Cinema e Argumento

“Verlust”: direção solene e personagens distantes esvaziam reflexões de Esmir Filho sobre as complexidades da vida adulta

Tem que ser sobre mudança, transformação. Não pode afundar no passado.

Direção: Esmir Filho

Roteiro: Esmir Filho e Ismael Caneppele

Elenco: Andréa Beltrão, Marina Lima, Alfredo Castro, Ismael Caneppele, Fernanda Pavanelli, Nina Yazbek, Samuel Reginatto, Núria Flor, Rafael Soliwooda, Enrique Gayo, German Ormaechea, Eduardo Fusatti, Maria Fernanda Antelo, Tuane Eggers

Brasil/Uruguai, 2020, Drama, 111 minutos

Sinopse: Isolada na praia, a poderosa empresária Frederica (Andréa Beltrão) prepara a festa de Réveillon que todos esperam. Em meio à crise do casamento com o fotógrafo Constantin (Alfredo Castro), que afeta diretamente a filha adolescente, ela ainda tem que administrar a vida e a carreira do ícone pop Lenny (Marina Lima), que decidiu escrever uma obra misteriosa ao lado do escritor João Wommer (Ismael Caneppele). Quando uma criatura estranha surge do fundo do mar, a crise se instaura na teia de afetos e Frederica terá que enfrentar seu maior medo: a perda.

Com uma carreira especializada em explorar a pluralidade de sentimentos vividos por gerações mais jovens, o cineasta paulista Esmir Filho entrega, aos 38 anos, o seu primeiro longa-metragem voltado para os dilemas da vida adulta. Trata-se de Verlust, onde ele novamente leva para as telas um romance de Ismael Caneppele, construindo um “diálogo livro-filme sobre aqueles que aguam à beira”, conforme define o próprio diretor. Saem de cena, portanto, os dilemas existenciais do garoto solitário e sem nome de Os Famosos e os Duendes da Morte, os afetos jovens e multifacetados de Alguma Coisa Assim (o curta, vale mencionar, é muito melhor do que o longa) e a pulsante diversidade de uma adolescência livre de rótulos do recente seriado Boca a Boca. No lugar, encontramos personagens adultos que, reunidos em uma mesma casa às vésperas do réveillon, encontram-se cercados por angústias e problemas agravados pelo silêncio e pela falta de diálogo. O convívio tão próximo entre figuras calejadas colocará todos em uma rota de colisão emocional, claro.

Por trabalhar de forma tão próxima e colaborativa com o escritor Ismael Caneppele, Esmir consegue criar uma linguagem que explora as potencialidades e o ritmo muito próprio desse diálogo livro-filme. Seu aperfeiçoamento como diretor é visível, principalmente no que se refere à exploração de elementos estéticos e sensoriais para ler o que habita as entrelinhas do silêncio, e não há dúvidas de que Caneppele, autor de Os Famosos e os Duendes da Morte (livro que deu origem ao primeiro longa-metragem de Esmir) e do próprio Verlust, ainda inédito, no qual o filme atual é baseado, tem papel fundamental nessa simbiose (não à toa, Caneppele também ganha mais espaço como ator neste novo trabalho). Através da imersão proposta por ambos, o espectador é convocado a ser agente ativo no processo de conexão com o filme, uma vez que, na medida em que tudo se desenha a partir do que não é dito, cabe a quem está assistindo traduzir para si próprio a intensidade, a razão e o significado do que está sendo encenado, sem que Verlust entregue respostas prontas.

Se Esmir elevou a sua capacidade de criar atmosfera por meio da técnica, talvez o mesmo não se aplique ao plano narrativo, pois Verlust reduz de tamanha maneira o que sabemos sobre os personagens que é fácil sairmos da sessão com a impressão de que convivemos um tempo considerável com aquelas figuras sem necessariamente conhecê-las de verdade. Todos, sem exceção, apresentam conflitos centrais bem definidos, como a Frederica de Andréa Beltrão — que, entre outros dilemas, vive uma crise matrimonial —, mas o roteiro parece preso a essas linhas gerais, tentando explorá-los em sequências solenes e silenciosas, onde os personagens se observam de longe, trocam longos olhares, vagam pela casa chorando ao som de uma música triste ou tocam contrabaixo nos rochedos do mar. São cenas que, pelo já comentado talento de Esmir em criar atmosfera, funcionam. Em certo ponto, contudo, começam a soar mais como maneirismos inseridos no clichê da família rica e branca que sofre em uma linda casa à beira-mar.

Como um admirador confesso de Os Famosos e os Duendes da Morte, deduzo que, para efeitos comparativos, o número consideravelmente maior de personagens seja o calcanhar de Aquiles desta nova adaptação de Esmir Filho e Ismael Caneppele. Em Os Famosos… a dupla mergulhava exclusivamente no universo particular de um menino, explorando muito bem as suas particularidades, seja naquilo que era dito ou no que ficava em silêncio. O próprio Alguma Coisa Assim, que Esmir realizou depois, também tinha um núcleo mais econômico, centrado em uma dupla de amigos. Já em Verlust há um salto considerável: são pelo menos cinco os personagens que precisam de desenvolvimento. E o resultado é a já citada tendência de todos serem definidos por um conflito básico embrulhado em sequências cerimoniosas e com pouco a dizer. Tal afirmação é evidenciada pelas performances, especialmente as de Andréa Beltrão e Marina Lima. A primeira, como a atriz maravilhosa que é, mergulha melhor na personagem do que o próprio texto, enquanto a segunda chama a atenção toda vez que entra em cena com sua marcante persona, sendo mais magnética pela figura de Marina Lima do que pelo material que lhe foi endereçado.

Inicialmente idealizado com o título de A Baleia, Verlust (perda, em alemão) centraliza boa parte de seu drama na figura da baleia que encalha no mar em frente à casa da protagonista. O acontecimento, que, de um jeito ou de outro, mexe com todos em cena traz uma discussão interessante do ponto de vista filosófico: será mesmo que a baleia gostaria de ser desesperadamente salva pelos humanos ou ela estaria ali tranquila e pronta para morrer em paz? É curioso como essa incógnita resume o longa como um todo. Ao passo em que que todos observam aquela baleia de longe, sem nunca saber de fato o que se passa com ela, o mesmo acontece com o espectador em relação à trama: sabemos que algo acontece com aqueles personagens, todos encalhados e imóveis como a baleia que os intriga, mas sempre os vemos com distanciamento, como estranhos, sem que eles sugiram as respostas que precisamos — não aquelas simplistas e definitivas dadas por filmes que se encerram neles próprios, e sim as que, podendo ser garimpadas com encanto nos detalhes e nas entrelinhas, tanto definem a conexão das plateias com um filme.

