Cinema e Argumento

“Blackbird”: entre prós e contras, discrição do cinema dinamarquês é preservada em remake estrelado por Susan Sarandon

Can we all behave as normally as possible?

Direção: Roger Michell

Roteiro: Christian Torpe, baseado no longa-metragem “Coração Mudo”, de Bille August

Elenco: Susan Sarandon, Kate Winslet, Mia Wasikowska, Sam Neill, Rainn Wilson, Lindsay Duncan, Anson Boon, Bex Taylor-Klaus

EUA/Reino Unido, 2019, Drama, 97 minutos

Sinopse: Três gerações de uma família se encontram na casa da matriarca para um fim de semana. Doente terminal, ela está decidida a acabar com sua vida naquele domingo e, por isso, deseja dar o adeus final a seus entes mais queridos. Enquanto o fim de semana progride, antigos conflitos voltam a atormentá-los.

Não há escapatória: lançado qualquer remake estadunidense de uma obra de língua não-inglesa, público e crítica sempre tecerão comparações sobre o quanto se perdeu ou o quanto se preservou na transposição de um idioma a outro e, principalmente, de um mercado a outro. É um movimento muito orgânico, visto que, em quase todos os casos, as culturas e as cinematografias são tão opostas que o sentido de uma história pode ser reinterpretado. Mais do que isso, há casos em que, à parte o resultado do remake como um trabalho isolado, essa discussão comparativa é central, como foi para mim neste Blackbird, que adapta o drama dinamarquês Coração Mudo e que, apesar de ter estreado no Festival de Toronto, ganhou distribuição limitadíssima nos cinemas norte-americanos, também amargando repercussão quase nula junto à crítica especializada.

Protagonista do filme, Susan Sarandon chegou a alegar que parte dos problemas envolvendo a repercussão do projeto veio da constatação de que o público têm pouco interesse em filmes estrelados por atrizes de idade avançada (no último mês de outubro, ela completou 74 anos de idade). Susan não deixa de ter razão. Contudo, é inegável o problema de que que determinados estilos de narrativas são mais efetivos em algumas cinematografias do que outras. Talvez com receio de não descaracterizar o material original, Blackbird tenta preservar o espírito econômico e sóbrio de Coração Mudo, inclusive trazendo o mesmo roteirista para a refilmagem. Se há algo que o diretor Roger Michell claramente não quis fazer foi dar uma roupagem norte-americana à trama dinamarquesa.

A escolha de Michell revela uma respeitosa e bem-vinda reverência ao longa de 2014, mas, quando não se abre algum espaço para reinterpretações, o resultado é apenas uma repetida encenação e não uma verdadeira adaptação. Claro que o sucesso ou o fracasso comercial de um filme não deve servir como parâmetro de sua qualidade isolada. Ainda assim, diz muito um filme como Blackbird passar em branco mesmo com um público mais específico e até com a própria crítica. E o que imagino é isso: por reproduzir o estilo discreto do cinema dinamarquês para tema tão difíceis, o longa pouco se conecta com as plateias norte-americanas, que, ao lerem a sinopse, devem ter imaginado um lacrimoso melodrama sobre doenças terminais e o fim da vida, como no novelesco Duas Semanas estrelado por Sally Field, citando um título de premissa semelhante.

Ao preservar características do material original, Blackbird acerta em não tornar novelesca a condição de sua protagonista. Afinal, são infinitos os dramas protagonizados por mães que descobrem uma doença terminal e que, ao se depararem com a finitude da vida, reavaliam toda sua existência junto a entes queridos perto do inevitável fim. Blackbird recusa tudo isso logo nas linhas gerais: o espectador já começa a sessão sabendo sobre o quadro irreversível de Lily (Sarandon), sem passar pelos clássicos rituais de diagnósticos e exames, e também sobre a decisão de que ela, convencida a fazer o que for preciso para não se tornar uma inválida, dará um fim à própria vida por meio de um suicídio assistido já informado para toda a família. Direto ao ponto. E sem desespero.

É excelente Blackbird nos poupar de todas as discussões filosóficas, éticas e morais sobre morte e eutanásia, pois, ao fugir do óbvio, o filme se propõe a trazer novos olhares para temas recorrentes e até a entregar um papel mais interessante para uma atriz como Susan Sarandon, que já deu vida a todo tipo de sofrimento com os toques dramáticos de Hollywood (morte do filho em Vida Que Segue e Em Busca de Uma Nova Chance, corredor da morte em Os Últimos Passos de Um Homem, câncer em Lado a Lado, a busca pela cura de uma doença em O ÓIeo de Lorenzo…). Com o que recebe neste remake, ela trabalha a melancólica serenidade de uma mulher que tem poder de decisão sobre a sua própria existência e que está em paz com os seus últimos dias de vida. Sem uma cena de choro sequer, Sarandon, que assumiu o papel previsto para Diane Keaton, segue à risca a sobriedade do texto, engrandecida por seus olhos marcantes e que, por serem tão expressivos e darem a impressão de que guardam todo um universo, servem com perfeição a uma personagem interiorizada em sentimentos.

Do início ao fim, o diretor Roger Michell compreende a necessidade de tentar fugir minimamente da cartilha do gênero, mesmo que sua vocação como realizador o faça cair em algumas armadilhas aqui e ali: tendo conquistado o coração de incontáveis plateias nos anos 1990 com a comédia romântica Um Lugar Chamado Notting Hill e realizado comédias de viés comercial como Uma Manhã Gloriosa, Michell parece não fazer muita questão de resistir quando o roteiro lhe permite explorar emoções de forma expositiva. É o caso dos tons dados a uma descoberta feita pela personagem de Kate Winslet sobre o seu pai, assim como a insistência em colocar duas irmãs de personalidades tão opostas em confronto. Claro que são plots presentes no roteiro de Christian Torpe, mas a encenação folhetinesca de Michell em ambos os casos traz um significativo descompasso para um filme que, no geral, tenta não se render ao excesso.

