Cinema e Argumento

“Transparent Musicale Finale”: sem Jeffrey Tambor, série da Amazon acerta ao se transformar em algo inteiramente novo para dizer adeus

Após a demissão de Jeffrey Tambor, Transparent não tenta remendar a ausência do ator: para seu desfecho, o seriado criado por Jill Solloway se transforma em algo inteiramente novo.

Primeiro grande sucesso produzido originalmente pela Amazon, Transparent discutiu, ao longo de quatro temporadas, uma série de temas hiper relevantes para a consciência humana e social de seus espectadores. Entretanto, seria fácil resumir o seriado criado por Jill Solloway a um drama familiar onde o protagonista resolve assumir para família que agora deixa de ser o pai como conheceram a vida inteira para se apresentar como a mulher que sempre sonhou ser. A revelação de Moira Pfefferman (Jeffrey Tambor), agora identificada como Maura, é o ponto de partida para uma sequência de conflitos e reflexões que, aí sim, encorpam a identidade do programa: entre crises familiares, conjugais e sexuais, cada membro desse clã passa a questionar a sua própria identidade e o seu verdadeiro lugar no mundo. Como na própria vida, os Pfeffermans trilham, durante toda a série, caminhos tortuosos e pedregosos para encontrar respostas muito íntimas. E o programa alcançou um notável nível de maturidade porque nunca tentou amenizar ou justificar até mesmo certos personagens que, submersos em imperfeições, muitas vezes se tornavam quase intragáveis.

Nas três primeiras temporadas de Transparent, Jill Solloway, que teve ampla participação nos bastidores do icônico seriado Six Feet Under como produtora e roteirista, criou uma verdadeira pérola, sempre impulsionada por um excelente elenco e pela inesquecível interpretação de Jeffrey Tambor como Maura, facilmente uma das melhores dessa década. Já no quarto ano, a série misteriosamente sai dos eixos com um conjunto de episódios desfocados, dispersos e que mais pareciam um filme pouco interessante dividido em dez episódios. A frustração maior ainda estava por vir: em fevereiro de 2018, Tambor foi demitido pela Amazon após uma acusação de assédio sexual durante as filmagens do programa feita por sua colega de elenco Trace Lysette. Tambor negou — e segue negando até hoje —, mas a Amazon se manteve firme, cortando o ator desse projeto que chegou a lhe render dois Emmys e um Globo de Ouro de melhor ator em série de comédia (a classificação do gênero é altamente duvidosa, diga-se de passagem). 

Subitamente sem protagonista, Transparent se viu na mesma situação de House of Cards, que também perdeu Kevin Spacey durante a enxurrada de acusações de assédio sexual que se tornaram públicas graças ao movimento #MeToo. Enquanto House of Cards resolveu remendar a situação, realizando uma temporada inteiramente nova e entregando o protagonismo absoluto à atriz Robin Wright, Transparent adotou uma estratégia diferente: pensar o desfecho em forma de filme, sem prolongar uma história que, apesar dos pesares, não teria muitas chances de sobreviver com o mesmo vigor após tamanho desfalque. Mais do que isso, a série resolveu chutar o balde com a decisão de rodar o desfecho como um musical. Há um lindo momento de Judith Light cantando Hands in My Pocket ao final da terceira temporada, mas, dado o histórico geral do programa, tal transformação era realmente impossível de antecipar como uma tendência para os momentos derradeiros da trama.

Ainda que em novo formato, Transparent Musicale Finale segue levantando as bandeiras que sempre levantou e não perde de vista as lembranças deixadas por Maura Pfefferman (Jeffrey Tambor) nas temporadas anteriores.

Como acontece com basicamente todos os musicais, Transparent Musicale Finale, já disponível na plataforma de streaming da Amazon, não agradará gregos e troianos por ser uma obra cantada. É justa a indignação de quem se incomoda, afinal, como é possível um programa fazer tamanha inovação justamente em seu ato final? Jill Solloway enlouqueceu? Contudo, é possível enxergar a decisão sob outro prisma. Fazendo jus às suas reflexões sobre as mais diversas formas de transições (emocionais, físicas e de identidade), Transparent acaba, em um momento de divisão de águas, sendo ela própria sobre transformação. É importante constatar que o surgimento dessa natureza musical nos leva à ideia de que Solloway sabia o quanto seria complicado fazer um desfecho sem Jeffrey Tambor e seguindo a mesma batida dos anos anteriores. A ausência do ator seria sentida, e transformar Transparent em algo novo talvez fosse a saída perfeita para amenizar um problema irremediável.

Não se trata de fuga, mas sim de estratégia e, por que não, de posicionamento: mesmo que nem sempre assertivo ao adaptar situações cotidianas para o plano musical, Transparent Musicale Finale é um sopro de valentia em meio a seriados que, tão preocupados em agradar os espectadores, acabam se tornando reféns do próprio público, em sua maioria intolerante a conceitos que fujam das fórmulas e dos terrenos já conhecidos em uma atração. Ao mesmo tempo, o musical que encerra a jornada dos Pfeffermans não nega o legado da protagonista vivida por Jeffrey Tambor: o roteiro respira Maura por todos os lados, seja nas músicas, nos diálogos ou na própria atmosfera de luto que permeia toda a projeção. Transparent Musicale Finale assume a falta que a personagem faz e presta sua homenagem a tudo o que ela deixou em forma de reverberação emocional para os membros da família. É bonito, agridoce e com soluções dignas para contemplar a lembrança de Maura mesmo sem a presença de Jeffrey Tambor.

