Cinema e Argumento

Os indicados ao Emmy 2020

Regina King em Watchmen: com 26 indicações, minissérie criada por Damon Lindelof e produzida pela HBO lidera lista e é favorita absoluta entre as minisséries.

Mesmo com o Coronavírus se alastrando de forma latente nos Estados Unidos, o Emmy permanece firme e forte com a data inicialmente programada para a sua cerimônia de premiação, seja ela em qual formato for. No dia 20 de setembro, portanto, conheceremos os vencedores da lista de indicados divulgada hoje (28), que traz Watchmen, da HBO, liderando com o maior número de menções entre todos os segmentos. Foram 26 indicações para a minissérie criada por Damon Lindelof, um número surpreendente até mesmo para os que estavam mais otimistas com a performance do programa entre os votantes. Essa imensa justiça se estende a outros dois seriados: Succession, também da HBO, e Ozark, uma produção original Netflix, ambas com 18 indicações cada no segmento dramático. Já entre as comédias, The Marvelous Mrs. Maisel lidera acumulando 20, mesmo em seu momento menos cativante. 

Há uma boa notícia a ser comemorada no Emmy 2020: 34,3% dos atores indicados este ano são negros, o maior número já registrado na premiação. Também há evolução no espaço para as mulheres: seis dos nove roteiros indicados por minisséries/telefilmes são assinados por mulheres, assim como quatro dos seis episódios indicados a direção. Sabemos que o caminho a ser percorrido ainda é longo e que muito dessa pluralidade vem do fato de que a TV e o streaming há muitos anos têm se mostrado mercados menos conservadores do que o cinema, mas é importante celebrar vitórias que já dão indícios de um futuro mais democrático, justo e igual em oportunidades. Ainda em números, a Netflix está no topo com 160 indicações para seus projetos contra 107 da HBO, invertendo o cenário de liderança visto no ano passado. No entanto, a Netflix ainda espera pelo dia em que uma de suas séries vencerá o prêmio principal. Parece que novamente não será dessa vez…

Por ora, aqui estão alguns comentários pontuais (e muito pessoais) sobre os indicados:

Watchmen e Succession são tudo isso que suas indicações sugerem, provando que a HBO ficou sem ressaca alguma após a era Game of Thrones. Na verdade, dá até para reivindicar mais indicações para ambas: enquanto a primeira deveria ter rendido a Tim Blake Nelson uma lembrança entre os coadjuvantes, a segunda poderia ter incluído Holly Hunter ao lado de Cherry Jones e Harriet Walter na disputa de atrizes convidadas. Em suma, qualquer resultado diferente da consagração de Watchmen e Succession será motivo de choque…

– Empatada com Succession no número de indicações, Ozark parecia destinada a render mais. Ainda que tenha, por exemplo, indicação tripla na categoria de roteiro, a série estrelada por Jason Bateman e Laura Linney ficou sem duas de suas indicações mais essenciais pela terceira temporada: ator coadjuvante para Tom Pelphrey e atriz coadjuvante para Janet McTeer;

– A briga será de foice entre as coadjuvantes de série dramática. Resultado de novas regras do Emmy, temos nada menos do que oito concorrentes: de Meryl Streep a Laura Dern por Big Little Lies, passando por grandes nomes como Helena Bonham Carter em The Crown e Fiona Shaw em Killing Eve, a antigas vencedoras como Thandie Newton (Westworld) e Julia Garner (Ozark), é praticamente impossível tentar adivinhar a futura vencedora. É o tipo de disputa que dá gosto de ver — não pela quantidade, e sim pela qualidade;

– Outra competição acirradíssima é a de atriz em série dramática. A categoria que nos reservou a surpresa de ver Zendaya (Euphoria) chegando de última hora após ter passado em branco nos demais prêmios televisionados confirmou o que era esperado: pelo menos três atrizes disputam o favoritismo. Será a vez de Olivia Colman (The Crown), vencedora do último Globo de Ouro? Ou então de Jennifer Aniston (The Morning Show), que já levou o Screen Actors Guild Awards para casa? E como não colocar Laura Linney (Ozark) na dianteira por sua melhor temporada na série e pelo seu histórico invicto no Emmy, onde já foi premiada por todos os papéis que concorreu?;

– Seguindo na pauta de atrizes, é criminoso o esquecimento de Merrit Wever e Kaitlyn Dever como protagonistas de Unbelievable no segmento de minisséries. Toni Collette, com uma pequena fraude de categoria, garantiu a lembrança entre as coadjuvantes, mas é a clássica situação em que as indicações só fazem real sentido quando todas estão na disputa. Não há justificativa para tal esquecimento, especialmente quando Unbelievable concorre como melhor minissérie, o que comprova o apreço dos votantes pelo programa em um ano muito disputado;

– Considerando as devidas dimensões, outras ausências e descompassos que me bateram de forma muito particular envolvem I Know This Much is True (concorre somente em melhor ator pelo grandioso desempenho de Mark Ruffalo quando merecia muito mais), Years and Years (uma das experiências mais marcantes da temporada e sequer citada em qualquer categoria) e The Great (série criada pelo roteirista de A Favorita que misteriosamente emplacou lembranças em direção e roteiro, mas não em melhor série ou para seu excelente elenco).

