Cinema e Argumento

Três atores, três filmes… com Waldemar Dalenogare

dalenogaretresApós um bate-papo sobre a temporada de premiações lá no canal do Cinema e Argumento no YouTube, tenho o prazer de reencontrar o professor e crítico de cinema Waldemar Dalenagore agora aqui na coluna Três atores, três filmes. Meu conterrâneo de Porto Alegre (RS), Dale é um dos maiores experts quando o assunto é Oscar e temporada de premiações. Inclusive, vale destacar uma importante descoberta feita por ele recentemente: a da primeira menção feita em um jornal sobre o Oscar em dezembro de 1933, acabando com uma antiga teoria de que Sidney Skolsky teria criado o nome em março de 1934. Doutor em História e membro da Film Independent, da Critics Choice Association e da Online Film Critics Society, Dale publica suas críticas e análises no canal Dalenogare Críticas, que recentemente ultrapassou a marca de 100 mil seguidores. O conhecimento compartilhado por ele nos vídeos está, em certa medida, traduzida nas escolhas feitas abaixo para a coluna, que vão de 1927 a 2018. Boa leitura!

Howard Vernon (O Silêncio do Mar)
A discussão sobre a experiência traumática da Segunda Guerra Mundial que era feita no cinema francês durante a metade final dos anos 40 vendia uma noção de que todos haviam lutado com bravura, na medida do possível, seja no front ou na resistência ativa contra os nazistas. Jean-Pierre Melville desconstrói essa noção em O Silêncio do Mar ao propor uma análise da resistência silenciosa, pela honra, da mesma forma que discute sobre a natureza do nazismo. Howard Vernon não teve uma carreira de grande destaque, mas considero sua atuação em O Silêncio do Mar inesquecível. Inicialmente ele traz para consideração o orgulho nazista – que invadia a casa de dois humildes franceses e que vibrava com as conquistas de seu exército. Todas suas tentativas de diálogo com os franceses naquela casa não foram bem sucedidas – eles preferiram o silêncio. E nos geniais monólogos de Melville, que tinha base no popular livro de Vercors escrito durante a guerra, o personagem de Vernon se desconstrói. Aos poucos ele observa os comportamentos exagerados de seus pares, os crimes de guerra. Ele nota que sua visão sobre o que o nazismo significava era fruto da máquina de propaganda e de uma inocência que não era partilhada pelos demais Generais. E essa jornada de Howard Vernon como Werner von Ebrennac foi fundamental para uma guinada na discussão sobre resistência e nazismo no cinema francês. E Vernon, com incrível destreza, trabalha com essa personalidade tão conturbada desde sua saudação inicial até o olhar penetrante de um homem que sai da sua zona de conforto e praticamente assina sua sentença de morte .

Clara Bow (Asas)
Clara Bow foi uma das principais atrizes de Hollywood. Não é à toa que Clara foi a ‘It Girl’. Tenho um carinho muito especial por Asas, de William A. Wellman, pois o trabalho técnico é impressionante: pela primeira vez uma produção investiu nas cenas aéreas e correu riscos para trazer cenas diferentes do padrão da época – e o resultado é espetacular. Mas a Paramount sentia que precisava de uma estrela de peso para ajudar na promoção do filme, até mesmo para justificar o amplo investimento, e a personagem de Clara Bow foi adicionada às pressas no roteiro. A história que inicialmente envolvia amizade e superação ganhou novos traços. E Clara Bow é responsável direta por tornar Asas uma experiência mais acessível, ocasionalmente deixando em segundo plano a discussão sobre a experiência e o drama de guerra, com uma leve comédia de frustrações e desencantos que também envolveria um romance impensável. Clara Bow não entrava em um filme apenas para atuar. Tudo o que ela fazia no auge da sua fama era motivo para discussão e inspiração – das roupas até o comportamento. Considero seu trabalho em Asas impecável.

Clint Eastwood (A Mula)
Sou um grande fã de Clint Eastwood. Poderia citar tantos filmes e tantas atuações memoráveis, mas vou mencionar a sua atuação mais recente – Earl Stone, em A Mula. Lembro-me da sensação que tive quando assisti ao filme pela primeira vez: seria essa a despedida de Clint como ator? Sua longevidade e paixão pelo cinema são impressionantes. O que mais chama a atenção é que tradicionalmente um ator com 88 anos de idade (na época) tem de lidar com problemas de saúde e limitações físicas. Como dizia Jack Palance, os próprios produtores colocam uma data de validade para atores e atrizes: com mais de 80 anos, é difícil conseguir um papel destaque – quando muito aparece uma vaga para vovô/vovó. Em A Mula, Clint consegue passar do desespero ao conforto. Idoso, ele é o protagonista. E é possível fazer uma ligação da percepção de mundo do personagem com o próprio Clint: como menciona a canção de Toby Keith – ‘Don’t Let the Old Man In’ serve como seu lema pessoal. Por isso aguardo muito por Cry Macho, previsto para outubro de 2021.