Sublinhando eventuais irregularidades de tons está a escalação equivocada de pelo menos duas atrizes em um elenco repleto de bons atores. A primeira é a de Kate Winslet, que poucas vezes esteve tão insípida como aqui. Como a primogênita certinha e responsável, falta a Kate algum tipo de química entre ela e outros colegas, como o próprio Rainn Wilson, seu deslocado par romântico. Já a segunda é um pouco mais problemática: a de Mia Wasikowska como a irmã caçula da família (e a única verdadeiramente incomodada com o suicídio assistido da mãe). Mia novamente vez investe na repetição do tipo choroso, difícil e por vezes antipático que passou a dominar sua carreira. Ela é excelente atriz (como esquecer dos episódios arrasadores de In Treatment?), e por isso é frustrante constatar como isso não vem sendo refletido nos últimos anos.

Apesar das irregularidades, a inspiração na sobriedade dinamarquesa não deixa de dar musculatura ao balanço final de Blackbird. E repito que todos os momentos interessantes recaem sobre Susan Sarandon, uma atriz que, inclusive por seus posicionamentos políticos, não costuma receber papeis estimulantes como esse com a devida frequência. Não é o tipo de personagem que marca uma filmografia, mas que com certeza simboliza o avesso ao óbvio em tempos em que tudo passou a ser tão expositivo e mastigado para o espectador. Sem data prevista para chegar ao Brasil, seja nas salas de cinema ou em plataformas de streaming, Blackbird também deve ser varrido para debaixo do tapete por aqui. É um destino no mínimo decepcionante para um longa que, mesmo com seus altos e baixos como adaptação, não merecia passar completamente em branco.

“Verlust”: direção solene e personagens distantes esvaziam reflexões de Esmir Filho sobre as complexidades da vida adulta

Tem que ser sobre mudança, transformação. Não pode afundar no passado.

Direção: Esmir Filho

Roteiro: Esmir Filho e Ismael Caneppele

Elenco: Andréa Beltrão, Marina Lima, Alfredo Castro, Ismael Caneppele, Fernanda Pavanelli, Nina Yazbek, Samuel Reginatto, Núria Flor, Rafael Soliwooda, Enrique Gayo, German Ormaechea, Eduardo Fusatti, Maria Fernanda Antelo, Tuane Eggers

Brasil/Uruguai, 2020, Drama, 111 minutos

Sinopse: Isolada na praia, a poderosa empresária Frederica (Andréa Beltrão) prepara a festa de Réveillon que todos esperam. Em meio à crise do casamento com o fotógrafo Constantin (Alfredo Castro), que afeta diretamente a filha adolescente, ela ainda tem que administrar a vida e a carreira do ícone pop Lenny (Marina Lima), que decidiu escrever uma obra misteriosa ao lado do escritor João Wommer (Ismael Caneppele). Quando uma criatura estranha surge do fundo do mar, a crise se instaura na teia de afetos e Frederica terá que enfrentar seu maior medo: a perda.

Com uma carreira especializada em explorar a pluralidade de sentimentos vividos por gerações mais jovens, o cineasta paulista Esmir Filho entrega, aos 38 anos, o seu primeiro longa-metragem voltado para os dilemas da vida adulta. Trata-se de Verlust, onde ele novamente leva para as telas um romance de Ismael Caneppele, construindo um “diálogo livro-filme sobre aqueles que aguam à beira”, conforme define o próprio diretor. Saem de cena, portanto, os dilemas existenciais do garoto solitário e sem nome de Os Famosos e os Duendes da Morte, os afetos jovens e multifacetados de Alguma Coisa Assim (o curta, vale mencionar, é muito melhor do que o longa) e a pulsante diversidade de uma adolescência livre de rótulos do recente seriado Boca a Boca. No lugar, encontramos personagens adultos que, reunidos em uma mesma casa às vésperas do réveillon, encontram-se cercados por angústias e problemas agravados pelo silêncio e pela falta de diálogo. O convívio tão próximo entre figuras calejadas colocará todos em uma rota de colisão emocional, claro.

Por trabalhar de forma tão próxima e colaborativa com o escritor Ismael Caneppele, Esmir consegue criar uma linguagem que explora as potencialidades e o ritmo muito próprio desse diálogo livro-filme. Seu aperfeiçoamento como diretor é visível, principalmente no que se refere à exploração de elementos estéticos e sensoriais para ler o que habita as entrelinhas do silêncio, e não há dúvidas de que Caneppele, autor de Os Famosos e os Duendes da Morte (livro que deu origem ao primeiro longa-metragem de Esmir) e do próprio Verlust, ainda inédito, com o qual o filme dialoga, tem papel fundamental nessa simbiose (não à toa, Caneppele também ganha mais espaço como ator neste novo trabalho). Através da imersão proposta por ambos, o espectador é convocado a ser agente ativo no processo de conexão com o filme, uma vez que, na medida em que tudo se desenha a partir do que não é dito, cabe a quem está assistindo traduzir para si próprio a intensidade, a razão e o significado do que está sendo encenado, sem que Verlust entregue respostas prontas.

Se Esmir elevou a sua capacidade de criar atmosfera por meio da técnica, talvez o mesmo não se aplique ao plano narrativo, pois Verlust reduz de tamanha maneira o que sabemos sobre os personagens que é fácil sairmos da sessão com a impressão de que convivemos um tempo considerável com aquelas figuras sem necessariamente conhecê-las de verdade. Todos, sem exceção, apresentam conflitos centrais bem definidos, como a Frederica de Andréa Beltrão — que, entre outros dilemas, vive uma crise matrimonial —, mas o roteiro parece preso a essas linhas gerais, tentando explorá-los em sequências solenes e silenciosas, onde os personagens se observam de longe, trocam longos olhares, vagam pela casa chorando ao som de uma música triste ou tocam contrabaixo nos rochedos do mar. São cenas que, pelo já comentado talento de Esmir em criar atmosfera, funcionam. Em certo ponto, contudo, começam a soar mais como maneirismos inseridos no clichê da família rica e branca que sofre em uma linda casa à beira-mar.

