Georges Clouzot (realizador dos excelentes O Salário do Medo e As Diabólicas), filme inacabado que virou assunto do documentário O Inferno de Henri-Georges Clouzot, de Serge Bromberg e Ruxandra Medrea. Do roteiro, uma delirante história de ciúme, pouco se vê, mas as imagens recuperadas – cenas e os flagrantes de testes de luz, figurino e maquiagem – embora avulsas e costuradas com depoimentos de colaboradores, não perdem a magnitude da interpretação de Schneider, sedutora, brincalhona, forte, leve e livre, e ao mesmo tempo amarrada na técnica e na obsessão de Clouzot. Mais do que isso, deixam uma sensação de quão avassaladora teria sido o desempenho de Romy. P.S. – Destaque para dois momentos: a cena que a atriz brinca com um brinquedo de mola que vai passeando pelo seu corpo e quando ela se diverte com uma taça de champagne.

“Nasce Uma Estrela”: estreia de Bradley Cooper como diretor ganha em sinceridade, mas faz mais do mesmo em comparação a títulos semelhantes

I think you might be a songwriter.

Direção: Bradley Cooper

Roteiro: Bradley Cooper, Eric Roth e Will Fetters, baseado na história Robert Carson e William A. Wellmann, e nos roteiros dos filmes homônimos de 1954 e 1976, escritos respectivamente por Moss Hart e Frank Pierson, Joan Didion e John Gregory Dunne

Elenco: Bradley Cooper, Lady Gaga, Sam Elliott, Andrew Dice Clay, Rafi Gavron, Anthony Ramos, Dave Chappelle, Marlon Williams, Brandi Carlile, Michael D. Roberts, Ron Rifkin, Michael Harney, Rebecca Field

A Star is Born, EUA, 2018, Drama, 136 minutos

Sinopse: Jackson Maine (Bradley Cooper) é um cantor no auge da fama. Um dia, após deixar uma apresentação, ele para em um bar para beber algo. É quando conhece Ally (Lady Gaga), uma insegura cantora que ganha a vida trabalhando em um restaurante. Jackson se encanta pela mulher e seu talento, decidindo acolhê-la debaixo de suas asas. Ao mesmo tempo em que Ally ascende ao estrelato, Jackson vive uma crise pessoal e profissional devido aos problemas com o álcool. (Adoro Cinema)

Originalmente um projeto do veterano Clint Eastwood a ser estrelado por Beyoncé, Nasce Uma Estrela, em sua quarta versão para as telas, inevitavelmente puxa à memória, somente nos últimos anos, vários títulos de diferentes nacionalidades que contam basicamente a mesmíssima história, como o ótimo Johnny & June, também sobre a relação entre dois músicos minada pelo alcoolismo de um deles, ou até mesmo o poderoso Alabama Monroe, longa belga sobre um casal de cantores que, entre a música, o amor e a tragédia, são esmagados pela dura realidade de um relacionamento que, no final das contas, parece não ser destinado a dar certo. Não é só por ser a quarta versão de uma mesma história que Nasce Uma Estrela parece ser mais do mesmo, mas também por lembrar uma infinidade de títulos semelhantes (e superiores). Ao mesmo tempo, você pode perguntar: a estreia de Bradley Cooper precisava mesmo ter algo de novo a dizer? Bom, a resposta para essa questão dá a medida do quanto você embarcará ou não nessa obra que vem surpreendendo pela ótima recepção acumulada desde as suas primeiras exibições mundiais e que já tem sido cotada para receber uma boa quantidade de indicações ao Oscar.

Há, sem dúvida, o fator curiosidade que já garante uns bons trocados para o estúdio. Afinal, Bradley Cooper, que estreia agora atrás das câmeras, é um bom diretor? E Lady Gaga dá conta do recado como atriz de Cinema? É o tipo de filme-evento que, independente do que se diz por aí, você verá para tirar as suas próprias conclusões. Considerando as duas perguntas, o que se conclui é que Cooper pode até não ser o diretor mais sofisticado, mas é sincero e convicto quanto aquilo que deseja fazer. Nasce Uma Estrela, mesmo redundante no tipo de história que conta, não tenta dar um passo maior do que a própria perna, assumindo, sem vergonha alguma, a sua proposta de não ser uma obra de maiores pretensões. Ponto, portanto, para Cooper, que em nenhum momento usa a câmera com vaidade, o que seria muito tentador por ele também ser o real protagonista de Nasce Uma Estrela. Aliás, como ator, Bradley é melhor ainda: talvez até ciente do papel batido, ele não cria uma caricatura de seu Jackson Maine, inclusive porque, em mais uma consciência colaborativa, sabe que a sua construção de personagem depende da ótima química que estabelece com Lady Gaga, a agora “cantriz” de Cinema que incendeia a tela toda a vez que canta e que se esforça a cada cena como intérprete, mas que tem suas limitações e que jamais consegue se equiparar ao colega.

A partir desses aspectos, Nasce Uma Estrela tem momentos que podem, de fato, validar o excelente status que vem alcançando em suas projeções mundo afora. Um exemplo real disso é a cena onde Cooper e Gaga cantam pela primeira vez Shallow para uma multidão: não só a cantora é de uma talento vocal absurdo como o momento registra emocionalmente a sintonia entre dois personagens perdidos e desiludidos que encontram um no outro uma razão para sorrir e seguir em frente. O problema é que o filme dura 2h30 e, nesse meio tempo, pouco vibra como na cena citada. Escrito por Cooper junto à dupla Eric Roth e Will Feters, o roteiro é o maior problema de Nasce Uma Estrela por cair em armadilhas óbvias, como a de muitas vezes ter música demais e histórias de menos. Entre uma canção e outra, um conflito cai de para-quedas para dar uma movimentada na trama ao mesmo tempo em que, logo em seguida, depois de uma nova apresentação musical, já é solucionado. A falta de uma construção sólida de dilemas em detrimento da música dilui o impacto dos desdobramentos dramáticos e românticos de um filme que, no frigir dos ovos, depende da química de seus protagonistas para segurar uma vivacidade que o roteiro não consegue emanar.

Da metade da projeção em diante, Nasce Uma Estrela muda um pouco a pegada ao transferir boa parte da sua narrativa para a perspectiva de Ally (Gaga) e sua escalada rumo ao tão sonhado sucesso. Os problemas antes pontualmente diagnosticados no roteiro agora se tornam amplos e evidentes: com menos música, as fragilidades emergem com mais facilidade, impulsionadas por uma inegável falta de ritmo. São rasas as saídas que Cooper, Roth e Fetter encontram para minar a relação do casal principal: a cena passada no Grammy, por exemplo, parece produzida por uma novela da Globo tamanha a implausibilidade. Nasce Uma Estrela ainda tenta fazer uma crítica à indústria pop, mas como encontrar alguma profundidade se tudo se resume a um produtor unidimensional cuja única missão é fazer todo tipo de exigência comercial para desconstruir a verdadeira personalidade de Ally? São tentativas válidas no sentido de tornar contemporânea a refilmagem de uma obra encenada pela primeira vez nos anos 1930, mas, na prática, tais circunstâncias não surgem orgânicas, e mais soam como meras ferramentas encontradas pelo roteiro para bagunçar um pouquinho mais a vida do casal, como se o centro de todo o drama fosse o que os fatos fazem com eles e não como cada um administra o peso que a vida joga em suas costas.

Nasce Uma Estrela se sustenta comercialmente e goza de imenso hype pela força do estrelato de Lady Gaga, uma cantora que estourou como ícone pop e que, aos poucos, foi reinventando e pluralizando sua carreira, hoje também marcada por criações e colaborações para o country e para o jazz. Gaga é uma artista nata, fato comprovado inclusive por suas belíssimas participações no Oscar até aqui, em especial aquela em que ela homenageou A Noviça Rebelde, dando voz a clássicos desse inesquecível musical estrelado pela grande Julie Andrews. Cito esse momento porque ele é uma prova cabal do poder cênico e vocal da cantora, que poderia facilmente trilhar uma carreira na Broadway (e é difícil entender como isso ainda não aconteceu!). Já na tela grande, Gaga encanta toda vez que canta, além de ser a base do sucesso conquistado pelo filme, o que não quer dizer que a sua forte presença seja o suficiente para alçar o longa ao status de emoção e narrativa sofisticada que público e crítica vêm lhe atribuindo. Até porque não custava Nasce Uma Estrela ser um tantinho menos previsível e brega para despertar, pelo menos, emoções que já não tenhamos vivido em outros projetos de temáticas hiper semelhantes.