Rapidamente: “Alvorada”, “Amor, Casamentos e Outros Desastres”, “O Diabo de Cada Dia” e “A Mulher na Janela”

alvoradafilme

Dirigido por Anna Muylaert e Lô Politi, Alvorada registra, com imagens exclusivas, os últimos dias de Dilma Rousseff como presidenta do Brasil.

ALVORADA (idem, 2021, de Anna Muylaert e Lô Politi): Depois de O ProcessoDemocracia em Vertigem, fica difícil um documentário tão recente sobre o impeachment da presidenta Dilma Rousseff dizer algo que já não tenha sido dito por seus semelhantes. E, por mais que Anna Muylaert e Lô Politi tentem dar um caráter mais íntimo e exclusivo para os últimos dias de Dilma à frente do Brasil a partir de filmagens exclusivas, Alvorada não se sustenta de forma mais sólida em termos de conceito. É interessante ver os bastidores do Palácio da Alvorada e como a vida diária se configura lá dentro, mas isso é tudo o que o documentário tem a dizer. Não ajuda também o fato de só haver uma única entrevista com Dilma Rousseff, que muito provavelmente deve ter durado tão pouco a ponto de ser usada apenas duas ou três vezes ao longo da projeção. Aliás, vale perceber como o filme é mais uma colagem do maior número de imagens possíveis capturadas com exclusividade pela equipe do que um documentário abertamente planejado, deixando a sensação de que suas ideias só tomaram forma de fato na sala de edição. E esse é um problema dos grandes se considerarmos que, politicamente falando, Alvorada já é direcionado a um público específico. Sem o frescor ou a consistência cinematográfica de O ProcessoDemocracia em Vertigem, acaba tendo uma aderência ainda menor diferentes plateias. Para o público-alvo a qual o filme é endereçado, funciona a proposta de “humanizar” a figura de Dilma Rousseff, vista aqui como uma mulher múltipla em ideias, sentimentos e temperamentos como qualquer outra do planeta. Muylaert e Politi apenas observam o cotidiano da ex-presidenta e, no pouco que conseguiram fazê-la sentar para conversar, garantiram os melhores momentos de Alvorada, quando, por exemplo, Dilma fala que sempre foi uma mulher que nunca se desestabilizou. É em sequências como essa que constamos que, curiosamente, portanto, o que falta no documentário é mais do verdadeiro íntimo de sua retratada.

AMOR, CASAMENTOS E OUTROS DESASTRES (Love, Weddings & Other Disasters, 2020, de Dennis Dugan): Tudo o que eu precisava quando dei play em Amor, Casamentos e Outros Desastres era de uma comédia bobinha, romântica e descontraída para me desligar desses tempos tenebrosos que vivemos. E, nesse caso, ainda havia o tempero extra do primeiro encontro entre Diane Keaton e Jeremy Irons no cinema. Tudo não passou de uma ilusão, e a verdade é que marquei bobeira ao não observar o nome de Dennis Dugan na direção. Responsável por uma penca de filmes horroroso estrelados por Adam Sandler (Cada Um Tem a Gêmea Que MereceGente GrandeEu os Declaro Marido e… Larry), Dugan consegue a façanha de bagunçar e aborrecer um formato de filme que, de tão explorado, o mais básico dos diretores já deveria conseguir desenvolver com o mínimo de desenvoltura. Isso mesmo, já vimos Amor, Casamentos e Outros Desastres um punhado de vezes, e não só por ser mais uma comédia ruim feita por Diane Keaton faz para se manter ativa porque papeis melhores não lhe são ofertados: partindo de um mosaico de personagens em histórias conectadas por uma temática em comum (nesse caso, o amor e o planejamento de casamentos), o roteiro tenta fazer graça com piadas que variam do mau gosto, como cegos tropeçando em móveis a anões participando de programas de relacionamento na TV, até histórias que, desde o primeiro minuto, já sabemos qual será o desfecho. O pior de tudo é ver como o roteiro, também assinado por Dugan, é inábil na tarefa de criar qualquer personagem interessante. Tudo é tão desregulado e sem timing que nem mesmo Keaton e Irons conseguem construir algo remotamente cativante, inclusive porque ambos vivem o recorte motivacional e manjado da trama, onde um homem rígido e certinho começa a encarar o mundo com mais espontaneidade ao se relacionar afetivamente com uma mulher cega. Nem como muito esforço dá para escapar da afirmação de que Amor, Casamentos e Outros Desastres é uma verdadeira bomba.