Não há um novo protagonista nesse desfecho, o que é justo com um elenco que assume tempos equivalentes em cena, como um coral. Duas atrizes, porém, têm brilho extra. Uma delas é Gaby Hoffman, que da vida à Ali (agora Ari), a filha mais abalada pela ausência de Maura justamente por ela própria, agora em plena transição de identidade de gênero, ser a pessoa que melhor compreendia os turbilhões íntimos de uma figura que agora não está mais presente para lhe propôr certas respostas e interrogações. A outra é Judith Light, que sempre teve um dos papeis mais difícil do programa: como a histriônica matriarca Shelly, a atriz transita entre as delicadezas de uma personagem cercada de situações complicadíssimas (abuso na infância, falta de conexão com os filhos, a verdade sobre o marido que assume uma identidade feminina) e o seu modus operandi agitado, hiperativo e não muito empático com as pessoas a sua volta. Pois agora nesse musical, Shelly passa por transformações internas importantes em relação a isso, todas capturadas com talento pela excelente atriz que é Judith Light.

Judith Light solta a voz mais uma vez: junto a Gaby Hoffman, atriz é um dos pontos altos desse desfecho que pode ser acusado de tudo, menos de preguiça ou comodismo.

Sobre a parte musical, o filme tanto acerta quanto deixa um certo gostinho de frustração. Há números que exaltam toda faceta empolgante e alegre do gênero (Joyocaust, o excelente número de encerramento), enquanto outros iluminam a natureza dialogada dessas produções, como Your Boundary is My Trigger, que, menos ritmado e sem necessariamente um refrão marcante, expõe os sentimentos e as frustrações de duas personagens a partir de uma discussão. O que corta uma parte do barato é o visível playback para disfarçar a falta de experiência de alguns atores com a cantoria. São dominantes as passagens em que o tom alcançado pelas músicas (e pelos ajustes de pós-produção delas) não condiz com as expressões em cena. Isso acontece com frequência no gênero, o que tira um pouco da veracidade que algumas sequências tentam imprimir. Transparent Musicale Finale ainda aposta em números imaginários em um único palco. Às vezes funciona, e em outras é mais do mesmo, como Rob Marshall já fez aos montes em títulos como Chicago e Nine. Como um representante do gênero, o filme é divertido e ocasionalmente tocante, ainda que nem sempre sofisticado em suas concepções.

Em uma jornada do luto ao renascimento, Transparent Musicale Finale não abre novas histórias para o filme de encerramento. Acontece o oposto: em sua despedida, a série busca amarrar todas as pontas soltas, e em 102 minutos consegue fazer isso com folga. Para a alegria de muitos, o musical, ao se aproximar do final, não resiste ao tom novelesco. Há finais felizes um tanto abruptos, assim como o resgate de personagens que poderiam muito bem ter permanecido intocados (a rabina Raquel, interpretada por Kathryn Hahn) e uma fila de outros tantos que, entre pequenas participações e figurações, ressurgem porque, claro, fizeram parte da série e não poderiam ficar de fora da festa (Cherry Jones, Bradley Whitford). Permeado por acertos e fragilidades, Transparent, enfim, despede-se como um programa inteiramente novo, e o público precisa entender isso para embarcar na versão musical. A atração não é mais a mesma, e é claro que não poderia ser. Não sem Jeffrey Tambor. Sendo assim, gostando ou não de uma cantoria, você pode acusar Transparent Musicale Finale de tudo, exceto de preguiça ou comodismo — e já não seria esse um excelente argumento de convencimento?

“Big Little Lies”, segunda temporada: como a dificuldade em aceitar o conceito de minissérie é capaz de arruinar um projeto

Após adaptar por completo o livro homônimo de Liane Moriarty, Big Little Lies avança na vida das Cinco de Monterey sem o refinamento narrativo e estrutural que o seu incomparável elenco merecia.

Quando o conceito de minissérie deixa de ser respeitado, chegamos a experiências vazias como a da segunda temporada de Big Little Lies. Por definição, minisséries deveriam durar um único ciclo, e a decisão de prolongá-las carrega um risco muito grande, pois significa que determinada emissora ou plataforma poderá esticar além da conta uma história inicialmente idealizada para ter início, meio e fim. No caso de Big Little Lies a situação é ainda mais complicada, uma vez que a primeira temporada da atração adaptava por completo o livro homônimo de Liane Moriarty, material que deu origem à atração. São raríssimos os projetos que conseguem avançar com excelência em uma história já transposta por completo para as telas (The Leftovers, que durou três temporadas, foi impecável nesse sentido). Praticamente todos os casos, como a segunda temporada de The Handmaid’s Tale, citando outro programa recente, atestam que, mesmo com as melhores munições, tornar-se exceção à regra é missão quase impossível. Ainda assim, poucas frustrações são tão grandes como a trazida por Big Little Lies, que, neste segundo ano, ultrapassa o mero problema da expansão irregular de um universo para, em todos os aspectos, deixar um irremediável gosto amargo na boca.