“O Primeiro Homem”: sem narrativa musical e roteiro de autoria própria, Damien Chazelle pouco impressiona em um terreno atípico na sua carreira

Your dad’s going to the Moon.

Direção: Damien Chazelle

Roteiro: Josh Singer, baseado no livro “First Man: The Life of Neil A. Armstrong”, de James R. Hansen

Elenco: Ryan Gosling, Claire Foy, Kyle Chandler, Christopher Abbott, Pablo Schreiber, Ciarán Hinds, Ethan Embry, Jason Clarke, Corey Stoll, Shea Whigham, Patrick Fugit, Lukas Haas

First Man, EUA, 2018, Drama, 141 minutos

Sinopse: A vida do astronauta norte-americano Neil Armstrong (Ryan Gosling) e sua jornada para se tornar o primeiro homem a andar na Lua. Os sacrifícios e custos de Neil e toda uma nação durante uma das mais perigosas missões na história das viagens espaciais. (Adoro Cinema)

O Primeiro Homem não deixa de ser um terreno desconhecido para Damien Chazelle, diretor que vem trilhando uma carreira exitosa no Cinema com títulos premiados como Whiplash: Em Busca da PerfeiçãoLa La Land: Cantando Estações. É de certa forma desconhecido porque, pela primeira vez, Chazelle tanto não dirige um roteiro de autoria própria quanto deixa de lado qualquer tipo de narrativa musical, característica que permeou sua filmografia desde a estreia com o longa Guy and Madeline on a Park Bench. Somente o cineasta pode dizer se tais mudanças de alguma forma afetaram partes do processo criativo, mas, como espectador, é possível aceitar a teoria com alguma convicção, pois é frustrante ver um filme inegavelmente bem dirigido ser limitado por um roteiro morno e que jamais se equivale ao imenso imaginário despertado pela chegada dos astronautas norte-americanos à Lua. 

Originalmente um projeto destinado ao veterano Clint Eastwood, O Primeiro Homem traz Steven Spielberg na produção executiva, o que tem sido utilizado como grande atrativo em manchetes de portais e em materiais de divulgação. Na verdade, não passa de puro chamarisco, já que o longa de Chazelle não tenta se equivaler ou emular o terreno de ficção que Spielberg tanto ajudou a criar e a popularizar ao longo das décadas. Para ser justo, o filme é, na realidade, um relato espacial mais íntimo, propondo uma série de contrastes entre a vida cotidiana na Terra e as dimensões infinitas do espaço sideral. Para isso, o roteiro escrito por John Singer (The Post: A Guerra SecretaSpotlight: Segredos Revelados) se afasta do ícone Neil Armstrong (Ryan Gosling) para tratá-lo como um homem comum que, após passar por uma dolorosa perda familiar, encontra-se deslocado junto à família e aos amigos. Exercer a profissão, portanto, nunca fez tanto sentido para Armstrong: viajar ao espaço é, antes de qualquer coisa, um processo pessoal e uma fuga íntima dessa vida bagunçada e dolorosa na Terra.

Considerando o todo, é justo dizer que O Primeiro Homem funciona por explorar o plano humano em meio a cenários intergaláticos (a sequência que mostra a chegada de Neil à Lua é poderosa porque mostra o quanto nós, seres humanos, somos realmente insignificantes aqui na Terra ou em qualquer ponto do universo). No entanto, o mesmo não se aplica para uma visão mais microscópica do roteiro, que é quase banal na dramatização cotidiana da vida do protagonista. A própria perda familiar que acontece na arrancada da história e motiva boa parte das decisões do personagem é resgatada pontualmente, como se fosse apenas uma forma de encorpar o combustível dramático do filme. Outro aspecto raso a ser considerado é a participação da esposa de Armstrong, vivida por Claire Foy e aqui traduzida como a clássica dona-de-casa que segura a barra, os destemperos e a ausência de um marido que abraça o trabalho ao invés da família em um momento de grande confusão emocional. Por sorte, Foy é boa atriz e muito maior do que o papel que lhe foi proporcionado.

À parte o roteiro morno, que pouco se esmera em curiosidade ou criatividade ao se infiltrar nas pesquisas e simulações da NASA para chegar à Lua, a maior limitação de O Primeiro Homem era realmente difícil de prever: Ryan Gosling. Um dos atores mais queridos de sua geração, Gosling também é um dos mais versáteis (veja ou relembre A Garota IdealDriveNamorados Para SempreO Lugar Onde Tudo Termina Amor a Toda Prova para comprovar), e por isso mesmo impressiona a sua falta de presença como Neil Armstrong. Mirando na interpretação econômica ou no chamado minimalismo, o ator acerta na apatia, sem dar as merecidas dimensões para as pequenas ou grandes complexidades vividas por um personagem que não sabe muito bem onde se sente com os pés mais firmes no chão. Além da falta de tempero do roteiro, O Primeiro Homem carece de um protagonista marcante e que, principalmente, desperte algum tipo de torcida.

Transcorridos cinco anos entre o lançamento de Gravidade e agora o de O Primeiro Homem, conclui-se que a febre de filmes ambientados no espaço ainda não resultou em nenhuma obra capaz de se equiparar à ficção dirigida pelo mexicano Alfonso Cuarón em termos de qualidade. Não que elas tenham essa obrigação, mas, dada a lembrança ainda intacta de uma obra que redefiniu a recente safra das obras do gênero, a comparação segue inevitável. Damien Chazelle, que reúne aqui praticamente os mesmos colaboradores de WhiplashLa La Land, faz de sua incursão espacial uma experiência sólida sob a perspectiva técnica e sensorial, evidenciando o contraponto com uma história que, dessa vez sem a sua assinatura no roteiro, não corresponde à dimensão que o diretor se propõe a traduzir em imagens. Coincidência ou não, Chazelle já pavimenta um caminho de retorno às origens: atualmente, ele está em plena produção de The Eddy, uma série dramática encomendada pela Netflix onde a música se apresenta mais uma vez como epicentro narrativo. Dito isso, é de se perguntar mais uma vez: teria sido O Primeiro Homem um rápido parênteses em sua carreira?

O Cinema diz: #elenão (participação no blog Classe de Cinema)

Murilo Benício e Luciana Paes, protagonistas de O Animal Cordial: através do horror, filme de Gabriela Amaral Almeida radiografa muitas das agruras políticas e sociais do Brasil atual.

Recentemente, fui convidado pelo Yuri Célico, do blog Classe de Cinema, a participar da série “O Cinema diz: #elenão”. A ideia do projeto é trazer convidados que escrevam sobre um filme que converse com a nossa situação política, no intuito de refletir e ilustrar os riscos que estamos correndo com um certo presidenciável que representa sérios riscos à democracia e que tanto dissemina ódio e preconceito Brasil afora. Ao receber o convite do Yuri, constatei que tenho visto mais filmes brasileiros do que estrangeiros nos últimos anos. Parando para pensar nas razões que me levaram a essa nova estatística, percebo que, sim, o cinema brasileiro tem crescido em quantidade e pluralidade, mas o que mais tem me fascinado nessa recente safra é o número de produções que radiografam determinados momentos e condições atuais do nosso Brasil. Por isso mesmo, escolhi para a minha participação O Animal Cordial, uma obra brasileira, que, em formato, temática e gênero, é um grito por #elenão, escancarando muitas das feridas abertas do Brasil em que vivemos. E o que considero mais brilhante no filme é transpor essas cicatrizes para o plano do horror. O Animal Cordial faz jus à clássica definição de que a realidade pode ser muito mais aterrorizante que a ficção. Abaixo eu reproduzo as razões que elenquei no Classe de Cinema!

1 – É dirigido por uma mulher em um gênero essencialmente dominado por homens
Segundo dados da ANCINE, apenas 19,7% dos 142 filmes brasileiros lançados comercialmente em 2016 levam a assinatura de mulheres. Tendo apenas isso em vista, O Animal Cordial já seria um caso a ser notado. No entanto, se levarmos em consideração que essa é uma chamada obra de “gênero”, a situação é ainda mais rara. Afinal, quantos filmes de horror dirigidos por mulheres você conhece, inclusive em uma perspectiva mundial? O longa é mesmo um ponto fora da curva e, por que não, um (delicioso) atrevimento: ora, como assim uma mulher tem o topete de dirigir um filme de horror? Pois Gabriela Amaral Almeida tem mesmo, e isso é incrível, já que O Animal Cordial coloca na tela discussões que as produções brasileiras, em sua maioria masculina, raramente ousariam colocar.

2 – Utiliza o terror como metáfora social
As doses de sangue são cavalares. O pânico é constante. Os personagens são imprevisíveis. Mas quer saber o que incomoda mesmo em O Animal Cordial? É o fato de tanto horror representar fielmente os nossos tempos, quebrando as convenções do gênero para, sim, ser um angustiante slasher, mas, também para se tornar, a cada personagem, a cada reviravolta, a cada diálogo, um mosaico sobre as agruras que atingem a sociedade brasileira. Sempre considerei os melhores filmes de horror aqueles que se utilizam das ferramentas do gênero para falar sobre questões humanas, íntimas ou sociais. E, se você presta a mínima atenção no Brasil que está aí, verá que o sangue que escorre no longa é, na verdade, o de um país em plena convulsão.

3 – Mostra o autoritarismo e o abuso de poder no ambiente de trabalho
Vejam de onde parte O Animal Cordial: após um longo dia de trabalho em um restaurante, o chefe decide manter os funcionários além do expediente porque mais dois ou três clientes chegaram ao estabelecimento que já deveria estar fechado. Os funcionários reclamam. O chefe não ouve. Manda quem pode, obedece quem precisa. Logo mais, um acontecimento inesperado vira o restaurante de pernas para o ar, mas já no início da projeção você percebe as discussões de um roteiro super contemporâneo: em tempos que as taxas de desemprego crescem e que trabalhamos o dobro para pagar o mesmo custo de vida que tínhamos até pouco tempo atrás, parece não haver muita solução a não ser entrar no sistema e aceitar as cada vez mais terríveis condições de trabalho para conseguir pagar as contas, aguentando até mesmo os surtos autoritários de um chefe que, com os empregados na palma da mão, faz questão de mostrar quem é dono e quem é empregado.

4 – Lembra que falta de educação é coisa de gente rica
Diria a já eterna Clara de Sonia Braga em Aquarius que falta de educação não é coisa de gente pobre, e sim de gente rica que acredita que dinheiro define caráter. Verdade. E, quando a personagem de Camila Morgado entra no restaurante de O Animal Cordial  bem vestida, maquiada e acompanhada do marido, logo se percebe isso: na maneira como não dirige o olhar à atendente, como faz seu pedido praticamente questionando o entendimento da garçonete em relação ao que é servido e até mesmo na postura com que se coloca em uma mesa de jantar, ela é a afiadíssima na representação daquela parte elitista da população que, entre outras coisas, acredita que, por pagar um serviço, está acima de quem o presta. Na prática diária, aplicam o que defendem na política que acreditam ser a melhor para o país: exclusão e indiferença, especialmente em relação a quem não se equipara ao seu alto padrão de vida.

5 – Renega os estereótipos femininos dos filmes de horror
Pense nos filmes de horror que você já viu. Na maioria deles, provavelmente as figuras femininas têm pouca influência. Ou pior: surgem apenas com pouca roupa para morrer de maneiras sádicas ou voyeurísticas. Pois O Animal Cordial desconstrói tudo isso. O personagem vivido por Murilo Benício pode ditar boa parte dos acontecimentos da trama, mas é a figura de Luciana Paes que toma as rédeas do filme. Muitos dos desdobramentos são conduzidos por ela, inclusive a única cena de sexo onde é a mulher quem comanda cada centímetro de uma poderosíssima interação sexual. Sem idealizações ou estereótipos, Luciana, como a atriz gigante que é, dá ainda mais intensidade e complexidade a uma protagonista que subverte o que o gênero costuma fazer com o sexo feminino, tornando-o peça decisiva de uma trama que não faria o menor sentido sem ele.

6 – Entrega ao personagem LGBTQI+ a bússola moral da trama
Normalmente retratados como mero alívio cômico ou figuras cujos dilemas se resumem à questão da sexualidade, os personagens LGBTQI+ também ganham nova roupagem em O Animal Cordial. À parte o fato de Irandhir Santos ser um grande ator, a construção de seu cozinheiro de gênero fluido o coloca como a única pessoa verdadeiramente sã e com alguma bússola moral dentro do rico mosaico construído pelo roteiro. Capaz de racionalizar situações sem jamais recorrer a escolhas ou instintos primitivos, o cozinheiro é a voz da razão em um ambiente onde todos, anestesiados pelo pânico, só conseguem expor o lado mais sombrio de suas naturezas. Há um universo dentro de cada olhar e de cada decisão tomada pelo personagem de Irandhir, que, mesmo sendo um coadjuvante, consegue, junto ao material que lhe é dado, construir um tocante background para o cozinheiro e para tudo o que ele representa.

7 – Defende a ideia de que a pior violência é, na verdade, a emocional
Em um filme com expressivas doses de sangue fatalidades, Gabriela Amaral Almeida propõe que a maior violência não é a física, e sim outras que eu e você vivemos ou presenciamos diariamente no cotidiano. Já falei sobre a forma como a elitista passiva-agressiva de Camila Morgado despreza a garçonete do restaurante. No entanto, há outro momento altamente simbólico: aquele em que Irandhir Santos tem seus cabelos cortados. A cena é dolorosa porque representa, mais uma vez, o ódio gratuito e infundado à uma minoria que precisa lutar diariamente pela aceitação de sua identidade na vida e no trabalho. É golpe duríssimo ver uma identidade julgada e agredida pela sociedade que, sabe-se lá o porquê, tanto se incomoda com o fato do próximo ser simplesmente quem é. Muito mais do que qualquer sangue escorrendo pelas paredes após o disparo certeiro de uma arma.

8 – Alerta para o perigo da paixão e do fanatismo
Secretamente, uma personagem de O Animal Cordial está apaixonada. E, em nome da paixão e do desejo de ser notada, toma decisões que, em um dia qualquer de sua existência, não tomaria. Essa personagem também é capaz de se adaptar à personalidade do amado, frequentemente se anulando para apenas agradá-lo. Em determinado ponto, enfim, também não há mais problema em cometer crimes em nome do amor. Paixão e fanatismo podem muito bem caminhar juntos, e O Animal Cordial alerta para essa linha tênue, utilizando, claro, a metáfora do horror. É uma representação assombrosa do período polarizado que vivemos no Brasil, quando, a todo custo, movimentos e militâncias rompem as barreiras do bom senso moral e ético para atacar o oponente e defender cegamente qualquer ídolo que julguem digno de veneração.

9 – Retrata a busca pelo protagonismo em uma sociedade de winners
O que a vida costuma nos exigir é o seguinte: você se torna alguém ou, então, nada vale a pena. E ser alguém pode se resumir a ser o dono de um estabelecimento de respeito. Também pode se resumir a algum tipo de reconhecimento por parte de “superiores”. Ou, enfim, pode ser também a vontade de ser protagonista de sua própria vida. Os personagens de Murilo Benício e Luciana Paes englobam tudo isso, cada um à sua maneira. Gosto especialmente dela, que, garçonete tratada com descaso pelo chefe, faz o que é preciso para ter algum tipo de importância dentro do restaurante onde trabalha ou que toma decisões radicais para sair do status de mulher comum e pouco desejada para, enfim, ser vista como uma figura influente, atraente e, por que, não temida. Em uma sociedade que tanto festeja os winners, os personagens de O Animal Cordial caem mais um pouco na escuridão ao serem movidos por essa pressão sócio-cultural.