Rapidamente: “Má Educação”, “Música Para Morrer de Amor”, “Palm Springs” e “O Tempo Com Você”

Hugh Jackman e Allison Janney em Má Educação: dupla entrega excelentes performances para uma história que se constrói a partir da desconstrução de seus personagens.

MÁ EDUCAÇÃO (Bad Education, 2019, de Cory Finley): Baseado na maior fraude envolvendo o sistema público de ensino dos Estados Unidos, o ótimo Má Educação, da HBO, explora o desmoronamento pessoal e profissional de personagens que se apropriaram do dinheiro destinado ao orçamento da Roslyn High School em benefício de suas próprias despesas particulares e familiares. E não qualquer dinheiro: cerca de 11 milhões de dólares foi o montante desviado pelo esquema que se tornou público em 2004. A melhor sacada do roteiro escrito por Mike Makowsky, com base no artigo “The Bad Superintedent”, de Robert Kolker, é não encenar como se deu essa grande fraude, e sim apresentar personagens aparentemente perfeitos para logo em seguida lançar a bomba do escândalo, desconstruindo cada um deles. A partir daí, começa um efeito dominó que funciona ainda mais para o público pouco familiarizado com a história real, pois é intrigante tentar entender quem faz parte de um crime que, de início, parece ter pequenas dimensões. Ao construir personagens através de suas respectivas desconstruções, Má Educação ganha força como uma experiência surpreendente, de ritmo envolvente e com uma atmosfera propositalmente incômoda (vale, por exemplo, prestar atenção nos tons frios da fotografia e na trilha sonora nada óbvia de Michael Abels). Elogios também se estendem a Hugh Jackman e Allison Janney, ambos excelentes. Jackman, ator com outros desempenhos admiráveis na carreira (Os Suspeitos, LoganOs Miseráveis), acerta na vaidade engessada e na perfeição artificial de um homem que, tentando preservar as aparências, passa a perder o controle de tudo a sua volta. Já Janney, em papel coadjuvante, usa seu vasto repertório como uma talentosa intérprete para introduzir parte das as dúvidas e das desconstruções responsáveis por nortear o filme como um todo. Má Educação é outro acerto acerto muito bem-vindo na tradição tão característica da HBO de entregar ótimos telefilmes.

MÚSICA PARA MORRER DE AMOR (idem, 2020, de Rafael Gomes): Coautor do roteiro do belo De Onde Eu Te Vejo, Rafael Gomes volta a falar sobre relacionamentos amorosos na imensidão da cidade de São Paulo, dessa vez em forma de mosaico, acompanhando as turbulências românticas de vários personagens jovens que, apesar de decepções e sofrimentos, seguem acreditando no amor. Entre um coração partido e outro, Música Para Morrer de Amor traz uma trilha sonora com canções sobre as dores de se apaixonar, rendendo inclusive uma divertida sessão de karaokê onde Caio Horowicz e Denise Fraga cantam “Não Aprendi a Dizer Adeus”, a clássica música eternizada na voz da dupla Leandro e Leonardo. Contudo, o filme funciona melhor na teoria do que na prática. Talvez o principal problema seja a dificuldade do espectador em criar uma real conexão com personagens pouco empáticos e centrados nas especificidades da classe média branca, jovem e paulista. E mais: é difícil criar laços com figuras que fazem de tudo para sabotar os seus sentimentos e o dos outros. Na medida em que isso faz parte, claro, do confuso processo de se apaixonar e manter uma relação, Música Para Morrer de Amor prefere ilustrar tal turbilhão emocional com o máximo de atitudes erradas ou imaturas entre os personagens para, ao longo disso, refletir sobre as consequências desses atos e os sentimentos acerca deles com frases de efeito que parecem pensadas para postagens de Instagram. Isso pode ser reflexo da natureza teatral do projeto, uma vez que o roteiro é inspirado no espetáculo Música Para Cortar os Pulsos, também da autoria de Rafael e vencedor do prêmio APCA de Melhor Peça Jovem. Ainda assim, sinto falta de uma maior delicadeza e concisão nessa transposição, características que ele mesmo já havia apresentado ao discutir diferentes vertentes dos relacionamentos no já citado De Onde Eu Te Vejo, onde, aí sim, tive plena facilidade em me identificar ou me solidarizar com as atitudes tortuosas dos personagens em relação ao amor. 

PALM SPRINGS (idem, 2020, de Max Barbakow): A comparação imediata é com Feitiço do Tempo, mas Palm Springs pouco se assemelha a essa adorada comédia dos anos 1990 estrelada por Bill Murray. À parte o fato de que ambos falam sobre protagonistas presos na repetição de um mesmo dia, Palm Springs apresenta para a plateia um personagem que há muito tempo já habita essa realidade. Ou seja, o roteiro escrito por Andy Siara não segue o longo e tradicional arco introdutório onde Nyles (Andy Samberg) descobre a cada cena uma nova particularidade de um estranho universo. O momento é outro: há anos confinado nessa misteriosa condição, ele de repente vê sua rotina abalada quando Sarah (Cristin Milioti) passa a viver a mesma realidade. O cenário é a festa de um casamento, onde, cercados de dezenas de pessoas, eles são os únicos que vivem juntos uma infinita repetição. Nesse confinamento, é claro que surge um interesse romântico entre os dois, o que mais uma vez não é desculpa para que Palm Springs seja óbvio: renegando caminhos tradicionais, o roteiro explora as particularidades de personagens agradáveis, descolados e carismáticos em um recorte que encena a diversão de amigos-logo-apaixonados em um universo onde eles podem fazer qualquer coisa sem consequência alguma (e o clima de festa de casamento ajuda muito nesse sentido!) quanto refletir sobre suas vidas passadas, a falta de perspectiva de um futuro e as sensações felizes e conturbadas de construir um relacionamento em uma circunstância deveras inimaginável. Em breves 90 minutos, o diretor Max Barbakow confere personalidade e muita graça ao resultado, impulsionado pela química de alta sintonia entre Andy Samberg e Cristin Milioti. É o tipo de entretenimento que, especialmente agora em um ano tão difícil como 2020, surge como uma excelente opção para aqueles dias em que queremos desligar a cabeça e curtir uma sessão com boas vibrações.

