50ª Mostra de Cinema de São Paulo #1: “O Outro Lado das Redes”, de Aaron Sorkin

Assim como os algoritmos manipulados por Mark Zuckerberg, O Outro Lado das Redes não parece interessado em pessoas. Filme-irmão do cultuado A Rede Social, de 2010, esse novo olhar sobre os efeitos do Facebook na nossa vida em sociedade não chega a se equiparar, em nenhum aspecto, ao longa anterior dirigido por David Fincher. É contraproducente aproximar os dois, afinal, não só Fincher faz muita falta como Aaron Sorkin, ao abraçar também a direção, falha em capturar qualquer senso de atmosfera ou urgência para questões tão determinantes do nosso tempo. E pior: emoldura a discussão central da forma mais banal possível.
O foco de O Outro Lado das Redes está na cientista de dados do Facebook, Frances Haugen (Mikey Madison), e no repórter investigativo do The Wall Street Journal, Jeff Horwitz (Jeremy Allen White). Seus caminhos se cruzam quando ela, frustrada com os rumos tomados por uma empresa muito distante de sua visão idealizada de mídia social, procura Horwitz para revelar como a manipulação de algoritmos favorece conflitos, extremismos e radicalizações, tanto sociais quanto políticas. Ou seja, embora exponha os bastidores das operações do Facebook, o filme é, essencialmente, uma obra de investigação.
Embora a comparação seja contraproducente, é inevitável aproximar o filme de A Rede Social, cujo olhar clínico e frio para seus personagens descortinava as contradições espinhosas em torno da personalidade de Zuckerberg e da criação de uma plataforma prestes a mudar para sempre a maneira como o mundo se relaciona. A natureza cerebral de A Rede Social surtia efeito porque Fincher sempre se mostrou interessado em potencializar, por meio da linguagem cinematográfica, os textos com que trabalha. O mesmo não pode ser dito sobre Sorkin, que, desde que se tornou diretor, vem demonstrando uma inegável falta de criatividade para contar histórias, como evidenciam títulos como Os 7 de Chicago e Apresentando os Ricardos.
Em O Outro Lado das Redes, ele reduz os dois protagonistas à dinâmica de descoberta e revelação de informações secretas, sem aprofundá-los ou lhes conferir o mínimo de background. Para dar outras tintas a esses personagens, Sorkin apela ao humor ou a referências deslocadas, como na cena em que Horwitz lista os filmes de Frank Capra que Haugen ainda precisa assistir. O recurso soa fraco e gratuito, e logo os protagonistas voltam a ocupar a posição de meros transmissores de teorias, números e documentos. Numa época em que há um volume imenso de informações circulando na internet e no próprio cinema, suas revelações dificilmente surpreendem quem já viu, por exemplo, O Dilema das Redes, popular documentário da Netflix.
O longa também carece de estímulos cinematográficos. Mais afeito a narrativas engessadas e de estrutura expositiva (idas e vindas no tempo, estrutura em capítulos, letreiros com o destino dos personagens), Sorkin parece ter concebido O Outro Lado das Redes sem inspiração. Colaborações valiosas são desperdiçadas, entre elas a do francês Alexandre Desplat, responsável por uma trilha sonora nada memorável — ao contrário daquela que rendeu o Oscar a Trent Reznor e Atticus Ross pelo filme anterior —, e a do diretor de fotografia Jeff Cronenweth, parceiro frequente de Fincher em obras como Clube da Luta, Garota Exemplar e o próprio A Rede Social. Aqui, sua fotografia se restringe a uma estética protocolar.
As limitações de Sorkin como diretor também se refletem nas atuações. Em seu primeiro papel no cinema após o Oscar de melhor atriz por Anora, Mikey Madison é irregular ao tentar equilibrar humor e profundidade em uma personagem quase reduzida a um estereótipo pelo próprio roteiro. Jeremy Allen White, por sua vez, trabalha sempre na mesma nota, repetindo um registro que já conhecemos das temporadas recentes de The Bear. Já Jeremy Strong, como Mark Zuckerberg, se restringe ao terreno da mímica. Mas não culpo os atores: diante de tantas questões a explorar no recorte escolhido, é quase imperdoável a insipidez de O Outro Lado das Redes. Ironicamente, o filme de 16 anos parece mais contemporâneo, do ponto de vista cinematográfico e temático, do que sua continuação.
54º Festival de Cinema de Gramado #6: “Pele de Rinoceronte”, de Marcello Ludwig Maia

De 2023 para cá, três obras audiovisuais abordaram o assassinato da socialite brasileira Ângela Diniz pelo empresário Doca Street em dezembro de 1976: o longa-metragem Ângela, de Hugo Prata; a minissérie Ângela Diniz: Assassinada e Condenada, de Andrucha Waddington; e, agora, Pele de Rinoceronte, filme dirigido por Marcello Ludwig Maia que integra a mostra competitiva do 54º Festival de Cinema de Gramado.
Não é por acaso que a lembrança desse crime tenha sido reacendida com força: apenas em 2025, foram registradas mais de 1.500 vítimas de feminicídio, estatística que reflete uma média de 4,3 mulheres assassinadas por dia. O cinema, no entanto, tem tido dificuldades em encenar a trágica morte da socialite e suas reverberações. Se Ângela era uma cinebiografia equivocada, Pele de Rinoceronte escorrega na panfletagem com uma estrutura estranha e uma direção plana.
Exímio produtor de títulos como Amarelo Manga, A História da Eternidade e Três Verões, Maia dirige sua primeira ficção de longa-metragem criando personagens ficcionais para mostrar o impacto da morte de Ângela à época. Pele de Rinoceronte também opta por não nomear a personagem, rebatizando inclusive a Praia dos Ossos onde ela foi assassinada.
A proposta é compreensível, tanto para evitar a obrigação de ser fiel aos fatos quanto para sugerir que crimes como o cometido contra Ângela podem atingir qualquer mulher. Entretanto, é difícil se desvincular da vida real e fingir que Pele de Rinoceronte não é emoldurado por esse caso de feminicídio que marcou o Brasil, mesmo que a história seja sobre outras duas personagens: a jornalista Helena (Débora Falabella) e a advogada Maria Thereza (Naruna Costa).
As verdadeiras protagonistas correm paralelamente com suas histórias, envoltas por esse ar fake que não se dissipa e munidas de um texto bastante expositivo. Sendo ou não especificamente sobre Ângela Diniz, os debates propostos por Pele de Rinoceronte caem no lugar-comum, trazendo com frequência diálogos que citam pesquisas, números e leis sem que isso se incorpore organicamente à história. O resultado se reflete na falta de conexão do público com as personagens, afinal, os discursos se sobrepõem às construções dramáticas.
Outro ponto que me incomoda é como a ficção insiste em causar em uma mulher uma violência semelhante à sofrida por outra para que ela se solidarize com o que antes lhe era indiferente. Como disse Kristen Stewart na divulgação de A Cronologia da Água, sua estreia na direção, a existência por si só de qualquer mulher já é violenta. Por que, então, não podemos ver uma história onde o feminino se reconhece instintiva e imediatamente, sem que mais uma tragédia seja inflingida?
Diante disso, sobra muito pouco para Débora Falabella e Naruna Costa. A própria direção acompanha as personagens sem inventividade, inclusive na longa sequência em que a advogada ensaia seu argumento de acusação para os tribunais. A cena foi aplaudida na cena de abertura durante a exibição no Palácio dos Festivais, essencialmente pela força da atuação de Naruna Costa, mas o texto pronto demais, assim como em outros momentos, se converte em distração, como se fosse interpretado em um palanque, não exatamente em um filme. Eis aí o grande problema que vem acometendo a maior parte das produções dispostas a versar sobre importantes pautas da atualidade.
54º Festival de Cinema de Gramado #5: “Feito Pipa”, de Allan Deberton

Desde que o mundo é mundo, crianças como Gugu (Yuri Gomes) são atos políticos, mais ainda no Brasil, país onde a infância queer ainda é pouco discutida, inclusive no cinema. O protagonista de Feito Pipa desafia convenções e preconceitos: dos gestos afeminados ao apreço por maquiagens, ele, ao mesmo tempo, quer jogar futebol e andar de moto, borrando as fronteiras entre o que é aceito (ou imposto) pela sociedade para meninos ou meninas. Gugu, contudo, está nem aí e se porta como bem entende, nem que isso custe o afastamento de um pai que, preconceituoso, decide deixá-lo aos cuidados da avó materna, por quem é plenamente amado e aceito. Acontece que, por forças maiores, a configuração familiar da vida de Gugu pode ser transformada, e ele fará o que estiver ao seu alcance para que isso não aconteça.
Dirigido por Allan Deberton, do maravilhoso Pacarrete, Feito Pipa é outra pérola vinda de um cineasta que se confirma como um dos cineastas mais afetuosos e delicados do cinema brasileiro contemporâneo. Assim como no filme estrelado por Marcélia Cartaxo, o cearense dá voz aos que vivem às margens a partir de uma leitura respeitosa e repleta de beleza, sem perder de vista as agruras e os percalços enfrentados por eles. No caso de Feito Pipa, o coração está na relação entre neto e avó, que, negros e de origem humilde, encontram conforto na companhia um do outro. E não se trata apenas de Dilma (Teca Pereira) aceitar a identidade de Gugu, já que o próprio garoto também olha para a avó, uma mulher que gosta de ir ao forró, mandar nudes e tomar umas cervejinhas, sem nenhuma dose de julgamento.
Como já constatei (e escrevi) um punhado de vezes, a generosidade sempre me parece muito mais emocionante do que qualquer acontecimento extremo. E há compreensão de sobra em Feito Pipa, principalmente do protagonista com ele próprio. Gugu não esconde sua natureza, pelo contrário: ele quer mesmo é apresentá-la ao mundo, em uma espécie de autoconhecimento que muitas pessoas levam uma vida inteira para alcançar, quando nem isso. Gay assumido, Deberton, a partir do ótimo roteiro escrito por André Araújo, filma o personagem com imensa sensibilidade desde a primeira cena, quando, vestindo o uniforme para uma partida de futebol, Gugu dança pela casa livremente. É o tipo de sequência que já deixa o espectador com um sorriso no rosto logo na arrancada.
Sempre tão cara para a população queer, a questão paterna é desenhada pela direção e pelo roteiro com admirável maturidade. Ao contrário do que comumente seria feito, Feito Pipa não molda o pai vivido por Lázaro Ramos como um monstro ou como um vilão. Há, sim, de sua parte, algum tipo de amor ou vontade de se aproximar do filho, o que, ao mesmo tempo, acaba sendo a maior tragédia de todas: afinal, como é possível existir qualquer resquício de amor se não há aceitação? Ótimo ator que é, Lázaro Ramos traduz essa dinâmica de amor e violência (emocional, não física) com a devida economia, mas o show mesmo é do pequeno Yuri Gomes, em performance reveladora, do tipo que toma e conduz o filme como um versátil furacão.
Entre a dor e a esperança, Feito Pipa segue os passos de Pacarrete e materializa na tela um universo muito particular, capaz até mesmo de, em certos momentos, tomar para si a imaginação — ou pelo menos os desejos — de um personagem que talvez não encontre reverberação na vida real. Os momentos finais são muito tocantes nesse sentido: é como se, em um determinado tempo e espaço, só existisse Gugu e sua vó, interpretada por Teca Pereira com uma entrega total de coração. Mais uma vez atravessando a vida de pessoas comuns, com suas dores e alegrias, para falar sobre um universo particular, Deberton acaba, orgânica e invariavelmente, abraçando tantas outras histórias do Brasil, no tipo de combinação que, para o meu gosto particular, é sempre belo e emocionante.





