Cinema e Argumento

Os indicados ao Emmy 2020

Regina King em Watchmen: com 26 indicações, minissérie criada por Damon Lindelof e produzida pela HBO lidera lista e é favorita absoluta entre as minisséries.

Mesmo com o Coronavírus se alastrando de forma latente nos Estados Unidos, o Emmy permanece firme e forte com a data inicialmente programada para a sua cerimônia de premiação, seja ela em qual formato for. No dia 20 de setembro, portanto, conheceremos os vencedores da lista de indicados divulgada hoje (28), que traz Watchmen, da HBO, liderando com o maior número de menções entre todos os segmentos. Foram 26 indicações para a minissérie criada por Damon Lindelof, um número surpreendente até mesmo para os que estavam mais otimistas com a performance do programa entre os votantes. Essa imensa justiça se estende a outros dois seriados: Succession, também da HBO, e Ozark, uma produção original Netflix, ambas com 18 indicações cada no segmento dramático. Já entre as comédias, The Marvelous Mrs. Maisel lidera acumulando 20, mesmo em seu momento menos cativante. 

Há uma boa notícia a ser comemorada no Emmy 2020: 34,3% dos atores indicados este ano são negros, o maior número já registrado na premiação. Também há evolução no espaço para as mulheres: seis dos nove roteiros indicados por minisséries/telefilmes são assinados por mulheres, assim como quatro dos seis episódios indicados a direção. Sabemos que o caminho a ser percorrido ainda é longo e que muito dessa pluralidade vem do fato de que a TV e o streaming há muitos anos têm se mostrado mercados menos conservadores do que o cinema, mas é importante celebrar vitórias que já dão indícios de um futuro mais democrático, justo e igual em oportunidades. Ainda em números, a Netflix está no topo com 160 indicações para seus projetos contra 107 da HBO, invertendo o cenário de liderança visto no ano passado. No entanto, a Netflix ainda espera pelo dia em que uma de suas séries vencerá o prêmio principal. Parece que novamente não será dessa vez…

Por ora, aqui estão alguns comentários pontuais (e muito pessoais) sobre os indicados:

Watchmen e Succession são tudo isso que suas indicações sugerem, provando que a HBO ficou sem ressaca alguma após a era Game of Thrones. Na verdade, dá até para reivindicar mais indicações para ambas: enquanto a primeira deveria ter rendido a Tim Blake Nelson uma lembrança entre os coadjuvantes, a segunda poderia ter incluído Holly Hunter ao lado de Cherry Jones e Harriet Walter na disputa de atrizes convidadas. Em suma, qualquer resultado diferente da consagração de Watchmen e Succession será motivo de choque…

– Empatada com Succession no número de indicações, Ozark parecia destinada a render mais. Ainda que tenha, por exemplo, indicação tripla na categoria de roteiro, a série estrelada por Jason Bateman e Laura Linney ficou sem duas de suas indicações mais essenciais pela terceira temporada: ator coadjuvante para Tom Pelphrey e atriz coadjuvante para Janet McTeer;

– A briga será de foice entre as coadjuvantes de série dramática. Resultado de novas regras do Emmy, temos nada menos do que oito concorrentes: de Meryl Streep a Laura Dern por Big Little Lies, passando por grandes nomes como Helena Bonham Carter em The Crown e Fiona Shaw em Killing Eve, a antigas vencedoras como Thandie Newton (Westworld) e Julia Garner (Ozark), é praticamente impossível tentar adivinhar a futura vencedora. É o tipo de disputa que dá gosto de ver — não pela quantidade, e sim pela qualidade;

– Outra competição acirradíssima é a de atriz em série dramática. A categoria que nos reservou a surpresa de ver Zendaya (Euphoria) chegando de última hora após ter passado em branco nos demais prêmios televisionados confirmou o que era esperado: pelo menos três atrizes disputam o favoritismo. Será a vez de Olivia Colman (The Crown), vencedora do último Globo de Ouro? Ou então de Jennifer Aniston (The Morning Show), que já levou o Screen Actors Guild Awards para casa? E como não colocar Laura Linney (Ozark) na dianteira por sua melhor temporada na série e pelo seu histórico invicto no Emmy, onde já foi premiada por todos os papéis que concorreu?;

– Seguindo na pauta de atrizes, é criminoso o esquecimento de Merrit Wever e Kaitlyn Dever como protagonistas de Unbelievable no segmento de minisséries. Toni Collette, com uma pequena fraude de categoria, garantiu a lembrança entre as coadjuvantes, mas é a clássica situação em que as indicações só fazem real sentido quando todas estão na disputa. Não há justificativa para tal esquecimento, especialmente quando Unbelievable concorre como melhor minissérie, o que comprova o apreço dos votantes pelo programa em um ano muito disputado;

– Considerando as devidas dimensões, outras ausências e descompassos que me bateram de forma muito particular envolvem I Know This Much is True (concorre somente em melhor ator pelo grandioso desempenho de Mark Ruffalo quando merecia muito mais), Years and Years (uma das experiências mais marcantes da temporada e sequer citada em qualquer categoria) e The Great (série criada pelo roteirista de A Favorita que misteriosamente emplacou lembranças em direção e roteiro, mas não em melhor série ou para seu excelente elenco).

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Confira abaixo a lista de indicados: 

MELHOR SÉRIE DE DRAMA
Better Call Saul
The Crown
The Handmaid’s Tale
Killing Eve
The Mandalorian
Ozark
Stranger Things
Succession

MELHOR ATRIZ EM SÉRIE DE DRAMA
Jennifer Aniston (The Morning Show)
Jodie Comer (Killing Eve)
Laura Linney (Ozark)
Olivia Colman (The Crown)
Sandra Oh (Killing Eve)
Zendaya (Euphoria)

MELHOR ATOR EM SÉRIE DE DRAMA
Billy Porter (Pose)
Brian Cox (Succession)
Jason Bateman (Ozark)
Jeremy Strong (Succession)
Sterling K. Brown (This is Us)
Steve Carell (The Morning Show)

MELHOR ATRIZ COADJUVANTE EM SÉRIE DE DRAMA
Fiona Shaw (Killing Eve)
Helena Bonham Carter (The Crown)
Julia Garner (Ozark)
Laura Dern (Big Little Lies)
Meryl Streep (Big Little Lies)
Samira Wiley (The Handmaid’s Tale)
Sarah Snook (Succession)
Thandie Newton (Westworld)

MELHOR ATOR COADJUVANTE EM SÉRIE DE DRAMA
Billy Crudup (The Morning Show)
Bradley Whitford (The Handmaid’s Tale)
Giancarlo Esposito (Better Call Saul)
Jeffrey Wright (Westworld)
Kieran Culkin (Succession)
Mark Duplass (The Morning Show)
Matthew Macfadyen (Succession)
Nicholas Braun (Succession)

MELHOR SÉRIE DE COMÉDIA
Curb Your Enthusiasm
Dead to Me
The Good Place
Insecure
The Kominsky Method
The Marvelous Mrs. Maisel
Schitt’s Creek
What We Do in the Shadows

MELHOR ATRIZ EM SÉRIE DE COMÉDIA
Catherine O’Hara (Schitt’s Creek)
Christina Applegate (Dead to Me)
Issa Rae (Insecure)
Linda Cardellini (Dead to Me)
Issa Rae (Insecure)
Rachel Brosnahan (The Marvelous Mrs. Maisel)
Tracee Ellis Ross (Black-ish)

MELHOR ATOR EM SÉRIE DE COMÉDIA
Anthony Anderson (Black-ish)
Don Cheadle (Black Monday)
Eugene Levy (Schitt’s Creek)
Michael Douglas (The Kominsky Method)
Ramy Yousseff (Ramy)
Ted Danson (The Good Place)

MELHOR ATRIZ COADJUVANTE EM SÉRIE DE COMÉDIA
Annie Murphy (Schitt’s Creek)
Alex Borstein (The Marvelous Mrs. Maisel)
Betty Gilpin (GLOW)
Cecily Strong (Saturday Night Live)
D’Arcy Carden (The Good Place)
Kate McKinnon (Saturday Night Live)
Marin Hinkle (The Marvelous Mrs. Maisel)
Yvonne Orji (Insecure)

MELHOR ATOR COADJUVANTE EM SÉRIE DE COMÉDIA
Alan Arkin (The Kominsky Method)
Andre Braugher (Brooklyn Nine-Nine)
Daniel Levy (Schitt’s Creek)
Kenan Thompson (Saturday Night Live)
Mahershala Ali (Ramy)
Sterling K. Brown (The Marvelous Mrs. Maisel)
Tony Shalhoub (The Marvelous Mrs. Maisel)
William Jackson Harper (The Good Place)

MELHOR MINISSÉRIE
Little Fires Everywhere
Mrs. America
Unbelievable
Unorthodox
Watchmen

MELHOR TELEFILME
American Son
Bad Education
Dolly Parton’s Heartstrings: These Old Bones
El Camino: A Breaking Bad Movie
Unbreakable Kimmy Schmidt: Kimmy vs. The Reverend

MELHOR ATRIZ EM MINISSÉRIE/TELEFILME
Cate Blanchett (Mrs. America)
Kerry Washington (Little Fire Everywhere)
Octavia Spencer (Self Made)
Regina King (Watchmen)
Shira Haas (Unorthodox)

MELHOR ATOR EM MINISSÉRIE/TELEFILME
Hugh Jackman (Bad Education)
Jeremy Irons (Watchmen)
Jeremy Pope (Hollywood)
Mark Ruffalo (I Know This Much is True)
Paul Mescal (Normal People)

MELHOR ATRIZ COADJUVANTE EM MINISSÉRIE/TELEFILME
Holland Taylor (Hollywood)
Jean Smart (Watchmen)
Margo Martindale (Mrs. America)
Toni Collette (Unbelievable)
Tracey Ullman (Mrs. America)
Uzo Aduba (Mrs. America)

MELHOR ATOR COADJUVANTE EM MINISSÉRIE/TELEFILME
Dylan McDermott (Hollywood)
Jim Parsons (Hollywood)
Jovan Adepo (Watchmen)
Louis Gossett Jr (Watchmen)
Tituss Burgess (Unbreakable Kimmy Schmidt: Kimmy vs. The Reverend)
Yahya Abdul-Mateen II (Watchmen)

* Categorias de direção, roteiro, variedades, reality shows e outros segmentos técnicos podem ser encontrados no documento oficial disponibilizado em inglês pelo Emmy.

Maratona de séries em tempos de pandemia: “I Know This Much is True”, “The Good Fight”, “Homecoming”, “Mrs. America” e “The New Pope”

“I Know This Much is True” (HBO, minissérie)

O diretor Derek Cianfrance, que já havia estraçalhado meu coração anos atrás com Namorados Para Sempre, adapta o romance homônimo de Wally Lamb para contar a trágica odisseia de dois irmãos gêmeos fadados à dor desde a infância. Um deles é esquizofrênico. O outro tenta seguir a vida de alguma forma mesmo sendo o único porto seguro do irmão. Ambos são interpretados por Mark Ruffalo, que nunca esteve tão bem em toda a sua carreira, apoiado por um elenco feminino de dar inveja (Kathryn Hahn, Rosie O’Donell, Archie Panjabi, Melissa Leo). E a excelente notícia é que I Know This Much is True não cede à clássica tentação de focar no irmão esquizofrênico para mostrar como Ruffalo é bom ator. O que Cianfrance faz é contar tudo sob o ponto de vista do irmão que tenta atravessar a vida sem deixar que a doença do outro defina seus caminhos e escolhas, ainda que, no final das contas, ele não consiga escapar disso.

