Cinema e Argumento

Rapidamente: “Alvorada”, “Amor, Casamentos e Outros Desastres”, “O Diabo de Cada Dia” e “A Mulher na Janela”

alvoradafilme

Dirigido por Anna Muylaert e Lô Politi, Alvorada registra, com imagens exclusivas, os últimos dias de Dilma Rousseff como presidenta do Brasil.

ALVORADA (idem, 2021, de Anna Muylaert e Lô Politi): Depois de O ProcessoDemocracia em Vertigem, fica difícil um documentário tão recente sobre o impeachment da presidenta Dilma Rousseff dizer algo que já não tenha sido dito por seus semelhantes. E, por mais que Anna Muylaert e Lô Politi tentem dar um caráter mais íntimo e exclusivo para os últimos dias de Dilma à frente do Brasil a partir de filmagens exclusivas, Alvorada não se sustenta de forma mais sólida em termos de conceito. É interessante ver os bastidores do Palácio da Alvorada e como a vida diária se configura lá dentro, mas isso é tudo o que o documentário tem a dizer. Não ajuda também o fato de só haver uma única entrevista com Dilma Rousseff, que muito provavelmente deve ter durado tão pouco a ponto de ser usada apenas duas ou três vezes ao longo da projeção. Aliás, vale perceber como o filme é mais uma colagem do maior número de imagens possíveis capturadas com exclusividade pela equipe do que um documentário abertamente planejado, deixando a sensação de que suas ideias só tomaram forma de fato na sala de edição. E esse é um problema dos grandes se considerarmos que, politicamente falando, Alvorada já é direcionado a um público específico. Sem o frescor ou a consistência cinematográfica de O ProcessoDemocracia em Vertigem, acaba tendo uma aderência ainda menor diferentes plateias. Para o público-alvo a qual o filme é endereçado, funciona a proposta de “humanizar” a figura de Dilma Rousseff, vista aqui como uma mulher múltipla em ideias, sentimentos e temperamentos como qualquer outra do planeta. Muylaert e Politi apenas observam o cotidiano da ex-presidenta e, no pouco que conseguiram fazê-la sentar para conversar, garantiram os melhores momentos de Alvorada, quando, por exemplo, Dilma fala que sempre foi uma mulher que nunca se desestabilizou. É em sequências como essa que constamos que, curiosamente, portanto, o que falta no documentário é mais do verdadeiro íntimo de sua retratada.

AMOR, CASAMENTOS E OUTROS DESASTRES (Love, Weddings & Other Disasters, 2020, de Dennis Dugan): Tudo o que eu precisava quando dei play em Amor, Casamentos e Outros Desastres era de uma comédia bobinha, romântica e descontraída para me desligar desses tempos tenebrosos que vivemos. E, nesse caso, ainda havia o tempero extra do primeiro encontro entre Diane Keaton e Jeremy Irons no cinema. Tudo não passou de uma ilusão, e a verdade é que marquei bobeira ao não observar o nome de Dennis Dugan na direção. Responsável por uma penca de filmes horroroso estrelados por Adam Sandler (Cada Um Tem a Gêmea Que MereceGente GrandeEu os Declaro Marido e… Larry), Dugan consegue a façanha de bagunçar e aborrecer um formato de filme que, de tão explorado, o mais básico dos diretores já deveria conseguir desenvolver com o mínimo de desenvoltura. Isso mesmo, já vimos Amor, Casamentos e Outros Desastres um punhado de vezes, e não só por ser mais uma comédia ruim feita por Diane Keaton faz para se manter ativa porque papeis melhores não lhe são ofertados: partindo de um mosaico de personagens em histórias conectadas por uma temática em comum (nesse caso, o amor e o planejamento de casamentos), o roteiro tenta fazer graça com piadas que variam do mau gosto, como cegos tropeçando em móveis a anões participando de programas de relacionamento na TV, até histórias que, desde o primeiro minuto, já sabemos qual será o desfecho. O pior de tudo é ver como o roteiro, também assinado por Dugan, é inábil na tarefa de criar qualquer personagem interessante. Tudo é tão desregulado e sem timing que nem mesmo Keaton e Irons conseguem construir algo remotamente cativante, inclusive porque ambos vivem o recorte motivacional e manjado da trama, onde um homem rígido e certinho começa a encarar o mundo com mais espontaneidade ao se relacionar afetivamente com uma mulher cega. Nem como muito esforço dá para escapar da afirmação de que Amor, Casamentos e Outros Desastres é uma verdadeira bomba.

O DIABO DE CADA DIA (The Devill All the Time, 2020, de Antonio Campos): Caso fosse lançado no início dos anos 2000, O Diabo de Cada Dia estaria ao lado de Babel e Crash – No Limite como um filme-elenco de sucesso, especialmente no tocante às premiações. O que os três longas-metragens têm em comum são as histórias interligadas pelo acaso, pela violência ou pela incomunicabilidade — e, muitas vezes, por esses três elementos ao mesmo tempo. Entretanto, tendo estreado em 2020 no catálogo da Netflix, o filme de Antonio Campos não se destaca pelo frescor do formato como seus similares à época e enfrenta um problema maior: ainda que disponha de 140 minutos para desenvolver uma infinidade de personagens e reviravoltas, o resultado não dá conta do tanto que tenta abraçar. Há de se reconhecer que a narração hipnótica de Donald Ray Pollock, autor do livro homônimo em que o filme se baseia, é um caso raríssimo onde essa ferramenta pode ser usada com sabedoria para expandir o que está sendo visto na tela e colocar em palavras aquilo que não precisa ser necessariamente mostrado, mas a sucessão de reviravoltas, mortes e tragédias é tão grande e contempla tantos personagens que, em determinado ponto, O Diabo de Cada Dia se esvazia e já não consegue mais conferir potência e significado a suas dolorosas odisseias geracionais. Ao ter no elenco uma excelente matéria-prima para a força do drama, Antonio Campos dirige alguns nomes com mais eficiência do que outros: enquanto Bill Skarsgård se destaca com um papel pequeno e forte, Tom Holland assume com maturidade a maior parcela de protagonismo da história, ao passo que Robert Pattinson, vindo de uma escalada de excelentes desempenhos (Bom Comportamento e O Farol são alguns deles), inexplicavelmente pesa a mão no sotaque e em uma interpretação que nos remete aos ares robóticos do início de sua carreira. Se O Diabo de Cada Dia não chega a ser grande, ao menos nos instiga a ir atrás do livro para ver se lá, com o ritmo mais detalhado da literatura, tudo ganha a devida tração.

A MULHER NA JANELA (The Woman in the Window, 2021, de Joe Wright): Vítima das grandes expectativas em torno de sua realização, A Mulher na Janela é mais um divertido entretenimento do que o suspense sofisticado que se poderia esperar da união de nomes como Joe Wright, Tracy Letts, Amy Adams e Julianne Moore. Contudo, filmes são o que são e não aquilo que gostaríamos que eles fossem, o que explica o ódio desproporcional atribuído ao resultado de A Mulher na Janela. Adaptado do romance de mesmo nome assinado por A.J. Finn em 2018, o longa foi modificado inúmeras vezes como resposta às reações negativas de suas primeiras sessões de teste, passando por cortes e novas filmagens, até ser levado para estreia direta na Netflix após a desistência da 20th Century Fox de lançá-lo nos cinemas. Nunca é bom sinal quando um estúdio interfere demais no corte final de um filme, muito menos quando se torna público o receio de que ele finalmente encontre o público da forma como foi concebido. E é verdade que a versão apresentada de A Mulher na Janela tem limitações e descompassos, mas há algo fundamental que me faz defendê-lo: o fato dos realizadores não esconderem, desde o primeiro minuto, a natureza expositiva, acentuada e até hiperbólica de seu suspense. Essa honestidade é muito bem-vinda porque regula expectativas e ajuda o espectador a embarcar no tom que será trabalhado ao longo da projeção. Como um todo, A Mulher na Janela é bem sustentado pela ótima presença de Amy Adams e até mesmo por Joe Wright, que, apesar de funcionar melhor comandando produções de época (Orgulho e PreconceitoDesejo e Reparação), consegue conferir certa elegância a uma concepção narrativa e estética que tem sido reduzida pela crítica a comparações com o desejo do diretor em emular Janela Indiscreta, de Alfred Hitchcock. Aos trancos e barrancos, o senso de diversão de A Mulher na Janela como um lançamento Netflix compensa o percurso atribulado trilhado por uma obra que é o que é, não aquilo que gostaríamos que ela fosse. 

“Meu Pai”, um retrato avassalador dos labirintos da mente e da finitude da vida

Who exactly am I?

Direção: Florian Zeller

Roteiro: Christopher Hampton e Florian Zeller, baseado no espetáculo “Le Père”, de Florian Zeller

Elenco: Anthony Hopkins, Olivia Colman, Mark Gatiss, Olivia Williams, Imogen Poots, Rufus Sewell, Ayesha Dharker, Roman Zeller, Scott Mullins

The Father, Reino Unido/França, 2020, Drama, 97 minutos

Sinopse: Um homem idoso (Anthony Hopkins) recusa toda a ajuda de sua filha (Olivia Colman) à medida que envelhece. Ela está se mudando para Paris e precisa garantir os cuidados dele enquanto estiver fora, buscando encontrar alguém para cuidar do pai. Ao tentar entender suas mudanças, ele começa a duvidar de seus entes queridos, de sua própria mente e até mesmo da estrutura da realidade. (Adoro Cinema)

Era um tanto quanto inevitável que, tendo convivido durante muitos com um familiar próximo que sofria do Mal de Alzheimer, Meu Pai me atingisse de forma íntima e pessoal. Ainda assim, tive certa cautela: tema que costuma ganhar tratamentos formais ou excessivamente melodramáticos para deixar alguma lição, a deterioração física e mental da terceira idade não ganhava um relato memorável desde 2013, quando o austríaco Michael Haneke realizou o drama Amor. Já no caso específico do Mal de Alzheimer ou da demência, é bem provável que o último exemplar verdadeiramente delicado e comovente seja de 2006, ano em que Sarah Polley dirigiu Julie Christie em Longe Dela, adaptação do conto The Bear Came Over the Mountain, de Alice Munro. Por mais que filmes dessa natureza surjam aos montes, como Iris, estrelado por Judi Dench e Kate Winslet, ou então Para Sempre Alice, que deu o Oscar de melhor atriz para Julianne Moore, são raros os vislumbres de criatividade e franqueza para retratar uma fase tão complicada da vida sem jogadas apelativas ou a vontade de ser um laudo cinematográfico de doenças que nos acometem na velhice.

E agora temos Meu Pai, que não só é um caso totalmente à parte como também se apresenta como o tipo de projeto que redefine o modo de contar histórias sobre essa temática. Sempre evito fazer tamanha afirmação, mas parece inevitável: em emoção e estrutura, não tenho notícias de outra discussão semelhante a essa que o francês Florian Zeller adapta de “Le Pére”, peça de autoria própria que estreou em 2012 na França e que chegou a ganhar o conceituado prêmio Molière de melhor espetáculo, sendo adaptada para países como os Estados Unidos com Frank Langella e para o Brasil com Fúlvio Stefanini. Aqui, o já esperado componente emocional é emoldurado pela decisão singular de narrar a história a partir da perspectiva do doente e não do cuidador, o que propõe um importante exercício de empatia (e, no caso de quem conviveu com alguém em situação equivalente à vivida pelo protagonista, tudo se ressignifica com imensa força). Melhor ainda é ver Zeller dando conta de um desafio em que até diretores como Roman Polanski já falharam: o de adaptar um espetáculo teatral para o cinema sem qualquer resquício da linguagem e da dinâmica dos palcos. Esse mérito, vale grifar, também vai para a conta de um roteiro muito bem lapidado que ele assina em parceria com Christopher Hampton, um craque das adaptações que tem no currículo trabalhos marcantes como Ligações Perigosas e Desejo e Reparação.

Com um belo e bem-vindo poder de síntese, Meu Pai descortina tudo o que está acontecendo com seu protagonista logo nos primeiros minutos. Aos oitenta e tantos anos, Anthony (Anthony Hopkins) tem esquecido o relógio, brigado com empregadas e dado sinais evidentes de que seu senso de memória e orientação não é mais o mesmo, para completa angústia de sua filha Anne (Olivia Colman), que está de mudança para Paris e precisa decidir o que fazer com o pai. No entanto, não temos certeza nem mesmo sobre as linhas gerais dessa introdução. Será que Anne está realmente indo para Paris? E a atriz que a interpreta é mesmo Olivia Colman? O retrato de um protagonista com Mal de Alzheimer (ou demência, já que o filme não chega a cravar uma definição exata) é extremamente fiel ao se passa na vida real considerando o comportamento de uma pessoa que vive sob essas condições: há a fixação com algum objeto específico (no caso de Anthony, um relógio que ele alega ser roubado a todo momento), as oscilações repentinas de humor, vislumbres inesperados de lucidez em meio a tantos esquecimentos, relatos de histórias que nunca aconteceram ou então são imprecisas em termos de tempo e espaço, a total negação do doente sobre sua condição e, claro, a própria falta de perspectiva acerca de quem o próprio doente é (menino, adulto, idoso, bailarino de sapateado ou engenheiro?). Chega a ser angustiante de tão realista.

Entretanto, a virada de chave de Meu Pai está mesmo na decisão de mostrar tudo a partir da perspectiva do protagonista. Não deixa de ser uma decisão para lá de arriscada se elencarmos as tantas armadilhas possíveis para esse formato, começando pelo simples fato de que, ao invés de mostrar a confusão do protagonista, o filme poderia se tornar bagunçado ou desordenado, e não no bom sentido. Pois Florian Zeller não titubeia em nenhum momento. O que Meu Pai nos proporciona é de fato a experiência única de viver a mesma desorientação de uma pessoa que começa a perder de forma gradativa toda e qualquer referência de tempo e espaço. Para construir tal perspectiva, atores trocam de papeis, a brilhante montagem do grego Yorgos Lamprinos alterna cenas onde não sabemos em que ponto elas verdadeiramente começaram ou terminaram e, ao melhor estilo Parasita, o design de produção assinado pela dupla Cathy Featherstone e Peter Francis se torna um personagem à parte, moldando, a partir da discreta transformação de cores e decorações de um apartamento, o desnorteamento espacial do protagonista. Isolados, tais elementos já fariam a diferença. No entanto, o domínio cênico de Zeller é tão grande ao costurar esse conjunto que nada parece mera curiosidade técnica. O efeito é fino e imersivo, especialmente quando lembramos que tudo se passa dentro de um único ambiente e que o propósito é fazer o espectador navegar em uma linha do tempo não muito clara.

No papel do protagonista, Anthony Hopkins é a força que, somada ao trabalho de Florian Zeller, torna Meu Pai um longa tão marcante. Lenda inquestionável, ele se mantem admiravelmente ativo aos 82 anos de idade. Na última década, trabalhou com Darren Aronofsky (Noé), fez blockbusters para se divertir ou ganhar alguns trocados (Thor: Ragnarok, Transformers: O Último Cavaleiro), deu o ar da graça em produções para TV e streaming (a série Westworld na HBO e a adaptação de Rei Lear para o Prime Video) e voltou ao Oscar após doze anos com seu maravilhoso desempenho como Bento XVI em Dois Papas, de Fernando Meirelles. Faltava, no entanto, um projeto comparável a sua estatura como Meu Pai, que combina a possibilidade do ator explorar o seu imenso repertório com o fato de ele participar de um filme singular. E Hopkins prova que não é lenda por acaso ao navegar nas fragilidades e angústias de um personagem que passa a perder o chão e que tenta de alguma maneira se agarrar ao que ainda lhe parece minimamente verdadeiro ou real. Do respeito e generosidade com que compreende a situação do protagonista a um trabalho técnico excepcional de olhares, gestos e movimentos corporais, o ator dá o tipo de aula que pode muito bem marcar o momento mais brilhante de uma carreira já construída em cima de performances memoráveis (e desafio alguém a não sair devastado do filme após a cena final carregada de emoções das mais diversas intensidades). O segundo Oscar de melhor ator que ele levou no último mês de abril não poderia ser mais merecido e ter vindo em um momento mais apropriado.

Menos reverenciada do que Hopkins, Olivia Colman também merece justiça por seu trabalho em Meu Pai. Como a atriz talentosa que é, ela concentra em cada expressão todos os sentimentos opostos de uma filha tomada pela tristeza de ver o pai desaparecendo ao mesmo tempo em que precisa tomar decisões práticas e definitivas para definir tanto o seu futuro quanto o do próprio Anthony. Mais tocantes ainda são os momentos em que, aqui ou ali, encontra vislumbres de lucidez no homem que lhe deu a vida, lançando sorrisos esperançosos que, ela sabe, não duram por muito tempo. Seu desempenho é fundamental para a composição emotiva que Meu Pai faz dos momentos mais cotidianos envolvendo o contexto do Alzheimer. Sem didatismos e obviedades, Florian Zeller, repito, faz um dos filmes mais definitivos sobre o tema e, de quebra, entrega um resultado que ultrapassa os debates sobre a temática para também ser referenciado pela forma com que cinematograficamente oferece um novo olhar para tantas discussões. Li em algum lugar que, a seu próprio modo, Meu Pai não deixa de ser um filme de terror. E eu concordo: para além de um relato que nos faz entender melhor a jornada de idosos acometidos por doenças da mente, estamos diante de um espelho atemporal da nossa finitude, e principalmente do fato de que ninguém está livre de se tornar a pessoa mais indefesa do mundo ao se aproximar dela.

Os vencedores do Oscar 2021

Com os prêmios de filme, direção e atriz, Nomadland foi o grande vencedor do Oscar 2021.

Contrariando a opinião geral das redes sociais e da imprensa especializada, tenho para mim que a cerimônia do Oscar 2021 foi uma das melhores desde que comecei a acompanhar a premiação. De começo, o produtor Steven Soderbergh, ao lado de Jesse Collins e Stacey Sher, conseguiu reverter algo que me incomoda profundamente há anos: fazendo jus ao título do seu último filme, Let Them All Talk, ele pensou uma cerimônia onde os infinitos clipes com trechos de filmes e os intermináveis monólogos de incontáveis apresentadores ficaram em segundo plano para dar protagonismo ao discurso dos vencedores, que puderam falar por quanto tempo quiseram, rendendo momentos comoventes, como o da fala de Thomas Vinterberg ao receber o prêmio de melhor filme internacional (bastante comovido, o diretor dinamarquês homenageou a filha adolescente que faleceu durante as filmagens do longa em um acidente de carro). A majestosa entrada de Regina King percorrendo os corredores do Union Station para chegar até ao palco e apresentar o primeiro prêmio da noite seguiu a linha de valorizar quem tem o nome marcado na história do Oscar.

É importante lembrar que a criticada decisão de apresentar as categorias de melhor ator e melhor atriz depois de melhor filme não é invenção do Oscar 2021. Na realidade, essa foi uma tradição da Academia durante muitos anos, e não apenas uma jogada esperta dos produtores esperando que a cerimônia terminasse em seu mais alto tom de homenagem para o saudoso Chadwick Boseman (A Voz Suprema do Blues). O que mais gosto nessa decisão é o fato dos produtores terem entendido que as categorias de melhor atriz e ator se eram as mais aguardadas dessa edição, independentemente do resultado, superando inclusive melhor filme, que, convenhamos, sabíamos que seria entregue com muito mérito a Nomadland, de Chloé Zhao, também vencedora do prêmio de melhor direção (outro prêmio anunciado mais cedo, corroborando a intenção de preservar os melhores suspenses para o final). É bastante provável que, predominantemente verbalizada e sem chamariscos de números musicais, a audiência da cerimônia tenha caído drasticamente assim como a de todas as outras temporadas da premiação, o que nos leva a seguinte pergunta: quem é o público do Oscar e para quem ele deve ser feito? Não creio que seja destinado a quem está zapeando na TV e sintoniza para assistir apenas porque o Eminem está cantando. Dito isso, ter dado espaço absoluto para os vencedores faz novamente sentido.

Mais do que isso, as críticas à decisão de colocar as categorias de melhor ator e atriz para o final é uma plena injustiça com duas das melhores surpresas da cerimônia (e que orgulhosamente já estavam previstas nas minhas apostas). Anthony Hopkins é um verdadeiro monstro em Meu Pai, e sua vitória carrega não apenas o reconhecimento a um dos melhores atores de língua inglesa (e em franca atividade, vale lembrar, depois de outra indicação no ano passado por Dois Papas), mas também a coroação de uma das melhores interpretações masculinas a ganhar o Oscar de melhor ator nas últimas décadas. Chadwick Boseman teve o desempenho de sua carreira em A Voz Suprema do Blues, porém, considerando a competição, seu prêmio seria muito mais uma homenagem do que uma celebração ao desempenho em si. Hopkins mereceu, e isso é consenso. Enquanto isso, apesar da imprevisibilidade da categoria, parecia um tanto quanto inconcebível Frances McDormand perder como melhor atriz. Ela é o coração e a protagonista absoluta de Nomadland, além de trabalhar uma gama de nuances e delicadezas que não costuma lhe ser oportunizada com tanta frequência. Se há algo a reclamar de seu terceiro Oscar é o fato de ele vir depois de uma equivocada celebração por Três Anúncios Para Um Crime.

Para encerrar, minha felicidade foi equivalente entre as categorias técnicas, onde discordei somente das surpresas de melhor fotografia (o preto-e-branco de Mank é muito bonito, mas o trabalho desse segmento é fundamental para a imersão de Nomadland), já que a vitória de Judas e o Messias Negro em canção original foi de muito bom gosto (era, de fato, a melhor na categoria) e que a consagração de O Som do Silêncio em melhor montagem (uma vitória que eu não levava fé) revela uma Academia muito mais refinada no que diz respeito à categoria depois de vitórias bizarras ou óbvias como a de Bohemian Rhapsody e Ford vs. Ferrari. Claro que faria ajustes aqui e ali (a trilha de Minari me encanta muito mais do que a de Soul), mas, no geral, a cerimônia foi justa e equilibrada, sem parecer que os votantes quiseram optaram por uma distribuição de para fazer média. Gostos pela cerimônia à parte, tenho certeza que o Oscar 2021, quando avaliado daqui alguns anos (se não já agora), será lembrado justamente por isso: pela sua coerência e pela coragem ao fazer escolhas pontualmente autênticas, sendo coerente com o que a vitória de Parasita sinalizou ano passado – e não com as lembranças indigestas de Green Book ganhando o prêmio de melhor filme dois anos depois de Moonlight: Sob a Luz do Luar.

Confira abaixo a lista de vencedores:

MELHOR FILME: Nomadland
MELHOR DIREÇÃO: Chloé Zhao (Nomadland)
MELHOR ATRIZ: Frances McDormand (Nomadland)
MELHOR ATOR: Anthony Hopkins (Meu Pai)
MELHOR ATRIZ COADJUVANTE: Yuh-jung Youn (Minari)
MELHOR ATOR COADJUVANTE: Daniel Kaluuya (Judas e o Messias Negro)
MELHOR ROTEIRO ORIGINAL: Emerald Fennell (Bela Vingança)
MELHOR ROTEIRO ADAPTADO: Christopher Hampton e Florian Zeller (Meu Pai)
MELHOR FILME INTERNACIONAL: Druk: Mais Uma Rodada (Dinamarca)
MELHOR DOCUMENTÁRIO: Professor Polvo
MELHOR ANIMAÇÃO: Soul
MELHOR TRILHA SONORA: Jon Batiste, Trent Reznor e Atticus Ross (Soul)
MELHOR CANÇÃO ORIGINAL: D’Mile, H.E.R. e Tiara Thomas, por “Fight for You” (Judas e o Messias Negro)
MELHOR MONTAGEM: E.G. Nielsen (O Som do Silêncio)
MELHOR DESIGN DE PRODUÇÃO: Donald Graham Burt (Mank)
MELHOR FOTOGRAFIA: Erik Messerschmidt (Mank)
MELHOR FIGURINO: Ann Roth (A Voz Suprema do Blues)
MELHOR SOM: Carlos Cortés, Jaime Baksht, Michelle Couttolenc, Nicolas Becker e Phillip Bladh (O Som do Silêncio)
MELHOR MAQUIAGEM & PENTEADOS: Jamika Wilson, Mia Neal e Sergio Lopez-Rivera (A Voz Suprema do Blues)
MELHORES EFEITOS VISUAIS: Andrew Jackson, Andrew Lockley, David Lee e Scott R. Fisher (Tenet)
MELHOR CURTA-METRAGEM: Dois Estranhos
MELHOR CURTA-METRAGEM (DOCUMENTÁRIO): Colette
MELHOR CURTA-METRAGEM (ANIMAÇÃO): Se Algo Acontecer… Te Amo

“O Som do Silêncio” é uma experiência bela, humana e sensorial que dispensa os clichês de filmes sobre deficiência

It just passes. It just fucking passes.

Direção: Darius Marder

Roteiro: Abraham Marder e Darius Marder, baseado em história de Darius Marder e Derek Cianfrance

Elenco: Riz Ahmed, Paul Raci, Olivia Cooke, Mathieu Almaric, Lauren Ridloff, Domenico Toledo, Chelsea Lee, Shaheem Sanchez, Chris Perfetti, Bill Thorpe, Michael Tow, Rena Maliszewski

Sound of Metal, EUA, 2019, Drama, 120 minutos

Sinopse: Um jovem baterista teme por seu futuro quando percebe que está gradualmente ficando surdo. Duas paixões estão em jogo: a música e sua namorada, que é integrante da mesma banda de heavy metal que o rapaz. Essa mudança drástica acarreta em muita tensão e angústia na vida do baterista, atormentado lentamente pelo silêncio. (Adoro Cinema)

Na comunidade de reabilitação voltada para pessoas surdas onde O Som do Silêncio desenvolve boa parte da sua história, todos recebem, com certa periodicidade, uma tarefa a ser cumprida. Alguns pregam madeiras, outros ajustam telhas, enquanto Ruben (Riz Ahmed), o baterista de um duo de heavy metal que está perdendo a audição de forma repentina e vertiginosa, recebe uma missão aparentemente simples, mas, para ele, profundamente complexa: “aprender a ser surdo”.

Tal missão diz muito sobre o protagonista e sobre como O Som do Silêncio desenha sua trajetória com melancolia. Ao abraçar os dilemas de um homem que fica sem chão após perder sua conexão vital com a música e que se recusa a aceitar uma condição irreversível, o diretor Darius Marder refuta os didatismos comumente adotados pelo cinema no arco da “superação” de uma deficiência para focar na jornada interna de um protagonista que, em plena negação quanto a uma nova realidade, é tomado de maneira cumulativa por um sentimento de não pertencimento.

O que torna O Som do Silêncio um filme assertivo na emoção é a sua estreita aproximação com a realidade e com o mínimo de intervenções possíveis por parte de Marder para glamourizar ou espetacularizar o sofrimento do protagonista, o que já se traduz na ideia de ambientar suas vivências em uma comunidade de pessoas surdas. É inteligente porque, ao estar nesse ambiente, Ruben primeiro terá que se reconhecer nas pessoas que agora passam a ser seus semelhantes para somente depois voltar ao mundo como ele antes conhecia.

Primeiro ator de origem muçulmana indicado ao Oscar, Riz Ahmed estudou seis meses de bateria para performar as cenas onde Ruben demonstra todo o seu talento musical. Contudo, as pérolas do ator estão nos momentos em que ele interage com a comunidade surda, aqui representada por pessoas que de fato vivem com a deficiência. Os olhares de estranhamento e, aos poucos, de compreensão que Ahmed dirige aos surdos com os quais ele aprende e convive são tocantes, pois misturam a dor, a angústia, as contradições e, por fim, a evolução de um homem que, apesar da resistência e dos sonhos perdidos, terá que se (re)conhecer como surdo para encontrar novos sentidos e propósitos. É um desempenho excepcional e que, com certeza, marca um novo momento na carreira do ator.

Em certo ponto, Ruben é apadrinhado por Joe, personagem vivido com grande delicadeza por Paul Raci. Coordenador da clínica e um homem que já viu muita coisa na vida, ele clamará pelas mudanças e pelas transformações internas tão rejeitadas pelo protagonista. Joe sabe que as coisas simplesmente não podem mais ser as mesmas quando alguém perde a audição, e sua determinação em transmitir isso para toda a comunidade e especialmente para Ruben é muito humana e natural. A dinâmica estabelecida entre ele e o personagem de Ahmed é um dos pontos altos de O Som do Silêncio porque envolve sabedoria e generosidade mesmo quando as ações e as opiniões dos personagens entram em conflito.

Surpreende esse ser o primeiro longa-metragem de ficção dirigido por Darius Marder tamanha a disciplina das emoções que ele administra com propriedade e a sua maturidade ao abordar um tema frequentemente banhado em clichês para transformá-lo em uma viagem interna e existencial. Marder parece ter tirado o melhor proveito de seu convívio ao lado do diretor Derek Cianfrance (Namorados Para Sempre, I Know This Much is True), com quem colaborou ao escrever o roteiro do subestimado O Lugar Onde Tudo Termina, absorvendo toda a sua vocação para narrar histórias essencialmente trágicas, mas que jamais se rendem ao histrionismo ou a caminhos simples. O que vemos em O Som do Silêncio é, portanto, um roteirista que segue amadurecendo e que, agora em seu primeiro longa de ficção, passa a se lapidar como um diretor muito promissor.

É importante dar o devido reconhecimento a quem consegue fazer essa transição com pleno êxito porque é frequente o número de roteiristas cujo talento simplesmente não se traduz na cadeira de direção. Um exemplo recente capaz de ilustrar essa tese é o de Aaron Sorkin, autor de roteiros versáteis e respeitados como os de A Rede Social e que agora dirige longas-metragens tradicionais até o último fio de cabelo como Os 7 de Chicago.

Sendo assim, conduzido por um cineasta que faz uma fina leitura de seu próprio texto, O Som do Silêncio esbanja delicadeza no belo trabalho de som que aqui e ali reproduz a (falta de) audição de seu protagonista, no desenho de personagens muito bem explorados (até mesmo a pequena participação do francês Mathieu Almaric é repleta de ressignificados), na ideia de que a deficiência não é algo a ser superado mas sim uma condição que faz parte de quem a tem e, claro, na construção dos desempenhos de Riz Ahmed e Paul Raci. Frente a tudo isso, fica, para mim, a certeza de que ainda vou revisitar O Som do Silêncio muitas vezes.

“Pieces of a Woman”: do início ao fim, um drama realista e doloroso sobre o luto materno

I lifted my head. That’s what I’m asking you to do now.

Direção: Kornél Mundruczó

Roteiro: Kata Wéber

Elenco: Vanessa Kirby, Shia LaBeouf, Ellen Burstyn, Molly Parker, Sarah Snook, Iliza Shlesinger, Benny Safdie, Steven McCarthy, Tyrone Benskin, Frank Schorpion, Harry Standjofski

EUA/Canadá/Hungria, 2020, Drama, 126 minutos

Sinopse: Pieces of a Woman é a jornada emocional de uma mãe que acaba de perder seu bebê. Diante dessa perda, ela terá que lidar com as consequências que seu luto tem nas relações com o marido e a mãe, lutando para que seu mundo não desabe por completo. (Adoro Cinema)

Como espectadores, fomos acostumados a esperar que o grande ato de um filme se situe, por razões óbvias, no recorte final da trama, quando respostas finalmente são dadas ou quando o desfecho, mesmo que inconclusivo, é capaz de fazer conexões simbólicas ou emocionais para que tudo o que vimos até ali encontre o seu propósito. Vou além ao instintivamente teorizar que o grande ato de um filme também pode ser um momento poderoso, um pico inesperado ou uma sequência de fatos envolventes e fascinantes estejam onde eles estiverem na linha temporal da trama. E aí me pego pensando: o que acontece quando esse grande ato está, por exemplo, no início de um filme, como acontece em Pieces of a Woman? A resposta é tão simples quanto injusta: tudo o que vem depois acaba subvalorizado pelo público. Aceitamos que um longa-metragem compense todos os seus defeitos prévios com um final capaz de superar expectativas, mas, quando um relato começa no seu ápice para depois trilhar caminhos menos poderosos, o nosso veredito de que o filme falha em preservar as expectativas criadas é imediato, como se ele tivesse a obrigação de alcançar o seu máximo do início ao fim, uma tarefa basicamente impossível. Trata-se de uma reação naturalmente instintiva e que, entretanto, deveria nos exigir um trabalho maior de reflexão, pois, no caso de Pieces of a Woman, ela desvaloriza outros aspectos bastante interessantes de um relato que analisa o luto materno com franqueza e pungência.

Adquirido pela Netflix após exibição no último Festival de Veneza, onde a protagonista Vanessa Kirby se saiu vitoriosa com a Volpi Cup de melhor atriz, Pieces of a Woman começa indiscutivelmente majestoso, com uma longa sequência de mais de 30 minutos que retrata o momento em que Martha (Kirby) entra em trabalho de parto na própria casa, local escolhido por ela para que a filha nascesse. Contudo, o tão sonhado momento vira pesadelo quando — e isso já está explícito na própria sinopse — a filha não sobrevive e Martha se vê obrigada a enfrentar um luto materno antes de sequer ter aprendido o que é ser mãe. A abertura é marcante por mostrar todo o processo de um parto natural com imensa verossimilhança. Não há espaço para glamourização aqui: em tempo real, o diretor húngaro Kornél Mundruczó, a partir de um roteiro de sua esposa Kata Wéber, retrata o parto como um momento difícil e exaustivo, onde a mulher se vê vulnerável e indefesa, amparada por uma figura masculina que, apesar das boas intenções, é quase inútil nesse momento. Funciona como uma imediata imersão no universo emocional da personagem que acompanharemos por todo o filme e como um excelente exemplo da direção equilibrada entre economia e emoção de Mundruczó, inclusive no que se refere à condução dos atores, uma vez que é particularmente formidável o trabalho de Molly Parker como a parteira de Martha. Entre a delicadeza e a angústia de uma mulher responsável por aquele parto, é através de todas as inflexões e expressões da atriz que entendemos cada movimento em cena.

Após esse prólogo, Pieces of a Woman avança para o dia em que a protagonista começa a retomar algum tipo de rotina. Sua via crucis, no entanto, continua: da discussão em torno do que será feito com o corpo do bebê até os sufocantes abraços de compaixão que recebe de conhecidos, Martha se blinda de tudo e de todos para tentar manter o mínimo de equilíbrio interno diante de um momento tão inimaginável. Para ela, essa parece ser a única saída diante de seus próprios fantasmas, enquanto todos a sua volta acham que, por evitar lágrimas e sofrimentos públicos, Martha não está sofrendo o suficiente pela filha perdida. A patrulha em cima do sofrimento alheio é uma das discussões centrais de Pieces of a Woman, já que não são apenas os olhares estranhos no trabalho e na rua que a protagonista precisa administrar, mas também o temperamento controlador de uma mãe decidida a assinar até mesmo os cheques de trâmites funerários e a desestabilização emocional de um marido que, através de discussões cotidianas e da tentativa de relações sexuais estranhas e forçadas, tenta extrair da esposa os estímulos esperados. Ao mostrar a figura masculina fragilizada e a feminina impenetrável, Mundruczó traz uma importante e atualíssima provocação sobre o peso que a sociedade coloca nos ombros das mulheres e das mães, sempre julgadas pela maneira com que externalizam um tipo de sofrimento que, em circunstância alguma, deveria ser alvo de questionamentos.

As reflexões propostas por Pieces of a Woman passam pela própria história de vida do diretor e da roteirista. Casados há vários, Mundruczó e Kata Wéber perderam um bebê enquanto ela ainda estava grávida, e a escrita do roteiro se deu para ela como um processo de cura e terapia após o trauma. Há, portanto, o chamado de lugar de fala porque Wéber transpõe para o roteiro questões que ela viveu na pele. Afinal, o quanto falamos sobre o luto e sobre os dolorosos espectros da maternidade? Ou de onde vem a nossa obsessão em tentar encontrar algum tipo de compensação – judicial, financeira, midiática – para vivências tão acidentais e aleatórias quanto a morte? O longa é certeiro e equilibrado no tocante a essas discussões centradas no universo feminino, o que já não pode ser dito quando o roteiro se volta para Sean, o marido interpretado por Shia LaBeouf. Por si só, o personagem já é consideravelmente menos interessante do que a protagonista vivida por Vanessa Kirby, e a sua subtrama com a personagem de Sarah Snooke (a Siobhan do ótimo seriado Succession) não colabora para a unidade do drama, tanto por soar descartável quanto por não ter maiores conclusões. Nesse sentido, a atenção dada à mãe de Martha surte melhor efeito. Não é o caso de uma personagem notável — inclusive porque suas aparições são pequenas e, por vezes, cíclicas —, mas a escalação da grande Ellen Burstyn eleva a presença da personagem, colocando-a como uma peça bastante interessante na composição da história.

Sem ter vivido a experiência materna na vida real, Vanessa Kirby assistiu a diversos documentários e a partos em hospitais de Londres para entender a dimensão do episódio que dá origem aos conflitos de sua personagem. E ela se sai maravilhosamente bem. Não é porque sua Martha toma distância de tudo e de todos (inclusive dela própria) que nada acontece internamente, o que Vanessa compreende com perfeição. Esse complexo contraste entre o interno e o externo é trabalho dos mais difíceis e se resolve com excelência na interpretação da atriz, cuja beleza e juventude contribuem para o retrato dessa mulher tão precocemente calejada e despedaçada pela vida. O estado enclausurado com que ela incorpora os choros represados e a inabilidade em retomar qualquer normalidade do cotidiano é verossímil e alinhado com o melhor de Pieces of a Woman, um filme que vai na contramão dos retratos clássicos sobre o luto e que nunca se entrega ao mero voyeurismo do sofrimento alheio. Afinal, a perda de uma filha já carrega elementos trágicos por si só. Inexplicavelmente lançado no Brasil sem título em português, o trabalho de Mundruczó tem seus tropeços, como os personagens e as subtramas que, na tentativa de ampliar o espectro dramático, soam como tentativas incompletas. E há, sem dúvida, para muitas pessoas, os 30 minutos iniciais tão comentados por darem uma tração que o restante do longa não consegue manter. Entretanto, comparados ao que Pieces of a Woman tem de melhor, como a performance de Vanessa Kirby e a reflexão sobre o luto materno, são aspectos menores e que não deveriam abalar o valor deste filme bonito e doloroso.

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