O DIABO DE CADA DIA (The Devill All the Time, 2020, de Antonio Campos): Caso fosse lançado no início dos anos 2000, O Diabo de Cada Dia estaria ao lado de Babel e Crash – No Limite como um filme-elenco de sucesso, especialmente no tocante às premiações. O que os três longas-metragens têm em comum são as histórias interligadas pelo acaso, pela violência ou pela incomunicabilidade — e, muitas vezes, por esses três elementos ao mesmo tempo. Entretanto, tendo estreado em 2020 no catálogo da Netflix, o filme de Antonio Campos não se destaca pelo frescor do formato como seus similares à época e enfrenta um problema maior: ainda que disponha de 140 minutos para desenvolver uma infinidade de personagens e reviravoltas, o resultado não dá conta do tanto que tenta abraçar. Há de se reconhecer que a narração hipnótica de Donald Ray Pollock, autor do livro homônimo em que o filme se baseia, é um caso raríssimo onde essa ferramenta pode ser usada com sabedoria para expandir o que está sendo visto na tela e colocar em palavras aquilo que não precisa ser necessariamente mostrado, mas a sucessão de reviravoltas, mortes e tragédias é tão grande e contempla tantos personagens que, em determinado ponto, O Diabo de Cada Dia se esvazia e já não consegue mais conferir potência e significado a suas dolorosas odisseias geracionais. Ao ter no elenco uma excelente matéria-prima para a força do drama, Antonio Campos dirige alguns nomes com mais eficiência do que outros: enquanto Bill Skarsgård se destaca com um papel pequeno e forte, Tom Holland assume com maturidade a maior parcela de protagonismo da história, ao passo que Robert Pattinson, vindo de uma escalada de excelentes desempenhos (Bom Comportamento e O Farol são alguns deles), inexplicavelmente pesa a mão no sotaque e em uma interpretação que nos remete aos ares robóticos do início de sua carreira. Se O Diabo de Cada Dia não chega a ser grande, ao menos nos instiga a ir atrás do livro para ver se lá, com o ritmo mais detalhado da literatura, tudo ganha a devida tração.

A MULHER NA JANELA (The Woman in the Window, 2021, de Joe Wright): Vítima das grandes expectativas em torno de sua realização, A Mulher na Janela é mais um divertido entretenimento do que o suspense sofisticado que se poderia esperar da união de nomes como Joe Wright, Tracy Letts, Amy Adams e Julianne Moore. Contudo, filmes são o que são e não aquilo que gostaríamos que eles fossem, o que explica o ódio desproporcional atribuído ao resultado de A Mulher na Janela. Adaptado do romance de mesmo nome assinado por A.J. Finn em 2018, o longa foi modificado inúmeras vezes como resposta às reações negativas de suas primeiras sessões de teste, passando por cortes e novas filmagens, até ser levado para estreia direta na Netflix após a desistência da 20th Century Fox de lançá-lo nos cinemas. Nunca é bom sinal quando um estúdio interfere demais no corte final de um filme, muito menos quando se torna público o receio de que ele finalmente encontre o público da forma como foi concebido. E é verdade que a versão apresentada de A Mulher na Janela tem limitações e descompassos, mas há algo fundamental que me faz defendê-lo: o fato dos realizadores não esconderem, desde o primeiro minuto, a natureza expositiva, acentuada e até hiperbólica de seu suspense. Essa honestidade é muito bem-vinda porque regula expectativas e ajuda o espectador a embarcar no tom que será trabalhado ao longo da projeção. Como um todo, A Mulher na Janela é bem sustentado pela ótima presença de Amy Adams e até mesmo por Joe Wright, que, apesar de funcionar melhor comandando produções de época (Orgulho e PreconceitoDesejo e Reparação), consegue conferir certa elegância a uma concepção narrativa e estética que tem sido reduzida pela crítica a comparações com o desejo do diretor em emular Janela Indiscreta, de Alfred Hitchcock. Aos trancos e barrancos, o senso de diversão de A Mulher na Janela como um lançamento Netflix compensa o percurso atribulado trilhado por uma obra que é o que é, não aquilo que gostaríamos que ela fosse. 