Poucas vezes vimos tanta desgraça reunida quanto nessa minissérie da HBO: qundo parece que não é mais possível piorar, I Know This Much is True surge com outra paulada. Boa parte desse impacto também vem de um talento muito característico de Cianfrance: o de pincelar a dor através da nossa relação com o tempo, exatamente como vimos em Namorados Para Sempre, onde íamos e voltávamos na história de um casal para entender a sua ruína, ou no subestimado O Lugar Onde Tudo Termina, forte drama sobre como certas feridas são passadas de geração para geração. No caso de I Know This Much is True, o diretor opta novamente pelos flashbacks. Entre a ideia de que certas vidas parecem amaldiçoadas e a tese de que seria muito fácil culpar o destino ao invés de assumir nossas próprias escolhas, a minissérie termina por calibrar muito bem o retrato do sofrimento, sem jamais soar apelativa. Tudo que está nessa dolorosa crônica não passa mesmo de vida real. Uma experiência para os fortes.

“The Good Fight” (CBS All Access, 4ª temporada)

O spin-off da clássica The Good Wife foi diretamente afetada pela pandemia, que impediu a equipe de concluir três dos 10 episódios previstos para essa temporada. A incompletude é sentida na tela, uma vez que fica difícil julgar a quarta temporada porque muitos arcos e conflitos não foram concluídos, como o mistério do Memo 618, responsável por boa parte do entretenimento desses episódios disponibilizados. Da forma como foi exibida, a temporada tem seus problemas: participações especiais que nada acrescentam (personagens inesquecíveis como Louis Canning e David Lee dão às caras sem fazer muita diferença para a história), a protagonista Diane Lockhart (Christine Baranski, sempre impecável) é frequentemente jogada para o campo dos coadjuvantes e alguns atores começam a parecer dispensáveis (não à toa, Delroy Lindo e Cush Jumbo anunciaram sua saída do programa). Já o humor muito particular da série e a identidade que ela construiu com grande esmero se desvinculando de The Good Wife nos últimos anos permanecem intactos.

É perceptível o quanto os criadores Robert e Michelle King recuaram na questão política que tanto marcou o terceiro ano, quando The Good Fight se tornou, com uma subestimada inspiração, a série mais posicionada do ponto de vista político na indústria norte-americana. Tal recuo é um erro, mesmo que o público tenha reclamando do viés excessivamente político. Isso porque, na nova leva de episódios, temos um claro exemplo de como a fórmula pode render episódios brilhantes. Falo especificamente de The Gang Deals with Alternate Reality, onde Diane Lockhart, vivendo um delírio, acorda nos Estados Unidos onde Hillary Clinton ganhou as últimas eleições presidenciais. Inspirado e divertido, o episódio promove importantes reflexões do ponto de vista republicano e democrata, ousando até mesmo ao propôr a tese de que, sem o machismo da campanha e do governo de Donald Trump, movimentos como o #MeToo talvez sequer tivessem vindo à tona. A série já está renovada para uma quinta temporada.

“Homecoming” (Prime Video, 2ª temporada)

É uma desnecessária continuação para a temporada anterior, que tinha na presença de Julia Roberts como protagonista uma imensa ancoragem. Pois Julia não volta (agora só assina como produtora executiva) e quem assume o protagonismo é a “cantriz” Janelle Monáe, cuja presença em nenhum momento preenche a tela ou instiga o espectador. Aliás, quem rouba a cena é mesmo a tailandesa Hong Chau, que tinha papel pequeno na primeira temporada e que esteve em Watchmen, uma das minisséries mais brilhantes de 2019. O segundo ano não se trata necessariamente de um spin-off, pois em partes descobrimos que a trama existe para dar conclusão e expandir conflitos da primeira leva de episódios. A tentativa de conectar os dois anos do programa é falha, especialmente se levarmos em consideração o quanto a hipnotizante estética de Homecoming não consegue sequer dosar algum interesse pela trama fria e vazia.

Com apenas sete episódios de meia hora (três a menos que a temporada anterior), essa sequência frustra inclusive em aspectos mais estruturais, como o fato de parecer um filme picotado em sete partes. Vale perceber como são vários os episódios que dizem muito pouco e acabam sequer tento uma lógica própria, sem falar nos frágeis ganchos deixados a cada desfecho, que não chegam nem perto de estimular a curiosidade como acontecia quando Julia Roberts era protagonista. Fica a sensação de prato requentado, embora tentativas não faltem, a exemplo das aquisições de Chris Cooper e Joan Cusack para o elenco (os dois, contudo, estão reduzidos a papeis subutilizados ou um tanto confusos). Não era de se esperar que Homecoming sucumbisse à previsibilidade e a alguns vícios tão cedo. Sem ter repercutido com público e crítica, o segundo ano pode ser o último do seriado, já que uma nova temporada ainda não foi confirmada.

“Mrs. America” (FX, minissérie)

Mrs. America é um prato cheio caso você seja o tipo de espectador que encontra certo fascínio ao se deparar com personagens detestáveis. Afinal, como não ter os nervos testados por Phyllis Schlafly (Cate Blanchett), a anti-feminista ultraconservadora que fez de tudo para barrar o avanço dos direitos das mulheres nos Estados Unidos durante a década de 1970? Como pano de fundo, a minissérie da FX traz a famosa luta de diversas feministas pela Emenda dos Direitos Iguais (Equal Rights Amendment, em inglês), proposta à Constituição dos Estados Unidos para garantir direitos legais iguais para todos os cidadãos americanos, independentemente do sexo. A ironia é que Schlafly, decidida a sabotar a implementação dessa emenda em todos os cantos dos Estados Unidos, usufruía justamente daquilo que tanto queria tirar das mulheres: entre outros itens, a possibilidade de trabalhar, ter uma carreira e ser independente. Para ela, a população feminina deveria servir ao lar e à família, enquanto ela própria viajava o país e fazia uma carreira reconhecida pelos republicanos conservadores.

Narrada em nove partes, Mrs. America tem todos os episódios com uma mulher na direção e divide o protagonismo de cada uma de suas passagens entre diferentes coadjuvantes que atravessam toda a trama, como a Gloria Steinem de Rose Byrne ou a Bella Abzug de Margo Martindale. Ainda assim, é a partir da figura de Phyllis Schlafly que o programa se desdobra, mostrando como cada uma das ativistas feministas reage à essa figura ultraconservadora inicialmente tratada como piada, mas logo encarada como uma ameça real a importantes lutas. Faz muito bem a minissérie ter esse rodízio de personagens e centrar suas perspectivas no discurso contraditório de uma figura polêmica como Schlafly, interpretada com traços tão complexos quanto detestáveis pela excelente Cate Blanchett. São duas escolhas que arejam Mrs. America e que impedem o programa de ser um daqueles relatos históricos tão convencionais, didáticos e produzidos apenas para mimetizar a vida real como um documentário.

“The New Pope” (HBO/SKY, 2ª temporada)

Sou fã incondicional da temporada anterior, intitulada The Young Pope, onde Jude Law nunca esteve tão inspirado e o cineasta italiano Paolo Sorrentino filmava com sua imponência habitual vista também em títulos como o belo longa-metragem A Juventude. A ideia de uma continuação parecia bacana, mas, conferindo esse segundo ano, penso que poderiam ter ficado apenas com o primeiro. Aqui há aquela famosa tomada de consciência que faz o espectador perceber o quanto um diretor está dedicado a ampliar e repetir os elementos de um projeto anterior. Pois é exatamente isso o que Sorrentino, também autor do roteiro dos nove episódios ao lado de Stefano Bises e Umberto Contarello, faz em The New Pope, uma produção muito mais escrachada, satírica e explícita do que a temporada anterior. O espectro de coadjuvantes também ganha mais espaço, muitas vezes pulverizando o protagonismo agora entregue a John Malkovich. Resultado: com tudo ampliado, The New Pope perde em sutilezas.

Outro aspecto importante para balizarmos os deslizes dessa continuação é o pouco tempo de tela dado a Jude Law, que faz muita falta como o sempre enigmático, sedutor e capcioso Pius XIII. Por razões explicadas na trama e que não serão reproduzidas aqui para evitar spoilers, seus holofotes são transferidos para John Malkovich, visivelmente entretido com as palavras e os maneirismos de um personagem interessante, embora muito longe de representar o fascínio daquele vivido por Jude Law. Não por acaso, Law domina todo o seu limitado espaço em cena e ainda sobrevive aos fracos conflitos do terço final da temporada. Sorrentino continua levantando pontos importantes e interessantes sobre a fé (destaque para a discussão envolvendo a mini-rebelião de um grupo de feiras que decide enfrentar o patriarcado tão marcante do catolicismo), mas a corda foi esticada mais do que deveria, quase descaracterizando a fluidez de provocações e emoções registradas no primeiro ano. Não há pistas de que existirá uma nova temporada.

“After Life”: em fase melancólica e tragicômica, Ricky Gervais encena o luto sem fim de um homem comum

Criador, ator, produtor, roteirista e diretor do seriado After Life, Ricky Gervais abraça a melancolia e a tragicomédia para narrar a história de um homem que vive um luto sem fim. 

Esqueça o Ricky Gervais que, como apresentador do Globo de Ouro em três ocasiões, chocou meio mundo com monólogos de abertura polêmicos. Esqueça também o Ricky Gervais que deixou incontáveis plateias desconfortáveis com seriados como Extras e The Office (a versão britânica que deu origem ao sucesso estrelado por Steve Carell nos Estados Unidos). Obviamente Gervais não abriu mão de sua própria personalidade, mas o que vemos em After Life, cuja segunda temporada estreou dia 24 de abril na Netflix, é uma versão mais sentimental e melancólica de um humorista que, perto de completar 60 anos, resolveu refletir sobre a finitude da vida e sobre o estado de luto que todos nós um dia vivenciaremos.

Se antes o humor de Ricky Gervais era gosto adquirido (piadas ácidas, politicamente incorretas e até mesmo constrangedoras são para um certo nicho), agora a situação muda de cenário, pois After Life, além de trazer toda a ironia e a inteligência das melhores comédias britânicas, consegue ser universal ao equilibrar certas características do humor que consagrou Gervais e doses de emoção realmente surpreendentes se levarmos em consideração a trajetória mais célebre do humorista. Para quem gosta de ver tudo de uma tacada só, uma boa notícia: After Life é estruturada em temporadas de somente seis episódios de 30 minutos, o que também pode ser a tristeza para quem gosta de saborear histórias por um período mais longo.

As duas temporadas lançadas até agora são todas dirigidas e roteirizadas pelo próprio Gervais. Cada uma, pela curtíssima duração, parece um filme dirigido em seis partes. Gervais, no entanto, como um veterano dos seriados, sabe construir uma estrutura episódica para o programa. Resumidamente, a história gira em torno de Tony, um jornalista que, após ter perdido a esposa para o câncer, passa a enxergar o pessimismo como filosofia de vida. Para ele, o trabalho é uma atividade tola, as pessoas ao seu redor são desprezíveis e tudo parece uma conspiração para irritá-lo. Sem a esposa, Tony apenas sobrevive.

A partir de amizades improváveis e de personagens que buscam a humanidade do protagonista, After Life dosa humor e comédia para evitar o risco de se tornar o relato sobre um homem intragável.

Receita fácil para criar um personagem insuportável, a sinopse depressiva de After Life é colocada abaixo na prática. Primeiro porque Ricky Gervais, que interpreta o próprio Tony, opta por utilizar a sua cota de humor justamente para retratar o pessimismo do protagonista. Ora, é mesmo tragicômico o fato de Tony trabalhar no jornal decadente de uma pequena cidade, entrevistando pessoas que talvez nenhum jornalista sonha entrevistar, como uma senhora que diz ter o poder de falar com gatos ou o homem que vê o rosto de Kenneth Branagh em uma infiltração da casa. Também é divertido ver Tony se tratar com um psicólogo que está cansado de ouvir seus pacientes e que, no final das contas, quer apenas falar sobre ele próprio.

Além de explorar com humor as situações cotidianas afim de aliviar o peso que ele visivelmente carrega nas costas, After Life cerca o protagonista de personagens que clamam por sua humanidade, como Emma (Ashley Jensen), a enfermeira que cuida do pai de Tony em uma clínica para idosos, ou então a sua mais nova amiga Anne (Penelope Wilton), uma senhora que perdeu o marido e com quem ele tem alguns dos melhores diálogos em ambas as temporadas. A partir do convívio com essas pessoas, Tony começa gradativamente a se abrir para o mundo mais uma vez, ainda que nunca consiga se libertar das memórias da esposa, muitas delas registradas em gravações caseiras que ele assiste ao acordar e antes de dormir.

Fragmentos de memórias: nos vídeos que Tony assiste diariamente como um ritual, conhecemos um pouco sobre quem ele era antes de perder a esposa.

No tocante à discussão do luto, Ricky Gervais não cai na tentação de querer contextualizar o histórico do protagonista de forma linear. Seria fácil nos introduzir à esposa de Tony, passar alguns episódios com ela e depois fazê-lo sofrer a perda. O que After Life faz é apresentar um personagem que, depois de meses, ainda não seguiu em frente — e nem tem a intenção de seguir tamanho o vazio existencial que sente. Através das gravações que Tony guarda da esposa, a série revela, a cada episódio, fragmentos do relacionamento sincero, cúmplice e espontâneo dos dois, e aí entendemos ainda mais a razão de todo luto. Cada vez que vemos o protagonista encerrar um dia com um sorriso ou algumas lágrimas no rosto ao revisitar alguma gravação no computador, percebemos que também sentimos falta de vê-lo feliz.

O humor pessimista desse homem em luto rende momentos hilários para After Life, que busca a piada no absurdismo do dia a dia. Entretanto, é a angústia de Tony com ele próprio e com a sua incapacidade de seguir em frente que dá verniz à série. Com simplicidade, Gervais olha para o cotidiano por meio de um olhar afiado e revelador: assim como acontece na vida, o protagonista começa a colecionar amizades improváveis (a prostituta vivida por Roisin Conaty é excelente, muito em função da série não problematizar ou estereotipar a natureza da sua profissão) e a perceber que, apesar dos pesares, precisamos abraçar aquilo que a vida tem a nos oferecer, inclusive os colegas estranhos de trabalho que podem muito bem ser o ombro amigo que precisamos. No meio disso tudo, Ricky comove e diverte como ator, em um desempenho discreto e repleto de nuances.

Na primeira temporada, After Life apostou com mais frequência no humor, muito para contextualizar o quanto Tony passou a ver a vida com pessimismo. Já no segundo ano, a melancolia toma conta do seriado porque testemunhamos vários desdobramentos de suas novas relações. A mais significativa é a que ele estabelece com a enfermeira que cuida de seu pai e que logo se apresenta como um interesse amoroso que talvez o faça finalmente virar a página. Nada maniqueísta ou clichê, mas de uma sobriedade que costuma definir os trabalhos mais interessantes vindos do Reino Unido. Com o passar do tempo, Ricky realmente se tornou mais sentimental. E, partindo do que ele realiza em After Life, tal constatação só comprova a velha tese de que nem todo ator é um grande comediante, mas que, sim, todo comediante é necessariamente um grande ator. Aliás, no caso de Ricky, grande ator, produtor, diretor, roteirista…

As dez melhores séries de 2019

Watchmen, da HBO, é uma das melhores séries do ano. No programa criado por Damon Lindelof, o universo dos quadrinhos é adaptado com personalidade própria e sem fórmulas tradicionais.

É hora de dar o start na brincadeira dos melhores do ano. Vi o que pude em um ano que não me permitiu ver tantos filmes e seriados quanto eu gostaria. Selecionei aquelas obras que mais me tocaram de alguma forma. Listas, como sempre, são muito pessoais e dizem mais sobre quem as faz do que necessariamente sobre os escolhidos em si. Gosto dessa lógica. Começo abaixo pelas séries, elencando as minhas dez favoritas de 2019 (sem ordem de preferência).

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The Act (Hulu, primeira temporada)
Uma antologia tão macabra que só poderia mesmo ter a vida real como inspiração. Temporada de oito episódios com duas grandes performances de Joey King e Patricia Arquette. Vale a dobradinha com o documentário Mamãe Morta e Querida, da HBO, sobre a mesma história. A Hulu ainda não deu informações sobre uma segunda temporada. Relembre a crítica publicada aqui no blog.

After Life (Netflix, primeira temporada) 
O trabalho mais sentimental da carreira de Ricky Gervais, sem perder a acidez típica do ator/diretor/roteirista. Um olhar tão delicado quanto tragicômico sobre o luto e sobre os desafios de (tentar) seguir em frente. Já está renovada para mais uma temporada.

The Crown (Netflix, terceira temporada)
Olivia Colman assume o protagonismo da terceira temporada de “The Crown” com o brilhantismo de sempre. De contornos muito mais políticos e morais, a nova fase da série tem na divisão democrática de espaço com os coadjuvantes a sua maior potência narrativa. A quarta temporada estreia em 2020, novamente com Olivia Colman.

Chernobyl (HBO, minissérie)
Uma densa crítica em torno da negligência, da mentira e da irresponsabilidade que parte de políticos e governantes em situações de crise. Ao centrar a história na forma como toda mentira é cobrada e como sempre há um preço a ser pago, a HBO criou um dos grandes eventos televisivos do ano.

Fleabag (Amazon Prime, segunda temporada)
Raramente vemos séries sobre uma personagem feminina, errática e complexa que diz muito mais sobre nós mesmos do que estamos dispostos a admitir. Fleabag é uma pérola porque compreende a força da comédia para falar sobre nossos anseios mais incômodos. A série não terá mais temporadas.

Modern Love (Amazon Prime, primeira temporada)
Uma grande evolução na relação da Amazon com o grande o público, embalada pelo toque delicado de John Carney como showrunner. Tem histórias mais interessantes do que outras, mas é uma experiência carinhosa e vivida por um grande elenco. Uma nova temporada já foi encomendada pela Amazon.

Mrs. Fletcher (HBO, primeira temporada)
Kathryn Hahn está inspiradíssima nessa pérola da HBO que passou despercebida em quase todas as listas do ano. Vale correr atrás: Mrs. Fletcher tem mais um texto lindo de Tom Perrotta e escapa de todos os clichês envolvendo a síndrome do ninho vazio. A HBO ainda não anunciou se o programa será renovado para uma segunda temporada. Relembre a crítica publicada aqui no blog.

Years and Years (HBO/BBC, minissérie)
Perturbadora análise sobre tudo que pode acontecer em um futuro que, na verdade, já está muito próximo. São seis episódios afiadíssimos que capturam o caos político e moral de uma era que escolheu aplaudir a ignorância e a má fé de toscos governantes. Relembre a crítica publicada aqui no blog.

Watchmen (HBO, primeira temporada)
A expectativa era grande porque The Leftovers é o meu seriado favorito da década, mas Watchmen dá sequência ao que Damon Lindelof vem fazendo de melhor como contador de histórias. Os nerds espumaram de raiva. Sinal de que a série realmente é um espetáculo. Lindelof diz ter idealizado a série para somente uma temporada, mas a HBO ainda não oficializou a decisão final.

When They See Us (Netflix, minissérie)
Revoltante relato da vida real que a diretora Ava DuVernay adaptou para a Netflix com uma força emocional avassaladora. Impossível ficar indiferente a uma história tão potente e a um drama tão bem desenhado em suas críticas e justiças.

“Mrs. Fletcher”: partindo de mais um texto crítico e sem amarras de Tom Perrotta, nova série da HBO é uma pérola a ser descoberta

Kathryn Hahn como Eve, a protagonista de Mrs. Fletcher: nova série da HBO criada por Tom Perrotta aborda com delicadeza as transformações internas e sexuais de uma mãe na faixa dos 40 anos.

Exímio observador das vidas comuns, o escritor Tom Perrotta faz questão de colocar em xeque todos os padrões, atrasos e preconceitos das relações urbanas. Em suas obras mais célebres adaptadas para o cinema e para a TV, ele expôs uma gama de comportamentos conflituosos a partir de uma disputa colegial (Eleição, dirigido por Alexander Payne em 1999), lançou luz sobre as hipocrisias matrimoniais e sobre os nossos tortuosos instintos sexuais (Pecados Íntimos, levado para as telas em 2006 por Todd Field) e ilustrou como a sociedade lida de diferentes maneiras com o luto, seja ele qual for (The Leftovers, série magistral da HBO exibida entre 2014 e 2017).

Perrotta não precisa de nada muito extraordinário. O que lhe interessa é o fascínio do detalhe, as complexidades do corriqueiro e a profundidade humana de quem vive ao nosso lado. Ainda assim, talvez nenhum de seus trabalhos adaptados até aqui tenha um plot tão trivial quanto o de Mrs. Fletcher, série cuja primeira temporada acaba de ser exibida pela HBO e que, mesmo transmitida aos domingos (um dia privilegiado na grade da emissora), passou quase despercebida entre público e crítica. Dessa vez, o escritor, atuando pela primeira vez como showrunner de um seriado, registra o momento em que Eve (Kathryn Hahn), uma mulher solteira e na faixa de seus 40 anos, lida com o fato do seu único filho ter saído de casa para finalmente cursar uma faculdade.

As coisas, entretanto, não são tão simples quanto parecem, pois Mrs. Fletcher deixa o conflito do adeus ao filho em segundo plano, centrando sua discussão em como essa mãe reconstrói sua vida e passa a fazer o que bem entender, inclusive do ponto de vista sexual. Na mesma proporção, os roteiristas desfiam uma outra descoberta: a do filho de Eve, antes um dos garotos mais desejados do colégio e que agora se vê deslocado em uma vida acadêmica que o obriga a firmar os pés no chão. Essa inversão de clichês (a mãe aproveitando a liberdade, enquanto o garoto administra uma imensa frustração) dá um tom cativante ao seriado e é impulsionada por uma delicadeza cultivada já atrás das câmeras, onde todos os episódios são dirigidos somente por mulheres.