Como um admirador confesso de Os Famosos e os Duendes da Morte, deduzo que, para efeitos comparativos, o número consideravelmente maior de personagens seja o calcanhar de Aquiles desta nova adaptação de Esmir Filho e Ismael Caneppele. Em Os Famosos… a dupla mergulhava exclusivamente no universo particular de um menino, explorando muito bem as suas particularidades, seja naquilo que era dito ou no que ficava em silêncio. O próprio Alguma Coisa Assim, que Esmir realizou depois, também tinha um núcleo mais econômico, centrado em uma dupla de amigos. Já em Verlust há um salto considerável: são pelo menos cinco os personagens que precisam de desenvolvimento. E o resultado é a já citada tendência de todos serem definidos por um conflito básico embrulhado em sequências cerimoniosas e com pouco a dizer. Tal afirmação é evidenciada pelas performances, especialmente as de Andréa Beltrão e Marina Lima. A primeira, como a atriz maravilhosa que é, mergulha melhor na personagem do que o próprio texto, enquanto a segunda chama a atenção toda vez que entra em cena com sua marcante persona, sendo mais magnética pela figura de Marina Lima do que pelo material que lhe foi endereçado.

Inicialmente idealizado com o título de A Baleia, Verlust (perda, em alemão) centraliza boa parte de seu drama na figura da baleia que encalha no mar em frente à casa da protagonista. O acontecimento, que, de um jeito ou de outro, mexe com todos em cena traz uma discussão interessante do ponto de vista filosófico: será mesmo que a baleia gostaria de ser desesperadamente salva pelos humanos ou ela estaria ali tranquila e pronta para morrer em paz? É curioso como essa incógnita resume o longa como um todo. Ao passo em que que todos observam aquela baleia de longe, sem nunca saber de fato o que se passa com ela, o mesmo acontece com o espectador em relação à trama: sabemos que algo acontece com aqueles personagens, todos encalhados e imóveis como a baleia que os intriga, mas sempre os vemos com distanciamento, como estranhos, sem que eles sugiram as respostas que precisamos — não aquelas simplistas e definitivas dadas por filmes que se encerram neles próprios, e sim as que, podendo ser garimpadas com encanto nos detalhes e nas entrelinhas, tanto definem a conexão das plateias com um filme.

48º Festival de Cinema de Gramado #5: um balanço geral das mostras competitivas

 

27 filmes concorreram ao Kikito em 2020. Foto: Edison Vara/Pressphoto

O Festival de Cinema de Gramado foi o primeiro grande evento do gênero a não se contentar somente com exibições virtuais e a transferir toda a sua programação presencial para um formato inteiramente novo. A decisão de exibir os filmes em plataformas online sempre foi uma excelente tática dos festivais como um todo desde que a pandemia impossibilitou eventos presenciais, mas Gramado foi além: não só disponibilizou parte da programação no streaming do Canal Brasil como colocou as mostras competitivas de longas e curtas-metragens, bem como as suas tradicionais homenagens, diretamente no horário nobre da emissora com transmissão pela TV para todo o Brasil. Sendo assim, Gramado, antes um evento restrito ao Palácio dos Festivais na Serra Gaúcha, tornou-se possível para qualquer pessoa que tivesse assinatura do pacote básico de uma TV por assinatura. O acerto pôde ser constatado nas redes sociais: do Twitter ao Letterboxd, cinéfilos de diferentes pontos do Brasil acompanhavam a programação e opinavam sobre os filmes exibidos diariamente. Ponto para o Festival.

No entanto, já tendo trabalhado nos bastidores do evento e conhecendo as dinâmicas que envolvem a submissão de filmes para uma possível seleção, deduzo que muitos títulos devem ter pulado fora do barco quando Gramado anunciou, após o período de inscrições, que as mostras competitivas seriam exibidas pela TV. E aí não é uma questão de conservadorismo ou preciosismo: disponibilizar um filme para a TV, ainda que em exibição única, não deixa de ser uma maneira de queimar futuras janelas de exibição e até mesmo de correr o grande risco de que os filmes sejam pirateados, distribuídos na internet ilegalmente ou algo semelhante. Há de se entender quem possivelmente optou por dispensar Gramado, mas também é preciso admirar quem apostou no evento em um ano tão complicado e incerto, colocando suas fichas no prestígio que o festival gaúcho acumulou em 48 anos de trajetória e também na proposta de, através da parceria com o Canal Brasil, ter um público muito mais amplo, plural e talvez nunca antes alcançado nessas circunstâncias.

Em tese, a complexa equação foi bem resolvida, já que Gramado conseguiu reunir títulos aguardados, como Todos os Mortos, de Caetano Gotardo e Marco Dutra, que havia sido exibido no início deste ano no Festival de Berlim, e os novos trabalhos de diretores como Felipe Bragança (Um Animal Amarelo), Ruy Guerra (Aos Pedaços) e Camilo Cavalcante (King Kong en Asunción). Contudo, o assunto foi diferente na prática, e só o tempo dirá se a safra não colaborou, se a nova curadoria formada por Marcos Santuario, Pedro Bial e Soledad Villamil foi vítima das circunstâncias já citadas e dos tempos exceções que vivemos ou se de fato o Festival realmente errou nessa nova composição de curadores, visto que, mesmo Bial e Soledad tendo um filme aqui e outro ali no currículo, ambos são reconhecidos primordialmente por atividades em outras áreas profissionais, como o jornalismo e a música. Para um evento de cinema que, em suas últimas edições, chegou a ter o ator José Wilker, o crítico Rubens Ewald Filho e a produtora argentina Eva Piwowarski na curadoria, eis um ponto a ser debatido.