“Meu Pai”, um retrato avassalador dos labirintos da mente e da finitude da vida

Who exactly am I?

Direção: Florian Zeller

Roteiro: Christopher Hampton e Florian Zeller, baseado no espetáculo “Le Père”, de Florian Zeller

Elenco: Anthony Hopkins, Olivia Colman, Mark Gatiss, Olivia Williams, Imogen Poots, Rufus Sewell, Ayesha Dharker, Roman Zeller, Scott Mullins

The Father, Reino Unido/França, 2020, Drama, 97 minutos

Sinopse: Um homem idoso (Anthony Hopkins) recusa toda a ajuda de sua filha (Olivia Colman) à medida que envelhece. Ela está se mudando para Paris e precisa garantir os cuidados dele enquanto estiver fora, buscando encontrar alguém para cuidar do pai. Ao tentar entender suas mudanças, ele começa a duvidar de seus entes queridos, de sua própria mente e até mesmo da estrutura da realidade. (Adoro Cinema)

Era um tanto quanto inevitável que, tendo convivido durante muitos com um familiar próximo que sofria do Mal de Alzheimer, Meu Pai me atingisse de forma íntima e pessoal. Ainda assim, tive certa cautela: tema que costuma ganhar tratamentos formais ou excessivamente melodramáticos para deixar alguma lição, a deterioração física e mental da terceira idade não ganhava um relato memorável desde 2013, quando o austríaco Michael Haneke realizou o drama Amor. Já no caso específico do Mal de Alzheimer ou da demência, é bem provável que o último exemplar verdadeiramente delicado e comovente seja de 2006, ano em que Sarah Polley dirigiu Julie Christie em Longe Dela, adaptação do conto The Bear Came Over the Mountain, de Alice Munro. Por mais que filmes dessa natureza surjam aos montes, como Iris, estrelado por Judi Dench e Kate Winslet, ou então Para Sempre Alice, que deu o Oscar de melhor atriz para Julianne Moore, são raros os vislumbres de criatividade e franqueza para retratar uma fase tão complicada da vida sem jogadas apelativas ou a vontade de ser um laudo cinematográfico de doenças que nos acometem na velhice.

E agora temos Meu Pai, que não só é um caso totalmente à parte como também se apresenta como o tipo de projeto que redefine o modo de contar histórias sobre essa temática. Sempre evito fazer tamanha afirmação, mas parece inevitável: em emoção e estrutura, não tenho notícias de outra discussão semelhante a essa que o francês Florian Zeller adapta de “Le Pére”, peça de autoria própria que estreou em 2012 na França e que chegou a ganhar o conceituado prêmio Molière de melhor espetáculo, sendo adaptada para países como os Estados Unidos com Frank Langella e para o Brasil com Fúlvio Stefanini. Aqui, o já esperado componente emocional é emoldurado pela decisão singular de narrar a história a partir da perspectiva do doente e não do cuidador, o que propõe um importante exercício de empatia (e, no caso de quem conviveu com alguém em situação equivalente à vivida pelo protagonista, tudo se ressignifica com imensa força). Melhor ainda é ver Zeller dando conta de um desafio em que até diretores como Roman Polanski já falharam: o de adaptar um espetáculo teatral para o cinema sem qualquer resquício da linguagem e da dinâmica dos palcos. Esse mérito, vale grifar, também vai para a conta de um roteiro muito bem lapidado que ele assina em parceria com Christopher Hampton, um craque das adaptações que tem no currículo trabalhos marcantes como Ligações Perigosas e Desejo e Reparação.

Com um belo e bem-vindo poder de síntese, Meu Pai descortina tudo o que está acontecendo com seu protagonista logo nos primeiros minutos. Aos oitenta e tantos anos, Anthony (Anthony Hopkins) tem esquecido o relógio, brigado com empregadas e dado sinais evidentes de que seu senso de memória e orientação não é mais o mesmo, para completa angústia de sua filha Anne (Olivia Colman), que está de mudança para Paris e precisa decidir o que fazer com o pai. No entanto, não temos certeza nem mesmo sobre as linhas gerais dessa introdução. Será que Anne está realmente indo para Paris? E a atriz que a interpreta é mesmo Olivia Colman? O retrato de um protagonista com Mal de Alzheimer (ou demência, já que o filme não chega a cravar uma definição exata) é extremamente fiel ao se passa na vida real considerando o comportamento de uma pessoa que vive sob essas condições: há a fixação com algum objeto específico (no caso de Anthony, um relógio que ele alega ser roubado a todo momento), as oscilações repentinas de humor, vislumbres inesperados de lucidez em meio a tantos esquecimentos, relatos de histórias que nunca aconteceram ou então são imprecisas em termos de tempo e espaço, a total negação do doente sobre sua condição e, claro, a própria falta de perspectiva acerca de quem o próprio doente é (menino, adulto, idoso, bailarino de sapateado ou engenheiro?). Chega a ser angustiante de tão realista.

