Cinema e Argumento

“Entre Mulheres” dialoga sobre as interseções, discordâncias e tragédias de um violentado universo feminino

Why does love — the absence of love, the end of love, the need for love — result in so much violence?

wtalkingposter

Direção: Sarah Polley

Roteiro: Sarah Polley, baseado no romance “Women Talking”, de Miriam Toews

Elenco: Jessie Buckley, Rooney Mara, Claire Foy, Ben Whishaw, Judith Ivey, Kate Hallett, Emily Mitchell, Liv McNeil, Sheila McCarthy, Michelle McLeod, Frances McDormand, Kira Guloien, Shayla Brown

Women Talking, EUA, 2022, Drama, 104 minutos

Sinopse: Em 2010, as mulheres de uma comunidade religiosa isolada lutam para conciliar sua realidade com sua fé. (Adoro Cinema)

wtalkingmovie

O título original — Women Talking, ou seja, mulheres falando/conversando, em uma tradução literal — é mais fiel ao que a diretora Sarah Polley encena neste seu quarto longa-metragem, chamado aqui no Brasil de Entre Mulheres. Literalmente, a adaptação do livro homônimo lançado por Miriam Toews em 2018 traz várias personagens que, durante pouco mais de 90 minutos, discutem se devem ou não fugir da comunidade religiosa em que (con)vivem com homens abusadores e violentos, muitas vezes dentro de suas próprias casas. Não é coisa do século passado: apesar dos figurinos e da direção de arte evocarem tempos antigos, Entre Mulheres deixa uma incômoda sensação de que, seja em que época for, o sistema patriarcal segue, de um jeito ou de outro, dolorosamente enraizado em todos os cantos do mundo.

Sarah Polley estreou na direção de longas-metragens aos 27 anos de idade com uma maturidade impressionante. Seu Longe Dela, de 2006, é ímpar na sensibilidade com que fala sobre um tema à época bastante distante daquela jovem cineasta: as transformações trazidas pelo Mal de Alzheimer a um casamento de mais de quatro décadas. Agora, dez anos após ter realizado o pessoalíssimo documentário Histórias Que Contamos, ela demonstra que sua habilidade como narradora segue intacta com Entre Mulheres. Mais do que isso, Polley pega um formato em que é fácil resvalar para a linguagem teatral para colocar na tela um filme dinâmico e que, do ponto de vista temático, discute as violências dirigidas ao universo feminino sem cair em discursos fáceis.

Tudo o que Sarah Polley não quer é, justamente, respostas prontas, aproveitando muito bem personagens em conflito sobre sair ou não da tal comunidade em que vivem. Há aquelas convictas de que, por só conhecerem uma única realidade durante toda uma vida, não conseguirão sobreviver sem os homens. Já uma personagem específica é categórica: ele será capaz de matar para defender as filhas caso continue onde está. Mulheres de diferentes gerações e convicções analisam todos os cenários — e, a partir deles, Polley versa sobre violência, costumes, ideais, as trágicas universalidades que unem as mulheres e, por que não, as discordâncias existentes entre pessoas que teoricamente deveriam estar de acordo em prol de um bem maior.

Entre Mulheres não deixa de ser uma celebração ao diálogo, com toda atenção aos detalhes e às camadas que apenas um olhar feminino poderia conferir a um projeto como esse. Também tem tempo para tecer reflexões com calma porque os homens estão fora de quadro, com exceção do personagem de Ben Whishaw, por razões logo explicadas pelo roteiro. Deixar os homens de fora é uma jogada acertada porque assim Polley outra vez confere atenção prática às mulheres, colocando-as como nosso ponto de referência em relação aos conflitos e suas urgências. Sabemos o que sabemos por causa delas e confiamos em cada palavra quando o roteiro nos insere em todas as conversas como se estivéssemos ali, ouvindo atentamente as idas e vindas de reflexões e argumentos.