Levanto tal questionamento pois a competição do 48º Festival de Cinema de Gramado foi a mais fraca em, pelo menos, dez anos, tempo em que passei a acompanhar religiosamente a programação do evento. E a irregularidade não ficou restrita aos longas, uma vez que os próprios curtas-metragens, escolhidos por uma comissão à parte, também pouco entusiasmaram. Por fim, para dimensionar melhor as razões que me levam a ter encerrado a 48ª edição do evento com frustração, faço abaixo um balanço mais amplo das mostras.

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Um Animal Amarelo, de Felipe Bragança

LONGAS-METRAGENS BRASILEIROS

A competição de longas-metragens brasileiros abriu com Por Que Você Não Chora?, trabalho da diretora Cibele Amaral que coloca em pauta o delicado tema do suicídio, alertando para o fato de que, a cada 40 minutos, uma pessoa tira a sua própria vida no Brasil. Cibele traz para o projeto toda a sua experiência como psicóloga e estagiária do Instituto de Saúde Mental do Distrito Federal, deixando muito clara a sua assumida vontade de versar sobre o assunto. Acontece que, como diretora e roteirista deste projeto tão pessoal, ela é muito mais didática do que cinematográfica, o que se reflete em problemas básicos, como a presença de personagens que só estão em cena para contextualizar o espectador em conceitos e padrões da psicologia a partir de diálogos expositivos, quando não artificiais. Ou seja, Por Que Você Não Chora? é um filme bastante informativo e feito sob medida para ser usado em sessões temáticas seguidas de debate, mas de pouquíssima consistência quando se elimina a relevância das discussões propostas para se avaliar o filme como um todo.

Ainda na linha de longas que priorizam seus objetos de estudo em detrimento do protagonismo de uma linguagem cinematográfica, foram exibidos dois documentários sobre figuras musicais na competição: O Samba é Primo do Jazz, que tem como figura central a cantora Alcione, e Me Chama Que Eu Vou, sobre a vida e a obra do cantor Sidney Magal. Ambos são televisivos no sentido negativo dessa comparação (Angela Zoé, diretora de O Samba é Primo do Jazz, chegou a comentar no debate sobre o filme de que, inclusive, foi inicialmente convidada a fazer um especial para a TV, e somente depois surgiu a ideia de fazer um longa-metragem), mas com uma diferença crucial entre eles: a entrega entre cada um dos seus personagens. Enquanto Sidney Magal abre até o seu guarda-roupa para o público e ressignifica seus próprios fracassos em Me Chama Que Eu Vou, Alcione parece tomar certa distância de O Samba é Primo do Jazz, dando depoimentos eventualmente divertidos, ainda que reservados entre um ensaio ou outro, deixando inclusive lacunas como a de sua intocável afetiva (em nenhum momento sabemos se ela sequer namorou, casou ou teve alguma grande paixão). Esse distanciamento facilita o veredito: pelo carisma e pela entrega, sou muito mais Magal. De qualquer forma, ambos não são filmes com a estatura e relevância dignas de um grande festival de cinema.

E param por aí a formalidade, a panfletagem ou as convencionalidades da seleção de longas brasileiros do 48º Festival Cinema de Gramado, pois demais títulos exibidos se arriscam muito mais na forma e nas discussões. O meu favorito é Um Animal Amarelo, de Felipe Bragança, que venceu o júri da crítica, do qual fiz parte, por unanimidade. Espécie de fábula tragicômica e ambiciosa rapsódia sobre ruínas do nosso passado e heranças coloniais indigestas, o filme acompanha a jornada de um cineasta brasileiro falido de 33 anos em busca do passado violento de seu avô. Bragança, que nega qualquer teor autobiográfico, é preciso ao entender seu lugar de fala: aqui, o homem branco e heterossexual não é vangloriado, mas sim até mesmo ridicularizado em suas fraquezas e visões de mundo. A mistura de gêneros também é muito bem harmonizada para que o diretor construa uma estrutura caleidoscópica, tendo como base importantes críticas sociais e históricas sobre como nossas colonizações ainda definem as organizações identitárias e afetivas de toda uma geração. Além disso, a narração de Isabél Zuaa, ainda que por vezes excessiva, ajuda a ampliar as percepções sobre um protagonista que carrega memórias sem saber ao certo como organizá-las. É um trabalho com estilo de superprodução e que dá conta de suas ambições.

Todos os Mortos, de Caetano Gotardo e Marco Dutra, conversa diretamente com Um Animal Amarelo ao materializar os fantasmas da herança escravocrata. Ao mesmo tempo em que desenha a origem da mentalidade reacionária moderna, o filme quebra estereótipos e preconceitos na construção de seu discurso, reafirmando uma característica muito própria do cinema de Marco e Caetano: em Todos os Mortos, a branquitude, por exemplo, é vista como uma elite falida e que se vê completamente perdida sem os negros, enquanto estes estes passam a reivindicar algum tipo de voz, independência e identidade (a trama se passa na São Paulo de 1899, poucos anos depois da abolição da escravatura). O olhar diferenciado dos diretores continua na ideia do longa ser essencialmente centrado em figuras femininas, sem que necessariamente haja protagonistas bem definidas em um verdadeiro filme-elenco. O cuidado minimalista da excelente trilha sonora assinada por Salloma Salomão também fala muito sobre a preservação da identidade negra, solidificando as escolhas sofisticadas de Todos os Mortos. Contudo, falta ao resultado um ritmo mais digerível, sem essa sensação de que tudo é prolongado demais, o que não deixa de ser consequência de uma narrativa tão fragmentada entre uma quantidade considerável de personagens, alguns mais interessantes e complexos do que outros. 