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Confira abaixo a lista de indicados: 

MELHOR SÉRIE DE DRAMA
Better Call Saul
The Crown
The Handmaid’s Tale
Killing Eve
The Mandalorian
Ozark
Stranger Things
Succession

MELHOR ATRIZ EM SÉRIE DE DRAMA
Jennifer Aniston (The Morning Show)
Jodie Comer (Killing Eve)
Laura Linney (Ozark)
Olivia Colman (The Crown)
Sandra Oh (Killing Eve)
Zendaya (Euphoria)

MELHOR ATOR EM SÉRIE DE DRAMA
Billy Porter (Pose)
Brian Cox (Succession)
Jason Bateman (Ozark)
Jeremy Strong (Succession)
Sterling K. Brown (This is Us)
Steve Carell (The Morning Show)

MELHOR ATRIZ COADJUVANTE EM SÉRIE DE DRAMA
Fiona Shaw (Killing Eve)
Helena Bonham Carter (The Crown)
Julia Garner (Ozark)
Laura Dern (Big Little Lies)
Meryl Streep (Big Little Lies)
Samira Wiley (The Handmaid’s Tale)
Sarah Snook (Succession)
Thandie Newton (Westworld)

MELHOR ATOR COADJUVANTE EM SÉRIE DE DRAMA
Billy Crudup (The Morning Show)
Bradley Whitford (The Handmaid’s Tale)
Giancarlo Esposito (Better Call Saul)
Jeffrey Wright (Westworld)
Kieran Culkin (Succession)
Mark Duplass (The Morning Show)
Matthew Macfadyen (Succession)
Nicholas Braun (Succession)

MELHOR SÉRIE DE COMÉDIA
Curb Your Enthusiasm
Dead to Me
The Good Place
Insecure
The Kominsky Method
The Marvelous Mrs. Maisel
Schitt’s Creek
What We Do in the Shadows

MELHOR ATRIZ EM SÉRIE DE COMÉDIA
Catherine O’Hara (Schitt’s Creek)
Christina Applegate (Dead to Me)
Issa Rae (Insecure)
Linda Cardellini (Dead to Me)
Rachel Brosnahan (The Marvelous Mrs. Maisel)
Tracee Ellis Ross (Black-ish)

MELHOR ATOR EM SÉRIE DE COMÉDIA
Anthony Anderson (Black-ish)
Don Cheadle (Black Monday)
Eugene Levy (Schitt’s Creek)
Michael Douglas (The Kominsky Method)
Ramy Yousseff (Ramy)
Ted Danson (The Good Place)

MELHOR ATRIZ COADJUVANTE EM SÉRIE DE COMÉDIA
Annie Murphy (Schitt’s Creek)
Alex Borstein (The Marvelous Mrs. Maisel)
Betty Gilpin (GLOW)
Cecily Strong (Saturday Night Live)
D’Arcy Carden (The Good Place)
Kate McKinnon (Saturday Night Live)
Marin Hinkle (The Marvelous Mrs. Maisel)
Yvonne Orji (Insecure)

MELHOR ATOR COADJUVANTE EM SÉRIE DE COMÉDIA
Alan Arkin (The Kominsky Method)
Andre Braugher (Brooklyn Nine-Nine)
Daniel Levy (Schitt’s Creek)
Kenan Thompson (Saturday Night Live)
Mahershala Ali (Ramy)
Sterling K. Brown (The Marvelous Mrs. Maisel)
Tony Shalhoub (The Marvelous Mrs. Maisel)
William Jackson Harper (The Good Place)

MELHOR MINISSÉRIE
Little Fires Everywhere
Mrs. America
Unbelievable
Unorthodox
Watchmen

MELHOR TELEFILME
American Son
Bad Education
Dolly Parton’s Heartstrings: These Old Bones
El Camino: A Breaking Bad Movie
Unbreakable Kimmy Schmidt: Kimmy vs. The Reverend

MELHOR ATRIZ EM MINISSÉRIE/TELEFILME
Cate Blanchett (Mrs. America)
Kerry Washington (Little Fire Everywhere)
Octavia Spencer (Self Made)
Regina King (Watchmen)
Shira Haas (Unorthodox)

MELHOR ATOR EM MINISSÉRIE/TELEFILME
Hugh Jackman (Bad Education)
Jeremy Irons (Watchmen)
Jeremy Pope (Hollywood)
Mark Ruffalo (I Know This Much is True)
Paul Mescal (Normal People)

MELHOR ATRIZ COADJUVANTE EM MINISSÉRIE/TELEFILME
Holland Taylor (Hollywood)
Jean Smart (Watchmen)
Margo Martindale (Mrs. America)
Toni Collette (Unbelievable)
Tracey Ullman (Mrs. America)
Uzo Aduba (Mrs. America)

MELHOR ATOR COADJUVANTE EM MINISSÉRIE/TELEFILME
Dylan McDermott (Hollywood)
Jim Parsons (Hollywood)
Jovan Adepo (Watchmen)
Louis Gossett Jr (Watchmen)
Tituss Burgess (Unbreakable Kimmy Schmidt: Kimmy vs. The Reverend)
Yahya Abdul-Mateen II (Watchmen)

* Categorias de direção, roteiro, variedades, reality shows e outros segmentos técnicos podem ser encontrados no relação completa de indicados disponibilizada em inglês pelo Emmy.

Maratona de séries em tempos de pandemia: “I Know This Much is True”, “The Good Fight”, “Homecoming”, “Mrs. America” e “The New Pope”

“I Know This Much is True” (HBO, minissérie)

O diretor Derek Cianfrance, que já havia estraçalhado meu coração anos atrás com Namorados Para Sempre, adapta o romance homônimo de Wally Lamb para contar a trágica odisseia de dois irmãos gêmeos fadados à dor desde a infância. Um deles é esquizofrênico. O outro tenta seguir a vida de alguma forma mesmo sendo o único porto seguro do irmão. Ambos são interpretados por Mark Ruffalo, que nunca esteve tão bem em toda a sua carreira, apoiado por um elenco feminino de dar inveja (Kathryn Hahn, Rosie O’Donell, Archie Panjabi, Melissa Leo). E a excelente notícia é que I Know This Much is True não cede à clássica tentação de focar no irmão esquizofrênico para mostrar como Ruffalo é bom ator. O que Cianfrance faz é contar tudo sob o ponto de vista do irmão que tenta atravessar a vida sem deixar que a doença do outro defina seus caminhos e escolhas, ainda que, no final das contas, ele não consiga escapar disso.

Poucas vezes vimos tanta desgraça reunida quanto nessa minissérie da HBO: qundo parece que não é mais possível piorar, I Know This Much is True surge com outra paulada. Boa parte desse impacto também vem de um talento muito característico de Cianfrance: o de pincelar a dor através da nossa relação com o tempo, exatamente como vimos em Namorados Para Sempre, onde íamos e voltávamos na história de um casal para entender a sua ruína, ou no subestimado O Lugar Onde Tudo Termina, forte drama sobre como certas feridas são passadas de geração para geração. No caso de I Know This Much is True, o diretor opta novamente pelos flashbacks. Entre a ideia de que certas vidas parecem amaldiçoadas e a tese de que seria muito fácil culpar o destino ao invés de assumir nossas próprias escolhas, a minissérie termina por calibrar muito bem o retrato do sofrimento, sem jamais soar apelativa. Tudo que está nessa dolorosa crônica não passa mesmo de vida real. Uma experiência para os fortes.

“The Good Fight” (CBS All Access, 4ª temporada)

O spin-off da clássica The Good Wife foi diretamente afetada pela pandemia, que impediu a equipe de concluir três dos 10 episódios previstos para essa temporada. A incompletude é sentida na tela, uma vez que fica difícil julgar a quarta temporada porque muitos arcos e conflitos não foram concluídos, como o mistério do Memo 618, responsável por boa parte do entretenimento desses episódios disponibilizados. Da forma como foi exibida, a temporada tem seus problemas: participações especiais que nada acrescentam (personagens inesquecíveis como Louis Canning e David Lee dão às caras sem fazer muita diferença para a história), a protagonista Diane Lockhart (Christine Baranski, sempre impecável) é frequentemente jogada para o campo dos coadjuvantes e alguns atores começam a parecer dispensáveis (não à toa, Delroy Lindo e Cush Jumbo anunciaram sua saída do programa). Já o humor muito particular da série e a identidade que ela construiu com grande esmero se desvinculando de The Good Wife nos últimos anos permanecem intactos.

É perceptível o quanto os criadores Robert e Michelle King recuaram na questão política que tanto marcou o terceiro ano, quando The Good Fight se tornou, com uma subestimada inspiração, a série mais posicionada do ponto de vista político na indústria norte-americana. Tal recuo é um erro, mesmo que o público tenha reclamando do viés excessivamente político. Isso porque, na nova leva de episódios, temos um claro exemplo de como a fórmula pode render episódios brilhantes. Falo especificamente de The Gang Deals with Alternate Reality, onde Diane Lockhart, vivendo um delírio, acorda nos Estados Unidos onde Hillary Clinton ganhou as últimas eleições presidenciais. Inspirado e divertido, o episódio promove importantes reflexões do ponto de vista republicano e democrata, ousando até mesmo ao propôr a tese de que, sem o machismo da campanha e do governo de Donald Trump, movimentos como o #MeToo talvez sequer tivessem vindo à tona. A série já está renovada para uma quinta temporada.

“Homecoming” (Prime Video, 2ª temporada)

É uma desnecessária continuação para a temporada anterior, que tinha na presença de Julia Roberts como protagonista uma imensa ancoragem. Pois Julia não volta (agora só assina como produtora executiva) e quem assume o protagonismo é a “cantriz” Janelle Monáe, cuja presença em nenhum momento preenche a tela ou instiga o espectador. Aliás, quem rouba a cena é mesmo a tailandesa Hong Chau, que tinha papel pequeno na primeira temporada e que esteve em Watchmen, uma das minisséries mais brilhantes de 2019. O segundo ano não se trata necessariamente de um spin-off, pois em partes descobrimos que a trama existe para dar conclusão e expandir conflitos da primeira leva de episódios. A tentativa de conectar os dois anos do programa é falha, especialmente se levarmos em consideração o quanto a hipnotizante estética de Homecoming não consegue sequer dosar algum interesse pela trama fria e vazia.

Com apenas sete episódios de meia hora (três a menos que a temporada anterior), essa sequência frustra inclusive em aspectos mais estruturais, como o fato de parecer um filme picotado em sete partes. Vale perceber como são vários os episódios que dizem muito pouco e acabam sequer tento uma lógica própria, sem falar nos frágeis ganchos deixados a cada desfecho, que não chegam nem perto de estimular a curiosidade como acontecia quando Julia Roberts era protagonista. Fica a sensação de prato requentado, embora tentativas não faltem, a exemplo das aquisições de Chris Cooper e Joan Cusack para o elenco (os dois, contudo, estão reduzidos a papeis subutilizados ou um tanto confusos). Não era de se esperar que Homecoming sucumbisse à previsibilidade e a alguns vícios tão cedo. Sem ter repercutido com público e crítica, o segundo ano pode ser o último do seriado, já que uma nova temporada ainda não foi confirmada.

“Mrs. America” (FX, minissérie)

Mrs. America é um prato cheio caso você seja o tipo de espectador que encontra certo fascínio ao se deparar com personagens detestáveis. Afinal, como não ter os nervos testados por Phyllis Schlafly (Cate Blanchett), a anti-feminista ultraconservadora que fez de tudo para barrar o avanço dos direitos das mulheres nos Estados Unidos durante a década de 1970? Como pano de fundo, a minissérie da FX traz a famosa luta de diversas feministas pela Emenda dos Direitos Iguais (Equal Rights Amendment, em inglês), proposta à Constituição dos Estados Unidos para garantir direitos legais iguais para todos os cidadãos americanos, independentemente do sexo. A ironia é que Schlafly, decidida a sabotar a implementação dessa emenda em todos os cantos dos Estados Unidos, usufruía justamente daquilo que tanto queria tirar das mulheres: entre outros itens, a possibilidade de trabalhar, ter uma carreira e ser independente. Para ela, a população feminina deveria servir ao lar e à família, enquanto ela própria viajava o país e fazia uma carreira reconhecida pelos republicanos conservadores.

Narrada em nove partes, Mrs. America tem todos os episódios com uma mulher na direção e divide o protagonismo de cada uma de suas passagens entre diferentes coadjuvantes que atravessam toda a trama, como a Gloria Steinem de Rose Byrne ou a Bella Abzug de Margo Martindale. Ainda assim, é a partir da figura de Phyllis Schlafly que o programa se desdobra, mostrando como cada uma das ativistas feministas reage à essa figura ultraconservadora inicialmente tratada como piada, mas logo encarada como uma ameça real a importantes lutas. Faz muito bem a minissérie ter esse rodízio de personagens e centrar suas perspectivas no discurso contraditório de uma figura polêmica como Schlafly, interpretada com traços tão complexos quanto detestáveis pela excelente Cate Blanchett. São duas escolhas que arejam Mrs. America e que impedem o programa de ser um daqueles relatos históricos tão convencionais, didáticos e produzidos apenas para mimetizar a vida real como um documentário.

“The New Pope” (HBO/SKY, 2ª temporada)

Sou fã incondicional da temporada anterior, intitulada The Young Pope, onde Jude Law nunca esteve tão inspirado e o cineasta italiano Paolo Sorrentino filmava com sua imponência habitual vista também em títulos como o belo longa-metragem A Juventude. A ideia de uma continuação parecia bacana, mas, conferindo esse segundo ano, penso que poderiam ter ficado apenas com o primeiro. Aqui há aquela famosa tomada de consciência que faz o espectador perceber o quanto um diretor está dedicado a ampliar e repetir os elementos de um projeto anterior. Pois é exatamente isso o que Sorrentino, também autor do roteiro dos nove episódios ao lado de Stefano Bises e Umberto Contarello, faz em The New Pope, uma produção muito mais escrachada, satírica e explícita do que a temporada anterior. O espectro de coadjuvantes também ganha mais espaço, muitas vezes pulverizando o protagonismo agora entregue a John Malkovich. Resultado: com tudo ampliado, The New Pope perde em sutilezas.

Outro aspecto importante para balizarmos os deslizes dessa continuação é o pouco tempo de tela dado a Jude Law, que faz muita falta como o sempre enigmático, sedutor e capcioso Pius XIII. Por razões explicadas na trama e que não serão reproduzidas aqui para evitar spoilers, seus holofotes são transferidos para John Malkovich, visivelmente entretido com as palavras e os maneirismos de um personagem interessante, embora muito longe de representar o fascínio daquele vivido por Jude Law. Não por acaso, Law domina todo o seu limitado espaço em cena e ainda sobrevive aos fracos conflitos do terço final da temporada. Sorrentino continua levantando pontos importantes e interessantes sobre a fé (destaque para a discussão envolvendo a mini-rebelião de um grupo de feiras que decide enfrentar o patriarcado tão marcante do catolicismo), mas a corda foi esticada mais do que deveria, quase descaracterizando a fluidez de provocações e emoções registradas no primeiro ano. Não há pistas de que existirá uma nova temporada.

“After Life”: em fase melancólica e tragicômica, Ricky Gervais encena o luto sem fim de um homem comum

Criador, ator, produtor, roteirista e diretor do seriado After Life, Ricky Gervais abraça a melancolia e a tragicomédia para narrar a história de um homem que vive um luto sem fim. 

Esqueça o Ricky Gervais que, como apresentador do Globo de Ouro em três ocasiões, chocou meio mundo com monólogos de abertura polêmicos. Esqueça também o Ricky Gervais que deixou incontáveis plateias desconfortáveis com seriados como Extras e The Office (a versão britânica que deu origem ao sucesso estrelado por Steve Carell nos Estados Unidos). Obviamente Gervais não abriu mão de sua própria personalidade, mas o que vemos em After Life, cuja segunda temporada estreou dia 24 de abril na Netflix, é uma versão mais sentimental e melancólica de um humorista que, perto de completar 60 anos, resolveu refletir sobre a finitude da vida e sobre o estado de luto que todos nós um dia vivenciaremos.

Se antes o humor de Ricky Gervais era gosto adquirido (piadas ácidas, politicamente incorretas e até mesmo constrangedoras são para um certo nicho), agora a situação muda de cenário, pois After Life, além de trazer toda a ironia e a inteligência das melhores comédias britânicas, consegue ser universal ao equilibrar certas características do humor que consagrou Gervais e doses de emoção realmente surpreendentes se levarmos em consideração a trajetória mais célebre do humorista. Para quem gosta de ver tudo de uma tacada só, uma boa notícia: After Life é estruturada em temporadas de somente seis episódios de 30 minutos, o que também pode ser a tristeza para quem gosta de saborear histórias por um período mais longo.

As duas temporadas lançadas até agora são todas dirigidas e roteirizadas pelo próprio Gervais. Cada uma, pela curtíssima duração, parece um filme dirigido em seis partes. Gervais, no entanto, como um veterano dos seriados, sabe construir uma estrutura episódica para o programa. Resumidamente, a história gira em torno de Tony, um jornalista que, após ter perdido a esposa para o câncer, passa a enxergar o pessimismo como filosofia de vida. Para ele, o trabalho é uma atividade tola, as pessoas ao seu redor são desprezíveis e tudo parece uma conspiração para irritá-lo. Sem a esposa, Tony apenas sobrevive.

A partir de amizades improváveis e de personagens que buscam a humanidade do protagonista, After Life dosa humor e comédia para evitar o risco de se tornar o relato sobre um homem intragável.

Receita fácil para criar um personagem insuportável, a sinopse depressiva de After Life é colocada abaixo na prática. Primeiro porque Ricky Gervais, que interpreta o próprio Tony, opta por utilizar a sua cota de humor justamente para retratar o pessimismo do protagonista. Ora, é mesmo tragicômico o fato de Tony trabalhar no jornal decadente de uma pequena cidade, entrevistando pessoas que talvez nenhum jornalista sonha entrevistar, como uma senhora que diz ter o poder de falar com gatos ou o homem que vê o rosto de Kenneth Branagh em uma infiltração da casa. Também é divertido ver Tony se tratar com um psicólogo que está cansado de ouvir seus pacientes e que, no final das contas, quer apenas falar sobre ele próprio.

Além de explorar com humor as situações cotidianas afim de aliviar o peso que ele visivelmente carrega nas costas, After Life cerca o protagonista de personagens que clamam por sua humanidade, como Emma (Ashley Jensen), a enfermeira que cuida do pai de Tony em uma clínica para idosos, ou então a sua mais nova amiga Anne (Penelope Wilton), uma senhora que perdeu o marido e com quem ele tem alguns dos melhores diálogos em ambas as temporadas. A partir do convívio com essas pessoas, Tony começa gradativamente a se abrir para o mundo mais uma vez, ainda que nunca consiga se libertar das memórias da esposa, muitas delas registradas em gravações caseiras que ele assiste ao acordar e antes de dormir.

Fragmentos de memórias: nos vídeos que Tony assiste diariamente como um ritual, conhecemos um pouco sobre quem ele era antes de perder a esposa.

No tocante à discussão do luto, Ricky Gervais não cai na tentação de querer contextualizar o histórico do protagonista de forma linear. Seria fácil nos introduzir à esposa de Tony, passar alguns episódios com ela e depois fazê-lo sofrer a perda. O que After Life faz é apresentar um personagem que, depois de meses, ainda não seguiu em frente — e nem tem a intenção de seguir tamanho o vazio existencial que sente. Através das gravações que Tony guarda da esposa, a série revela, a cada episódio, fragmentos do relacionamento sincero, cúmplice e espontâneo dos dois, e aí entendemos ainda mais a razão de todo luto. Cada vez que vemos o protagonista encerrar um dia com um sorriso ou algumas lágrimas no rosto ao revisitar alguma gravação no computador, percebemos que também sentimos falta de vê-lo feliz.

O humor pessimista desse homem em luto rende momentos hilários para After Life, que busca a piada no absurdismo do dia a dia. Entretanto, é a angústia de Tony com ele próprio e com a sua incapacidade de seguir em frente que dá verniz à série. Com simplicidade, Gervais olha para o cotidiano por meio de um olhar afiado e revelador: assim como acontece na vida, o protagonista começa a colecionar amizades improváveis (a prostituta vivida por Roisin Conaty é excelente, muito em função da série não problematizar ou estereotipar a natureza da sua profissão) e a perceber que, apesar dos pesares, precisamos abraçar aquilo que a vida tem a nos oferecer, inclusive os colegas estranhos de trabalho que podem muito bem ser o ombro amigo que precisamos. No meio disso tudo, Ricky comove e diverte como ator, em um desempenho discreto e repleto de nuances.

Na primeira temporada, After Life apostou com mais frequência no humor, muito para contextualizar o quanto Tony passou a ver a vida com pessimismo. Já no segundo ano, a melancolia toma conta do seriado porque testemunhamos vários desdobramentos de suas novas relações. A mais significativa é a que ele estabelece com a enfermeira que cuida de seu pai e que logo se apresenta como um interesse amoroso que talvez o faça finalmente virar a página. Nada maniqueísta ou clichê, mas de uma sobriedade que costuma definir os trabalhos mais interessantes vindos do Reino Unido. Com o passar do tempo, Ricky realmente se tornou mais sentimental. E, partindo do que ele realiza em After Life, tal constatação só comprova a velha tese de que nem todo ator é um grande comediante, mas que, sim, todo comediante é necessariamente um grande ator. Aliás, no caso de Ricky, grande ator, produtor, diretor, roteirista…

As dez melhores séries de 2019

Watchmen, da HBO, é uma das melhores séries do ano. No programa criado por Damon Lindelof, o universo dos quadrinhos é adaptado com personalidade própria e sem fórmulas tradicionais.

É hora de dar o start na brincadeira dos melhores do ano. Vi o que pude em um ano que não me permitiu ver tantos filmes e seriados quanto eu gostaria. Selecionei aquelas obras que mais me tocaram de alguma forma. Listas, como sempre, são muito pessoais e dizem mais sobre quem as faz do que necessariamente sobre os escolhidos em si. Gosto dessa lógica. Começo abaixo pelas séries, elencando as minhas dez favoritas de 2019 (sem ordem de preferência).