Entretanto, a virada de chave de Meu Pai está mesmo na decisão de mostrar tudo a partir da perspectiva do protagonista. Não deixa de ser uma decisão para lá de arriscada se elencarmos as tantas armadilhas possíveis para esse formato, começando pelo simples fato de que, ao invés de mostrar a confusão do protagonista, o filme poderia se tornar bagunçado ou desordenado, e não no bom sentido. Pois Florian Zeller não titubeia em nenhum momento. O que Meu Pai nos proporciona é de fato a experiência única de viver a mesma desorientação de uma pessoa que começa a perder de forma gradativa toda e qualquer referência de tempo e espaço. Para construir tal perspectiva, atores trocam de papeis, a brilhante montagem do grego Yorgos Lamprinos alterna cenas onde não sabemos em que ponto elas verdadeiramente começaram ou terminaram e, ao melhor estilo Parasita, o design de produção assinado pela dupla Cathy Featherstone e Peter Francis se torna um personagem à parte, moldando, a partir da discreta transformação de cores e decorações de um apartamento, o desnorteamento espacial do protagonista. Isolados, tais elementos já fariam a diferença. No entanto, o domínio cênico de Zeller é tão grande ao costurar esse conjunto que nada parece mera curiosidade técnica. O efeito é fino e imersivo, especialmente quando lembramos que tudo se passa dentro de um único ambiente e que o propósito é fazer o espectador navegar em uma linha do tempo não muito clara.

No papel do protagonista, Anthony Hopkins é a força que, somada ao trabalho de Florian Zeller, torna Meu Pai um longa tão marcante. Lenda inquestionável, ele se mantem admiravelmente ativo aos 82 anos de idade. Na última década, trabalhou com Darren Aronofsky (Noé), fez blockbusters para se divertir ou ganhar alguns trocados (Thor: Ragnarok, Transformers: O Último Cavaleiro), deu o ar da graça em produções para TV e streaming (a série Westworld na HBO e a adaptação de Rei Lear para o Prime Video) e voltou ao Oscar após doze anos com seu maravilhoso desempenho como Bento XVI em Dois Papas, de Fernando Meirelles. Faltava, no entanto, um projeto comparável a sua estatura como Meu Pai, que combina a possibilidade do ator explorar o seu imenso repertório com o fato de ele participar de um filme singular. E Hopkins prova que não é lenda por acaso ao navegar nas fragilidades e angústias de um personagem que passa a perder o chão e que tenta de alguma maneira se agarrar ao que ainda lhe parece minimamente verdadeiro ou real. Do respeito e generosidade com que compreende a situação do protagonista a um trabalho técnico excepcional de olhares, gestos e movimentos corporais, o ator dá o tipo de aula que pode muito bem marcar o momento mais brilhante de uma carreira já construída em cima de performances memoráveis (e desafio alguém a não sair devastado do filme após a cena final carregada de emoções das mais diversas intensidades). O segundo Oscar de melhor ator que ele levou no último mês de abril não poderia ser mais merecido e ter vindo em um momento mais apropriado.

Menos reverenciada do que Hopkins, Olivia Colman também merece justiça por seu trabalho em Meu Pai. Como a atriz talentosa que é, ela concentra em cada expressão todos os sentimentos opostos de uma filha tomada pela tristeza de ver o pai desaparecendo ao mesmo tempo em que precisa tomar decisões práticas e definitivas para definir tanto o seu futuro quanto o do próprio Anthony. Mais tocantes ainda são os momentos em que, aqui ou ali, encontra vislumbres de lucidez no homem que lhe deu a vida, lançando sorrisos esperançosos que, ela sabe, não duram por muito tempo. Seu desempenho é fundamental para a composição emotiva que Meu Pai faz dos momentos mais cotidianos envolvendo o contexto do Alzheimer. Sem didatismos e obviedades, Florian Zeller, repito, faz um dos filmes mais definitivos sobre o tema e, de quebra, entrega um resultado que ultrapassa os debates sobre a temática para também ser referenciado pela forma com que cinematograficamente oferece um novo olhar para tantas discussões. Li em algum lugar que, a seu próprio modo, Meu Pai não deixa de ser um filme de terror. E eu concordo: para além de um relato que nos faz entender melhor a jornada de idosos acometidos por doenças da mente, estamos diante de um espelho atemporal da nossa finitude, e principalmente do fato de que ninguém está livre de se tornar a pessoa mais indefesa do mundo ao se aproximar dela.