Ao mesmo tempo, ser de natureza “palavrosa” não faz de Entre Mulheres um apanhado inchado de observações e personagens. O roteiro mais ambicioso da carreira de Polley até aqui se garante porque é instigante ao deixar o espectador curioso pela resolução. Conseguirão aquelas mulheres chegarem a um acordo? E, se não houver unanimidade, como ficam as que discordam ou que não desejam seguir a maioria? Elas literalmente colocam no papel os prós e os contras de todos os possíveis caminhos e, para além das palavras, ganham vida nas mãos de um grupo extraordinário de atrizes, com direito a uma participação muito pequena de Frances McDormand, também produtora do longa.

De intérpretes já bastante conhecidas do público, como Claire Foy e Ronney Mara, a outras nem tanto, a exemplo de Michelle McLeod e August Winter (a segunda interpretando uma menina que passa a se identificar e a se vestir como um garoto), o elenco se caracteriza por uma colaboração generosa e equivalente entre as atrizes. Meu destaque particular fica com Jessie Buckley, que dá vida à personagem mais espinhosa de todas, daquele tipo que tem resposta para tudo e que caminha por uma linha muito tênue entre praticidade e um senso para lá de individualista. Sua reatividade levanta boa parte dos conflitos e diz mais sobre seus medos e anseios do que ela própria está disposta a admitir.

Por não ter lido o livro original de Miriam Towes — que, por sua vez, toma como inspiração o caso real de uma pequena comunidade boliviana em que nove homens drogavam e abusavam de mulheres locais —, fico sem poder dizer o quanto a adaptação é fiel ou transcende a obra que toma como base. Contudo, isoladamente como cinema, Entre Mulheres é uma excelente pedida para quem, assim como eu, acredita que a concisão de um bom roteiro, um ótimo elenco e uma direção que sabe o que está fazendo rende muito mais do que qualquer pirotecnia. Em uma de suas entrevistas sobre o filme, Sarah Polley apontou como a fotografia de tons dessaturados evoca à ideia de que o universo daquelas mulheres — e os conflitos inerentes a ele — já desapareceu há muitos anos. Otimismo demais diante das tragédias que ainda vemos por aí? Talvez. Mas envernizado por uma esperança que Polley traz com as pequenas grandes qualidades que lhe firmaram como uma cineasta para se acompanhar sempre.

“Tár” não corresponde à expectativa de 16 anos por um novo filme de Todd Field

It’s always the question that involves the listener. It’s never the answer.

tarposter

Direção: Todd Field

Roteiro: Todd Field

Elenco: Cate Blanchett, Noémie Merlant, Nina Hoss, Sophie Kauer, Adam Gopnik, Sylvia Flote, Sydney Lemmon, Mark Strong, Nicolas Hopchet, Kitty Watson, Zethphan D. Smith-Gneist

EUA, 2022, Drama, 158 minutos

Sinopse: Tendo alcançado uma carreira invejável com a qual poucos poderiam sonhar, a renomada maestrina e compositora Lydia Tár (Cate Blanchett), a primeira diretora musical feminina da Filarmônica de Berlim, está no topo do mundo. Como regente, Lydia não apenas orquestra, mas também manipula. Como uma pioneira, a virtuosa apaixonada lidera o caminho na indústria da música clássica dominada por homens. Além disso, Lydia se prepara para o lançamento de suas memórias enquanto concilia trabalho e família. Ela também está disposta a enfrentar um de seus desafios mais significativos: uma gravação ao vivo da Sinfonia nº 5 de Gustav Mahler. No entanto, forças que nem mesmo ela pode controlar lentamente destroem a elaborada fachada de Lydia, revelando segredos sujos e a natureza corrosiva do poder. E se a vida derrubar Lydia de seu pedestal? (Adoro Cinema)

tarmovie

Desde que começou sua carreira em longas-metragens com o ótimo Entre Quatro Paredes (2001), o diretor Todd Field se provou um exímio observador do cotidiano, começando por esse denso drama que examina o luto e as relações familiares. Logo em seguida, ele lançou olhar sobre as dinâmicas (extra)conjugais no afiado Pecados Íntimos (2006), baseado na obra de Tom Perrotta. Tár, que chega aos cinemas agora em 2023, encerrando um hiato de 16 anos na carreira de Field, não é exatamente um filme-irmão de Entre Quatro Paredes e Pecados Íntimos. Para falar bem a verdade, tudo é mais ambicioso, da duração de quase 2h40 ao universo imaginado para a consagrada (e fictícia) maestrina Lydia Tár (Cate Blanchett), que se enreda em uma série de conflitos envolvendo poder e prestígio no plano profissional e pessoal.

