Cinema e Argumento

50ª Mostra de Cinema de São Paulo #1: “O Outro Lado das Redes”, de Aaron Sorkin

Assim como os algoritmos manipulados por Mark Zuckerberg, O Outro Lado das Redes não parece interessado em pessoas. Filme-irmão do cultuado A Rede Social, de 2010, esse novo olhar sobre os efeitos do Facebook na nossa vida em sociedade não chega a se equiparar, em nenhum aspecto, ao longa anterior dirigido por David Fincher. É contraproducente aproximar os dois, afinal, não só Fincher faz muita falta como Aaron Sorkin, ao abraçar também a direção, falha em capturar qualquer senso de atmosfera ou urgência para questões tão determinantes do nosso tempo. E pior: emoldura a discussão central da forma mais banal possível.

O foco de O Outro Lado das Redes está na cientista de dados do Facebook, Frances Haugen (Mikey Madison), e no repórter investigativo do The Wall Street Journal, Jeff Horwitz (Jeremy Allen White). Seus caminhos se cruzam quando ela, frustrada com os rumos tomados por uma empresa muito distante de sua visão idealizada de mídia social, procura Horwitz para revelar como a manipulação de algoritmos favorece conflitos, extremismos e radicalizações, tanto sociais quanto políticas. Ou seja, embora exponha os bastidores das operações do Facebook, o filme é, essencialmente, uma obra de investigação.

Embora a comparação seja contraproducente, é inevitável aproximar o filme de A Rede Social, cujo olhar clínico e frio para seus personagens descortinava as contradições espinhosas em torno da personalidade de Zuckerberg e da criação de uma plataforma prestes a mudar para sempre a maneira como o mundo se relaciona. A natureza cerebral de A Rede Social surtia efeito porque Fincher sempre se mostrou interessado em potencializar, por meio da linguagem cinematográfica, os textos com que trabalha. O mesmo não pode ser dito sobre Sorkin, que, desde que se tornou diretor, vem demonstrando uma inegável falta de criatividade para contar histórias, como evidenciam títulos como Os 7 de Chicago e Apresentando os Ricardos.

Em O Outro Lado das Redes, ele reduz os dois protagonistas à dinâmica de descoberta e revelação de informações secretas, sem aprofundá-los ou lhes conferir o mínimo de background. Para dar outras tintas a esses personagens, Sorkin apela ao humor ou a referências deslocadas, como na cena em que Horwitz lista os filmes de Frank Capra que Haugen ainda precisa assistir. O recurso soa fraco e gratuito, e logo os protagonistas voltam a ocupar a posição de meros transmissores de teorias, números e documentos. Numa época em que há um volume imenso de informações circulando na internet e no próprio cinema, suas revelações dificilmente surpreendem quem já viu, por exemplo, O Dilema das Redes, popular documentário da Netflix.

O longa também carece de estímulos cinematográficos. Mais afeito a narrativas engessadas e de estrutura expositiva (idas e vindas no tempo, estrutura em capítulos, letreiros com o destino dos personagens), Sorkin parece ter concebido O Outro Lado das Redes sem inspiração. Colaborações valiosas são desperdiçadas, entre elas a do francês Alexandre Desplat, responsável por uma trilha sonora nada memorável — ao contrário daquela que rendeu o Oscar a Trent Reznor e Atticus Ross pelo filme anterior —, e a do diretor de fotografia Jeff Cronenweth, parceiro frequente de Fincher em obras como Clube da Luta, Garota Exemplar e o próprio A Rede Social. Aqui, sua fotografia se restringe a uma estética protocolar.

As limitações de Sorkin como diretor também se refletem nas atuações. Em seu primeiro papel no cinema após o Oscar de melhor atriz por Anora, Mikey Madison é irregular ao tentar equilibrar humor e profundidade em uma personagem quase reduzida a um estereótipo pelo próprio roteiro. Jeremy Allen White, por sua vez, trabalha sempre na mesma nota, repetindo um registro que já conhecemos das temporadas recentes de The Bear. Já Jeremy Strong, como Mark Zuckerberg, se restringe ao terreno da mímica. Mas não culpo os atores: diante de tantas questões a explorar no recorte escolhido, é quase imperdoável a insipidez de O Outro Lado das Redes. Ironicamente, o filme de 16 anos parece mais contemporâneo, do ponto de vista cinematográfico e temático, do que sua continuação.

“Antártida”: trama com quebra-cabeça mal montado desconjunta projeto ambicioso em técnica e escala

Ninguém mais encosta em mim!

