50ª Mostra de Cinema de São Paulo #5: “Fjord”, de Cristian Mungiu

O olhar alheio como elemento primordial de acusação costuma render grandes filmes, e não canso de citar A Caça e Dúvida como exemplos extraordinários desse tipo de proposta no cinema contemporâneo. Tanto o título dinamarquês quanto o estadunidense são habilidosíssimos ao colocar o espectador no centro de histórias em que personagens acabam julgados não por fatos, mas pelas percepções de outras pessoas que, pelas mais variadas razões, não hesitam em apontar o dedo. E há filmes como Fjord, que se focam mais em longos discursos e em modos de embolar ainda mais a trama do que exatamente no desenvolvimento de seus personagens.
Em última instância, é sempre a nossa conexão com os seres humanos da tela que guiará emocionalmente a nossa jornada rumo à dúvida ou à certeza. No caso do filme de Cristian Mungiu, que levou para casa a Palma de Ouro do último Festival de Cannes, temos pouco tempo junto aos protagonistas antes de eles, enfim, serem acusados de bater nos próprios filhos em uma sociedade norueguesa bastante rígida nas medidas contr esse tipo de agressão. Sabemos apenas que Lisbet (Renate Reinsve) e Mihai (Sebastian Stan) são novos na comunidade e criam seus filhos sob rigorosas crenças católicas.
Tudo acontece rapidamente: o serviço de apoio à criança tira os filhos do casal, eles são processados nas esferas civil e criminal, o sistema parece trabalhar contra eles e, parafraseando o pastor da comunidade, a saga vira uma luta de Davi contra Golias. Por um lado, não dá para dizer que Fjord não se mune bem de argumentos para deixar a situação intrincada, principalmente no que se refere à ação da lei norueguesa, que, por exemplo, leva a palavra da criança (mesmo que manipulada ou fora de contexto) ao pé da letra e transfere os pequenos para outra família como bem entende.
No entanto, todo o processo envolvendo a batalha judicial do casal pelos filhos nunca chega a atingir uma veia emocional, muito menos quando Fjord praticamente vira um filme de tribunal. Frente às autoridades, advogados evocam as crenças religiosas retrógradas da família, como a intolerância a qualquer expressão que não siga as normas heteronormativas, e as maneiras como diferentes culturas interpretam o conceito de castigo para uma criança. São momentos interessantes, capazes de colocar o espectador em confronto com suas certezas sobre determinados temas, mas não exatamente sobre os personagens que estão sendo julgados.
O roteiro, também de autoria de Mungiu, cria uma crise palpável, até porque é amparado por bons atores como Renate Reinsve e Sebastian Stan. Na contramão, os dois polos — o da família e o do Estado — nunca se confrontam em pé de igualdade no que se refere às camadas atribuídas a eles. Lisbet e Mihai surgem tão indefesos diante de toda a situação, e o sistema é tão enfático com eles, que a perseguição acaba por soar muito mais do que apenas religiosa, algo que Fjord também não desenha com muita solidez, mesmo com uma ampla gama de coadjuvantes à disposição.
O resultado morno frustra porque o mundo tenta sobreviver a todo tipo de incêndio: moral, político, civilizatório. Frente à ascensão em larga escala da extrema direita, cada vez mais vemos valores em xeque e o diálogo se esvaindo do plano cotidiano às questões macro. Fjord, propondo-se a amalgamar colisões, fica na superfície, como quando pouco explora o fato de uma filha do casal ter se manifestado de maneira contrária à homossexualidade da colega, pois isso seria contrário aos ensinamentos da Bíblia. No mundo em que estamos — e que o longa se propõe a refletir — discussões como essa merecem com mais garra.