Inevitavelmente, tanto tempo de espera entre um filme e outro gera expectativa, algo que nem sempre trabalha a favor de uma obra. E, talvez, esse período de 16 anos sem um trabalho do diretor tenha mesmo minado a minha experiência com Tár, que vem colecionando admiradores por onde passa, mas que ficou distante de me causar algum envolvimento. À parte expectativas, e ainda na questão do tempo, o filme chega ao público um tanto datado no que se refere às discussões propostas pelo roteiro. Há pouca novidade no que Field, também autor do roteiro — seu primeiro original na carreira de longas-metragens —, tem a dizer, por exemplo, sobre a cultura do cancelamento e o efeito que ela causa no íntimo de figuras públicas e consagradas.

Minha frustração com Tár reside basicamente em ver que o cineasta se saiu melhor ao abarcar vários personagens de uma vez só em seus filmes anteriores do que nesse estudo de uma única figura. Mesmo depois de quase três horas junto à Lydia Tár, ficamos sem saber de onde ela vem, as razões que lhe tornaram uma mulher praticamente imune a sentimentos e até mesmo sua personalidade musical para além da idolatria pelo compositor Gustav Mahler. Conceber Lydia como uma famosa vencedora do EGOT (sigla para quem já foi premiado com Emmy, Grammy, Oscar e Tony) também não diz o suficiente sobre sua verve artística. Não é o caso de dar resposta a tudo (aliás, no cinema como um todo, nunca é),  e sim o de ao menos o de provocar o espectador a construir a sua própria percepção acerca da protagonista a partir de diferentes camadas e provocações.

Um dos melhores momentos de Tár — e que, ele sim, diz muito sobre quem a personagem é com os outros e com ela mesma — é aquele encenado em uma das aulas ministradas pela personagem. Trata-se tanto de um sólido e interessante vislumbre das firmezas e contrariedades de Lydia quanto de um excepcional trabalho de mise-en-scène, com Cate Blanchett fisgando plenamente a atenção em um trabalho de grande sinergia com o filme em si. No entanto, dali em diante, tornam-se previsíveis as reverberações dessa interação específica e de todos os movimentos erráticos de uma protagonista que não enxerga ou, por pura soberba e por ser quem é, escolhe não enxergar a possibilidade de seus atos terem grandes consequências.

Se o roteiro é plano e exaustivo, a direção de Todd Field parece estar em dúvida quanto tratar a jornada da personagem como uma trágica derrocada ou como uma grande piada do destino. Essa falta de unidade, aliada ao fato do longa pouco se arriscar, confere sinais contrários especialmente ao terço final, quando acompanhamos a desintegração de Lydia em todos os espectros. Cate Blanchett, que conduziu de verdade a orquestra em todas as cenas, traduz a imponência, a vaidade e as aparências de Lydia com seu talento de sempre. O esforço em fazer a amarração de Tár se dá pelas mãos dela, que tem vivido uma fase excepcional há bons anos. Entretanto, Blanchett por si só não pode contornar problemas como o do desfecho, cuja intenção mira na ironia para acertar em representações até mesmo estereotipadas. Pode ser que eu não estivesse em um bom dia, que eu tenha deixado passar algo ou que simplesmente eu não tenha visto o mesmo filme que a esmagadora maioria, mas Tár ficou para mim como um relato que, ao contrário dos talentos musicais de sua maestrina, falha em encontrar seu próprio ritmo. 

“Aftersun”, uma melancólica meditação sobre as lembranças que colecionamos e como elas acabam nos (re)definindo

I think it’s nice that we share the same sky.

aftersunposter

Direção: Charlotte Wells

Roteiro: Charlotte Wells

Elenco: Frankie Corio, Paul Mescal, Celia Rowlson-Hall, Sally Messham, Ayse Parlak, Sophia Lamanova, Brooklyn Toulson, Spike Fearn, Kayleigh Coleman, Harry Perdios, Ruby Thompson, Ethan Smith, Onur Eksioglu, Cafer Karahan

Reino Unido/Estados Unidos, 2022, Drama, 102 minutos

Sinopse: Sophie reflete sobre a alegria e a melancolia das férias que ela tirou com seu pai 20 anos antes. Memórias reais e imaginárias preenchem as lacunas enquanto ela tenta reconciliar o pai que conheceu com o homem que desconhecia.

aftersunmovie

* Atenção! O texto abaixo contém spoilers envolvendo detalhes centrais do filme.