Três atores, três filmes… com Barbara Demerov

demerovtresNo último mês de abril, a jornalista Barbara Demerov assumiu um novíssimo desafio profissional como repórter de entretenimento da VEJA São Paulo. A novidade é um merecido reconhecimento à bela trajetória que ela já vinha trilhando no Controle Remoto Podcast e, claro, no AdoroCinema, onde era redatora. Barbara, que também já teve a honra de ser uma das entrevistadoras do clássico programa Roda Viva quando Fernando Meirelles comemorava as indicações de Dois Papas ao Oscar e de fazer parte da transmissão do Oscar 2020 como comentarista nas redes sociais da TNT, traz na bagagem entrevistas com nomes nacionais e internacionais do cinema, entre eles George Clooney, Anne Hathaway e M. Night Shyamalan. Ou seja, temos mais uma convidada de peso aqui na coluna! E, para esse desafio — palavras da própria Barbara! — de escolher interpretações marcantes do cinema, ela listou três momentos inegavelmente clássicos das carreiras dos selecionados. Confiram!

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Que desafio incrível esse de pensar em apenas três interpretações marcantes do cinema. Realmente é um convite especial esse do Matheus — aliás, obrigada mais uma vez! Ao longo da minha vida pude assistir a diversos filmes que levo em meu coração até hoje, mas quando falamos sobre atuações, entramos em um lugar mais complexo. Selecionei três que me marcaram tão fortemente que todas chegaram em minha mente de forma muito rápida, sem que eu precisasse refletir muito. São trabalhos de filmes que eu também amo de paixão e que, sem dúvida alguma, não seriam tão bons caso não contassem com essas interpretações tão dedicadas e assustadoramente intensas.

Gena Rowlands (Uma Mulher Sob Influência)
É impossível sair impassível de uma sessão deste filme de John Cassavetes por um único motivo: Gena Rowlands. O mergulho que a musa do diretor faz nesta história na pele de uma mãe incompreendida é surpreendente e, realmente, de cortar o coração. Ao se passar o tempo todo dentro da casa de Mabel, entramos dentro da mente daquela mulher e, ironicamente, conseguimos compreendê-la rapidamente. Ela é invisível aos olhos do próprio marido, por exemplo, que a trata com negligência e falta de afeto ao passo que toma decisões por si só — mas que a afetam diretamente. Ao mesmo tempo, a mãe de três crianças está completamente frágil mentalmente e não pode pedir por socorro sem ser julgada pela própria família. É um filme desesperador, de fato, mas também é uma obra extremamente rica em detalhes e nuances delicadas sobre a vida de uma mulher que demonstra força até quando ela mesma acredita que não tem. Se podemos chamar um filme de “filme de atuação”, este aqui é o meu número 01 da lista.

Heath Ledger (Batman: O Cavaleiro das Trevas)
Um dos raros casos em que eu me peguei “procurando” pelo ator ao longo da narrativa. Nunca vou me esquecer de pensar no cinema, “este é realmente o Heath Ledger?”. É impressionante o que o ator de 28 anos fez no filme de Christopher Nolan ao interpretar meu vilão favorito dos quadrinhos. Para além de se destacar mais do que o próprio herói de Gotham, o Coringa de Ledger é um exemplar do que é uma atuação contida e ao mesmo tempo explosiva. Ledger trabalha muito bem para trazer movimentos e palavras sutis, ao mesmo tempo em que nunca deixa de demonstrar a força e presença do vilão. Um filme para ver e rever graças ao poder que o ator traz à tona na tela.

Jack Nicholson (O Iluminado)
Para quem é amante de cinema de terror como eu, acredito que seja impossível não pensar na força da atuação de Jack Nicholson em O Iluminado. Se a história já possui uma atmosfera sombria e bizarra, o que o ator entrega em sua performance potencializa as sensações estranhas que se passam em nós quando observamos a história dentro do Hotel Overlook. Nicholson já é um ator dedicado e disso todo mundo sabe, mas essa atuação demonstra o ápice da atenção que o ator entrega em seus papéis. Seja na cena icônica em que ele improvisa a frase “Here’s Johnny” ou no momento em que passa a perseguir Wendy, eu acho incrível o poder que o ator emana em seu personagem mesmo sem dizer nenhuma palavra. O olhar, nesse caso, diz muito — e é capaz de aterrorizar bastante também.