A HBO nega, assim como as protagonistas/produtoras Nicole Kidman e Reese Witherspoon, mas não é necessário um olhar muito clínico para perceber que faz total sentido a notícia de que a diretora Andrea Arnold teria tido sua visão criativa mutilada na pós-produção para que Big Little Lies voltasse a se parecer com o que Jean-Marc Vallée fez na primeira temporada. Aliás, Arnold, que aqui não imprime marca alguma de seu estilo (em narrativas seriadas, é de sua natureza ser cotidiana e afeita aos detalhes íntimos de personagens, como vimos em Transparent), dificilmente teria topado embarcar em um projeto que nada faz além de tentar emular os tiques da primeira temporada e do próprio Vallée. A incômoda insistência em duplicar o extenso número de flashbacks e em instalar algum tipo de suspense ou engenhosidade derruba Big Little Lies de uma maneira amadora, onde a montagem entrecorta tudo o que passa pela frente e deixa o conjunto (ou até mesmo um único episódio) sem muita sequência, unidade ou conexão.

Laura Dern como Renata Klein: a atriz segue arrasando, mas a personagem tem pouca conexão e proximidade com as demais mulheres do seriado.

Se nas telas e nos bastidores o seriado se transformou em uma colcha de retalhos, o mesmo se aplica ao centro dramático da trama (ou mais precisamente à falta dele). São sete episódios que jamais se justificam, uma vez que, transcorrida a temporada, nada descobrimos de novo sobre essas mulheres cuja amizade deveria ter uma gama extra de nuances após os acontecimentos da última temporada. Ao invés disso, os roteiristas colocam uma em cada canto, sob a justificativa de que as Cinco de Monterey, movidas pelo trauma, entraram em uma crise coletiva. A partir daí, Big Little Lies imagina um conflito qualquer para as trajetórias individuais das personagens, de modo que todas se sustentem com seus próprios arcos. Ora, verdade seja dita: por mais que Laura Dern continue um arraso como Renata Klein, os dilemas envolvendo a falência dessa mulher que não cabe dentro de si própria sequer se conectam com o ano anterior, onde ela era vista como uma semi-antagonista nada receptiva com as demais personagens. Algo não se encaixa: Renata finalmente se integrou ao círculo de mães, porém, sua presença, agora avulsa em termos dramáticos, parece perfeitamente irrelevante para suas companheiras.

Entre as protagonistas, Celeste (Nicole Kidman) anda em círculos ao ainda nutrir sentimentos contraditórios pelo marido — e as sessões com a terapeuta, antes tão reverenciadas pela crítica e pelo público, agora beiram a bobagem tamanha a forma irresponsável como a psicóloga tenta ditar os rumos da vida de sua paciente. Já Madeline (Reese Witherspoon) se vê enroscada em um erro do passado que passa a ameaçar seu casamento e a própria paciência do espectador, que precisa testemunhar o desperdício de uma personagem tão interessante e o desenvolvimento de um conflito que se prolonga de maneira inexplicável. Há pouco o que se falar de Jane (Shailene Woodley), reduzida a um plot de romance-parece-cilada, não é aprofundada sob a luz do que sempre foi a sua maior força como mãe solteira: a relação de cumplicidade e delicadeza com o filho pequeno. No mais, a tentativa de dar nova amplitude a Bonnie (Zoë Kravitz) é pífia e duvidosa, já que o faz trazendo estereótipos de misticismo e abusos familiares para o plot da única personagem negra da trama.

Vivida por Meryl Streep, Mary Louise é a nova personagem de Big Little Lies que nem mesmo os próprios roteiristas compreenderam.

Deixo para citar por último a personagem de Mary Louise não por ela ser vivida por Meryl Streep, em uma de suas raras aparições em seriados, mas porque talvez esse seja o maior pecado de Big Little Lies. Promovida como um grande acontecimento tanto para o programa quando para o universo televisivo em si, a participação de Meryl está muito aquém do que poderia se esperar para alguém de seu calibre, e pior: a personagem sequer foi compreendida pelos próprios roteiristas. Relatos dão conta de que Meryl recebia orientações para interpretar Mary Louise, a mãe de Perry (Alexander Skarsgård), como uma espécie de vilã, definição imediatamente rejeitada pela atriz. E ela estava corretíssima: por mais que o seriado insista em explorar o lado passivo-agressivo da personagem e decida colocá-la em colisão com todas as outras mães da vizinhança, pouco foi abordado sobre a trágica e tortuosa negação que ela ironicamente compartilhava com Celeste em relação a Perry e sobre como isso era tanto o que unia quanto o que separava essas duas mulheres. Se há bons momentos para a personagem, é por causa de Meryl e não por méritos da série, que equivocadamente induziu o público a detestar Mary Louise e não a entendê-la.

Para arrematar o ciclo e conferir uma tração de suspense/mistério como na temporada anterior, Big Little Lies, em seus capítulos derradeiros, recorreu ao drama de tribunal. Por mais que o artifício traga os melhores momentos de Nicole Kidman e Meryl Streep neste segundo ano, tudo é muito frágil, quando não implausível: a juíza que conduz o tribunal parece estar em seu primeiro dia de profissão, deixando que advogados, testemunhas e réus tomem conta da sessão, assim como determinadas reviravoltas, a exemplo de um vídeo descoberto de forma milagrosa e conveniente demais, reforçam a percepção de um roteiro escrito no piloto-automático, sem traços de sofisticação. Para quem gosta de novela, a conclusão da segunda temporada também traz todo tipo de resposta com reconciliações, explicações e até uma cerimônia de casamento. A única porta que fica aberta é justamente a mais preocupante: aquela que, a partir da decisão de uma personagem na última cena, deixa a ligeira sensação de que Big Little Lies poderá ter uma terceira temporada. A HBO e os produtores não confirmam — e tampouco descartam oficialmente a possibilidade, para a completa angústia de quem sofreu com o total vazio de uma segunda temporada que sequer precisava existir.

Com “Escape at Dannemora” e “The Act”, Patricia Arquette vive a era de ouro da sua carreira

Patricia Arquette nunca foi uma atriz particularmente impressionante, mas começou a ser vista de outra maneira após vencer o Oscar de melhor atriz coadjuvante por Boyhood com uma fala que viria a impulsionar os movimentos em busca de igualdade e justiça para as mulheres na indústria hollywoodiana. À época, em uma entrevista concedida ao The Guardian, ela falou justamente sobre como, em termos culturais, o “cinema” deixou de ser “cinema” para ser referenciado como “indústria”, levantando uma interessante provocação: a de que hoje, por exemplo, Vivien Leigh, uma atriz quase desconhecida antes de realizar …E o Vento Levou, jamais seria escalada para uma produção dessa ambição e magnitude. Para Arquette, quando o “cinema” deixa de ser “cinema” (arte) para ser chamado de “indústria” (negócio), ganha quem é a maior estrela ou a figura mais pop para determinado papel, e não a melhor atriz.

Curiosamente, a carreira de Patricia Arquette não deixa de estar associada a essa afirmação. Se pouco ela impressionou ao longo de uma carreira resumida a papeis pequenos e pouco memoráveis, muito se deve à falta de oportunidades para quem não é uma estrela. Ela, que atua desde os anos 1980 e tem um Emmy de melhor atriz por Medium (em 2005 o prêmio não tinha o mesmo significado de hoje, quando celebrações por séries, minisséries ou telefilme são sim sinônimo de grande prestígio), demorou a dar uma guinada na carreira mesmo após o Oscar por Boyhood. Aliás, foi somente cinco anos após a consagração pelo filme de Linklater que Patricia se viu envolvida em dois projetos consecutivos que, lançados entre novembro de 2018 e março 2019, vieram para marcar a era de ouro da sua carreira: com Escape at DannemoraThe Act, ela finalmente recebe os papeis fascinantes que toda atriz deveria receber com a devida dose de frequência para reforçar a tese de que uma escalação certeira é muito mais importante do que qualquer estrelato.

“ESCAPE AT DANNEMORA” (Showtime)

Na temporada de premiações em que todos esperavam que Amy Adams se consagrasse com a minissérie Sharp Objects, da HBO, Patricia Arquette chegou de mansinho e terminou faturando o Globo de Ouro, o Screen Actors Guild Awards e o Critics’ Choice Awards por essa minissérie dirigida pelo ator Ben Stiller para a Showtime. Baseada em uma história real, Escape at Dannemora dramatiza a fuga de dois dois detentos da Clinton Correctional Facility, em Nova Iorque, nos Estados Unidos, em 2015. A dupla de presidiários interpretada na ficção por Benicio Del Toro e Paul Dano escapa da instituição com a ajuda de Joyce “Tilly” Mitchell, uma das funcionárias que, logo se descobre, cultivava uma relação instável e sexual com os dois detentos. A verdadeira Joyce Mitchell não falava publicamente desde 2015, quando foi presa por ajudar a orquestrar a fuga de David Sweat e Richard Matt, mas quebrou o silêncio em 2018 para comentar a minissérie, alegando que jamais teve qualquer relação sexual com a dupla e que Ben Stiller não passar de um oportunista querendo faturar dinheiro com a sua dramática história.