Nossas memórias não são termômetros tão confiáveis porque dependem de onde estamos agora e, principalmente, do sentido que passamos a atribuir às coisas quando tomamos alguma perspectiva. Talvez aquele relacionamento repleto de momentos felizes tenha suas lembranças distorcidas porque resultou em uma dolorosa separação. Um período difícil de anos anteriores de repente é visto de forma positiva na medida em que acabou proporcionando uma série de aprendizados. Ou, então, aquelas ensolaradas férias de infância ganham, com o passar dos anos, um ar pesado e triste, em função de tudo o que aprendemos com as dores trazidas pela vida adulta. A tônica de Aftersun, longa-metragem de estreia de Charlotte Wells, é justamente essa: abordar o tempo como ferramenta indispensável no processo de ressignificar sentimentos, percepções e vivências.

Tudo parte de uma perspectiva presente — a protagonista adulta está revisitando as gravações de um período de férias na Turquia com o pai —, mas Aftersun se situa no passado, convidando o espectador a preencher as lacunas do que está acontecendo, especialmente daquilo que uma pequena Sophie (Frankie Corio) ainda não enxerga em função da idade e só passará a entender quando se tornar adulta. Para tanto, a diretora se vale de uma narrativa cotidiana e sem grandes acontecimentos dramáticos. O que importa aqui é atmosfera. E que atmosfera! Desde os primeiros minutos percebemos o filme envolto em um certo incômodo que não condiz com os momentos supostamente felizes entre pai e filha. No final das contas, por que a alegria parece tão triste?

Wells nos torna íntimos dos personagens a partir das circunstâncias mais banais. Entre uma e outra situação, como um passeio de barco ou um banho de lama, ela revela, com muita discrição, detalhes munidos de discretos significados: os pais da protagonista são separados, Calum (Paul Mescal) se diz surpreso de ter conseguido completar 30 anos e os livros que ele leva para a viagem têm como tema a meditação. Dar pequenas pinceladas em detrimento da encenação de grandes dramas faz muito sentido para aquilo que Aftersun emula com maestria em atmosfera: o estado de depressão de Calum, que busca esconder sua condição para cumprir o esperado papel de um pai diante da filha durante em um período de férias.

Ainda que Sophie perceba mais coisas do que Calum imagina, ele, inevitavelmente, faz de tudo para manter as aparências, represando angústias e tristezas que, assim como a própria protagonista em sua versão adulta, jamais saberemos quais são. Essa barreira invisível entre os personagens não impede o roteiro de iluminar a relação dos dois. Há uma cumplicidade palpável ali, representada em cenas banalíssimas e, por isso mesmo, tão próximas da vida real. A delicadeza de Aftersun também se estende à jornada individual de Sophie, situada naquela fase da vida em que uma criança começa a se descolar dos pais para, aos poucos, começar a construir sozinha a sua identidade individual.

Parte da dor que a Sophie adulta sente vem dessa impossibilidade de ter ajudado seu pai. Não por vontade própria, e sim pelos limites da vida: sendo uma criança, ela jamais poderia imaginar ou compreender o que realmente estava se passando dentro do homem que lhe deu à vida e que, presume-se, ela viu pela última vez no corredor de um aeroporto ao final das férias. E, anterior a isso, talvez ainda mais cruel seja a ideia de nunca ter conhecido de verdade um pai que agora, sendo compreendido a partir de memórias ressignificadas, diz-lhe tanto sobre a vida e suas dificuldades. Tantas divagações são possíveis porque Aftersun nos inunda com algo cada vez mais em falta: empatia. É fácil fazer o exercício de se colocar tanto no lugar da protagonista quanto no de Calum, ambos interpretados com humanidade ímpar por Frankie Corio e Paul Mescal.