Melhores de 2020: com oito indicações, “O Som do Silêncio” lidera lista do blog

Riz Ahmed em “O Som do Silêncio”: filme de Darius Marder concorre em oito categorias, seguido por Luce e Nunca, Raramente, Às Vezes, Sempre, ambos com seis indicações.

Ainda estou com um pé em 2020 porque somente agora consigo iniciar o ritual que fecha meus anos cinematográficos. Trata-se, claro, da lista de melhores do ano, premiação que realizo aqui no blog desde 2007. Como de praxe, repito pela milésima vez — porque nunca é demais lembrar — que listas dizem mais sobre quem as faz do que sobre os filmes propriamente ditos. E é bem provável que o tempo coloque muitas escolhas imediatas em xeque, revelando filmes e trabalhos que, com o passar dos anos, ganham dimensões muito maiores (e eu, claro, tenho a minha cota de surpresas ao olhar para o histórico das listas aqui do blog e constatar que há um punhado de vencedores que hoje não seriam a minha escolha, mas isso eu deixo em segredo).

Portanto, recapitulando essa contextualização que tomo como base para a forma como encaro listas e o próprio cinema, chegou a hora de escolher o que mais me impactou em 2020. Uma alteração importante é a expansão da lista de melhor filme, que agora contempla até dez indicados (como sempre faço um top 10 pessoal mesmo, nada mais justo do que aplicar a lógica aqui também). Tendo considerado os lançamentos inéditos em circuito comercial no Brasil (cinema ou streaming), chego a essa seleção que é liderada por O Som do Silêncio com oito indicações, seguido de perto por LuceNunca, Raramente, Às Vezes, Sempre com seis. Os vencedores serão conhecidos em três postagens: uma com as categorias técnicas, outra somente com interpretações e, por fim, a que revela melhor filme, direção, roteiro original e roteiro adaptado. Como sempre, espero vocês!

MELHOR FILME
Babenco – Alguém Tem Que Ouvir o Coração e Dizer: Parou
Clemência
Destacamento Blood
O Farol
Luce
Má Educação
Nunca, Raramente, Às Vezes, Sempre
Pacarrete
Retrato de Uma Jovem em Chamas

O Som do Silêncio

MELHOR DIREÇÃO
Bárbara Paz (Babenco – Alguém Tem Que Ouvir o Coração e Dizer: Parou)
Céline Sciamma (Retrato de Uma Jovem em Chamas)
Chinonye Chukwu (Clemência)
Darius Marder (O Som do Silêncio)
Eliza Hittman (Nunca, Raramente, Às Vezes, Sempre)

MELHOR ELENCO
Adoráveis Mulheres
Destacamento Blood
Luce
Má Educação

Pacarrete

MELHOR ATRIZ
Adèle Haenel (Retrato de Uma Jovem em Chamas)

Alfre Woodard (Clemência)
Marcélia Cartaxo (Pacarrete)
Noémie Merlant (Retrato de Uma Jovem em Chamas)
Sidney Flanigan (Nunca, Raramente, Às Vezes, Sempre)

MELHOR ATOR
Delroy Lindo (Destacamento Blood)
Kelvin Harrison Jr. (Luce)

Riz Ahmed (O Som do Silêncio)
Robert Pattinson (O Farol)
Willem Dafoe (O Farol)

MELHOR ATRIZ COADJUVANTE
Florence Pugh (Adoráveis Mulheres)

Kathy Bates (O Caso Richard Jewell)
Octavia Spencer (Luce)
Talia Ryder (Nunca, Raramente, Às Vezes, Sempre)
Toni Collette (Estou Pensando em Acabar Com Tudo)

MELHOR ATOR COADJUVANTE
João Miguel (Pacarrete)
Paul Raci (O Som do Silêncio)

Sam Rockwell (O Caso Richard Jewell)
Sterling K. Brown (As Ondas)
Tom Hanks (Um Lindo Dia na Vizinhança)

