Cinema e Argumento

Rapidamente: “Ad Astra”, “El Camino”, “Era Uma Vez em… Hollywood” e “A Lavanderia”

Meryl Streep em A Lavanderia: novo filme de Steven Soderbergh replica o espírito e as fórmulas de A Grande Aposta e Vice, títulos recentes assinados pelo diretor Adam McKay.

AD ASTRA: RUMO ÀS ESTRELAS (Ad Astra, 2019, de James Gray): É recomendável dar uma pesquisada na filmografia de James Gray (Os Donos da NoiteAmantesEra Uma Vez em Nova York) antes de embarcar em Ad Astra: Rumo às Estrelas. A partir dela, já é possível concluir que essa nova ficção científica estrelada por Brad Pitt não seguirá formatos óbvios e muito menos uma cartilha comercial do gênero. E é isso mesmo o que acontece: contemplativo, Ad Astra é uma experiência sensorial mais preocupada na viagem interior de um homem designado a ir atrás do próprio pai em outro planeta do que nas curiosidades ou nas possíveis adrenalinas envolvendo uma saga no espaço sideral. Munido da belíssima trilha de Max Richter e da excelente fotografia de Hoyte Van Hoytema, James Gray conduz o filme em baixa fervura e com com um toque íntimo que, especialmente no terço final da história, confere uma delicada potência emotiva à jornada do protagonista. Sendo assim, por mais que tenha uma interrogação central, o roteiro de Ad Astra não tem como objetivo desencadear um suspense ou explorar os mistérios do universo. Sua vocação é investigar os meandros de uma relação paterna mal resolvida e lacunar, algo definitivamente alinhado à identidade de Gray como realizador. Não é o tipo de filme que conquistará multidões, mas, como um ponto fora da curva em um gênero amplamente explorado nos últimos anos, Ad Astra alcança o sempre bem-vindo efeito de reverberar além da sessão.

EL CAMINO: A BREAKING BAD MOVIE (idem, 2019, de Vince Gilligan): Há de se compreender a imensa vontade do público em querer voltar ao universo da premiada série Breaking Bad. Contudo, El Camino, o filme dirigido por Vince Gilligan que avança um tantinho na história do programa, jamais se justifica — e pior: sequer está entre os momentos inspirados do seriado, que teve seu último episódio exibido em setembro de 2013. Em linhas gerais, o filme é apenas a encenação de uma nova via crucis para Jesse Pinkman, o trágico personagem vivido sempre com muita garra por Aaron Paul. Vá lá, muitos reencontros são bem-vindos, e há uma infinidade de referências nostálgicas a elementos e outros personagens da série. Entretanto, como extensão ou complemento ao universo de Breaking Bad, El Camino é uma decepção sem fim: além de ter um roteiro repleto de furos (é inadmissível que Jesse, perseguido nacionalmente pela polícia, hospede-se na casa de amigos traficantes já investigados um punhado de vezes sem que ninguém o procure lá), El Camino não tem clima ou muito menos menos uma trama que acrescente camadas desconhecidas de Jesse Pinkman. Nem como entretenimento funciona: repetitivo, o longa é uma sucessão de cenas de tensão que seguem a mesmíssima fórmula, apontando para uma falta de inspiração e cuidado que jamais poderíamos prever em um roteiro de Vince Gilligan. Apesar da nova investida, o desfecho que seguirá forte na memória é, sem dúvida alguma, o que vimos lá em 2013 no episódio Felina, e não El Camino, que tem tudo para não resistir ao tempo.

ERA UMA VEZ EM… HOLLYWOOD (Once Upon a Time… in Hollywood, 2019, de Quentin Tarantino): Mais um trabalho de excessos assinado por Quentin Tarantino, Era Uma Vez em… Hollywood reforça a falta de objetividade que tem acometido o diretor nos últimos anos. Assim como em Os Oito Odiados, ele leva cerca de três horas para contar uma história que poderia durar muito menos. É clara dedicação em criar uma atmosfera mais calorosa e nostálgica, mas a marcha é tão lenta que a baixíssima fervura não consegue levar o espectador para muito além das homenagens afetuosas ao cinema que o diretor presta com tanta propriedade aqui (e que podem tanto deliciar os apaixonados por cinema quanto entediar as plateias mais populares que acompanham a filmografia de Tarantino. No sentido de não fazer muita coisa com o imenso tempo que toma do espectador, a mais prejudicada é Margot Robbie, resumida a irradiar tela com sua beleza bem fotografada (ela não dispõe de texto suficiente ou outras munições para expandir sua personagem). Entre ecos de outros filmes de cineasta (a reimaginação de acontecimentos reais como em Bastardos Inglórios) e o tradicional clímax sanguinolento, macarrônico e de tom elevado, Era Uma Vez em… Hollywood tem em Leonardo DiCaprio e Brad Pitt as suas melhores qualidades. Inspirados e assertivos nas facetas de papéis muito diferentes, eles são o sopro de energia em um longa maçante, excessivo e por vezes interminável. A conclusão segue a mesma: um pouco de objetividade só faria bem a esse icônico cineasta que hoje está viciado em inchaços narrativos.

A LAVANDERIA (The Laundromat, 2019, de Steven Soderbergh): É inevitável tecer comparações entre A Lavanderia e o estilo que o diretor Adam McKay passou a adotar nos últimos anos em títulos como A Grande ApostaVice. Novamente, temos um tema super complicado (para não dizer desinteressante) tratado com um tom cômico, crítico e com certas opções narrativas cujo objetivo é facilitar o entendimento da trama para o espectador mais leigo. O prolífero Steven Soderbergh, que já chegou a vencer um Oscar de melhor direção por Traffic, aborda, dessa vez, o escândalo conhecido como Panama Papers, um dos maiores escândalos de vazamento de dados da história, quando milhões de documentos revelaram um amplo esquema de ocultamento de fortunas e lavagem de dinheiro em diversos paraísos fiscais ao redor do mundo. Para tanto, ele opta se apoiar descaradamente na fórmula de A Grande Aposta Vice, entregando uma experiência requentada, quase sem personalidade, onde nem mesmo o elenco de luxo encabeçado por Meryl Streep, Gary Oldman e Antonio Banderas consegue trazer qualquer frescor. Isso é um tanto inaceitável mesmo quando lembramos de Soderbergh em seus momentos menos interessantes, já que ele sempre errou experimentando e não copiando. Há uma crítica contundente e importante na cena final, protagonizada por Meryl Streep em seu melhor momento no filme, mas é pouco para uma obra que, ao contrário dos títulos que tenta emular, não cria uma ponte efetiva entre o espectador e a difícil trama que tenta traduzir de forma irreverente.

“Greta”: com grande interpretação de Marco Nanini, longa investiga as complexas intimidades de um personagem gay na terceira idade

A felicidade nem sempre é divertida.

Direção: Armando Praça

Roteiro: Armando Praça, baseado no espetáculo “Greta Garbo, Quem Diria, Acabou no Irajá”, de Fernando Mello

Elenco: Marco Nanini, Démick Lopes, Denise Weinberg, Gretta Sttar

Brasil, 2019, Drama, 97 minutos

Sinopse: Pedro (Marco Nanini) é um enfermeiro de 70 anos que trabalha em um hospital público de Fortaleza. Sua melhor amiga é Daniela (Denise Weinberg), artista transexual que enfrenta graves problemas de saúde. Quando ela precisa ser internada, mas não encontra leito disponível, Pedro sequestra um paciente recém-chegado, Jean (Démick Lopes), e o abriga em sua casa. Inicialmente, o enfermeiro tem medo do rapaz agressivo, que se esconde da polícia por ter assassinado um homem a facadas. Depois, nasce entre eles uma relação de cumplicidade e afeto. (Adoro Cinema)

Lançado pela primeira vez como um espetáculo teatral em 1974, o texto Greta Garbo, Quem Diria, Acabou no Irajá era uma comédia escrachada que fazia o público rir de personagens cujas tragédias carregavam um quê de mediocridade. Cerca de 35 anos depois, mais especificamente em 2008, a situação mudou de cenário quando o diretor Armando Praça entrou em contato com o trabalho do dramaturgo Fernando Mello: em tempos mais livres, democráticos e tolerantes, Praça, decidido a realizar seu primeiro longa-metragem, já não via mais lugar para que a história de Pedro, um enfermeiro homossexual de 70 anos apaixonado por um criminoso, fosse motivo de risada. Não que exista algo de errado com o gênero da comédia, que pode sim ser poderoso em inúmeras leituras e circunstâncias, mas, para ele, o caso era diferente: as piadas envolvendo a encenação do texto haviam envelhecido mal, tornando urgente a necessidade de uma releitura para uma história tão íntima. O que importava para o diretor era que o protagonista fosse enfim visto como um homossexual repleto de facetas e que busca ser reconhecido como… um ser humano.

De comédia teatral a drama cinematográfico, o texto, agora com o título abreviado de Greta, ganha uma perspectiva bastante realista ao narrar os anseios de Pedro, um homem imerso em solidão e invisível perante a sociedade. Por si só, o retrato já é raro: além de mostrar um personagem na terceira idade com as devidas complexidades e transformações, Greta discute o tabu da homossexualidade na velhice, fase da vida em que muitos gays voltam ao armário para escapar de uma nova rodada de preconceitos e cobranças impostas pela sociedade. A situação é ainda mais delicada, uma vez que ele, um trabalhador de classe média baixa apaixonado pela atriz Greta Garbo, está imerso em solidão e invisibilidade (sua única amiga é uma transexual que passa por sérios problemas de saúde). A partir desse isolamento social que, por tabela, é responsável por reprimir muitos dos seus desejos ainda pulsantes, Pedro tem relações sexuais tortas e tortuosas em saunas da cidade e até mesmo com alguns de seus pacientes, o que rompe qualquer traço ético que ele deveria estabelecer com uma profissão que, nessa altura da vida, exerce sem motivação alguma.

Ambientado em pouquíssimos cenários e com um número de coadjuvantes que não enchem uma mão, Greta bebe, inevitavelmente, de sua origem teatral ao fazer tanto com tão pouco. O olhar que lança para a vida de seu protagonista é desesperançoso, inclusive porque o único feixe de luz na vida de Pedro está na paixão impossível com um fugitivo da polícia que ele conhece no hospital e passa a abrigar na sua própria casa. Não há moralismo ou o mínimo resquício de pudor em Greta: ao passo que Marco Nanini se despe de qualquer vaidade em um papel que já foi do saudoso Raul Cortez nos palcos, o filme em si não alivia para o espectador, adotando uma fotografia de poucas cores e planos fechados para despertar uma sensação de claustrofobia, antes já ensaiada pela quantidade limitada de cenários (vale notar como o apartamento do protagonista é um aperto e como a câmera insiste, de forma acertada, em se aproximar dos personagens mesmo em ambientes onde eles próprios parecem não caber).

Greta não comete o erro de fazer de seu protagonista uma figura palatável. Pedro erra (com convicção) e frequentemente toma atitudes questionáveis. Ele também se entrega a relações mesmo sabendo que elas estão fadadas a incontáveis problemas, não procura justificar a substituição do seu vazio emocional por sexo casual (muitas vezes, aliás, em condições deprimentes) e parece não ter filtro para distinguir até que ponto de fato está fazendo o que bem entende ou se está apenas se humilhando. Há um ar patético, talvez preservado da origem teatral, e uma decadência inerente ao personagem que Marco Nanini captura com profundidade e sem nenhuma maquiagem, em uma entrega impressionante. Com o vasto repertório acumulado como um intérprete capaz de transitar com facilidade entre o drama e a comédia, Nanini brilha em cena, mais ainda quando navega pelo descontrole emocional de um homem que talvez já não saiba mais quantos traumas consegue aguentar antes de enlouquecer de vez (ou de enfim retomar forças para se reconstruir).

É importante entrar no universo particular de Greta sem cobrar certas verossimilhanças. Não há muita explicação, por exemplo, para o fato da polícia jamais procurar Pedro ou visitar sua casa para saber sobre o paradeiro do criminoso que ajudou a escapar do hospital e por quem se apaixonou. As evidências são claríssimas, mas o filme não se preocupa muito com essa lacuna, o que contribui para para o esvaziamento dessa situação impossível, onde o protagonista se relaciona com um homem acusado de homicídio. Dispensando esse tipo de fragilidade, Greta é tanto incômodo quanto delicado porque coloca a totalidade do que somos como dois lados da mesma moeda. Nossos ímpetos, sonhos e desejos nos identificam como seres humanos, mas, vejam que ironia, também nos separam. Muito do que tomamos como certo ao longo da vida é negado a Pedro simplesmente pela combinação entre a sua idade e a sua natureza sexual. E é no epicentro dessa rejeição que o filme, buscando conexão e sentido para um protagonista errante, evidencia muitas de nossas falhas. Armando Praça está certo: no caso de Greta, faz mesmo todo o sentido deixar as velhas piadas de lado.

“Midsommar: O Mal Não Espera a Noite”: apático e sem ritmo, novo terror de Ari Aster não cumpre as expectativas em torno do diretor

Do you feel held by him? Does he feel like home to you?

Direção: Ari Aster

Roteiro: Ari Aster

Elenco: Florence Pugh, Jack Reynor, Vilhelm Blomgren, William Jackson Harper, Will Poulter, Ellora Torchia, Archie Madekwe, Henrik Norlén, Gunnel Fred, Isabelle Grill, Julia Ragnarsson

Midsommar, EUA/Suécia, 2019, Terror/Drama, 137 minutos

Sinopse: Após vivenciar uma tragédia pessoal, Dani (Florence Pugh) vai com o namorado Christian (Jack Reynor) e um grupo de amigos até a Suécia para participar de um festival local de verão. Mas, ao invés das férias tranquilas com a qual todos sonhavam, o grupo vai se deparar com rituais bizarros de uma adoração pagã.  (Adoro Cinema)

Se há uma vertente do terror que reagrupou força e relevância nos últimos anos, essa foi a que investiga o ser humano em seus sentimentos mais nebulosos, sofridos e atordoantes. De natureza antropológica e nada comercial, A Bruxa, por exemplo, mostrou as fraquezas morais, religiosas e sociais de uma família que, entre outras coisas, não sabe sequer lidar com o crescimento de uma filha que já começa a amadurecer e a entrar na vida adulta. Já aqui no Brasil, produções maravilhosas como O Animal Cordial, As Boas ManeirasMormaço lançaram um olhar muito crítico para as profundas feridas de um país ainda assolado pelo preconceito, pela intolerância e pela desigualdade. E também existe Ari Aster que, nos Estados Unidos, exorcizou os dramas de uma família em profundo luto com o cultuado Hereditário e que agora é mais uma vez aclamado com Midsommar: O Mal Não Espera à Noite, onde encena a deterioração de um relacionamento amoroso marcado pelo individualismo, pela incomunicabilidade e pela falta de empatia.

Individualismo, incomunicabilidade e falta de comunicação são definições até generosas para o que Christian (Jack Reynor) faz com Dani (Florence Pugh). Forçando-se a cuidar da namorada que não ama mais apenas por pena ou por não conseguir terminar com ela, Christian ilude emocionalmente uma garota marcada por uma recente tragédia familiar. Sem saber dispensar a namorada, Christian convida Dani para uma viagem que ele faria com seus amigos homens para a Suécia, o que desperta uma imediata frustração no grupo que já esquematizava a frequência com que fariam sexo em terras estrangeiras. Chegando na Suécia, eles ficam hospedados em uma pequena comunidade que vive um festival de verão muito particular, onde todos são convidados a testemunhar e até mesmo participar de determinados rituais. E isso é tudo o que você precisa saber sobre a tônica de Midsommar, que passa a colocar as suas cartas na mesa a partir daí. Antes disso, Ari Aster claramente bebia da fonte do que Hereditário tinha de melhor: o luto como matéria-prima para o desatino mental e  para sentimentos desencontrados que despertam a imprevisibilidade nas ações humanas.

Vale lembrar que Aster despontou como uma verdadeira promessa ao lançar Hereditário. Ainda que irregular (e até um tanto desonesto) ao jogar fora a promessa de um terror psicológico para sucumbir a várias explicações e vícios tão comuns do gênero, o diretor mostrava grande personalidade atrás das câmeras. Tecendo comparações entre um filme e outro, Midsommar tem mais unidade do que Hereditário, sem grandes incompatibilidades narrativas ou estéticas. Por outro lado, Hereditário tinha potência quando acertava, algo que não podemos afirmar sobre Midsommar. Longa demais, a trama carece de de atmosfera. Pessoas e rituais estranhos existem aos montes (e a decisão de tentar criar tensão em um ambiente idílico, ensolarado e florido é interessante), mas fazer personagens sumirem aqui ou ali por motivos misteriosos não é necessariamente sinônimo de tensão. Tampouco instiga os desdobramentos que Aster, também autor do roteiro, faz das peculiaridades daquela comunidade: no máximo, ele desperta estranhamento quando registra um ritual que coloca em xeque os valores pré-concebidos que temos sobre suicídio e o fim da vida (e também sobre como somos intolerantes a culturas diferentes das nossas).

Entre a apatia do terror e a fragilidade das discussões dramáticas diante disso, Midsommar não é superlativo em nenhuma abordagem. Há um ponto digno de nota: o clímax, que mistura orgasmo, destruição e violência como uma recompensa direta da tomada de consciência de uma personagem que, diante do estranho, passa a se (re)conhecer. É nesse momento que o filme encorpa a vitalidade que lhe faltava até ali e que existia de sobra na primeira metade de Hereditário. Contudo, a frustração maior é mesmo a oportunidade perdida de fazer terror com as nossas angústias e com as nossas fraquezas mais íntimas. Outro ponto fraco que contribui para tal percepção é a irregularidade do elenco, que varia entre momentos bons (a maior parte deles entregues a Florence Pugh) e inexpressivos, para não dizer perfeitamente dispensáveis (Will Poulter, como o homem mais desprezível do grupo de amigos, é a perfeita representação do personagem que deveria ter sido eliminado no primeiro tratamento de roteiro). Portanto, quando é impossível se importar com os personagens, não há mesmo escapatória: sem atmosfera, empatia, ritmo ou até mesmo Toni Collette, Midsommar fica à deriva, sem jamais cumprir as expectativas criadas tanto pela ascensão recente Ari Aster quanto por tudo aquilo que o filme, em vão, tenta sinalizar.

“Big Little Lies”, segunda temporada: como a dificuldade em aceitar o conceito de minissérie é capaz de arruinar um projeto

Após adaptar por completo o livro homônimo de Liane Moriarty, Big Little Lies avança na vida das Cinco de Monterey sem o refinamento narrativo e estrutural que o seu incomparável elenco merecia.

Quando o conceito de minissérie deixa de ser respeitado, chegamos a experiências vazias como a da segunda temporada de Big Little Lies. Por definição, minisséries deveriam durar um único ciclo, e a decisão de prolongá-las carrega um risco muito grande, pois significa que determinada emissora ou plataforma poderá esticar além da conta uma história inicialmente idealizada para ter início, meio e fim. No caso de Big Little Lies a situação é ainda mais complicada, uma vez que a primeira temporada da atração adaptava por completo o livro homônimo de Liane Moriarty, material que deu origem à atração. São raríssimos os projetos que conseguem avançar com excelência em uma história já transposta por completo para as telas (The Leftovers, que durou três temporadas, foi impecável nesse sentido). Praticamente todos os casos, como a segunda temporada de The Handmaid’s Tale, citando outro programa recente, atestam que, mesmo com as melhores munições, tornar-se exceção à regra é missão quase impossível. Ainda assim, poucas frustrações são tão grandes como a trazida por Big Little Lies, que, neste segundo ano, ultrapassa o mero problema da expansão irregular de um universo para, em todos os aspectos, deixar um irremediável gosto amargo na boca.

A HBO nega, assim como as protagonistas/produtoras Nicole Kidman e Reese Witherspoon, mas não é necessário um olhar muito clínico para perceber que faz total sentido a notícia de que a diretora Andrea Arnold teria tido sua visão criativa mutilada na pós-produção para que Big Little Lies voltasse a se parecer com o que Jean-Marc Vallée fez na primeira temporada. Aliás, Arnold, que aqui não imprime marca alguma de seu estilo (em narrativas seriadas, é de sua natureza ser cotidiana e afeita aos detalhes íntimos de personagens, como vimos em Transparent), dificilmente teria topado embarcar em um projeto que nada faz além de tentar emular os tiques da primeira temporada e do próprio Vallée. A incômoda insistência em duplicar o extenso número de flashbacks e em instalar algum tipo de suspense ou engenhosidade derruba Big Little Lies de uma maneira amadora, onde a montagem entrecorta tudo o que passa pela frente e deixa o conjunto (ou até mesmo um único episódio) sem muita sequência, unidade ou conexão.

Laura Dern como Renata Klein: a atriz segue arrasando, mas a personagem tem pouca conexão e proximidade com as demais mulheres do seriado.

Se nas telas e nos bastidores o seriado se transformou em uma colcha de retalhos, o mesmo se aplica ao centro dramático da trama (ou mais precisamente à falta dele). São sete episódios que jamais se justificam, uma vez que, transcorrida a temporada, nada descobrimos de novo sobre essas mulheres cuja amizade deveria ter uma gama extra de nuances após os acontecimentos da última temporada. Ao invés disso, os roteiristas colocam uma em cada canto, sob a justificativa de que as Cinco de Monterey, movidas pelo trauma, entraram em uma crise coletiva. A partir daí, Big Little Lies imagina um conflito qualquer para as trajetórias individuais das personagens, de modo que todas se sustentem com seus próprios arcos. Ora, verdade seja dita: por mais que Laura Dern continue um arraso como Renata Klein, os dilemas envolvendo a falência dessa mulher que não cabe dentro de si própria sequer se conectam com o ano anterior, onde ela era vista como uma semi-antagonista nada receptiva com as demais personagens. Algo não se encaixa: Renata finalmente se integrou ao círculo de mães, porém, sua presença, agora avulsa em termos dramáticos, parece perfeitamente irrelevante para suas companheiras.

Entre as protagonistas, Celeste (Nicole Kidman) anda em círculos ao ainda nutrir sentimentos contraditórios pelo marido — e as sessões com a terapeuta, antes tão reverenciadas pela crítica e pelo público, agora beiram a bobagem tamanha a forma irresponsável como a psicóloga tenta ditar os rumos da vida de sua paciente. Já Madeline (Reese Witherspoon) se vê enroscada em um erro do passado que passa a ameaçar seu casamento e a própria paciência do espectador, que precisa testemunhar o desperdício de uma personagem tão interessante e o desenvolvimento de um conflito que se prolonga de maneira inexplicável. Há pouco o que se falar de Jane (Shailene Woodley), reduzida a um plot de romance-parece-cilada, não é aprofundada sob a luz do que sempre foi a sua maior força como mãe solteira: a relação de cumplicidade e delicadeza com o filho pequeno. No mais, a tentativa de dar nova amplitude a Bonnie (Zoë Kravitz) é pífia e duvidosa, já que o faz trazendo estereótipos de misticismo e abusos familiares para o plot da única personagem negra da trama.

Vivida por Meryl Streep, Mary Louise é a nova personagem de Big Little Lies que nem mesmo os próprios roteiristas compreenderam.

Deixo para citar por último a personagem de Mary Louise não por ela ser vivida por Meryl Streep, em uma de suas raras aparições em seriados, mas porque talvez esse seja o maior pecado de Big Little Lies. Promovida como um grande acontecimento tanto para o programa quando para o universo televisivo em si, a participação de Meryl está muito aquém do que poderia se esperar para alguém de seu calibre, e pior: a personagem sequer foi compreendida pelos próprios roteiristas. Relatos dão conta de que Meryl recebia orientações para interpretar Mary Louise, a mãe de Perry (Alexander Skarsgård), como uma espécie de vilã, definição imediatamente rejeitada pela atriz. E ela estava corretíssima: por mais que o seriado insista em explorar o lado passivo-agressivo da personagem e decida colocá-la em colisão com todas as outras mães da vizinhança, pouco foi abordado sobre a trágica e tortuosa negação que ela ironicamente compartilhava com Celeste em relação a Perry e sobre como isso era tanto o que unia quanto o que separava essas duas mulheres. Se há bons momentos para a personagem, é por causa de Meryl e não por méritos da série, que equivocadamente induziu o público a detestar Mary Louise e não a entendê-la.

Para arrematar o ciclo e conferir uma tração de suspense/mistério como na temporada anterior, Big Little Lies, em seus capítulos derradeiros, recorreu ao drama de tribunal. Por mais que o artifício traga os melhores momentos de Nicole Kidman e Meryl Streep neste segundo ano, tudo é muito frágil, quando não implausível: a juíza que conduz o tribunal parece estar em seu primeiro dia de profissão, deixando que advogados, testemunhas e réus tomem conta da sessão, assim como determinadas reviravoltas, a exemplo de um vídeo descoberto de forma milagrosa e conveniente demais, reforçam a percepção de um roteiro escrito no piloto-automático, sem traços de sofisticação. Para quem gosta de novela, a conclusão da segunda temporada também traz todo tipo de resposta com reconciliações, explicações e até uma cerimônia de casamento. A única porta que fica aberta é justamente a mais preocupante: aquela que, a partir da decisão de uma personagem na última cena, deixa a ligeira sensação de que Big Little Lies poderá ter uma terceira temporada. A HBO e os produtores não confirmam — e tampouco descartam oficialmente a possibilidade, para a completa angústia de quem sofreu com o total vazio de uma segunda temporada que sequer precisava existir.

47º Festival de Cinema de Gramado #8: o que esperar da premiação?

Equipe de Pacarrete na noite de estreia em Gramado: filme de Allan Deberton estrelado por Marcélia Cartaxo é o favorito para dominar a noite de premiação do Festival.

O Festival de Cinema de Gramado encerra hoje a sua 47ª edição. Após três perdas recentes (o apresentador Leonardo Machado e os curadores Eva Piwowarski e Rubens Ewald Filho), o evento serrano trouxe, em 2019, uma seleção menos instigante em comparação a outros anos. À parte a exibição fora de competição do aguardado Bacurau, o único ponto realmente alto da mostra competitiva foi Pacarrete, longa cearense dirigido por Allan Deberton que despertou uma comoção como poucas vezes vista no Palácio dos Festivais. Não só o prêmio de melhor atriz parece mais do que garantido para a veterana Marcélia Cartaxo como o filme em si, desde já uma pérola do cinema brasileiro, tem tudo para levar para casa uma grande quantidade de Kikitos.

O júri, na verdade, tem uma tarefa árdua: a de fazer a matemática inversa e pensar, na verdade, quais os prêmios não dar para Pacarrete. Isso porque os demais concorrentes dificilmente se equiparam ao título cearense, que é a experiência mais encantadora, completa e comovente da edição. É de se imaginar que a lista de vencedores guarde uma ou outra estatueta para O Homem Cordial, alguns prêmios técnicos para Hebe – A Estrela do Brasil e até alguma menção honrosa do júri como consolação para um dos concorrentes. De resto, sobram obras medianas para baixo, que dividiram opiniões na Serra Gaúcha ou que certamente seriam uma surpresa em qualquer categoria principal, como VenezaRaia 4 ou Vou Nadar Até Você.

É importante, contudo, nunca subestimar o que pode acontecer em uma reunião de júri. Temos três decisões polêmicas na história recente de Gramado: Colegas, em 2012, tirando o prêmio de melhor filme de O Som ao RedorA Estrada 47, em 2014, sendo consagrado o melhor longa de uma edição que premiou o belo A Despedida em direção, ator, atriz e fotografia; e 2018, quando Benzinho, o melhor filme pelo júri popular e da crítica, perdeu o Kikito para Ferrugem. Ainda assim, é um tanto inconcebível Gramado consagrar qualquer outra obra que não seja Pacarrete. Já entre os curtas-metragens brasileiros e os longas-metragens estrangeiros, a situação é mais aberta, ainda que se perceba, pelo menos nos curtas concorrentes, um forte protagonismo de temáticas sobre diversidade (Marie, que acompanha a história de uma transexual; Sangro, sobre um jovem lidando com a descoberta de HIV; e Menino Pássaro, ambientado em um condomínio paulista que fica em polvorosa com a chegada de um jovem morador de rua negro na calçada do prédio).

Rumo aos seus 50 anos, o Festival de Cinema de Gramado segue como a mais prestigiada tela do Brasil e como palco da estreia nacional de marcantes títulos brasileiros como AquariusQue Horas Ela Volta?BenzinhoComo Nossos PaisO Som Ao Redor e, agora, Bacurau. A mostra estrangeira, que um dia já premiou Pedro Almodóvar, Juan José Campanella, Norma Aleandro e Javier Bardem, certamente precisa ser revista, mas o Festival, que não teve uma sessão sequer sem protestos por parte dos realizadores contra o governo Bolsonaro, tem sempre aberto novas portas (em 2017, inaugurou o Gramado Film Market, programação inteiramente voltada à discussão do audiovisual como indústria e mercado), o que logo nos cria boas expectativas pelo que vem por aí com a aproximação da meia década de história do evento.

A premiação do 47º Festival de Cinema de Gramado acontece hoje (24), a partir das 21h, com transmissão pelo Canal Brasil e pela página oficial do evento no Facebook.

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