Nos minutos finais, a diretora sai um pouco do realismo com o intuito de entrelaçar passado e presente em uma das cenas mais bonitas do ano. Desafio alguém a não levá-la na memória. Falo da sequência ao som de Under Pressure, do Queen, capaz de sintetizar o universo inteiro do filme. A banda do saudoso Freddie Mercury que me perdoe, mas não conseguirei mais ouvir a canção do mesmo jeito, tamanha a emoção. Há de se tirar o chapéu para essa estreia de Charlotte Wells em longas-metragens, e fico feliz em ver que, até aqui, a produção tem sido reconhecida por público e crítica como merece. Que essa rara sensibilidade em conjugar imersão e emoção possa ser vista em outros trabalhos da diretora. E acho que vai, pois, se ela já começou assim, com um dos retratos mais verdadeiros sobre a depressão, mal posso esperar pelo que vem por aí.

Nem suspense, nem terror, “Até os Ossos” é experiência que causa estranhamento — e dos bons

Let’s be people.

bonesallposter

Direção: Luca Guadagnino

Roteiro: David Kajganich, baseado no romance “Bones and All”, de Camille DeAngelis

Elenco: Taylor Russell, Timothée Chalamet, Mark Rylance, Michael Stuhlbarg, Chloë Sevigny, Kendle Coffey, André Holland, Ellie Parker, Madeleine Hall, Christine Dye, Sean Bridgers, Anna Cobb, David Gordon Green, Jake Horowitz, Jessica Harper

Bones and All, EUA/Itália, Drama, 130 minutos

Sinopse: O amor floresce entre uma jovem à margem da sociedade (Taylor Russell) e um vagabundo marginalizado (Timothée Chalamet) enquanto eles embarcam em uma odisseia de três mil milhas pelas estradas secundárias da América. No entanto, apesar de seus melhores esforços, todos os caminhos levam de volta a seus passados ​​aterrorizantes e a uma posição final que determinará se o amor deles pode sobreviver às diferenças.

bonesallmovie

Não se engane: o diretor Luca Guadagnino (Me Chame Pelo Seu Nome, Um Mergulho no Passado) traz múltiplas visões e metáforas para a questão do canibalismo, mas, em momento algum, Até os Ossos pode ser rotulado como um filme de terror ou como uma produção ao estilo da minissérie Dahmer: Um Canibal Americano. Inclusive, mesmo nas partes em que poderia se entregar ao gore ou ao apelo gráfico, Guadagnino deixa a materialização do tema quase fora de quadro. Para ele, o ponto central são as angústias e questões existenciais de personagens que, por serem canibais, não encontram um lugar ao mundo, uma clara alusão à maneira com que a sociedade relega as minorias e os “diferentes”.

É importante entender a negligência com o canibalismo: mesmo depois de tantos anos, trata-se de um assunto raramente discutido. Pouco se sabe sobre a sua real origem e suas implicações psicológicas, assim como não existe na legislação uma lei específica que caracterize o canibalismo como crime (os casos já julgados foram, na verdade, enquadrados como homicídio ou destruição de cadáver). É um tabu que costuma despertar a curiosidade alheia — não à toa, a já citada Dahmer se tornou, em poucos dias, a segunda série mais assistida da história da Netflix —, mas que na prática, fica relegada a um certo limbo para o qual ninguém quer olhar.

Até os Ossos está interessado no terreno dessas indefinições, ao mesmo tempo em que toma cuidado para não ser um estudo sobre canibais, muito menos uma romantização. A partir da jornada de Maren (Taylor Russell), o filme nos coloca na pele de uma garota que há anos vive de cidade em cidade fugindo com o pai porque, sempre em determinado ponto, já não consegue controlar seus impulsos em público. Quando é abandonada até mesmo por seu progenitor, Maren, então, parte em busca da mãe que nunca conheceu e, ao longo do caminho, surpreende-se ao, pela primeira vez, encontrar outros como ela. Todos seres humanos subterrâneos, invisíveis e incapazes de viver dentro de qualquer normalidade.

Tanto Até os Ossos rejeita a romantização do canibalismo que a palavra em si sequer é mencionada — eles são “comedores” (eaters, em inglês), termo unanimemente usado por esses personagens em diferentes pontos dos Estados Unidos. A discussão verdadeira discussão se dá em torno de como lidar com ela na prática: enquanto Maren deseja encontrar uma maneira de se alimentar sem precisar cometer crimes, outros acabam matando por puro instinto, algo que a assombra do ponto de vista ético e emocional, mesmo quando uma dessas pessoas é Lee (Timothée Chalamet), um comedor forasteiro que terá papel crucial em sua jornada.

De todos os encontros pelo caminho, esse é, sem dúvida, o que marca a garota – e também o próprio Lee, que, lutando contra seus próprios demônios, aceita a ideia de cair na estrada para ajudar Maren na busca pela mãe. A partir daí, Até os Ossos passa a ser também um road movie, centrado no relacionamento entre esses dois indivíduos que se reconhecem no não-pertencimento e nas suas tragédias pessoais em comum. Se Maren é a “heroína” em busca de algum sentido, Lee é o jovem punk e autocentrado que aos poucos baixa a guarda quando se percebe aceito e compreendido. São dois desabrochares que Guadagnino trabalha com habilidade para acrescenta outro gênero à mistura: o coming of age.

Como um road movie, Até os Ossos aproveita bem os diferentes estados (físicos e emocionais) pelos quais os protagonistas passam. Para além das relações possíveis de serem estabelecidas com a vida real a partir da natureza dos personagens, a trama originada do romance homônimo de Camille DeAngelis ganha nuances com a fotografia muito discreta e eficiente de Arseni Khachaturan, que mescla o estado de espírito dos protagonistas com as cidades cruzadas pelos personagens, e com a trilha sonora assinada pelos sempre formidáveis Trent Reznor e Atticus Ross, em um trabalho de estilo bem diferente do que costumam apresentar no cinema. Outro ponto alto é a participação de figuras muito peculiares, como os personagens de Mark Rylance e Michael Stuhlbarg, que causam sensações das mais estranhas, perigosas e desconfortáveis.

Rylance e Stuhlbarg são importantes porque reacendem um certo senso de urgência presente na arrancada e que acaba amortecido quando nasce o romance central. A paixão entre Lee e Maren funciona porque Taylor Russell e Timothée Chalamet são ótimos atores, mas é inegável que, com ela, o filme se torna mais plano em termos de atmosfera. Se o canibalismo era ou não a melhor das metáforas para tudo o que Guadagnino quer abordar — a luta para simplesmente existir, a busca por um lar, o papel do autoconhecimento no movimento de amar outra pessoa, etc. — é outra discussão, principalmente porque ela vai do paladar de cada um diante de um tema tão complicado e polêmico. No meu caso, ainda que com algumas ressalvas, Até os Ossos causou estranhamento imediato… E dos bons.

Os indicados ao Independent Spirit Awards 2023

spiritseeaao

Tudo em Todo o Lugar ao Mesmo Tempo lidera as indicações ao Independent Spirit Awards 2023.

Duas grandes mudanças marcam uma nova fase para o Independent Spirit Awards, prêmio dedicado ao cinema independente dos Estados Unidos desde 1986. A primeira é a criação de categorias neutras de interpretação, condensadas agora em melhor interpretação protagonistamelhor interpretação coadjuvante. E nela já temos um acerto: oito mulheres concorrem por seus papeis principais, dissolvendo um certo receio de que, sem definição de gênero, os homens dominariam a seleção. A segunda causou certo burburinho: de 22,5 milhões de dólares, a Film Independent, entidade realizadora do prêmio, subiu para 30 milhões de dólares o parâmetro de orçamento máximo para habilitar um filme como independente, ou seja, apto para concorrer. Li pela internet que elevar essa régua seria a porta de entrada para descaracterizar o conceito de cinema independente, mas é importante lembrar que o mundo mudou muito nos últimos anos e tudo inflacionou, inclusive a produção de filmes.

Com essas mudanças, entraram em cena produções como Tudo em Todo o Lugar ao Mesmo TempoTár, liderando a lista de 2023 com oito e sete indicações, respectivamente. Prova de que o Spirit Awards não perdeu de vista suas origens é constatar que há espaço de obra para filmes menores, como o belo Aftersun, que chega aos cinemas brasileiros no dia 1º de dezembro e foi lembrado em diversas categorias. Depois de Yang, de Kogonada, é outro exemplo, tendo emplacado as categorias de melhor filme e direção. Para continuar entre os títulos que já vi, também são mais do que acertadas as indicações para Dale Dickey em performance protagonista por Uma Noite no Lago e até mesmo para Marcel the Shell With the Shoes On em melhor montagem. Sou suspeito para falar porque, desde o ano passado, passei a fazer parte da Film Independent, tendo voto na escolha dos vencedores, mas a lista é realmente boa e equilibrada. Os premiados serão conhecidas no dia 4 de março de 2023.

Confira abaixo a lista completa de indicados:

MELHOR FILME
Até os Ossos
Our Father, the Devil
Tár
Tudo em Todo o Lugar ao Mesmo Tempo
Women Talking

MELHOR DIREÇÃO
Daniel Kwan e Daniel Scheinert (Tudo em Todo o Lugar ao Mesmo Tempo)
Halina Reijn (Morte Morte Morte)
Kogonada (Depois de Yang)
Todd Field (Tár)
Sarah Polley (Women Talking)

MELHOR PRIMEIRO FILME
Aftersun
Emily the Criminal
The Inspection
Murina
Palm Trees and Power Lines

MELHOR PERFORMANCE PROTAGONISTA
Andrea Riseborough (To Leslie)
Aubrey Plaza (Emily the Criminal)
Cate Blanchett (Tár)
Dale Dickey (Uma Noite no Lago)
Jeremy Pope (The Inspection)
Mia Goth (Pearl)
Michelle Yeoh (Tudo em Todo o Lugar ao Mesmo Tempo)
Paul Mescal (Aftersun)
Regina Hall (Honk for Jesus. Save Your Soul.)
Taylor Russell (Até os Ossos)

MELHOR PERFORMANCE COADJUVANTE
Brian D’Arcy James (The Cathedral)
Brian Tyree Henry (Passagem)
Gabrielle Union (The Inspection)
Jamie Lee Curtis (Tudo em Todo o Lugar ao Mesmo Tempo)
Jonathan Tucker (Palm Trees and Power Lines)
Ke Huy Quan (Tudo em Todo o Lugar ao Mesmo Tempo)
Mark Rylance (Até os Ossos)
Nina Hoss (Tár)
Theo Rossi (Emily the Criminal)
Trevante Rhodes (Bruiser)

MELHOR PERFORMANCE REVELAÇÃO
Daniel Zolghadri (Funny Pages)
Frankie Corio (Aftersun)
Gracija Filipović (Murina)
Lily McInerny (Palm Trees and Power Lines)
Stephanie Hsu (Tudo em Todo o Lugar ao Mesmo Tempo)

MELHOR ROTEIRO
Catherine Called Birdy
Depois de Yang
Tár
Tudo em Todo o Lugar ao Mesmo Tempo
Women Talking

MELHOR PRIMEIRO ROTEIRO
Emergência
Emily the Criminal
Fire Island
Morte Morte Morte
Palm Trees and Power Lines

MELHOR FOTOGRAFIA
Aftersun
Murina
Neptune Frost
Pearl
Tár

MELHOR MONTAGEM
Aftersun
The Cathedral
Tudo em Todo o Lugar ao Mesmo Tempo
Marcel the Shell with Shoes On
Tár

MELHOR FILME INTERNACIONAL
Corsage (Áustria)
Joyland (Paquistão)
Leonor Will Never Die (Filipinas)
Return to Seoul (Camboja)
Saint Omer (França)

MELHOR DOCUMENTÁRIO
A House Made of Splinters
All That Breathes
All the Beauty and the Bloodshed
Midwives
Riotsville USA

PRÊMIO JOHN CASSAVETES
The African Desperate
Uma Noite no Lago
The Cathedral
Holy Emy
Something in the Dirt

PRÊMIO ROBERT ALTMAN
Women Talking (vencedor)

%d blogueiros gostam disto: