Cinema e Argumento

O Sacrifício do Cervo Sagrado

Yes, I can make you mashed potatoes.

Direção: Yorgos Lanthimos

Roteiro: Efthymis Filippou e Yorgos Lanthimos

Elenco: Colin Farrell, Barry Keoghan, Nicole Kidman, Sunny Suljic, Raffey Cassidy, Bill Camp, Alicia Silverstone, Denise Barone, Ming Wang,  Jerry Pope,  Josephine Elle,  Lea Hutton Beasmore

The Killing of a Sacred Deer, Reino Unido/Irlanda/EUA, 2017, Drama/Suspense, 121 minutos

Sinopse: Steven (Colin Farrell) é um cardiologista conceituado que é casado com Anna (Nicole Kidman), com quem tem dois filhos: Kim (Raffey Cassidy) e Bob (Sunny Suljic). Já há algum tempo ele mantém contato frequente com Martin (Barry Keoghan), um adolescente cujo pai morreu na mesa de operação, justamente quando era operado por Steven. Ele gosta bastante do garoto, tanto que lhe dá presentes e decide apresentá-lo à família. Entretanto, quando o jovem não recebe mais a atenção de antigamente, decide elaborar um plano de vingança. (Adoro Cinema)

É difícil desvincular O Sacrifício do Cervo Sagrado de Mãe!, filme de Darren Aronofsky lançado ano passado e que deixou incontáveis plateias em polvorosa. Ambos são trabalhos que assumidamente provocam, mexem com os nervos de forma nada previsível, lançam o espectador em territórios desconhecidos e levantam interrogações sem necessariamente entregar as respostas que o público sempre julga tão necessárias, como se ele próprio não tivesse sua parcela de participação no processo de construção de um filme. E, entrando nas complexidades de obras dessa natureza, onde não há certo ou errado e o que conta é a obra que está nos olhos de quem a vê, O Sacrifício do Cervo Sagrado me atingiu somente como uma versão bem menos exitosa de Mãe! em suas intenções.

A mesma ira que Darren Aronofsky despertou por fazer de Mãe! — e agora uso algumas das definições que ouvi por aí — um filme egocêntrico, extremado e sem muito conteúdo deveria ser multiplicada frente ao trabalho do grego Yorgos Lanthimos, que chegou a sair do Festival de Cannes com o prêmio de melhor roteiro em 2016, empatado com o drama You Were Never Really Here, de Lynne Ramsay. A base do longa é inquietante: a conduta misteriosa e trágica de um garoto (Barry Keoghan, ótimo) que, após a morte do pai, busca insistentemente se infiltrar na vida do cirurgião que teria sido responsável por essa perda. Entretanto, O Sacrifício do Cervo Sagrado não vai além de um exercício de estilo, onde Lanthimos caminha o tempo inteiro na linha tênue entre a direção que serve aos sentidos de uma trama e a que deseja ser, com certo exibicionismo, um personagem à parte naquele universo.

O longa é, no bom sentido, um experimento nervoso e incômodo, preservando o mérito sempre tão raro de levar o espectador por caminhos imprevisíveis, onde tudo é perfeitamente possível. Toda essa sensação é transferida para a personalidade dramática da obra, que cria dinâmicas familiares interessantes e provocativas, todas bem defendidas por Nicole Kidman e Colin Farrell, atores afeitos a projetos despudorados como esse. Lanthimos está na mesma batida: com todo tipo de enquadramento inusitado e com o máximo de representações gráficas possíveis (um coração ensaguentado pulsa em um peito aberto já na cena de abertura), ele intensifica a “estranheza” da história ao jamais abandonar a sua identidade tão característica como realizador.

Elevadas à décima potência, porém, rimas e estilizações visuais de O Sacrifício do Cervo Sagrado desviam a atenção da trama a todo minuto, quase nos obrigando a contemplar o quanto Lanthimos é bom diretor. Cada cena, seja ela um cotidiano percurso no hospital ou um momento reflexivo de Nicole Kidman encostada na parede, parece ter sido pensada para causar algum impacto estético. Quando isso se incorpora à narrativa de forma orgânica, é um estrondo. Já quando se torna mera muleta para impressionar (o que acontece em boa parte do tempo), comete o desserviço de colocar o espectador para fora daquele universo, e isso é um problema, pois termina comprometendo um filme que, em seu auge, causa estranho fascínio pelo desconhecido, munido de uma tensão constante e de um desfecho perturbador. 

Para fazer justiça e sentido: “American Crime Story: Os Crimes de Andrew Cunanan”

Radiografando o assassino e não o homicídio em si, The Assassination of Gianni Versace tem sua maior força no desempenho de Darren Criss.

Como o segundo capítulo de uma antologia que tem como proposta dramatizar notórios crimes verídicos, The Assassination of Gianni Versace: American Crime Story tem muito o que se explicar. À parte o fato de que o programa precisava, de alguma forma, manter a altíssima média de qualidade alcançada por sua temporada anterior (The People v. O.J. Simpson), há algo errado no próprio conceito seguido aqui, pois o segundo ano é sobre tudo, menos sobre a morte do estilista italiano Gianni Versace, assassinado em julho de 1997 na porta de sua própria casa em Miami, nos Estados Unidos. Tampouco é sobre os desdobramentos desse crime junto às autoridades e à sociedade, algo ensaiado com timidez nos episódios iniciais, quando se levanta a tese de que, por ser homossexual, Versace teria toda a sua trajetória de vida distorcida, explorada e destruída pela mídia. O pós-crime era a força-motriz de The People v. O.J. Simpson, mas, dessa vez, o seriado optou por outro caminho, o que é desleal tanto com o seu título quanto com a própria estrutura do roteiro.

Primeiro capítulo de outra antologia criada por Ryan Murphy, Feud: Bette and Joan também subvertia conceitos e expectativas ao dar espaço assumidamente maior para Joan Crawford (Jessica Lange), decisão que, com o passar dos episódios, revelou-se sábia em termos dramáticos, inclusive porque a série jamais perdia de vista as amplitudes e complexidades de Bette Davis (Susan Sarandon), que também dava nome ao programa. A mesma subversão poderia agir a favor de The Assassination of Gianni Versace caso os roteiristas tivessem tomado certa perspectiva: não é preciso ser nenhum perito para constatar que o personagem Gianni Versace (Edgar Ramírez) é mera desculpa para que a temporada faça um estudo milimétrico sobre a personalidade de Andrew Cunanan (Darren Criss), jovem que o assassinou em plena luz do dia a céu aberto. O reenfoque dramático é interessantíssimo, mas a proposta da antologia perde a razão quando Versace vira figurante, com aparições que, no geral, são apressadas e pouco contribuem para a discussão como um todo.

Edgar Ramírez como Gianni Versace e Penélope Cruz como Donatella: ambos são coadjuvantes na história assumidamente centrada em Andrew Cunanan (Darren Criss).

Estragando a festa de quem já esperava uma ambiciosa análise da vida artística do estilista ou de quem apostava em um Emmy de melhor atriz para Penélope Cruz (carregada no sotaque e na caracterização de Donatella Versace, beirando o overacting), a nova temporada de American Crime Story passa a ser, portanto, sobre a vida desse garoto problemático e criminoso que, a cada episódio, tem uma nova faceta de seu passado explorada (a temporada é contada de forma rebobinada, chegando até mesmo a sua infância). Filho de uma mãe submissa e de um pai que acumulou grande poder aquisitivo para depois ir à falência com sigilosos trambiques, Andrew era o clássico caso de jovem que acreditava ser destinado a uma vida grandiosa, seja através do dinheiro ou da fama. No entanto, aos trancos e barrancos, foi percebendo que a vida era capaz de pregar as mais inesperadas armadilhas, algo com que ele simplesmente não sabia lidar.

Toda e qualquer frustração desperta no personagem uma sociopatia perceptível na mais corriqueira de suas conversas, onde, entre a arrogância, a insanidade e a falsa humildade, proferia todo tipo de mentira com a mais absoluta naturalidade. Tudo para que as pessoas a sua volta acreditassem que ele estava envolvido em projetos e relações invejáveis. Fama, glória e dinheiro só existiam na cabeça de Andrew, mas sua missão de vida era fazer com que todos comprassem a ideia de que também se tratava de vida real. Para chegar perto do que só existia na imaginação, Andrew se envolvia com homens mais velhos e milionários, homossexuais enrustidos em sua maioria, tirando deles toda a mordomia e o luxo que ele próprio nunca chegou perto de conquistar sozinho. Quando contrariado ou frustrado, seja pela rejeição de um amigo ou de um amante, chegava ao seu instinto mais primitivo e cruel: seduzia e aterrorizava para, finalmente, assassinar.

Quando explora o íntimo de Andrew Cunanan, The Assassination of Gianni Versace ganha vida própria, mostrando que a morte do famoso estilista italiano tem pouca relevância nas discussões da temporada.

Fruto de uma sociedade negligente (todos os personagens percebem a gravidade e a iminência trágica dos problemas de Andrew, mas jamais tomam qualquer tipo de iniciativa em relação a isso), ele chega a Versace no auge de seu transtorno, tirando a vida desse homem que, em termos filosóficos, era a representação de tudo aquilo que um dia ele quis ser (talentoso, famoso, milionário e bem resolvido intimamente com a sua própria sexualidade). É essa trajetória até Versace que guia a segunda temporada de American Crime Story, que troca o assassinado pelo assassino, elucidando não o crime, mas as razões e os distúrbios que levam um ser humano a cometê-lo. No papel de sua carreira até aqui, Darren Criss, cujo trabalho mais relevante até então havia sido em Glee, seriado também da autoria de Ryan Murphy, está irretocável como Andrew Cunanan, sendo perfeitamente convincente e minucioso nas diversas facetas de um jovem que não conseguia perceber ou assumir suas próprias tragédias.

Sem falar de Versace, a segunda temporada de American Crime Story trai o seu próprio título e, mais do que tudo, o próprio espectador com um roteiro que é de certa forma incoerente, considerando todos os nove episódios. Afinal, por que seduzir tanto o público com a vida pessoal e profissional de Versace nos dois primeiros capítulos para, depois, simplesmente jogá-lo para escanteio? Não seria mais justo ser desde sempre claro quanto às intenções de desenvolver a vida de Andrew Cunanan? Em conteúdo, é uma temporada que acerta ao fazer um panorama da vida gay nos anos 1990 e ao versar sobre os distúrbios de um personagem problemático e assassino. Já em estrutura, a situação é tortuosa, especialmente se considerarmos o capítulo final, onde a série, repleta de pressa, resolve correr atrás do tempo perdido para discutir tudo aquilo que deixou de lado ao longo de uma temporada (a repercussão do assassinato, os conflitos internos entre o namorado e a irmã de Versace, o futuro da grife, a invisibilidade dos gays em situações públicas, etc).

Exemplo máximo de que o conceito da série se dilui aqui é A Random Killing, episódio que remonta o assassinato do milionário Lee Miglin pelas mãos de Andrew. Casado, mas secretamente envolvido com garotos de programa mais jovens, Miglin era um bom marido para sua esposa, Marilyn (Judith Light, maravilhosa), que começa a refletir sobre a vida e o íntimo do companheiro ao descobrir que seu corpo foi encontrado ao redor de dezenas de pornografias gays. É o conceito que funcionou tão bem na temporada anterior da American Crime Story e que é representado magistralmente nesse episódio: nos crimes de grandes proporções como o de Gianni Versace, tão importante quanto o que faz determinadas situações chegarem a algum ponto mortal é como assassinatos têm poderes altamente reveladores e reverberam tanto entre quatro paredes quando publicamente. Sendo assim, mesmo que defendida com esmero por Darren Criss e pela ideia de radiografar o íntimo de um assassino (com suas liberdades dramáticas, claro), The Assassination of Gianni Versace poderia muito bem ter alcançado a grandiosidade de The People v. O.J. Simpson caso expandisse para toda a temporada a lógica desse episódio específico. E caso também, claro, alterasse o seu título. Quem sabe American Crime Story: Os Crimes de Andrew Cunanan? Faria justiça e sentido.

Melhores de 2017 – Design de Produção

Colosso técnico como poucas vezes vimos em um filme de natureza blockbusterBlade Runner 2049 fez valer cada um dos 150 milhões de dólares investidos em sua produção. Você pode dizer que o dinheiro corre solto em longas ambiciosos do ponto de vista comercial como esse, mas aqui há a diferença crucial de que todos os setores técnicos, muito além da qualidade, foram milimetricamente pensados para construir um universo com inteligência e sofisticação. No design de produção assinado por Dennis Gassner, profissional com longa e respeitada trajetória em filmes como O Show de TrumanEstrada Para a PerdiçãoPeixe Grande e Suas Histórias Maravilhosas, a visão futurística está intimamente associada à tese de que a tecnologia, mesmo que grandiosa e tão enraizada em nossas vidas, pode nos tornar pequenos, solitários e distantes. Parece existir, em cada cenário de dimensão magnífica e em cada decoração impactante de Blade Runner 2049, algum tipo de desolação, ideia que não deixa até de ser um tanto clichê, mas que é desenhada com um impacto poucas vezes visto no cinema recente do gênero. Ainda disputavam a categoriaA Bela e a Fera, A CriadaO Estranho Que Nós Amamos La La Land: Cantando Estações.

EM ANOS ANTERIORES: 2016  Animais Fantásticos e Onde Habitam | 2015 – Expresso do Amanhã | 2014 – O Grande Hotel Budapeste | 2013 – Anna Karenina | 2012 – A Invenção de Hugo Cabret | 2011 – Harry Potter e as Relíquias da Morte – Parte 2 | 2010 – O Mundo Imaginário do Dr. Parnassus | 2009 – O Curioso Caso de Benjamin Button | 2008 – Sweeney Todd – O Barbeiro Demoníaco da Rua Fleet | 2007 – Maria Antonieta

Melhores de 2017 – Canção Original

O número musical mais ambicioso de La La Land: Cantando Estações está logo na abertura do longa, quando dezenas de personagens cantam e dançam em meio a um congestionamento em Los Angeles, nos Estados Unidos. A lógica é clara: com Another Day of Sun, o mais recente trabalho do diretor Damien Chazelle (Wiplash: Em Busca da Perfeição) não quer deixar dúvidas sobre qual é o espírito desse trabalho repleto de cores e sonhos, mas que também tem os pés bem firmados no chão. Composta pela dupla Benj Pasek e Justin Paul, com música de Justin Hurwitz, Another Day of Sun é contagiante em sua graça, grandiosidade e diversidade musical, servindo como uma perfeita introdução para essa mistura entre o clássico e o contemporâneo de um filme que conquistou milhões de plateias ao redor do mundo. E mais: funciona na tela, onde foi perfeitamente coreografada e capturada, e também isoladamente (é bem provável que você queira reproduzir toda a trilha após ouvi-la). Ainda disputavam a categoria: “Audition (The Fools Who Dream)” (La La Land: Cantando Estações), “City of Stars” (La La Land: Cantando Estações), “How Far I’ll Go” (Moana: Um Mar de Aventuras) e “This is Me” (O Rei do Show).

EM ANOS ANTERIORES: 2016  “Simple Song #3” (A Juventude) | 2015 – “Glory” (Selma: Uma Luta Pela Igualdade| 2014 – “Let it Go” (Frozen – Uma Aventura Congelante| 2013 – “Last Mile Home” (Álbum de Família| 2012 – “Skyfall” (007 – Operação Skyfall| 2011 – “Life’s a Happy Song” (Os Muppets| 2010 – “Better Days” (Comer Rezar Amar| 2009 – “By the Boab Tree” (Austrália| 2008 – “Falling Slowly” (Apenas Uma Vez)

Melhores de 2017 – Atriz Coadjuvante

O papel é tão corriqueiro quanto irresistível: o da complexa matriarca que, entre verdades reveladas em almoços e jantares, vive uma difícil relação com a filha, uma mulher igualmente ampla em pensamentos e sentimentos. A experiência aqui se faz valer, pois Clarisse Abujamra interpreta a personagem com uma sabedoria que somente o tempo pode trazer a qualquer intérprete. De maneira elegante e inteligente, ela deixa em segundo plano o apelo do choque inicial causado pela honestidade dessa mãe, optando por buscar a sabedoria de uma mulher que finalmente compreende como a verdade, ainda que nua, crua e eventualmente dolorosa, talvez seja um dos maiores legados que qualquer pessoa pode deixar para seus filhos. Justificada de forma plena e sutil pelo filme, que ainda lhe confere um tocante arco dramático, a personagem destrincha boa parte dos conflitos da história, fazendo Abujamra brilhar absoluta a cada aparição, mesmo em um elenco tão coeso. Ainda disputavam a categoria: Michelle Pfeiffer (Mãe!), Michelle Williams (Manchester à Beira-Mar), Naomie Harris (Moonlight: Sob a Luz do Luar) e Nicole Kidman (Lion: Uma Jornada Para Casa).

EM ANOS ANTERIORES: 2016 – Juliana Paes (A Despedida) | 2015 – Kristen Stewart (Acima das Nuvens| 2014 – Lesley Manville (Mais Um Ano) | 2013 – Helen Hunt (As Sessões| 2012 – Viola Davis (Histórias Cruzadas| 2011 – Amy Adams (O Vencedor| 2010 – Marion Cotillard (Nine| 2009 – Kate Winslet (O Leitor| 2008 – Marcia Gay Harden (O Nevoeiro| 2007 – Imelda Staunton (Harry Potter e a Ordem da Fênix)