Direção: Bruno Safadi

Roteiro: Claudia Jouvin

Elenco: Andrea Beltrão, Leandra Leal, Marina Ruy Barbosa, Mariana Sena, Antonio Calloni, Lázaro Ramos, João Vitor Silva, Henrique Barreira, Adelio Lima, Renan Monteiro, Marcos de Andrade, Gero Camilo

Brasil, 2026, Suspense, 93 minutos

Sinopse: Na estação de pesquisas brasileira na Antártida, uma equipe de cientistas e militares se prepara para passar o inverno confinada. Quando a cientista Inês (Marina Ruy Barbosa) é violentada, a subcomandante Elisabeth (Andrea Beltrão) não descansa até descobrir a identidade do agressor. Antártida é um thriller psicológico sobre sobrevivência, justiça e solidariedade feminina em um dos lugares mais inóspitos do planeta.

Com razão, Antártida faz de seus méritos técnicos uma verdadeira bandeira. Rodado inteiramente dentro dos Estúdios Globo, com produção da própria TV Globo, o longa-metragem de Bruno Safadi recria paisagens, nevascas e geleiras sem dever em nada a produções vindas do exterior. Não é pouca coisa — afinal, o cinema brasileiro merece alçar voos maiores do ponto de vista técnico, viabilizando histórias que, anos atrás, não seriam possíveis devido a limitações tecnológicas. A crença da Globo no projeto foi tanta que Antártida foi encomendado para as telas de cinema, e não para o streaming. Durante a estreia no último Festival de Cinema de Gramado — e, até onde sei, em outras ações de divulgação após o evento serrano —, a produtora Isabela Bellenzani também optou por não entrar em detalhes sobre o quanto a obra teria custado. Sinal de que pouco, claro, não foi, até em função do elenco estelar.

Como é de praxe, tanta publicidade sobre fatores externos não resolve o resultado na tela. Antártida pode ser vitorioso tecnicamente, mas patina em todo o resto, inclusive em um problema de origem que me inquieta: como um filme tão feminino, centrado em questões de violência contra a mulher e idealizado há muitos anos por uma cineasta (Claudia Jouvin, do interessante Um Homem Só), acabou sendo comandado por um homem? Não é sobre questionar o talento que Bruno Safadi já provou ter como diretor, especialmente em trabalhos menores, como Éden, que rendeu um Kikito de melhor atriz para Leandra Leal, mas sim sobre estender, para fora do roteiro, bandeiras e representatividades que Antártida busca defender. Pelo menos para mim, me pareceria muito natural — e bonito, dados os marcos envolvidos – uma mulher estar à frente de um projeto como esse.

Adentrando a história em si, outra fragilidade é que não parece fazer muita diferença o filme se passar na Antártida, uma vez que o isolamento, condição central da trama, poderia se dar em qualquer outro contexto, algo que o gênero de terror já explora há décadas ao colocar personagens afastados das cidades e sem comunicação em casas no meio do nada. Isso ainda se reflete na pouca profundidade dada pelo roteiro às atribuições profissionais dos personagens: entre cientistas, militares e tantas subdivisões de títulos entre eles, nunca fica muito claro, ao menos para além da superfície, o que cada um faz. É algo que enfraquece a atmosfera, principalmente quando Inês chega à estação com uma câmera na mão e deslumbrada com as paisagens, convencendo mais como uma repórter fotográfica do que como uma especialista na área de glaciologia.

Inês, por sinal, é a vítima da violência que Antártida aborda por meio de um quebra-cabeça repleto de peças que, infelizmente, o roteiro se atrapalha para embaralhar e, enfim, encaixar. Ela se torna coadjuvante da própria história na medida em que o longa abraça o whodunnit e opta por observar os personagens pela ótica da suspeita, sem desenvolvê-los previamente para, então, plantar a dúvida. Trata-se de uma tática que sempre me incomoda porque ficamos à mercê das manobras do roteiro para plantar pistas falsas e desviar a nossa atenção, sem que o foco seja a grave situação que deu origem a tudo. É o que confirma a própria estrutura do roteiro de Jouvin: frequentemente recorrendo ao uso de flashbacks, o suspense não só sublinha a prioridade pelo “entretenimento” como vai esquecendo de personagens interessantes, como a médica vivida por Leandra Leal.

Ainda assim, o que mata boa fatia do mistério é como Antártida facilmente dá munições para que o espectador resolva a charada envolvendo a violência contra Inês. Um projeto tão woke jamais teria, por exemplo, um personagem negro ou gay como estuprador — e somente isso já elimina pelo menos dois personagens da lista de suspeitos. A situação piora no clímax, que se estende além do necessário, além de descambar para discursos em forma de diálogo, gritos a plenos pulmões diante de injustiças e uma sequência de ação inverossímil para fechar o arco. Depois de tudo isso, pelo menos, Antártida “congela” seu último frame no rosto de quem é a força inegável frente a tantas fragilidades: Andréa Beltrão, que tira leite de pedra e, por isso mesmo, reafirma sua inegável excelência como atriz.

54º Festival de Cinema de Gramado #11: entre o literal e o alegórico, mais filmes da mostra de longas brasileiros

Terminada a mostra competitiva de longas-metragens brasileiros do 54º Festival de Cinema de Gramado, percebo uma estatística interessante: dos seis longas de ficção, três têm linguagem mais arrojada e um novo olhar sobre questões importantes da nossa atualidade, enquanto os outros três apresentam narrativas lineares e que não correm riscos. Seria, talvez, uma tentativa curatorial de contemplar tanto a crítica quanto o público? Já tendo abordado um representante de cada caso — Feito Pipa, o belíssimo longa-metragem de Allan Deberton que lança um olhar delicado e até inédito no cinema brasileiro para a infância queer, e Pele de Rinoceronte, produção mais discursiva/expositiva sobre as reverberações do feminicídio — agora me debruço um pouco nos demais, que seguem revelando essa alternância da seleção.

Justino – Nos Bastidores do Reino, de José Eduardo Belmonte

Começo com aqueles que, a meu ver, têm pouquíssimas novidades ou não fazem questão alguma de serem minimamente sofisticados. Não à toa, duas cinebiografias. Hoje um habitué do Festival de Cinema de Gramado, o diretor José Eduardo Belmonte volta ao evento após O Pastor e o Guerrilheiro e Uma Família Feliz, ambos títulos que saíram da Serra Gaúcha de mãos abanando na cerimônia de entrega dos Kikitos. Dessa vez, ele chega com Justino – Nos Bastidores do Reino, que adapta a história real de um pastor que fez parte da popularização de uma poderosa instituição religiosa e viu sua vida ruir pelas mãos da própria comunidade que lhe alçou ao reconhecimento. O filme toma como base o livro “Nos Bastidores do Reino”, de Mário Justino, navegando entre as décadas de 1960 e 1990, entre Brasil, os Estados Unidos e a Europa.

É excelente a ideia de finalmente termos um longa de ficção que se proponha a descortinar as hipocrisias e até mesmo os crimes cometidos por instituições religiosas que se aproveitam da fé alheia, especialmente no Brasil, país em que elas detêm imenso poder, inclusive na política. E Belmonte se sai bem na reconstituição de época, na extensa seleção de temas a serem abordados e na condução do próprio elenco, conduzido com bastante solidez pelo protagonista vivido por Christian Malheiros. Por outro lado, a narrativa clássica demais acaba encaretando um relato que, dada a sua natureza, poderia também ser transgressor na forma. Isso prejudica o ritmo, que já enfrenta seus problemas por, em determinado ponto, acumular muitos fatos e reviravoltas, banalizando o impacto que uma narrativa criativa poderia criar.

Se Justino não surpreende na forma, o mesmo, de certa forma, pode ser dito sobre a tônica de seu discurso. Primeiro porque, em grande parte, o protagonista é construído com certa inocência, como se, aqui ou ali, ele fosse surpreendido pelas canalhices ou injustiças de um sistema claramente corrupto desde o primeiro momento. Há poucas nuances na maneira como ele tem sua percepção modificada diante dos acontecimentos. E segundo porque, justamente, nós próprios, como espectadores, já sabemos – ou, pelo menos, imaginamos –, a sujeira envolvendo os bastidores de um eixo de poder tão influente no Brasil. Creio que Justino possa ser um filme bacana e correto, às vezes até corajoso, mas pouco informativo.

Chorão: Só os Loucos Sabem, de Hugo Prata e Thiago Novaes

Outra cinebiografia do 54º Festival de Cinema de Gramado, Chorão: Só os Loucos Sabem é o novo trabalho do diretor Hugo Prata (Elis, Ângela), que agora assina a direção ao lado de Thiago Novaes. Ambos fizeram, em 2009, Chorão: Marginal Alado, que conta a vida do vocalista da banda Charlie Brown Jr. em formato de documentário. Tenho imensa dificuldade com o cinema de Prata porque sua especialidade é o que hoje mais me causa exaustão: as cinebiografias de músicos. Esclareço que o problema não é o “gênero” exatamente em si, mas sim os cacoetes narrativos trabalhados sempre da mesma forma.