Na linha tênue entre o inventivo e o hermético, o veterano Ruy Guerra apresentou Aos Pedaços, onde o protagonista Eurico (Emilio de Mello) recebe um bilhete anunciando a sua morte e começa a embaralhar internamente espaços, personagens, paixões extremas, ódios, amores e suspeitas em na tentativa de compreender quem poderia ter lhe enviado a fatídica mensagem. É inegável o impacto técnico da obra, com destaque para belíssima fotografia em preto e branco assinada por Pablo Baião que faz poderosos contrastes entre luz e sombra evocando traços de clássicos noir, mas o texto excessivamente teatral e a escolha por rodar o filme em espaços limitadíssimos fazem de Aos Pedaços uma experiência erudita demais, esvaziando a interessante proposta de ser um drama de paranoia kafkiano com toques de horror existencialista onde amor e morte são faces da mesma moeda. O clima, que começa funcionando, termina dissipado em um longa que anda em círculos e que parece apenas interessado em elaborar monólogos e mais monólogos com frases bonitas jogadas ao ar. Foi certamente uma das sessões mais difíceis do evento.

E o que dizer do grande vencedor da competição, King Kong en Asunción, último filme a ser exibido na programação? O que imediatamente me vem à cabeça ao pensar nele é o grande desempenho de Andrade Júnior, falecido em maio de 2019 e que sequer chegou o projeto finalizado. Não tenho dúvidas de que o filme é todo dele: delicado e profundo, Andrade carrega no corpo e na alma as melancólicas nuances de um matador de aluguel que, já na terceira idade, realiza seu último trabalho e parte em busca da filha que nunca conheceu. É curioso, entretanto, como essa mesma melancolia não chega a ter a mesma potência no filme como um todo, que é reiterativo nas longas caminhadas feitas pelo protagonista em sua viagem e nos inúmeros silêncios que costumam ser interrompidos apenas pela peculiar narração em Guaraní que busca dar mais camadas ao protagonista. Há sequências muito belas, como a que abre o filme ou aquela com o choro frente ao espelho, onde King Kong en Asunción entrega seus melhores momentos. Entretanto, não é o bastante para disfarçar conhecida sensação de que a história, tão esticada aqui, poderia render, na verdade, um belíssimo curta-metragem.

El Gran Viaje al País Pequeño, de Mariana Viñoles

LONGAS-METRAGENS ESTRANGEIROS

Não é de hoje que a mostra estrangeira do Festival de Cinema de Gramado vem perdendo a sua expressividade e relevância. Na última década, aliás, talvez somente As Herdeiras tenha sido o trabalho verdadeiramente marcante exibido na Serra Gaúcha, o que é uma constatação frustrante quando lembramos que, desde a sua criação nos anos 1990, a mostra já premiou nomes como Pedro Almodóvar, Javier Bardem, Alberto Iglesias, Marisa Paredes e exibiu títulos como O Banheiro do PapaO Filho da Noiva e Medianeras – Buenos Aires na Era do Amor Virtual. Pois a nova curadoria não dá sinais de mudar esse cenário: em 2020, os títulos estrangeiros de Gramado foram menos irregulares do que os brasileiros, mas novamente ficaram distantes de deixar alguma grande lembrança para a posteridade. O que segue valendo mesmo é a possibilidade de navegar pela cinematografia de diferentes lugares. Nesse casos, de seis países contemplados na competição: Argentina, Chile, Colômbia, México, Paraguai e Uruguai.

Começo falando sobre aquele que mais me instigou: o documentário uruguaio El Gran Viaje al País Pequeño, de Mariana Viñoles, premiado como melhor filme pelo júri popular e pelo júri da crítica. Viñoles usa o tempo documental com sabedoria neste relato sobre a adaptação de duas famílias sírias que, tendo deixado suas terras e tradições para trás, começam uma nova vida no Uruguai. É com calma e com o mínimo de interferência que ela registra a desconstrução de um sonho: ao chegar no Uruguai, as famílias se deparam não com o país idealizado que tinham em mente, mas sim com uma realidade de pouca assistência e com prazo de validade para amparos sociais e financeiros. Sem papas na língua, os sírios se mostram frustrados e indignados com o país governado à época por Pepe Mujica, trazendo reflexões e críticas muito pertinentes para o endeusamento que, inclusive nós brasileiros, costumamos fazer, para o bem e para o mal, de figuras e regimes políticos de nosso país e também de países vizinhos. Contemporâneo e multifacetado, El Gran Viaje al País Pequeño instiga ao entregar a voz para personagens que reagem com pensamentos distintos e inclusive polêmicos frente à situação, fazendo desse um documentário que não prefere o calorzinho do conforto.

Na relação entre dois países também se desenvolve o colombiano La Frontera. Dessa vez, mais especificamente, em um certo limbo da fronteira entre Colômbia e Venezuela, onde uma jovem indígena vive com seu marido e seu irmão, roubando viajantes que seguem por trilhas, até o destino transformar as condições de sobrevivência dessa personagem. O diretor David David faz, em La Frontera, uma bonita homenagem à resiliência feminina, munido de uma protagonista que já enfrenta tragédias, abandonos e desamparos desde muito cedo. Ao contrário do que se pode imaginar, não é um filme necessariamente político, e sim mais humano, focado na luta diária e silenciosa de uma mulher para sobreviver em um cenário de completa miséria. E nada é apelativo ou exagerado, pois David David escolhe acompanhar a protagonista quase em tom documental, deixando para que as próprias paisagens e precaridades de uma paupérrima moradia falem por si só. Da metade em diante, o longa também surpreende com a entrada de outra figura feminina, muito oposta à protagonista, mas equivalente em solidariedade e companheirismo para vencer as mazelas de um cotidiano tão duro. O júri oficial de Gramado considerou La Frontera o melhor longa-metragem estrangeiro deste ano, e o prêmio ficou em boas mãos.