10 – Reforça a falência da dita masculinidade
Murilo Benício dá vida à figura masculina central de O Animal Cordial. No entanto, o personagem é, no fundo, um homem falido em reputação e masculinidade. Ele tenta provar a sua hombridade de maneiras equivocadas, machistas e preconceituosas, o que está evidente em toda e qualquer interação que ele estabelece com qualquer outro personagem. Dono de um restaurante, abusa do seu poder de chefe para (tentar) mostrar que tem alguma autoridade ou que é um relevante profissional. Homem supostamente forte em uma situação de perigo, pensa que, por ter uma arma na mão e por ter o controle de um momento extraordinário, pode submeter todos às situações que bem entender. É o chamado macho alfa que, na ameaça, no machismo, no preconceito e no grito, busca se provar homem e que, ao fazer isso, só mostra o quão pequeno e insignificante é como ser humano. Exatamente como o inominável que motiva essa série do Classe de Cinema.

“As Herdeiras”: drama paraguaio mergulha nos delicados significados de uma autodescoberta feminina após os 60 anos

Direção: Marcelo Martinessi

Roteiro: Marcelo Martinessi

Elenco: Ana Brun, Margarita Irun, Ana Ivanova, María Martins, Nilda Gonzalez, Alicia Guerra, Mecha Armele, Ana Banks, Beto Barsotti, Regina Duarte, Norma Codas, Natalia Calcena, Clotilde Cabral

Las Herederas, Paraguai/Alemanha/Uruguai/Brasil/Noruega/França, 2018, Drama, 98 minutos

Sinopse: Chela (Ana Brun) e Chiquita (Margarita Irún), herdeiras de famílias abastadas do Paraguai, vivem da venda de seus bens. Quando Chiquita acaba presa por dívidas jamais acertadas, a até então submissa e reclusa Chela precisa se virar e começa por acaso a prestar serviço para um grupo de senhoras ricas como motorista. Logo a nova realidade, e especialmente a exuberante Angy (Ana Ivanova), a quem conhece durante o trabalho, afetam os interesses, prioridades e atitudes da taxista amadora. (Adoro Cinema)

Considerando que um Kikito esculpido em bronze pesa em torno de 3,5 kg, as atrizes Margarita Irun e Ana Ivanova, representantes do filme paraguaio As Herdeiras na cerimônia de premiação do 46º Festival de Cinema de Gramado, devem ter saído do Brasil pagando excesso de bagagem no aeroporto, pois foram nada menos do que seis categorias conquistadas pelo longa no evento serrano, entre elas a raríssima tríplice coroa de melhor filme pelo júris oficial, popular e da crítica. Aliás, um dos Kikitos ainda se transformou em três, já que o prêmio de melhor atriz foi divido entre as três intérpretes principais do filme. Tudo bem que a seleção de longas estrangeiros não foi lá muito elogiada este ano em Gramado, mas, conferindo As Herdeiras, dá para entender o porquê de tanto carinho por essa obra que tem muitas chances de, pela primeira vez e com muita justiça, levar o Paraguai para o quinteto de finalistas ao Oscar de melhor filme estrangeiro.

Centrado exclusivamente em figuras femininas (os homens mal são vistos em cena e, quando o são, estão desfocados ou fora de quadro), As Herdeiras registra a temporada em que Chela (Ana Brun) precisa lidar com a ausência de sua companheira que acaba de ir para a prisão por ter acumulado dívidas jamais acertadas. O longa parte de um encarceramento, mas, no fundo, é sobre libertação: quando passa a ter que encarar a vida com as próprias pernas, a protagonista, antes tão dependente da mulher com quem viveu por mais de 30 anos, começa a se abrir para um mundo que ela nunca se permitiu conhecer. A pegada é menos óbvia do que pode parecer, pois As Herdeiras é o tipo de filme que explora aqueles pequenos acontecimentos do cotidiano que, isoladamente, não parecem significar muita coisa, mas que, quando vistos com certa perspectiva, traduzem toda uma vida. O cinema brasileiro, inclusive, produziu uma obra de conceito semelhante: o tocante Pela Janela, de Caroline Leone, que pode muito bem ser considerado um filme-irmão de As Herdeiras.

As mais delicadas significações começam quando Chela decide fazer bicos como uma espécie de taxista, transportando diversas senhoras de sua vizinhança para hospitais ou jogos de carteado. Para uma mulher que nunca conduziu a sua própria vida, é altamente simbólico que ela vença o seu receio de dirigir, como se estivesse finalmente assumindo a direção de sua existência. Chela também resiste em receber presentes de suas clientes e, mesmo com os problemas financeiros que enfrenta, também parece não se importar tanto com o dinheiro que recebe pelos serviços, situações que refletem o quanto ela inconscientemente faz aquilo pela nova vida que descobriu na ausência de sua companheira e não exatamente pela necessidade de alguns trocados. A transformação da personagem é minuciosa e silenciosa, bem ao estilo do filme com um todo, o que entrega um tremendo desafio para Ana Brun, uma atriz que, pasmem, está em seu primeiro trabalho no cinema! Brun é grandiosa no minimalismo, e por isso é tamanha a surpresa de sua estreia: tal força, em boa parte dos casos, só emana de quem já tem vasta experiência na dramaturgia, mas ela é um ponto fora da curva, dona de um talento nato.

Com a mesmíssima surpresa se descobre que o diretor e roteirista Marcelo Martinessi também está em seu primeiro longa-metragem. Martinessi havia feito três curtas anteriormente, informação que não chega a nos preparar para a expressiva maturidade que vemos em As Herdeiras. Sua direção lapida com firmeza um roteiro que desenvolve com consistência três universos muito particulares e suscetíveis a estereótipos ou superficialidades: o feminino, o homossexual e o da terceira idade, todos representados com sutileza nas passagens onde a protagonista, que sempre teve dificuldade em assumir e verbalizar a sua orientação sexual, de repente se vê desejando uma de suas clientes e percebendo que, mesmo solitária e depois dos 60, uma mulher ainda tem sim muito a descobrir sobre si própria. Premiado também no Festival de Berlim, onde levou os prêmios de melhor atriz para Ana Brun e de melhor filme pelo júri da crítica, As Herdeiras é mais uma merecida viagem repleta de consagrações que o cinema de língua latina faz pelo mundo. E o melhor: levando para diferentes telas a sua indiscutível vocação para pequenas grandes histórias que empoderam as vidas de uma parcela da sociedade que ainda não é tão representada na ficção quanto deveria.

Os vencedores do Emmy 2018

Rachel Brosnahan na noite dominada por The Marvelous Mrs. Maisel entre as comédias: programa levou a Amazon pela primeira vez ao prêmio de melhor série.

Se há uma vencedora poderosíssima na edição comemorativa de 70 anos do Emmy, essa é a Amazon, que, pela primeira vez, faturou a categoria melhor série na premiação, depois de não ter conseguido o feito com a celebrada Transparent. E não há como questionar as seis estatuetas principais conquistados pela irresistível The Marvelous Mrs. Maisel no segmento de comédia: melhor série, direção, roteiro, atriz (Rachel Brosnahan), atriz coadjuvante (Alex Borstein) e elenco. Enquanto a Netflix sofre para tentar ganhar algum prêmio que não seja de minissérie para Black Mirror, a Amazon se firma como uma das plataformas on demand mais conceituadas da atualidade, entregando produções sofisticadas, elegantes e que trabalham de forma exemplar a equação quantidade X qualidade, como é o caso da própria Mrs. Maisel

Por outro lado, a premiação dos dramas foi pulverizada de início ao fim, com estatuetas para diversos seriados: The AmericansWestworldThe Crown e, claro, a grande surpresa da noite que foi Game of Thrones como a melhor série dramática, surgindo aos 45 do segundo tempo para tomar o prêmio que até então era dado como certo para The Handmaid’s Tale, que despencou em uma queda vertiginosa que não lhe trouxe uma vitória sequer, e depois para The Crown, que, ao longo da premiação, começou a tomar espaço com prêmios importantes (atriz, direção e, na semana passada, melhor elenco). Como o programa da HBO foi o grande vencedor apenas com o prêmio de ator coadjuvante para Peter Dinklage? Difícil saber. Por fim, a minissérie da noite foi, como esperado, The Assassination of Gianni Versace: American Crime Story, mais pela pompa da produção e pelo status dos envolvidos do que necessariamente por merecimento, inclusive em um ano pouco expressivo para a categoria.