Quando sai de casa, Brendan (Jackson White) se depara com uma vida frustrante na universidade. Enquanto isso, quem passa a se redescobrir através da liberdade é a sua própria mãe.

Na internet e na vida real, Eve renasce sexualmente com novos encontros, transas casuais e até mesmo interesse por experiências homossexuais, impulsionada por toda a independência que, ela sim, passou a cultivar com a ausência do filho. Em diferentes níveis, a personagem, que ainda é estimulada pela repentina paixão que um garoto de 19 anos passa a nutrir por ela, abraça a vibração de tudo isso, reconstruindo a sua ideia de mundo e de seu papel como mãe e mulher. Não há qualquer humor pastelão ou construções simplistas em Mrs. Fletcher, pois os roteiristas desenvolvem as transformações da protagonista sem alardes, focando nos detalhes corriqueiros que contribuem para a nova roupagem assumida por essa mãe em pleno redesenho de sua intimidade.

Já Brendan (Jackson White) chega à faculdade com a mesma pose de garoto desejado que sempre cultivou no colégio, até encontrar colegas com propósitos muito diferentes dos seus. A vida já não é mais uma festa, e essa é uma frustração que ele, agora sem o amparo da mãe, tem dificuldade em enfrentar. Pode parecer uma proposta genérica, mas novamente Mrs. Fletcher olha para uma situação específica de modo crítico: cheio de si e imaturo, Brendan é a perfeita representação do jovem branco, heterossexual e mimado que trata mulheres como objetos, sem muita noção do sentimento alheio, comportamento responsável por vários de seus ruídos de comunicação. Ao contrário do que sua saída de casa sugeria, quem precisa superar os desafios de uma transição como essa é ele próprio.

Entre Eve e Brendan, Mrs. Fletcher recheia a história com excelentes coadjuvantes. É calorosa, por exemplo, qualquer aparição de Jen Richards como Margo, a professora transexual do grupo de redação em que Eve se matricula. Isso porque o roteiro jamais se utiliza da transexualidade de Margo para definir os conflitos da personagem. Bem pelo contrário: é muito bonito ver como a série cria relações tão íntimas e esperançosas para uma figura que, conforme descobrimos entre um diálogo e outro, já se frustrou o suficiente na vida. A dinâmica que Eve estabelece com Julius (Owen Teague) também é outro ponto de destaque, especialmente porque a assumida paixão do garoto desperta na protagonista uma boa dose de sentimentos tão conflituosos quanto excitantes.

Mesmo assim não há brilho maior em Mrs. Fletcher do que o de Kathryn Hahn. Atriz de vasto talento, Hahn já foi coadjuvante de destaque em seriados como Transparent e fez um grande trabalho junto a Paul Giamatti no longa-metragem Mais Uma Chance, mas o seriado criado por Tom Perrotta é, até o momento, o projeto que lhe coloca no centro definitivo das atenções. Navegando em um oceano de emoções sem precisar de um monólogo ou de uma hipérbole qualquer para comunicar ao espectador todas as transições da personagem, ela prova novamente ser uma das atrizes mais interessantes de sua geração. E que gratificante é vê-la trabalhando tamanho repertório em uma série como Mrs. Fletcher, que, entre produções de larga escala produzidas pela HBO como Game of Thrones, Watchmen e His Dark Materials, silenciosamente surgiu como uma pérola a ser descoberta no catálogo da emissora.

“Years and Years”: minissérie imagina as ramificações de um futuro assombroso que está mais próximo do que gostaríamos de constatar

Uma coprodução entre a HBO e a BBC, a minissérie Years and Years parte da vida íntima de uma família britânica para falar sobre um futuro assustador que já está entre nós.

Uma das grandes produções de 2019 que o público ainda precisa descobrir, a minissérie Years and Years atravessa um período de 15 anos na vida da família Lyons, adotando como pano de fundo transformações políticas e sociais que, frente ao que estamos vivendo hoje, já não soam mais improváveis ou absurdas, como uma possível reeleição de Donald Trump ou a evolução assustadora de um trans-humanismo que transfere a nossa consciência para códigos armazenados em uma nuvem digital. Todavia, a grande sacada dessa coprodução entre a HBO e a BBC é a de colar as suas duas perspectivas — a intimidade dos Lyons e as notícias que movimentam o mundo — com uma proximidade quase perturbadora. Isso faz com que o espectador frequentemente se coloque no lugar dos personagens, evidenciando um tipo de empatia que costuma definir o nosso fascínio pelo audiovisual.

Não há jeito: quer você goste ou não de política, ela define as nossas vidas, e tudo o que acontece lá fora nos afeta diretamente. É essa a tônica de Years and Years, que, durante seis episódios, faz seus personagens sentirem as consequências de um mundo descontrolado e que aplaude políticos medíocres e despreparados, a exemplo da fictícia Vivienne Rook, vivida à perfeição por Emma Thomspon em um papel de aparições mínimas, mas emblemáticas para o desencadeamento da trama. Ela representa tudo aquilo que passamos a sentir na pele: a ascensão do ultraconservadorismo, a irresponsabilidade de discursos desinformados, o incentivo a ideias retrógradas e a priorização de pautas tolas em detrimento das reais necessidades do povo. Vivienne acha, entre outras opiniões estapafúrdias, que todo cidadão britânico precisa passar por um teste de QI para poder votar, uma vez que nem todos seriam devidamente qualificados para opinar sobre o destino de sua própria nação.

Inicialmente uma figurante que é apenas motivo de piada e incredulidade por dizer tantos absurdos em rede nacional, Vivienne logo ganha amplitude junto ao povo britânico com a bandeira de que, ao contrário dos outros políticos, ela dá voz (com direito a palavrões, inclusive) a tudo aquilo que uma parcela da população dita reprimida pelo politicamente correto deseja secretamente dizer. Sua sorrateira evolução passa a trazer incontáveis consequências para vida dos Lyons: paixões serão afetadas por uma avassaladora crise nas políticas migratórias e poupanças se desestabilizarão graças a um repentino colapso financeiro dos bancos, além de outros tantos acontecimentos imprevisíveis que não devem ser listados para não corrermos o risco de revelar algum spoiler.

Emma Thomspon e os pronunciamentos estapafúrdios de Vivienne Rook: mesmo com papel mínimo, atriz rouba a cena toda vez que aparece, influenciando a vida de todos os demais personagens.

Partindo do íntimo de uma família para ilustrar angústias compartilhadas de maneira universal, Years and Years domina o passar do tempo com uma maestria fascinante. São tão hipnóticas quanto angustiantes as caóticas sequências em que, através de telejornais e da própria percepção dos personagens, testemunhamos com absoluta clareza os momentos que, dentro da trama, serão responsáveis por alterar drasticamente os rumos do Reino Unido e da família Lyons. Cada salto temporal é inesperado (e pontuado com grandiosidade pela marcante trilha sonora de Murray Gold), acelerando a trama com novos recortes que garantem um ótimo fluxo de ritmo para o programa e um instigante clima de instabilidade para os personagens.

Aliás, tratando-se deles, a minissérie trabalha um punhado considerável de vidas com notável equilíbrio. Claro que temos figuras mais interessantes do que outras (a matriarca sem papas na língua interpretada por Anne Reid) e outros que são menos empáticos do que o roteiro supõe, a exemplo do Stephen Lyons de Rory Kinnear. Ainda assim, o programa aproxima o espectador de todos eles, munido de uma importante representatividade: gays, negros e pessoas com deficiência são, ao menos dentro da família, tratados em pé de igualdade, sem que sua dramaticidade se resuma a conflitos de raça ou sexualidade. Ao torná-los como próximos de quem os assiste, Years and Years acaba, inevitavelmente, comovendo com euforia ou pesar, dependendo dos vislumbres de esperança (que, sim, existem) ou desalentos.

Nos 15 anos contemplados pelo programa, o criador Russel T. Davies (Doctor Who, A Very English Scandal) também lança uma interessante (e necessária) provocação: a de fazer o público refletir sobre a sua parcela de responsabilidade perante tudo que aí está. A reflexão vem em um corriqueiro jantar de família, onde determinada figura levanta a ideia de que todos que sentam à mesa são coautores da loucura que acontece no mundo. Ora, ao nos acostumarmos com a tecnologia substituindo processos humanos ou a nos limitarmos a postar textões nas redes sociais ao invés de tomar alguma iniciativa de fato efetiva diante do que nos incomoda, passamos a ser coniventes com o caos. Convocando para a ação ao invés de simplesmente encenar um futuro problemático e sem perspectivas, Years and Years, portanto, ainda se torna grande por re(tomar) consciência do papel da arte como uma importante ferramenta de reflexão e transformação. Na companhia de programas como esse, talvez o futuro possa parecer menos aterrorizante.

“Transparent Musicale Finale”: sem Jeffrey Tambor, série da Amazon acerta ao se transformar em algo inteiramente novo para dizer adeus

Após a demissão de Jeffrey Tambor, Transparent não tenta remendar a ausência do ator: para seu desfecho, o seriado criado por Jill Solloway se transforma em algo inteiramente novo.

Primeiro grande sucesso produzido originalmente pela Amazon, Transparent discutiu, ao longo de quatro temporadas, uma série de temas hiper relevantes para a consciência humana e social de seus espectadores. Entretanto, seria fácil resumir o seriado criado por Jill Solloway a um drama familiar onde o protagonista resolve assumir para família que agora deixa de ser o pai como conheceram a vida inteira para se apresentar como a mulher que sempre sonhou ser. A revelação de Moira Pfefferman (Jeffrey Tambor), agora identificada como Maura, é o ponto de partida para uma sequência de conflitos e reflexões que, aí sim, encorpam a identidade do programa: entre crises familiares, conjugais e sexuais, cada membro desse clã passa a questionar a sua própria identidade e o seu verdadeiro lugar no mundo. Como na própria vida, os Pfeffermans trilham, durante toda a série, caminhos tortuosos e pedregosos para encontrar respostas muito íntimas. E o programa alcançou um notável nível de maturidade porque nunca tentou amenizar ou justificar até mesmo certos personagens que, submersos em imperfeições, muitas vezes se tornavam intragáveis.

Nas três primeiras temporadas de Transparent, Jill Solloway, que teve ampla participação nos bastidores do icônico seriado Six Feet Under como produtora e roteirista, criou uma verdadeira pérola, sempre impulsionada por um excelente elenco e pela inesquecível interpretação de Jeffrey Tambor como Maura, facilmente uma das melhores dessa década. Já no quarto ano, a série misteriosamente sai dos eixos com um conjunto de episódios desfocados, dispersos e que mais pareciam um filme pouco interessante dividido em dez episódios. A frustração maior ainda estava por vir: em fevereiro de 2018, Tambor foi demitido pela Amazon após uma acusação de assédio sexual feita por sua colega de elenco Trace Lysette. Ele negou — e segue negando até hoje —, mas a Amazon se manteve firme, cortando o ator desse projeto que chegou a lhe render dois Emmys e um Globo de Ouro de melhor ator em série de comédia (a classificação do gênero é altamente duvidosa, diga-se de passagem). 