Chorão contempla tudo o que já podemos esperar de uma cinebiografia de caráter comercial: um punhado de músicas, o maior número de fatos possíveis acumulados na tela, o arco de ascensão e queda, as alegrias e agruras do anonimato ao sucesso, e por aí vai… Tomo a liberdade de não os comentar em detalhes para não me repetir. Até porque o problema maior do longa reside em elipses e saltos temporais muito mal trabalhados, o que contribui para a sensação de que o longa avança na cronologia com certa displicência, ainda que amparado pelo ajuste dos fatos para fins dramáticos.

Enquanto José Loreto dá o sangue em um papel com o qual está visivelmente comprometido (e pelo qual lutou para conquistar), o roteiro avança na vida do protagonista com buracos inexplicáveis. Há um momento, por exemplo, em que Chorão surge com um bebê no colo quando sequer sabíamos que ele tinha um relacionamento (até se casou!) e que a criança havia nascido. Também descobrimos que ele tem uma banda somente quando o grupo já está em estúdio. De onde veio essa vocação musical? Quem são essas pessoas que tocam com ele? Como seus caminhos se cruzaram? Omissões incompreensíveis para uma produção que, até para os padrões atuais das cinebiografias, fica aquém em construção dramática.

Leite em Pó, de Carlos Segundo

Os dois filmes que trilham caminhos completamente opostos aos de Justino e Chorão são Leite em Pó, de Carlos Segundo, e Nosso Segredo, de Grace Passô. Trata-se de uma dobradinha que conversa muito entre si porque seus respectivos cineastas apostam em narrativas cifradas, além de confiarem na capacidade de leitura de cada espectador. Não é coincidência, portanto, que os dois trabalhos tenham causado tanto debate em Gramado, provando que o estímulo ao improvável e ao inusitado só engrandece a reflexão cinematográfica.

Em Leite em Pó, temos Vinicius de Oliveira – o eterno Josué de Central do Brasil – na pele de Vicente, músico sem talento que, enfrentando uma perda pessoal, se vê obrigado a sair da sombra de quem partiu para tentar descobrir sua própria identidade. Sal, cocaína e cinzas frequentemente aparecem no filme, isso sem falar no leite em pó do título, simbolizando a dissolução de um personagem sem identidade e cuja busca por si talvez não tenha resultados concretos. Como uma colagem – e não como um quebra-cabeça –, o diretor Carlos Segundo, em seu longa de estreia, desenha um protagonista transeunte em todos os sentidos, emoldurando-o a partir de um luto que, na verdade, revela uma ausência mais potente do que a presença.

A seu próprio modo, Leite em Pó é um road movie, pois, na busca por entender quem é, Vicente encontra pelo caminho pessoas com algum tipo de significado para sua história. É o caso da personagem de Rejane Faria (Marte Um, A Melhor Mãe do Mundo), com quem ele se identifica na solidão e estabelece uma conexão olho no olho de amizade. Entre uma e outra apresentação musical desafinada, o protagonista conhece pessoas com sua outra profissão inusitada: a de vender álbuns de fotografias. Não deixa de ser simbólico para o próprio filme, que, com o protagonista ou com as pessoas que ele encontra cotidianamente, junta peças de uma vida, mesmo que, por vezes, incompletas ou borradas.

Nosso Segredo, de Grace Passô

Encerrando a mostra competitiva de longas-metragens brasileiros do 54º Festival de Cinema de Gramado, Nosso Segredo também provocou Gramado com uma narrativa ainda mais metafórica e elaborada. Aliás, é impressionante o trabalho de Grace Passô como diretora em seu primeiro longa-metragem atrás das câmeras. Ela, que vem do teatro e construiu prolífica carreira no cinema como atriz (Temporada, O Dia que te Conheci, No Coração do Mundo), apresenta raro domínio estético e cênico como cineasta, em uma das primeiras incursões mais interessantes do cinema brasileiro recente.

Passô escreve e dirige uma adaptação de Amores Surdos, sua premiada peça teatral, apresentada pela primeira vez no ano de 2012. Em cena, dentro das quatro paredes de casa, uma família tenta reconstruir sua rotina após uma perda recente. Enquanto cada um foge do luto à sua maneira, o filho caçula guarda um segredo capaz de fazê-los enfrentar a dor e, juntos, descobrir um novo caminho. Acertadamente, a sinopse aponta para uma trama clássica, mas o que encontramos é algo atípico.

Ainda que, em uma perspectiva emocional, a identificação varie de espectador para espectador – eu admiro o resultado, mas não exatamente sou apaixonado por ele –, Nosso Segredo não deixa de impactar com seu refinamento técnico (destaque para o desenho de som e a trilha sonora original, ambos excepcionais), inclusive porque a casa habitada pela família é incorporada à história como elemento essencial para entendermos medos, dinâmicas e afetos. Trata-se de um exemplo impecável de como o teatro pode ser transposto para o cinema com outra linguagem e sem perder a essência.

Quando questionada no Festival de Gramado sobre o significado de um certo animal em cena, Passô respondeu que jamais responderia àquela pergunta. Admirei-a ainda mais, uma vez que ela endossa aquilo que Nosso Segredo defende na tela por meio de imagens: cinema é algo que só se completa com o olhar de quem está vendo, e não há respostas certas ou erradas para histórias que assumidamente passam a bola para o espectador. Em tempos de afirmações empacotadas por inteligências artificiais e o total desincentivo ao pensamento crítico inclusive no cinema, obras como Nosso Segredo reafirmam o poder proposital da alegoria e do indefinível.

54º Festival de Cinema de Gramado #6: “Pele de Rinoceronte”, de Marcello Ludwig Maia

De 2023 para cá, três obras audiovisuais abordaram o assassinato da socialite brasileira Ângela Diniz pelo empresário Doca Street em dezembro de 1976: o longa-metragem Ângela, de Hugo Prata; a minissérie Ângela Diniz: Assassinada e Condenada, de Andrucha Waddington; e, agora, Pele de Rinoceronte, filme dirigido por Marcello Ludwig Maia que integra a mostra competitiva do 54º Festival de Cinema de Gramado.

Não é por acaso que a lembrança desse crime tenha sido reacendida com força: apenas em 2025, foram registradas mais de 1.500 vítimas de feminicídio, estatística que reflete uma média de 4,3 mulheres assassinadas por dia. O cinema, no entanto, tem tido dificuldades em encenar a trágica morte da socialite e suas reverberações. Se Ângela era uma cinebiografia equivocada, Pele de Rinoceronte escorrega na panfletagem com uma estrutura estranha e uma direção plana.

Exímio produtor de títulos como Amarelo Manga, A História da Eternidade e Três Verões, Maia dirige sua primeira ficção de longa-metragem criando personagens ficcionais para mostrar o impacto da morte de Ângela à época. Pele de Rinoceronte também opta por não nomear a personagem, rebatizando inclusive a Praia dos Ossos onde ela foi assassinada.

A proposta é compreensível, tanto para evitar a obrigação de ser fiel aos fatos quanto para sugerir que crimes como o cometido contra Ângela podem atingir qualquer mulher. Entretanto, é difícil se desvincular da vida real e fingir que Pele de Rinoceronte não é emoldurado por esse caso de feminicídio que marcou o Brasil, mesmo que a história seja sobre outras duas personagens: a jornalista Helena (Débora Falabella) e a advogada Maria Thereza (Naruna Costa).

As verdadeiras protagonistas correm paralelamente com suas histórias, envoltas por esse ar fake que não se dissipa e munidas de um texto bastante expositivo. Sendo ou não especificamente sobre Ângela Diniz, os debates propostos por Pele de Rinoceronte caem no lugar-comum, trazendo com frequência diálogos que citam pesquisas, números e leis sem que isso se incorpore organicamente à história. O resultado se reflete na falta de conexão do público com as personagens, afinal, os discursos se sobrepõem às construções dramáticas.

Outro ponto que me incomoda é como a ficção insiste em causar em uma mulher uma violência semelhante à sofrida por outra para que ela se solidarize com o que antes lhe era indiferente. Como disse Kristen Stewart na divulgação de A Cronologia da Água, sua estreia na direção, a existência por si só de qualquer mulher já é violenta. Por que, então, não podemos ver uma história onde o feminino se reconhece instintiva e imediatamente, sem que mais uma tragédia seja inflingida?

Diante disso, sobra muito pouco para Débora Falabella e Naruna Costa. A própria direção acompanha as personagens sem inventividade, inclusive na longa sequência em que a advogada ensaia seu argumento de acusação para os tribunais. A cena foi aplaudida na cena de abertura durante a exibição no Palácio dos Festivais, essencialmente pela força da atuação de Naruna Costa, mas o texto pronto demais, assim como em outros momentos, se converte em distração, como se fosse interpretado em um palanque, não exatamente em um filme. Eis aí o grande problema que vem acometendo a maior parte das produções dispostas a versar sobre importantes pautas da atualidade.

54º Festival de Cinema de Gramado #5: “Feito Pipa”, de Allan Deberton

Desde que o mundo é mundo, crianças como Gugu (Yuri Gomes) são atos políticos, mais ainda no Brasil, país onde a infância queer ainda é pouco discutida, inclusive no cinema. O protagonista de Feito Pipa desafia convenções e preconceitos: dos gestos afeminados ao apreço por maquiagens, ele, ao mesmo tempo, quer jogar futebol e andar de moto, borrando as fronteiras entre o que é aceito (ou imposto) pela sociedade para meninos ou meninas. Gugu, contudo, está nem aí e se porta como bem entende, nem que isso custe o afastamento de um pai que, preconceituoso, decide deixá-lo aos cuidados da avó materna, por quem é plenamente amado e aceito. Acontece que, por forças maiores, a configuração familiar da vida de Gugu pode ser transformada, e ele fará o que estiver ao seu alcance para que isso não aconteça.

Dirigido por Allan Deberton, do maravilhoso Pacarrete, Feito Pipa é outra pérola vinda de um cineasta que se confirma como um dos cineastas mais afetuosos e delicados do cinema brasileiro contemporâneo. Assim como no filme estrelado por Marcélia Cartaxo, o cearense dá voz aos que vivem às margens a partir de uma leitura respeitosa e repleta de beleza, sem perder de vista as agruras e os percalços enfrentados por eles. No caso de Feito Pipa, o coração está na relação entre neto e avó, que, negros e de origem humilde, encontram conforto na companhia um do outro. E não se trata apenas de Dilma (Teca Pereira) aceitar a identidade de Gugu, já que o próprio garoto também olha para a avó, uma mulher que gosta de ir ao forró, mandar nudes e tomar umas cervejinhas, sem nenhuma dose de julgamento.

Como já constatei (e escrevi) um punhado de vezes, a generosidade sempre me parece muito mais emocionante do que qualquer acontecimento extremo. E há compreensão de sobra em Feito Pipa, principalmente do protagonista com ele próprio. Gugu não esconde sua natureza, pelo contrário: ele quer mesmo é apresentá-la ao mundo, em uma espécie de autoconhecimento que muitas pessoas levam uma vida inteira para alcançar, quando nem isso. Gay assumido, Deberton, a partir do ótimo roteiro escrito por André Araújo, filma o personagem com imensa sensibilidade desde a primeira cena, quando, vestindo o uniforme para uma partida de futebol, Gugu dança pela casa livremente. É o tipo de sequência que já deixa o espectador com um sorriso no rosto logo na arrancada.

Sempre tão cara para a população queer, a questão paterna é desenhada pela direção e pelo roteiro com admirável maturidade. Ao contrário do que comumente seria feito, Feito Pipa não molda o pai vivido por Lázaro Ramos como um monstro ou como um vilão. Há, sim, de sua parte, algum tipo de amor ou vontade de se aproximar do filho, o que, ao mesmo tempo, acaba sendo a maior tragédia de todas: afinal, como é possível existir qualquer resquício de amor se não há aceitação? Ótimo ator que é, Lázaro Ramos traduz essa dinâmica de amor e violência (emocional, não física) com a devida economia, mas o show mesmo é do pequeno Yuri Gomes, em performance reveladora, do tipo que toma e conduz o filme como um versátil furacão.

Entre a dor e a esperança, Feito Pipa segue os passos de Pacarrete e materializa na tela um universo muito particular, capaz até mesmo de, em certos momentos, tomar para si a imaginação — ou pelo menos os desejos — de um personagem que talvez não encontre reverberação na vida real. Os momentos finais são muito tocantes nesse sentido: é como se, em um determinado tempo e espaço, só existisse Gugu e sua vó, interpretada por Teca Pereira com uma entrega total de coração. Mais uma vez atravessando a vida de pessoas comuns, com suas dores e alegrias, para falar sobre um universo particular, Deberton acaba, orgânica e invariavelmente, abraçando tantas outras histórias do Brasil, no tipo de combinação que, para o meu gosto particular, é sempre belo e emocionante.