Confira abaixo a lista dos vencedores entre as categorias de drama, comédia e minissérie:

MELHOR SÉRIE DRAMAGame of Thrones
MELHOR SÉRIE COMÉDIA: The Marvelous Mrs. Maisel
MELHOR MINISSÉRIE: The Assassination of Gianni Versace: American Crime Story

MELHOR ATRIZ EM DRAMA: Claire Foy (The Crown)
MELHOR ATRIZ EM COMÉDIA: Rachel Brosnahan (The Marvelous Mrs. Maisel)
MELHOR ATRIZ EM MINISSÉRIE/TELEFILME: Regina King (Seven Seconds)

MELHOR ATOR EM DRAMA: Matthew Rhys (The Americans)
MELHOR ATOR EM COMÉDIA: Bill Hader (Barry)
MELHOR ATOR EM MINISSÉRIE/TELEFILME: Darren Criss (The Assassination of Gianni Versace: American Crime Story)
MELHOR ATRIZ COADJUVANTE EM DRAMA: Thandie Newton (Westworld)
MELHOR ATRIZ COADJUVANTE EM COMÉDIA: Alex Borstein (The Marvelous Mrs. Maisel)
MELHOR ATRIZ COADJUVANTE EM MINISSÉRIE/TELEFILME: Merritt Wever (Godless)
MELHOR ATOR COADJUVANTE EM DRAMA: Peter Dinklage (Game of Thrones)
MELHOR ATOR COADJUVANTE EM COMÉDIA: Henry Winkler (Barry)
MELHOR ATOR COADJUVANTE EM MINISSÉRIE/TELEFILME: Jeff Daniels (Godless)
MELHOR ROTEIRO EM COMÉDIAThe Marvelous Mrs. Maisel, pelo episódio Pilot
MELHOR DIREÇÃO EM COMÉDIAThe Marvelous Mrs. Maisel, pelo episódio Pilot
MELHOR ROTEIRO EM MINISSÉRIE/TELEFILME: USS Callister: Black Mirror
MELHOR DIREÇÃO EM MINISSÉRIE/TELEFILME: The Assassination of Gianni Versace: American Crime Story, pelo episódio The Man Who Would Be on Vogue
MELHOR ROTEIRO EM DRAMA: The Americans, pelo episódio Start
MELHOR DIREÇÃO EM DRAMA: The Crown, pelo episódio Paterfamilias

Apostas para o Emmy 2018

Em plena segunda-feira (17), o Emmy revelará os vencedores da sua edição comemorativa de 70 anos. A cerimônia será transmitida no Brasil pela TNT, a partir das 20h. Game of ThronesThe Handmaid’s Tale lideram as indicações no segmento dramático, mas é de se esperar que a segunda volte para casa com o maior número de estatuetas, repetindo pelo menos dois prêmios do ano anterior (melhor série e atriz em drama) e acrescentando outros (Yvonne Strahovski como coadjuvante). Quanto às comédias, The Marvelous Mrs. Maisel, da Amazon, parece ser à favorita ao prêmio principal e a outros de atuação (na semana passada, a série já levou a categoria de melhor elenco em série de comédia, entre os prêmios que são entregues pelo Emmy antes da cerimônia oficial). Nas minisséries, The Assassination of Gianni Versace: American Crime Story deve levar a melhor em uma seleção que está bem menos entusiasmante que a do ano passado nesse segmento. Relembre aqui a lista de indicados e confira os nossos palpites para a premiação:

MELHOR SÉRIE DRAMAThe Handmaid’s Tale / alt: Game of Thrones
MELHOR SÉRIE COMÉDIA: The Marvelous Mrs. Maisel / alt: Atlanta
MELHOR MINISSÉRIE: The Assassination of Gianni Versace: American Crime Story / alt: Godless

MELHOR ATRIZ EM DRAMA: Elisabeth Moss (The Handmaid’s Tale) / alt: Claire Foy (The Crown)
MELHOR ATRIZ EM COMÉDIA: Rachel Brosnahan (The Marvelous Mrs. Maisel) / alt: Allison Janney (Mom)
MELHOR ATRIZ EM MINISSÉRIE/TELEFILME: Laura Dern (O Conto) / alt: Edie Falco (Law & Order: True Crime)

MELHOR ATOR EM DRAMASterling K. Brown (This is Us) / alt: Jason Bateman (Ozark)
MELHOR ATOR EM COMÉDIA: Donald Glover (Atlanta) / alt: Ted Danson (The Good Place)
MELHOR ATOR EM MINISSÉRIE/TELEFILME: Darren Criss (The Assassination of Gianni Versace: American Crime Story) / alt: Jeff Daniels (The Looming Tower)
MELHOR ATRIZ COADJUVANTE EM DRAMA: Yvonne Strahovski (The Handmaid’s Tale) / alt: Ann Dowd (The Handmaid’s Tale)
MELHOR ATRIZ COADJUVANTE EM COMÉDIA: Laurie Metcalf (Roseanne) / alt: Alex Borstein (The Marvelous Mrs. Maisel)
MELHOR ATRIZ COADJUVANTE EM MINISSÉRIE/TELEFILME: Penélope Cruz (The Assassination of Gianni Versace: American Crime Story) / alt: Judith Light (The Assassination of Gianni Versace: American Crime Story)
MELHOR ATOR COADJUVANTE EM DRAMA: Mandy Patinkin (Homeland) / alt: Peter Dinklage (Game of Thrones)
MELHOR ATOR COADJUVANTE EM COMÉDIA: Tony Shalhoub (The Marvelous Mrs. Maisel) / alt: Alec Baldwin (Saturday Night Live)
MELHOR ATOR COADJUVANTE EM MINISSÉRIE/TELEFILME: Jeff Daniels (Godless) / alt: Edgar Ramírez (The Assassination of Gianni Versace: American Crime Story)

Quais são as chances de “O Grande Circo Místico” levar o Brasil ao Oscar?

O Grande Circo Místico é o sétimo filme de Cacá Diegues a ser escolhido para representar o Brasil na disputa por uma vaga ao Oscar de melhor filme estrangeiro.

A Comissão de Seleção da Academia Brasileira de Cinema anunciou hoje, 11 de setembro, que O Grande Circo Místico representará o Brasil na disputa por uma vaga entre os cinco finalistas ao Oscar de Melhor filme estrangeiro. Em tese, a escolha é acertada, pois estamos falando do novo longa de Cacá Diegues, um ícone do cinema brasileiro conhecido internacionalmente. O Grande Circo Místico também tem um elenco de primeira, além de certa carreira internacional, já que foi exibido fora de competição no último Festival de Cannes. Entretanto, na prática, a escolha não se justifica porque o filme simplesmente não está à altura dessa representantiva missão. 

Já havia comentado as razões que me distanciam de O Grande Circo Místico na crítica publicada aqui no blog durante a cobertura do 46º Festival de Cinema de Gramado, mas é uma questão lógica: com uma recepção fraquíssima tanto em Cannes quanto em Gramado, era de se esperar que a comissão tivesse percebido o quanto as recepções fraquíssimas já haviam apontando a falta de envolvimento das plateias com o filme, que chega aos cinemas brasileiros no dia 15 de novembro. Sem o aval das duas grandes exibições que teve até agora, O Grande Circo Místico zarpa rumo à corrida por uma vaga entre os cinco finalistas do Oscar de melhor filme estrangeiro com chances quase nulas de chegar lá.

Desde Central do Brasil, em 1999, não figuramos na categoria (e a chance mais expressiva que tivemos recentemente foi com Que Horas Ela Volta?), um longo jejum que, dado o lindo cenário da nossa produção atual, já deveria ter sido quebrado. Algo, no entanto, parece ter desestabilizado a comissão desde a desastrosa escolha de Pequeno Segredo em tempos de Aquarius. Afinal, Bingo – O Rei das Manhãs, produção escolhida ano passado, tinha qualidade de sobra para ser um forte concorrente, mas jamais havia sido exibido internacionalmente e realmente não se encaixava na linguagem das produções escolhidas pelo Oscar. Dessa forma, O Grande Circo Místico marca agora o terceiro ano consecutivo em que a seleção poderia ter um representante muito mais expressivo, mesmo que, no final das contas, ele também não nos colocasse entre os finalistas ao prêmio da Academia.

Se a decisão foi novamente errada, qual, então, seria a certa? Sou suspeito para falar porque Benzinho tem em mim um fã incondicional, mas essa era a produção com o melhor conjunto de variáveis para chegar aos votantes: de temática universal, fala com delicadeza sobre dramas afetivos e familiares de fácil identificação, além de ter começado sua trajetória internacional no Festival de Sundance, um importantíssimo celeiro do cinema independente internacional. Hoje, em sua devida dimensão de filme quase alternativo, Benzinho ainda é um sucesso no Brasil e já está viajando comercialmente mundo afora. Ah, e  também não seria loucura alguma ainda fazer uma pequena campanha ao Oscar de melhor atriz para a Karine Teles! E, se não fosse o filme de Gustavo Pizzi, não seria crime algum escolher Ferrugem por sua contemporaneidade temática e por sua passagem em Sundance, já que títulos transgressores e mais ousados como As Boas ManeirasO Animal Cordial dificilmente teriam qualquer chance.

Relembre a lista dos filmes escolhidos desde o ano 2000 para representar o Brasil na disputa por uma vaga no Oscar de filme estrangeiro:

2017 – Bingo – O Rei das Manhãs, de Daniel Rezende
2016 – Pequeno Segredo, de David Schurmann
2015 – Que Horas Ela Volta?, de Anna Muylaert
2014 – Hoje Eu Quero Voltar Sozinho, de Daniel Ribeiro
2013 – O Som ao Redor, de Kleber Mendonça Filho
2012 – O Palhaço, de Selton Mello
2011 – Tropa de Elite 2: O Inimigo Agora é Outro, de José Padilha
2010 – Lula, o Filho do Brasil, de Fabio Barreto
2009 – Salve Geral, de Sérgio Rezende
2008 – Última Parada 174, de Bruno Barreto
2007 – O Ano em Que Meus Pais Saíram de Férias, de Cao Hamburger
2006 – Cinema, Aspirinas e Urubus, de Marcelo Gomes
2005 – 2 Filhos de Francisco, de Breno Silveira
2004 – Olga, de Jayme Monjardim
2003 – Carandiru, de Hector Babenco
2002 – Cidade de Deus, de Fernando Meirelles
2001 – Abril Despedaçado, de Walter Salles
2000 – Eu, Tu, Eles, de Andrucha Waddington

Rapidamente: “10 Segundos Para Vencer”, “O Avental Rosa”, “A Cidade dos Piratas” e “Ferrugem”

Grande vencedor do 46º Festival de Cinema de Gramado, Ferrugem está na lista dos filmes que disputam a vaga para representar o Brasil na corrida pelo Oscar de melhor filme estrangeiro.

10 SEGUNDOS PARA VENCER (idem, 2018, de José Alvarenga Jr.): Cinebiografia do boxeador brasileiro Éder Jofre, 10 Segundos Para Vencer é o primeiro longa-metragem abertamente dramático assinado por José Alvarenga Jr., que fez carreira dirigindo comédias mais populares e de expressivas bilheterias, como DivãOs NormaisCilada.com e vários títulos dos Trapalhões entre os anos 1980 e 1990. Para essa nova investida, ele optou por um formato seguro e já consolidado nas biografias produzidas pelo cinema brasileiro, onde a história, que transita pelo clássico arco dramático de apogeu, decadência e reerguimento, tem início, meio e fim muito bem definidos, sem nada muito novo em forma ou estrutura. O que dá mesmo força ao projeto é a leitura do esporte como uma ferramenta de interação humana, e não como mero exercício físico ou passatempo: para Éder Jofre, lutar era uma missão de vida e também o que lhe conectava com um pai rígido, exigente e que esperava do filho uma trajetória gloriosa dentro e fora dos ringues. Talvez a escolha por esse olhar mais íntimo e familiar do personagem explique a leitura um tanto insuficiente que 10 Segundos Para Vencer faz do ícone Éder Jofre, poucas vezes devidamente dimensionado como uma mítica figura do cenário esportivo brasileiro. Por ser muito mais sobre laços e ruídos afetivos entre pai e filho, o roteiro abre as portas para que Daniel Oliveira, em plena entrega física, crie uma ótima química com o grande Osmar Prado, aqui em desempenho marcante, buscando todo tipo de humanidade e complexidade em um sujeito que, treinador do próprio filho, dificilmente encontra o equilíbrio saudável entre o seu papel de pai e a sua missão como uma incansável líderança do boxe. Organicamente, Osmar toma conta do filme, ao mesmo tempo em que há generosidade de sobra em sua dinâmica com os outros atores em cena. Não há o que quesionar: o nocaute de 10 Segundos Para Vencer é dele.

O AVENTAL ROSA (idem, 2018, de Jayme Monjardim): Apresentado pelo próprio Jayme Monjardim como o seu primeiro trabalho mais autoral depois de super produções realizadas para o cinema e para TV, O Avental Rosa é uma homenagem ao trabalho solidário e dedicado de pessoas que cuidam de pacientes terminais, tema sempre muito delicado por ser suscetível ao discurso fácil e à panfletagem. Ao preservar muito da linguagem televisiva que tanto consagrou Monjardim na televisão, o filme se desenrola basicamente como uma novela compactada em duas horas de projeção. São pouquíssimos os traços verdadeiramente cinematográficos na tela, começando pelo roteiro, recheado de lições de moral, coincidências e diálogos redundantes, onde são explicados conflitos e questionamentos que já estavam claríssimos através das atitudes de cada personagem. E mais: com um tom fortíssimo de melodrama e de auto-ajuda, o diretor reproduz diversos cacoetes reconhecidos da TV, como quando a protagonista, atormentada pelas discussões de um dia conturbadíssimo emocionalmente, não consegue dormir e se revira na cama com flashbacks e ecos das frases que lhe foram ditas. Na estética, a lógica se repete, pois, quando ganha um creme para a pele de presente, Alicia (Cyria Coentro) passa longos minutos caminhando pela casa e passando o produto lentamente na pele, como se estivesse em um comercial de cosméticos. Com uma grande escala de orçamento, como aconteceu em Olga, é possível maquiar bastante coisa. Já em um filme menor e mais intimista como proposto aqui, as fragilidades emergem de forma mais evidente. Por isso mesmo, conclui-se que O Avental Rosa é feito para o público adepto e afeito à linguagem televisiva. Como desde 2012 não assisto à uma novela sequer (e a última foi Avenida Brasil, que era mais sofisticada do que a média apresentada em horário nobre), não consegui estabelecer qualquer conexão com o longa.

A CIDADE DOS PIRATAS (idem, 2018, de Otto Guerra): A animação A Cidade dos Piratas é tão divertidamente caótica quanto o próprio diretor Otto Guerra, além de ser uma fidelíssima alegoria sobre os nossos tempos, ainda que essa seja apenas uma coincidência do roteiro, que começou a ser escrito em 2001. À parte as questões políticas e sociais tão reivindicadas pelo diretor dentro e fora de seus trabalhos, o filme propõe uma interessante metalinguagem ao colocar o próprio Otto dentro da história: tudo começa quando ele se vê em plena crise existencial e artística após a descoberta de um câncer e de que Laerte, autora dos quadrinhos em que o filme se baseia, de repente passou a renegar os seus próprios personagens. São fatos que realmente aconteceram e que, nos bastidores, bagunçaram por completo a ideia do projeto, algo que Otto viu como uma irresistível oportunidade, incorporando muitos dos acontecimentos na tela. No bom sentido da comparação, isso faz de A Cidade dos Piratas o trabalho mais maluco já assinado pelo animador gaúcho: com personagens improváveis, inúmeras liberdades, humor afiado e, por que não, uma imensa dose de realismo no meio disso tudo, o longa coloca o espectador em terrenos incertos e imprevisíveis, provocando reações que, para o bem ou para o mal, podem ser medidas conforme o gosto de cada um pelo já reconhecido estilo do animador. No raríssimo terreno de animações brasileiras para adultos, A Cidade dos Piratas nos lembra o quanto Otto continua sendo uma figura única e provocadora, que conta uma história como bem entende, sem estar preso a regras ou domesticações, qualidade celebrada pontualmente pelo 46º Festival de Cinema de Gramado com uma menção honrosa entregue ao filme pelo júri oficial. 

FERRUGEM (idem, 2018, de Aly Muritiba): Com as redes sociais tomando conta do nosso cotidiano e da maneira com que nos relacionamos com outras pessoas e inclusive com nós próprios, é muito lógico que o cinema também passe a refletir sobre esse delicado momento geracional. O Brasil, claro, faz parte dessa safra: depois do recente Aos Teus Olhos, agora temos Ferrugem, o grande vencedor do 46º Festival de Cinema de Gramado com os Kikitos de melhor filme, roteiro e direção. Menos verbal e expositivo do que os retratos desse tema costumam ser (e do que vimos em Aos Teus Olhos, por exemplo), o filme de Aly Muritiba levanta suas discussões a partir de perspectivas bastante distintas. A primeira é a de uma garota que, após ter um vídeo íntimo vazado na internet, passa a viver um verdadeiro pesadelo no colégio. A segunda é a de um menino que, por razões um tanto nebulosas, lida muito mal como um observador de todo aquele caos. É corajosa e inesperada a virada que Ferrugem dá na metade da projeção para inverter o foco da narrativa. Todo ato tem uma consequência, e é radiografando a reverberação da culpa, seja ela íntima ou coletiva, que a história ganha uma atmosfera diferenciada para discussões que estão em voga e que ainda serão exploradas de tantas outras maneiras semelhantes no cinema. Ferrugem não é um filme para o público jovem no sentido de ser uma experiência catártica ou embalada comercialmente para esse tipo de público. Pelo contrário: contemplativo, o projeto é muito mais sobre comportamentos do que sobre acontecimentos, tornando-se até um tanto anti-climático dependendo das expectativas, principalmente na segunda parte, muito bem defendida pela ótima performance do jovem Giovanni Di Lorenzo, mesmo que seu personagem não seja o tipo de persona que desperte empatia no espectador. Ferrugem não chega a ser um grande filme, mas as importantes reticências deixadas por ele quanto ao que nos tornamos frente a movimentos tecnológicos ou geracionais colocam o resultado em um patamar no mínimo diferenciado.

“O Conto”: incômoda produção da HBO mergulha nas verdades que criamos (e aceitamos) para sobreviver

Why can’t I remember myself?

Direção: Jennifer Fox

Roteiro: Jennifer Fox

Elenco: Laura Dern, Jason Ritter, Ellen Burstyn,  Elizabeth Debicki, Frances Conroy, Common, Jessica Sarah Flaum, John Heard, Chelsea Alden, Isabelle Nélisse, Matthew Rauch, Tina Parker, Isabella Amara

EUA/Alemanha, 2018, Drama, 114 minutos

Sinopse: Jennifer (Laura Dern) tem uma ótima carreira como documentarista e professora e um relacionamento repleto de carinho e respeito mútuo com seu noivo, Martin (Common). Porém, quando sua mãe encontra uma história que ela escreveu para escola quando tinha 13 anos contando sobre um relacionamento que teve com dois adultos, ela é obrigada a revisitar um passado traumático e reconciliar suas lembranças com o que de fato aconteceu com ela. (Adoro Cinema)

O Conto teve seus direitos de distribuição adquiridos pela HBO na última edição do Festival de Sundance, quando despertou grandes sensações entre público e crítica após a sua primeira exibição. Ao contrário do que se poderia esperar para uma produção questionadora, incômoda e até mesmo polêmica, as reações foram basicamente positivas, ressaltando a urgência do tema discutido. No filme, a diretora Jennifer Fox, também autora do roteiro, relembra a sua primeira (e conturbadíssima) relação sexual, quando ainda era a criança. E ela escolhe um ponto de vista interessante: o da mulher já adulta e bem realizada (Laura Dern) que sempre viveu aparentemente bem com tais lembranças, mas que começa a questionar certezas e verdades quando sua mãe (Ellen Burstyn) encontra, escandalizada, um diário que conta toda a história de forma detalhada.

A provocação de O Conto está em lidar com um assunto delicadíssimo através de uma personagem que, a princípio, não enxerga sua própria condição como algo a ser levado a sério. Isso até a protagonista finalmente perceber que a vida adulta muitas vezes se resume às verdades que criamos e aceitamos para de alguma forma sobreviver a diferentes tipos traumas. É na desconstrução de inúmeras certezas que o filme de Jennifer Fox se torna poderoso, especialmente porque o roteiro trabalha muito bem a questão de como nossas memórias são capazes de adaptar o que de fato aconteceu apenas para corroborar aquilo que queremos tomar como verdade. A relação entre o que realmente se desenrolou e o que a protagonista crê ser realidade é representada com muito impacto, pois O Conto encena uma determinada circunstância que, vista de fora, precisa ser imediatamente diagnosticada e vista como condenável.

Incômoda, a produção toca em inúmeros tabus que evitamos discutir se tratando de sexualidade, em especial a feminina, sempre questionada e colocada à prova pela sociedade. Há precisão e consistência em tudo que O Conto discute a partir dessa perspectiva, o que, infelizmente, não se reflete na forma, que simplifica e tenta dramatizar ainda mais uma história que por si só já impacta e provoca. As tentativas de elevar o tom de urgência são rasteiras, como na primeira meia hora, onde o filme cria cerimônia e suspense para até mesmo verbalizar o que os personagens tanto clamam como traumático e absurdo sem nunca dar qualquer pista sobre o que eles estão falando. A insistência da trilha e o vai e vem na história também atrasam uma trama que talvez fluísse melhor com uma narrativa linear, acumulando no espectador a expectativa para descobrir como toda aquela conturbada infância seria traduzida para a vida adulta.

Com a estrutura proposta, O Conto muitas vezes limita Laura Dern a ser uma espécie de Amy Adams em Animais Noturnos: ela lê e relembra, volta a ler e reflete, em um ciclo que eventualmente acontece alguma coisa para somente no terço final ganhar um material mais completo, onde, aí sim, a atriz mostra seu talento indiscutível e habitual. Apesar disso, as fragilidades são compensadas por discussões que certamente reverberam após a sessão e que são redimensionadas pela maneira aberta com que a diretora expõe a sua vida, inclusive assumindo toda a negação que, durante muitos anos, abraçou para não ter que encarar traumas nefastos. Nesse sentido, O Conto assombra porque consegue, na medida do possível, nos colocar no lugar da protagonista, questionando até que ponto precisamos abraçar a negação como ferramenta para a sobrevivência.

46º Festival de Cinema de Gramado #8: balanço geral da premiação

Ferrugem, de Aly Muritiba, é o grande vencedor do 46º Festival de Cinema de Gramado. Foto: Edison Vara/Pressphoto

Com uma cerimônia efervescente do ponto de vista político, o Festival de Cinema de Gramado encerrou a sua 46º edição no último sábado, 26 de agosto. O filme escolhido pelo júri oficial como o melhor da equilibrada seleção de longas-metragens brasileiros foi o drama Ferrugem, de Aly Muritiba, que já tem estreia prevista no circuito brasileiro para o dia 30 de agosto. Acompanhando os desdobramentos trazidos pelo vazamento de um vídeo íntimo na internet, o longa também faturou os Kikitos de melhor roteiro e melhor desenho de som. Ferrugem, no entanto, não foi o grande vencedor da noite: Benzinho, de Gustavo Pizzi, a grande unanimidade desta edição, levou para casa os prêmios de atriz para Karine Teles e atriz coadjuvante para Adriana Esteves, além dos Kikitos de melhor filme pelo júri popular e pelo júri da crítica. É no mínimo estranho Benzinho não ter encantado o júri oficial, especialmente quando público e crítica concordam que este era o melhor filme em competição. Não que Ferrugem não tenha méritos, mas Benzinho é o tipo de filme que será lembrado como uma indiscutível pérola do cinema nacional recente (e é bem provável que, com razão, ainda seja escolhido como o representante do Brasil para tentar uma vaga no Oscar de melhor filme estrangeiro).

No geral, a lista contemplou a grande pluralidade da seleção deste ano, deixando apenas dois filmes sem prêmios: O Avental Rosa, de Jayme Monjardim, e Mormaço, de Marina Meliande. O primeiro, definido por Monjardim como um trabalho muito pessoal e autoral, realmente merecia passar despercebido por sua linguagem altamente televisiva e melodramática, mas o segundo ter saído de mãos abanando é um pequeno crime, pois é contundente a análise sócio-política que a diretora faz de um Brasil em franca transformação urbana e que, durante esse processo, oprime os menos favorecidos. Também é um pouco surpreendente a vitória de André Ristum como melhor diretor por A Voz do Silêncio: seu amadurecimento como realizador desde O Outro Lado do Paraíso se traduz na tela, mas, particularmente, acredito que os trabalhos de Gustavo Pizzi e Marina Meliande sejam mais complexos e inovadores. 

Osmar Prado e o seu Kikito de melhor ator por 10 Segundos Para Vencer. Foto: Edison Vara/Pressphoto

Entre as categorias técnicas, foram acertados os três Kikitos para Simonal e a menção honrosa para a animação A Cidade dos Piratas, do veterano Otto Guerra, lembrada, segundo o júri, por seu “humor não domesticado”. Contudo, nenhum momento foi tão emblemático ou comovente quanto a vitória de Osmar Prado por 10 Segundos Para Vencer, a sua primeira por um papel como protagonista em cinema ao longo de 60 anos de carreira. Pelo desempenho em si, a consagração já seria comovente (e sua emoção era genuína), mas, ao defender o ex-presidente Lula, hoje “injustamente trancafiado nas masmorras de Curitiba”, mobilizou vaias e aplausos no cinema. Para os contrários, disse “pode vaiar”. Para os que compartilhavam do sentimento, ergueu o Kikito com orgulho. Certamente, um dos momentos mais memoráveis do Festival de Cinema de Gramado nos últimos anos, fazendo jus ao engajamento e  à resistência que fizeram do Palácio dos Festivais um templo do cinema brasileiro. Ainda no plano nacional, foram bem divididas as consagrações entre os curtas-metragens. Assim como nos longas, a escolha do júri oficial (a animação Guaxuma) não coincidiu com o queridinho da crítica e do público (a também animação Torre). Felizmente, a discordância não é grave: tanto Guaxuma quanto Torre são, ao mesmo tempo, filmes pessoais e universais, além claro, de serem animações, gênero que cresce cada vez mais no cenário audiovisual brasileiro. Se há alguma ressalva na lista, essa é a do pouco caso com Nova Iorque, comovente produção estrelada por Hermila Guedes e pelo pequeno Juan Calado, que saiu de Gramado somente com o Kikito de melhor fotografia e com o prêmio do Canal Brasil para curtas. Chegando aos longas estrangeiros, “somente” não se aplica aos oito prêmios recebidos por As Herdeiras, sendo três para as atrizes Ana Brun, Margarita Irun e Ana Ivanova. Dirigido por Marcelo Martinessi, o filme foi considerado pela crítica como o franco favorito para fazer o Paraguai estrear na disputa pelo Oscar de filme estrangeiro.

Confira abaixo lista completa de vencedores da 46ª edição do Festival de Cinema de Gramado:
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LONGAS-METRAGENS BRASILEIROS

MELHOR FILME: Ferrugem, de Aly Muritiba
MELHOR DIREÇÃO: André Ristum (A Voz do Silêncio)
MELHOR ATRIZ: Karine Teles (Benzinho)
MELHOR ATOR: Osmar Prado (10 Segundos Para Vencer)
MELHOR ATRIZ COADJUVANTE: Adriana Esteves (Benzinho)
MELHOR ATOR COADJUVANTE: Ricardo Gelli (10 Segundos Para Vencer)
MELHOR ROTEIRO: Jessica Candal e Aly Muritiba (Ferrugem)
MELHOR DESENHO DE SOM: Alexandre Rogoski (Ferrugem)
MELHOR TRILHA MUSICAL: Max de Castro e Wilson Simoninha (Simonal)
MELHOR DIREÇÃO DE ARTE: Yurika Yamazaki (Simonal)
MELHOR MONTAGEM: Gustavo Giani (A Voz do Silêncio)
MELHOR FOTOGRAFIA: Pablo Baião (Simonal)
MENÇÃO HONROSA: A Cidade dos Piratas, de Otto Guerra
MELHOR FILME – JÚRI POPULAR: Benzinho, de Gustavo Pizzi
MELHOR FILME – JÚRI DA CRÍTICA: Benzinho, de Gustavo Pizzi

LONGAS-METRAGENS ESTRANGEIROS

MELHOR FILME: As Herdeiras, de Marcelo Martinessi
MELHOR DIREÇÃO: Marcelo Martinessi (As Herdeiras)
MELHOR ATRIZ: Ana Brun, Margarita Irun e Ana Ivanova (As Herdeiras)
MELHOR ATOR: Nestor Guzzini (Mi Mundial)
MELHOR ROTEIRO: Marcelo Martinessi (As Herdeiras)
MELHOR FOTOGRAFIA: Nelson Waisntein (Averno)
PRÊMIO ESPECIAL DO JÚRI: Averno, de Marcos Loayza
MELHOR FILME – JÚRI POPULAR: As Herdeiras, de Marcelo Martinessi
MELHOR FILME – JÚRI DA CRÍTICA: As Herdeiras, de Marcelo Martinessi

CURTAS-METRAGENS BRASILEIROS

MELHOR FILME: Guaxuma, de Nara Normande
MELHOR DIREÇÃO: Fábio Rodrigo (Kairo)
MELHOR ATRIZ: Maria Tugira Cardoso, por Catadora de Gente
MELHOR ATOR: Manoel do Norte (A Retirada Para Um Coração Bruto)

MELHOR ROTEIRO: Marco Antônio Pereira (A Retirada Para Um Coração Bruto)
MELHOR DESENHO DE SOM: Fábio Carneiro Leão (Aquarela)
MELHOR TRILHA MUSICAL: Manoel do Norte (A Retirada Para Um Coração Bruto)
MELHOR DIREÇÃO DE ARTE: Pedro Franz e Rafael Coutinho (Torre)
MELHOR MONTAGEM: Thiago Kistenmacker (Aquarela)
MELHOR FOTOGRAFIA: Beto Martins (Nova Iorque)
PRÊMIO ESPECIAL DO JÚRI: Estamos Todos Aqui, de Chico Santos e Rafael Mellim
PRÊMIO CANAL BRASIL DE CURTAS: Nova Iorque, de Leo Tabosa
MELHOR FILME – JÚRI POPULAR: Torre, de Nádia Mangolini
MELHOR FILME – JÚRI DA CRÍTICA: Torre, de Nádia Mangolini

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