MELHOR ROTEIRO ORIGINAL
Abraham Marder e Darius Marder (O Som do Silêncio)
Chinonye Chukwu (Clemência)
Danny Bilson, Kevin Willmott, Spike Lee e Paul De Meo (Destacamento Blood)
Eliza Hittman (Nunca, Raramente, Às VezesSempre)
Céline Sciamma (Retrato de Uma Jovem em Chamas)

MELHOR ROTEIRO ADAPTADO
Charlie Kaufman (Estou Pensando em Acabar Com Tudo)
Greta Gerwig (Adoráveis Mulheres)
J.C. Lee e Julius Onah (Luce)
Mart Crowley e Ned Martel (The Boys in the Band)
Mike Makowsky (Má Educação)

MELHOR MONTAGEM
Bárbara Paz, Cao Guimarães, Eduardo Escorel, Felipe Bibian, Felipe Nepomuceno, Joaquim Castro, Juliana Guanais, Marilia Moraes e Vitor Mafra (Babenco – Alguém Tem Que Ouvir o Coração e Dizer: Parou)
Louise Ford (Má Educação)
Madeleine Gavin (Luce)
Mikkel E.G. Nielsen (O Som do Silêncio)
Robert Frazen (Estou Pensando em Acabar Com Tudo)

MELHOR FOTOGRAFIA
Bárbara Paz , Carolina Costa e Stefan Ciupek (Babenco – Alguém Tem Que Ouvir o Coração e Dizer: Parou)
Claire Mathon (Retrato de Uma Jovem em Chamas)
Jarin Blaschke (O Farol)
Lukasz Zal (Estou Pensando em Acabar Com Tudo)
Roger Deakins (1917)

MELHOR TRILHA SONORA
Alexandre Desplat (Adoráveis Mulheres)
Michael Abels (Má Educação)
Salloma Salomão (Todos os Mortos)
Thomas Newman (1917)
Trent Reznor, Atticus Ross e Jon Batiste (Soul)

MELHOR DESIGN DE PRODUÇÃO
Anne Kuljian e Grant Major (Mulan)
Claire Kaufman e Jess Gonchor (Adoráveis Mulheres)
Donald Graham Burt e Jan Pascale (Mank)
Juliana Lobo (Todos os Mortos)
Rodrigo Frota (Pacarrete)

MELHOR FIGURINO
Chris Garrido (Pacarrete)
Gabriella Marra (Todos os Mortos)
Jacqueline Durran (Adoráveis Mulheres)
Jany Temime (Judy: Muito Além do Arco-Íris)
Trish Summerville (Mank)

MELHOR SOM
Carlos Cortés, Jaime Baksht, Michelle Couttolenc, Nicolas Becker e Phillip Bladh (O Som do Silêncio)
Christophe Vingtrinier, Gabriela Cunha e Rubén Valdes (Todos os Mortos)
Coya Elliott, David Parker e Ren Klyce (Soul)
David Parker, Drew Kunin, Jeremy Molod, Nathan Nance e Ren Klyce (Mank)
Mark Taylor, Oliver Tarney, Rachael Tate e Stuart Wilson (1917)

MELHORES EFEITOS VISUAIS
Aevar Bjarnason, Jonathan Dearing, Marcus Bolton e Matt Ebb (O Homem Invisível)
Anders Langlands, Sean Andrew Faden, Seth Maury e Steve Ingram (Mulan)
Andrew Lockley, Andrew Jackson, David Lee e Scott R. Fisher (Tenet)
Bill Watral, Dana Murray, Michael Fong e Pete Docter (Soul)
Dominic Tuohy, Greg Butler e Guillaume Rocheron (1917)

MELHOR MAQUIAGEM & PENTEADOS
Adam Bailey, Anouck Sullivan e Sarah Hindsgaul (Estou Pensando em Acabar Com Tudo)
Anne Morgan, Kazu Hiro e Vivian Baker (O Escândalo)
Dannelle Satherley (Jojo Rabbit)
Eryn Krueger Mekash, Matthew W. Mungle e Patricia Dehaney (Era Uma Vez Um Sonho)
Jeremy Woodhead (Judy: Muito Além do Arco-Íris)

MELHOR CANÇÃO ORIGINAL
Abraham Marder, por “Green” (O Som do Silêncio)
Laura Mvula, por “Brighter Dawn” (Clemência)
Celeste e Daniel Pemberton, por “Hear My Voice” (Os 7 de Chicago)
Diane Warren e Laura Pausini, por “Io Sí (Seen)” (Rosa e Momo)
Sharon Van Etten, por “Staring at a Mountain” (Nunca, Raramente, Às Vezes, Sempre)

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