Cinema e Argumento

“A Esposa”: desempenho de Glenn Close carrega todas as qualidades que faltam ao filme como um todo

I am a kingmaker.

Direção: Björn Runge

Roteiro: Jane Anderson, baseado no romance “The Wife”, de Meg Wolitzer

Elenco: Glenn Close, Jonathan Pryce, Christian Slater, Max Irons, Christian Slater, Harry Lloyd, Annie Starke, Elizabeth McGovern, Johan Widerberg, Karin Franz Körlof, Richard Cordery, Jan Mybrand

The Wife, EUA/Reino Unido/Suécia, 2017, Drama, 100 minutos

Sinopse: Joan Castleman (Glenn Close) é casada com um homem controlador e que não sabe como cuidar de si mesmo ou de outra pessoa. Ele é um escritor e está prestes a receber um Prêmio Nobel de literatura. Joan, que passou 40 anos ignorando seus talentos literários para valorizar a carreira do marido, decide abandoná-lo. (Adoro Cinema)

A Glenn Close que provavelmente mora na sua memória é aquela que interpreta papeis de traços fortes e marcantes. Como não lembrar, afinal, de Alex Forrest em Atração Fatal? Ou então da memorável Marquesa Isabelle de Merteuil em Ligações Perigosas? Na infância de muitas gerações, ela também ficou marcada como Cruella DeVil, a inescrupulosa vilã da adaptação live-action de 101 Dálmatas. Por fim, até mesmo em uma de suas passagens mais célebres pela televisão, Glenn interpretou uma personagem implacável: a emblemática Patty Hewes, advogada que temíamos, admirávamos e questionávamos nas mesmas proporções. Pois, agora, em pleno 2019, o melhor que você pode fazer é esquecer toda essa intensa imagem da atriz para admirá-la de uma maneira bem diferente em A Esposa, onde a vemos introspectiva, discreta e delicada, algo não tão habitual em sua carreira (e que, segundo a própria atriz, é consequência dos tipos de papeis que lhe foram oferecidos ao longo dos anos). De forma isolada, a veterana intérprete já teria nosso voto de confiança ao dar vida a uma mulher que, eternamente à sombra do marido, de repente se vê obrigada a refletir sobre todas as razões que lhe deixaram uma vida inteira nos bastidores, mas, em comparação ao filme, sua presença é tão grande que nem o fato de A Esposa ser ruim abala tamanha classe. Pelo contrário: se há real complexidade, elegância e delicadeza no projeto do sueco Björn Ruge, é porque Glenn Close toma a missão para si e trata de conferi-las ao longa como um todo.

Mais interessante na teoria do que na prática, A Esposa trilha o caminho fácil de vilanizar um personagem para que tenhamos compaixão por outro. É bem certo que, do ponto de vista histórico e cultural, a dita soberania masculina tem mesmo intoxicado vidas femininas e relações amorosas, mas o que falta ao roteiro escrito por Jane Anderson, com base no romance “The Wife”, de Meg Wolitzer, é certa substância para acreditarmos que, de alguma forma, a protagonista é ou um dia foi apaixonada pelo marido que pouco carinho lhe dá e que, ao longo dia, parece tratá-la como uma assistente que cuida de seus remédios e horários. Por que, afinal, Joan (Glenn) sempre se submeteu às traições, à vaidade inflada e ao egoísmo desse homem? Quais foram as reais razões que levaram uma escritora de talento na juventude a abdicar da carreira e de sua própria identidade para servi-lo? Anderson, que surpreendentemente parece ter deixado de lado toda a sofisticação dramática que um dia apresentou como roteirista da premiada minissérie Olive Kitteridge, esquece de se debruçar sobre as complexidades da relação entre os dois para, ao invés disso, fazer de Joe (Jonathan Pryce) um mero personagem insuportável que torna a vida de sua esposa uma penitência.  

Ao contrário do que A Esposa sugere, é possível sim traçar as complexidades de um relacionamento tóxico sem pegar o atalho fácil de somente construir figuras antagônicos e quase estereotipadas, como se uma leitura mais clínica de fatos e acontecimentos não fossem possíveis ou necessários. No recente Trama Fantasma, por exemplo, Daniel Day-Lewis vive um estilista misógino e cheio de si que se apaixona por uma mulher muito mais jovem. Inicialmente submissa e sem voz, a garota, ao mesmo tempo que não consegue largar seu novo amor apesar de tantas agressões emocionais, acaba reivindicado seu espaço, nem que seja de maneira torta e macabra. Tal relação é riquíssima em complexidades no filme de Paul Thomas Anderson porque o roteiro entende a importância de cada mínima dinâmica entre o casal, sugerindo, cena a cena, todas as razões que separam e aproximam esse casal. Em contraste, isso é apenas protocolar em A Esposa: ainda que utilizando flashbacks para explicar como se deu o início da relação entre Joan e Joe, o filme propriamente dito não nos convence de que há alguma força magnética por parte de Joan, algo que frustra o embasamento dramático da obra e dá um trabalho muito ingrato para Jonathan Pryce, um ator que, na medida do possível, tenta dimensionar uma figura apenas antipática.

Entrando um pouco mais no roteiro, é decepcionante perceber que versão final do texto tenha mantido tantos aspectos dispensáveis, como a relação de Joe com o filho, que, também escritor, busca desesperadamente a aprovação do pai. Além de Max Irons ser muito ruim no papel, sua participação é rasa, tendo como missão exclusiva conduzir o espectador a uma surpresa que considero particularmente artificial e que, do ponto de vista dramático, dilui as discussões da obra ao tirar certos contextos e reflexões do plano da sugestão para a literal verbalização. Além disso, A Esposa tem dificuldade em lidar com tramas secundárias: se Christian Slater está limitadíssimo ao interpretar o mero jornalista sedento por um escândalo e que não tem outra função a não ser descortinar um ou outro trauma do passado da protagonista, Annie Stark (filha de Glenn Close na vida real) é inexpressiva ao protagonizar flashbacks que, em um roteiro mais esperto, nem existiriam, pois dão conta de acontecimentos que poderiam ser facilmente sintetizados em diálogos mais reveladores e contundentes.

Frente a tudo isso está Glenn Close, que é milimétrica na composição da sua personagem e que confere ao projeto tudo aquilo que lhe falta como um todo. Há momentos realmente grandiosos, como o misto de alegria e pesar ao receber a notícia de que seu companheiro será laureado com o prêmio Nobel ou a interiorização de um completo pavor quando testemunha o discurso do marido na cerimônia de homenagem (a título de comparação, não seria surpresa se Glenn revelasse que a cena final de 45 Anos tenha sido uma importante inspiração para esse momento). Na discrição e na sutileza, a atriz desdobra os anseios e as dúvidas dessa mulher que tenta sempre manter as aparências — e a sequência em que ela precisa manter a pose e as expressões ao ser provocada em em diferentes níveis pelo jornalista de Christian Slater é outro exemplo dos belos contrastes que existem na interpretação da atriz, mas não no longa em si. Boatos dão conta de que A Esposa, exibido desde 2017 em festivais internacionais como o de Toronto, segurou sua data de estreia para poder concorrer ao Oscar e finalmente consagrar Glenn Close após seis indicações. Se conseguirá ou não é outra história, mas, independente disso e da decepção que é o longa, certamente A Esposa marca o que vemos de melhor vindo da atriz em muitos, muitos anos.

“O Retorno de Mary Poppins”: Emily Blunt brilha ao resgatar o espírito e o encantamento do clássico estrelado por Julie Andrews

Everything is possible. Even the impossible!

Direção: Rob Marshall

Roteiro: David Magee, baseado em história de autoria própria com John DeLuca e Rob Marshall, e na série de livros “Mary Poppins”, de P.L. Travers

Elenco: Emily Blunt, Lin-Manuel Miranda, Ben Whishaw, Emily Mortimer, Colin Firth, Julie Walters, Meryl Streep, Pixie Davies, Nathanael Saleh, Joel Dawson, Jeremy Swift, Kobna Holdbrook-Smith, Dick Van Dyke, Angela Lansbury

Mary Poppins Returns, EUA, 2018, Musical, 130 minutos

Sinopse: Numa Londres abalada pela Grande Depressão, Mary Poppins (Emily Blunt) desce dos céus novamente com seu fiel amigo Jack (Lin-Manuel Miranda) para ajudar Michael (Ben Whishaw) e Jane Banks (Emily Mortimer), agora adultos trabalhadores, que sofreram uma perda pessoal. As crianças Annabel (Pixie Davies), Georgie (Joel Dawson) e John (Nathanael Saleh) vivem com os pais na mesma casa de 24 anos atrás e precisam da babá enigmática e o acendedor de lampiões otimista para trazer alegria e magia de volta para suas vidas. (Adoro Cinema)

Sempre desperta desconfiança qualquer iniciativa de estúdios e diretores em mexer com clássicos. Ora, qual a razão de repaginar um projeto consagrado pelo tempo e eternizado pelo público? Tal receio não poderia ter sido diferente quando recebemos a notícia de que Mary Poppins, emblemático título da Disney estrelado por Julie Andrews na década de 1960, receberia agora, 54 anos depois, uma continuação, marcando o maior intervalo de tempo já registrado no Cinema entre um filme original e a sua sequência. Também não era muito animadora a escolha de Rob Marshall para o comando do projeto, uma vez que ele só vinha realizando títulos do mediano para baixo após a consagração com Chicago, inclusive nas vezes em que retornara ao gênero musical (ainda hoje é inacreditável que Nine tenha sido uma decepção e que Caminhos da Floresta seja uma tremenda baderna). No entanto, contornando todos os indícios, O Retorno de Mary Poppins surpreende por ser uma homenagem respeitosa e irresistivelmente nostálgica à história da babá-título que, ainda hoje, ostenta o maior número de Oscars já conquistados pela Disney por um mesmo longa (foram cinco ao total, incluindo o de melhor atriz para Julie Andrews).

O espectador, por outro lado, precisa saber no que está embarcando: assim como o primeiro longa, O Retorno de Mary Poppins é um longuíssimo musical endereçado às crianças e aos fãs do gênero. Não gosta do título original? Então a minha sugestão é que você passe longe da sequência. Entre a admiração e o desgosto, fico no meio do caminho. Primeiro porque não compartilho grande entusiasmo pelo filme de 1964 e segundo porque, mesmo sendo um fã incondicional de musicais e de histórias que flutuam em otimismo e nostalgia, tanto a versão clássica quanto a sequência que chega agora aos cinemas são longos em demasia, inclusive por não haver uma história propriamente dita e sim todo tipo de brincadeira, música e maluquice (sim, muitas maluquices!) nas mágicas viagens proporcionadas pela protagonista. Só que as barrigas se revelam mais evidentes em O Retorno de Mary Poppins porque, no geral, as músicas são pouco memoráveis (não espere aqui nada equivalente à emblemática Supercalifragilisticexpialidocious) e, em muitos casos, perfeitamente dispensáveis. Cortando três ou quatro canções, teríamos, sem prejuízo algum, uma obra menos cansativa e com um desenrolar não tão esvaziado.

Em contra partida, a talentosíssima Emily Blunt,  que recebeu a bênção de Julie Andrews para assumir o papel e que já esteve ótima este ano em Um Lugar Silencioso, compensa os excessos com uma performance encantadora. Ao mesmo tempo em que presta uma homenagem à personagem eternizada por Andrews, Blunt permite que Mary Poppins também tenha traços indiscutivelmente seus. Com graça e elegância, ela ainda canta muitíssimo bem e, generosa que só, abre alas para que seus colegas de elenco também brilhem, seja os que aparecem em momento pontuais, como a maluca prima Topsy vivida por Meryl Streep, ou outros que, convenhamos, não precisavam de tanto protagonismo assim (por mais que seja um nome de referência na Broadway, Lin-Manuel Miranda surge sem muito carisma, desaparecendo diante da colega). A personificação de Blunt é tamanha que ela, acompanhada de um elenco de apoio super sofisticado (Ben Whishaw, Emily Mortimer, Colin Firth, Julie Walters, Dick Van Dyke, Angela Lansbury), eleva o encantamento e a inocência de O Retorno de Mary Poppins a um patamar que, apesar das cores, da nostalgia, da pureza e de todo o aparato técnico, muito provavelmente não seria alcançado sem ela.

“Tinta Bruta”: com prestigiada carreira internacional, longa gaúcho explora a busca por cores e pertencimento entre o mundo real e virtual

Tu consegue ver o teu futuro?

Direção: Filipe Matzembacher e Marcio Reolon

Roteiro: Filipe Matzembacher e Marcio Reolon

Elenco: Shico Menegat, Bruno Fernandes, Guega Peixoto, Sandra Dani, Frederico Vasques, Denis Gosh, Camila Falcão, Áurea Baptista, Zé Adão Barbosa, Larissa Sanguiné

Brasil, 2018, Drama, 118 minutos

Sinopse: O jovem Pedro (Shico Menegat) vive um momento complicado, ele responde a um processo criminal ao mesmo tempo em que precisa lidar com a mudança da irmã, sua única amiga. Como forma de catarse, ele assume o codinome GarotoNeon e passa a se apresentar anonimamente na internet dançando nu na escuridão do seu quarto, coberto apenas por uma tinta fluorescente. (Adoro Cinema)

Assim como tantas outras capitais do Brasil, a cidade de Porto Alegre, por questões majoritariamente políticas, vem definhando ano após ano. Como porto-alegrense, transito por ruas cada vez mais perigosas, pontos turísticos abandonados e espaços de convivência urbana desprezados pelo poder público, sempre tomado por um sentimento cada vez mais escasso de acolhimento e hospitalidade. É nessa cidade desoladora que se desenvolve Tinta Bruta, novo projeto dos gaúchos Filipe Matzembacher e Marcio Reolon que chegou a vencer o prêmio Teddy no Festival de Berlim e quatro prêmios no Festival do Rio (melhor filme, roteiro, ator e ator coadjuvante). Porto Alegre, que, na verdade, pode (e deve) ser interpretada aqui como a representação de qualquer outra grande metrópole do Brasil (e, por que não, do mundo), ainda se torna um tanto mais aterrorizante porque Tinta Bruta tem como protagonista um introvertido menino gay cuja existência por si só é negligenciada por olhares distantes nas janelas da cidade ou agredida, de uma forma ou de outra, por colegas e desconhecidos. Tudo isso traz uma incômoda dicotomia no que se vê no longa: ao mesmo tempo em que o filme é esperançoso ao convocar o espectador para a resistência e para a reação contra o conservadorismo, não deixa de ser profundamente triste que ele seja um retrato hiper fiel da desassistência e da solidão que vêm assolando as minorias em diferentes pontos do mundo.

Afeitos à geografia como fator preponderante para a construção emocional de seus personagens, Matzembacher e Reolon saem da intimidade proposta por uma convivência litorânea em Beira-Mar para falar, dessa vez, sobre as condições de um protagonista LGBTQI+ na cidade grande e no convívio em sociedade. Agora a dupla de diretores também entra na vida adulta com Pedro (Shico Menegat), que realiza performances eróticas na internet para ganhar alguns trocados ao mesmo tempo em que precisa lidar com um processo criminal e, principalmente, com a transição de inúmeros afetos em sua vida. O isolamento e o desamparo do garoto em uma cidade pouco convidativa são desoladores, evocando, de certa forma, o que o cineasta gaúcho José Pedro Goulart fez anos atrás em Ponto Zero, outro relato sobre um jovem solitário, de cabelos compridos e cheio de desejos que enfrenta uma Porto Alegre decisiva em sua condição e em seu comportamento. Se tenho profundas restrições ao drama Beira-Mar, o inverso acontece com Tinta Bruta, que é a melhor representação do tipo de Cinema que Matzembacher e Reolon vêm realizando desde os seus tempos de curta-metragistas, quando realizaram títulos como Quarto Vazio, que, segundo eles, serviu de inspiração para esse novo longa. Mais do que a profundidade e a complexidade com que esmiúça as camadas de um introvertido protagonista, Tinta Bruta se potencializa através de seu timing com os nossos tempos: e não há maior prova disso do que a forma com que os personagens são desnudados em cenas eróticas e sexuais sem qualquer pudor ou acanhamento, reforçando a tese de que não há qualquer líder político homofóbico e conservador que impeça as pessoas de elas expressarem quem realmente são.

Curiosamente, ainda que embalado por uma trilha sonora vibrante e coberto em cores neon, o sexo de Tinta Bruta ultrapassa o plano meramente erótico para se tornar uma das engrenagens emocionais do filme: é apenas por meio dele que o jovem Pedro consegue se expressar e ter algum tipo de intimidade com outra pessoas, mesmo que efêmera e de maneira virtual. Isolado em seu apartamento, ele pouco interage com o mundo, o que é agravado pelos afetos que saem pouco a pouco da sua vida. Da irmã que está de mudança para Bahia até os seguidores online que começam a desaparecer após a chegada de um outro garoto em cores neon no site erótico, Pedro se vê cada vez mais isolado, e é por isso mesmo que toda e qualquer demonstração de carinho ou atenção recebida por ele ganha contornos tão comoventes, como o simples abraço da avó que vem lhe fazer uma breve visita. A precisão desse contraste é fundamental porque certas relações que o jovem estabelece são decisivas para a consistência emocional de Tinta Bruta, em especial a de Pedro com Leo, o garoto que passa a copiar o seu trabalho virtualmente. Ao invés de apenas tornar Leo uma nova figura que entra na vida do protagonista para depois arrancar um pouquinho mais da esperança do seu coração com algum tipo de despedida, Matzembacher e Reolon traduzem essa nova relação como uma experiência de extremo aprendizado para Pedro, que se permite desabrochar para a vida ao lado de quem até então considerava uma mera concorrência. A convivência entre os dois é um dos pontos altos da história, promovendo ainda o retrato de uma gama de (in)definições envolvendo os relacionamentos contemporâneos.

Pedro e Leo se tornam tão críveis e envolventes porque Shico Menegat e Bruno Fernandes, seus respectivos intérpretes, são duas revelações em termos de interpretação. Estreante no ofício, Shico particularmente impressiona: dar vida um personagem de carga dramática tão intensa e interiorizada logo em um primeiro filme não é tarefa fácil, mas o ator surpreende na construção minuciosa do personagem, inclusive na tradução de vislumbres de felicidade, quando, por exemplo, Pedro observa, em um misto de curiosidade e fascínio, a dinâmica livre e espontânea de Leo com seus amigos, algo que até então parecia impossível nas ruas e no íntimo de uma cidade que nunca lhe proporcionou algo semelhante. Dito isso, Tinta Bruta mistura sexualidade (e consequentemente a quebra do tabu da nudez e do corpo masculino) com os dilemas de uma juventude que não sabe muito bem o que sentir ou para onde ir (todos os personagens dizem viver em uma espécia um purgatório e que não sentem que aquele é o lugar onde deveriam estar), propondo mais do que uma mensagem de resistência, mas sim de reação – e, na época nefasta que atravessamos, isso pode significar desde a coragem de não receber qualquer tipo de violência com passividade até simplesmente dançar em uma noite qualquer, apesar de todas as adversidades e de olhares acusatórios. 

“As Viúvas”: certeiro ao renegar definições e criar atmosfera própria, filme de Steve McQueen fraciona potência dramática no excesso de tramas e personagens

No one thinks we have the balls to pull this off.

Direção: Steve McQueen

Roteiro: Gillian Flynn e Steve McQueen, baseado no romance homônimo de Lynda La Plante

Elenco: Viola Davis, Elizabeth Debicki, Michelle Rodriguez, Colin Farrell, Daniel Kaluuya, Robert Duvall, Cynthia Erivo, Liam Neeson, Carrie Coon, Jackie Weaver, Jon Bernthal, Brian Tyree Henry, Manuel Garcia-Rulfo

Widows, EUA/Reino Unido, 2018, Drama/Policial, 129 minutos

Sinopse: Um assalto frustrado faz com que Harry Rawlins (Liam Neeson) e sua gangue sejam mortos pela polícia e o dinheiro que roubaram seja destruído pelas chamas. Isto faz com que a viúva de Harry, Veronica (Viola Davis), seja cobrada para que a quantia roubada seja devolvida. Pressionada, ela encontra um caderno de anotações de Harry que prevê em detalhes aquele que seria seu próximo golpe. Veronica então decide realizar o roubo, tendo a ajuda das demais viúvas dos mortos no assalto frustrado. (Adoro Cinema)

As Viúvas não é exatamente o que você espera, e talvez tenha sido essa a intenção do cineasta Steve McQueen. Em seu primeiro trabalho após a consagração de 12 Anos de Escravidão no Oscar, ele promove uma assumida mistura de gêneros e estilos: não somente As Viúvas está muito longe de ser um mero relato sobre mulheres que orquestram um grande assalto como também renega qualquer traço do dramalhão que poderia nascer de uma história sobre esposas que perdem os maridos mafiosos em um confronto fatídico com a polícia. Aliás, McQueen, que escreveu o roteiro ao lado de Gillian Flynn (Garota Exemplar), prefere encarar o luto com certa distância e frieza, uma vez que Veronica, a protagonista interpretada por Viola Davis, sequer tem tempo para sofrer: no mesmo dia do velório, ela já recebe a visita de um homem perigoso que exige receber os dois milhões de dólares perdidos no ataque da polícia aos falecidos mafiosos. A partir disso, As Viúvas mistura dramas pessoais, ironia, política, crítica social e adrenalina, compondo um relato cuja maior força é, justamente, não ter estilo algum, o que é no mínimo uma provocação para plateias que costumam se incomodar com qualquer dose de indefinição ou imprevisibilidade.

Subversivo no sentido de criar uma história onde mulheres estão na linha de frente de um serviço essencialmente masculino (e retratado pelo Cinema da mesma maneira), As Viúvas é um primor em termos de representatividade, começando pela protagonista, uma mulher negra que, mesmo sabendo, nunca se envolveu com os atos ilícitos de seu marido branco, construindo uma carreira própria e bem sucedida (isso é o que acusa cada look elegantíssimo que Viola Davis, nunca tão bem fotografada, ostenta entre uma cena e outra). Mais uma viúva da trama, a latina vivida por Michelle Rodriguez se preocupa, mas não entra em colapso ao ver ruir o negócio que administrava e até então dava como certo. Pelo contrário: por ser mãe em uma nova condição não tão favorável, ela vai à luta e é a primeira a seguir toda ordem disparada pela personagem de Viola Davis. Já a esguia Alice interpretada por Elizabeth Debicki carrega um perceptível histórico de abuso familiar e matrimonial, mas, aos poucos, começa a juntar forças que ela própria não imaginava ter para, de sua própria maneira, conseguir se desvencilhar dos vícios e malefícios trazidos por esses traumas. Por incrível que pareça, ainda em 2018, é importante festejar decisões como essas quando elas deveriam ser perfeitamente  corriqueiras na maioria esmagadora das produções que vemos ao longo dos anos.

Ao renegar escolhas convencionais quando retrata o processo de luto, As Viúvas ganha em sobriedade, inclusive criando uma atmosfera gélida que casa com a ameaça e a instabilidade da sociedade corrompida e calejada que procura retratar. Tanto essa contextualização dá certo que o longa parece no mínimo artificial, para não dizer novelesco, quando tenta criar alguma passagem mais calorosa, como aquela em que a personagem de Viola Davis coloca Wild is the Wind, da icônica Nina Simone, para tocar e imagina um abraço do falecido marido ao ver seu reflexo da janela da sala. É buscando a sobriedade que McQueen cria os melhores momentos de As Viúvas, quase como se quisesse criar um certo distanciamento de 12 Anos de Escravidão, longa onde não poupou sofrimento, sangue e violência ao falar sobre racismo e escravidão. Para quem desejava algo na linha do premiado filme estrelado por Chiwetel Ejiofor ou até mesmo algo mais comercial como o recente Oito Mulheres e Um Segredo por se tratar de uma história de roubo, o resultado pode ser deveras anti-climático, o que, ao meu ver, nada mais é do que uma grata surpresa.

Há, contudo, um certo estranhamento, dessa vez bem menos interessante, que é o de uma trama fracionada em uma grande quantidade de situações e personagens. Temos uma protagonista conduzindo a história, mas, em muitos casos, ela divide praticamente o mesmo tempo de tela entre com os outros personagens. Alguns deles são interessantíssimos, enquanto outros desapontam por estarem quase em um relato a parte, a exemplo do político interpretado sem muita energia ou criatividade por Colin Farell. Com isso, As Viúvas não constrói necessariamente uma unidade e acaba se embolando, como se prometesse um clímax engenhoso pra amarrar tantas jornadas paralelas. E mais: com o meio de campo tão lotado, há pouco aproveitamento de excelentes intérpretes, tanto masculinos quanto femininos, a exemplo da grande Carrie Coon, cujo potencial testemunhamos durante três anos do seriado The Leftovers. Nesse balanço irregular, os acertos são preciosos: Viola Davis traz sua intensidade de sempre para uma mulher que se vê obrigada a colocar a razão antes de qualquer emoção, Daniel Kaluuya surge com uma energia macabra como um criminoso que exala perigo e Elizabeth Debicki se destaca pela delicadeza com que tateia o reerguimento de uma mulher bastante fragilizada do ponto de vista emocional.

Como um exemplar mais sofisticado de tantos filmes de suspense que se eternizaram nas madrugadas da TV aberta, As Viúvas traz a sua boa dose de reviravoltas e revelações. Prepare-se para ver personagens virando a casaca, surpresas de última hora em situações decisivas, coadjuvantes se revelando mais fundamentais para o encaixe das pessoas do que se poderia supor e até mesmo o clássico disparo de revólver que, na verdade, não foi feito por quem o longa nos sugeriu. Quando se encaminha para o desfecho, As Viúvas traz plot twists e explicações de maneira equivalente ao seu número de personagens, o que fragiliza um tanto mais o roteiro, pois não há tempo hábil para encorpar certas reviravoltas que mereciam mais digestão e construção de atmosfera. Como exercício de direção, o longa se engrandece muito mais, e por isso mesmo o descompasso é sentido. Na dificuldade em ser conciso (até chegar a sua versão final, o primeiro corte teria registrado, segundo o próprio McQueen, um filme de três horas de duração), As Viúvas fragiliza uma potência madura e envolvente que, sejamos francos, é sempre muito difícil de ser encontrada por aí. 

“Animais Fantásticos: Os Crimes de Grindelwald”: de escritora à roteirista, J.K. Rowling limita potência criativa do mundo bruxo com excessivo controle artístico

Their arrogance is a key to our victory.

Direção: David Yates

Roteiro: J.K. Rowling

Elenco: Eddie Redmayne, Johnny Depp, Jude Law, Ezra Miller, Katherine Waterston, Zoë Kravitz, Dan Fogler, Callum Turner, Alison Sudol, Claudia Kim, Kevin Guthrie, Brontis Jodorowsky

Fantastic Beasts: The Crimes of Grindelwald, EUA, 2018, Aventura, 134 minutos

Sinopse: Newt Scamander (Eddie Redmayne) reencontra os queridos amigos Tina Goldstein (Katherine Waterston), Queenie Goldstein (Alison Sudol) e Jacob Kowalski (Dan Fogler). Ele é recrutado pelo seu antigo professor em Hogwarts, Alvo Dumbledore (Jude Law), para enfrentar o terrível bruxo das trevas Gellert Grindelwald (Johnny Depp), que escapou da custódia da MACUSA (Congresso Mágico dos EUA) e reúne seguidores, dividindo o mundo entre seres de magos sangue puro e seres não-mágicos. (Adoro Cinema)

Criatividade é uma das qualidades que a escritora J.K. Rowling tem de sobra, e é impossível dizer o contrário quando qualquer espectador entra em contato, especialmente pela primeira vez, com a saga Harry Potter, um dos maiores ícones cinematográficos dos anos 2000. Por isso mesmo, é natural que a autora queira cuidar da sua galinha de ovos de ouro (a Forbes já chegou a estimar que a fortuna de Rowling tenha ultrapassado um bilhão de dólares, tornando-a mais rica do que a Rainha Elizabeth II, sua conterrânea britânica). Contudo, há uma linha muito tênue entre o zelo saudável com esse material de prestígio estratosférico e o prejudicial controle criativo por um projeto que precisa de outros olhares e interpretações para ganhar novas qualidades. Pois com Animais Fantásticos: Os Crimes de Grindelwald, Rowling está no limite de romper essa linha: se no primeiro filme dessa nova saga estrelada por Eddie Redmayne as suas limitações ao assumir o posto de roteirista absoluta da franquia já eram perceptíveis, a situação se complica por definitivo neste segundo capítulo, onde o excessivo controle criativo da autora coloca em risco todo o potencial criativo de uma história que parece se prolongar de maneira tão desnecessária e desestimulante quanto os três intermináveis capítulos de O Hobbit dirigidos por Peter Jackson.

Encarando a saga Animais Fantásticos mais como um parque de diversões destinado aos fãs incondicionais do que como um produto cinematográfico a ser entregue para o mundo, J.K. Rowling escreve a trama de Os Crimes de Grindelwald sem uma peneira cinematográfica. Isso é um grande problema porque parte do sucesso da saga Harry Potter (e de grande parte das grandes adaptações feitas para o Cinema) se deu pelo olhar compartilhado com roteiristas e diretores. Não que exista algum problema em escritores tornando-se roteiristas (autora de Garota Exemplar, Gillian Flynn foi talentosíssima ao fazer a transposição cinematográfica de seu próprio livro), mas, se o dinheiro não falar mais alto e Rowling tiver bons amigos, alguém certamente precisa avisá-la de que Animais Fantásticos tem tudo para se tornar uma dessas desestimulantes franquias que servem apenas para agradar aos fãs. Além de ser claramente conduzido com estrutura e ritmo de uma obra literária, Os Crimes de Gindelwald pouco avança com uma trama que cai no vício de plantar todo tipo de curiosidade do mundo de Harry Potter para que os fãs se divirtam isso. Em incontáveis sequências, Rowling resgata cenários, feitiços e personagens de Harry Potter para pegar os espectadores pelo afeto, o que, na prática, não acrescenta muito pouco ao que o filme tem a dizer.

Com o mérito de não ter pressa alguma ao desenvolver conflitos, Os Crimes de Grindelwald ao mesmo tempo se embola ao contar diversas histórias paralelas para, ao fim, não contar muita coisa. Com isso, Newt Scamander, o suposto protagonista da franquia, termina por se tornar tão coadjuvante quanto os outros personagens, desperdiçando assim toda a doçura que Eddie Redmayne imprime a um adorável e atípico herói e a despedaçada jornada pessoal de Credence (Ezra Miller). Menos sofisticado dramaticamente do que poderia se esperar, o roteiro ainda opta por caminhos simplistas, como na sequência em que faz determinados personagens se voltarem para o lado do mal porque, sem isso, eles não teriam mais razão para existir nos próximos capítulos da saga. Até mesmo para um livro Os Crimes de Grindelwald seria uma obra menor e pouco interessante, inclusive porque a sensação de ameaça trazida pelo personagem-título interpretado por Johnny Depp muito se assemelha a de Lorde Voldemort (Ralph Fiennes) em Harry Potter.

Frente a tudo isso, a maior surpresa de Os Crimes de Grindelwald é mesmo a aparente volta por cima de Johnny Depp, que, pelo menos na última década, interpretava todo e qualquer personagens com indiscutível descaso ou desinteresse. Aqui, ele parece ter acordado para a questionável oportunidade de ouro que lhe foi entregue: enigmático, reticente e intimidante como Grindelwald, o ator tem presença suficiente para criar um personagem que, tratando-se da composição de um intérprete, facilmente se distancia do vilão outrora vivido por Ralph Fiennes no mundo bruxo. Enquanto isso, Jude Law, que vem do melhor desempenho de sua carreira na minissérie The Young Pope, também é uma boa adesão ao elenco, mesmo que seja um tanto difícil acreditar que seu Alvo Dumbledore possa ter tido qualquer tipo de ligação próxima (inclusive afetiva!) com o agora temido antagonista. Em nome da interessante composição dessa dupla, é justo esperar que Animais Fantásticos consiga se oxigenar daqui para frente, ainda que isso não pareça tão provável, uma vez que não só J.K. Rowling segue no comando no roteiro como o diretor David Yates, que assumiu o cargo de direção desde Harry Potter e a Ordem da Fênix, repetirá a dose atrás das câmeras (e ele já vem liderando essa nova saga sem qualquer inovação). Como um grande fã de Harry Potter fico sempre na torcida, mas, antes de tudo, como um cinéfilo incondicional, já não me sinto estimulado esperar maiores comoções com Animais Fantásticos depois de Os Crimes de Grindelwald.

“Bohemian Rhapsody”: mesmo com fórmula tradicional, cinebiografia comove por capturar a essência do Queen com muita música e energia

What on earth is it about? Scaramouche? Galileo? Beelzebub?

Direção: Bryan Singer

Roteiro: Anthony McCarten, baseado em história própria e de Peter Morgan

Elenco: Rami Malek, Lucy Boynton, Gwilym Lee, Ben Hardy, Joseph Mazzello, Aidan Gillen, Allen Leech, Tom Hollander, Mike Myers, Aaron McCusker, Meneka Das, Ace Bhatti

EUA/Reino Unido, 2018, Drama, 134 minutos

Sinopse: Freddie Mercury (Rami Malek) e seus companheiros Brian May (Gwilyn Lee), Roger Taylor (Ben Hardy) e John Deacon (Joseph Mazzello) mudam o mundo da música para sempre ao formar a banda Queen, durante a década de 1970. Porém, quando o estilo de vida extravagante de Mercury começa a sair do controle, a banda tem que enfrentar o desafio de conciliar a fama e o sucesso com suas vidas pessoais cada vez mais complicadas. (Adoro Cinema)

Quantas cinebiografias encomendadas e empacotadas para o grande público você já viu na vida? Por encomendadas e empacotadas me refiro àquelas com início, meio e fim bem pontuados e que tornam palatáveis, em forma e conteúdo, a vida muitas vezes conturbada de seus respectivos biografados. Se você chutar uma árvore, caem cerca de cinco por ano, enquanto títulos elegantíssimos como Capote, A Rainha e Steve Jobs, surgem a cada dois ou três anos. Tão incomuns quanto essas cinebiografias mais sofisticadas em direção e roteiro são aquelas que, mesmo formais e altamente previsíveis, conseguem transpôr para a tela, com alma e dignidade, a força-motriz dos personagens reais retratados na tela. É assim com Bohemian Rhapsody, um filme que supera as suas claras limitações criativas para, dentro do possível, ajustar certos vícios e se tornar uma experiência viva, espirituosa e até mesmo vibrante. 

Difícil seria não alcançar esse status quando estamos falando do Queen, uma das bandas mais originais e viscerais de que se tem notícia até os dias de hoje. Bohemian Rhapsody, em termos cinematográficos, não se equivale à revolução trazida pelo grupo no meio musical, mas sabe exatamente o que precisa mostrar para justificar as razões que levaram essa história a ser contada na tela grande. A passagem que melhor representa isso é aquela em que o Queen, já surfando na onda de certo sucesso, enfrenta o produtor de sua então gravadora para convencê-lo de que a canção Bohemian Rhapsody, mesmo com seis minutos de duração e um estilo de difícil definição, deveria ser o carro-chefe da promoção do mais recente álbum. O produtor não aceita de jeito nenhum, e os garotos, extremamente confiantes do produto diferenciado que têm em mãos, demitem a gravadora, provando que nada era mais importante para cada um deles do que a total fidelidade ao trabalho que desenvolviam com tanta convicção criativa e artística.

Ao longo do filme, são mostrados outros tantos momentos que evidenciam a singularidade do Queen. A própria gravação da canção-título é uma das sequências mais hilariantes por explorar os métodos poucos convencionais adotados pelo grupo na criação de canções que desafiavam acomodados padrões da indústria musical. Compreendemos a originalidade do Queen por essa boa curadoria de acontecimentos que o filme faz, ainda que, em uma grande quantidade de vezes, o roteiro escrito por Anthony McCarten (A Teoria de TudoO Destino de Uma Nação) ajuste datas e fatos para causar maior impacto dramático, decisão que tem causado inúmeras controvérsias mundo afora — e, sinceramente, só posso ver esse descontentamento como equivalente às bobas reclamações de quem implica com as adaptações que um livro eventualmente sofre ao ser transposto para o Cinema. Fatos podem ser ajustados sim, desde que se mantenha a honestidade. A total fidelidade aos fatos deve ficar com os documentários.

Ainda fazendo uma comparação com outras cinebiografias, em especial aquelas voltadas a relatos de personalidades musicais, Bohemian Rhapsody é mais coeso porque limpa cacoetes característicos do gênero. Por mais que o longa seja essencialmente sobre o vocalista Freddie Mercury, o roteiro faz questão de jamais perder de vista os outros integrantes da banda, que, em outras obras, costumam ser reduzidos a meros figurantes que somem após o sucesso isolado do protagonista. Em Bohemian Rhapsody, Mercury não é ninguém sem seus companheiros e vice-versa. É por situar o grupo de forma tão central na trama que o filme de Bryan Singer ganha mais força musicalmente: o repertório do Queen já seria entusiasmante por si só, mas há uma importante vontade de situar a origem da maior parte das canções, tratando com cuidado um um legado musical que não surge na tela apenas para que o longa contemple o maior número de hits possíveis.

É fato, entretanto, que Bohemian Rhapsody não tem maiores profundidades do ponto de vista dramatúrgico, incluindo em pontos cruciais da carreira da banda e de Freddie Mercury. A homossexualidade do protagonista é, no geral, bem explorada, mas não evita leituras simplistas, como no recorte em que Mercury se afasta de tudo e de todos porque se sente isolado (os outros integrantes da banda casaram, tiveram filhos e constituíram famílias), depositando todas as suas fichas em um namorado que, desde a primeira aparição, sabemos que não é flor que se cheire. A escolha de não tornar a descoberta do HIV uma via crucis apelativa é um ponto a ser considerado em Bohemian Rhapsody (quatro em cinco longas não resistiram à ideia de encenar os pormenores da doença apenas para fazer o protagonista passar por transformações físicas), o que, por outro lado, acaba de certa maneira se tornando apenas um subterfúgio dramático para que o personagem rapidamente remende as pontas deixadas soltas em sua vida pessoal e profissional, como a marcante conexão afetiva que Mercury viveu durante anos com uma mulher e que é mostrada sem muita consistência pelo roteiro. 

Na pele de Mercury, Rami Malek leva certo tempo para se empoderar do ícone que está incorporando: na primeira metade, o ator é basicamente vítima da caracterização, principalmente porque rivaliza com uma prótese dentária medonha que é o centro das atenções nessa fase em que o vocalista é jovem e ainda não assumiu o visual que viria a lhe tornar icônico. Entretanto, quando surge de bigode e cabelo curto, Malek entra naquela fascinante composição em que um ator some diante do personagem. E é louco quem diz o contrário ao assistir à inesquecível sequência final, onde o diretor Bryan Singer reproduz, quase na íntegra, o icônico show do Queen no Live Aid, considerada por muitos uma das mais icônicas performances musicais de todos os tempos. É pura energia e emoção por Malek, pela ambição do projeto em retratar tal momento e porque encerra Bohemian Rhapsody com grandiosidade e potência, fazendo jus à grandiosidade de um grupo cujo repertório musical surge intensamente celebrado. É a síntese perfeita do que existe de mais precioso nesse filme imperfeito e formal, mas vibrante pela clara admiração que nutre por seus biografados.

“Nasce Uma Estrela”: estreia de Bradley Cooper como diretor ganha em sinceridade, mas faz mais do mesmo em comparação a títulos semelhantes

I think you might be a songwriter.

Direção: Bradley Cooper

Roteiro: Bradley Cooper, Eric Roth e Will Fetters, baseado na história Robert Carson e William A. Wellmann, e nos roteiros dos filmes homônimos de 1954 e 1976, escritos respectivamente por Moss Hart e Frank Pierson, Joan Didion e John Gregory Dunne

Elenco: Bradley Cooper, Lady Gaga, Sam Elliott, Andrew Dice Clay, Rafi Gavron, Anthony Ramos, Dave Chappelle, Marlon Williams, Brandi Carlile, Michael D. Roberts, Ron Rifkin, Michael Harney, Rebecca Field

A Star is Born, EUA, 2018, Drama, 136 minutos

Sinopse: Jackson Maine (Bradley Cooper) é um cantor no auge da fama. Um dia, após deixar uma apresentação, ele para em um bar para beber algo. É quando conhece Ally (Lady Gaga), uma insegura cantora que ganha a vida trabalhando em um restaurante. Jackson se encanta pela mulher e seu talento, decidindo acolhê-la debaixo de suas asas. Ao mesmo tempo em que Ally ascende ao estrelato, Jackson vive uma crise pessoal e profissional devido aos problemas com o álcool. (Adoro Cinema)

Originalmente um projeto do veterano Clint Eastwood a ser estrelado por Beyoncé, Nasce Uma Estrela, em sua quarta versão para as telas, inevitavelmente puxa à memória, somente nos últimos anos, vários títulos de diferentes nacionalidades que contam basicamente a mesmíssima história, como o ótimo Johnny & June, também sobre a relação entre dois músicos minada pelo alcoolismo de um deles, ou até mesmo o poderoso Alabama Monroe, longa belga sobre um casal de cantores que, entre a música, o amor e a tragédia, são esmagados pela dura realidade de um relacionamento que, no final das contas, parece não ser destinado a dar certo. Não é só por ser a quarta versão de uma mesma história que Nasce Uma Estrela parece ser mais do mesmo, mas também por lembrar uma infinidade de títulos semelhantes (e superiores). Ao mesmo tempo, você pode perguntar: a estreia de Bradley Cooper precisava mesmo ter algo de novo a dizer? Bom, a resposta para essa questão dá a medida do quanto você embarcará ou não nessa obra que vem surpreendendo pela ótima recepção acumulada desde as suas primeiras exibições mundiais e que já tem sido cotada para receber uma boa quantidade de indicações ao Oscar.

Há, sem dúvida, o fator curiosidade que já garante uns bons trocados para o estúdio. Afinal, Bradley Cooper, que estreia agora atrás das câmeras, é um bom diretor? E Lady Gaga dá conta do recado como atriz de Cinema? É o tipo de filme-evento que, independente do que se diz por aí, você verá para tirar as suas próprias conclusões. Considerando as duas perguntas, o que se conclui é que Cooper pode até não ser o diretor mais sofisticado, mas é sincero e convicto quanto aquilo que deseja fazer. Nasce Uma Estrela, mesmo redundante no tipo de história que conta, não tenta dar um passo maior do que a própria perna, assumindo, sem vergonha alguma, a sua proposta de não ser uma obra de maiores pretensões. Ponto, portanto, para Cooper, que em nenhum momento usa a câmera com vaidade, o que seria muito tentador por ele também ser o real protagonista de Nasce Uma Estrela. Aliás, como ator, Bradley é melhor ainda: talvez até ciente do papel batido, ele não cria uma caricatura de seu Jackson Maine, inclusive porque, em mais uma consciência colaborativa, sabe que a sua construção de personagem depende da ótima química que estabelece com Lady Gaga, a agora “cantriz” de Cinema que incendeia a tela toda a vez que canta e que se esforça a cada cena como intérprete, mas que tem suas limitações e que jamais consegue se equiparar ao colega.

A partir desses aspectos, Nasce Uma Estrela tem momentos que podem, de fato, validar o excelente status que vem alcançando em suas projeções mundo afora. Um exemplo real disso é a cena onde Cooper e Gaga cantam pela primeira vez Shallow para uma multidão: não só a cantora é de uma talento vocal absurdo como o momento registra emocionalmente a sintonia entre dois personagens perdidos e desiludidos que encontram um no outro uma razão para sorrir e seguir em frente. O problema é que o filme dura 2h30 e, nesse meio tempo, pouco vibra como na cena citada. Escrito por Cooper junto à dupla Eric Roth e Will Feters, o roteiro é o maior problema de Nasce Uma Estrela por cair em armadilhas óbvias, como a de muitas vezes ter música demais e histórias de menos. Entre uma canção e outra, um conflito cai de paraquedas para dar uma movimentada na trama ao mesmo tempo em que, logo em seguida, depois de uma nova apresentação musical, já é solucionado. A falta de uma construção sólida de dilemas em detrimento da música dilui o impacto dos desdobramentos dramáticos e românticos de um filme que, no frigir dos ovos, depende da química de seus protagonistas para segurar uma vivacidade que o roteiro não consegue emanar.

Da metade da projeção em diante, Nasce Uma Estrela muda um pouco a pegada ao transferir boa parte da sua narrativa para a perspectiva de Ally (Gaga) e sua escalada rumo ao tão sonhado sucesso. Os problemas antes pontualmente diagnosticados no roteiro agora se tornam amplos e evidentes: com menos música, as fragilidades emergem com mais facilidade, impulsionadas por uma inegável falta de ritmo. São rasas as saídas que Cooper, Roth e Fetter encontram para minar a relação do casal principal: a cena passada no Grammy, por exemplo, parece produzida por uma novela da Globo tamanha a implausibilidade. Nasce Uma Estrela ainda tenta fazer uma crítica à indústria pop, mas como encontrar alguma profundidade se tudo se resume a um produtor unidimensional cuja única missão é fazer todo tipo de exigência comercial para desconstruir a verdadeira personalidade de Ally? São tentativas válidas no sentido de tornar contemporânea a refilmagem de uma obra encenada pela primeira vez nos anos 1930, mas, na prática, tais circunstâncias não surgem orgânicas, e mais soam como meras ferramentas encontradas pelo roteiro para bagunçar um pouquinho mais a vida do casal, como se o centro de todo o drama fosse o que os fatos fazem com eles e não como cada um administra o peso que a vida joga em suas costas.

Nasce Uma Estrela se sustenta comercialmente e goza de imenso hype pela força do estrelato de Lady Gaga, uma cantora que estourou como ícone pop e que, aos poucos, foi reinventando e pluralizando sua carreira, hoje também marcada por criações e colaborações para o country e para o jazz. Gaga é uma artista nata, fato comprovado inclusive por suas belíssimas participações no Oscar até aqui, em especial aquela em que ela homenageou A Noviça Rebelde, dando voz a clássicos desse inesquecível musical estrelado pela grande Julie Andrews. Cito esse momento porque ele é uma prova cabal do poder cênico e vocal da cantora, que poderia facilmente trilhar uma carreira na Broadway (e é difícil entender como isso ainda não aconteceu!). Já na tela grande, Gaga encanta toda vez que canta, além de ser a base do sucesso conquistado pelo filme, o que não quer dizer que a sua forte presença seja o suficiente para alçar o longa ao status de emoção e narrativa sofisticada que público e crítica vêm lhe atribuindo. Até porque não custava Nasce Uma Estrela ser um tantinho menos previsível para despertar, pelo menos, emoções que já não tenhamos vivido em outros projetos de temáticas semelhantes.

“O Primeiro Homem”: sem narrativa musical e roteiro de autoria própria, Damien Chazelle pouco impressiona em um terreno atípico na sua carreira

Your dad’s going to the Moon.

Direção: Damien Chazelle

Roteiro: Josh Singer, baseado no livro “First Man: The Life of Neil A. Armstrong”, de James R. Hansen

Elenco: Ryan Gosling, Claire Foy, Kyle Chandler, Christopher Abbott, Pablo Schreiber, Ciarán Hinds, Ethan Embry, Jason Clarke, Corey Stoll, Shea Whigham, Patrick Fugit, Lukas Haas

First Man, EUA, 2018, Drama, 141 minutos

Sinopse: A vida do astronauta norte-americano Neil Armstrong (Ryan Gosling) e sua jornada para se tornar o primeiro homem a andar na Lua. Os sacrifícios e custos de Neil e toda uma nação durante uma das mais perigosas missões na história das viagens espaciais. (Adoro Cinema)

O Primeiro Homem não deixa de ser um terreno desconhecido para Damien Chazelle, diretor que vem trilhando uma carreira exitosa no Cinema com títulos premiados como Whiplash: Em Busca da PerfeiçãoLa La Land: Cantando Estações. É de certa forma desconhecido porque, pela primeira vez, Chazelle tanto não dirige um roteiro de autoria própria quanto deixa de lado qualquer tipo de narrativa musical, característica que permeou sua filmografia desde a estreia com o longa Guy and Madeline on a Park Bench. Somente o cineasta pode dizer se tais mudanças de alguma forma afetaram partes do processo criativo, mas, como espectador, é possível aceitar a teoria com alguma convicção, pois é frustrante ver um filme inegavelmente bem dirigido ser limitado por um roteiro morno e que jamais se equivale ao imenso imaginário despertado pela chegada dos astronautas norte-americanos à Lua. 

Originalmente um projeto destinado ao veterano Clint Eastwood, O Primeiro Homem traz Steven Spielberg na produção executiva, o que tem sido utilizado como grande atrativo em manchetes de portais e em materiais de divulgação. Na verdade, não passa de puro chamarisco, já que o longa de Chazelle não tenta se equivaler ou emular o terreno de ficção que Spielberg tanto ajudou a criar e a popularizar ao longo das décadas. Para ser justo, o filme é, na realidade, um relato espacial mais íntimo, propondo uma série de contrastes entre a vida cotidiana na Terra e as dimensões infinitas do espaço sideral. Para isso, o roteiro escrito por John Singer (The Post: A Guerra SecretaSpotlight: Segredos Revelados) se afasta do ícone Neil Armstrong (Ryan Gosling) para tratá-lo como um homem comum que, após passar por uma dolorosa perda familiar, encontra-se deslocado junto à família e aos amigos. Exercer a profissão, portanto, nunca fez tanto sentido para Armstrong: viajar ao espaço é, antes de qualquer coisa, um processo pessoal e uma fuga íntima dessa vida bagunçada e dolorosa na Terra.

Considerando o todo, é justo dizer que O Primeiro Homem funciona por explorar o plano humano em meio a cenários intergaláticos (a sequência que mostra a chegada de Neil à Lua é poderosa porque mostra o quanto nós, seres humanos, somos realmente insignificantes aqui na Terra ou em qualquer ponto do universo). No entanto, o mesmo não se aplica para uma visão mais microscópica do roteiro, que é quase banal na dramatização cotidiana da vida do protagonista. A própria perda familiar que acontece na arrancada da história e motiva boa parte das decisões do personagem é resgatada pontualmente, como se fosse apenas uma forma de encorpar o combustível dramático do filme. Outro aspecto raso a ser considerado é a participação da esposa de Armstrong, vivida por Claire Foy e aqui traduzida como a clássica dona-de-casa que segura a barra, os destemperos e a ausência de um marido que abraça o trabalho ao invés da família em um momento de grande confusão emocional. Por sorte, Foy é boa atriz e muito maior do que o papel que lhe foi proporcionado.

À parte o roteiro morno, que pouco se esmera em curiosidade ou criatividade ao se infiltrar nas pesquisas e simulações da NASA para chegar à Lua, a maior limitação de O Primeiro Homem era realmente difícil de prever: Ryan Gosling. Um dos atores mais queridos de sua geração, Gosling também é um dos mais versáteis (veja ou relembre A Garota IdealDriveNamorados Para SempreO Lugar Onde Tudo Termina Amor a Toda Prova para comprovar), e por isso mesmo impressiona a sua falta de presença como Neil Armstrong. Mirando na interpretação econômica ou no chamado minimalismo, o ator acerta na apatia, sem dar as merecidas dimensões para as pequenas ou grandes complexidades vividas por um personagem que não sabe muito bem onde se sente com os pés mais firmes no chão. Além da falta de tempero do roteiro, O Primeiro Homem carece de um protagonista marcante e que, principalmente, desperte algum tipo de torcida.

Transcorridos cinco anos entre o lançamento de Gravidade e agora o de O Primeiro Homem, conclui-se que a febre de filmes ambientados no espaço ainda não resultou em nenhuma obra capaz de se equiparar à ficção dirigida pelo mexicano Alfonso Cuarón em termos de qualidade. Não que elas tenham essa obrigação, mas, dada a lembrança ainda intacta de uma obra que redefiniu a recente safra das obras do gênero, a comparação segue inevitável. Damien Chazelle, que reúne aqui praticamente os mesmos colaboradores de WhiplashLa La Land, faz de sua incursão espacial uma experiência sólida sob a perspectiva técnica e sensorial, evidenciando o contraponto com uma história que, dessa vez sem a sua assinatura no roteiro, não corresponde à dimensão que o diretor se propõe a traduzir em imagens. Coincidência ou não, Chazelle já pavimenta um caminho de retorno às origens: atualmente, ele está em plena produção de The Eddy, uma série dramática encomendada pela Netflix onde a música se apresenta mais uma vez como epicentro narrativo. Dito isso, é de se perguntar mais uma vez: teria sido O Primeiro Homem um rápido parênteses em sua carreira?

“As Herdeiras”: drama paraguaio mergulha nos delicados significados de uma autodescoberta feminina após os 60 anos

Direção: Marcelo Martinessi

Roteiro: Marcelo Martinessi

Elenco: Ana Brun, Margarita Irun, Ana Ivanova, María Martins, Nilda Gonzalez, Alicia Guerra, Mecha Armele, Ana Banks, Beto Barsotti, Regina Duarte, Norma Codas, Natalia Calcena, Clotilde Cabral

Las Herederas, Paraguai/Alemanha/Uruguai/Brasil/Noruega/França, 2018, Drama, 98 minutos

Sinopse: Chela (Ana Brun) e Chiquita (Margarita Irún), herdeiras de famílias abastadas do Paraguai, vivem da venda de seus bens. Quando Chiquita acaba presa por dívidas jamais acertadas, a até então submissa e reclusa Chela precisa se virar e começa por acaso a prestar serviço para um grupo de senhoras ricas como motorista. Logo a nova realidade, e especialmente a exuberante Angy (Ana Ivanova), a quem conhece durante o trabalho, afetam os interesses, prioridades e atitudes da taxista amadora. (Adoro Cinema)

Considerando que um Kikito esculpido em bronze pesa em torno de 3,5 kg, as atrizes Margarita Irun e Ana Ivanova, representantes do filme paraguaio As Herdeiras na cerimônia de premiação do 46º Festival de Cinema de Gramado, devem ter saído do Brasil pagando excesso de bagagem no aeroporto, pois foram nada menos do que seis categorias conquistadas pelo longa no evento serrano, entre elas a raríssima tríplice coroa de melhor filme pelo júris oficial, popular e da crítica. Aliás, um dos Kikitos ainda se transformou em três, já que o prêmio de melhor atriz foi divido entre as três intérpretes principais do filme. Tudo bem que a seleção de longas estrangeiros não foi lá muito elogiada este ano em Gramado, mas, conferindo As Herdeiras, dá para entender o porquê de tanto carinho por essa obra que tem muitas chances de, pela primeira vez e com muita justiça, levar o Paraguai para o quinteto de finalistas ao Oscar de melhor filme estrangeiro.

Centrado exclusivamente em figuras femininas (os homens mal são vistos em cena e, quando o são, estão desfocados ou fora de quadro), As Herdeiras registra a temporada em que Chela (Ana Brun) precisa lidar com a ausência de sua companheira que acaba de ir para a prisão por ter acumulado dívidas jamais acertadas. O longa parte de um encarceramento, mas, no fundo, é sobre libertação: quando passa a ter que encarar a vida com as próprias pernas, a protagonista, antes tão dependente da mulher com quem viveu por mais de 30 anos, começa a se abrir para um mundo que ela nunca se permitiu conhecer. A pegada é menos óbvia do que pode parecer, pois As Herdeiras é o tipo de filme que explora aqueles pequenos acontecimentos do cotidiano que, isoladamente, não parecem significar muita coisa, mas que, quando vistos com certa perspectiva, traduzem toda uma vida. O cinema brasileiro, inclusive, produziu uma obra de conceito semelhante: o tocante Pela Janela, de Caroline Leone, que pode muito bem ser considerado um filme-irmão de As Herdeiras.

As mais delicadas significações começam quando Chela decide fazer bicos como uma espécie de taxista, transportando diversas senhoras de sua vizinhança para hospitais ou jogos de carteado. Para uma mulher que nunca conduziu a sua própria vida, é altamente simbólico que ela vença o seu receio de dirigir, como se estivesse finalmente assumindo a direção de sua existência. Chela também resiste em receber presentes de suas clientes e, mesmo com os problemas financeiros que enfrenta, também parece não se importar tanto com o dinheiro que recebe pelos serviços, situações que refletem o quanto ela inconscientemente faz aquilo pela nova vida que descobriu na ausência de sua companheira e não exatamente pela necessidade de alguns trocados. A transformação da personagem é minuciosa e silenciosa, bem ao estilo do filme com um todo, o que entrega um tremendo desafio para Ana Brun, uma atriz que, pasmem, está em seu primeiro trabalho no cinema! Brun é grandiosa no minimalismo, e por isso é tamanha a surpresa de sua estreia: tal força, em boa parte dos casos, só emana de quem já tem vasta experiência na dramaturgia, mas ela é um ponto fora da curva, dona de um talento nato.

Com a mesmíssima surpresa se descobre que o diretor e roteirista Marcelo Martinessi também está em seu primeiro longa-metragem. Martinessi havia feito três curtas anteriormente, informação que não chega a nos preparar para a expressiva maturidade que vemos em As Herdeiras. Sua direção lapida com firmeza um roteiro que desenvolve com consistência três universos muito particulares e suscetíveis a estereótipos ou superficialidades: o feminino, o homossexual e o da terceira idade, todos representados com sutileza nas passagens onde a protagonista, que sempre teve dificuldade em assumir e verbalizar a sua orientação sexual, de repente se vê desejando uma de suas clientes e percebendo que, mesmo solitária e depois dos 60, uma mulher ainda tem sim muito a descobrir sobre si própria. Premiado também no Festival de Berlim, onde levou os prêmios de melhor atriz para Ana Brun e de melhor filme pelo júri da crítica, As Herdeiras é mais uma merecida viagem repleta de consagrações que o cinema de língua latina faz pelo mundo. E o melhor: levando para diferentes telas a sua indiscutível vocação para pequenas grandes histórias que empoderam as vidas de uma parcela da sociedade que ainda não é tão representada na ficção quanto deveria.

Rapidamente: “10 Segundos Para Vencer”, “O Avental Rosa”, “A Cidade dos Piratas” e “Ferrugem”

Grande vencedor do 46º Festival de Cinema de Gramado, Ferrugem está na lista dos filmes que disputam a vaga para representar o Brasil na corrida pelo Oscar de melhor filme estrangeiro.

10 SEGUNDOS PARA VENCER (idem, 2018, de José Alvarenga Jr.): Cinebiografia do boxeador brasileiro Éder Jofre, 10 Segundos Para Vencer é o primeiro longa-metragem abertamente dramático assinado por José Alvarenga Jr., que fez carreira dirigindo comédias mais populares e de expressivas bilheterias, como DivãOs NormaisCilada.com e vários títulos dos Trapalhões entre os anos 1980 e 1990. Para essa nova investida, ele optou por um formato seguro e já consolidado nas biografias produzidas pelo cinema brasileiro, onde a história, que transita pelo clássico arco dramático de apogeu, decadência e reerguimento, tem início, meio e fim muito bem definidos, sem nada muito novo em forma ou estrutura. O que dá mesmo força ao projeto é a leitura do esporte como uma ferramenta de interação humana, e não como mero exercício físico ou passatempo: para Éder Jofre, lutar era uma missão de vida e também o que lhe conectava com um pai rígido, exigente e que esperava do filho uma trajetória gloriosa dentro e fora dos ringues. Talvez a escolha por esse olhar mais íntimo e familiar do personagem explique a leitura um tanto insuficiente que 10 Segundos Para Vencer faz do ícone Éder Jofre, poucas vezes devidamente dimensionado como uma mítica figura do cenário esportivo brasileiro. Por ser muito mais sobre laços e ruídos afetivos entre pai e filho, o roteiro abre as portas para que Daniel Oliveira, em plena entrega física, crie uma ótima química com o grande Osmar Prado, aqui em desempenho marcante, buscando todo tipo de humanidade e complexidade em um sujeito que, treinador do próprio filho, dificilmente encontra o equilíbrio saudável entre o seu papel de pai e a sua missão como uma incansável líderança do boxe. Organicamente, Osmar toma conta do filme, ao mesmo tempo em que há generosidade de sobra em sua dinâmica com os outros atores em cena. Não há o que quesionar: o nocaute de 10 Segundos Para Vencer é dele.

O AVENTAL ROSA (idem, 2018, de Jayme Monjardim): Apresentado pelo próprio Jayme Monjardim como o seu primeiro trabalho mais autoral depois de super produções realizadas para o cinema e para TV, O Avental Rosa é uma homenagem ao trabalho solidário e dedicado de pessoas que cuidam de pacientes terminais, tema sempre muito delicado por ser suscetível ao discurso fácil e à panfletagem. Ao preservar muito da linguagem televisiva que tanto consagrou Monjardim na televisão, o filme se desenrola basicamente como uma novela compactada em duas horas de projeção. São pouquíssimos os traços verdadeiramente cinematográficos na tela, começando pelo roteiro, recheado de lições de moral, coincidências e diálogos redundantes, onde são explicados conflitos e questionamentos que já estavam claríssimos através das atitudes de cada personagem. E mais: com um tom fortíssimo de melodrama e de auto-ajuda, o diretor reproduz diversos cacoetes reconhecidos da TV, como quando a protagonista, atormentada pelas discussões de um dia conturbadíssimo emocionalmente, não consegue dormir e se revira na cama com flashbacks e ecos das frases que lhe foram ditas. Na estética, a lógica se repete, pois, quando ganha um creme para a pele de presente, Alicia (Cyria Coentro) passa longos minutos caminhando pela casa e passando o produto lentamente na pele, como se estivesse em um comercial de cosméticos. Com uma grande escala de orçamento, como aconteceu em Olga, é possível maquiar bastante coisa. Já em um filme menor e mais intimista como proposto aqui, as fragilidades emergem de forma mais evidente. Por isso mesmo, conclui-se que O Avental Rosa é feito para o público adepto e afeito à linguagem televisiva. Como desde 2012 não assisto à uma novela sequer (e a última foi Avenida Brasil, que era mais sofisticada do que a média apresentada em horário nobre), não consegui estabelecer qualquer conexão com o longa.

A CIDADE DOS PIRATAS (idem, 2018, de Otto Guerra): A animação A Cidade dos Piratas é tão divertidamente caótica quanto o próprio diretor Otto Guerra, além de ser uma fidelíssima alegoria sobre os nossos tempos, ainda que essa seja apenas uma coincidência do roteiro, que começou a ser escrito em 2001. À parte as questões políticas e sociais tão reivindicadas pelo diretor dentro e fora de seus trabalhos, o filme propõe uma interessante metalinguagem ao colocar o próprio Otto dentro da história: tudo começa quando ele se vê em plena crise existencial e artística após a descoberta de um câncer e de que Laerte, autora dos quadrinhos em que o filme se baseia, de repente passou a renegar os seus próprios personagens. São fatos que realmente aconteceram e que, nos bastidores, bagunçaram por completo a ideia do projeto, algo que Otto viu como uma irresistível oportunidade, incorporando muitos dos acontecimentos na tela. No bom sentido da comparação, isso faz de A Cidade dos Piratas o trabalho mais maluco já assinado pelo animador gaúcho: com personagens improváveis, inúmeras liberdades, humor afiado e, por que não, uma imensa dose de realismo no meio disso tudo, o longa coloca o espectador em terrenos incertos e imprevisíveis, provocando reações que, para o bem ou para o mal, podem ser medidas conforme o gosto de cada um pelo já reconhecido estilo do animador. No raríssimo terreno de animações brasileiras para adultos, A Cidade dos Piratas nos lembra o quanto Otto continua sendo uma figura única e provocadora, que conta uma história como bem entende, sem estar preso a regras ou domesticações, qualidade celebrada pontualmente pelo 46º Festival de Cinema de Gramado com uma menção honrosa entregue ao filme pelo júri oficial. 

FERRUGEM (idem, 2018, de Aly Muritiba): Com as redes sociais tomando conta do nosso cotidiano e da maneira com que nos relacionamos com outras pessoas e inclusive com nós próprios, é muito lógico que o cinema também passe a refletir sobre esse delicado momento geracional. O Brasil, claro, faz parte dessa safra: depois do recente Aos Teus Olhos, agora temos Ferrugem, o grande vencedor do 46º Festival de Cinema de Gramado com os Kikitos de melhor filme, roteiro e direção. Menos verbal e expositivo do que os retratos desse tema costumam ser (e do que vimos em Aos Teus Olhos, por exemplo), o filme de Aly Muritiba levanta suas discussões a partir de perspectivas bastante distintas. A primeira é a de uma garota que, após ter um vídeo íntimo vazado na internet, passa a viver um verdadeiro pesadelo no colégio. A segunda é a de um menino que, por razões um tanto nebulosas, lida muito mal como um observador de todo aquele caos. É corajosa e inesperada a virada que Ferrugem dá na metade da projeção para inverter o foco da narrativa. Todo ato tem uma consequência, e é radiografando a reverberação da culpa, seja ela íntima ou coletiva, que a história ganha uma atmosfera diferenciada para discussões que estão em voga e que ainda serão exploradas de tantas outras maneiras semelhantes no cinema. Ferrugem não é um filme para o público jovem no sentido de ser uma experiência catártica ou embalada comercialmente para esse tipo de público. Pelo contrário: contemplativo, o projeto é muito mais sobre comportamentos do que sobre acontecimentos, tornando-se até um tanto anti-climático dependendo das expectativas, principalmente na segunda parte, muito bem defendida pela ótima performance do jovem Giovanni Di Lorenzo, mesmo que seu personagem não seja o tipo de persona que desperte empatia no espectador. Ferrugem não chega a ser um grande filme, mas as importantes reticências deixadas por ele quanto ao que nos tornamos frente a movimentos tecnológicos ou geracionais colocam o resultado em um patamar no mínimo diferenciado.

“O Conto”: incômoda produção da HBO mergulha nas verdades que criamos (e aceitamos) para sobreviver

Why can’t I remember myself?

Direção: Jennifer Fox

Roteiro: Jennifer Fox

Elenco: Laura Dern, Jason Ritter, Ellen Burstyn,  Elizabeth Debicki, Frances Conroy, Common, Jessica Sarah Flaum, John Heard, Chelsea Alden, Isabelle Nélisse, Matthew Rauch, Tina Parker, Isabella Amara

EUA/Alemanha, 2018, Drama, 114 minutos

Sinopse: Jennifer (Laura Dern) tem uma ótima carreira como documentarista e professora e um relacionamento repleto de carinho e respeito mútuo com seu noivo, Martin (Common). Porém, quando sua mãe encontra uma história que ela escreveu para escola quando tinha 13 anos contando sobre um relacionamento que teve com dois adultos, ela é obrigada a revisitar um passado traumático e reconciliar suas lembranças com o que de fato aconteceu com ela. (Adoro Cinema)

O Conto teve seus direitos de distribuição adquiridos pela HBO na última edição do Festival de Sundance, quando despertou grandes sensações entre público e crítica após a sua primeira exibição. Ao contrário do que se poderia esperar para uma produção questionadora, incômoda e até mesmo polêmica, as reações foram basicamente positivas, ressaltando a urgência do tema discutido. No filme, a diretora Jennifer Fox, também autora do roteiro, relembra a sua primeira (e conturbadíssima) relação sexual, quando ainda era a criança. E ela escolhe um ponto de vista interessante: o da mulher já adulta e bem realizada (Laura Dern) que sempre viveu aparentemente bem com tais lembranças, mas que começa a questionar certezas e verdades quando sua mãe (Ellen Burstyn) encontra, escandalizada, um diário que conta toda a história de forma detalhada.

A provocação de O Conto está em lidar com um assunto delicadíssimo através de uma personagem que, a princípio, não enxerga sua própria condição como algo a ser levado a sério. Isso até a protagonista finalmente perceber que a vida adulta muitas vezes se resume às verdades que criamos e aceitamos para de alguma forma sobreviver a diferentes tipos traumas. É na desconstrução de inúmeras certezas que o filme de Jennifer Fox se torna poderoso, especialmente porque o roteiro trabalha muito bem a questão de como nossas memórias são capazes de adaptar o que de fato aconteceu apenas para corroborar aquilo que queremos tomar como verdade. A relação entre o que realmente se desenrolou e o que a protagonista crê ser realidade é representada com muito impacto, pois O Conto encena uma determinada circunstância que, vista de fora, precisa ser imediatamente diagnosticada e vista como condenável.

Incômoda, a produção toca em inúmeros tabus que evitamos discutir se tratando de sexualidade, em especial a feminina, sempre questionada e colocada à prova pela sociedade. Há precisão e consistência em tudo que O Conto discute a partir dessa perspectiva, o que, infelizmente, não se reflete na forma, que simplifica e tenta dramatizar ainda mais uma história que por si só já impacta e provoca. As tentativas de elevar o tom de urgência são rasteiras, como na primeira meia hora, onde o filme cria cerimônia e suspense para até mesmo verbalizar o que os personagens tanto clamam como traumático e absurdo sem nunca dar qualquer pista sobre o que eles estão falando. A insistência da trilha e o vai e vem na história também atrasam uma trama que talvez fluísse melhor com uma narrativa linear, acumulando no espectador a expectativa para descobrir como toda aquela conturbada infância seria traduzida para a vida adulta.

Com a estrutura proposta, O Conto muitas vezes limita Laura Dern a ser uma espécie de Amy Adams em Animais Noturnos: ela lê e relembra, volta a ler e reflete, em um ciclo que eventualmente acontece alguma coisa para somente no terço final ganhar um material mais completo, onde, aí sim, a atriz mostra seu talento indiscutível e habitual. Apesar disso, as fragilidades são compensadas por discussões que certamente reverberam após a sessão e que são redimensionadas pela maneira aberta com que a diretora expõe a sua vida, inclusive assumindo toda a negação que, durante muitos anos, abraçou para não ter que encarar traumas nefastos. Nesse sentido, O Conto assombra porque consegue, na medida do possível, nos colocar no lugar da protagonista, questionando até que ponto precisamos abraçar a negação como ferramenta para a sobrevivência.

46º Festival de Cinema de Gramado #8: balanço geral da premiação

Ferrugem, de Aly Muritiba, é o grande vencedor do 46º Festival de Cinema de Gramado. Foto: Edison Vara/Pressphoto

Com uma cerimônia efervescente do ponto de vista político, o Festival de Cinema de Gramado encerrou a sua 46º edição no último sábado, 26 de agosto. O filme escolhido pelo júri oficial como o melhor da equilibrada seleção de longas-metragens brasileiros foi o drama Ferrugem, de Aly Muritiba, que já tem estreia prevista no circuito brasileiro para o dia 30 de agosto. Acompanhando os desdobramentos trazidos pelo vazamento de um vídeo íntimo na internet, o longa também faturou os Kikitos de melhor roteiro e melhor desenho de som. Ferrugem, no entanto, não foi o grande vencedor da noite: Benzinho, de Gustavo Pizzi, a grande unanimidade desta edição, levou para casa os prêmios de atriz para Karine Teles e atriz coadjuvante para Adriana Esteves, além dos Kikitos de melhor filme pelo júri popular e pelo júri da crítica. É no mínimo estranho Benzinho não ter encantado o júri oficial, especialmente quando público e crítica concordam que este era o melhor filme em competição. Não que Ferrugem não tenha méritos, mas Benzinho é o tipo de filme que será lembrado como uma indiscutível pérola do cinema nacional recente (e é bem provável que, com razão, ainda seja escolhido como o representante do Brasil para tentar uma vaga no Oscar de melhor filme estrangeiro).

No geral, a lista contemplou a grande pluralidade da seleção deste ano, deixando apenas dois filmes sem prêmios: O Avental Rosa, de Jayme Monjardim, e Mormaço, de Marina Meliande. O primeiro, definido por Monjardim como um trabalho muito pessoal e autoral, realmente merecia passar despercebido por sua linguagem altamente televisiva e melodramática, mas o segundo ter saído de mãos abanando é um pequeno crime, pois é contundente a análise sócio-política que a diretora faz de um Brasil em franca transformação urbana e que, durante esse processo, oprime os menos favorecidos. Também é um pouco surpreendente a vitória de André Ristum como melhor diretor por A Voz do Silêncio: seu amadurecimento como realizador desde O Outro Lado do Paraíso se traduz na tela, mas, particularmente, acredito que os trabalhos de Gustavo Pizzi e Marina Meliande sejam mais complexos e inovadores. 

Osmar Prado e o seu Kikito de melhor ator por 10 Segundos Para Vencer. Foto: Edison Vara/Pressphoto

Entre as categorias técnicas, foram acertados os três Kikitos para Simonal e a menção honrosa para a animação A Cidade dos Piratas, do veterano Otto Guerra, lembrada, segundo o júri, por seu “humor não domesticado”. Contudo, nenhum momento foi tão emblemático ou comovente quanto a vitória de Osmar Prado por 10 Segundos Para Vencer, a sua primeira por um papel como protagonista em cinema ao longo de 60 anos de carreira. Pelo desempenho em si, a consagração já seria comovente (e sua emoção era genuína), mas, ao defender o ex-presidente Lula, hoje “injustamente trancafiado nas masmorras de Curitiba”, mobilizou vaias e aplausos no cinema. Para os contrários, disse “pode vaiar”. Para os que compartilhavam do sentimento, ergueu o Kikito com orgulho. Certamente, um dos momentos mais memoráveis do Festival de Cinema de Gramado nos últimos anos, fazendo jus ao engajamento e  à resistência que fizeram do Palácio dos Festivais um templo do cinema brasileiro. Ainda no plano nacional, foram bem divididas as consagrações entre os curtas-metragens. Assim como nos longas, a escolha do júri oficial (a animação Guaxuma) não coincidiu com o queridinho da crítica e do público (a também animação Torre). Felizmente, a discordância não é grave: tanto Guaxuma quanto Torre são, ao mesmo tempo, filmes pessoais e universais, além claro, de serem animações, gênero que cresce cada vez mais no cenário audiovisual brasileiro. Se há alguma ressalva na lista, essa é a do pouco caso com Nova Iorque, comovente produção estrelada por Hermila Guedes e pelo pequeno Juan Calado, que saiu de Gramado somente com o Kikito de melhor fotografia e com o prêmio do Canal Brasil para curtas. Chegando aos longas estrangeiros, “somente” não se aplica aos oito prêmios recebidos por As Herdeiras, sendo três para as atrizes Ana Brun, Margarita Irun e Ana Ivanova. Dirigido por Marcelo Martinessi, o filme foi considerado pela crítica como o franco favorito para fazer o Paraguai estrear na disputa pelo Oscar de filme estrangeiro.

Confira abaixo lista completa de vencedores da 46ª edição do Festival de Cinema de Gramado:
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LONGAS-METRAGENS BRASILEIROS

MELHOR FILME: Ferrugem, de Aly Muritiba
MELHOR DIREÇÃO: André Ristum (A Voz do Silêncio)
MELHOR ATRIZ: Karine Teles (Benzinho)
MELHOR ATOR: Osmar Prado (10 Segundos Para Vencer)
MELHOR ATRIZ COADJUVANTE: Adriana Esteves (Benzinho)
MELHOR ATOR COADJUVANTE: Ricardo Gelli (10 Segundos Para Vencer)
MELHOR ROTEIRO: Jessica Candal e Aly Muritiba (Ferrugem)
MELHOR DESENHO DE SOM: Alexandre Rogoski (Ferrugem)
MELHOR TRILHA MUSICAL: Max de Castro e Wilson Simoninha (Simonal)
MELHOR DIREÇÃO DE ARTE: Yurika Yamazaki (Simonal)
MELHOR MONTAGEM: Gustavo Giani (A Voz do Silêncio)
MELHOR FOTOGRAFIA: Pablo Baião (Simonal)
MENÇÃO HONROSA: A Cidade dos Piratas, de Otto Guerra
MELHOR FILME – JÚRI POPULAR: Benzinho, de Gustavo Pizzi
MELHOR FILME – JÚRI DA CRÍTICA: Benzinho, de Gustavo Pizzi

LONGAS-METRAGENS ESTRANGEIROS

MELHOR FILME: As Herdeiras, de Marcelo Martinessi
MELHOR DIREÇÃO: Marcelo Martinessi (As Herdeiras)
MELHOR ATRIZ: Ana Brun, Margarita Irun e Ana Ivanova (As Herdeiras)
MELHOR ATOR: Nestor Guzzini (Mi Mundial)
MELHOR ROTEIRO: Marcelo Martinessi (As Herdeiras)
MELHOR FOTOGRAFIA: Nelson Waisntein (Averno)
PRÊMIO ESPECIAL DO JÚRI: Averno, de Marcos Loayza
MELHOR FILME – JÚRI POPULAR: As Herdeiras, de Marcelo Martinessi
MELHOR FILME – JÚRI DA CRÍTICA: As Herdeiras, de Marcelo Martinessi

CURTAS-METRAGENS BRASILEIROS

MELHOR FILME: Guaxuma, de Nara Normande
MELHOR DIREÇÃO: Fábio Rodrigo (Kairo)
MELHOR ATRIZ: Maria Tugira Cardoso, por Catadora de Gente
MELHOR ATOR: Manoel do Norte (A Retirada Para Um Coração Bruto)

MELHOR ROTEIRO: Marco Antônio Pereira (A Retirada Para Um Coração Bruto)
MELHOR DESENHO DE SOM: Fábio Carneiro Leão (Aquarela)
MELHOR TRILHA MUSICAL: Manoel do Norte (A Retirada Para Um Coração Bruto)
MELHOR DIREÇÃO DE ARTE: Pedro Franz e Rafael Coutinho (Torre)
MELHOR MONTAGEM: Thiago Kistenmacker (Aquarela)
MELHOR FOTOGRAFIA: Beto Martins (Nova Iorque)
PRÊMIO ESPECIAL DO JÚRI: Estamos Todos Aqui, de Chico Santos e Rafael Mellim
PRÊMIO CANAL BRASIL DE CURTAS: Nova Iorque, de Leo Tabosa
MELHOR FILME – JÚRI POPULAR: Torre, de Nádia Mangolini
MELHOR FILME – JÚRI DA CRÍTICA: Torre, de Nádia Mangolini

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