Cinema e Argumento

Rapidamente: “Um Dia de Chuva em Nova York”, “Ford vs. Ferrari”, “As Golpistas” e “História de Um Casamento”

Constance Wu e Jennifer Lopez em As Golpistas: filme dirigido por Lorene Scafaria é tudo aquilo que Oito Mulheres e Um Segredo deveria ter sido.

UM DIA DE CHUVA EM NOVA YORK (A Rainy Day in New York, 2019, de Woody Allen): A Amazon não pensou duas vezes antes de colocar Um Dia de Chuva em Nova York na geladeira quando as problematizações envolvendo o passado de Woody Allen ressurgiram durante a era #MeToo. Finalmente revelado ao mundo após um processo do diretor contra a plataforma, o filme sai da geladeira direto para o esquecimento: com um roteiro repetitivo, apático e cansativo, Woody Allen recicla várias de suas marcas sem nenhuma inspiração, colocando abaixo a teoria de que mesmo os seus piores projetos são melhores do que muitos outros realizados por aí. Da interpretação inconvincente e recheada de tiques de Timothée Chalamet ao carrossel de coadjuvantes insípidos, Um Dia de Chuva em Nova York esbarra em táticas já empoeiradas de Allen, como a de traduzir nos personagens traços próprios de sua personalidade. O problema é que aqui estamos falando de protagonistas jovens, e por isso mesmo o linguajar erudito e as reflexões existencialistas soam tão inverossímeis. Sem nem utilizar a geografia de Nova York com muita inspiração, Allen entrega uma trama das suas tramas mais cansativas, onde a única sequência arejada e envolvente é o monólogo de Cherry Jones. Frente a esse trabalho tedioso, o subestimado Roda Gigante, que Woody dirigiu anteriormente, tem as suas qualidades ainda mais evidenciadas. 

FORD VS. FERRARI (Ford v Ferrari, 2019, de James Mangold): Com um público-alvo muito bem definido, Ford vs. Ferrari não esconde a sua predileção por plateias brancas e masculinas, uma vez que não há qualquer traço de representatividade ou universalidade em sua concepção. A temática em si não deixa de ser limitadora: o mundo das corridas automobolísticas e toda a ganância de um contexto corporativo que faz duas grandes marcas do gênero se digladiarem dentro e fora das pistas. A partir dessa perspectiva, é importante perceber como Ford vs. Ferrari ignora a existência de qualquer pessoa negra, considera flatulências, socos e testículos como matéria-prima para o humor e desenvolve apenas uma personagem feminina, limitada a ficar mais da metade do filme apenas acompanhando as corridas do marido pela TV. Dramaticamente, os antagonistas são unidimensionais e pura caricatura, reforçando a falta de qualquer sutileza do filme. As cenas de corrida chegam a prender a atenção e refletem uma uma parte técnica bem acabada, assim como Christian Bale, que, dessa vez fazendo sotaque britânico, diverte-se com seu personagem, mas tudo não vai muito além disso. Para quem não aprecia toda a testosterona envolvendo carros potentes, Ford vs. Ferrari faz jus a sua longuíssima metragem (152 minutos) e rende ao espectador um verdadeiro chá de cadeira. 

AS GOLPISTAS (Hustlers, 2019, de Lorene Scafaria): Em 2018, Oito Mulheres e Um Segredo tentou realizar um entretenimento protagonizado por mulheres que arquitetavam um grande assalto. Eventualmente, funcionava como entretenimento, mas o roteiro era frágil, as personagens pouco desenvovidas e o próprio assalto não transmitia nenhum senso de ameaça. Tudo isso, de certa forma, é compensado por As Golpistas, onde um grupo de strippers resolve passar a perna nos seus riquíssimos clientes de Wall Street quando eles deixam de frequentar o clube após a crise financeira que abalou os Estados Unidos entre 2007 e 2008. Com uma diretora mulher comandando a história, o cenário ultrapassa a barreira de um filme pop e feminino sobre trapaça para fazer inúmeros comentários sociais, seja sobre o papel das mulheres na sociedade (e como elas são julgadas por trabalhos tidos hipocritamente como indignos) ou sobre como o dinheiro é, para o bem e para o mal, um instrumento fundamental para definir nossa sobrevivência no mundo. Também autora do roteiro, Lorene Scafaria dirige As Golpistas harmonizando muito bem o senso de entretenimento e reflexão, sem jamais deixar que o filme seja mais uma coisa do que outra. É um feito raro e que ganha ótimos contornos com a ajuda de personagens femininas nunca objetificadas e sempre bem exploradas, com destaque para as duas protagonistas vividas com brilho por Constance Wu e Jennifer Lopez.

HISTÓRIA DE UM CASAMENTO (Marriage Story, 2019, de Noah Baumbach): Uma das boas surpresas da temporada de premiações em 2020 foi ver um filme simples e cotidiano como História de Um Casamento conseguir indicações em várias das categorias principais de cada cerimônia. Nele, o diretor e roteirista Noah Baumbach volta ao tema da separação que ele próprio já havia abordado em A Lula e a Baleia a partir de uma outra proposta, agora centrado no casal em si e não nos efeitos que o divórcio traz aos filhos. Sem cenas mirabolantes, Baumbach encontra grandeza na simplicidade e, especialmente, nos desempenhos comoventes de Scarlett Johansson e Adam Driver. Na escala dos coadjuvantes, Laura Dern, Alan Alda e Ray Liotta exploram, com diferentes abordagens, o espírito danoso e competitivo que os advogados de divórcio inevitavelmente despertam em um momento delicado como esse. Cada conflito ou reflexão de História de Um Casamento está em momentos corriqueiros do dia a dia, estreitando a possibilidade de identificação do espectador com o filme. Franco e por vezes doloroso, o longa, contudo, tem sua maior maturidade ao apresentar personagens que não estão necessariamente em um período de tentar recuperar o que um dia tiveram. Ele encena outro momento: aquele em que, aos poucos, ambas as partes percebem a necessidade de seguir em frente e superar todo um passado, mesmo que ainda reconheçam o quanto amam um ao outro. Trata-se de uma circunstância difícil de ser absorvida na vida real, mas que História de Um Casamento debate com grande sinceridade.

“1917” e os efeitos do plano-sequência: ganha o fascínio ou a dispersão?

Hope is a dangerous thing.

Direção: Sam Mendes

Roteiro: Krysty Wilson-Cairns e Sam Mendes

Elenco: George MacKay, Dean-Charles Chapman, Colin Firth, Benedict Cumberbatch, Daniel Mays, Pip Carter, Andy Apollo, Paul Tinto, Josef Davies, Billy Postlethwaite, Gabriel Akuwudike

EUA/Reino Unido, Drama, 119 minutos

Sinopse: Os cabos Schofield (George MacKay) e Blake (Dean-Charles Chapman) são jovens soldados britânicos durante a Primeira Guerra Mundial. Quando eles são encarregados de uma missão aparentemente impossível, os dois precisam atravessar território inimigo, lutando contra o tempo, para entregar uma mensagem que pode salvar cerca de 1600 colegas de batalhão. (Adoro Cinema)

Objeto de reflexões amplas e opostas entre teóricos do cinema como André Bazin e Jacques Aumont, o tão cultuado plano-sequência costuma comover plateias. Em linhas gerais, a ideia consiste na captura de determinada cena sem cortes aparentes, como se a câmera fosse exatamente a mesma ao longo de toda uma ação. Filmes recentes foram altamente elogiados pelo uso dessa técnica, como BirdmanO Regresso (não por acaso, ambos renderam ao mexicano Alejando González-Iñárritu o Oscar de melhor direção). Contudo, há uma diferença crucial entre eles e 1917, que agora tem rendido prêmios e aclamação mundial ao diretor Sam Mendes. Enquanto Iñárritu usava o plano-sequência em momentos pontuais, 1917 narra toda a sua história com essa linguagem, propondo a ideia de que o longa é contado em tempo real durante aproximadamente duas horas. E aí se trata de uma discussão à parte.

Como em tudo no cinema, partimos inevitavelmente para o plano da identificação. Tanto o espectador pode interpretar o ambicioso plano-sequência de 1917 como uma poderosa ferramenta de imersão quanto pode se distanciar do filme justamente em função dele. Afinal, onde fica a espontaneidade ou o espaço para a criação quando tudo foi tão planejado em detalhes, além de extensivamente ensaiado para que nada ficasse fora do lugar? Sabemos, claro, que há diversos cortes camuflados em 1917, mas a lógica interna de que a história de desenvolve em um único plano exige sincronia e continuidade cirúrgicas. Informações dão conta de que os atores ensaiaram durante seis meses para cada imagem fosse registrada da maneira como o diretor Sam Mendes havia imaginado. Por ser uma produção de ampla escala, qualquer erro nesse processo também custaria a 1917 uma boa quantia em dinheiro. 

Toda essa contextualização é importante para entender como não há espaço para naturalidade ou improviso em 1917. A experiência começa muito impressionante, e a sensação de imponência é preservada até o último minuto de projeção porque a equipe técnica reunida aqui é do mais alto nível. Entretanto, com o desenrolar da trama, é possível perceber cada intenção de Sam Mendes na construção desse espetáculo. Não é necessário um olhar muito clínico para perceber onde o diretor realizou algum corte (conte as cenas em que a tela fica escura de um ambiente para outro e você já terá uma boa noção) ou onde o roteiro, escrito por Mendes em parceria com Krysty Wilson-Cairns, planejou uma pausa reflexiva em meio à adrenalina. Se abrissemos 1917 como um mapa, veríamos cada fronteira dramática e cada movimento técnico desenhados de maneira muito clara. 

Uma comparação feita com fervor até aqui pela crítica e por aqueles que não embarcam na proposta é a de que o longa se assemelha muito a um videogame. E há verdade nisso: em tempo real, os personagens parecem avançar entre fases, enfrentando um desafio a cada novo ambiente explorado. Schofield (George MacKay) e Blake (Dean-Charles Chapman) passam por trincheiras, escapam de tiros, enfrentam um desabamento subterrâneo, desbravam a noite, caem na lama, são levados pela forte correnteza de um rio, administram o surgimento de inimigos inesperados e, quando passam de determinadas fases, encontram até sargentos e generais interpretados por atores famosos como Colin Firth e Benedict Cumberbatch, todos remetendo aos personagens que surgem com explicações ou informações para um jogador ao concluir uma importante etapa de um game.

Em meio a essa lógica que só não entrega um joystick ao espectador para que ele controle a brincadeira, Dean-Charles Chapman e principalmente George MacKay fazem o possível para conferir algum tipo de profundidade aos protagonistas. O desafio é impossível de ser cumprido, pois 1917 está mais preocupado com suas virtudes técnicas do que com qualquer outra coisa, e por isso só resta aos atores a comunicação corporal entre tantas exigências físicas. Ainda é pouco: Chapman e MacKay não vão muito longe dramaticamente, e é até difícil lembrar o rosto de cada um após a sessão. Ambos são empenhados e comprometidos, é verdade, mas limitados à preparação física e aos ensaios de um filme cuja amplitude dramática está concentrada no tamanho da guerra.

Como exercício técnico, 1917 entrega o espetáculo prometido com o uso do plano-sequência: o mestre Roger Deakins se esbalda na direção de fotografia (a sequência noturna é de arrepiar e está entre as mais belas imagens já criadas por ele), Thomas Newman dá o tom clássico de um filme de guerra na trilha sonora e o cuidadoso trabalho de som do quarteto Mark Taylor, Oliver Tarney, Rachael Tate e Stuart Wilson contribui para todas as intenções de imersão do longa. Mendes foi muito mais feliz casando conteúdo e estética em 007 – Operação Skyfall, mas isso não diminui a ambição técnica de 1917, que, como uma produção grandiosa, é irrepreensível. Créditos também devem lhe ser dados pela ideia de fazer uma celebração não a grandes líderes, mas aos homens comuns das trincheiras. E fica por aí. Elogiar mais do que isso está diretamente condicionado ao fato de cada espectador se conectar ou não com a proposta do plano-sequência.

“Judy: Muito Além do Arco-Íris”: cinebiografia presta tributo à memória de Judy Garland sem hipocrisia, embelezamentos ou momentos edificantes

You won’t forget me, will you?

Direção: Rupert Goold

Roteiro: Tom Edge, baseado no espetáculo “End of the Rainbow”, de Peter Quilter

Elenco: Renée Zellweger, Jessie Buckley, Finn Wittrock, Michael Gambon, Rufus Sewell, Richard Cordery, Royce Pierreson, Darci Shaw, Andy Nyman, Bella Ramsey, Lewin Lloyd

Judy, Reino Unido, 2019, Drama, 118 minutos

Sinopse: Inverno de 1968. Com a carreira em baixa, Judy Garland (Renée Zellweger) aceita estrelar uma turnê em Londres, por mais que tal trabalho a mantenha afastada dos filhos menores. Ao chegar ela enfrenta a solidão e os conhecidos problemas com álcool e remédios, compensando o que deu errado em sua vida pessoal com a dedicação no palco. (Adoro Cinema)

Fatores externos não devem necessariamente ser pré-requisitos para a devida apreciação de um filme, mas há casos em que compreender elementos orbitantes a um projeto enriquece determinada experiência de maneira categórica. Reserve um tempo, portanto, para investigar a vida de Judy Garland antes de conferir Judy: Muito Além do Arco-Íris. E o mais importante: recupere também a carreira de Renée Zellweger, desde quando ela teve seu primeiro papel de destaque em Jerry Maguire: A Grande Virada nos anos 1990 até chegar ao próprio Judy. Espelhando a trajetória de ambas, a semelhança fica clara em um piscar de olhos: descobertas, celebradas, mastigadas e, por fim, cuspidas por Hollywood, as duas viram o melhor e o pior dessa indústria.

A diferença, claro, é que Renée não faleceu aos 47 anos em um dos momentos mais baixos de sua carreira. Na verdade, aos 50, a texana vencedora do Oscar de melhor atriz coadjuvante por Cold Mountain tem a chance de renascer em Hollywood justamente ao prestar um tributo muito íntimo e particular à colega. Após ter amargado vários projetos terríveis, enfrentado anos de depressão e lidado com toda a misoginia de uma opinião pública impiedosa com a aparência e o envelhecimento das mulheres, Renée agora reverencia o legado de Garland com uma série de significados muito particulares que talvez apenas ela pudesse traduzir com tanta propriedade.

A escalação da atriz é perfeita porque Renée compreende que uma cinebiografia como essa não deve ser feita para passar a mão na cabeça de Hollywood. Judy recusa a ideia de glamourizar a vida de sua personagem-título ou de tentar amenizar todo o sofrimento vivido por ela em suas últimas semanas de vida. A escolha do recorte já é um claro recado por si só: com base no espetáculo “End of the Rainbow”, de Peter Quilter, o roteirista Tom Edge reúne acontecimentos da temporada em que Garland, esquecida e escanteada pelos Estados Unidos, viaja à Inglaterra para juntar algum dinheiro com uma agenda de shows e, assim, voltar a sustentar seus próprios filhos.

Ao mesmo tempo em que encena os dias de uma Judy Garland já derrotada e debilitada, o filme, em meio a essa tristeza, busca devolver à atriz algum tipo de respeito e dignidade. E o faz sem purpurinas, momentos edificantes ou a tão esperada apresentação final responsável por induzir o espectador a pensar que, apesar dos pesares, tudo ficou bem. Sem hipocrisia, Judy se apresenta como uma comovente reparação para uma estrela que, nos bastidores, não desistia apesar das adversidades. As pílulas que lhe foram empurradas goela abaixo desde criança, a pressão por ter se tornado estrela cedo demais em um mundo de aparências e as crueldades trazidas pela vida e pelo trabalho após o envelhecimento lhe abalavam, mas, até ali, nunca lhe aniquilavam.

Na pequena grande resistência de Garland, Judy tem uma personagem que, no fundo, tentava seguir em frente porque, assim como todos nós, tinha medo de ser esquecida. Essa perspectiva é traduzida na relação estabelecida pelo filme entre a protagonista e os palcos. Cantar, de certa forma, já não era mais suficiente para Garland, que muitas vezes subia ao palco alterada por remédios, bebidas e noites de insônia. No entanto, quando se empoderava sob os holofotes, dominava a atenção por completo. A mulher magra, pálida e frágil dos bastidores de repente voltava a alcançar as notas que lhe alçaram ao sucesso mundial, (re)conquistando plateias e também o espectador do lado de cá da tela.

Quando Garland eventualmente se reergue, a conexão entre Renée e ela se estreita, e aí fica difícil (no bom sentido) distinguir quem nos comove: a protagonista em si dentro daquele recorte pontual ou quem a interpreta. Essa simbiose é íntima e especial inclusive porque as canções são interpretadas por Renée. Mesmo que auxiliada pelo playback de gravações em estúdio, a atriz se junta a Taron Egerton em Rocketman e não a Rami Malek em Bohemian Rhapsody no sentido de criar a sua homenagem particular a Garland, procurando voz e interpretação próprias para encarnar uma figura que merece ser muito maior do que uma simples mímica.

Assumindo que um tributo a Garland tem mais dignidade quando inexiste a obsessão de tentar copiá-la, Renée se mostra sábia e corajosa. A cena em que ela canta Somewhere Over the Rainbow atesta tal posicionamento: para a atriz, o importante nesse momento não é reproduzir fielmente a voz de Garland, mas sim toda a rouquidão, a hesitação e a fragilidade de uma mulher tão sugada pela vida que já não consegue cantar com desenvoltura um de seus maiores clássicos. Renée, aliás, ressignifica muitas das fragilidades do filme e potencializa detalhes importantes, como a relação da protagonista com o público gay, aqui representado por um humilde casal que faz companhia a Garland em uma noite onde, assim como em tantas outras, ninguém mais lhe espera na saída do teatro para um autógrafo.

Verdade seja dita que, tratando-se de forma, Judy: Muito Além do Arco-Íris é um longa-metragem tradicional, imperfeito e até inexpressivo do ponto de vista estético. O diretor Rupert Goold, cuja carreira é muito mais teatral do que cinematográfica, não faz muita diferença no projeto: tê-lo ou não atrás das câmeras parece irrelevante, pois as decisões mais importantes não vêm dele, e sim do recorte proposto pelo roteiro e, claro, da escalação de Renée Zellweger. Judy, portanto, ganha na franqueza: sem ser apaziguador, associa a retrospectiva do legado de Garland à necessidade de fazer Hollywood refletir sobre cicatrizes que ainda continuam bastante abertas, provando que as coisas realmente não mudaram muito com o passar dos anos.

“O Escândalo”: mesmo com ótimas atrizes, longa perde em sutileza ao falar sobre dilemas femininos a partir de perspectivas masculinas

People don’t stop watching when there’s a conflict. They stop watching when there isn’t one.

Direção: Jay Roach

Roteiro: Charles Randolph

Elenco: Charlize Theron, Nicole Kidman, Margot Robbie, John Lithgow, Kate McKinnon, Connie Britton, Mark Duplass, Allison Janney, Malcolm McDowell, Liv Hewson, Stephen Root, Robin Weigert, Amy Landecker, Brigette Lundy-Paine

Bombshell, EUA/Canadá, 2019, Drama, 109 minutos

Sinopse: Um gigante do telejornalismo e antigo CEO da Fox News, Roger Ailes (John Lithgow) tem seu poder questionado e sua carreira derrubada quando um grupo de mulheres o acusa de assédio sexual no ambiente de trabalho. (Adoro Cinema)

Uma dose considerável de cansaço tomou conta de mim nos primeiros minutos de O Escândalo. Quebrando a quarta parte, o filme de Jay Roach sobre a derrocada do magnata Roger Ailes após inúmeras denúncias de assédio sexual por parte de funcionárias da Fox News faz uma introdução ao seu universo televisivo e corporativo com sátira, agilidade e, claro, descomplicações de determinados fatos e contextos. O cansaço veio porque já vimos demais esse estilo recentemente. Coloque na conta os dois últimos trabalhos de Adam McKay (A Grande Aposta e Vice), o Eu, Tonya de Craig Gillespie e o genérico A Lavanderia de Steven Soderbergh e você terá noção do quanto tal fórmula já soa repetitiva mesmo sendo uma tendência tão recente.

No caso de O Escândalo há um ligeiro frescor que não dissipa o sentimento de repetição, mas que brinca com uma interessante metalinguagem: apresentadora de TV, Megyn Kelly (Charlize Theron) explica eventos e circunstâncias olhando diretamente para o espectador ao transitar pelos bastidores da Fox News, com a mesma postura de alguém que está ao vivo em um telejornal. À parte essa boa brincadeira, a pegada e o ritmo são os mesmos de sempre,  o que imediatamente leva o espectador a deduzir que o filme inteiro se desdobrará dessa maneira. Não é exatamente o que acontece porque O Escândalo dá uma boa amortecida na proposta, tornando-se mais comedido do que o esperado em tiques e afetações.

Entretanto, como um relato ligeiramente mais comportado de fatos reais, o longa deixa revelar uma significativa fragilidade, alimentada desde a concepção do projeto. Ora, como é possível uma história sobre assédio sexual contra mulheres em um ambiente de trabalho não contar, justamente, com pelo menos uma presença feminina no roteiro ou na direção? Sejamos francos ao afirmar que O Escândalo funciona sem maiores problemas durante toda projeção, mas sempre há essa atmosfera de que algo está faltando. Sem um olhar feminino, o filme não cimenta as entrelinhas que deveriam explorar emocionalmente as angústias vividas por mulheres capazes de enfrentar todo tipo de adversidade para denunciar um homem e um sistema.

A limitação de olhares masculinos para dilemas femininos está exemplificada na cena em que uma das personagens confessa ter cedido às investidas imorais do chefe que prometeu colocá-la na linha de frente da Fox News caso ela provasse sua “lealdade”. A personagem em questão discursa e chora, protagonizando um momento comovente. O que acontece é que essa cena discute inúmeras cargas dramáticas de maneira expositiva, como se por si só compensasse o fato do longa não ter desenvolvido em detalhes e sutilezas os conflitos internos de uma mulher que custou a compreender o que estava acontecendo com ela própria. Para dilemas de tamanha importância, é frustrante que discussões tão sérias, profundas e relevantes acabem reduzidas a um punhado de sequências apoiadas na verbalização de conflitos internos.

Com propriedade e lugar de fala garantidos por alguma presença feminina na linha de frente, O Escândalo poderia potencializar os efeitos de uma história tão significativa para a nossa realidade, dando munição ao próprio Jay Roach, que, após ter abandonado a realização de comédias como Austin Powers e Entrando Numa Fria, dirigiu produções baseadas em histórias reais com grande talento (destaque para Virada no JogoRecontagem, dois telefilmes bastante instigantes com o selo HBO). Isso seria desejar um projeto completamente diferente, mas é bem provável que a experiência pudesse se apresentar com mais consistência, contentando-se menos com a reprodução de fatos (a cena em que uma personagem levanta a saia para Roger Ailes não seria tão gráfica nas mãos de uma diretora)  e mais nos efeitos dramáticos de cada acontecimento para a vida das protagonistas e da sociedade como um todo.

Considerando as presenças femininas de O Escândalo, destaque absoluto para o trio central de atrizes. Charlize Theron hipnotiza com o tanto que ficou parecida com Megyn Kelly, desaparecendo por completo em uma personagem que domina as atenções. Já Nicole Kidman tem em Gretchen Carlson a figura mais transparente do filme: como a primeira profissional a denunciar Roger Ailes, Gretchen quebrou barreiras, mesmo quando se viu sem o apoio inicial de suas colegas. Por fim, Margot Robbie, que tem melhor material aqui do que no recente Era Uma Vez Em… Hollywood, trabalha com uma interessante personagem ficcional que sintetiza várias outras vítimas. Charlize, Nicole e Margot, não por acaso, são o ponto alto do filme e só comprovam o quanto as discussões de O Escândalo se tornam maiores e melhores quando dominadas por figuras femininas. 

“Adoráveis Mulheres”, uma refilmagem capaz de reverenciar e oxigenar o seu material de origem na mesma medida

I believe we have some power over who we love.

Direção: Greta Gerwig

Roteiro: Greta Gerwig, baseado no romance “Little Women”, de Louisa May Alcott

Elenco: Saoirse Ronan, Florence Pugh, Timothée Chalamet, Emma Watson, Eliza Scanlen, Laura Dern, Meryl Streep, Louis Garrel, Chris Cooper, Tracy Letts, Bob Odenkirk, James Norton, Jayne Houdyshell, Maryann Plunkett

Little Women, EUA, 2019, Drama, 135 minutos

Sinopse: As irmãs Jo (Saoirse Ronan), Beth (Eliza Scanlen), Meg (Emma Watson) e Amy (Florence Pugh) amadurecem na virada da adolescência para a vida adulta enquanto os Estados Unidos atravessam a Guerra Civil. Com personalidades completamente diferentes, elas enfrentam os desafios de crescer unidas pelo amor que nutrem umas pelas outras. (Adoro Cinema)

Há duas razões plausíveis para uma obra querida por gerações ser revisitada de tempos em tempos. Em primeiro lugar, gosto de pensar que há o fator da reverência: quando bem feita, uma nova adaptação pode homenagear determinada história com todo o respeito e o refinamento merecidos, mesmo quando os pontos e as vírgulas do roteiro são iguais entre um trabalho e outro. Afinal, é um prazer reencontrar conhecidos personagens se eles renascem com encanto (o imperdoável é ficar entre as fronteiras do desastre e da indiferença). A segunda razão vem da necessidade de atualização, quando um diretor ou uma diretora busca, na raiz de uma história clássica, motivos para interpretá-la a partir do olhar de novas gerações.

Escrito em 1868 pela autora estadunidense Louisa May Alcott, o romance Mulherzinhas já foi adaptado para o cinema, para o teatro e para a TV. A versão mais célebre, talvez, seja a cinematográfica de 1994, que reuniu nomes como Winona Rider, Susan Sarandon, Kirsten Dunst, Claire Danes, Christian Bale e Gabriel Byrne. Era simpática, mas não marcante. Pois agora chegamos a uma versão de elenco ainda mais estelar e comandada por uma cineasta que, recém saída de indicações ao Oscar de melhor roteiro e direção por Lady Bird: A Hora de Voar, adapta o material de Louisa May Alcott com reverência e atualizações pontuais que justificam a releitura.

“Eu passei por muitas dificuldades, por isso escrevo histórias felizes”. Abrindo Adoráveis Mulheres com essa frase da própria Louisa, Greta Gerwig já dá um pequeno spoiler de como será o seu filme: luminoso, espirituoso e afetuoso, ainda que, no caminho, as protagonistas enfrentem desamores, perdas e frustrações. Melhor diretora aqui do que em Lady Bird, Gerwig compreende o quanto o carinho presente na obra da escritora é essencial para o diálogo com o espectador, e o amplia em todas as frentes, como no gracioso trabalho de elenco, nos delicados figurinos de Jacqueline Durran e na encantadora trilha sonora de Alexandre Desplat. É preciso estar disposto a abraçar essa atmosfera para tirar o melhor da refilmagem.

Entre o drama, o bom humor e o romance, Adoráveis Mulheres conta, claro, uma história muito feminina, a partir de um ambiente familiar onde é fácil nutrir simpatia e torcida por cada uma das personagens, todas com seus próprios sonhos e objetivos, mesmo quando umas são melhor trabalhadas do que outras (Emma Watson, que já costuma ser uma atriz limitada, não tem muito o que fazer ao dar vida para a filha mais desinteressante). Em papeis menores, há espaço, por exemplo, para que Laura Dern, com sua ternura habitual, traga todo o calor materno tão necessário ao papel da matriarca ou para que Meryl Streep, em pequenas aparições como alívio cômico, represente a interessante tia rica que optou por não se casar e que tenta planejar um destino equivalente para as sobrinhas.

Enquanto isso, o coração mais pulsante de Adoráveis Mulheres fica com o trio Saoirse Ronan, Florence Pugh e Timothée Chalamet. A primeira, em outro desempenho que comprova as razões de ser considerada o nome mais versátil e interessante de sua geração, conduz o papel da independente e inteligente Jo com múltiplas dimensões, principalmente quando ela se parece mais com as sentimentais irmãs do que está disposta a admitir. Já Pugh, que há pouco esteve em Midsommar, segue com grande presença, explorando as oscilações de uma jovem apaixonada por um garoto que, na verdade, deseja a sua irmã. E, por fim, Chalamet dá uma arejada em tiques frequentemente repetidos em filmes como Um Dia de Chuva em Nova York para criar um Laurie carismático, espontâneo e com excelente química tanto com Ronan quanto com Pugh.

Na novela radiante e sentimental que é Adoráveis Mulheres, Gerwig, também autora do roteiro, busca, enfim, fazer os comentários capazes de conferir o sentimento de atualização para o enredo. Dessa vez, por exemplo, a história da protagonista Jo ganha questionamentos pertinentes para o presente. Um deles é a própria questão mercadológica, responsável por um dos melhores momentos do filme: por que todas as mulheres precisam casar no final de uma trama, seja ela literária ou cinematográfica, para que o público saia satisfeito? Vale a pena bater pé para quebrar estereótipos ou é justo se vender desde que a um bom preço e mediante a exigências? E, na vida, o que acontece com aqueles destinados a viver sem um grande amor? A paixão é o que dá sentido à existência, inclusive quando todo o resto está no seu devido lugar? É mais importante amar ou a sensação de ser amado? 

Algumas dessas questões já estavam presentes nas outras adaptações, mas Gerwig, agora ciente do seu lugar de fala em uma época muito mais aberta a reflexões do gênero, pincela cada uma delas até de forma bastante direta. A vontade de levantar bandeiras eventualmente corta um pouco a sutileza do filme a cena envolvendo um lacrimoso desabafo de Jo com a mãe sobre aquilo a sociedade espera das mulheres soa um tanto artificial para a época encenada pelo filme , o que não diminui as boas intenções que, na maior parte de Adoráveis Mulheres, funcionam tão bem junto a outros singelos, mas importantes detalhes, como o fato de todas as personagens terem alguma vocação artística ou aspiração profissional, escapando do mero ofício de belas, recatadas e do lar.

Ao diminuir o melodrama no sentido de não se ater tanto a pesos dramáticos ou problemas familiares (e tratá-los, vejam só, como amadurecimento e aprendizado), Adoráveis Mulheres também tem, em comparação com o longa de 1994, uma escolha narrativa diferenciada, abandonando a estrutura linear para ir e vir no tempo. E a montagem de Nick Houy, que colaborou com Greta em Lady Bird, trabalha a temporalidade sem parecer um artifício dramático para fazer revelações ou alardear alguma explicação. Sempre que Adoráveis Mulheres salta no tempo, a atmosfera parece ganhar um novo cunho afetivo. São detalhes muito simples e que, assim como aconteceu em Lady Bird, podem ser recebidos com descaso justamente por conta disso (que injustiça!). Prevendo essa equivocada percepção, de repente me flagro com a necessidade de defender Greta mais uma vez da seguinte forma, reproduzindo a última frase que escrevi sobre o seu filme anterior: “não é todo mundo que encontra a fibra da emoção e da inteligência na simplicidade”.

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