O TEMPO COM VOCÊ (Tenki No Ko, 2019, de Makoto Shinkai): Aos 44 anos, o diretor Makoto Shinkai viu Your Name, seu quinto longa-metragem, ultrapassar A Viagem de Chihiro, do mestre Hayao Miyazaki, como a maior bilheteria já registrada por um anime em escala mundial. É o caso onde o hype está proporcionalmente de acordo com a qualidade trabalho em questão: apesar da premissa batida, Your Name se desdobra como uma animação originalíssima e empolgante que jamais subestima o espectador (não por acaso, Hollywood já desenvolve uma adaptação live action dirigida por Marc Webb, ainda sem data prevista de estreia). O sucesso estrondoso inevitavelmente acabou criando expectativas em torno do trabalho seguinte de Shinkai, e o resultado é O Tempo Com Você, onde ele volta a pegar uma premissa muito simples para desfiá-la com um olhar mais adulto e menos previsível. O foco desse novo trabalho é a relação entre um jovem que foge sozinho para Tóquio e uma garota da sua mesma faixa de idade que tem o poder de controlar o tempo (não o do relógio, mas sim a chuva, o sol, o frio…). O Tempo Com Você lança um olhar muito adulto para a vida urbana, onde os dois protagonistas, apesar de muito jovens, enfrentam problemas financeiros, solidão, carências e angústias, tudo em meio a uma Tóquio reproduzida com impressionante realismo em suas lindas arquiteturas. É um espetáculo visual belíssimo, no padrão de tudo que Shinkai faz, mas aqui a influência de todo o peso de Your Name se faz sentir, já que há uma perceptível vontade do diretor em querer repetir a fórmula desse filme que lhe trouxe um recorde mundial. A última meia hora de O Tempo Com Você em especial é similar demais a Your Name, inclusive no que se refere à questão estética, com frames que parecem transferidos de um filme para o outro. O uso excessivo de uma trilha com canções sentimentais para dar emoção ao clímax também nos remete à vontade, seja ela involuntária ou não, de Shinkai evocar seu trabalho anterior, que, vale lembrar, ainda é comparativamente superior em objetividade de tramas, duração e ritmo.

“Três Verões”: brilho habitual de Regina Casé domina mistura de drama e comédia sobre o desmoronamento dos ricos brasileiros

É tanta coisa difícil nessa vida, né?

Direção: Sandra Kogut

Roteiro: Iana Cossoy Paro e Sandra Kogut

Elenco: Regina Casé, Rogério Fróes, Otávio Müller, Gisele Fróes, Jéssica Ellen, Daniel Rangel, Vilma Mello

Brasil/França, 2019, Comédia/Drama, 93 minutos

Sinopse: ​A cada verão, entre Natal e Ano-Novo, o casal Edgar e Marta recebe amigos e familiares na sua mansão espetacular à beira-mar. Em 2015 tudo parece ir bem, mas em 2016 a mesma festa é cancelada. O que acontece com aqueles que gravitam em torno dos ricos e poderosos quando a vida deles desmorona? Através do olhar de uma empregada e de um velho patriarca, ambos vítimas do sonho neoliberal, vemos um retrato do Brasil contemporâneo.​

Um carinho em meio a tempos tão difíceis no Brasil e no mundo, a iniciativa do Espaço Itaú de Cinema de viabilizar por streaming, ainda que em tempo limitado, a exibição de filmes brasileiros inéditos, muitos deles previstos para estrear nos meses sufocados pela pandemia do Coronavírus, trouxe na programação títulos para todos os gostos e outros tantos que vinham despertando grande curiosidade. Um deles é Três Verões, mistura de drama e comédia dirigida por Sandra Kogut que teve sua primeira exibição mundial na mostra World Contemporary Cinema do Festival de Toronto em 2019. Antes de qualquer coisa, julgo fundamental fazer uma ampla defesa para esse longa já nas linhas gerais de sua proposta: ao contrário do que comparações simplistas podem apontar, Três Verões não traz a brilhante Regina Casé se repetindo no papel de uma mulher humilde que presta serviços domésticos para uma família rica. Reduzir a performance de Regina, bem como as discussões de Três Verões em si, a uma reciclagem da inesquecível Val de Que Horas Ela Volta? ou da adorável Lurdes da novela Amor de Mãe é um desserviço à atriz e à experiência proporcionada pelo novo trabalho de Sandra Kogut.

Ao lado de Iana Cossoy, a diretora criou um roteiro estruturado, como o título indica, em três tempos. Sempre às vésperas das festas de Natal e Ano Novo, Madá (Regina Casé) vê o desmoronamento moral e financeiro da família rica que paga o seu salário, a partir de fatos não exatamente explicitados para o espectador, mas suficientemente claros para que o público compreenda o quanto tudo parte de ações da Operação Lava-Jato. Fragmentar os acontecimentos entre três recortes pontuais surte efeito positivo, fazendo de Três Verões um filme muito fluido e agradável de se acompanhar, onde a trama sempre desperta curiosidade pelo que está por vir logo quando vemos o letreiro anunciando a chegada de um verão diferente. Uma discussão, no entanto, define o centro dramático de Três Verões, inclusive a cada salto temporal: a de como ainda vivemos tempos em que a vida dos empregados é diretamente definida pela vida de quem paga seus salários em quase todos os sentidos. Isso quer dizer que, na medida em que Edgar (Otávio Müller) se vê em maus lençóis, é questão de pouquíssimo tempo para que Madá também tenha muitos dos seus seus sonhos e recursos confiscados.

A título de comparação temática, se Que Horas Ela Volta? mostrava um Brasil em que pessoas de origem humilde já conseguiam dar um grito de independência e escrever capítulos importantes de sua história sem depender dos patrões, Três Verões registra o retrocesso vivido pelo Brasil nos últimos anos, onde toda a vida de uma empregada é empurrada para dentro do redemoinho de trambiques provocado pelo provedor de seu salário. De mãos atadas e sem ter para onde ir, ela passa a buscar formas de se sustentar, fazendo também do filme de Kogut uma divertida carta de amor ao poder de reinvenção de uma classe batalhadora. Confinada na mansão sem os patrões, Madá faz alguns bazares, aluga quartos da casa em um Airbnb e arruma outras maneiras de sustentar minimamente essa mansão agora decadente onde tantos outros empregados aguardam salários cada vez mais atrasados. E aí Três Verões se torna delicioso e divertido de se acompanhar, encontrando graça e bom humor em momentos super cotidianos, todos ligados à doce humildade de pessoas que aprenderam desde sempre a lidar com as adversidades da vida.

Entre esses momentos, Kogut aproveita para cultivar aqui e ali símbolos muito pertinentes à história, como o pato inflável que flutua na piscina da família rica e que, na vida real, foi símbolo das manifestações contra o governo da ex-presidente Dilma Rousseff. É possível deduzir muito sobre os patrões ausentes com apenas esse detalhe. Aliás, chama a atenção como Três Verões tem todo o desenrolar da trama ligado a personagens que aparecem muito pouco, mas que conhecemos o bastante, inclusive porque Otávio Müller é um expert em interpretar homens comuns definidos pela mediocridade de seus atos. Contudo, por alguma razão, o filme nunca chega a criar a mesma musculatura vista em outros títulos brasileiros, mais alegóricos ou não, que se assemelham a ele na questão de registrar um momento recente do Brasil. Sim, Três Verões é divertido de acompanhar, combina esperteza e uma linguagem acessível para agradar diversas plateias e tem uma estrutura bem trabalhada, mas talvez tenha um certo descompasso ao criar involuntariamente uma protagonista maior do que a própria história.

A ênfase no involuntário se faz necessária porque Madá ganha contornos luminosos no desempenho mais uma vez milagroso de Regina Casé. É impressionante como Regina tem o talento de se aproximar do espectador. Sua habilidade em observar aspectos cotidiano do povo brasileiro — a pose, os costumes, o temperamento, o humor — é uma fonte inesgotável de criação, e por isso mesmo fiz questão de começar esse texto reforçando a importância de percebermos o quanto Madá, Val e Lurdes são mulheres distintas. Ao encapsular a força do humor como ferramenta para traduzir e refletir vidas, ela, além de divertir, prepara o terreno para um momento inesperado de dor ao final de Três Verões, onde, em um monólogo, Madá revela um passado sofrido e muito diferente desses dias em que aprendemos a rir com ela. Somente a mistura entre drama e comédia traz um impacto fascinante e repentino como esse. Regina Casé brilha absoluta no longa de Sandra Kogut, que estende o tapete para a atriz sem pensar duas vezes, ainda que isso não dê muito espaço para que Três Verões expanda outras de suas potenciais qualidades. 

Não tem na Netflix: 20 ótimos filmes para serem assistidos em diferentes plataformas de streaming

Se existe uma habilidade que perdi nos últimos anos foi a de responder a pergunta “tem um filme pra me indicar?”. E não é porque não tenho filmes para indicar, mas porque, além dos filtros habituais que devem ser considerados para cada pessoa, agora existe a famosa réplica: “tem na Netflix?”. E nunca sei dizer, pois não sou assinante da plataforma (recorro à conta de um amigo sempre quando desejo ver algo isoladamente), e fico de certa forma triste quando vejo as pessoas perdendo a chance de ver um grande filme simplesmente porque não está disponível por lá.

Durante esse período de isolamento, tirei um tempinho para desbravar outras plataformas e compilar dicas de excelentes filmes, todos disponíveis não na Netflix, mas em outras plataformas de streaming. Vejam bem, acho que Netflix faz um lindo trabalho ao redimensionar a popularização do cinema e das séries, mas é sempre muito importante, assim como na TV, por exemplo, o incentivo à pluralidade e não ao monopólio. Não podemos nos limitar. Ou seja, para quem deseja buscar outras alternativas e circuitos, espero que a listinha abaixo seja um bom incentivo.

P.S.: Quando terminei a seleção, imediatamente me dei conta de que somente dois longas levam a assinatura de diretoras mulheres. Uma falha terrível de minha parte. Para compensar esse tremendo equívoco, deixo como dica algumas postagens do Mulher no Cinema, site que celebra o trabalho das mulheres nas telas. A primeira traz dicas de filmes assinados por sete grande diretoras que estão disponíveis no streaming do Telecine. Já as demais, elencam os filmes dirigido por mulheres que chegaram em diferentes plataformas nos meses de janeiro, fevereiro, março e abril

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Dois Dias, Uma Noite, de Jean-Pierre e Luc Dardenne

GLOBOBLAY

120 Batimentos Por Minuto (2017), de Robin Campillo

Sinopse: França, início dos anos 1990. O grupo ativista Act Up está intensificando seus esforços para que a sociedade reconheça a importância da prevenção e do tratamento em relação a AIDS. Recém-chegado ao grupo, Nathan (Arnaud Valois) logo fica impressionado com a dedicação de Sean (Nahuel Pérez Biscayart), apesar de seu estado de saúde cada vez mais delicado.

Por que assistir? É o raro tipo de história que funciona ao misturar o registro quase documental de um movimento verídico (o Act Up, criado para exigir do governo medidas de prevenções contra a AIDS) e a jornada muito íntima e dolorosa de um personagem diagnosticado com a doença. Trata-se de uma sessão difícil, equivalente a um soco no estômago, mas com uma discussão muito bonita e, como podemos constatar ainda hoje, sempre muito urgente.


Acima das Nuvens (2014), de Olivier Assayas

Sinopse: Maria Enders (Juliette Binoche) é uma famosa atriz que fica perturbada com o fato de que JoAnn (Chloë Moretz), jovem estrela de Hollywood, irá interpretar o papel que a fez famosa há vinte anos. Convidada a dividir o palco com a novata, uma insegura Enders viaja até os Alpes para ensaiar e conta com o apoio de sua assistente (Kristen Stewart) no confrontamento com seu passado.

Por que assistir? La Binoche está em um de seus melhores papeis recentes, e isso já seria o suficiente para justificar a espiada, mas Acima das Nuvens também transformou de vez a carreira de Kristen Stewart, que, aqui, finalmente se firmou como uma das atrizes mais interessantes de sua geração. O diretor Sem nunca soar erudito ou ininteligível, o diretor Olivier Assayas é espetacular ao misturar a linguagem cinematográfica e teatral, explorando com fascínio duas personagens femininas muito complexas e refletindo sobre processos artísticos, aqui representados no ofício da interpretação.


Mapas Para as Estrelas (2014), de David Cronenberg

Sinopse: Agatha Weiss (Mia Wasikowska) acabou de chegar a Los Angeles e logo conhece Jerome Fontana (Robert Pattinson), um jovem motorista de limusine que sonha se tornar ator. Não demora muito para que ela comece a trabalhar para Havana Segrand (Julianne Moore), uma atriz decadente que está desesperada para conseguir o papel principal da refilmagem de um sucesso estrelado por sua mãe, décadas atrás. Paralelamente, o garoto Benjie Weiss (Evan Bird) enfrenta problemas ao lidar com seu novo colega de elenco. 