Para completar a trilogia dos filmes que considerei os melhores da mostra latina de 2020, cito o chileno Los Fuertes, de Omar Zúñiga. No centro da história, temos uma paixão entre Lucas (Samuel González), que viaja para visitar sua irmã em uma cidade remota no sul do Chile, e Antonio (Antonio Altamirano), um contramestre de um barco de pesca local. Não se trata de um grande filme, muito menos de um muito inventivo, o que não tira o mérito da sobriedade e da delicadeza impressas por Omar Zúñiga na direção e no roteiro. Mesmo que o entorno dos personagens traga certas adversidades e que tenhamos novamente personagens gays enfrentando a impossibilidade de um amor minado pelas distâncias impostas pela vida, Los Fuertes não trata tudo isso com desespero ou melodrama. Zúñiga prefere, na realidade, se debruçar sobre o tempo em que esses personagens vivem juntos e sobre a construção de afeto que se dá entre eles, conferindo doses extras de realismo na bonita entrega dos atores, ambos despidos de vaidades ou cerimônias para dar vida ao carinho e ao sexo de dois personagens gays sem qualquer distanciamento.

Completaram a seleção de estrangeiros: o argentino El Silencio del Cazador, o mexicano Dias de Invierno e o paraguaio Matar a un Merto. Para fins comparativos, são longas bastante inferiores quando colocados lado a lado com os outros citados até aqui. El Silencio del Cazador até tem bons ideias ao explorar a perigosa rivalidade entre dois homens de personalidades opostas, mas cede a um desenrolar muito convencional, com escolhas e reviravoltas esperadas para os conflitos apresentados. Já Dias de Invierno é o oposto de Los Fuertes: ao invés de ser um mérito, seu intimismo leva o filme para a inexpressividade, onde os dramas familiares são todos mornos e com pouco a revelar sobre personagens defendidos por um elenco irregular. Enquanto isso, o paraguaio Matar un Muerto segue a linha de um certo marasmo, ainda que conte a seu favor a direção climática de Hugo Giménez para falar sobre assombros da ditadura paraguaia e a boa performance de Aníbal Ortiz, premiada com o Kikito de melhor ator.

Inabitável, de Matheus Farias e Enock Carvalho

CURTAS-METRAGENS BRASILEIROS

Entre os curtas, 14 produções estiveram na disputa pelo Kikito, em uma seleção cujo perfil chamou a atenção pelo grande número de documentários. Foram seis ao total, quase metade da seleção: Dominique, Extratos, Atordoado, Eu Permaneço Atento, Joãosinho da Goméa – O Rei do Candomblé e Wander Vi. Meu destaque fica com Atordoado, Eu Permaneço Atento, que redimensiona o formato de monólogo de um personagem para transformá-lo em uma análise muito mais ampla e necessária sobre como o Brasil vem alimentando o retorno de práticas da ditadura. Também vale o destaque para Dominique, que, ao acompanhar o retorno de uma transexual para a cidade de sua mãe, aos poucos se apresenta como uma bonita homenagem ao amor materno. Nesse caso, o de uma mulher por suas três filhas transexuais, representadas no documentário pela figura de Dominique, uma personagem cativante. De resto, temos documentários protocolares, válidos mais pelo tema levantado do que pela execução.

Nos outros títulos, é fácil perceber a tendência de obras sobre a realidade brasileira atual. Há, por exemplo, 4 Bilhões de Infinitos, sobre duas crianças que sonham com dias mais esperançosos em uma casa com a luz cortada no interior; Subsolo, divertida animação gaúcha de Erica Maradona e Otto Guerra sobre a obsessão pela busca de corpos perfeitos em academias; Tricheira, de Alagoas, onde um garoto que vive em um aterro de lixo encontra uma realidade alternativa na sua própria imaginação; e, claro, O Barco e o Rio, grande vencedor do júri oficial e popular, que acompanha os dias de uma mulher religiosa que cuida de uma embarcação no porto de Manaus e que precisa lidar com uma irmã que diverge em relação a como lidar com o barco e com a própria vida (o curta marca a primeira vitória de uma produção de Amazonas no Festival de Cinema de Gramado).

Porém, nenhum deles me conquistou tanto quando Inabitável, de Matheus Farias e Enock Carvalho. No júri da crítica, premiamos o curta “pela forma delicada como corporifica a protagonista ausente, trazendo elementos fantásticos para descrever um estado de invisibilidade e dar sentido a uma vivência da transgeneridade”. Falar mais do que isso é possivelmente estragar a boa surpresa desse filme que tem uma excelente performance central de Luciana Souza e que constrói uma atmosfera angustiante e realista ao mesmo tempo em que se utiliza de pitadas fantásticas para falar sobre um mundo (ou, mais especificamente, um Brasil) que já não é mais possível para parcelas da população tão discriminadas e invisibilizadas pela sociedade. É um belo exemplo sobre como tratar sobre temas sociais importantes sem panfletagem, mas sim de maneira muito cinematográfica e atmosférica.

Até a próxima, Gramado!

 

48º Festival de Cinema de Gramado #4: refletindo a competição irregular, cerimônia de premiação tem resultado fragmentado entre os longas brasileiros

King Kong en Asunción foi escolhido o melhor longa-metragem brasileiro em competição. Foto: Cleiton Thiele/Pressphoto

Após uma programação que se deu em formato multiplataforma, com transmissões na tela do Canal Brasil, nas redes sociais e em streaming, o Festival de Cinema de Gramado encerrou sua 48ª edição neste sábado (26) com uma cerimônia de premiação novamente sem público presencial e com os indicados acompanhando o anúncio por videochamada, exatamente como já havia acontecido na Mostra Gaúcha de Curtas. Rápida e direta ao ponto, a noite de encerramento acertou pela sobriedade ao conduzir o anúncio dos vencedores sem muitas distrações e priorizando os resultados dos júris. Com uma imagem melancólica dos Kikitos enfileirados ao fundo do palco, o Festival de Cinema de Gramado consagrou, então, King Kong en Asunción como o melhor longa-metragem brasileiro de sua 48ª edição. O título dirigido por Camilo Cavalcante conquistou ainda os prêmios de melhor ator para Andrade Júnior, trilha musical e melhor filme pelo júri popular.

Como um todo, o júri oficial formado por Sabrina Fidalgo, Jeferson De, Karine Teles, Caco Ciocler e Kiko Ferraz fez as suas escolhas de maneira bastante pulverizada, refletindo a impressão de que realmente não houve um franco favorito nesta que foi, muito provavelmente, a seleção mais desinteressante de Gramado nos últimos dez anos (e somente o tempo poderá dizer se isso é consequência dos tempos de exceções que vivemos ou uma identidade da nova curadoria assinada por Marcos Santuario, Pedro Bial e Soledad Villamil). O resultado foi tão fragmentado que quatro vencedores diferentes se destacaram em prêmios centrais como melhor filme (King Kong en Asunción), direção (Ruy Guerra com Aos Pedaços), roteiro (Felipe Bragança com Um Animal Amarelo) e montagem (Eduardo Gripa por Me Chama Que Eu Vou). Ainda houve espaço para que Todos os Mortos, de Caetano Gotardo e Marco Dutra, faturasse três estatuetas: atriz coadjuvante (Alaíde Costa), ator coadjuvante (Thomás Aquino) e trilha musical para Salloma Salomão.

Justamente por ser um ano tão irregular, não houve surpresas desagradáveis entre os vencedores de longas brasileiros. Ainda que certos prêmios sejam questionáveis (Elisa Lucinda é praticamente uma figurante sem desenvolvimento em Por Que Você Não Chora?, o que não justifica o prêmio especial do júri concedido a ela) e outros partam do gosto pessoal de cada um, o júri fez um trabalho coerente na distribuição dos Kikitos. Particularmente, ainda reflito sobre a vitória de King Kong en Assunción, cuja presença no Festival talvez fizesse mais sentido na mostra estrangeira. É certo que o filme tem direção pernambucana e, em termos proporcionais, seja majoritariamente produzido pelo Brasil, mas não deixa de ser estranho um longa inteiramente falando em espanhol, narrado em Guaraní, ambientado na Bolívia e no Paraguai, com título estrangeiro e coproduzido por outros países da América Latina vencer a mostra de longas brasileiros. 

No que se refere ao segmento estrangeiro, é justa a vitória de La Frontera, da Colômbia, como melhor filme, especialmente quando o júri também optou por premiar Daylin Vega Moreno e Sheila Monterola como as melhores atrizes em competição. Já o prêmio de direção ficou com Mariana Viñoles por aquele que considero o melhor título dirigido exibido por nossos hermanos: El Gran Viaje al País Pequeño, documentário bastante crítico e observador que acompanha o processo de adaptação de duas famílias sírias que, tendo deixado suas terras e tradições para trás, começam uma nova vida no Uruguai. Coerente ao não premiar o fraquíssimo drama mexicano Días de Invierno, o júri composto por Bruno Polidoro, Fabio Meira, Lucia Caus, Beatriz Seigner e Armando Babaioff só pecou ao deixar passar em branco o delicado drama chileno Los Fuertes.

Por fim, a mostra em que mais discordei dos vencedores foi a de curtas-metragens brasileiros, onde O Barco e o Rio saiu vitorioso em melhor filme pelo júri oficial e popular, direção, fotografia e direção de arte. Também não sou o maior fã de Você Tem Olhos Tristes e acho que Inabitável, de Enock Carvalho e Matheus Farias, deveria ter ido além dos merecidos prêmios de melhor roteiro e atriz. Lembro, no entanto, que atividades de júri são complexas e muito relativas: este ano, inclusive, integrei o Júri da Crítica do Festival, onde escolhemos nossos filmes com muita convicção (longa brasileiro para Um Animal Amarelo, longa estrangeiro para El Gran Viaje al País Pequeño e curta brasileiro para Inabitável), mas acabamos discordando do júri oficial e popular em duas de nossas escolhas. Aliás, exatamente por fazer parte do júri, não pude comentar ao longo do evento sobre os filmes. Tirarei o atraso ao longo dessa semana, quando publicarei um balanço mais detalhado sobre as mostras.

Confira abaixo a lista de vencedores:

LONGAS-METRAGENS BRASILEIROS


MELHOR FILMEKing Kong en Asunción, de Camilo Cavalcante
MELHOR DIREÇÃO: Ruy Guerra (Aos Pedaços)
MELHOR ATRIZ: Isabél Zuaa (Um Animal Amarelo)
MELHOR ATOR: Andrade Júnior (King Kong en Asunción)
MELHOR ATRIZ COADJUVANTE: Alaíde Costa (Todos os Mortos)
MELHOR ATOR COADJUVANTE: Thomás Aquino (Todos os Mortos)
MELHOR ROTEIRO: Felipe Bragança (Um Animal Amarelo)
MELHOR FOTOGRAFIA: Pablo Baião (Aos Pedaços)
MELHOR MONTAGEM: Eduardo Gripa (Me Chama Que Eu Vou)
MELHOR TRILHA MUSICAL: Salloma Salomão (Todos os Mortos) e Shaman Herrera (King Kong en Asunción)
MELHOR DIREÇÃO DE ARTE: Dina Salem Levy (Um Animal Amarelo)
MELHOR DESENHO DE SOM: Bernardo Uzeda (Aos Pedaços)
PRÊMIO ESPECIAL DO JÚRI: Elisa Lucinda (Por Que Você Não Chora?)
MENÇÃO HONROSA DO JÚRI: Higor Campagnaro (Um Animal Amarelo)
MELHOR FILME (JÚRI POPULAR)King Kong en Asunción
MELHOR FILME (JÚRI DA CRÍTICA): Um Animal Amarelo, de Felipe Bragança
MELHOR LONGA-METRAGEM GAÚCHOPortuñol, de Thaís Fernandes

LONGAS-METRAGENS ESTRANGEIROS


MELHOR FILME: La Frontera, de David David
MELHOR DIREÇÃO: Mariana Viñoles (El Gran Viaje al País Pequeño)
MELHOR ATRIZ: Daylin Vega Moreno e Sheila Monterola (La Frontera)
MELHOR ATOR: Anibal Ortiz (Matar a un Muerto)
MELHOR ROTEIRO: David David (La Frontera)
MELHOR FOTOGRAFIA: Nicolas Trovato (El Silencio del Cazador)
PRÊMIO ESPECIAL DO JÚRIEl Gran Viaje al País Pequeño, de Mariana Viñoles
MELHOR FILME (JÚRI POPULAR)El Gran Viaje al País Pequeño
MELHOR FILME (JÚRI DA CRÍTICA)El Gran Viaje al País Pequeño

CURTAS-METRAGENS BRASILEIROS


MELHOR FILME: O Barco e o Rio, de Bernardo Ale Abinader
MELHOR DIREÇÃO: Bernardo Ale Abinader (O Barco e o Rio)
MELHOR ATRIZ: Luciana Souza (Inabitável)
MELHOR ATOR: Daniel Veiga (Você Tem Olhos Tristes)
MELHOR ROTEIRO: Matheus Farias e Enock Carvalho (Inabitável)
MELHOR FOTOGRAFIA: Valentina Ricardo (O Barco e o Rio)
MELHOR MONTAGEM: Ana Júlia Travia (Você Tem Olhos Tristes)
MELHOR TRILHA MUSICAL: Hakaima Sadamitsu e M. Takara (Atordoado, Eu Permaneço Atento)
MELHOR DIREÇÃO DE ARTE: Francisco Ricardo Lima Caetano (O Barco e o Rio)
MELHOR DESENHO DE SOM: Isadora Torres e Vinicius Prado Martins (Receita de Caranguejo)
PRÊMIO ESPECIAL DO JÚRI: Preta Ferreira (Receita de Caranguejo)
MELHOR FILME (JÚRI POPULAR)O Barco e o Rio, de Ale Abinader
MELHOR FILME (JÚRI DA CRÍTICA)Inabitável, de Matheus Farias e Enock Carvalho

48º Festival de Cinema de Gramado #3: “Construção”, de Leonardo da Rosa, é o vencedor da Mostra Gaúcha de Curtas

Cerimônia contou com participação online dos concorrentes. Foto: Cleiton Thiele/Pressphoto.

Foi sem público presencial no Palácio dos Festivais e com os concorrentes participando de forma remota que o 48 Festival de Cinema de Gramado anunciou, no final da tarde desta quarta-feira (23), os vencedores da tradicional Mostra Gaúcha de Curtas, promovida em parceria com a Assembleia Legislativa do Estado do Rio Grande do Sul. E, pelo segundo ano consecutivo, uma produção da Universidade Federal de Pelotas leva o prêmio de melhor filme: o documentário Construção, de Leonardo da Rosa, também consagrado nas categorias de melhor direção e montagem. Outra produção de destaque na lista de vencedores foi Deserto Estrangeiro, de David Pretto, com os prêmios de melhor atriz para Isabél Zuaa, melhor ator para Mauro Soares e melhor fotografia para Luciana Baseggio. Equilibrada, a premiação laureou aqueles que de fato foram os melhores filmes de uma boa edição da mostra. Cada um a sua maneira, Construção Deserto Estrangeiro desvelam mazelas importantes da nossa sociedade com com experimentação e pungência, seja na forma de um sólido documentário de natureza observacional ou nas particularidades de um drama que ganha traços de horror e suspense ao radiografar os traumas do colonialismo. O júri formado por Adriano Garret, Karla Holanda, Fernando Dias, Zezita Matos e Maria Abdalla acertou em cheio.

Confira abaixo a lista de vencedores:

MELHOR FILME: Construção, de Leonardo da Rosa
MELHOR DIREÇÃO: Leonardo da Rosa (Construção)
MELHOR ATRIZ: Isabél Zuaa (Deserto Estrangeiro)
MELHOR ATOR: Mauro Soares (Deserto Estrangeiro)
MELHOR ROTEIRO: Richard Tavares (Desencanto)
MELHOR FOTOGRAFIA: Luciana Baseggio (Deserto Estrangeiro)
MELHOR MONTAGEM: André Berzagui e Arthur Amaral (Construção)
MELHOR DIREÇÃO DE ARTE: Alice Sperb e Thiago Dorsch (Sopa Noir)
MELHOR MÚSICA/TRILHA SONORA: Valmor Pedretti (Magnética)
MELHOR DESENHO DE SOM: Gabriel Portela (Letícia Monte Bonito 04)
MELHOR PRODUÇÃO EXECUTIVA: Matheus Heinz (Lacrimosa)
PRÊMIO ESPECIAL DO JÚRI: O Que Pode Um Corpo?, de Victor Di Marco e Márcio Picoli
MELHOR FILME (JÚRI DA CRÍTICA): Fragmentos ao Vento 1945, de Ulisses Da Motta, com menção honrosa para Construção, de Leonardo da Rosa

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