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The Act (Hulu, primeira temporada)
Uma antologia tão macabra que só poderia mesmo ter a vida real como inspiração. Temporada de oito episódios com duas grandes performances de Joey King e Patricia Arquette. Vale a dobradinha com o documentário Mamãe Morta e Querida, da HBO, sobre a mesma história. A Hulu ainda não deu informações sobre uma segunda temporada. Relembre a crítica publicada aqui no blog.

After Life (Netflix, primeira temporada) 
O trabalho mais sentimental da carreira de Ricky Gervais, sem perder a acidez típica do ator/diretor/roteirista. Um olhar tão delicado quanto tragicômico sobre o luto e sobre os desafios de (tentar) seguir em frente. Já está renovada para mais uma temporada.

The Crown (Netflix, terceira temporada)
Olivia Colman assume o protagonismo da terceira temporada de “The Crown” com o brilhantismo de sempre. De contornos muito mais políticos e morais, a nova fase da série tem na divisão democrática de espaço com os coadjuvantes a sua maior potência narrativa. A quarta temporada estreia em 2020, novamente com Olivia Colman.

Chernobyl (HBO, minissérie)
Uma densa crítica em torno da negligência, da mentira e da irresponsabilidade que parte de políticos e governantes em situações de crise. Ao centrar a história na forma como toda mentira é cobrada e como sempre há um preço a ser pago, a HBO criou um dos grandes eventos televisivos do ano.

Fleabag (Amazon Prime, segunda temporada)
Raramente vemos séries sobre uma personagem feminina, errática e complexa que diz muito mais sobre nós mesmos do que estamos dispostos a admitir. Fleabag é uma pérola porque compreende a força da comédia para falar sobre nossos anseios mais incômodos. A série não terá mais temporadas.

Modern Love (Amazon Prime, primeira temporada)
Uma grande evolução na relação da Amazon com o grande o público, embalada pelo toque delicado de John Carney como showrunner. Tem histórias mais interessantes do que outras, mas é uma experiência carinhosa e vivida por um grande elenco. Uma nova temporada já foi encomendada pela Amazon.

Mrs. Fletcher (HBO, primeira temporada)
Kathryn Hahn está inspiradíssima nessa pérola da HBO que passou despercebida em quase todas as listas do ano. Vale correr atrás: Mrs. Fletcher tem mais um texto lindo de Tom Perrotta e escapa de todos os clichês envolvendo a síndrome do ninho vazio. A HBO ainda não anunciou se o programa será renovado para uma segunda temporada. Relembre a crítica publicada aqui no blog.

Years and Years (HBO/BBC, minissérie)
Perturbadora análise sobre tudo que pode acontecer em um futuro que, na verdade, já está muito próximo. São seis episódios afiadíssimos que capturam o caos político e moral de uma era que escolheu aplaudir a ignorância e a má fé de toscos governantes. Relembre a crítica publicada aqui no blog.

Watchmen (HBO, primeira temporada)
A expectativa era grande porque The Leftovers é o meu seriado favorito da década, mas Watchmen dá sequência ao que Damon Lindelof vem fazendo de melhor como contador de histórias. Os nerds espumaram de raiva. Sinal de que a série realmente é um espetáculo. Lindelof diz ter idealizado a série para somente uma temporada, mas a HBO ainda não oficializou a decisão final.

When They See Us (Netflix, minissérie)
Revoltante relato da vida real que a diretora Ava DuVernay adaptou para a Netflix com uma força emocional avassaladora. Impossível ficar indiferente a uma história tão potente e a um drama tão bem desenhado em suas críticas e justiças.

“Mrs. Fletcher”: partindo de mais um texto crítico e sem amarras de Tom Perrotta, nova série da HBO é uma pérola a ser descoberta

Kathryn Hahn como Eve, a protagonista de Mrs. Fletcher: nova série da HBO criada por Tom Perrotta aborda com delicadeza as transformações internas e sexuais de uma mãe na faixa dos 40 anos.

Exímio observador das vidas comuns, o escritor Tom Perrotta faz questão de colocar em xeque todos os padrões, atrasos e preconceitos das relações urbanas. Em suas obras mais célebres adaptadas para o cinema e para a TV, ele expôs uma gama de comportamentos conflituosos a partir de uma disputa colegial (Eleição, dirigido por Alexander Payne em 1999), lançou luz sobre as hipocrisias matrimoniais e sobre os nossos tortuosos instintos sexuais (Pecados Íntimos, levado para as telas em 2006 por Todd Field) e ilustrou como a sociedade lida de diferentes maneiras com o luto, seja ele qual for (The Leftovers, série magistral da HBO exibida entre 2014 e 2017).

Perrotta não precisa de nada muito extraordinário. O que lhe interessa é o fascínio do detalhe, as complexidades do corriqueiro e a profundidade humana de quem vive ao nosso lado. Ainda assim, talvez nenhum de seus trabalhos adaptados até aqui tenha um plot tão trivial quanto o de Mrs. Fletcher, série cuja primeira temporada acaba de ser exibida pela HBO e que, mesmo transmitida aos domingos (um dia privilegiado na grade da emissora), passou quase despercebida entre público e crítica. Dessa vez, o escritor, atuando pela primeira vez como showrunner de um seriado, registra o momento em que Eve (Kathryn Hahn), uma mulher solteira e na faixa de seus 40 anos, lida com o fato do seu único filho ter saído de casa para finalmente cursar uma faculdade.

As coisas, entretanto, não são tão simples quanto parecem, pois Mrs. Fletcher deixa o conflito do adeus ao filho em segundo plano, centrando sua discussão em como essa mãe reconstrói sua vida e passa a fazer o que bem entender, inclusive do ponto de vista sexual. Na mesma proporção, os roteiristas desfiam uma outra descoberta: a do filho de Eve, antes um dos garotos mais desejados do colégio e que agora se vê deslocado em uma vida acadêmica que o obriga a firmar os pés no chão. Essa inversão de clichês (a mãe aproveitando a liberdade, enquanto o garoto administra uma imensa frustração) dá um tom cativante ao seriado e é impulsionada por uma delicadeza cultivada já atrás das câmeras, onde todos os episódios são dirigidos somente por mulheres.

Quando sai de casa, Brendan (Jackson White) se depara com uma vida frustrante na universidade. Enquanto isso, quem passa a se redescobrir através da liberdade é a sua própria mãe.

Na internet e na vida real, Eve renasce sexualmente com novos encontros, transas casuais e até mesmo interesse por experiências homossexuais, impulsionada por toda a independência que, ela sim, passou a cultivar com a ausência do filho. Em diferentes níveis, a personagem, que ainda é estimulada pela repentina paixão que um garoto de 19 anos passa a nutrir por ela, abraça a vibração de tudo isso, reconstruindo a sua ideia de mundo e de seu papel como mãe e mulher. Não há qualquer humor pastelão ou construções simplistas em Mrs. Fletcher, pois os roteiristas desenvolvem as transformações da protagonista sem alardes, focando nos detalhes corriqueiros que contribuem para a nova roupagem assumida por essa mãe em pleno redesenho de sua intimidade.

Já Brendan (Jackson White) chega à faculdade com a mesma pose de garoto desejado que sempre cultivou no colégio, até encontrar colegas com propósitos muito diferentes dos seus. A vida já não é mais uma festa, e essa é uma frustração que ele, agora sem o amparo da mãe, tem dificuldade em enfrentar. Pode parecer uma proposta genérica, mas novamente Mrs. Fletcher olha para uma situação específica de modo crítico: cheio de si e imaturo, Brendan é a perfeita representação do jovem branco, heterossexual e mimado que trata mulheres como objetos, sem muita noção do sentimento alheio, comportamento responsável por vários de seus ruídos de comunicação. Ao contrário do que sua saída de casa sugeria, quem precisa superar os desafios de uma transição como essa é ele próprio.

Entre Eve e Brendan, Mrs. Fletcher recheia a história com excelentes coadjuvantes. É calorosa, por exemplo, qualquer aparição de Jen Richards como Margo, a professora transexual do grupo de redação em que Eve se matricula. Isso porque o roteiro jamais se utiliza da transexualidade de Margo para definir os conflitos da personagem. Bem pelo contrário: é muito bonito ver como a série cria relações tão íntimas e esperançosas para uma figura que, conforme descobrimos entre um diálogo e outro, já se frustrou o suficiente na vida. A dinâmica que Eve estabelece com Julius (Owen Teague) também é outro ponto de destaque, especialmente porque a assumida paixão do garoto desperta na protagonista uma boa dose de sentimentos tão conflituosos quanto excitantes.

Mesmo assim não há brilho maior em Mrs. Fletcher do que o de Kathryn Hahn. Atriz de vasto talento, Hahn já foi coadjuvante de destaque em seriados como Transparent e fez um grande trabalho junto a Paul Giamatti no longa-metragem Mais Uma Chance, mas o seriado criado por Tom Perrotta é, até o momento, o projeto que lhe coloca no centro definitivo das atenções. Navegando em um oceano de emoções sem precisar de um monólogo ou de uma hipérbole qualquer para comunicar ao espectador todas as transições da personagem, ela prova novamente ser uma das atrizes mais interessantes de sua geração. E que gratificante é vê-la trabalhando tamanho repertório em uma série como Mrs. Fletcher, que, entre produções de larga escala produzidas pela HBO como Game of Thrones, Watchmen e His Dark Materials, silenciosamente surgiu como uma pérola a ser descoberta no catálogo da emissora.

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