Por que assistir? Com esse filme, Julianne Moore completou a sua trinca de consagrações nos festivais de cinema mais importantes do mundo, levando o prêmio de melhor atriz em Cannes (ela já havia vencido Berlim por As Horas e Veneza por Longe do Paraíso). Ácido e provocador, o filme de David Cronenberg carrega o DNA dos melhores trabalhos da carreira da atriz, propondo uma viagem bastante crítica por uma Hollywood vista aqui essencialmente como indústria — e, por isso mesmo, tão viciada, destrutiva e ilusória.


Ausência (2014), de Chico Teixeira

Sinopse: Serginho (Matheus Fagundes) é um menino de 14 anos muito mais maduro que os outros jovens de sua idade. Ele cuida de seu irmão mais novo, Wiliam, e de sua mãe ausente e alcoolatra, Luzia. O único adulto com quem Serginho tem um relacionamento de afeto é o professor Ney, que o ajuda com o dever de casa durante à noite. A confusão entre o despertar de sua sexualidade e a busca de uma figura paterna faz Serginho perceber que ele está sozinho no mundo.

Por que assistir? Foi o último longa-metragem do cineasta Chico Teixeira, falecido em dezembro do ano passado, e talvez o seu mais marcante. Agraciado no Festival de Cinema de Gramado com os prêmios de melhor filme, direção, roteiro e trilha sonora, o drama retrata o cotidiano desolador de seu protagonista focando na maneira íntima e introspectiva com que ele lida com tanto desamparo e solidão. É um bonito e tocante relato sobre um garoto que a vida insiste em tornar adulto antes da hora.


Dois Dias, Uma Noite (2014), de Jean-Pierre e Luc Dardenne

Sinopse: Após se afastar do trabalho por conta da depressão, Sandra (Marion Cotillard) perde seu emprego pois outros trabalhadores da fábrica preferiram receber um bônus ao invés de mantê-la na equipe. Ela descobre que alguns de seus colegas foram persuadidos e abraça uma tarefa complicada para o final de semana: visitar os colegas de trabalho e convencê-los a abrir mão de seus bônus para que possa manter o seu emprego.

Por que assistir? Se não fosse por Piaf – Um Hino ao Amor, essa certamente seria a melhor interpretação da bela carreira de Marion Cotillard. Aqui ela está sem uma grama de maquiagem para dar vida à protagonista de um filme naturalista, falado em francês, resumido a diálogos e que é tanto o humano retrato de uma mulher enfrentando a depressão quanto uma provocadora análise sobre a hipocrisia, o individualismo e mercantilização das relações trabalhistas. É o combo perfeito: uma atriz espetacular à frente de um filme cuja trama fornece todas as ferramentas para que ela possa brilhar.

Tully, de Jason Reitman

PRIME VIDEO

Trama Fantasma (2017), de Paul Thomas Anderson

Sinopse: Década de 1950. Reynolds Woodcock (Daniel Day-Lewis) é um renomado e confiante estilista que trabalha ao lado da irmã, Cyril (Lesley Manville), para vestir grandes nomes da realeza e da elite britânica. Sua inspiração surge através das mulheres que constantemente entram e saem de sua vida. Mas tudo muda quando ele conhece a forte e inteligente Alma (Vicky Krieps), que vira sua musa e amante.

Por que assistir? Para investigar os vícios e os malefícios das relações amorosas, Paul Thomas Anderson cria dois protagonistas fascinantes justamente por serem tão opostos e difíceis. Daniel Day-Lewis, no último filme antes de sua aposentadoria, tem em Vicky Krieps uma companheira de tela à altura, e ambos redimensionam os inúmeros significados dessa obra elegantíssima que, entres outros tantos pontos brilhantes, ainda tem uma interpretação irretocável da coadjuvante Lesley Manville e uma trilha hipnotizante de Jonny Greenwood.


Precisamos Falar Sobre o Kevin (2011), de Lynne Ramsay

Sinopse: Eva (Tilda Swinton) mora sozinha e teve sua casa e carro pintados de vermelho. Maltratada nas ruas, ela tenta recomeçar a vida com um novo emprego e vive temorosa, evitando as pessoas. O motivo desta situação vem de seu passado, da época em que era casada com Franklin (John C. Reilly), com quem teve dois filhos: Kevin e Lucy. Seu relacionamento com o primogênito, Kevin, sempre foi complicado, desde quando ele era bebê. Com o tempo a situação foi se agravando mas, mesmo conhecendo o filho muito bem, Eva jamais imaginaria do que ele seria capaz de fazer.

Por que assistir? Poucos crimes da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood foram tão indesculpáveis dos anos 2000 para cá quanto o esquecimento de Tilda Swinton na disputa pelo Oscar de melhor atriz em 2012. Melhor do que todas as concorrentes daquele ano, Tilda é um assombro nesse conto perturbador sobre a difícil relação de uma mãe com o filho que, no fundo, ela nunca quis ter. Lynne Lamsay adapta o best-seller homônimo de Lionel Shriver com liberdade e identidade, navegando da maternidade à psicopatia em uma obra dramaticamente assustadora.


A Garota Ideal (2007), de Craig Gillespie

Sinopse: Lars Lindstrom (Ryan Gosling) é um homem tímido e introvertido que vive na garagem de seu irmão mais velho. Lars apenas acompanha o desenrolar de sua vida, sem se mexer para algo. Até que um dia ele encontra Bianca, uma missionária religiosa, através da internet. O problema é que para as pessoas Bianca não é alguém real, mas a réplica de uma mulher, feita de silicone. Só que Lars acredita piamente que ela é um ser humano, o que faz com que se torne seu apoio emocional.

Por que assistir? É uma das interpretações menos lembradas da carreira de Ryan Gosling, mesmo sendo, possivelmente, o seu momento mais interessante. Conhecendo a carreira de Craig Gillespie (Eu, Tonya e diversos episódios da série United States of Tara com Toni Collete), já é possível prever que essa não será uma sessão comum. E a impressão se confirma: comédia e drama se misturam em um filme que renega convenções e que investiga a nossa (in)capacidade de ressignificar a compreensão, a superação e aceitação.


Tully (2018), de Jason Reitman

Sinopse: Marlo (Charlize Theron), mãe de três filhos, sendo um deles um recém-nascido, vive uma vida muito atarefada, e, certo dia, ganha de presente de seu irmão: uma babá para cuidar das crianças durante a noite. Antes um pouco hesitante, Marlo acaba se surpreendendo com Tully (Mackenzie Davis).

Por que assistir? Pouco se falou sobre esse belo e singelo filme de Jason Reitman que atesta sua maturidade cada vez maior como observador da vida urbana. Dessa vez, novamente acompanhado da roteirista Diablo Cody (em seu melhor texto), ele explora a maternidade a partir de tudo o que ela pode trazer de mais cansativo. Claro que ele não abandona a beleza proporcionada pela chegada de um filho, mas o viés é outro: cansada, sem vaidade e sempre enrolada em uma rotina caótica, a Margo de Charlize Theron mostra como a maternidade pode ser um dos momentos mais solitários e exaustivos da vida de uma mulher. Tudo muito real, agridoce e com um desempenho excepcional de Charlize.


Sem Fôlego (2017), de Todd Haynes

Sinopse: Gunlint, Minnesota, 1977. Ao atender um telefonema, o garoto Ben (Oakes Fegley) é atingido pelo reflexo de um raio, que caiu bem em sua casa. Esta situação faz com que seja levado a um hospital em Nova York, onde descobre que não consegue mais ouvir um som sequer. Em 1927, a jovem surda Rose (Millicent Simonds) foge de sua casa em Nova York para encontrar sua mãe, a consagrada atriz Lillian Mayhew (Julianne Moore). A vida destes dois garotos que não conseguem mais ouvir está interligada a partir de um livro de curiosidades que os leva ao Museu de História Natural.

Por que assistir? Logo após ter conquistado o coração de incontáveis plateias mundo afora com Carol, o diretor Todd Haynes realizou essa fábula que passou despercebida pelo circuito comercial e que dividiu opiniões entre os críticos. Ainda que imperfeito, Sem Fôlego ganha pontos por não ser um filme acomodado e que constrói tudo com ritmo e personalidade próprios. Bem diferente do cinema fantástico, ritmado e comercial que, inevitavelmente, a sua promoção sugere, o longa coloca dois personagens na linha de frente para examinar a busca de cada um por algum tipo de pertencimento. Vale pela parte técnica, por seu universo particular e pela comovente participação especial de Julianne Moore

Desobediência, de Sebastián Lelio

HBO GO

Até o Fim (2013), de J.C. Chandor

Sinopse: Um navegador experiente (Robert Redford) está viajando pelo Oceano Pacífico, quando uma colisão com um contâiner leva à destruição parcial do veleiro. Ele consegue remendar o casco, mas terá a difícil tarefa de resistir às tormentas e aos tubarões para sobreviver, além de contar apenas com mapas e com as correntes marítimas para chegar ao seu destino.

Por que assistir? Espécie de Gravidade em alto-mar, Até o Fim é a jornada solo e sem diálogos de um homem que, após perder tudo (não sabemos exatamente o quê nem como), passa a encarar a vida como uma penitência. Ao invés de ser simplesmente uma aventura de sobrevivência, tudo é reinterpretado a partir da forma como o protagonista encara tudo o que vive. No rosto envelhecido de Robert Redford e em sua interpretação minimalista, encontramos um homem que, ao se deparar com tormentas e naufrágios parece seguir em frente por acreditar que, através deles, encontrará algum tipo de redenção. Quase nada é dito e respostas não são dadas, mas, ainda assim, tudo parece devidamente preenchido. 

Boogie Night – Prazer Sem Limites (1997), de Paul Thomas Anderson

Sinopse: Eddie Adams (Mark Wahlberg) é um jovem de 17 anos sexualmente bem-dotado. Ele é descoberto por Jack Horner (Burt Reynolds), um diretor veterano que o transforma em Dirk Diggler, uma celebridade da subcultura do mundo pornô no apogeu dos anos 70. O sucesso faz com que Eddie se envolva no mundo das drogas e a súbita fama pode ter seu preço.

Por que assistir? Segundo longa-metragem de Paul Thomas Anderson, Boogie Nights é um filme para maiores porque, claro, fala sobre a indústria pornográfica, mas porque pisa no acelerador para mostrar toda a turbulência de uma indústria cujos bastidores eram cercados por muito sexo, música e drogas. Exatamente como viria a fazer logo em seguida no também cultuado Magnólia, PTA cria um mosaico de personagens muito fortes e distintos. Temos destaques pontuais no elenco (minha favorita é Julianne Moore, como uma atriz pornô que luta pela guarda dos filhos), mas Boogie Nights é redondinho, além de muito pop (não deixem de revisitar a trilha sonora sempre que possível) e afinado com o melhor do cinema dos anos 1990.

Desobediência (2017), de Sebastián Lelio

Sinopse: A fotógrafa Ronit (Rachel Weisz) retorna para a cidade natal pela primeira vez em muitos anos em virtude da morte do pai, um respeitado rabino. Seu afastamento foi bastante abrupto e o reaparecimento é visto com desconfiança na comunidade, mas ela acaba acolhida por um amigo de infância (Alessandro Nivola), para sua surpresa atualmente casado sua paixão de juventude, Esti (Rachel McAdams).

Por que assistir? Depois de realizar pérolas como Gloria Uma Mulher Fantástica, o diretor chileno foi para os Estados Unidos realizar seu primeiro longa-metragem em língua inglesa. O interessante é que, ao contrário do que costuma acontecer com diretores “estrangeiros” que estreiam em Hollywood, Sebastián Lelio continua muito fiel a sua identidade como realizador, tocando em conflitos clássicos como o da religião versus homossexualidade sem o menor resquício de estereótipos ou apelações. Desobediência é uma obra sóbria e discreta, o que potencializa a relação tão intensa mas silenciosa das protagonistas, interpretadas com excelência por Rachel Weisz e Rachel McAdams.

Eu, Meu Irmão e Nossa Namorada (2007), de Peter Hedges

Sinopse: Dan Burns (Steve Carell) é um pai viúvo de três garotas que escreve uma coluna periódica em jornal onde compreende e resolve os problemas dos outros. Quando sai de férias com a família ele conhece Marie (Juliette Binoche), uma mulher inteligente e simpática por quem se apaixona. Só que, já na casa de praia e cercado por familiares, Dan descobre que Marie é a nova namorada de seu irmão mais novo, Mitch (Dane Cook), que diz estar profundamente apaixonado por ela.

Por que assistir? Juliette Binoche fazendo par romântico com Steve Carell? E com um ótimo elenco de coadjuvantes formado por Dianne Wiest, Amy Ryan, Allison Pill e John Mahoney? Pois Eu, Meu Irmão e Nossa Namorada aproveita é mesmo um filme tocante e bem interpretado. Também é trágico e cômico nas mesmas proporções (o protagonista se apaixona logo pela namorada do irmão após anos de luto!), como vários dos melhores papeis de Steve Carell, um grande ator especialista em personagens dessa natureza. É uma comédia com toques de melancolia e que encontra profundidade na leveza, algo difícil de construir. 

Guerreiro (2011), de Gavin O’Connor

Sinopse: Tommy Conlon (Tom Hardy) é o filho mais novo de Paddy (Nick Nolte) e voltou há pouco tempo para casa. Tommy supera os problemas do pai com bebida e passa a treinar com ele para poder participar de campeonatos de MMA (Mixed Martial Arts), o famoso vale-tudo. Só que sua trajetória faz com que tenha que enfrentar no ringue Brendan Conlon (Joel Edgerton), seu próprio irmão.

Por que assistir? Em sua premissa, Guerreiro exala masculinidade ao falar sobre dois irmãos envolvidos com a prática MMA. No entanto, o filme de Gavin O’Connor só tem a casca grossa. Por dentro, é capaz de fazer qualquer marmanjo se emocionar. As lutas e a testosterona são, na realidade, mero pano de fundo para uma história sobre cicatrizes familiares e sobre dos irmãos diferentes, distantes e abandonados por um pai alcoolista. Os dramas são clássicos, e Guerreiro não se preocupa muito em se distanciar dessa ideia, o que não é desculpa para que o longa se afunde em melodramas. Pelo contrário: Gavin O’Connor dirige com firmeza e encontra em Joel Edgerton, Tom Hardy e Nick Nolte a dinâmica perfeita para encontrar a emoção de almas frágeis em meio aos socos e pontapés de homens musculosos.

Minha Vida de Abobrinha, de Claude Barras

NOW

Luce (2019), de Julius Onah

Sinopse: Luce (Kelvin Harrison Jr.) é um jovem brilhante, além de ser muito estudioso, campeão em debates e um excelente atleta. Tudo isso faz com que seus pais adotivos (Naomi Watts e Tim Roth) sejam muito orgulhosos. No entanto, a professora de Lucas, Harriet (Octavia Spencer), descobre um artigo político escrito por ele que revela traços obscuros de sua personalidade desencadeando uma série de situações negativas na vida de todos os envolvidos.

Por que assistir? Para quem gostou de Dúvida, o provocador Luce é uma excelente pedida. Novamente, está em jogo a índole de personagens que, a partir de um acontecimento específico não encenado pelo filme, acabam se confrontando para provar sua própria inocência ou sanidade. Dessa vez, discussões raciais, sociais e familiares dos Estados Unidos se espalham pela trama, sem tons panfletários, instiganto tanto os personagens do filme que frequentemente oscilam suas opiniões diante dos fatos quanto o espectador que, sem ter a exatidão de cada motivação, se vê encurralado a não tomar nada como certo. Importante: Octavia Spencer está melhor aqui do que em qualquer indicação que já recebeu ao Oscar.

Bixa Travesty (2018), de Claudia Priscilla e Kiko Goifman

Sinopse: O corpo político de Linn da Quebrada, cantora transexual negra, é a força motriz desse documentário que captura a sua esfera pública e privada, ambas marcadas não só por sua presença de palco inusitada, mas também por sua incessante luta pela desconstrução de esteriótipos de gênero, classe e raça. 

Por que assistir? Caso você se considere uma pessoa desconstruída, espere até ver um show de Linn da Quebrada. E se você não tiver a oportunidade, talvez Bixa Travesty seja o suficiente para constatar que, apesar dos avanços, precisamos sempre discutir muito sobre raça, corpo e sexualidade. Com tamanha força, Linn acaba sendo maior do que Bixa Travesty em si, um documentário totalmente entregue a sua personagem. Isso não chega a ser um problema quando a personagem é de fato forte e interessante como acontece aqui, o que acaba fazendo com que o documentário só abra ainda mais os nossos horizontes.

As Herdeiras (2018), de Marcelo Martinessi

Sinopse: Chela (Ana Brun) e Chiquita (Margarita Irún), herdeiras de famílias abastadas do Paraguai, vivem da venda de seus bens. Quando Chiquita acaba presa por dívidas jamais acertadas, a até então submissa e reclusa Chela precisa se virar e começa por acaso a prestar serviço para um grupo de senhoras ricas como motorista. Logo a nova realidade, e especialmente a exuberante Angy (Ana Ivanova), a quem conhece durante o trabalho, afetam os interesses, prioridades e atitudes da taxista amadora.

Por que assistir? Representante do Paraguai na disputa por uma vaga ao Oscar de melhor filme internacional em 2019, As Herdeiras varreu o 46º Festival de Cinema de Gramado, onde levou, entre seis categorias, a rara tríplice coroa de melhor filme pelos júris oficial, popular e da crítica. Merecidíssimo, tendo em vista que o longa de Marcelo Martinessi é um delicado mergulho na autodescoberta — afetiva, sexual, emocional — de uma mulher nos seus 60 anos. O trio principal de atrizes é maravilhoso, mas Ana Brun é um show à parte, com uma atuação tão contida quanto imensa.

45 Anos (2015), de Andrew Haigh

Sinopse: Kate (Charlotte Rampling) está planejando a festa de comemoração dos 45 anos de casada. Porém, cinco dias antes do evento, o marido recebe uma carta: o corpo de seu primeiro amor foi encontrado congelado no meio dos Alpes Suíços. A estrutura emocional dele é seriamente abalada e Kate já não sabe se vai ter o que comemorar durante a festa.

Por que assistir? Em seus melhores momentos, o diretor Andre Haigh é um exímio observador de relacionamentos amorosos mais cotidianos. Foi assim com Weekend, seu primeiro longa-metragem, centrado no fim de semana romântico de dois personagens gays, e depois com o espetacular 45 Anos, que acompanha a semana em que um casal já na terceira idade prepara a sua festa de 45 anos de matrimônio. Dizer que Charlotte Rampling é uma força da natureza nesse filme não é o suficiente, uma vez que o próprio 45 Anos acompanha a grandeza de sua protagonista: em detalhes, Haigh analisa o efeito que o tempo causa nas relações e o quanto elas nos definem para o bem e para o mal. Assombroso.

Minha Vida de Abobrinha (2016), de Claude Barras

Sinopse: Apelidado Abobrinha, Icare, um sensível menino de nove anos, é deixado pela polícia em um orfanato depois que sua mãe falece. Deslocado neste novo universo, ele aos poucos começa a se relacionar com as outras crianças e descobre o significado de amizade e confiança.

