Cinema e Argumento

“Midsommar: O Mal Não Espera a Noite”: apático e sem ritmo, novo terror de Ari Aster não cumpre as expectativas em torno do diretor

Do you feel held by him? Does he feel like home to you?

Direção: Ari Aster

Roteiro: Ari Aster

Elenco: Florence Pugh, Jack Reynor, Vilhelm Blomgren, William Jackson Harper, Will Poulter, Ellora Torchia, Archie Madekwe, Henrik Norlén, Gunnel Fred, Isabelle Grill, Julia Ragnarsson

Midsommar, EUA/Suécia, 2019, Terror/Drama, 137 minutos

Sinopse: Após vivenciar uma tragédia pessoal, Dani (Florence Pugh) vai com o namorado Christian (Jack Reynor) e um grupo de amigos até a Suécia para participar de um festival local de verão. Mas, ao invés das férias tranquilas com a qual todos sonhavam, o grupo vai se deparar com rituais bizarros de uma adoração pagã.  (Adoro Cinema)

Se há uma vertente do terror que reagrupou força e relevância nos últimos anos, essa foi a que investiga o ser humano em seus sentimentos mais nebulosos, sofridos e atordoantes. De natureza antropológica e nada comercial, A Bruxa, por exemplo, mostrou as fraquezas morais, religiosas e sociais de uma família que, entre outras coisas, não sabe sequer lidar com o crescimento de uma filha que já começa a amadurecer e a entrar na vida adulta. Já aqui no Brasil, produções maravilhosas como O Animal Cordial, As Boas ManeirasMormaço lançaram um olhar muito crítico para as profundas feridas de um país ainda assolado pelo preconceito, pela intolerância e pela desigualdade. E também existe Ari Aster que, nos Estados Unidos, exorcizou os dramas de uma família em profundo luto com o cultuado Hereditário e que agora é mais uma vez aclamado com Midsommar: O Mal Não Espera à Noite, onde encena a deterioração de um relacionamento amoroso marcado pelo individualismo, pela incomunicabilidade e pela falta de empatia.

Individualismo, incomunicabilidade e falta de comunicação são definições até generosas para o que Christian (Jack Reynor) faz com Dani (Florence Pugh). Forçando-se a cuidar da namorada que não ama mais apenas por pena ou por não conseguir terminar com ela, Christian ilude emocionalmente uma garota marcada por uma recente tragédia familiar. Sem saber dispensar a namorada, Christian convida Dani para uma viagem que ele faria com seus amigos homens para a Suécia, o que desperta uma imediata frustração no grupo que já esquematizava a frequência com que fariam sexo em terras estrangeiras. Chegando na Suécia, eles ficam hospedados em uma pequena comunidade que vive um festival de verão muito particular, onde todos são convidados a testemunhar e até mesmo participar de determinados rituais. E isso é tudo o que você precisa saber sobre a tônica de Midsommar, que passa a colocar as suas cartas na mesa a partir daí. Antes disso, Ari Aster claramente bebia da fonte do que Hereditário tinha de melhor: o luto como matéria-prima para o desatino mental e  para sentimentos desencontrados que despertam a imprevisibilidade nas ações humanas.

Vale lembrar que Aster despontou como uma verdadeira promessa ao lançar Hereditário. Ainda que irregular (e até um tanto desonesto) ao jogar fora a promessa de um terror psicológico para sucumbir a várias explicações e vícios tão comuns do gênero, o diretor mostrava grande personalidade atrás das câmeras. Tecendo comparações entre um filme e outro, Midsommar tem mais unidade do que Hereditário, sem grandes incompatibilidades narrativas ou estéticas. Por outro lado, Hereditário tinha potência quando acertava, algo que não podemos afirmar sobre Midsommar. Longa demais, a trama carece de de atmosfera. Pessoas e rituais estranhos existem aos montes (e a decisão de tentar criar tensão em um ambiente idílico, ensolarado e florido é interessante), mas fazer personagens sumirem aqui ou ali por motivos misteriosos não é necessariamente sinônimo de tensão. Tampouco instiga os desdobramentos que Aster, também autor do roteiro, faz das peculiaridades daquela comunidade: no máximo, ele desperta estranhamento quando registra um ritual que coloca em xeque os valores pré-concebidos que temos sobre suicídio e o fim da vida (e também sobre como somos intolerantes a culturas diferentes das nossas).

Entre a apatia do terror e a fragilidade das discussões dramáticas diante disso, Midsommar não é superlativo em nenhuma abordagem. Há um ponto digno de nota: o clímax, que mistura orgasmo, destruição e violência como uma recompensa direta da tomada de consciência de uma personagem que, diante do estranho, passa a se (re)conhecer. É nesse momento que o filme encorpa a vitalidade que lhe faltava até ali e que existia de sobra na primeira metade de Hereditário. Contudo, a frustração maior é mesmo a oportunidade perdida de fazer terror com as nossas angústias e com as nossas fraquezas mais íntimas. Outro ponto fraco que contribui para tal percepção é a irregularidade do elenco, que varia entre momentos bons (a maior parte deles entregues a Florence Pugh) e inexpressivos, para não dizer perfeitamente dispensáveis (Will Poulter, como o homem mais desprezível do grupo de amigos, é a perfeita representação do personagem que deveria ter sido eliminado no primeiro tratamento de roteiro). Portanto, quando é impossível se importar com os personagens, não há mesmo escapatória: sem atmosfera, empatia, ritmo ou até mesmo Toni Collette, Midsommar fica à deriva, sem jamais cumprir as expectativas criadas tanto pela ascensão recente Ari Aster quanto por tudo aquilo que o filme, em vão, tenta sinalizar.

“Big Little Lies”, segunda temporada: como a dificuldade em aceitar o conceito de minissérie é capaz de arruinar um projeto

Após adaptar por completo o livro homônimo de Liane Moriarty, Big Little Lies avança na vida das Cinco de Monterey sem o refinamento narrativo e estrutural que o seu incomparável elenco merecia.

Quando o conceito de minissérie deixa de ser respeitado, chegamos a experiências vazias como a da segunda temporada de Big Little Lies. Por definição, minisséries deveriam durar um único ciclo, e a decisão de prolongá-las carrega um risco muito grande, pois significa que determinada emissora ou plataforma poderá esticar além da conta uma história inicialmente idealizada para ter início, meio e fim. No caso de Big Little Lies a situação é ainda mais complicada, uma vez que a primeira temporada da atração adaptava por completo o livro homônimo de Liane Moriarty, material que deu origem à atração. São raríssimos os projetos que conseguem avançar com excelência em uma história já transposta por completo para as telas (The Leftovers, que durou três temporadas, foi impecável nesse sentido). Praticamente todos os casos, como a segunda temporada de The Handmaid’s Tale, citando outro programa recente, atestam que, mesmo com as melhores munições, tornar-se exceção à regra é missão quase impossível. Ainda assim, poucas frustrações são tão grandes como a trazida por Big Little Lies, que, neste segundo ano, ultrapassa o mero problema da expansão irregular de um universo para, em todos os aspectos, deixar um irremediável gosto amargo na boca.

A HBO nega, assim como as protagonistas/produtoras Nicole Kidman e Reese Witherspoon, mas não é necessário um olhar muito clínico para perceber que faz total sentido a notícia de que a diretora Andrea Arnold teria tido sua visão criativa mutilada na pós-produção para que Big Little Lies voltasse a se parecer com o que Jean-Marc Vallée fez na primeira temporada. Aliás, Arnold, que aqui não imprime marca alguma de seu estilo (em narrativas seriadas, é de sua natureza ser cotidiana e afeita aos detalhes íntimos de personagens, como vimos em Transparent), dificilmente teria topado embarcar em um projeto que nada faz além de tentar emular os tiques da primeira temporada e do próprio Vallée. A incômoda insistência em duplicar o extenso número de flashbacks e em instalar algum tipo de suspense ou engenhosidade derruba Big Little Lies de uma maneira amadora, onde a montagem entrecorta tudo o que passa pela frente e deixa o conjunto (ou até mesmo um único episódio) sem muita sequência, unidade ou conexão.

Laura Dern como Renata Klein: a atriz segue arrasando, mas a personagem tem pouca conexão e proximidade com as demais mulheres do seriado.

Se nas telas e nos bastidores o seriado se transformou em uma colcha de retalhos, o mesmo se aplica ao centro dramático da trama (ou mais precisamente à falta dele). São sete episódios que jamais se justificam, uma vez que, transcorrida a temporada, nada descobrimos de novo sobre essas mulheres cuja amizade deveria ter uma gama extra de nuances após os acontecimentos da última temporada. Ao invés disso, os roteiristas colocam uma em cada canto, sob a justificativa de que as Cinco de Monterey, movidas pelo trauma, entraram em uma crise coletiva. A partir daí, Big Little Lies imagina um conflito qualquer para as trajetórias individuais das personagens, de modo que todas se sustentem com seus próprios arcos. Ora, verdade seja dita: por mais que Laura Dern continue um arraso como Renata Klein, os dilemas envolvendo a falência dessa mulher que não cabe dentro de si própria sequer se conectam com o ano anterior, onde ela era vista como uma semi-antagonista nada receptiva com as demais personagens. Algo não se encaixa: Renata finalmente se integrou ao círculo de mães, porém, sua presença, agora avulsa em termos dramáticos, parece perfeitamente irrelevante para suas companheiras.

Entre as protagonistas, Celeste (Nicole Kidman) anda em círculos ao ainda nutrir sentimentos contraditórios pelo marido — e as sessões com a terapeuta, antes tão reverenciadas pela crítica e pelo público, agora beiram a bobagem tamanha a forma irresponsável como a psicóloga tenta ditar os rumos da vida de sua paciente. Já Madeline (Reese Witherspoon) se vê enroscada em um erro do passado que passa a ameaçar seu casamento e a própria paciência do espectador, que precisa testemunhar o desperdício de uma personagem tão interessante e o desenvolvimento de um conflito que se prolonga de maneira inexplicável. Há pouco o que se falar de Jane (Shailene Woodley), reduzida a um plot de romance-parece-cilada, não é aprofundada sob a luz do que sempre foi a sua maior força como mãe solteira: a relação de cumplicidade e delicadeza com o filho pequeno. No mais, a tentativa de dar nova amplitude a Bonnie (Zoë Kravitz) é pífia e duvidosa, já que o faz trazendo estereótipos de misticismo e abusos familiares para o plot da única personagem negra da trama.

Vivida por Meryl Streep, Mary Louise é a nova personagem de Big Little Lies que nem mesmo os próprios roteiristas compreenderam.

Deixo para citar por último a personagem de Mary Louise não por ela ser vivida por Meryl Streep, em uma de suas raras aparições em seriados, mas porque talvez esse seja o maior pecado de Big Little Lies. Promovida como um grande acontecimento tanto para o programa quando para o universo televisivo em si, a participação de Meryl está muito aquém do que poderia se esperar para alguém de seu calibre, e pior: a personagem sequer foi compreendida pelos próprios roteiristas. Relatos dão conta de que Meryl recebia orientações para interpretar Mary Louise, a mãe de Perry (Alexander Skarsgård), como uma espécie de vilã, definição imediatamente rejeitada pela atriz. E ela estava corretíssima: por mais que o seriado insista em explorar o lado passivo-agressivo da personagem e decida colocá-la em colisão com todas as outras mães da vizinhança, pouco foi abordado sobre a trágica e tortuosa negação que ela ironicamente compartilhava com Celeste em relação a Perry e sobre como isso era tanto o que unia quanto o que separava essas duas mulheres. Se há bons momentos para a personagem, é por causa de Meryl e não por méritos da série, que equivocadamente induziu o público a detestar Mary Louise e não a entendê-la.

Para arrematar o ciclo e conferir uma tração de suspense/mistério como na temporada anterior, Big Little Lies, em seus capítulos derradeiros, recorreu ao drama de tribunal. Por mais que o artifício traga os melhores momentos de Nicole Kidman e Meryl Streep neste segundo ano, tudo é muito frágil, quando não implausível: a juíza que conduz o tribunal parece estar em seu primeiro dia de profissão, deixando que advogados, testemunhas e réus tomem conta da sessão, assim como determinadas reviravoltas, a exemplo de um vídeo descoberto de forma milagrosa e conveniente demais, reforçam a percepção de um roteiro escrito no piloto-automático, sem traços de sofisticação. Para quem gosta de novela, a conclusão da segunda temporada também traz todo tipo de resposta com reconciliações, explicações e até uma cerimônia de casamento. A única porta que fica aberta é justamente a mais preocupante: aquela que, a partir da decisão de uma personagem na última cena, deixa a ligeira sensação de que Big Little Lies poderá ter uma terceira temporada. A HBO e os produtores não confirmam — e tampouco descartam oficialmente a possibilidade, para a completa angústia de quem sofreu com o total vazio de uma segunda temporada que sequer precisava existir.

47º Festival de Cinema de Gramado #8: o que esperar da premiação?

Equipe de Pacarrete na noite de estreia em Gramado: filme de Allan Deberton estrelado por Marcélia Cartaxo é o favorito para dominar a noite de premiação do Festival.

O Festival de Cinema de Gramado encerra hoje a sua 47ª edição. Após três perdas recentes (o apresentador Leonardo Machado e os curadores Eva Piwowarski e Rubens Ewald Filho), o evento serrano trouxe, em 2019, uma seleção menos instigante em comparação a outros anos. À parte a exibição fora de competição do aguardado Bacurau, o único ponto realmente alto da mostra competitiva foi Pacarrete, longa cearense dirigido por Allan Deberton que despertou uma comoção como poucas vezes vista no Palácio dos Festivais. Não só o prêmio de melhor atriz parece mais do que garantido para a veterana Marcélia Cartaxo como o filme em si, desde já uma pérola do cinema brasileiro, tem tudo para levar para casa uma grande quantidade de Kikitos.

O júri, na verdade, tem uma tarefa árdua: a de fazer a matemática inversa e pensar, na verdade, quais os prêmios não dar para Pacarrete. Isso porque os demais concorrentes dificilmente se equiparam ao título cearense, que é a experiência mais encantadora, completa e comovente da edição. É de se imaginar que a lista de vencedores guarde uma ou outra estatueta para O Homem Cordial, alguns prêmios técnicos para Hebe – A Estrela do Brasil e até alguma menção honrosa do júri como consolação para um dos concorrentes. De resto, sobram obras medianas para baixo, que dividiram opiniões na Serra Gaúcha ou que certamente seriam uma surpresa em qualquer categoria principal, como VenezaRaia 4 ou Vou Nadar Até Você.

É importante, contudo, nunca subestimar o que pode acontecer em uma reunião de júri. Temos três decisões polêmicas na história recente de Gramado: Colegas, em 2012, tirando o prêmio de melhor filme de O Som ao RedorA Estrada 47, em 2014, sendo consagrado o melhor longa de uma edição que premiou o belo A Despedida em direção, ator, atriz e fotografia; e 2018, quando Benzinho, o melhor filme pelo júri popular e da crítica, perdeu o Kikito para Ferrugem. Ainda assim, é um tanto inconcebível Gramado consagrar qualquer outra obra que não seja Pacarrete. Já entre os curtas-metragens brasileiros e os longas-metragens estrangeiros, a situação é mais aberta, ainda que se perceba, pelo menos nos curtas concorrentes, um forte protagonismo de temáticas sobre diversidade (Marie, que acompanha a história de uma transexual; Sangro, sobre um jovem lidando com a descoberta de HIV; e Menino Pássaro, ambientado em um condomínio paulista que fica em polvorosa com a chegada de um jovem morador de rua negro na calçada do prédio).

Rumo aos seus 50 anos, o Festival de Cinema de Gramado segue como a mais prestigiada tela do Brasil e como palco da estreia nacional de marcantes títulos brasileiros como AquariusQue Horas Ela Volta?BenzinhoComo Nossos PaisO Som Ao Redor e, agora, Bacurau. A mostra estrangeira, que um dia já premiou Pedro Almodóvar, Juan José Campanella, Norma Aleandro e Javier Bardem, certamente precisa ser revista, mas o Festival, que não teve uma sessão sequer sem protestos por parte dos realizadores contra o governo Bolsonaro, tem sempre aberto novas portas (em 2017, inaugurou o Gramado Film Market, programação inteiramente voltada à discussão do audiovisual como indústria e mercado), o que logo nos cria boas expectativas pelo que vem por aí com a aproximação da meia década de história do evento.

A premiação do 47º Festival de Cinema de Gramado acontece hoje (24), a partir das 21h, com transmissão pelo Canal Brasil e pela página oficial do evento no Facebook.

47º Festival de Cinema de Gramado #7: “Hebe – A Estrela do Brasil”, de Maurício Farias

Sem seguir o beabá tão comum das cinebiografias brasileiras, Hebe – A Estrela do Brasil faz seu registro da inesquecível apresentadora com dignidade e reverência.

Falecida em setembro de 2012, Hebe Camargo é considerada, ainda hoje, a grande rainha da televisão brasileira. Difícil imaginar alguém de brilho equivalente no Brasil e muito menos quem possa um dia ocupar esse título com tamanho brilho. Nas diversas emissoras em que trabalhou, sempre preservou uma alegria e uma autenticidade que cativava tanto a plateia quanto os incontáveis entrevistados que ela recebia em seu famoso sofá. Hebe não fazia distinção quanto aos convidados que ela própria escolhia: de figuras religiosas a transexuais, deu voz para diversas causas e pensamentos, cultivando uma mitologia televisiva que hoje parece impossível de ser alcançada. Por isso mesmo, assim como acontece com a biografia de grandes figuras da vida real, o desafio é imenso: afinal, de que maneira é possível fazer jus a uma figura como Hebe Camargo sem cair na vala tão comum de frágeis ficções que, de tão presas à ânsia de abranger todos os momentos marcantes da vida do biografado em questão, poderiam render, na verdade, ótimos documentários?

Pois Hebe – A Estrela do Brasil, que fez sua primeira exibição nacional no 47º Festival de Cinema de Gramado, consegue escapar do formato hiper engessado de cinebiografias porque conta com Carolina Kotscho, talentosa roteirista que também fez a diferença em outras duas obras do gênero que se destacam na filmografia brasileira recente: 2 Filhos de FranciscoFlores Raras. O que esses dois títulos e Hebe tem em comum? Todos entendem que é contraprodutivo – e muita audácia – querer condensar a vida de uma figura da vida real em meras duas horas, preferindo escolher ou um determinado recorte de tempo ou fases pontuais de seus biografados. No caso de Hebe, acompanhamos a estrela durante a sua transição da TV Bandeirantes para o SBT, justamente quando ela, tão direta e aberta sobre assuntos considerados tabus à época, como a epidemia da AIDS, sente a censura bater em suas canelas. É nesse meio tempo que ela, já perto de seus 60 anos, também enfrenta turbulências na relação com o marido e na sua falta de comunicação com o filho adolescente.

Segundo Kotscho, família e fãs de Hebe disponibilizaram um acervo com mais de três mil matérias de revistas e jornais para pesquisa. Desse imenso arquivo, a roteirista diz ter tirado todas as falas que saem da boca da protagonista durante o filme. O trabalho, entretanto, faz seus ajustes, o que é perfeitamente aceitável para uma obra de ficção (novamente, não estamos falando de um documentário), lógica que o diretor Maurício Farias transferiu inclusive para o plano da direção. A escalação de Andréa Beltrão, por exemplo, é uma prova disso: ainda que devidamente caracterizada e maquiada como Hebe Camargo, a pouco dedica sua atuação a imitações, tiques e trejeitos. Beltrão, na verdade, está preocupada em buscar a energia e a desenvoltura desse ícone televisivo com o talento e as habilidades que, sabemos, ela tem de sobra. E o resultado é excelente por causa dessa opção por priorizar a busca pelo interior da personagem e não pela mera reprodução de seus gestos e movimentos. 

Ganhando nova dimensão em tempos que a voz da imprensa é questionada, a liberdade de expressão passa a ser perigosamente ameaçada e pessoas voltam a ser condenadas simplesmente por ser quem são, Hebe registra a relação da biografada com o público, e não o inverso: tudo o que se vê da apresentadora durante a apresentação dos programas é a partir dos bastidores, inclusive momentos emblemáticos como o de Dercy Gonçalves mostrando os seios ao vivo em rede nacional. É outra decisão bacana porque exime o filme de ter que emular milimetricamente as cenas como elas estão gravadas na memória do público. Hebe não é perfeito, mas lida bem com elementos que em muitos casos podem ser um mero fan service (mesmo a rapidíssima aparição de Nair Bello e Lolita Rodrigues diz muito sobre a cumplicidade e espontaneidade que a protagonista tinha com suas amigas). Aliás, vai além: ao ignorar o beabá das cinebiografias, Hebe até cativa com o furacão que é sua protagonista, especialmente nesse momento em que ela, até então atenta somente à televisão como entretenimento, finalmente compreende o poder do microfone que tem em mãos.

47º Festival de Cinema de Gramado #6: “Pacarrete”, de Allan Deberton

Pacarrete, de Allan Deberton, traz desempenho memorável de Marcélia Cartaxo.

Às vésperas de seus 200 anos, a cidade de Russas, no interior do Ceará, prepara uma grande celebração. E Pacarrete (Marcélia Cartaxo), uma peculiar bailarina já na casa dos 60, quer fazer parte dos festejos: como seu presente para o povo, ela prepara uma apresentação de ballet pensado desde o delicado figurino até a coreografia, ensaiada sempre que possível para esse número de uma mulher só. No entanto, Pacarrete, que de fato existiu na vida real, é tida como a louca da cidade, e a Secretaria Municipal de Cultura não a quer de jeito nenhum na festa, com a desculpa de que ballet é tedioso para o povo e que essa senhora supostamente desvairada seria vaiada em pleno palco caso chegasse a se apresentar. Mas a bailarina, outrora professora e artista atuante em Fortaleza, não desistirá de seu objetivo, mesmo que tudo seja tão difícil (para ela e para todos).

É importante grifar o supostamente desvairada porque Pacarrete, longa-metragem de estreia do cineasta Allan Deberton, jamais julga sua personagem, e sim convida o espectador a entrar em seu universo, às vezes mais lúcido que os demais, propondo a tese de que talvez, no final das contas, ela seja vítima de uma sociedade intolerante a tudo aquilo que lhe parece diferente. Sem optar pela panfletagem, o filme dá voz a uma senhora que, representando os tantos oprimidos que gritam e jamais são ouvidos, é marginalizada pela própria cidade onde vive. Ela resiste através da arte: não há nada mais desolador para Pacarrete do que ver uma fita VHS de ballet estragar ou então do que não ter como plateia nem mesmo a sua irmã ou a sua empregada em um momento improvisado de ensaio. Quando indagada sobre o que fez ao longo da vida, ela enche o peito para dizer que foi artista e professora. E isso é muito bonito.

Como estudo de personagem, Pacarrete descortina a vida da protagonista basicamente dentro de sua própria casa, utilizando-se de raros momentos na cidade ou na vizinhança apenas para dar novas e importantes pinceladas nesse retrato muito humano que preza pela objetividade, sem se dispersar com qualquer outra subtrama, ainda que existam outros personagens suficientemente interessantes para gerar mais material. Um deles é o amigo vivido por João Miguel, que representa o sopro de esperança e generosidade em uma comunidade hostil. Já dentro de casa, Pacarrete conta com a irmã Chiquinha (Zezita Matos) e a empregada Maria (Soia Lira), convívio esse que captura todo o afeto de um universo feminino ao mesmo tempo muito particular e universal.

Para registrar a rica gama de sentimentos da protagonista e de todos os personagens que estão em sua órbita, o diretor Allan Deberton mergulha em camadas inegavelmente teatrais, mas que nunca destoam do conjunto. Pelo contrário: lúdico, colorido, cômico e por vezes assumidamente exagerado, Pacarrete vai de um gênero a outro e de uma abordagem a outra com uma naturalidade impressionante e com uma delicadeza tremenda ao estender o tapete vermelho para a alma feminina, para a força da arte e, por que não, para o fascínio que é ver um ser humano em toda suas qualidades, fraquezas e incompletudes. Tão cômico quanto dramático, o longa faz essa inflexão entre gêneros com afetividade, o que é no mínimo surpreendente, considerando que temos quatro pessoas envolvidas na criação do roteiro (André Araújo, Natália Maia, Samuel Brasileiro e o próprio Deberton).

A veterana Marcélia Cartaxo, responsável por dar vida à Pacarrete de maneira assombrosa, teve aulas de ballet e francês para interpretar uma protagonista que, assim como a rainha Anne de Olivia Colman no recente A Favorita, poderia cair na histeria por justamente ter a insanidade como matéria-prima para desdobramentos cômicos e dramáticos. Entretanto, em um tour de force que abarca ainda questões inerentes ao envelhecimento e ao eterno saudosismo pela juventude e pelos aplausos, Cartaxo, que já havia eternizado Macabéa em A Hora da Estrela, cria uma personagem que ficará para a posteridade não só na sua carreira, mas também no cinema brasileiro. No 47º Festival de Cinema de Gramado, onde o filme fez a sua estreia nacional, a atriz foi ovacionada desde a primeira cena projetada no Palácio dos Festivais, sendo comparada, em nível internacional, à grandiosidade de outras atrizes como Giulietta Masina, Gloria Swanson e Meryl Streep. Marcélia merece. E graças a um filme que é tão memorável quanto ela.

47º Festival de Cinema de Gramado #5: “Vou Nadar Até Você”, de Klaus Mitteldorf

Bruna Marquezine em Vou Nadar Até Você: atriz encara a sua primeira protagonista no cinema.

Por falta de outra definição, Vou Nadar Até Você é um road movie, mas com um conceito mais peculiar: ao invés da jovem Ophelia (Bruna Marquezine) pegar a estrada para ir em busca do homem que acredita ser seu pai, ela opta por cruzar a nado o trecho de Santos a Ubatuba, em São Paulo. Sabemos pouco sobre a protagonista, uma menina introspectiva e de poucas palavras que, entre um trecho e outro, passa a se revelar para o espectador assim como talvez para ela própria. No mar, sua vida parece fazer sentido. Atrás das câmeras também, já que ela registra cada momento da curiosa viagem. Mas é com os pés firmados no chão e em contato direto com as pessoas que ela precisa encontrar seu propósito e sua verdadeira identidade.

Vou Nadar Até Você, que estreia nacionalmente na competição do 47º Festival de Cinema de Gramado, tem a proposta de fazer uma leitura muito particular desse momento decisivo na vida de Ophelia — e o faria com bastante excelência, caso o diretor Klaus Mitteldorf, a partir do roteiro escrito por Nina Crintzs, não optasse por tantos desvios na trama, cometendo o pecado de tirar o protagonismo absoluto de Ophelia. O tropeço começa na própria concepção: narrando paralelamente a história do pai que recebe a notícia de que sua filha até então desconhecida está a caminho, Vou Nadar Até Você tira tempo demais do desabrochar emocional de Ophelia para dar todas as explicações sobre quem é esse homem que gerou a garota.

O filme embola ainda mais o meio de campo ao criar uma subtrama envolvendo o pai e um fotógrafo ajudante vivido por Fernando Alves Pinto que passa a seguir Ophelia antes que ela chegue a seu destino. Mitteldorf, que fez carreira como premiado fotógrafo e publicitário, deixa transparecer alguns vícios de suas experiências pregressas em Vou Nadar Até Você, que é carregado com uma bela, mas excessiva trilha sonora, e que faz questão de registrar cada momento aquático da protagonista em slow motion. Ao final, os desvios da trama e o embelezamento dos takes imediatamente nos jogam para a ideia de que o filme é mais longo do que deveria e que tudo acontece para preencher um pouco mais uma história que, na verdade, só teria a ganhar com mais concisão.

Bruna Marquezine, que assume aqui o seu primeiro trabalho no cinema como protagonista, é delicada como Ophelia, e todas as cenas bem exploradas de sua personagem garantem os melhores momentos de Vou Nadar Até Você. Suas eventuais transformações e descobertas são sutis, escapando de armadilhas comuns em road movies. Mesmo as frequentes tomadas aéreas são mais simbólicas quando a protagonista está em cena, pois representam a pequenez de uma garota perdida em meio à imensidão (a sua e a do mar). É por isso que as ramificações de Vou Nadar Até Você tiram o refinamento dessa obra que, aqui e ali, distante de sua protagonista, cai em um certo vazio emocional e cinematográfico.

47º Festival de Cinema de Gramado #3: “O Homem Cordial”, de Iberê Carvalho

Paulo Mikos em O Homem Cordial: ex-Titã tem no filme de Iberê Carvalho a melhor interpretação de sua

Se tomássemos como parâmetro somente o afetuoso O Último Cine Drive-In, seria um tanto difícil prever que o diretor Iberê Carvalho tivesse um repertório tão vertiginoso quanto o apresentado agora em O Homem Cordial, filme que faz sua estreia nacional na competição do 47º Festival de Cinema de Gramado. À parte o problema do título, que causa imediata confusão com o recente O Animal Cordial, dirigido por Gabriela Amaral Almeida, o novo longa-metragem de Iberê empurra arrasta o espectador noite adentro em uma odisseia que descortina nossas cicatrizes político-sociais e cria um verdadeiro redemoinho a partir de todas nossas intolerâncias, preconceitos e negligências. Como uma investigação sensorial desse cenário, O Homem Cordial é uma experiência angustiante que usa a trajetória pontual de um personagem para trazer uma perspectiva inevitavelmente pessimista do que temos nos tornado de uns anos para cá.

Como todo filme ambientado à noite, quase em tempo real e com um personagem enfrentando uma conturbada jornada pelas ruas de uma cidade, O Homem Cordial será eternamente associado a Depois de Horas, de Martin Scorsese. Entretanto, o filme de Iberê Carvalho diz muito mesmo sobre o Brasil, e essa sua especificidade lhe confere personalidade diante dos títulos que apenas tentam emular uma fórmula. O roteiro, escrito pelo diretor em parceria com o uruguaio Pablo Stoll, acompanha a noite de retorno aos palcos de uma famosa banda de rock do anos 80, quando viraliza na internet um vídeo que envolve Aurélio Sá (Paulo Miklos), vocalista e líder da banda, na morte de um policial militar. Miklos, que, de fato, foi vocalista de uma icônica banda de rock brasileira (os Titãs), tem trilhado carreira no cinema, e seu trabalho aqui talvez possa ser considerado o ponto alto dessa trajetória: com vitalidade e naturalidade, ele segura muito bem um protagonista que tem a câmera grudada em seu rosto praticamente a projeção inteira, o que é um desafio e tanto até para o melhor dos atores.

Inclusive, a técnica de O Homem Cordial tem grande contribuição nos sentimentos claustrofóbicos e eletrizantes trazidos pelo filme. Dessa mistura, é possível tirar dois destaques: a fotografia de Pablo Baião e a montagem de Nina Galanternick, fundamentais para a construção da atmosfera de um filme praticamente todo ambientado à noite. A vertigem de violência, seja ela física, verbal ou emocional, combina com o tom soturno da obra, que, a partir da superexposição nas redes sociais e da compulsão de uma sociedade que precisa registrar e denunciar tudo pela câmera de um celular, fala sobre como muitas vezes ela acaba distorcendo situações e desviando as discussões que realmente importam. O mosaico é completo: racismo, política, abuso de poder, direitos humanos, violência policial, diferença de classes… Não há o que escape de O Homem Cordial em uma radiografia muitas vezes incômoda de se acompanhar e que é desenvolvida a cada esquina dobrada pelo protagonista.

A firmeza de Iberê em não deixar que O Homem Cordial se torne um filme disperso em tantas leituras é grande, ainda que isso não livre o resultado de certos prejuízos, especialmente estruturais: na medida em que abre demais o leque da jornada de seu protagonista, o longa de certa forma o perde de vista para se dedicar a cenas que pesam a mão mais no discurso do que propriamente na construção da história. Exemplo disso é a longa sequência envolvendo Aurélio e um grupo de policiais, onde o comandante da operação representa, com certa caricatura, toda a violência de um sistema preconceituoso, intolerante e racista que já estava sendo contemplado pontualmente por várias passagens do filme. O Homem Cordial retoma as rédeas perto de seu encerramento, quando retrocede para encenar um fato crucial da história, e aí sim volta a abraçar sua força maior de ver o mundo através de um recorte específico. Quando busca sua voz por esse meio, Iberê Carvalho sempre faz o seu filme subir um degrau, mexendo com o espectador sem recorrer à mera explanação.

47º Festival de Cinema de Gramado #2: “Bacurau”, de Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles

Os moradores de Bacurau: premiado em Cannes, filme de Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles tem protagonismo coletivo.

Laureado com o Prêmio do Júri no último Festival de Cannes, Bacurau marca a volta do cinema brasileiro ao hall de vencedores do prestigiado evento francês, quebrando um jejum de 12 anos desde que Linha de Passe rendeu à Sandra Corveloni o prêmio de melhor atriz na Croisette. Com estreia programada no circuito comercial para o dia 29 de agosto, o longa-metragem dirigido por Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles fez sua estreia nacional na noite de abertura do 47º Festival de Cinema de Gramado, fora de competição, e a reação do público, que aplaudiu o filme em cena aberta, reforça a tese de que toda a catarse trazida por momentos cruciais e impactantes da obra diz muito sobre um país que tem sofrido um tremendo desmonte cultural e que, cada vez mais, precisa ter a sua resiliência retratada e impulsionada nas telas.

Não à toa, Bacurau faz questão de registrar em seus créditos finais que é uma produção responsável por mais de 800 empregos diretos e indiretos e também o registro de um país e de sua identidade. Tematicamente, podemos associar o filme com Aquarius, longa anterior de Kleber, no sentido de que ambos são sobre o poder da resistência e sobre como de fato agimos ao invés de apenas levantar uma bandeira com discursos fáceis. Contudo, se Aquarius seguia a escala de O Som ao Redor ao fazer o Brasil se olhar no espelho por meio de um forte realismo social, Bacurau parte para o plano da mistura de gêneros, o que pode tanto deliciar quem gosta de mergulhar em suspense, sangue e mistério como metáfora da nossa realidade quanto incomodar aqueles que preferem um quadro muito mais claro e descritivo.

Já colocando uma pitada de suspense em sua abertura com o letreiro “daqui a alguns anos…”, sem identificar exatamente quando a história acontece, Bacurau é, em uma leitura mais simplista, um filme sobre o futuro, quando, na verdade, está intimamente ligado às mazelas políticas e sociais que já foram e ainda são vividas pelo povo brasileiro. Kleber e Juliano, também autores do roteiro, constroem toda atmosfera de Bacurau a partir de uma incômoda sensação de instabilidade social que, ao longo e ao final da obra, será responsável por um crescente quadro de selvageria. Há sangue, morte, tiros e outras barbáries no filme, o que, curiosamente, é capaz de misturar náusea e um macabro conforto no espectador: se a primeira reação é de baque com tamanha violência, logo ela é amortecida pela ideia de que, de alguma forma, ela evoca a força de um povo esquecido pelo mundo e maltratado pela vida, mas que decide assumir seu protagonismo em uma importante linha de batalha.

Ambientado em um futuro próximo que não é exatamente especificado, Bacurau é, na verdade, sobre o nosso presente e o nosso futuro.

Garimpando referências, Kleber diz que é possível encontrar em Bacurau ecos de Sam Peckinpah e até de Alfred Hitchcock, mas que esse filme, na realidade, reflete sua paixão por um cinema brasileiro eternizado por Glauber Rocha, Nelson Pereira dos Santos e outros mestres, assim como a grande admiração que ele e Juliano nutrem pelo chamado cinema de gênero. Em sua passagem pelo Festival de Cinema de Gramado, o diretor, por outro lado, salientou que refuta a ideia de referências como estandarte de um filme e que, apesar das críticas iniciais em Cannes terem gerado uma série de leituras em cima disso, ele dispensa a necessidade de ter que explicá-las ou iluminá-las. Nada mais justo, principalmente se tratando de um filme de difícil classificação e que precisa ser consumido pelo espectador com o mínimo possível de informações, de forma que cada um o preencha a partir de seu próprio repertório cinéfilo.

Como o próprio título já sugere, Bacurau é um longa sobre esse lugar específico e, por isso mesmo, é natural que Kleber e Juliano tenham tomado a decisão de não definir um protagonista específico para a trama. O coletivo é a força-motriz do longa, e a construção dos personagens é um mérito à parte, uma vez que o roteiro consegue nos apresentar cada um dos moradores do local sem pressa ou atropelo, além de atribuir a eles características e personalidades pontuais de maneira orgânica. “Quem nasce em Bacurau é o quê”, pergunta um forasteiro a certo ponto, recebendo uma resposta curta e simbólica: “É gente”. Tal momento retoma o posicionamento do filme de colocar diversos rostos do Brasil na tela, compondo um mosaico tanto de personagens interessantíssimos quanto de bons atores, onde até mesmo uma musa como Sonia Braga abraça com ferocidade e comprometimento um papel tão “pequeno” quanto o dos seus demais colegas.

Saindo das fronteiras que passamos a conhecer desse lugar chamado Bacurau, temos também um outro núcleo, encabeçado pelo ator alemão Udo Kier. Nele, o desenvolvimento dos personagens e das atuações soa mais superficial. Pode ser que essa seja uma escolha consciente de Bacurau: a de fazer dos estrangeiros figuras mais caricatas, de pouca identificação, algo que, entretanto, não diminui uma ligeira frustração com o distanciamento que temos com as motivações (ou ao menos o mistério) daqueles personagens. Também são pouco interessantes os discursos reiterativos que Bacurau toma em seu terço final, sublinhando, inclusive em diálogos, muitos pontos sobre a vilania ou sobre o desdobramento de certas figuras que, de um modo ou de outro, já estavam claros até ali. 

Em comparação aos outros dois longas assinados por Kleber, Bacurau é mais específico do que O Som ao Redor e Aquarius, mas isso não é motivo para alarde ou depreciação: ao longo de muitos anos o cineasta vem gestando esse projeto assumidamente de gênero com Juliano Dornelles e não aceitá-lo como tal é perder boa parte de sua essência e de tudo aquilo que a dupla diz com tanta propriedade. Criando um lugar onde a figura mais querida do local “gerou michê e puta, mas nenhum ladrão” e onde as pessoas buscam refúgio em escolas e museus para enfrentar ameaças mortais, Kleber e Juliano caminham por essa linha hoje tão tênue entre a ficção e a realidade para entregar o tipo de catarse que pode muito bem nos dar algum tipo de fôlego em meio à loucura e ao ódio que logo voltam a cair sobre as nossas cabeças quando voltamos à vida real após a sessão. 

Rapidamente: “Dumbo”, “Se a Rua Beale Falasse”, “Vice” e “WiFi Ralph”

Tish (KiKi Layne) e Fonny (Stephan James): uma paixão interrompida pelo destino e pela intolerância, contada com grande apuro sensorial pelo diretor Barry Jenkins em Se a Rua Beale Falasse.

DUMBO (idem, 2019, de Tim Burton): Há muitos anos já falta calibragem na filmografia de Tim Burton, cineasta que, muito provavelmente, não realiza um trabalho live action interessante desde o musical Sweeney Todd – O Barbeiro Demoníaco da Rua Fleet, lançado em 2008. E Dumbo, por melhor que seja em comparação a filmes desastrosos como Sombras da Noite e Alice no País das Maravilhas, também padece da falta de inspiração de um diretor outrora icônico e hoje incapaz de assinalar qualquer retorno a uma era de ouro marcada por títulos como Edward Mãos-de-Tesoura, A Lenda do Cavaleiro Sem CabeçasPeixe Grande e Suas Histórias Maravilhosas. Bastante amarrado no formato imposto pela Disney para produções live action baseadas em animações clássicas com o selo do estúdio, Burton cria um elefantinho incrivelmente real e empático (é fácil se comover com o pequeno animal e torcer por ele), mas os personagens humanos são monótonos, especialmente o vilão vivido por Michael Keaton, que segue todo o previsível arco do homem rico e ganancioso que corromperá os negócios de humildades profissionais em um circo decadente. Podemos prever cada passo do filme, que, sem frescor, peca, inclusive, por dar pouca atenção a uma perspectiva que poderia trazer fascínio e afeto ao longa: a do animal indefeso e desarmado que colide com um mundo cruel tão precocemente. Mais uma vez, ainda estamos por ver um novo trabalho de Tim Burton à altura da grife que seu nome um dia foi.

SE A RUA BEALE FALASSE (If Beale Street Could Talk, 2018, de Barry Jenkins): O Oscar de melhor atriz coadjuvante recebido pela grande Regina King não foi o suficiente para impulsionar a distribuição de Se a Rua Bela Falasse no Brasil. Aliás, é curioso como nem mesmo a assinatura de Barry Jenkins, que recebeu o prêmio máximo da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood em 2017 com Moonlight: Sob a Luz do Luar, garantiu, inclusive nos Estados Unidos, a devida valorização desse filme tão belo, sutil e humano. Baseado no romance homônimo de James Baldwin, Se a Rua Beale Falasse seria um enjoativo melodrama caso fosse comandado por um diretor menos sensível e virtuoso do que Barry Jenkins, que novamente apresenta um esmero técnico fascinante, um raro apuro sensorial e um admirável cuidado com abordagens que escapam de estereótipos. O amor é puro e verdadeiro em Se a Rua Beale Falasse, mas jamais tolo ou ingênuo; o preconceito é capaz de causar traumas e separações, mas se torna, na medida do possível, um tantinho menos doloroso com as pessoas certas ao nosso lado; e a vida pode nos testar das mais diversas maneiras, mas é possível enfrentá-la com certa garra quando existe um propósito, por menor que ele possa aparecer. Jenkins conduz o filme com total propriedade técnica e temática, discutindo uma série de questões íntimas e sociais que, embaladas por uma trilha inebriante de Nicholas Britell e uma lindíssima fotografia de James Laxton, só poderiam ser contadas dessa maneira por ele.

VICE (idem, 2018, de Adam McKay): Quando passou a ser levado a sério com A Grande Aposta, longa de 2015 que chegou a lhe render um Oscar de melhor roteiro original, o diretor Adam McKay deve ter se atentado para uma fórmula que volta a ser reproduzida em Vice. Em ambos os títulos, temos assuntos difíceis, por vezes desinteressantes, que ganham nova roupagem com um humor ágil e crítico. Talvez a leitura cômica não seja o suficiente para prospectar os espectadores pouco inclinados a criar alguma conexão com o filme, mas é uma ferramenta interessante para não contemplar temas tão específicos de maneira óbvia. Mais uma vez autor do roteiro, McKay aborda, em Vice, a história de Dick Chaney (Christian Bale), ex-vice-presidente da administração George W. Bush que acumulou imenso poder nos bastidores da política estadunidense. Para os afeitos ao tema, o filme é um prato cheio: detalhista, brinca com o cenário político norte-americano sob a perspectiva de um personagem curioso e que dificilmente ganharia as telas como protagonista absoluta. É importante você saber faz parte desse grupo porque Vice funciona melhor quando conferido de peito aberto, sendo apreciado por aspectos que se sobressaem na experiência, como o ótimo trabalho de elenco, que traz Christian Bale em mais uma transformação impressionante, Amy Adams equilibrando com esperteza um papel menos óbvio do que o esperado e Sam Rockwell imitando George W. Bush à perfeição. Como uma variação do que já foi visto em A Grande ApostaVice se repete, mas, ao mesmo tempo, também preserva vários elementos que deram certo na sessão anterior.

WIFI RALPH: QUEBRANDO A INTERNET (Ralph Breaks the Internet, 2018, de Phil Johnston e Rich Moore): Transferindo as referências do universo dos games para a era da internet, WiFi Ralph é a continuação do adorável Detona Ralph, de 2012. Como entusiasta do primeiro filme, conferi a sequência com certo receio, e fui surpreendido positivamente, inclusive pelo ponto de vista emocional: em meio a tantas brincadeiras envolvendo ferramentas, plataformas e memes da internet, o filme de Phil Johnston e Rich Moore decide falar sobre como amizades podem se tornar tão tóxicas quanto romances abusivos, onde uma das partes passa a depositar na outra toda a responsabilidade de suprir desejos, vontades e vaidades sem perceber que interações humanas são feitas de trocas e não de monólogos. Dessa maneira, WiFi Ralph é mais adulto do que seu humor internetês sugere, eliminando qualquer possibilidade do longa ser uma mera versão gourmet de Emoji: O Filme. Pelo contrário, é até corajoso como o longa abre margem para interpretarmos seu protagonista até mesmo como um vilão dentro do contexto emotivo da história. WiFi Ralph é o tipo de continuação que se justifica, mesmo que boa parte da fórmula cômica se apoie na mesma estruturação do filme anterior e corra o risco de soar datada daqui alguns anos visto as referências do mundo online que, sabemos, muda da água para o vinho com uma velocidade assustadoramente rápida nos dias de hoje. Apesar disso, o coração dessa animação bate expressivamente, e suas mensagens funcionam tanto para as crianças quanto para os adultos.

“Dor e Glória”: Almodóvar recorre à “autoficção” para abandonar a sua recente estagnação criativa

Direção: Pedro Almodóvar

Roteiro: Pedro Almodóvar

Elenco: Antonio Banderas, Penélope Cruz, Leonardo Sbaraglia, Asier Etxeandia, Julieta Serrano, Cecilia Roth, Nora Navas, Pedro Casablanc, Raúl Arévalo, César Vicente, Susi Sánchez

Dolor Y Gloria, Espanha, 2019, Drama, 113 minutos

Sinopse: Salvador Mallo (Antonio Banderas) é um melancólico cineasta em declínio que se vê obrigado a pensar sobre as escolhas que fez na vida quando seu passado retorna. Entre lembranças e reencontros, ele reflete sobre sua infância na década de 1960, seu processo de imigração para a Espanha, seu primeiro amor maduro e sua relação com a escrita e com o cinema. (Adoro Cinema)

É algo que nós fazemos com frequência, mas que deveria ser banido de qualquer comportamento cinéfilo porque se revela tão injusto quanto contraprodutivo: analisar eternamente a carreira de um diretor a partir daquilo que um dia ele já fez de melhor. O dano é duplo, uma vez que isso impulsiona a possibilidade do espectador se decepcionar e abre margem para cineastas se tornarem reféns de um determinado status que eles podem não alcançar mais uma vez. Nos últimos anos, entre Abraços Partidos, Os Amantes PassageirosJulieta, o cineasta espanhol Pedro Almodóvar foi vítima dessa pressão, mergulhando em uma crise artística que chegou a diluir sua marcante identidade como realizador. Excetuando A Pele Que Habito, drama excepcional e disruptivo concebido nesse meio tempo, a trajetória recente do espanhol trazia um brilhante diretor andando em círculos e preso à tentativa de emular elementos que ele mesmo consagrou em Tudo Sobre Minha Mãe, Fale Com Ela e Volver, três de suas obras mais (re)conhecidas desde o final dos anos 1990.

E, então, chegamos a Dor e Glória, um filme que, ironicamente, só poderia ser realizado por esse Almodóvar que tropeçou e aproveitou a oportunidade não para ceder à pressão de ter que repetir o seu melhor, mas para repensar o que não deu certo até ali. Isso passa longe de achismo: em entrevista à revista Variety, o diretor assumiu que Dor e Glória marca o início de uma nova fase da sua carreira. As cores e os melodramas (não no sentido pejorativo) seguem em voga, agora para moldar uma narrativa mais contida, o que não deixa de ser um desafio para um realizador sempre tão vibrante em forma e conteúdo. Para tanto, ele não abandona suas bagagens pessoais e as traz mais uma vez para o centro emocional de Dor e Glória, o que não significa que o espectador esteja diante de uma autobiografia. Seria mais justo usar um termo que é mencionado pelo próprio filme: “autoficção”, no sentido de que muitos dos sentimentos e momentos vividos pelo protagonista são semelhante a vários que o próprio Almodóvar viveu. A diferença é que, para fins cinematográficos, tais sentimentos e momentos são transpostos e adaptados conforme as necessidades da história  e de seu protagonista. É uma tônica fascinante para um longa tão meticuloso e trabalhado em detalhes.

Dor e Glória apresenta um diretor renascido e sem qualquer intenção de conscientemente imprimir sua digital na tela, equívoco que afundou Julieta, onde Almodóvar parecia não compreender as reais necessidades de um longa que precisava preservar toda a delicadeza de uma escritora como Alice Munro, cujos contos davam origem à trama. Mais contido, Dor e Glória lança um olhar sobre a fadiga física e emocional do envelhecimento. O protagonista, um diretor de cinema que já não filma mais porque está soterrado por dores na coluna, abre muitas discussões e reflexões sobre essa fase da vida que coloca a nossa existência sob uma perspectiva bastante diferente, onde renascimento e desistência parecem sempre faces de uma mesma moeda. Antonio Banderas, que nunca foi um ator excepcional seja em inglês ou espanhol, recebeu um merecido prêmio de melhor ator no Festival de Cannes por incorporar, com humanidade e sobriedade, o tumulto interior desse homem que não sabe muito bem para onde ir e que, por obra do destino, revisita sua vida profissional e pessoal para finalmente entender se ainda consegue ver alguma beleza em seguir em frente. É o tipo de trabalho que marca uma carreira e que concentra uma imensa parcela da humanidade de Dor e Glória.

Utilizando-se do cinema e pontualmente do teatro para reacender queridas e dolorosas memórias de seu personagem principal, o filme traz o DNA de Almodóvar com extrema organicidade: a influência materna, a descoberta da homossexualidade, os amores que marcam uma vida e os conflitos artísticos estão na tela com toda paixão que é habitual ao diretor. Nessa mistura, há economia e sinceridade para fazer com que, por exemplo, uma coadjuvante como Penélope Cruz surja iluminada a cada cena ou para que uma breve sequência entre Banderas e o galã argentino Leonardo Sbaraglia remonte, a partir de uma mera noite de conversa entre os dois, uma gama de histórias e sentimentos que marcaram todo um universo particular. Simplíssimo (e, por isso mesmo, tão assertivo), Dor e Glória termina com uma pequena grande revelação que é ao mesmo tempo inteligente, afetiva e muito simbólica. Ela aponta para a ideia de que, talvez pela primeira vez em sua trajetória recente, Almodóvar esteja finalmente em sintonia com ele mesmo. A preocupação não está mais em imitar uma era de ouro e sim em seguir a sua própria intuição, sem amarras com qualquer expectativa. Não sei quanto a vocês, mas acredito que é dessa lógica que saem as nossas experiências cinematográficas mais interessantes.

“Turma da Mônica: Laços” é a adaptação live action que o público tanto merecia

Tem coisa mais chata do que ser normal?

Direção: Daniel Rezende

Roteiro: Thiago Dottori, baseado na obra de Mauricio de Sousa e inspirado na graphic novel “Laços”, de Vitor Cafaggi e Lu Cafaggi

Elenco: Kevin Vechiatto, Giulia Benite, Gabriel Moreira, Laura Rauseo, Paulo Vilhena, Monica Iozzi, Fafá Rennó, Ravel Cabral, Rodrigo Santoro

Brasil, 2019, Aventura, 97 minutos

Sinopse: Floquinho, o cachorro do Cebolinha (Kevin Vechiatto), desapareceu. O menino desenvolve então um plano infalível para resgatar o cãozinho, mas para isso vai precisar da ajuda de seus fiéis amigos Mônica (Giulia Benite), Magali (Laura Rauseo) e Cascão (Gabriel Moreira). Juntos, eles irão enfrentar grandes desafios e viver aventuras para levar o cão de volta para casa.  

A Disney vem tentando desde os anos 1990, mas é o Brasil que agora mostra como se faz: com imensa graça, carisma e nostalgia, Turma da Mônica: Laços chega às salas de cinema ostentando, com folga, o título de melhor adaptação live action de um universo consagrado no plano dos quadrinhos infantis e das animações. Desde 1994, quando lançou 101 Dálmatas até mais recentemente com DumboAladdin e um estratégico calendário de dominação mundial, a Disney produziu diversas adaptações com pessoas em carne e osso que, no máximo, poderiam ser encaradas como uma boa diversão. Raríssimos foram os títulos do estúdio que deixaram de ser uma mera cópia da animação original para reverenciar o material de origem com qualidades próprias (A Bela e a Fera dividiu opiniões, mas, por se assumir orgulhosamente como musical, ganhou de todas as outras adaptações em autenticidade). Pois Turma da Mônica: Laços, que celebra os icônicos personagens da obra de Mauricio de Sousa a partir da graphic novel de Vitor Cafaggi e Lu Cafaggi, faz tudo isso e mais um pouco, encantando adultos e crianças com a mesma facilidade.

Elogiado em 2017 por sua enérgica estreia como diretor em Bingo – O Rei das Manhãs, Daniel Rezende, antes montador de filmes como Cidade de Deus, Diários de Motocicleta, Tropa de Elite e A Árvore da Vida, segue despontando como um dos realizadores mais interessantes dos últimos anos. Sua versatilidade é tão notável quanto revigorante: se o álcool, as drogas e o politicamente incorreto compuseram com notável presença o centro cômico e dramático de Bingo, a inocência, a delicadeza e a nostalgia tomam conta de Turma da Mônica: Laços com grande frescor cinematográfico. Para início de conversa, há de se celebrar a bela homenagem que o filme faz para uma infância que não existe mais, com personagens que correm pelas ruas, andam de bicicleta, visitam uns aos outros e até mesmo conhecem o dono da única banca de revistas da vizinhança. Tudo isso é simplesmente impensável para os dias de hoje, quando a infância passou a ter outras atribuições. E, ao encenar uma aventura a partir dessa perspectiva, Turma da Mônica: Laços se engrandece, jamais parecendo antiquado ou fake: tanta inocência termina por reforçar todo o caráter saudoso e afetuoso de um universo desenvolvido com incansável criatividade por Mauricio de Sousa desde os anos 1960.

Reconstituído com uma parte técnica por vezes surpreendente (não é sempre que o cinema brasileiro mais “comercial” consegue usar tão bem uma trilha sonora instrumental como aqui), o Bairro do Limoeiro, vizanhança onde vivem Mônica (Giulia Benite), Cebolinha (Kevin Vechiatto), Cascão (Gabriel Moreira) e Magali (Laura Rauseo) pode parecer clean e perfeitinho demais em uma primeira visita, sensação que se dissipa na medida em que adentramos a vida dos personagens e compreendemos o tipo de homenagem que o filme presta a tempos que deixam saudades. A pegada lúdica de Turma da Mônica: Laços tem origem no próprio roteiro, que não se preocupa em desenvolver aventuras mirabolantes, reflexões profundas ou plot twists para uma história de mistério. Na verdade, a simplicidade da história é cristalina, ainda que isso, em determinado momento, custe alguns pontos ao filme: o terceiro ato é a parcela menos interessante da trama justamente porque busca criar maior suspense e expectativa pela resolução do conflito envolvendo o desaparecimento e o resgate do cãozinho Floquinho.

Para chegar ao quarteto de atores mirins que dá vida a personagens amados por incontáveis gerações, Turma da Mônica: Laços realizou aproximadamente dois mil testes em dez cidades brasileiras. A criteriosa seleção resultou em um acerto dos mais preciosos: tanto os atores selecionados são uma simpatia só quanto demonstram ser realmente bons intérpretes. Essa combinação é importante porque o roteiro de Thiago Dottori exige mais do que somente crianças carismáticas em cena. Além de incorporar as características que eternizaram seus respectivos personagens, os atores precisam abraçar certos desafios dramáticos quando o filme, também ciente da esperteza de seu público, coloca Mônica, Cebolinha, Magali e Cascão em conflito com suas próprias diferenças. Turma da Mônica: Laços mostra que conviver não é fácil, mesmo com as nossas pessoas favoritas, mas que são justamente essas relações que nos salvarão de muita coisa no mundo. Entre a celebração da obra de Mauricio de Sousa e a preocupação em realizar um longa com vida própria, Daniel Rezende acerta triplamente, entregando uma excelente adaptação live action, uma divertida aventura para os pequenos e uma sessão que também será aproveitada pelos adultos. Turma da Mônica: Laços é uma experiência para guardar no coração.

“Obsessão”: suspense insípido e antiquado desperdiça até mesmo a presença de Isabelle Huppert

I’m like chewing gum.

Direção: Neil Jordan

Roteiro: Neil Jordan e Ray Wright, baseado em história de Ray Wright

Elenco: Chloë Grace Moretz, Isabelle Huppert, Maika Monroe, Colm Feore, Stephen Rea, Zawe Ashton, Thaddeus Daniels, Jane Perry, Jeff Hiller, Parker Sawyers, Raven Dauda, Jessica Preddy

Sinopse: Frances (Chloë Grace Moretz) é uma jovem cuja mãe acabou de falecer. Acabando de se mudar para Manhattan e cheia de problemas com o pai, ela forma uma amizade improvável com Greta (Isabelle Huppert), uma viúva bem mais velha que ela. Porém, conforme as duas se tornam melhores amigas, as atenções da viúva se mostram muito mais sinistras do que ela imaginava. (Adoro Cinema)

Ícone do cinema francês, Isabelle Huppert é uma workaholic nata. Aos 66 anos, a protagonista de Elle e A Professora de Piano, citando os títulos que lhe renderam maior repercussão mundo afora, incluindo, respectivamente, uma indicação ao Oscar e um prêmio de melhor atriz por unanimidade no Festival de Cannes, registra, segundo o IMDb, mais de 130 títulos na carreira entre filmes, séries e minisséries. É um feito e tanto, algo que Huppert aproveitou como ninguém: trabalhando com inúmeros mestres do cinema europeu e mundial, ela conjugou talento e oportunidade como poucas intérpretes, mesmo que, de vez em quando, o resultado de muitos dos filmes com sua presença como protagonista estejam longe de qualquer ideal de excelência. Raramente qualidade acompanha quantidade, principalmente com quem nunca desacelera, mas, em certos casos, é mesmo difícil acreditar como uma atriz do calibre de Huppert pode se envolver com pequenas bombas como esse Obsessão, um suspense que, antiquado e repetitivo, sequer alcança o status de guilty pleasure.

Na teoria, vale um desconto e um voto de confiança: Obsessão é dirigido por Neil Jordan, que, munido de inspiração ou de apelo junto ao público, realizou Traídos Pelo DesejoEntrevista Com o Vampiro, Fim de Caso e Café da Manhã em Plutão. Na prática, entretanto, é difícil nutrir qualquer interesse por um roteiro escrito no piloto-automático a partir de um amontoado de clichês envolvendo a clássica história da mocinha ingênua e machucada pela vida que passa a se relacionar com uma desconhecida que logo em seguida se revela uma maluca descontrolada. Não há clima em Obsessão, que, além da previsibilidade e da superficialidade com que constrói conflitos, tenta criar envolvimento com personagens que frequentemente tomam decisões inexplicáveis, como entrar em um beco escuro e vazio durante uma perseguição ou resolver situações com suas próprias mãos quando isso claramente era caso de polícia (e o filme se utiliza de desculpas pouco convincentes para descartar a ajuda de autoridades). Toda essa combinação é muito antiquada e, quando não há um quê de homenagem ou esperteza, chegamos a resultados aborrecidos como esse.

No papel da viúva carente e descontrolada que faz da vida da protagonista um verdadeiro inferno, Isabelle Huppert, claro, é o que existe de melhor em Obsessão. Toda sua seriedade como intérprete é mais uma vez perceptível aqui porque sua personagem é extremamente mal trabalhada. Ou seja, se o roteiro não traz o mínimo de curiosidade, sutileza ou complexidade para uma mulher que é obsessiva e perigosa simplesmente por ser (os traços do passado que tentam esclarecer seu comportamento são displicentes e rasteiros), Huppert se empenha ao máximo para ao menos conferir um tom frio e macabro à figura que interpreta. Em um mundo ideal, ela travaria um delicioso duelo físico e psicológico com uma atriz interessante, mas Chloë Grace Moretz, que, um dia despontou como uma boa promessa (Kick-Ass!), é insossa como em tantas outras oportunidades que lhe foram dadas até aqui. Sendo assim, o que temos é uma mocinha cansativa que só toma decisões erradas e uma vilã bem incorporada por uma grande veterana, mas mal aproveitada por um roteiro simplório.

Como diretor, Neil Jordan dá pouquíssima tração a um texto vazio e que depende demais de uma boa condução para se tornar minimamente envolvente. Sem uma mão mais firme ou criativa, Obsessão se mostra frágil por todos os lados, com coadjuvantes unidimensionais e caminhos já esperados para uma obra dessa natureza, incluindo o clímax regado a perucas, sedativos, seringas e revólveres. Se não fosse para ser um suspense de primeira linha, Obsessão poderia ter sido ao menos um passatempo divertido ou uma refinada brincadeira com elementos que, nos anos 1980 e 1990, chegaram a proporcionaram momentos inesquecíveis para grandes atrizes (como esquecer a marcante Alex Forrest de Glenn Close em Atração Fatal, por exemplo?). Não sendo nem uma coisa nem outra, o filme de Neil Jordan, cai no limbo e o potencializa o maior dos seus pecados: o de desperdiçar uma atriz como Isabelle Huppert, que faz qualquer trabalho com o mesmo nível de envolvimento e dedicação. Isso não é coisa que se faça, Neil Jordan!

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