Subitamente sem protagonista, Transparent se viu na mesma situação de House of Cards, que também perdeu Kevin Spacey durante a enxurrada de acusações de assédio sexual que se tornaram públicas graças ao movimento #MeToo. Enquanto House of Cards resolveu remendar a situação, realizando uma temporada inteiramente nova e entregando o protagonismo absoluto à atriz Robin Wright, Transparent adotou uma estratégia diferente: pensar o desfecho em forma de filme, sem prolongar uma história que, apesar dos pesares, não teria muitas chances de sobreviver com o mesmo vigor após tamanho desfalque. Mais do que isso, a série resolveu chutar o balde com a decisão de rodar o desfecho como um musical. Há um lindo momento de Judith Light cantando Hands in My Pocket ao final da terceira temporada, mas, dado o histórico geral do programa, tal transformação era realmente impossível de antecipar como uma tendência para os momentos derradeiros da trama.

Ainda que em novo formato, Transparent Musicale Finale segue levantando as bandeiras que sempre levantou e não perde de vista as lembranças deixadas por Maura Pfefferman (Jeffrey Tambor) nas temporadas anteriores.

Como acontece com basicamente todos os musicais, Transparent Musicale Finale, já disponível na plataforma de streaming da Amazon, não agradará gregos e troianos. É justa a indignação de quem se incomoda, afinal, como é possível um programa fazer tamanha inovação justamente em seu ato final? Jill Solloway enlouqueceu? Contudo, é possível enxergar a decisão sob outro prisma. Fazendo jus às suas reflexões sobre as mais diversas formas de transições (emocionais, físicas e de identidade), Transparent acaba, em um momento de divisão de águas, sendo ela própria sobre transformação. É importante constatar que o surgimento dessa natureza musical nos leva à ideia de que Solloway sabia o quanto seria complicado fazer um desfecho sem Jeffrey Tambor e seguindo a mesma batida dos anos anteriores. A ausência do ator seria sentida, e transformar Transparent em algo novo talvez fosse a saída perfeita para amenizar um problema irremediável.

Não se trata de fuga, mas sim de estratégia e, por que não, de posicionamento: mesmo que nem sempre assertivo ao adaptar situações cotidianas para o plano musical, Transparent Musicale Finale é um sopro de valentia em meio a seriados que, tão preocupados em agradar os espectadores, acabam se tornando reféns do próprio público, em sua maioria intolerante a conceitos que fujam das fórmulas e dos terrenos já conhecidos em uma atração. Ao mesmo tempo, o musical que encerra a jornada dos Pfeffermans não nega o legado da protagonista vivida por Jeffrey Tambor: o roteiro respira Maura por todos os lados, seja nas músicas, nos diálogos ou na própria atmosfera de luto que permeia toda a projeção. Transparent Musicale Finale assume a falta que a personagem faz e presta sua homenagem a tudo o que ela deixou em forma de reverberação emocional para os membros da família. É bonito, agridoce e com soluções dignas para contemplar a lembrança de Maura mesmo sem a presença de Jeffrey Tambor.

Não há um novo protagonista nesse desfecho, o que é justo com um elenco que assume tempos equivalentes em cena, como um coral. Duas atrizes, porém, têm brilho extra. Uma delas é Gaby Hoffman, que da vida à Ali (agora Ari), a filha mais abalada pela ausência de Maura justamente por ela própria, agora em plena transição de identidade de gênero, ser a pessoa que melhor compreendia os turbilhões íntimos de uma figura que agora não está mais presente para lhe propôr certas respostas e interrogações. A outra é Judith Light, que sempre teve um dos papeis mais difícil do programa: como a histriônica matriarca Shelly, a atriz transita entre as delicadezas de uma personagem cercada de situações complicadíssimas (abuso na infância, falta de conexão com os filhos, a verdade sobre o marido que assume uma identidade feminina) e o seu modus operandi agitado, hiperativo e não muito empático com as pessoas a sua volta. Pois agora nesse musical, Shelly passa por transformações internas importantes em relação a isso, todas capturadas com talento pela excelente atriz que é Judith Light.

Judith Light solta a voz mais uma vez: junto a Gaby Hoffman, atriz é um dos pontos altos desse desfecho que pode ser acusado de tudo, menos de preguiça ou comodismo.

Sobre a parte musical, o filme tanto acerta quanto deixa um certo gostinho de frustração. Há números que exaltam toda faceta empolgante e alegre do gênero (Joyocaust, o excelente número de encerramento), enquanto outros iluminam a natureza dialogada dessas produções, como Your Boundary is My Trigger, que, menos ritmado e sem necessariamente um refrão marcante, expõe os sentimentos e as frustrações de duas personagens a partir de uma discussão. O que corta uma parte do barato é o visível playback para disfarçar a falta de experiência de alguns atores com a cantoria. São dominantes as passagens em que o tom alcançado pelas músicas (e pelos ajustes de pós-produção delas) não condiz com as expressões em cena. Isso acontece com frequência no gênero, o que tira um pouco da veracidade que algumas sequências tentam imprimir. Transparent Musicale Finale ainda aposta em números imaginários em um único palco. Às vezes funciona, e em outras é mais do mesmo, como Rob Marshall já fez aos montes em títulos como Chicago e Nine. Como um representante do gênero, o filme é divertido e ocasionalmente tocante, ainda que nem sempre sofisticado em suas concepções.

Em uma jornada do luto ao renascimento, Transparent Musicale Finale não abre novas histórias para o filme de encerramento. Acontece o oposto: em sua despedida, a série busca amarrar todas as pontas soltas, e em 102 minutos consegue fazer isso com folga. Para a alegria de muitos, o musical, ao se aproximar do final, não resiste ao tom novelesco. Há finais felizes um tanto abruptos, assim como o resgate de personagens que poderiam muito bem ter permanecido intocados (a rabina Raquel, interpretada por Kathryn Hahn) e uma fila de outros tantos que, entre pequenas participações e figurações, ressurgem porque, claro, fizeram parte da série e não poderiam ficar de fora da festa (Cherry Jones, Bradley Whitford). Permeado por acertos e fragilidades, Transparent, enfim, despede-se como um programa inteiramente novo, e o público precisa entender isso para embarcar na versão musical. A atração não é mais a mesma, e é claro que não poderia ser. Não sem Jeffrey Tambor. Sendo assim, gostando ou não de uma cantoria, você pode acusar Transparent Musicale Finale de tudo, exceto de preguiça ou comodismo — e já não seria esse um excelente argumento de convencimento?

“Big Little Lies”, segunda temporada: como a dificuldade em aceitar o conceito de minissérie é capaz de arruinar um projeto

Após adaptar por completo o livro homônimo de Liane Moriarty, Big Little Lies avança na vida das Cinco de Monterey sem o refinamento narrativo e estrutural que o seu incomparável elenco merecia.

Quando o conceito de minissérie deixa de ser respeitado, chegamos a experiências vazias como a da segunda temporada de Big Little Lies. Por definição, minisséries deveriam durar um único ciclo, e a decisão de prolongá-las carrega um risco muito grande, pois significa que determinada emissora ou plataforma poderá esticar além da conta uma história inicialmente idealizada para ter início, meio e fim. No caso de Big Little Lies a situação é ainda mais complicada, uma vez que a primeira temporada adaptava por completo o livro homônimo de Liane Moriarty, material que deu origem à atração. São raríssimos os projetos que conseguem avançar com excelência em uma história já transposta por completo para as telas (The Leftovers, que durou três temporadas, foi impecável nesse sentido). Praticamente todos os casos, como a segunda temporada de The Handmaid’s Tale, citando outro programa recente, atestam que, mesmo com as melhores munições, tornar-se exceção à regra é missão quase impossível. Ainda assim, poucas frustrações são tão grandes como a trazida por Big Little Lies, que, neste segundo ano, ultrapassa o mero problema da expansão irregular de um universo para, em todos os aspectos, deixar um irremediável gosto amargo na boca.

A HBO nega, assim como as protagonistas/produtoras Nicole Kidman e Reese Witherspoon, mas não é necessário um olhar muito clínico para perceber que faz total sentido a notícia de que a diretora Andrea Arnold teria tido sua visão criativa mutilada na pós-produção para que Big Little Lies voltasse a se parecer com o que Jean-Marc Vallée fez na primeira temporada. Aliás, Arnold, que aqui não imprime marca alguma de seu estilo, dificilmente teria topado embarcar em um projeto que nada faz além de tentar emular os tiques da primeira temporada e do próprio Vallée. A incômoda insistência em duplicar o extenso número de flashbacks e em instalar algum tipo de suspense ou engenhosidade derruba Big Little Lies de uma maneira amadora, onde a montagem entrecorta tudo o que passa pela frente e deixa o conjunto (ou até mesmo um único episódio) sem muita sequência, unidade ou conexão.

Laura Dern como Renata Klein: a atriz segue arrasando, mas a personagem tem pouca conexão e proximidade com as demais mulheres do seriado.

Se nas telas e nos bastidores o seriado se transformou em uma colcha de retalhos, o mesmo se aplica ao centro dramático da trama (ou mais precisamente à falta dele). São sete episódios que jamais se justificam, uma vez que nada descobrimos de novo sobre essas mulheres cuja amizade deveria ter uma gama extra de nuances após os acontecimentos da última temporada. Ao invés disso, os roteiristas colocam uma em cada canto, sob a justificativa de que as Cinco de Monterey, movidas pelo trauma, entraram em uma crise coletiva. A partir daí, Big Little Lies imagina um conflito qualquer para as trajetórias individuais das personagens, de modo que todas se sustentem com seus próprios arcos. Ora, verdade seja dita: por mais que Laura Dern continue um arraso como Renata Klein, os dilemas envolvendo a falência dessa mulher que não cabe dentro de si própria sequer se conectam com o ano anterior, onde ela era vista como uma semi-antagonista nada receptiva com as demais personagens. Algo não se encaixa: Renata finalmente se integrou ao círculo de mães, porém, sua presença, agora avulsa em termos dramáticos, parece irrelevante para suas companheiras.

Entre as protagonistas, Celeste (Nicole Kidman) anda em círculos ao ainda nutrir sentimentos contraditórios pelo marido — e as sessões com a terapeuta, antes tão reverenciadas pela crítica e pelo público, agora beiram a bobagem tamanha a forma irresponsável como a psicóloga tenta ditar os rumos da vida de sua paciente. Já Madeline (Reese Witherspoon) se vê enroscada em um erro do passado capaz de ameaçar seu casamento e a própria paciência do espectador, que precisa testemunhar o desperdício de uma personagem tão interessante e o desenvolvimento de um conflito que se prolonga de maneira inexplicável. Há pouco para se falar de Jane (Shailene Woodley), agora reduzida a um romance que parece cilada e mal profundada em relação ao que sempre foi a sua maior força como mãe solteira: a relação de cumplicidade e delicadeza com o filho pequeno. No mais, a tentativa de dar nova amplitude a Bonnie (Zoë Kravitz) é pífia e duvidosa, já que ela traz estereótipos de misticismo e abusos familiares para o plot da única personagem negra da trama.

Vivida por Meryl Streep, Mary Louise é a nova personagem de Big Little Lies que nem mesmo os próprios roteiristas compreenderam.

Deixo para citar por último a personagem Mary Louise não por ela ser vivida por Meryl Streep, em uma de suas raras aparições em seriados, mas porque talvez esse seja o maior pecado de Big Little Lies. Promovida como um grande acontecimento tanto para o programa quando para o universo televisivo em si, a participação de Meryl está muito aquém do que poderia se esperar para alguém de seu calibre, e pior: a personagem sequer foi compreendida pelos próprios roteiristas. Relatos dão conta de que Meryl recebia orientações para interpretar Mary Louise, a mãe de Perry (Alexander Skarsgård), como uma espécie de vilã, definição imediatamente rejeitada pela atriz. E ela estava corretíssima: por mais que o seriado insista em explorar o lado passivo-agressivo da personagem e decida colocá-la em colisão com todas as outras mães da vizinhança, pouco foi abordado sobre a trágica e tortuosa negação que ela compartilha com Celeste em relação a Perry e sobre como isso é tanto o que une quanto o que separa essas duas mulheres. Se há bons momentos para a personagem, é por causa de Meryl e não por méritos da série, que equivocadamente induziu o público a detestar Mary Louise e não a entendê-la.

Para arrematar o ciclo e conferir uma tração de suspense/mistério como na temporada anterior, Big Little Lies, em seus capítulos derradeiros, recorreu ao drama de tribunal. Por mais que o artifício traga os melhores momentos de Nicole Kidman e Meryl Streep neste segundo ano, tudo é muito frágil, quando não implausível: a juíza que conduz o tribunal parece estar em seu primeiro dia de profissão, deixando que advogados, testemunhas e réus tomem conta da sessão, assim como determinadas reviravoltas, a exemplo de um vídeo descoberto de forma milagrosa e conveniente demais, reforçam a percepção de um roteiro escrito com displicência. Para quem gosta de novela, a conclusão da segunda temporada também traz todo tipo de resposta com reconciliações, explicações e até uma cerimônia de casamento. A única porta que fica aberta é, vejam só, a mais preocupante: aquela que, a partir da decisão de uma personagem na última cena, deixa a ligeira sensação de que Big Little Lies poderá ter uma terceira temporada. A HBO e os produtores não confirmam — e tampouco descartam oficialmente a possibilidade, para a completa angústia de quem sofreu com o total vazio de uma segunda temporada que definitivamente não precisava existir.

Com “Escape at Dannemora” e “The Act”, Patricia Arquette vive a era de ouro da sua carreira

Patricia Arquette nunca foi uma atriz particularmente impressionante, mas começou a ser vista de outra maneira após vencer o Oscar de melhor atriz coadjuvante por Boyhood com uma fala que viria a impulsionar os movimentos em busca de igualdade e justiça para as mulheres na indústria hollywoodiana. À época, em uma entrevista concedida ao The Guardian, ela falou justamente sobre como, em termos culturais, o “cinema” deixou de ser “cinema” para ser referenciado como “indústria”, levantando uma interessante provocação: a de que hoje, por exemplo, Vivien Leigh, uma atriz quase desconhecida antes de realizar …E o Vento Levou, jamais seria escalada para uma produção dessa ambição e magnitude. Para Arquette, quando o “cinema” deixa de ser “cinema” (arte) para ser chamado de “indústria” (negócio), ganha quem é a maior estrela ou a figura mais pop para determinado papel, e não a melhor atriz.

Curiosamente, a carreira de Patricia Arquette não deixa de estar associada a essa afirmação. Se pouco ela impressionou ao longo de uma carreira resumida a papeis pequenos e pouco memoráveis, muito se deve à falta de oportunidades para quem não é uma estrela. Ela, que atua desde os anos 1980, demorou a dar uma guinada na carreira mesmo após o Oscar por Boyhood. Aliás, foi somente cinco anos após a consagração pelo filme de Linklater que Patricia se viu envolvida em dois projetos consecutivos que, lançados entre novembro de 2018 e março 2019, vieram para marcar a era de ouro da sua carreira: Escape at DannemoraThe Act, onde ela finalmente tem os papeis fascinantes que toda atriz deveria receber com a devida dose de frequência para reforçar a tese de que uma escalação certeira é muito mais importante do que qualquer estrelato.

“ESCAPE AT DANNEMORA” (Showtime)

Na temporada de premiações em que todos esperavam que Amy Adams se consagrasse com a minissérie Sharp Objects, da HBO, Patricia Arquette chegou de mansinho e terminou faturando o Globo de Ouro, o Screen Actors Guild Awards e o Critics’ Choice Awards por essa minissérie dirigida pelo ator Ben Stiller para a Showtime. Baseada em uma história real, Escape at Dannemora dramatiza a fuga de dois dois detentos da Clinton Correctional Facility, em Nova Iorque, nos Estados Unidos, em 2015. A dupla de presidiários interpretada por Benicio Del Toro e Paul Dano escapa da instituição com a ajuda de Joyce “Tilly” Mitchell, uma das funcionárias que, logo se descobre, cultivava uma relação instável e sexual com os dois detentos. A verdadeira Joyce Mitchell não falava publicamente desde 2015, quando foi presa por ajudar a orquestrar a fuga de David Sweat e Richard Matt, mas quebrou o silêncio em 2018 para comentar a minissérie, alegando que jamais teve qualquer relação sexual com a dupla e que Ben Stiller não passa de um oportunista querendo faturar dinheiro com a sua dramática história.

Julgando pelo que vemos em Escape at Dannemora, Tilly Mitchell é uma mulher mentalmente instável que toma decisões motivada por surtos de carência e impulsos sexuais. Ao mergulhar na mente dessa figura feminina conturbadíssima, Arquette trabalha uma série de complexidades para, ao longo de sete episódios com duração de praticamente uma hora cada, criar uma personagem fascinante em sua instabilidade, sem permitir que ela vire uma caricatura. Sob um trabalho impressionante de maquiagem, ela se transforma em cena como nunca antes em sua carreira, e o faz com uma busca minuciosa pelas razões que, para além da questão psíquica, levaram essa mulher a infringir tanto a lei quanto a confiança de seus próprios colegas e familiares para libertar dois presidiários. A transformação da atriz foi tamanha que, antes do início das filmagens, ela encontrou Benicio Del Toro já devidamente maquiada e não foi reconhecida pelo colega, que pensou ter esbarrado em uma senhora maluca no set. Sua caracterização, contudo, jamais serve como muleta, e sim como uma ferramenta para potencializar os tantos conflitos internos que também se manifestam corporalmente na personagem.

Por outro lado, Escape at Dannemora é menos fascinante do que se poderia esperar, e a causa disso está no fato da minissérie criada pela dupla Brett Johnson e Michael Tolkin não ser majoritariamente sobre Tilly Mitchell, que, a certa altura, passa a ser uma coadjuvante na história centrada em David Sweat e Richard Matt, dois personagens de personalidades opostas e bem defendidas por Benicio Del Toro e Paul Dano. A trama dos dois não é tão interessante quanto a de Tilly, ainda que a minissérie acerte ao demorar a revelar as razões que fizeram com que David e Richard fossem parar atrás das grades (é uma decisão importante porque nos aproxima dos personagens e não os tacha logo de cara como bandidos indignos de empatia). Fora isso, toda a preparação para a fuga dos detentos é longa demais e o desenrolar é menos surpreendente do que a minissérie nos prepara a crer. Tanto essa sensação é verdadeira que os últimos episódios, centrados ora no passado dos personagens, ora no detalhado desfecho de cada um, só nos chamam de volta para a Tilly Mitchell de Patricia Arquette, que, cada vez que está em cena, resgata Escape at Dannemora de toda e qualquer redundância.

“THE ACT” (Hulu)

Interpretando outra figura da vida real, Patricia Arquette chega aos serviços de streaming com The Act, nova antologia criada pela Hulu, a mesma plataforma que lançou a multipremiada The Handmaid’s Tale. A cada temporada, um novo (e bizarro) crime verídico será encenado, e o primeiro ano não poderia ter dado o pontapé inicial com uma história mais macabra: durante quase duas décadas, Dee Dee Blanchard (Arquette) fez com que sua filha Gypsy acreditasse ser uma menina extremamente doente, dependendo da mãe para qualquer mínima tarefa do dia a dia. Gypsy, que tomava incontáveis remédios, andava com a ajuda de uma carreira de rodas e não sabia nem ao certo a sua data de nascimento, eventualmente descobriu toda a verdade e arquitetou o assassinato da própria mãe. Dee Dee, na verdade, sofria de um distúrbio chamado Síndrome de Münchausen por Procuração, que nada mais é do que uma forma de abuso infantil onde cuidadores provocam/imaginam de forma deliberada a existência de doenças em crianças como forma de chamarem atenção para si. Ou seja, The Act é duplamente perturbadora: primeiro pelo transtorno de uma mãe que faz sua filha passar desnecessariamente por pesadelos inimagináveis e segundo pelo fato da garota, uma jovem criada basicamente em cativeiro, ter orquestrado a morte de sua própria progenitora.

Ao longo de oito episódios, The Act não é o que podemos chamar de dramaturgia sofisticada e complexa. Há muita dramatização e ajuste dos fatos para que o programa consiga assumidamente chocar o espectador. Não há firulas quanto a essa opção, uma vez que todo capítulo termina com letreiros que reforçam o quanto a série manipula determinados fatos para alcançar efeitos dramáticos. Em paz com isso, o espectador tem tudo para se abismar com os absurdos que Dee Dee impunha à filha, que chegava a comer uma pizza batida em liquidificador por sonda e era privada de ingerir qualquer tipo de açúcar em função de uma diabetes que só existia na cabeça da mãe. The Act tem grandes méritos ao construir a percepção conflituosa que Gypsy nutria por quem lhe deu a vida: na medida em que a garota começa a perceber que, como o próprio título da série indica, sua vida não passava de uma encenação, a revolta não é suficientemente grande para que Gypsy despreze por completo a sua mãe, inclusive porque a única vida que ela conhece é aquela entre quatro paredes com essa mulher. Gradativamente, claro, a situação começa a mudar de cenário, e a desconstrução de um mundo antes visto como inocente e infantil pelos olhos de uma criança começa a ganhar contornos sombrios e urgentes.

Como a garotinha Gypsy, Joey King oscila entre sentimentos de ingenuidade e corrompimento, despertando reações mistas na plateia: afinal, como dimensionar os pensamentos e as atitudes de uma criança que nunca viu o mundo como ele realmente é e que foi criada em um ambiente incrivelmente doentio? Ao passo que The Act desperdiça a chance de versar com mais atenção sobre questões éticas e morais da sociedade (todas elas muitas vezes reduzidas à dinâmica das protagonistas com as vizinhas não muito interessantes vividas por Chloë Sevigny e AnnaSophia Robb), King e, claro, Patricia Arquette dão conta de tornar todo o contexto tão incômodo quanto assombroso. Há outras participações no elenco como as de Calum Worthy e Margo Martindale que impulsionam a estranheza desse conjunto de relações tortuosas e problemáticas, mas King e Arquette dominam a cena. A segunda, por sinal, impressiona um degrau acima visto a dobradinha com Escape at Dannemora: em ambas as séries, Arquette interpreta mulheres desequilibradas e envolvidas em situações extremas. Porém, Tilly Mitchell e Dee Dee Blanchard são, nas mãos da atriz, pessoas indiscutivelmente distintas em qualquer tipo de comparação, o que é o atestado definitivo da era de ouro de uma atriz antes subaproveitada e que agora, graças às chances certas oferecidas, coloca nas telas uma versatilidade digna de Meryl Streep.

“Here and Now”: a nova criação de Alan Ball que (mais uma vez) não corresponde às expectativas

Produzida pela HBO e criada por Alan Ball, Here and Now tenta recuperar a vertente de dramas familiares que marcou a era de ouro da emissora no início dos 2000.

Dois grandes retornos eram esperados com a chegada do seriado Here and Now. Primeiro o da própria HBO aos dramas familiares, uma vez que, nos últimos anos, a emissora migrou para o caminho oposto: Game of ThronesWestworld, citando duas de suas mais célebres e recentes produções, fisgaram incontáveis audiências preferindo as dimensões épicas e fazendo falar cada centavo de seus hiper-orçamentos. Já o segundo era o de Alan Ball, roteirista vencedor do Oscar por Beleza Americana e criador de A Sete Palmos, seriado irrepreensível que, ao lado de A Família SopranoThe Wire, tornou a HBO soberana no quesito qualidade durante a ascensão da chamada TV fechada norte-americana no início dos anos 2000. Em síntese, assim como a HBO estava carente de um drama menor e familiar sobre pessoas como eu e você, Alan Ball precisava de uma nova guinada após o progressivo fracasso de True Blood, série sobre vampiros que degringolou ano após ano ao longo de sete temporadas. O balde de água fria nessa contextualização toda é que, considerando a primeira temporada de Here and Now, esse comeback duplo ficou muito longe de ser conquistado. E, na verdade, nunca chegará perto: hoje mesmo, 25 de abril, a emissora anunciou o cancelamento do programa, dez dias após a transmissão da season (agora seriesfinale. Mas, afinal, o que deu errado para tanta desaprovação por parte do público e da crítica. Muitas coisas, mas vamos por partes. Primeiro, a César o que é de César.

Sempre atento ao poder das representações dramáticas, Alan Ball repete grande parte da inteligência vista em A Sete Palmos para compôr a base de dramas familiares. Lá atrás, no seriado que cimentou sua reputação na dramaturgia televisiva, ele era contundente ao explorar, entre outros aspectos, as múltiplas, complexas e profundas facetas de mulheres das mais diferentes gerações, lógica reproduzida em Here and Now, que forma o seu núcleo principal de forma igualitária entre personagens masculinos e femininos. Entretanto, dá um passo a mais, já que Audrey (Holly Hunter) e Greg (Tim Robbins), além da única filha biológica, adotaram outros três filhos, todos de países diferentes: Ramon (Daniel Zovatto), da Colômbia; Ashley (Jerrika Hinton), da Libéria; e Duc (Raymond Lee), do Vietnã. Há ainda outros personagens diversos que convivem com a família, a exemplo de Farid (Peter Macdissi), terapeuta muçulmano que lida com um conturbado passado familiar. Por experiência e talento, Ball não permite que Here and Now se torne uma mera panfletagem da diversidade que sempre esteve presente no mundo, mas que só agora parece ser devidamente reconhecida pelo audiovisual: apesar das questões sexuais e multirraciais serem debatidas pelo roteiro, o ponto de equilíbrio está em colocar todos os personagens em pé de igualdade, sem fazer com que seus conflitos sejam definidos exclusivamente pela origem ou pela cor da pele de cada um. É, em suma, um retrato honesto e natural da pluralidade da vida.

Exata ao não tornar questões multirraciais e de gênero o centro de sua dramaturgia, Here and Now, no entanto, descamba para a previsibilidade e para a dependência de um mistério ineficiente.

Here and Now sustenta com folga a gama de personagens apresentados, onde a maioria atravessa arcos dramáticos interessantes, de conflitos universais e que levantam questões cada vez mais em voga, com destaque para Navid (Marwan Salama), jovem de gênero fluido que, fora já dar a cara a tapa para a sociedade como um todo, vive assombrado pela rejeição do seu próprio círculo religioso. Tudo sustenta um interesse admirável até mais ou menos a metade da temporada, quando a série passa a se entregar a todo tipo de previsibilidade: infidelidades há longo tempo sugeridas acontecem, faíscas de romances pegam fogo, afirmações até então inquestionáveis se contradizem e até mesmo o questionamento das origens de um filho adotivo passam a ser o tema principal de determinados conflitos. O lugar-comum é frustrante porque Alan Ball se reencontra aqui com diversos diretores e roteiristas responsáveis por episódios inesquecíveis de A Sete Palmos, entre eles Lisa Cholodenko, Nancy Oliver e Jeremy Podeswa. Onde foi parar aquela tão bem-vinda transgressão já trabalhada por eles? Ou simplesmente a capacidade de extrair força e consistência de momentos previsíveis e cotidianos? O senso de dramaticidade parece apurado durante boa parte de Here and Now, mas se esvai quando a temporada precisa tomar rumos mais decisivos frente ao inevitável desfecho da temporada.

Mesmo assim, talvez não exista tropeço mais imperdoável nessa primeira temporada do que a insistência em colocar um suspense psíquico no meio de tantos dramas pessoais. Toda vez que faz com que o filho Ramon tenha visões inesperadas e misteriosas, a série se embola, pois o clima misterioso e sobrenatural falha ao cativar como suspense e como drama. Resultado: ficamos indiferentes quanto aos problemas do personagem e também deixamos de ter paciência com o terapeuta Farid, que ocupa tempo demais em cena ao fazer parte do universo misterioso de Ramon: vivido de forma digna por Peter Macdissi, Farid é uma das figuras mais entediantes já criadas por Alan Ball, e tanta novela em torno de seu passado termina por estagnar a série com repetições e revelações que, no frigir dos ovos, não justificam a infinidade de preliminares. Defendida por um elenco coeso, competente e que consegue driblar papeis que muitas vezes não fazem jus ao talento de cada ator (Holly Hunter, vencedora do Oscar de melhor atriz por O Piano, é um caso pontual), Here and Now tenta encontrar seu valor nos lugares errados, o que é, no mínimo, um equívoco amador para um profissional do calibre de Alan Ball: nessa altura do campeonato, era obrigatório que ele soubesse que um delírio aqui e outro ali até faz bem (fazia em A Sete Palmos), mas que a verdadeira potência dramática de seu texto está nas coisas (não tão) simples da vida — e a milhas de distância de depender de um mistério para funcionar ou causar qualquer comoção.

Para fazer justiça e sentido: “American Crime Story: Os Crimes de Andrew Cunanan”

Radiografando o assassino e não o homicídio em si, The Assassination of Gianni Versace tem sua maior força no desempenho de Darren Criss.

Como o segundo capítulo de uma antologia que tem como proposta dramatizar notórios crimes verídicos, The Assassination of Gianni Versace: American Crime Story tem muito o que se explicar. À parte o fato de que o programa precisava, de alguma forma, manter a altíssima média de qualidade alcançada por sua temporada anterior (The People v. O.J. Simpson), há algo errado no próprio conceito seguido aqui, pois o segundo ano é sobre tudo, menos sobre a morte do estilista italiano Gianni Versace, assassinado em julho de 1997 na porta de sua própria casa em Miami, nos Estados Unidos. Tampouco é sobre os desdobramentos desse crime junto às autoridades e à sociedade, algo ensaiado com timidez nos episódios iniciais, quando se levanta a tese de que, por ser homossexual, Versace teria toda a sua trajetória de vida distorcida, explorada e destruída pela mídia. O pós-crime era a força-motriz de The People v. O.J. Simpson, mas, dessa vez, o seriado optou por outro caminho, o que é desleal tanto com o seu título quanto com a própria estrutura do roteiro.

Primeiro capítulo de outra antologia criada por Ryan Murphy, Feud: Bette and Joan também subvertia conceitos e expectativas ao dar espaço assumidamente maior para Joan Crawford (Jessica Lange), decisão que, com o passar dos episódios, revelou-se sábia em termos dramáticos, inclusive porque a série jamais perdia de vista as amplitudes e complexidades de Bette Davis (Susan Sarandon), que também dava nome ao programa. A mesma subversão poderia agir a favor de The Assassination of Gianni Versace caso os roteiristas tivessem tomado certa perspectiva: não é preciso ser nenhum perito para constatar que o personagem Gianni Versace (Edgar Ramírez) é mera desculpa para que a temporada faça um estudo milimétrico sobre a personalidade de Andrew Cunanan (Darren Criss), jovem que o assassinou em plena luz do dia a céu aberto. O reenfoque dramático é interessantíssimo, mas a proposta da antologia perde a razão quando Versace vira figurante, com aparições que, no geral, são apressadas e pouco contribuem para a discussão como um todo.

Edgar Ramírez como Gianni Versace e Penélope Cruz como Donatella: ambos são coadjuvantes na história assumidamente centrada em Andrew Cunanan (Darren Criss).

Estragando a festa de quem já esperava uma ambiciosa análise da vida artística do estilista ou de quem apostava em um Emmy de melhor atriz para Penélope Cruz (carregada no sotaque e na caracterização de Donatella Versace, beirando o overacting), a nova temporada de American Crime Story passa a ser, portanto, sobre a vida desse garoto problemático e criminoso que, a cada episódio, tem uma nova faceta de seu passado explorada (a temporada é contada de forma rebobinada, chegando até mesmo a sua infância). Filho de uma mãe submissa e de um pai que acumulou grande poder aquisitivo para depois ir à falência com sigilosos trambiques, Andrew era o clássico caso de jovem que acreditava ser destinado a uma vida grandiosa, seja através do dinheiro ou da fama. No entanto, aos trancos e barrancos, foi percebendo que a vida era capaz de pregar as mais inesperadas armadilhas, algo com que ele simplesmente não sabia lidar.

Toda e qualquer frustração desperta no personagem uma sociopatia perceptível na mais corriqueira de suas conversas, onde, entre a arrogância, a insanidade e a falsa humildade, proferia todo tipo de mentira com a mais absoluta naturalidade. Tudo para que as pessoas a sua volta acreditassem que ele estava envolvido em projetos e relações invejáveis. Fama, glória e dinheiro só existiam na cabeça de Andrew, mas sua missão de vida era fazer com que todos comprassem a ideia de que também se tratava de vida real. Para chegar perto do que só existia na imaginação, Andrew se envolvia com homens mais velhos e milionários, homossexuais enrustidos em sua maioria, tirando deles toda a mordomia e o luxo que ele próprio nunca chegou perto de conquistar sozinho. Quando contrariado ou frustrado, seja pela rejeição de um amigo ou de um amante, chegava ao seu instinto mais primitivo e cruel: seduzia e aterrorizava para, finalmente, assassinar.

Quando explora o íntimo de Andrew Cunanan, The Assassination of Gianni Versace ganha vida própria, mostrando que a morte do famoso estilista italiano tem pouca relevância nas discussões da temporada.

Fruto de uma sociedade negligente (todos os personagens percebem a gravidade e a iminência trágica dos problemas de Andrew, mas jamais tomam qualquer tipo de iniciativa em relação a isso), ele chega a Versace no auge de seu transtorno, tirando a vida desse homem que, em termos filosóficos, era a representação de tudo aquilo que um dia ele quis ser (talentoso, famoso, milionário e bem resolvido intimamente com a sua própria sexualidade). É essa trajetória até Versace que guia a segunda temporada de American Crime Story, que troca o assassinado pelo assassino, elucidando não o crime, mas as razões e os distúrbios que levam um ser humano a cometê-lo. No papel de sua carreira até aqui, Darren Criss, cujo trabalho mais relevante até então havia sido em Glee, seriado também da autoria de Ryan Murphy, está irretocável como Andrew Cunanan, sendo perfeitamente convincente e minucioso nas diversas facetas de um jovem que não conseguia perceber ou assumir suas próprias tragédias.

Sem falar de Versace, a segunda temporada de American Crime Story trai o seu próprio título e, mais do que tudo, o próprio espectador com um roteiro que é de certa forma incoerente, considerando todos os nove episódios. Afinal, por que seduzir tanto o público com a vida pessoal e profissional de Versace nos dois primeiros capítulos para, depois, simplesmente jogá-lo para escanteio? Não seria mais justo ser desde sempre claro quanto às intenções de desenvolver a vida de Andrew Cunanan? Em conteúdo, é uma temporada que acerta ao fazer um panorama da vida gay nos anos 1990 e ao versar sobre os distúrbios de um personagem problemático e assassino. Já em estrutura, a situação é tortuosa, especialmente se considerarmos o capítulo final, onde a série, repleta de pressa, resolve correr atrás do tempo perdido para discutir tudo aquilo que deixou de lado ao longo de uma temporada (a repercussão do assassinato, os conflitos internos entre o namorado e a irmã de Versace, o futuro da grife, a invisibilidade dos gays em situações públicas, etc).

Exemplo máximo de que o conceito da série se dilui aqui é A Random Killing, episódio que remonta o assassinato do milionário Lee Miglin pelas mãos de Andrew. Casado, mas secretamente envolvido com garotos de programa mais jovens, Miglin era um bom marido para sua esposa, Marilyn (Judith Light, maravilhosa), que começa a refletir sobre a vida e o íntimo do companheiro ao descobrir que seu corpo foi encontrado ao redor de dezenas de pornografias gays. É o conceito que funcionou tão bem na temporada anterior da American Crime Story e que é representado magistralmente nesse episódio: nos crimes de grandes proporções como o de Gianni Versace, tão importante quanto o que faz determinadas situações chegarem a algum ponto mortal é como assassinatos têm poderes altamente reveladores e reverberam tanto entre quatro paredes quando publicamente. Sendo assim, mesmo que defendida com esmero por Darren Criss e pela ideia de radiografar o íntimo de um assassino (com suas liberdades dramáticas, claro), The Assassination of Gianni Versace poderia muito bem ter alcançado a grandiosidade de The People v. O.J. Simpson caso expandisse para toda a temporada a lógica desse episódio específico. E caso também, claro, alterasse o seu título. Quem sabe American Crime Story: Os Crimes de Andrew Cunanan? Faria justiça e sentido.

As cinco melhores séries de 2017

Com a trajetória ascendente das plataformas on demand, tem se tornado cada vez mais árdua a tarefa de escolher quais séries assistir ao longo do ano, pois há programas para todos os gostos, em todos os formatos com todos os tipos de atrativos. Claro que, em contramão, isso se assemelha aos tempos cada vez mais distantes em que perdíamos horas buscando algo realmente interessante para assistir nas centenas de canais disponibilizados pela TV a cabo, mas aí é questão de novamente aplicar os filtros corretos: afinal, o que não falta atualmente é opção boa entre as narrativas seriadas. E, para quem quiser tirar o atraso de 2017, resolvi selecionar as minhas cinco séries favoritas do ano, contemplando, em uma única lista, os dramas, as comédias e até as minisséries, formato que acertadamente se populariza com novo fôlego e prestígio em produções de altíssimo nível.

5º – OZARK (Netflix)

“Dinheiro é, em sua essência, a medida das nossas escolhas”.

A pior coisa que você pode fazer para Ozark é tentar igualá-la ao ícone Breaking Bad. Sim, os dois programas são sobre dois pais de família envolvidos em negócios escusos e que colocam vidas em perigo, mas, conforme comentei no texto sobre a primeira temporada, toda e qualquer semelhança termina por aí. Ozark tem personalidade própria, optando por renegar arcos clássicos de histórias dessa natureza, como a própria incursão gradativa do protagonista no mundo da ilegalidade, onde descobre possibilidades e aptidões até então camufladas. Quando Ozark começa, tudo isso já aconteceu. Desviando-se ainda da necessidade de apresentar algum tipo de catarse, o que é sempre muito cobrado pelo público, o seriado caminha com uma batida mais comedida, mas sem ser morno por conta disso. E o que dizer da coesão do elenco? Fora Jason Bateman e Laura Linney, que são ótimos protagonistas, existe Julia Garner, ótima como a jovem Ruth, um pequeno furacão que jamais passa despercebido quando está em cena.

4º – THE HANDMAID’S TALE (Hulu)

“Agora eu acordei para o mundo. Antes, estava adormecida. E foi assim que nós deixamos tudo acontecer. Nós não acordamos quando eles dilaceraram o Congresso. Nós não acordamos quando eles culparam os terroristas e suspenderam a Constituição. Nada muda de uma hora para outra. Em uma banheira que se aquece gradativamente, você seria cozinhada viva antes que pudesse perceber”.

Seria necessário um tipo muito especial de incompetência para fazer um programa como The Handmaid’s Tale dar errado, mas a verdade é que poucos conseguiriam conferir a essa adaptação do livro de Margaret Atwood tanta potência técnica e dramática. Assustadoramente atual, a série produzida pela Hulu – e que volta para uma segunda temporada em abril de 2018 – chega a causar extremo desconforto pela veracidade com que encena de forma ficcional as atrocidades cometidas contra as mulheres. Atrocidades que, na verdade, são mais comuns na vida real do que gostaríamos de constatar. Elisabeth Moss, em mais um desempenho poderoso, ganhou o seu tão aguardado Emmy de melhor atriz pelo trabalho realizado aqui, acompanhada da também premiada e sempre extraordinária Ann Dowd, impecável como a cruel tia Lydia, que intensifica a ditadura machista dessa distopia capturada com uma linguagem técnica lindíssima e inteligente, mas ao mesmo tempo profundamente aterradora em sua perspectiva dramática. 

3º – FEUD: BETTE AND JOAN (FX)

“Tudo dá certo no final, Joanie. Sabe, nós do mundo do entretenimento… Toda a raiva que sentimos por não sermos amados – que é o primeiro motivo pelo qual entramos nesse negócio – todas as lágrimas, os gritos, o ódio… Isso tudo desaparece. E o público, o que eles lembram, na maior parte do tempo, é das coisas boas, do trabalho e de toda a alegria que nós trouxemos a eles. Acredite. Todo o sofrimento terá valido a pena”.

Prato farto para os cinéfilos – como não se deliciar com as inúmeras referências registradas a cada episódio? -, Feud: Bette and Joan, por outro lado, prefere não se limitar a um relato estritamente de nicho. O que esse primeiro capítulo da antologia criada pelo prolífero Ryan Murphy quer é trazer uma perspectiva humana e ampla ao universo feminino a partir do envelhecimento, com foco na indústria Hollywoodiana, onde as mulheres historicamente precisam batalhar dia a dia para conquistar o mínimo de respeito e reconhecimento. Jessica Lange e Susan Sarandon são um arraso como Joan Crawford e Bette Davis, fortalecendo um contraste difícil de antever: se a história começa como um relato divertido sobre o embate entre duas estrelas, logo Feud: Bette and Joan questiona o porquê de tanto fascínio com a disputa para, ao final, entregar o desfecho mais desolador do ano. Não é sempre que equilíbrio entre reflexão e entretenimento se mostram tão afiados em minisséries.

2º – THE YOUNG POPE (Sky/HBO/Canal+)

“Renunciei o homem em mim porque não quero sofrer ou ter que suportar o coração que o amor quebra. Seria maravilhoso amá-la do jeito que você quer que eu a ame, mas eu não sou um homem. Sou um covarde. Assim como todos os padres”.

É bem provável que você não tenha ouvido falar em The Young Pope, uma produção de alto requinte dirigida pelo prestigiado cineasta italiano Paolo Sorrentino, mas faça a sua parte e ajude a compensar o descaso da mídia e dos prêmios ao dar uma chance para essa primeira temporada de oito episódios (um segundo ano já foi confirmado, mas talvez a história e os personagens sejam outros). Nela, Jude Law tem, com folga, o melhor desempenho de sua carreira como o fictício Pio XIII, o primeiro papa norte-americano e o pontífice mais jovem da história do Vaticano. Ele é um sujeito complexo, evocando, logo de cara, a ideia que juventude pode não trazer qualquer garantia de inovação, nem mesmo na igreja católica. Com profundidade e acidez, The Young Pope contempla as mais diversas facetas da fé e do catolicismo, inclusive e especialmente as suas incongruências. É programa de consistência invejável e encenada por um elenco de primeiríssima qualidade, além de não se assemelhar a nada que você já tenha visto na TV (ou nas plataformas on demand).

1º – THE LEFTOVERS (HBO)

“Ela já desconfiava, mas agora sabia sabia que ele era um covarde. Um covarde com uniforme de homem valente. Valente para cruzar dois oceanos e um continente para achá-la e lutar contra inúmeros inimigos, mas, ao final, descobrir que ficou com muito medo. Medo de se deitar ao lado dela, de ser consolado enquanto chorava, de mostrar o quão pequeno ele era, de compreender tudo isso quando ela tocasse o seu rosto e sussurrasse palavras em seu ouvido. Era um pesadelo, e só o que ele sabia fazer era fugir. Respirou fundo, sentiu o gosto do sal na língua e fechou os olhos, enquanto o barco Misterioso acelerava em direção ao horizonte. Ele estava sozinho. E tudo estava bem”

Seguindo a linha do descaso, como não falar sobre The Leftovers, uma série reconhecida apenas pela crítica ao longo de suas três brilhantes temporadas? Mais do que o programa do ano, o drama criado pela dupla Damon Lindelof e Tom Perrotta para a HBO, com base no livro homônimo de Perrotta, é inquestionavelmente um dos mais marcantes desse início de século. Partindo do desaparecimento inexplicável de 3% da população mundial, The Leftovers registra o que acontece com as pessoas que precisam lidar com a imensa interrogação que é sofrer uma perda sem saber a sua real razão. É com esse assombro que os personagens tentam (ou não) continuar suas vidas: enquanto uns apenas esperam com convicção o retorno dos que partiram, outros buscam incansavelmente – através da ciência, da fé ou do quer que seja – uma forma de reencontrá-los.

O seriado tem drama, suspense, bastante imaginação, interpretações superlativas, humor e ruptura com qualquer convencionalidade ou com o que as narrativas seriadas já pré-estabelecem como parâmetro aos espectadores. Em sua terceira e última temporada, The Leftovers seguiu arrebatando na técnica (boa parte das imagens mais lindas desse ano você encontra aqui) e, mais importante de tudo, manteve-se atenta à precisão de sua história: aqui, o ciclo da série se encerra talvez não dando as respostas que tanto procurávamos no início da série, mas sim aquelas que descobrimos, ao longo da trama, serem as mais importantes e necessárias sob a perspectiva dramática. O tempo deve fazer justiça ao universo poderoso que The Leftovers apresentou durante três anos breves, mas  indiscutivelmente inesquecíveis.

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