Julgando pelo que vemos em Escape at Dannemora (é importante lembrar que a minissérie é ficção e não documentário), Tilly Mitchell se apresenta como uma mulher mentalmente instável que toma decisões motivada por surtos de carência e impulsos sexuais. É desbravando a mente de uma figura feminina conturbadíssima que Patricia Arquette trabalha uma série de complexidades para, ao longo de sete episódios com duração de praticamente uma hora cada, criar uma personagem fascinante em sua instabilidade, sem permitir que ela vire uma caricatura. Sob um trabalho impressionante de maquiagem, Arquette se transforma em cena como nunca antes em sua carreira, e o faz com uma busca minuciosa pelas razões que, para além da questão psíquica, levaram essa mulher a infringir tanto a lei quanto a confiança de seus próprios colegas e familiares para libertar dois presidiários. A transformação da atriz foi tamanha que, antes do início das filmagens, ela encontrou Benicio Del Toro já devidamente maquiada e não foi reconhecida pelo colega, que pensou ter esbarrado em uma senhora maluca no set. Sua caracterização, contudo, jamais serve como muleta, e sim como uma ferramenta para potencializar os tantos conflitos internos que também se manifestam corporalmente na personagem.

Por outro lado, Escape at Dannemora é menos fascinante do que se poderia esperar, e a causa disso está no fato da minissérie criada pela dupla Brett Johnson e Michael Tolkin não ser majoritariamente sobre Tilly Mitchell, que, a certa altura, passa a ser uma coadjuvante para a história centrada em David Sweat e Richard Matt, dois personagens de personalidades opostas e bem defendidas por Benicio Del Toro e Paul Dano. E a história dos dois não é tão interessante quanto a de Tilly, ainda que a minissérie acerte ao demorar a revelar as razões que fizeram com que David e Richard fossem parar atrás das grades (é uma decisão importante porque nos aproxima dos personagens e não os tacha logo de cara como bandidos indignos de empatia). Fora isso, toda a preparação para a fuga dos detentos é longa demais e o desenrolar é menos surpreendente do que a minissérie acaba nos levando a crer. Tanto essa sensação é verdadeira que os últimos episódios, centrados ora no passado dos personagens (difícil algum roteirista não cair na tentação de escrever capítulos em flashbacks para mostrar as razões que levaram certas figuras até onde elas chegaram), ora no detalhado desfecho de cada uma das figuras em cena, só nos chamam de volta para a Tilly Mitchell de Patricia Arquette, que, cada vez que está em cena, resgata Escape at Dannemora de toda e qualquer redundância.

“THE ACT” (Hulu)

Interpretando outra figura da vida real, Patricia Arquette chega aos serviços de streaming com The Act, nova antologia criada pela Hulu, a mesma plataforma que lançou a multipremiada The Handmaid’s Tale. A cada temporada, um novo (e bizarro) crime verídico será encenado, e o primeiro ano não poderia ter dado o pontapé inicial com uma história mais macabra: durante quase duas décadas, Dee Dee Blanchard (Arquette) fez com que sua filha Gypsy acreditasse ser uma menina extremamente doente, dependendo da mãe para qualquer mínima tarefa do dia a dia. Gypsy, que tomava incontáveis remédios, andava com a ajuda de uma carreira de rodas e não sabia nem ao certo a sua data de nascimento, eventualmente descobriu toda a verdade e arquitetou o assassinato da própria mãe. Dee Dee, na verdade, sofria de um distúrbio chamado Síndrome de Münchausen por Procuração, que nada mais é do que uma forma de abuso infantil onde cuidadores provocam/imaginam de forma deliberada a existência de doenças em crianças como forma de chamarem atenção para si mesmos. Por isso mesmo, The Act é duplamente perturbadora: primeiro pelo transtorno de uma mãe que faz sua filha passar desnecessariamente por pesadelos inimagináveis e segundo pelo fato da garota, uma jovem criada basicamente em cativeiro, ter orquestrado a morte de sua própria progenitora.

Ao longo de oito episódios, The Act não é o que podemos chamar de uma dramaturgia sofisticada e complexa. Há muita dramatização e ajuste dos fatos para que o programa consiga assumidamente chocar o espectador. Não há firulas quanto a essa opção, uma vez que todo capítulo termina com letreiros que reforçam o quanto a série manipula determinados fatos para alcançar efeitos dramáticos. Em paz com isso, o espectador tem tudo para se abismar com os absurdos que Dee Dee impunha à filha, que chegava a comer uma pizza batida em liquidificador por sonda e era privada de ingerir qualquer tipo de açúcar em função de uma diabetes que só existia na cabeça da mãe. The Act tem grandes méritos ao construir a percepção conflituosa que Gypsy nutria por quem lhe deu a vida: na medida em que a garota começa a perceber que, como o próprio título da série indica, sua vida não passava de uma encenação, a revolta não é suficientemente grande para que Gypsy despreze por completo a sua mãe, inclusive porque a única vida que ela conhece é aquela entre quatro paredes com essa mulher. Gradativamente, claro, a situação começa a mudar de cenário, e a desconstrução de um mundo antes visto como inocente e infantil pelos olhos de uma criança começa a ganhar contornos sombrios e urgentes.

Como a garotinha Gypsy, Joey King oscila entre sentimentos de inocência e corrompimento, despertando reações mistas na plateia: afinal, como dimensionar os pensamentos e as atitudes de uma criança que nunca viu o mundo como ele realmente é e foi criada em um ambiente incrivelmente doentio e abusivo? Ao passo que The Act desperdiça a chance de versar com mais atenção sobre questões éticas e morais da sociedade (todas elas muitas vezes reduzidas à dinâmica das protagonistas com as vizinhas não muito interessantes vividas por Chloë Sevigny e AnnaSophia Robb), King e, claro, Patricia Arquette dão conta de tornar todo o contexto tão incômodo quanto assombroso. Há outras participações no elenco como as de Calum Worthy e Margo Martindale que impulsionam a estranheza desse conjunto de relações tortuosas e problemáticas, mas King e Arquette dominam a cena. A segunda, por sinal, impressiona um degrau acima visto a dobradinha com Escape at Dannemora: em ambas as séries, Arquette interpreta mulheres desequilibradas e envolvidas em situações extremas. Porém, Tilly Mitchell e Dee Dee Blanchard são, nas mãos da atriz, pessoas indiscutivelmente distintas em qualquer tipo de comparação, o que é o atestado definitivo da era de ouro de uma atriz antes subaproveitada e que agora, graças às chances certas oferecidas, coloca nas telas uma versatilidade digna de Meryl Streep.

“Here and Now”: a nova criação de Alan Ball que (mais uma vez) não corresponde às expectativas

Produzida pela HBO e criada por Alan Ball, Here and Now tenta recuperar a vertente de dramas familiares que marcou a era de ouro da emissora no início dos 2000.

Dois grandes retornos eram esperados com a chegada do seriado Here and Now. Primeiro o da própria HBO aos dramas familiares, uma vez que, nos últimos anos, a emissora migrou para o caminho oposto: Game of ThronesWestworld, citando duas de suas mais célebres e recentes produções, fisgaram incontáveis audiências preferindo as dimensões épicas e fazendo falar cada centavo de seus hiper-orçamentos. Já o segundo era o de Alan Ball, roteirista vencedor do Oscar por Beleza Americana e criador de A Sete Palmos, seriado irrepreensível que, ao lado de A Família SopranoThe Wire, tornou a HBO soberana no quesito qualidade durante a ascensão da chamada TV fechada norte-americana no início dos anos 2000. Em síntese, assim como a HBO estava carente de um drama menor e familiar sobre pessoas como eu e você, Alan Ball precisava de uma nova guinada após o progressivo fracasso de True Blood, série sobre vampiros que degringolou ano após ano ao longo de sete temporadas. O balde de água fria nessa contextualização toda é que, considerando a primeira temporada de Here and Now, esse comeback duplo ficou muito longe de ser conquistado. E, na verdade, nunca chegará perto: hoje mesmo, 25 de abril, a emissora anunciou o cancelamento do programa, dez dias após a transmissão da season (agora seriesfinale. Mas, afinal, o que deu errado para tanta desaprovação por parte do público e da crítica. Muitas coisas, mas vamos por partes. Primeiro, a César o que é de César.

Sempre atento ao poder das representações dramáticas, Alan Ball repete grande parte da inteligência vista em A Sete Palmos para compôr a base de dramas familiares. Lá atrás, no seriado que cimentou sua reputação na dramaturgia televisiva, ele era contundente ao explorar, entre outros aspectos, as múltiplas, complexas e profundas facetas de mulheres das mais diferentes gerações, lógica reproduzida em Here and Now, que forma o seu núcleo principal de forma igualitária entre personagens masculinos e femininos. Entretanto, dá um passo a mais, já que Audrey (Holly Hunter) e Greg (Tim Robbins), além da única filha biológica, adotaram outros três filhos, todos de países diferentes: Ramon (Daniel Zovatto), da Colômbia; Ashley (Jerrika Hinton), da Libéria; e Duc (Raymond Lee), do Vietnã. Há ainda outros personagens diversos que convivem com a família, a exemplo de Farid (Peter Macdissi), terapeuta muçulmano que lida com um conturbado passado familiar. Por experiência e talento, Ball não permite que Here and Now se torne uma mera panfletagem da diversidade que sempre esteve presente no mundo, mas que só agora parece ser devidamente reconhecida pelo audiovisual: apesar das questões sexuais e multirraciais serem debatidas pelo roteiro, o ponto de equilíbrio está em colocar todos os personagens em pé de igualdade, sem fazer com que seus conflitos sejam definidos exclusivamente pela origem ou pela cor da pele de cada um. É, em suma, um retrato honesto e natural da pluralidade da vida.

Exata ao não tornar questões multirraciais e de gênero o centro de sua dramaturgia, Here and Now, no entanto, descamba para a previsibilidade e para a dependência de um mistério ineficiente.

Here and Now sustenta com folga a gama de personagens apresentados, onde a maioria atravessa arcos dramáticos interessantes, de conflitos universais e que levantam questões cada vez mais em voga, com destaque para Navid (Marwan Salama), jovem de gênero fluido que, fora já dar a cara a tapa para a sociedade como um todo, vive assombrado pela rejeição do seu próprio círculo religioso. Tudo sustenta um interesse admirável até mais ou menos a metade da temporada, quando a série passa a se entregar a todo tipo de previsibilidade: infidelidades há longo tempo sugeridas acontecem, faíscas de romances pegam fogo, afirmações até então inquestionáveis se contradizem e até mesmo o questionamento das origens de um filho adotivo passam a ser o tema principal de determinados conflitos. O lugar-comum é frustrante porque Alan Ball se reencontra aqui com diversos diretores e roteiristas responsáveis por episódios inesquecíveis de A Sete Palmos, entre eles Lisa Cholodenko, Nancy Oliver e Jeremy Podeswa. Onde foi parar aquela tão bem-vinda transgressão já trabalhada por eles? Ou simplesmente a capacidade de extrair força e consistência de momentos previsíveis e cotidianos? O senso de dramaticidade parece apurado durante boa parte de Here and Now, mas se esvai quando a temporada precisa tomar rumos mais decisivos frente ao inevitável desfecho da temporada.

Mesmo assim, talvez não exista tropeço mais imperdoável nessa primeira temporada do que a insistência em colocar um suspense psíquico no meio de tantos dramas pessoais. Toda vez que faz com que o filho Ramon tenha visões inesperadas e misteriosas, a série se embola, pois o clima misterioso e sobrenatural falha ao cativar como suspense e como drama. Resultado: ficamos indiferentes quanto aos problemas do personagem e também deixamos de ter paciência com o terapeuta Farid, que ocupa tempo demais em cena ao fazer parte do universo misterioso de Ramon: vivido de forma digna por Peter Macdissi, Farid é uma das figuras mais entediantes já criadas por Alan Ball, e tanta novela em torno de seu passado termina por estagnar a série com repetições e revelações que, no frigir dos ovos, não justificam a infinidade de preliminares. Defendida por um elenco coeso, competente e que consegue driblar papeis que muitas vezes não fazem jus ao talento de cada ator (Holly Hunter, vencedora do Oscar de melhor atriz por O Piano, é um caso pontual), Here and Now tenta encontrar seu valor nos lugares errados, o que é, no mínimo, um equívoco amador para um profissional do calibre de Alan Ball: nessa altura do campeonato, era obrigatório que ele soubesse que um delírio aqui e outro ali até faz bem (fazia em A Sete Palmos), mas que a verdadeira potência dramática de seu texto está nas coisas (não tão) simples da vida — e a milhas de distância de depender de um mistério para funcionar ou causar qualquer comoção.

Para fazer justiça e sentido: “American Crime Story: Os Crimes de Andrew Cunanan”

Radiografando o assassino e não o homicídio em si, The Assassination of Gianni Versace tem sua maior força no desempenho de Darren Criss.

Como o segundo capítulo de uma antologia que tem como proposta dramatizar notórios crimes verídicos, The Assassination of Gianni Versace: American Crime Story tem muito o que se explicar. À parte o fato de que o programa precisava, de alguma forma, manter a altíssima média de qualidade alcançada por sua temporada anterior (The People v. O.J. Simpson), há algo errado no próprio conceito seguido aqui, pois o segundo ano é sobre tudo, menos sobre a morte do estilista italiano Gianni Versace, assassinado em julho de 1997 na porta de sua própria casa em Miami, nos Estados Unidos. Tampouco é sobre os desdobramentos desse crime junto às autoridades e à sociedade, algo ensaiado com timidez nos episódios iniciais, quando se levanta a tese de que, por ser homossexual, Versace teria toda a sua trajetória de vida distorcida, explorada e destruída pela mídia. O pós-crime era a força-motriz de The People v. O.J. Simpson, mas, dessa vez, o seriado optou por outro caminho, o que é desleal tanto com o seu título quanto com a própria estrutura do roteiro.

Primeiro capítulo de outra antologia criada por Ryan Murphy, Feud: Bette and Joan também subvertia conceitos e expectativas ao dar espaço assumidamente maior para Joan Crawford (Jessica Lange), decisão que, com o passar dos episódios, revelou-se sábia em termos dramáticos, inclusive porque a série jamais perdia de vista as amplitudes e complexidades de Bette Davis (Susan Sarandon), que também dava nome ao programa. A mesma subversão poderia agir a favor de The Assassination of Gianni Versace caso os roteiristas tivessem tomado certa perspectiva: não é preciso ser nenhum perito para constatar que o personagem Gianni Versace (Edgar Ramírez) é mera desculpa para que a temporada faça um estudo milimétrico sobre a personalidade de Andrew Cunanan (Darren Criss), jovem que o assassinou em plena luz do dia a céu aberto. O reenfoque dramático é interessantíssimo, mas a proposta da antologia perde a razão quando Versace vira figurante, com aparições que, no geral, são apressadas e pouco contribuem para a discussão como um todo.

Edgar Ramírez como Gianni Versace e Penélope Cruz como Donatella: ambos são coadjuvantes na história assumidamente centrada em Andrew Cunanan (Darren Criss).

Estragando a festa de quem já esperava uma ambiciosa análise da vida artística do estilista ou de quem apostava em um Emmy de melhor atriz para Penélope Cruz (carregada no sotaque e na caracterização de Donatella Versace, beirando o overacting), a nova temporada de American Crime Story passa a ser, portanto, sobre a vida desse garoto problemático e criminoso que, a cada episódio, tem uma nova faceta de seu passado explorada (a temporada é contada de forma rebobinada, chegando até mesmo a sua infância). Filho de uma mãe submissa e de um pai que acumulou grande poder aquisitivo para depois ir à falência com sigilosos trambiques, Andrew era o clássico caso de jovem que acreditava ser destinado a uma vida grandiosa, seja através do dinheiro ou da fama. No entanto, aos trancos e barrancos, foi percebendo que a vida era capaz de pregar as mais inesperadas armadilhas, algo com que ele simplesmente não sabia lidar.

Toda e qualquer frustração desperta no personagem uma sociopatia perceptível na mais corriqueira de suas conversas, onde, entre a arrogância, a insanidade e a falsa humildade, proferia todo tipo de mentira com a mais absoluta naturalidade. Tudo para que as pessoas a sua volta acreditassem que ele estava envolvido em projetos e relações invejáveis. Fama, glória e dinheiro só existiam na cabeça de Andrew, mas sua missão de vida era fazer com que todos comprassem a ideia de que também se tratava de vida real. Para chegar perto do que só existia na imaginação, Andrew se envolvia com homens mais velhos e milionários, homossexuais enrustidos em sua maioria, tirando deles toda a mordomia e o luxo que ele próprio nunca chegou perto de conquistar sozinho. Quando contrariado ou frustrado, seja pela rejeição de um amigo ou de um amante, chegava ao seu instinto mais primitivo e cruel: seduzia e aterrorizava para, finalmente, assassinar.

Quando explora o íntimo de Andrew Cunanan, The Assassination of Gianni Versace ganha vida própria, mostrando que a morte do famoso estilista italiano tem pouca relevância nas discussões da temporada.

Fruto de uma sociedade negligente (todos os personagens percebem a gravidade e a iminência trágica dos problemas de Andrew, mas jamais tomam qualquer tipo de iniciativa em relação a isso), ele chega a Versace no auge de seu transtorno, tirando a vida desse homem que, em termos filosóficos, era a representação de tudo aquilo que um dia ele quis ser (talentoso, famoso, milionário e bem resolvido intimamente com a sua própria sexualidade). É essa trajetória até Versace que guia a segunda temporada de American Crime Story, que troca o assassinado pelo assassino, elucidando não o crime, mas as razões e os distúrbios que levam um ser humano a cometê-lo. No papel de sua carreira até aqui, Darren Criss, cujo trabalho mais relevante até então havia sido em Glee, seriado também da autoria de Ryan Murphy, está irretocável como Andrew Cunanan, sendo perfeitamente convincente e minucioso nas diversas facetas de um jovem que não conseguia perceber ou assumir suas próprias tragédias.

Sem falar de Versace, a segunda temporada de American Crime Story trai o seu próprio título e, mais do que tudo, o próprio espectador com um roteiro que é de certa forma incoerente, considerando todos os nove episódios. Afinal, por que seduzir tanto o público com a vida pessoal e profissional de Versace nos dois primeiros capítulos para, depois, simplesmente jogá-lo para escanteio? Não seria mais justo ser desde sempre claro quanto às intenções de desenvolver a vida de Andrew Cunanan? Em conteúdo, é uma temporada que acerta ao fazer um panorama da vida gay nos anos 1990 e ao versar sobre os distúrbios de um personagem problemático e assassino. Já em estrutura, a situação é tortuosa, especialmente se considerarmos o capítulo final, onde a série, repleta de pressa, resolve correr atrás do tempo perdido para discutir tudo aquilo que deixou de lado ao longo de uma temporada (a repercussão do assassinato, os conflitos internos entre o namorado e a irmã de Versace, o futuro da grife, a invisibilidade dos gays em situações públicas, etc).

Exemplo máximo de que o conceito da série se dilui aqui é A Random Killing, episódio que remonta o assassinato do milionário Lee Miglin pelas mãos de Andrew. Casado, mas secretamente envolvido com garotos de programa mais jovens, Miglin era um bom marido para sua esposa, Marilyn (Judith Light, maravilhosa), que começa a refletir sobre a vida e o íntimo do companheiro ao descobrir que seu corpo foi encontrado ao redor de dezenas de pornografias gays. É o conceito que funcionou tão bem na temporada anterior da American Crime Story e que é representado magistralmente nesse episódio: nos crimes de grandes proporções como o de Gianni Versace, tão importante quanto o que faz determinadas situações chegarem a algum ponto mortal é como assassinatos têm poderes altamente reveladores e reverberam tanto entre quatro paredes quando publicamente. Sendo assim, mesmo que defendida com esmero por Darren Criss e pela ideia de radiografar o íntimo de um assassino (com suas liberdades dramáticas, claro), The Assassination of Gianni Versace poderia muito bem ter alcançado a grandiosidade de The People v. O.J. Simpson caso expandisse para toda a temporada a lógica desse episódio específico. E caso também, claro, alterasse o seu título. Quem sabe American Crime Story: Os Crimes de Andrew Cunanan? Faria justiça e sentido.

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