Por que assistir? Céline Sciamma, a diretora de Tomboy Retrato de Uma Jovem Chamas, é coautora do roteiro dessa delicada animação francesa que chegou a concorrer ao Oscar. Apesar dos personagens carismáticos e do adorável visual, não estamos falando, entretanto, de um trabalho tematicamente destinado às crianças. Aliás, tudo é bastante adulto: ambientado em um orfanato, Minha Vida de Abobrinha fala sobre a vida de crianças criadas por pais acoolistas e abusivos ou então abandonadas por eles. Sem conhecer o real significado de amor e companheirismo, elas encontram a generosidade ao serem unidas pelas histórias trágicas que compartilham. É de cortar o coração, mas também capaz de deixar um esperançoso sorriso no rosto.

“Clemency”: vencedor de Sundance, drama sobre as reverberações do corredor da morte faz Alfre Woodard brilhar absoluta

I do my job.

Direção: Chinonye Chukwu

Roteiro: Chinonye Chukwu

Elenco: Alfre Woodard, Richard Schiff, Aldis Hodge, Wendell Pierce, Danielle Brooks, Michael O’Neill, Richard Gunn, LaMonica Garrett, Vernee Watson, Dennis Haskins, Alex Castillo, Alma Martinez, Michelle C. Bonilla

EUA, 2019, Drama, 112 minutos

Sinopse: A diretora (Alfre Woodard) de uma prisão de segurança máxima para homens é confrontada com seus próprios demônios psicológicos e emocionais, quando desenvolve um vínculo com o prisioneiro (Aldis Hodge) no corredor da morte que ela está programada para executar. (Adoro Cinema)

A primeira cena de Clemency, filme que venceu o Festival de Sundance em 2019, é muito impactante. Nela, Bernardine Williams (Alfre Woodard) cumpre os protocolos habituais daquela que é uma das tarefas mais recorrentes de seu cotidiano profissional: executar presidiários condenados à pena de morte. Dessa vez, entretanto, o destino parece dizer alguma coisa: os médicos não encontram uma artéria apropriada no braço para injetar o líquido que levará o homem em questão à morte. Também não encontram no pé. Até que, a muito custo, localizam a artéria femoral, situada ao longo das coxas. Algo segue dando errado: o homem começa a ter uma espécie de convulsão, e sangue passa a escorrer da artéria onde está sendo injetado o líquido fatal. Nada, no entanto, evita o óbito do condenado, mesmo com um ritual problemático e tão traumático que parecia um presságio para algum tipo de reviravolta.

Claro que toda a circunstância é inegavelmente perturbadora, mas a sequência incomoda pela expressão indecifrável, rígida e esvaziada de Bernardine naquele momento. Como a diretora de um corredor da morte, ela está acostumada a executar pessoas e enxerga tudo aquilo apenas como uma profissão, excluindo da equação o fator humano ou a brutalidade de um sistema punitivo tão tortuoso como o dos Estados Unidos. Realmente é possível alguém viabilizar um punhado de execuções com alguma naturalidade? Quantos óbitos dessa natureza um ser humano precisa testemunhar para tratar essa tarefa como mais uma entre tantas outras de uma checklist profissional? Também cito essa cena específica, pois é dela que nascem as duas abordagens fundamentais para compreender e discutir Clemency.

A primeira é hipnotizante: a do filme como estudo de caso de uma personagem. E não qualquer personagem, mas uma mulher negra bem sucedida e de personalidade, responsável por um setor onde só circulam homens. A rigidez com que Bernardine coordena o corredor da morte é abalada quando ela recebe a notícia de que, em virtude dos problemas ocorridos na execução do mais recente condenado, uma investigação acerca desse trabalho será conduzida no presídio. Mais importante do que isso, o assunto passa a repercutir dentro e fora do local, e Bernardine, talvez pela primeira vez afetada pela natureza da sua profissão, começa gradualmente a ter problemas de sono, a frequentar bares com maior frequência e a se tornar uma pessoa cada vez mais impenetrável. É um turbilhão interno de emoções muito discreto, sem o mínimo traço de obviedade.

Já o segundo recorte é menos sutil e contundente: aquele que leva Clemency para uma discussão sobre os dilemas e as contradições da pena de morte. Tal abordagem é desenhada com propriedade mulher e negra, a diretora Chinonye Chukwu é efetiva ao dosar dilemas íntimos e coletiva dentro desse contexto marcado por discussões raciais , mas o que não funciona é a atenção excessiva a uma subtrama onde acompanhamos a trajetória emocional de um presidiário negro que, supervisionado por Bernardine e defendido por um advogado em conflito com sua profissão, tem a esperança de conseguir escapar da execução. A subtrama tira a harmonia do filme porque corta tempo de tela da hipnotizante protagonista e porque, apesar dos comentários sociais e das reflexões que busca trazer, o personagem simplesmente não desperta o devido interesse.  

Sem fazer da história um relato de emoções mais clássicas e lacrimosas como Os Últimos Passos de Um Homem ou À Espera de Um Milagre, dois célebres títulos também ambientados em um corretor da morte, Clemency se apropria da rigidez da protagonista como parte de sua própria personalidade como filme. Faz sentido e funciona: na medida em que Bernardine ferve um punhado de sentimentos tempestuosos, a diretora não deixa que as eventuais angústias e desesperos da protagonista se traduzam em diálogos espetaculosos ou em conflitos hiperbólicos. Mesmo o casamento desgastado de Bernardine, que poderia ser considerada a faceta mais tradicional da trama, é desenvolvido uma dinâmica muito particular entre o casal. O próprio fato de ela ter que lidar diariamente com a morte também não é o fim do mundo, algo pouco habitual em longas dessa temática.

Ao alternar entre a história da protagonista e a jornada do detento que está prestes a ser executado, Clemency, ao invés de se complementar, resulta indeciso entre a vontade de ser o íntimo conto de uma mulher bastante particular e a reflexão acerca do sistema prisional estadunidense. Do micro ao macro, o filme se desencontra com frequência, mas acaba sempre voltando para aquilo que eleva a sua potência: Alfre Woodard. Solenemente ignorada na última temporada de premiações, inclusive pelas associações de críticos que costumam garimpar desempenhos fora da curva como esse, Alfre é uma gigante em cena. Com uma presença pulsante, ela é enigmática e transparente nas mesmas proporções para o espectador, canalizando uma imensidão de sentimentos em um desempenho milimétrico e também muito livre em criações e sentimentos. Em suma, Clemency tem sim suas virtudes, mas, no frigir dos ovos, o show é todo (e somente) de Alfre.

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