Cinema e Argumento

Rapidamente: “8 Presidentes, 1 Juramento”, “Doutor Estranho no Multiverso da Loucura”, “Os Olhos de Tammy Faye” e “Spencer”

spencermovie

Spencer chega ao catálogo do Prime Video no dia 1º de julho.

8 PRESIDENTES, 1 JURAMENTO: A HISTÓRIA DE UM TEMPO PRESENTE (idem, 2021, de Carla Camurati): Após 15 anos sem dirigir um longa-metragem, a cineasta Carla Camurati volta ao ofício com uma ideia tão ambiciosa quanto impossível: a de recuperar, por meio de materiais de arquivo, todo o período da redemocratização brasileira, partindo do movimento das Diretas Já até chegar à posse do presidente Jair Bolsonaro. 8 Presidentes, 1 Juramento se encaixa, portanto, em uma necessária onda de documentários brasileiros que, nos últimos anos, têm se debruçado sobre a trajetória política do nosso país e tentado entender como chegamos a um momento tão crítico e de tantos déficits civilizatórios. A constatação do filme não ter nada de muito novo a dizer em comparação a outros trabalhos como O Processo, Democracia em Vertigem e Alvorada é equilibrada pela robusta pesquisa de acervo jornalístico trabalhada pela cineasta como fio condutor. Sem depoimentos ou tomadas produzidas originalmente para o documentário, Camurati atravessa décadas da política brasileira com registros históricos que mostram o quanto mudamos muito pouco como sociedade e como sistema político. É desolador ver como boa parte das tragédias vividas nos dias de hoje já haviam, em certa medida, sido desenhadas no mandato do ex-presidente Fernando Collor de Mello, por exemplo, a começar pela idolatria por uma figura esvaziada e fabricada. As imagens falarem por si só tem seus prós e contras: de um lado, o retrato cru e incômodo de um país imaturo politicamente, o que favorece a força dramática do filme; de outro, um formato por demais parecido com uma retrospectiva jornalística – e não com um exercício cinematográfico propriamente dito. No desafio impossível que abraçou, Camurati fica em um meio termo.

DOUTOR ESTRANHO NO MULTIVERSO DA LOUCURA (Doctor Strange in the Multiverse of Madness, 2022, de Sam Raimi): Olhando em retrospecto, o primeiro Doutor Estranho envelheceu muito mal junto ao público, e não consigo entender muito bem as razões, pois sempre o considerei um dos trabalhos mais criativos e menos pasteurizados do universo cinematográfico da Marvel. Já esse volume estreou repleto de expectativas em função da entrada de Sam Raimi na direção e de explorar tão aguardado conceito de multiverso apresentado pela primeira vez em Homem-Aranha: Sem Volta Para Casa. E não é que, no frigir dos ovos, Doutor Estranho no Multiverso da Loucura me parece bem menos original do que poderia (e merecia) ser? Raimi garante uma certa cota de escolhas fora da curva, como o tratamento sanguinolento e os tons de terror dados à personagem Wanda (Elizabeth Olsen), remontando, claro, às referências que lhe consagraram no gênero. Entretanto, é frustrante que a Marvel não tenha dado ainda mais liberdade criativa ao diretor, atirando em seu colo as voltas e mais voltas de uma história bem menos engenhosa do que se julga e o conceito de multiverso mais como um fan service para animar plateias do que como uma ferramenta para explorar potenciais de originalidade. Nesta altura do campeonato, resta aceitar que, mesmo convocando realizadores como Raimi, a Marvel aproveitará o melhor deles aqui e ali, mas, à parte quem estiver atrás das câmeras, ela nunca, em hipótese alguma, abrirá mão da palavra final. Para testemunhar o que é aproveitar de verdade a ideia dos multiversos, a dica não poderia ser outra: Tudo em Todo Lugar ao Mesmo Tempo, um dos eventos cinematográficos do ano.

OS OLHOS DE TAMMY FAYE (The Eyes of Tammy Faye, 2021, de Michael Showalter): Sempre foi uma fixação do cinema hollywoodiano, mas as cinebiografias para lá de formais e previsíveis ganharam nova tração nos últimos anos, a ponto de um filme tão genérico e mal recebido como Os Olhos de Tammy Faye ser capaz de dar o Oscar a atrizes nada quadradas como Jessica Chastain. Na pele da televangelista que dá título ao longa, Chastain, como é de praxe, está visivelmente entregue em todas as cenas e é, do início ao fim, o que existe de melhor em um projeto pouco compromissado com as complexidades de uma personagem tão particular. É interessante perceber como as mais recentes cinebiografias estão se empenhando em higienizar ao máximo suas protagonistas, como se houvesse algo de muito errado em mostrar ao público tudo aquilo que, no melhor dos cenários, engradeceriam as produções do gênero em termos de complexidade. Falo aqui das imperfeições e contradições de pessoas como a própria Tammy Faye, que, de estrela televisiva, sucumbiu a uma vida de falência, escândalos e traições envolvendo o marido. Ao mesmo tempo em que Chastain cumpre o dificílimo trabalho de não tornar Tammy uma caricatura fácil, vencendo as pesadas próteses e maquiagens, o longa insiste em livrá-la de todo tipo de problematização. Com isso, o roteiro adota tanto a saída fácil de vilanizar personagens como o Jim Bakker de Andrew Garfield quanto a de imacular uma protagonista que, dada essa abordagem, termina por ser retratada como uma mocinha injustiçada e alheia ao que acontece na sua volta, quando, na verdade, é difícil acreditar nisso. Tamanho empenho em inocentá-la teria seria melhor aplicado ao propósito de fazer de Os Olhos de Tammy Faye um relato no mínimo mais multidimensional.

SPENCER (idem, de Pablo Larraín): A personagem do momento para filmes e seriados é, sem dúvida, a inesquecível princesa Diana, recentemente retratada no documentário The Princess e vivida por Emma Corrin em The Crown, seriado em que Elizabeth Debicki também dará vivida à personagem na quinta temporada. Mas quem conseguiu ter a personificação mais celebrada de Diana foi Kristen Stewart em Spencer, a campeã de prêmios de melhor atriz entre associações de críticos na última temporada. Com muita justiça, Stewart foi indicada ao Oscar por esta cinebiografia de traços já reconhecíveis dentro da carreira do cineasta chileno Pablo Larraín (Jackie), mas que foge ao gosto popular justamente por não seguir a cartilha de uma imensa fileira de outras produções do gênero. Há muita imaginação no roteiro escrito por Steven Knight (Senhores do Crime, Coisas Belas e Sujas), e ela é bem-vinda: da catarse tão lógica e necessária presente no desfecho ao modo como recria relações e confissões que jamais saberemos se procedem ou não, o texto captura o estado de espírito de uma mulher assombrada pelo peso de uma vida que nunca quis para si. É um aprisionamento também traduzido em cada inflexão do filme, passando pelo grandioso design de produção tão claustrofóbico para Diana à trilha sonora magnificamente nervosa do sempre inovador Jonny Greenwood. Nada é por acaso em Spencer — e, para quem estiver disposto a ver além do que costuma estar posto, há muito o que se descobrir entre todas as camadas.

Melhores de 2021: roteiros, direção e filme

adaptedsfather

MELHOR ROTEIRO ADAPTADO
Christopher Hampton e Florian Zeller (Meu Pai)

O que mais admiro em adaptações teatrais para o cinema é a capacidade de um roteiro conseguir tirar o melhor da natureza dos palcos e eliminar tudo o que poderia parecer um teatro filmado. Meu Pai faz isso com louvor. Transpondo um texto muito premiado na Europa — Lé Père, vencedor do prestigiado Moliére de melhor peça em 2014 — Christopher Hampton e Florian Zeller transformam o material original de autoria do próprio Zeller em uma grande imersão a partir de elementos que, nas mãos erradas, poderiam limitá-lo: um único cenário, pouquíssimos personagens, ação centrada em diálogos, etc. Zeller foi certeiro ao chamar Hampton para esse trabalho, visto que ele é um mago das adaptações — afinal de contas, não é qualquer roteirista de Hollywood que tem na conta filmes como Ligações PerigosasDesejo e Reparação. Juntos, eles entregam um roteiro de grandes dimensões emocionais e de desdobramentos e surpresas que acompanham o espectador até o último minuto de projeção, quando Meu Pai encerra a sua dolorosa jornada com o momento de maior baque emocional de 2021.

DRUK

MELHOR ROTEIRO ORIGINAL
Thomas Vinterberg e Tobias Lindholm
(Druk: Mais Uma Rodada)

Para o espectador mais desavisado, Druk: Mais Uma Rodada pode soar como uma divertida brincadeira, pois a arrancada se dá a partir da descoberta de um estudo sobre como precisamos compensar um déficit de álcool no sangue para equilibrar a vida cotidiana. Só que há uma virada de chave na euforia vivida pelos quatro amigos que abraçam essa teoria, e Druk passa a refletir sobre o que pode ter levado os personagens a buscarem por algum tipo de ânimo em seus dias. Para tanto, o roteiro escrito por Thomas Vinterberg e Tobias Lindholm mergulha nas crescentes doses alcoólicas de Martin (Mads Mikkelsen) e transforma brincadeira em melancolia. O âmago do roteiro é essa acertada decisão de tentar entender como os personagens foram descaracterizando as suas próprias vidas ao ponto de precisarem de alguns goles de vodka já no café da manhã para voltarem a brilhar. Vinterberg e Lindholm se movimentam por essa premissa com profundidade e humanidade, preocupados em manter a palpabilidade desses quatro homens entre o drama e a comédia, regadas pelas habituais inteligências do cinema dinamarquês.

directingcampion

MELHOR DIREÇÃO
Jane Campion (Ataque dos Cães)

Aproximando-se dos 70 anos de idade, a cineasta Jane Campion diz que já começa a pensar no seu legado. Mais do que olhar para trás, o que importa, segundo ela, é fazer filmes surpreendentes e sem amarras daqui para frente. Ataque dos Cães já é um deles. Não que outros trabalhos de Campion não o sejam, mas esse longa que lhe rendeu o Leão de Prata de melhor direção em Veneza e, posteriormente, o Oscar na mesma categoria representa algo novo em sua carreira: pela primeira, ela conta uma história centrada em uma figura masculina. E o faz, claro, surpreendendo, como bem quer fazer. Após conseguir viabilizar a adaptação do livro homônimo de Thomas Savage que já havia sido planejada pelo menos cinco vezes, Campion imediatamente procurou Annie Proulx, autora do conto que deu origem a O Segredo de Brokeback Mountain para apurar seu olhar sobre um projeto que gosta de enxergar como uma espécie de pós-western. Esse seu comprometimento com a inovação é o que faz de Ataque dos Cães um filme único. Campion recusa ferramentas fáceis e confia na capacidade do público de entrar na psique dos personagens, revelando-os pouco a pouco. Por meio de nuances e de uma rigorosa atmosfera, ela dá aula sobre como as reticências podem ser muito mais poderosas do que qualquer manipulação fabricada.

thefatherbmovie

MELHOR FILME
Meu Pai

Meu Pai pode muito bem ser considerado o filme definitivo sobre demência que o cinema de língua inglesa tenta fazer há muitos anos. Escapa à memória qualquer projeto tão devastador e imersivo como esse assinado pelo diretor Florian Zeller, adaptando um espetáculo teatral de autoria própria. Encharcado de terror ao colocar o espectador diante de um destino de vida do qual ninguém está livre, Meu Pai é um exercício de empatia executado com maestria, da interpretação magistral de Anthony Hopkins a detalhes técnicos que se revelam fundamentais para a narrativa, como a montagem e o design de produção. Também transfere um texto teatral para o cinema sem cacoetes tão comuns em adaptações dessa natureza, muito em função da parceria de Zeller com Christopher Hampton no roteiro. É o tipo de filme que perdurará como um relato avassalador da demência, mas, acima de tudo, como um verdadeiro exemplo de como ainda é possível revolucionar o relato de temas desgastados por fórmulas e impressionar cinematograficamente sem maneirismos ou distrações.

Melhores de 2021: categorias de intepretação

THE POWER OF THE DOG

MELHOR ATOR COADJUVANTE
Kodi Smit-McPhee (Ataque dos Cães)

É praticamente impossível entender o que se passa na mente de Peter, o jovem vivido por Kodi Smit-McPhee que acaba girando as engrenagens de Ataque dos Cães. Alto e esguio, ele parece se movimentar em um universo próprio, revelando-se aos poucos para o espectador e comunicando muito através da linguagem corporal. Para além da questão física, Smit-McPhee brilha por compreender que seu personagem não tem um arco propriamente dito: o que ele faz é estimular e intrigar a plateia com um jovem cujas grandes transformações aconteceram na vida pregressa ao início do filme. Traumas, inseguranças e receios relacionados à sua essência já surgem resolvidos em Ataque dos Cães, e é justamente essa segurança de ser quem ele é que desestabiliza Phil (Benedict Cumberbatch). Entre a delicadeza de ser o filho que zela pela própria mãe e os movimentos sinuosos de uma personalidade bastante particular, o ator dá conta de várias questões sobre ideais de masculinidade ainda muito presentes e confere complexidade a um personagem laudatório das melhores qualidades de Ataque dos Cães.

sactressbuckley

MELHOR ATRIZ COADJUVANTE
Jessie Buckley (A Filha Perdida)

Interpretando a mesma personagem, mas em momentos diferentes de vida, Jessie Buckley e Olivia Colman nunca sentaram para conversar ao longo de toda a realização de A Filha Perdida. Inclusive, elas não acreditavam em tal necessidade — o que muito agradou a diretora Maggie Gyllenhaal, que organizou os distintos recortes da protagonista Leda como se elas fossem ecos, previsões e reminiscências de uma vida marcada pela inadequação ao que a sociedade exige das mulheres, especialmente daquelas que se tornam mães. Buckley é uma maravilhosa escalação para a versão nova da personagem porque, claro, é boa atriz, e porque tem instintos parecidos com os de Olivia Colman no que tange escolha de projetos e o tipo de papeis que gosta de interpretar. Sem jamais julgar Leda, ela já dá pistas dos sentimentos e das circunstâncias que a moldaram, equilibrando-se nessa eterna corda bamba que a vida nos coloca de sermos capazes de fazer tanto escolhas boas quanto ruins. É mais um atestado bastante claro e instigante de que Jessie Buckley está entre as melhores atrizes de sua geração.

bactorhopkins

MELHOR ATOR
Anthony Hopkins (Meu Pai)

Anthony Hopkins disse em várias entrevistas que foi muito fácil fazer Meu Pai. Sua teoria é de que Florian Zeller e Christoper Hampton escreveram um roteiro tão extraordinário e Olivia Colman foi uma parceira tão ímpar em cena que tudo o que ele precisava fazer era se deixar levar. Se realmente foi tão fácil como Hopkins diz, só podemos deduzir que o foi porque, à parte o talento, há coisas que um ator conquista apenas com a experiência, entre elas, a capacidade de encarar desafios com naturalidade. Sem nunca ter tido uma experiência próxima envolvendo Alzheimer ou doenças do gênero, o ator, apesar disso, colocou-se na pele do protagonista como se tivesse acompanhado uma história como essa de perto. O olhar profundo e generoso com que ele abarca um complicadíssimo dilema do qual ninguém está livre (o que fazer quando as pessoas que você ama começam a perder as suas estruturas?) é de partir o coração, principalmente porque o protagonista, preso na ideia de que está seguro de si como sempre esteve a vida inteira, luta para tentar dar algum sentido ao que acontece já não consegue mais entender. Tenho sempre muita cautela ao afirmar que determinado desempenho é o melhor da carreira de alguém. No entanto, no caso de Anthony Hopkins em Meu Pai, a exceção pode ser feita sem qualquer medo.

THE LOST DAUGHTER. OLIVIA COLMAN as LEDA. CR. COURTESY OF NETFLIX

MELHOR ATRIZ
Olivia Colman (A Filha Perdida)

Resumidamente, a expressão norte-americana taken for granted seria como o ato de tomar algo como certo ou garantido, sem que fosse digno de maior atenção e celebração por já ter se consolidado o suficiente. Pode ser uma percepção prematura, mas desconfio que Olivia Colman, assim como tantas outras atrizes extraordinárias, já se encaixe no taken for granted por ter recebido um Oscar dos mais justos por A Favorita e por não ter errado a mira depois de tal celebração, participando de séries como The CrownFleabag ou do extraordinário Meu Pai, filme em que atuou ao lado de Anthony Hopkins. É apenas esse taken for granted que explica o fato de Olivia não ter varrido premiações e festivais com a sua performance em A Filha Perdida. Olivia traz entendimento e camadas a uma personagem difícil de definir e de gostar, evitando transformá-la em uma louca e, ao mesmo tempo, renegando a ideia de torná-la palatável ao público. A Leda mais madura da atriz e interpretada na juventude por Jessie Buckley carrega remorsos e (in)certezas traduzidos em cada inflexão de uma intérprete com a rara capacidade de sempre surpreender, impactar e fazer com que tudo pareça tão natural. Celebrar Olivia Colman nunca deve ser demais.

shivacast

MELHOR ELENCO
Shiva Baby

São muitas as variáveis que podem definir um bom elenco. Número de atores? Sinergia entre eles? Equivalência na grandeza de interpretações? Acertos em todas as escalações? Ao meu ver, não há uma resposta certa. Há elencos excepcionais que, formados por apenas três ou quatro pessoas, garantem aulas de atuação, como em Dúvida, premiado nessa respectiva categoria aqui no blog, e há casos como o de Shiva Baby, que conjuga de tudo um pouco, passando por um número volumoso de atores, pela excelente dinâmica estabelecida entre eles e por um grande equilíbrio de talentos. Encabeçado pela performance reveladora de Rachel Sennott (apenas em seu segundo longa-metragem, mas demonstrando um domínio singular), o elenco de Shiva Baby se engrandece ao tornar crível a dinâmica de uma família deveras particular e repleta de personalidades tão distintas quanto complementares, com particular também para Polly Draper, que interpreta a mãe da protagonista. Em pouco menos de 80 minutos, todos têm papel fundamental na construção do grande sentimento de claustrofobia que permeia o longa de estreia de Emma Seligman.

Três atores, três filmes… com Otávio Almeida

otaviotresOs colegas e amigos entusiasmados por cinema que a vida na internet me trouxe se tornaram pessoas que, inevitavelmente, eu conheci e passei a ter como referência também através da escrita. Desbravei meus primeiros textos sobre cinema lendo, por exemplo, a Kamila Azevedo, que já participou aqui da coluna, e não tardou para que outros se somassem ao time, como o Otávio Almeida, que hoje é o 60º convidado desta seção sempre cercada de carinho. Acho simbólico ter Otávio como o rosto deste marco justamente em função dos tantos anos virtuais compartilhados com escrita e muitos filmes. Autor do Hollywoodiano (hoje em sua versão no Instagram), ele ainda pode ser encontrado no podcast Era Uma Vez em São Paulo. Em ambos, faz jus ao nome do projeto com o qual cravou bandeira na internet: analisa, como ele próprio gosta de dizer, os filmes da indústria Hollywoodiana de forma debochada, exagerada, mas coerente com sua visão sobre cinema. Não é diferente aqui na coluna. Aproveitem!

Al Pacino (O Poderoso Chefão)
Sou suspeito pra falar da trilogia sagrada de Francis Ford Coppola, mas, como considero o original de 1972 meu filme favorito, não tinha a menor possibilidade aqui de destacar minha atuação preferida em outra produção. Não, não estou falando de Marlon Brando, que é monumental, mas de Al Pacino, que provavelmente ninguém entre nossos pais e avós conhecia na época. Talvez seja o cartão de visitas mais impactante entre os atores do cinema americano. É a viagem ao lado sombrio da Força ou o Breaking Bad mais sutil e impressionante que já testemunhei. O pacífico Michael Corleone dando um passo de cada vez rumo ao inferno do poder, ciente de que isso corrompe e fecha a porta sem dó na cara da esposa (e do público) na cena final. Todo o trabalho de Pacino na trilogia é uma aula, mas é no primeiro filme que ele ganha todo o nosso amor na mesma proporção do ódio. Sublime!

Bette Davis (A Malvada)
Desculpa, mas Bette Davis é a melhor atriz do mundo em A Malvada. Podemos falar de Meryl, Viola, Nicole, Isabelle Huppert, Cate Blanchett ou Katharine Hepburn, eu entendo. Obviamente, Bette Davis está nesse patamar, porém, cada palavra, postura, gesto e energia desferidas pela atriz na obra-prima de Joseph L. Mankiewicz acertam o coração e o estômago não só do restante do elenco (fica feio pra colega de cena Anne Baxter, a Eve do título original), mas do próprio público. Ela é monstruosa e traz aqui tudo que qualquer jovem atriz precisa saber para arriscar ao menos 10% desse talento na profissão.

Gloria Swanson (Crepúsculo dos Deuses)
Eu disse que Bette Davis é a melhor atriz do mundo em A Malvada? Bom, confesso que eu mesmo fico na dúvida eterna quando (re)vejo Gloria Swanson em Crepúsculo dos Deuses (ou Sunset Boulevard, como nós cinéfilos preferimos falar). Não apenas pela icônica cena final, mas por todas as aparições sinistras que botam o grande William Holden no chinelo.

Melhores de 2021: categorias técnicas

Não faz muito tempo que me culpava por fazer cada vez mais tarde a minha lista de melhores do ano. Hoje, já começo a ter mais carinho por essa ideia, pois não há nada melhor do que tomar certa perspectiva, ter tempo para digerir as coisas e não agir no calor do momento quando se trata de escolhas, principalmente aquelas envolvendo qualquer forma de arte. Dito isso, com o devido hiato para fazer escolhas que agora me parecem devidamente calibradas, aqui vão os primeiros vencedores da lista de melhores de 2021!

maywestart

MELHOR CANÇÃO ORIGINAL
Leos Carax, Ron Mael e Russell Mael
“So May We Start?” (Annette)

Cenas de abertura são importantes em musicais porque assinalam para o público o estilo que será seguido não apenas pelo filme, mas também pela própria parte musical. So May We Start? é muito feliz nessa premissa, revelando o quanto Annette se equilibrará entre a ambição e um tom mais descompromissado, além da mistura de ecleticidades proposta pelo diretor Leos Carax, bem ao estilo do que Ron e Russell Mael, os irmãos Sparks, exploram ao longo de sua carreira e aplicam na idealização deste musical. Para além do tom estabelecido, So May We Start? é um excelente ponto de partida para Annette porque é uma das melhores músicas do filme (meu coração se divide entre ela e We Love Each Other So Much) e porque funciona como uma espécie de abre-alas, começando até um tanto óbvia em um estúdio de música para logo ganhar as ruas com Adam Driver, Marion Cotillard e elenco. É de uma energia envolvente e de uma pegada bastante própria, característica ostentada por Annette como um todo.

scorepowerdog

MELHOR TRILHA SONORA
Jonny Greenwood
(Ataque dos Cães)

Pouquíssimas carreiras de compositores para cinema têm tanta personalidade e consistência como a de Jonny Greenwood. O guitarrista de 50 anos da banda Radiohead se tornou parceiro inseparável do diretor Paul Thomas Anderson (as trilhas de Sangue Negro e Trama Fantasma são verdadeiras obras-primas) e também vem colaborando com outros cineastas de ponta. É o caso de seu trabalho para Ataque dos Cães, de Jane Campion, que lhe rendeu sua segunda indicação ao Oscar. Ao mesmo tempo identificável, mas nunca repetitiva, a sonoridade das trilhas de Greenwood são sempre singulares ao evocarem os mais diferentes sentimentos. No caso de Ataque dos Cães, ela tem papel central na criação de toda a tensão que paira sob os personagens. Como esperado, Greenwood não cai na simples homenagem às referências de western e cria um universo próprio para um filme que rompe várias formalidades.

cinematographynomadland

MELHOR FOTOGRAFIA
Joshua James Richards
(Nomadland)

Surpreende a sensibilidade com que Josua James Richards captura a mistura de individualidade e universalidade de Nomadland. Sua carreira é muito recente (o primeiro curta-metragem veio em 2011), prova de que talento de verdade se manifesta em qualquer momento. À parte ter em mente concepções importantes que nem todos diretores de fotografia têm (a de que ela nunca deve chamar atenção para si própria propositalmente) e experimentações que ele diz ter feito de forma deliberada para expandir seu repertório cinematográfico, o que Richard prova no filme de Chloé Zhao é que, acima de tudo, seu trabalho se move carregado de alma. Um exemplo disso é como as paisagens exploradas pelo filme não são apenas paisagens: elas estão ali para expressar as subjetividades de uma protagonista tão singular quanto Faye (Frances McDormand). O olhar é muito sensível, e o trabalho de Joshua é, sem dúvida, um dos pilares emocionais de Nomadland.

editingthefather

MELHOR MONTAGEM
Yorgos Lamprinos
(Meu Pai)

Somente a habilidade em construir a notável atmosfera labiríntica de Meu Pai já deveria render todo tipo de elogios ao montador greco-francês Yorgos Lamprinos, mas seu trabalho também é louvável em outra questão muita importante: a de conseguir calibrar a imensa oscilação de emoções vivida pelo protagonista Anthony (Anthony Hopkins). Construir o quebra-cabeça com peças as faltantes da memória do personagem deve ter sido um desafio repleto de dificuldades. Afinal, como fazer o espectador conhecer um homem que já não se (re)conhece mais? Pois Lamprinos consegue, emergindo a plateia em uma estrutura elegante, surpreendente e que reflete seu assumido entendimento de que Meu Pai é, de certa forma, uma história de horror. Há ritmo e envolvimento em cada decisão tomada para absorver a perspectiva e as impressões de um personagem cuja empatia junto ao público é definida de maneira decisiva pela montagem.

soundwestside

MELHOR SOM
Andy Nelson, Brian Chumney, Gary Rydstrom, Shawn Murphy e Tod A. Maitland

(Amor, Sublime Amor)

Mesmo que ostente mais de 100 títulos em um currículo marcado por filmes de todo tipo de gênero, Tod A. Maitland é categórico ao afirmar que nenhuma experiência de sua carreira em mixagem de som foi tão difícil quanto a de Amor, Sublime Amor. Junto a Andy Nelson, Brian Chumney, Gary Rydstrom e Shawn Murphy, ele estabeleceu uma dinâmica definitiva a ser seguida: tornar o set mais realista possível em termos de energia. Nesse sentido, o time de som de Amor, Sublime Amor microfonou todos os bailarinos e cantores do filme, com o objetivo de capturar o máximo possível das sonoridades reais de movimentos, sapateados, acrobacias e tudo o que tornou o musical de Spielberg uma das melhores surpresas de 2021. O resultado é um espetáculo para os ouvidos: do primeiro ao último minuto, Amor, Sublime Amor é impactante nos sentidos e um trabalho à altura da trilha de Leonard Bernstein. 

CRUELLA

MELHOR FIGURINO
Jenny Beavan
(Cruella)

Tente encontrar uma figurinista como Jenny Beavan. Possivelmente, a busca será das mais longas. Os seus três Oscar falam por si só: Uma Janela Para o AmorMad Max: Estrada da Fúria e, agora em 2022, Cruella. Dos filmes de época aos mundos pós-apocalípticos, Beavan é uma figurinista cheia de criatividade, e é isso o que acaba tornando Cruella minimamente divertido. Talvez seja meio óbvio afirmar que, em um filme sobre moda, os figurinos fossem destaque, mas Beavan sai do lugar comum para criar peças tão vistosas quanto cheia de ideias. É interessante como ela mostra a sua própria versatilidade ao contrastar as peças usadas por Emma Stone e Emma Thomson, que interpretam personagens de intenções e vocações bastante opostas. São quase 50 as trocas de figurino realizadas apenas por Stone durante o filme, credenciando de vez, também em termos quantitativos, a importância das vestimentas de Cruella para a história contada.

pdesignthefather

MELHOR DESIGN DE PRODUÇÃO
Cathy Featherstone e Peter Francis
(Meu Pai)

Segmento que, na totalidade das premiações, acaba resumido a reconstituições de épocas e imponências de blockbusters, o design de produção costuma ser muito mais surpreendente e narrativo em filmes como Meu ´Pai. No filme dirigido por Florian Zeller, a dupla Cathy Featherston e Peter Francis é minimalista de um jeito que pode até passar de forma despercebida pelo público, mas que, é peça fundamental na construção das inúmeras emoções desta poderosa jornada interior estrelada por Anthony Hopkins. Mergulhando na mente de um homem que tenta se agarrar a certezas e memórias que estão se desintegrando, Cathy e Peter acompanham o labirinto proposto pelo diretor ao criar ambientes cujas composições variam de forma gradativa. Cores, móveis e quadros mudam sutilmente de tempos em tempos, contribuindo para a grande desorientação do protagonista e da própria plateia — algo que, no caso de Meu Pai é, sem dúvida, o maior elogio possível.

dunevfx

MELHORES EFEITOS VISUAIS
Brian Connor, Gerd Nefzer, Paul Lambert e Tristan Myles
(Duna)

Brinco que blockbusters hollywoodianos não fazem mais do que obrigação quando entregam bons efeitos visuais. Com orçamentos milionários no caixa, é preciso certo esforço para chegar a algo ruim. É por isso que, diante da imensa profusão de filmes de super heróis no mercado cinematográfico, os filmes que se interessam são aqueles que se utilizam dos efeitos para criar uma atmosfera de imersão e não apenas um espetáculo vistoso. Duna segue a tradição do diretor canadense Denis Villeneuve de tentar ser o mais realista possível em luzes, contrastes e cenários criados ou adaptados virtualmente especialmente para o filme. Muito do que o quarteto Brian Connor, Gerd Nefzer, Paul Lambert e Tristan Myles fez para este projeto foi abarcar as sensações e as texturas de uma vida no deserto, interferindo o mínimo possível em elementos como luminosidade e animação. O não à artificialidade é o que faz de Duna uma experiência grandiosa do ponto de vista de efeitos.

cruellamakeup

MELHOR MAQUIAGEM & PENTEADOS
Julia Vernon, Nadia Stacey e Naomi Donne
(Cruella)

Partindo de inúmeras referências que pudessem reproduzir o estilo de uma jovem na Londres dos anos 1970, Julia Vernon, Nadia Stacey e Naomi Donne conceberam Cruella como um filme divido em dois momentos diferentes. O primeiro envolvia uma garota que ainda não se (re)conhecia e que, ao entrar na indústria da moda, passa a buscar sua própria identidade, permitindo permitiu que maquiagem e penteados se alternassem com frequência, representando a busca da personagem por seu estilo. Já o segundo é quando Cruella (Emma Stone) finalmente se torna Cruella, fase em que a caracterização expressa não só a identidade pop de uma personagem marcante como também a maneira da protagonista mascarar quem sua verdadeira identidade e se apresentar ao mundo como uma pessoa inteiramente nova. São fronteiras bem desenhadas, mas, ao mesmo tempo, bastante interligadas pelo trabalho de Vernon, Stacey e Donne.

%d blogueiros gostam disto: