Cinema e Argumento

Não tem na Netflix: 20 ótimos filmes para serem assistidos em diferentes plataformas de streaming

Se existe uma habilidade que perdi nos últimos anos foi a de responder a pergunta “tem um filme pra me indicar?”. E não é porque não tenho filmes para indicar, mas porque, além dos filtros habituais que devem ser considerados para cada pessoa, agora existe a famosa réplica: “tem na Netflix?”. E nunca sei dizer, pois não sou assinante da plataforma (recorro à conta de um amigo sempre quando desejo ver algo isoladamente), e fico de certa forma triste quando vejo as pessoas perdendo a chance de ver um grande filme simplesmente porque não está disponível por lá.

Durante esse período de isolamento, tirei um tempinho para desbravar outras plataformas e compilar dicas de excelentes filmes, todos disponíveis não na Netflix, mas em outras plataformas de streaming. Vejam bem, acho que Netflix faz um lindo trabalho ao redimensionar a popularização do cinema e das séries, mas é sempre muito importante, assim como na TV, por exemplo, o incentivo à pluralidade e não ao monopólio. Não podemos nos limitar. Ou seja, para quem deseja buscar outras alternativas e circuitos, espero que a listinha abaixo seja um bom incentivo.

P.S.: Quando terminei a seleção, imediatamente me dei conta de que somente dois longas levam a assinatura de diretoras mulheres. Uma falha terrível de minha parte. Para compensar esse tremendo equívoco, deixo como dica algumas postagens do Mulher no Cinema, site que celebra o trabalho das mulheres nas telas. A primeira traz dicas de filmes assinados por sete grande diretoras que estão disponíveis no streaming do Telecine. Já as demais, elencam os filmes dirigido por mulheres que chegaram em diferentes plataformas nos meses de janeiro, fevereiro, março e abril

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Dois Dias, Uma Noite, de Jean-Pierre e Luc Dardenne

GLOBOBLAY

120 Batimentos Por Minuto (2017), de Robin Campillo

Sinopse: França, início dos anos 1990. O grupo ativista Act Up está intensificando seus esforços para que a sociedade reconheça a importância da prevenção e do tratamento em relação a AIDS. Recém-chegado ao grupo, Nathan (Arnaud Valois) logo fica impressionado com a dedicação de Sean (Nahuel Pérez Biscayart), apesar de seu estado de saúde cada vez mais delicado.

Por que assistir? É o raro tipo de história que funciona ao misturar o registro quase documental de um movimento verídico (o Act Up, criado para exigir do governo medidas de prevenções contra a AIDS) e a jornada muito íntima e dolorosa de um personagem diagnosticado com a doença. Trata-se de uma sessão difícil, equivalente a um soco no estômago, mas com uma discussão muito bonita e, como podemos constatar ainda hoje, sempre muito urgente.


Acima das Nuvens (2014), de Olivier Assayas

Sinopse: Maria Enders (Juliette Binoche) é uma famosa atriz que fica perturbada com o fato de que JoAnn (Chloë Moretz), jovem estrela de Hollywood, irá interpretar o papel que a fez famosa há vinte anos. Convidada a dividir o palco com a novata, uma insegura Enders viaja até os Alpes para ensaiar e conta com o apoio de sua assistente (Kristen Stewart) no confrontamento com seu passado.

Por que assistir? La Binoche está em um de seus melhores papeis recentes, e isso já seria o suficiente para justificar a espiada, mas Acima das Nuvens também transformou de vez a carreira de Kristen Stewart, que, aqui, finalmente se firmou como uma das atrizes mais interessantes de sua geração. O diretor Sem nunca soar erudito ou ininteligível, o diretor Olivier Assayas é espetacular ao misturar a linguagem cinematográfica e teatral, explorando com fascínio duas personagens femininas muito complexas e refletindo sobre processos artísticos, aqui representados no ofício da interpretação.


Mapas Para as Estrelas (2014), de David Cronenberg

Sinopse: Agatha Weiss (Mia Wasikowska) acabou de chegar a Los Angeles e logo conhece Jerome Fontana (Robert Pattinson), um jovem motorista de limusine que sonha se tornar ator. Não demora muito para que ela comece a trabalhar para Havana Segrand (Julianne Moore), uma atriz decadente que está desesperada para conseguir o papel principal da refilmagem de um sucesso estrelado por sua mãe, décadas atrás. Paralelamente, o garoto Benjie Weiss (Evan Bird) enfrenta problemas ao lidar com seu novo colega de elenco. 

Por que assistir? Com esse filme, Julianne Moore completou a sua trinca de consagrações nos festivais de cinema mais importantes do mundo, levando o prêmio de melhor atriz em Cannes (ela já havia vencido Berlim por As Horas e Veneza por Longe do Paraíso). Ácido e provocador, o filme de David Cronenberg carrega o DNA dos melhores trabalhos da carreira da atriz, propondo uma viagem bastante crítica por uma Hollywood vista aqui essencialmente como indústria — e, por isso mesmo, tão viciada, destrutiva e ilusória.


Ausência (2014), de Chico Teixeira

Sinopse: Serginho (Matheus Fagundes) é um menino de 14 anos muito mais maduro que os outros jovens de sua idade. Ele cuida de seu irmão mais novo, Wiliam, e de sua mãe ausente e alcoolatra, Luzia. O único adulto com quem Serginho tem um relacionamento de afeto é o professor Ney, que o ajuda com o dever de casa durante à noite. A confusão entre o despertar de sua sexualidade e a busca de uma figura paterna faz Serginho perceber que ele está sozinho no mundo.

Por que assistir? Foi o último longa-metragem do cineasta Chico Teixeira, falecido em dezembro do ano passado, e talvez o seu mais marcante. Agraciado no Festival de Cinema de Gramado com os prêmios de melhor filme, direção, roteiro e trilha sonora, o drama retrata o cotidiano desolador de seu protagonista focando na maneira íntima e introspectiva com que ele lida com tanto desamparo e solidão. É um bonito e tocante relato sobre um garoto que a vida insiste em tornar adulto antes da hora.


Dois Dias, Uma Noite (2014), de Jean-Pierre e Luc Dardenne

Sinopse: Após se afastar do trabalho por conta da depressão, Sandra (Marion Cotillard) perde seu emprego pois outros trabalhadores da fábrica preferiram receber um bônus ao invés de mantê-la na equipe. Ela descobre que alguns de seus colegas foram persuadidos e abraça uma tarefa complicada para o final de semana: visitar os colegas de trabalho e convencê-los a abrir mão de seus bônus para que possa manter o seu emprego.

Por que assistir? Se não fosse por Piaf – Um Hino ao Amor, essa certamente seria a melhor interpretação da bela carreira de Marion Cotillard. Aqui ela está sem uma grama de maquiagem para dar vida à protagonista de um filme naturalista, falado em francês, resumido a diálogos e que é tanto o humano retrato de uma mulher enfrentando a depressão quanto uma provocadora análise sobre a hipocrisia, o individualismo e mercantilização das relações trabalhistas. É o combo perfeito: uma atriz espetacular à frente de um filme cuja trama fornece todas as ferramentas para que ela possa brilhar.

Tully, de Jason Reitman

AMAZON PRIME

Trama Fantasma (2017), de Paul Thomas Anderson

Sinopse: Década de 1950. Reynolds Woodcock (Daniel Day-Lewis) é um renomado e confiante estilista que trabalha ao lado da irmã, Cyril (Lesley Manville), para vestir grandes nomes da realeza e da elite britânica. Sua inspiração surge através das mulheres que constantemente entram e saem de sua vida. Mas tudo muda quando ele conhece a forte e inteligente Alma (Vicky Krieps), que vira sua musa e amante.

Por que assistir? Para investigar os vícios e os malefícios das relações amorosas, Paul Thomas Anderson cria dois protagonistas fascinantes justamente por serem tão opostos e difíceis. Daniel Day-Lewis, no último filme antes de sua aposentadoria, tem em Vicky Krieps uma companheira de tela à altura, e ambos redimensionam os inúmeros significados dessa obra elegantíssima que, entres outros tantos pontos brilhantes, ainda tem uma interpretação irretocável da coadjuvante Lesley Manville e uma trilha hipnotizante de Jonny Greenwood.


Precisamos Falar Sobre o Kevin (2011), de Lynne Ramsay

Sinopse: Eva (Tilda Swinton) mora sozinha e teve sua casa e carro pintados de vermelho. Maltratada nas ruas, ela tenta recomeçar a vida com um novo emprego e vive temorosa, evitando as pessoas. O motivo desta situação vem de seu passado, da época em que era casada com Franklin (John C. Reilly), com quem teve dois filhos: Kevin e Lucy. Seu relacionamento com o primogênito, Kevin, sempre foi complicado, desde quando ele era bebê. Com o tempo a situação foi se agravando mas, mesmo conhecendo o filho muito bem, Eva jamais imaginaria do que ele seria capaz de fazer.

Por que assistir? Poucos crimes da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood foram tão indesculpáveis dos anos 2000 para cá quanto o esquecimento de Tilda Swinton na disputa pelo Oscar de melhor atriz em 2012. Melhor do que todas as concorrentes daquele ano, Tilda é um assombro nesse conto perturbador sobre a difícil relação de uma mãe com o filho que, no fundo, ela nunca quis ter. Lynne Lamsay adapta o best-seller homônimo de Lionel Shriver com liberdade e identidade, navegando da maternidade à psicopatia em uma obra dramaticamente assustadora.


A Garota Ideal (2007), de Craig Gillespie

Sinopse: Lars Lindstrom (Ryan Gosling) é um homem tímido e introvertido que vive na garagem de seu irmão mais velho. Lars apenas acompanha o desenrolar de sua vida, sem se mexer para algo. Até que um dia ele encontra Bianca, uma missionária religiosa, através da internet. O problema é que para as pessoas Bianca não é alguém real, mas a réplica de uma mulher, feita de silicone. Só que Lars acredita piamente que ela é um ser humano, o que faz com que se torne seu apoio emocional.

Por que assistir? É uma das interpretações menos lembradas da carreira de Ryan Gosling, mesmo sendo, possivelmente, o seu momento mais interessante. Conhecendo a carreira de Craig Gillespie (Eu, Tonya e diversos episódios da série United States of Tara com Toni Collete), já é possível prever que essa não será uma sessão comum. E a impressão se confirma: comédia e drama se misturam em um filme que renega convenções e que investiga a nossa (in)capacidade de ressignificar a compreensão, a superação e aceitação.


Tully (2018), de Jason Reitman

Sinopse: Marlo (Charlize Theron), mãe de três filhos, sendo um deles um recém-nascido, vive uma vida muito atarefada, e, certo dia, ganha de presente de seu irmão: uma babá para cuidar das crianças durante a noite. Antes um pouco hesitante, Marlo acaba se surpreendendo com Tully (Mackenzie Davis).

Por que assistir? Pouco se falou sobre esse belo e singelo filme de Jason Reitman que atesta sua maturidade cada vez maior como observador da vida urbana. Dessa vez, novamente acompanhado da roteirista Diablo Cody (em seu melhor texto), ele explora a maternidade a partir de tudo o que ela pode trazer de mais cansativo. Claro que ele não abandona a beleza proporcionada pela chegada de um filho, mas o viés é outro: cansada, sem vaidade e sempre enrolada em uma rotina caótica, a Margo de Charlize Theron mostra como a maternidade pode ser um dos momentos mais solitários e exaustivos da vida de uma mulher. Tudo muito real, agridoce e com um desempenho excepcional de Charlize.


Sem Fôlego (2017), de Todd Haynes

Sinopse: Gunlint, Minnesota, 1977. Ao atender um telefonema, o garoto Ben (Oakes Fegley) é atingido pelo reflexo de um raio, que caiu bem em sua casa. Esta situação faz com que seja levado a um hospital em Nova York, onde descobre que não consegue mais ouvir um som sequer. Em 1927, a jovem surda Rose (Millicent Simonds) foge de sua casa em Nova York para encontrar sua mãe, a consagrada atriz Lillian Mayhew (Julianne Moore). A vida destes dois garotos que não conseguem mais ouvir está interligada a partir de um livro de curiosidades que os leva ao Museu de História Natural.

Por que assistir? Logo após ter conquistado o coração de incontáveis plateias mundo afora com Carol, o diretor Todd Haynes realizou essa fábula que passou despercebida pelo circuito comercial e que dividiu opiniões entre os críticos. Ainda que imperfeito, Sem Fôlego ganha pontos por não ser um filme acomodado e que constrói tudo com ritmo e personalidade próprios. Bem diferente do cinema fantástico, ritmado e comercial que, inevitavelmente, a sua promoção sugere, o longa coloca dois personagens na linha de frente para examinar a busca de cada um por algum tipo de pertencimento. Vale pela parte técnica, por seu universo particular e pela comovente participação especial de Julianne Moore

Desobediência, de Sebastián Lelio

HBO GO

Até o Fim (2013), de J.C. Chandor

Sinopse: Um navegador experiente (Robert Redford) está viajando pelo Oceano Pacífico, quando uma colisão com um contâiner leva à destruição parcial do veleiro. Ele consegue remendar o casco, mas terá a difícil tarefa de resistir às tormentas e aos tubarões para sobreviver, além de contar apenas com mapas e com as correntes marítimas para chegar ao seu destino.

Por que assistir? Espécie de Gravidade em alto-mar, Até o Fim é a jornada solo e sem diálogos de um homem que, após perder tudo (não sabemos exatamente o quê nem como), passa a encarar a vida como uma penitência. Ao invés de ser simplesmente uma aventura de sobrevivência, tudo é reinterpretado a partir da forma como o protagonista encara tudo o que vive. No rosto envelhecido de Robert Redford e em sua interpretação minimalista, encontramos um homem que, ao se deparar com tormentas e naufrágios parece seguir em frente por acreditar que, através deles, encontrará algum tipo de redenção. Quase nada é dito e respostas não são dadas, mas, ainda assim, tudo parece devidamente preenchido. 

Boogie Night – Prazer Sem Limites (1997), de Paul Thomas Anderson

Sinopse: Eddie Adams (Mark Wahlberg) é um jovem de 17 anos sexualmente bem-dotado. Ele é descoberto por Jack Horner (Burt Reynolds), um diretor veterano que o transforma em Dirk Diggler, uma celebridade da subcultura do mundo pornô no apogeu dos anos 70. O sucesso faz com que Eddie se envolva no mundo das drogas e a súbita fama pode ter seu preço.

Por que assistir? Segundo longa-metragem de Paul Thomas Anderson, Boogie Nights é um filme para maiores porque, claro, fala sobre a indústria pornográfica, mas porque pisa no acelerador para mostrar toda a turbulência de uma indústria cujos bastidores eram cercados por muito sexo, música e drogas. Exatamente como viria a fazer logo em seguida no também cultuado Magnólia, PTA cria um mosaico de personagens muito fortes e distintos. Temos destaques pontuais no elenco (minha favorita é Julianne Moore, como uma atriz pornô que luta pela guarda dos filhos), mas Boogie Nights é redondinho, além de muito pop (não deixem de revisitar a trilha sonora sempre que possível) e afinado com o melhor do cinema dos anos 1990.

Desobediência (2017), de Sebastián Lelio

Sinopse: A fotógrafa Ronit (Rachel Weisz) retorna para a cidade natal pela primeira vez em muitos anos em virtude da morte do pai, um respeitado rabino. Seu afastamento foi bastante abrupto e o reaparecimento é visto com desconfiança na comunidade, mas ela acaba acolhida por um amigo de infância (Alessandro Nivola), para sua surpresa atualmente casado sua paixão de juventude, Esti (Rachel McAdams).

Por que assistir? Depois de realizar pérolas como Gloria Uma Mulher Fantástica, o diretor chileno foi para os Estados Unidos realizar seu primeiro longa-metragem em língua inglesa. O interessante é que, ao contrário do que costuma acontecer com diretores “estrangeiros” que estreiam em Hollywood, Sebastián Lelio continua muito fiel a sua identidade como realizador, tocando em conflitos clássicos como o da religião versus homossexualidade sem o menor resquício de estereótipos ou apelações. Desobediência é uma obra sóbria e discreta, o que potencializa a relação tão intensa mas silenciosa das protagonistas, interpretadas com excelência por Rachel Weisz e Rachel McAdams.

Eu, Meu Irmão e Nossa Namorada (2007), de Peter Hedges

Sinopse: Dan Burns (Steve Carell) é um pai viúvo de três garotas que escreve uma coluna periódica em jornal onde compreende e resolve os problemas dos outros. Quando sai de férias com a família ele conhece Marie (Juliette Binoche), uma mulher inteligente e simpática por quem se apaixona. Só que, já na casa de praia e cercado por familiares, Dan descobre que Marie é a nova namorada de seu irmão mais novo, Mitch (Dane Cook), que diz estar profundamente apaixonado por ela.

Por que assistir? Juliette Binoche fazendo par romântico com Steve Carell? E com um ótimo elenco de coadjuvantes formado por Dianne Wiest, Amy Ryan, Allison Pill e John Mahoney? Pois Eu, Meu Irmão e Nossa Namorada aproveita é mesmo um filme tocante e bem interpretado. Também é trágico e cômico nas mesmas proporções (o protagonista se apaixona logo pela namorada do irmão após anos de luto!), como vários dos melhores papeis de Steve Carell, um grande ator especialista em personagens dessa natureza. É uma comédia com toques de melancolia e que encontra profundidade na leveza, algo difícil de construir. 

Guerreiro (2011), de Gavin O’Connor

Sinopse: Tommy Conlon (Tom Hardy) é o filho mais novo de Paddy (Nick Nolte) e voltou há pouco tempo para casa. Tommy supera os problemas do pai com bebida e passa a treinar com ele para poder participar de campeonatos de MMA (Mixed Martial Arts), o famoso vale-tudo. Só que sua trajetória faz com que tenha que enfrentar no ringue Brendan Conlon (Joel Edgerton), seu próprio irmão.

Por que assistir? Em sua premissa, Guerreiro exala masculinidade ao falar sobre dois irmãos envolvidos com a prática MMA. No entanto, o filme de Gavin O’Connor só tem a casca grossa. Por dentro, é capaz de fazer qualquer marmanjo se emocionar. As lutas e a testosterona são, na realidade, mero pano de fundo para uma história sobre cicatrizes familiares e sobre dos irmãos diferentes, distantes e abandonados por um pai alcoolista. Os dramas são clássicos, e Guerreiro não se preocupa muito em se distanciar dessa ideia, o que não é desculpa para que o longa se afunde em melodramas. Pelo contrário: Gavin O’Connor dirige com firmeza e encontra em Joel Edgerton, Tom Hardy e Nick Nolte a dinâmica perfeita para encontrar a emoção de almas frágeis em meio aos socos e pontapés de homens musculosos.

Minha Vida de Abobrinha, de Claude Barras

NOW

Luce (2019), de Julius Onah

Sinopse: Luce (Kelvin Harrison Jr.) é um jovem brilhante, além de ser muito estudioso, campeão em debates e um excelente atleta. Tudo isso faz com que seus pais adotivos (Naomi Watts e Tim Roth) sejam muito orgulhosos. No entanto, a professora de Lucas, Harriet (Octavia Spencer), descobre um artigo político escrito por ele que revela traços obscuros de sua personalidade desencadeando uma série de situações negativas na vida de todos os envolvidos.

Por que assistir? Para quem gostou de Dúvida, o provocador Luce é uma excelente pedida. Novamente, está em jogo a índole de personagens que, a partir de um acontecimento específico não encenado pelo filme, acabam se confrontando para provar sua própria inocência ou sanidade. Dessa vez, discussões raciais, sociais e familiares dos Estados Unidos se espalham pela trama, sem tons panfletários, instiganto tanto os personagens do filme que frequentemente oscilam suas opiniões diante dos fatos quanto o espectador que, sem ter a exatidão de cada motivação, se vê encurralado a não tomar nada como certo. Importante: Octavia Spencer está melhor aqui do que em qualquer indicação que já recebeu ao Oscar.

Bixa Travesty (2018), de Claudia Priscilla e Kiko Goifman

Sinopse: O corpo político de Linn da Quebrada, cantora transexual negra, é a força motriz desse documentário que captura a sua esfera pública e privada, ambas marcadas não só por sua presença de palco inusitada, mas também por sua incessante luta pela desconstrução de esteriótipos de gênero, classe e raça. 

Por que assistir? Caso você se considere uma pessoa desconstruída, espere até ver um show de Linn da Quebrada. E se você não tiver a oportunidade, talvez Bixa Travesty seja o suficiente para constatar que, apesar dos avanços, precisamos sempre discutir muito sobre raça, corpo e sexualidade. Com tamanha força, Linn acaba sendo maior do que Bixa Travesty em si, um documentário totalmente entregue a sua personagem. Isso não chega a ser um problema quando a personagem é de fato forte e interessante como acontece aqui, o que acaba fazendo com que o documentário só abra ainda mais os nossos horizontes.

As Herdeiras (2018), de Marcelo Martinessi

Sinopse: Chela (Ana Brun) e Chiquita (Margarita Irún), herdeiras de famílias abastadas do Paraguai, vivem da venda de seus bens. Quando Chiquita acaba presa por dívidas jamais acertadas, a até então submissa e reclusa Chela precisa se virar e começa por acaso a prestar serviço para um grupo de senhoras ricas como motorista. Logo a nova realidade, e especialmente a exuberante Angy (Ana Ivanova), a quem conhece durante o trabalho, afetam os interesses, prioridades e atitudes da taxista amadora.

Por que assistir? Representante do Paraguai na disputa por uma vaga ao Oscar de melhor filme internacional em 2019, As Herdeiras varreu o 46º Festival de Cinema de Gramado, onde levou, entre seis categorias, a rara tríplice coroa de melhor filme pelos júris oficial, popular e da crítica. Merecidíssimo, tendo em vista que o longa de Marcelo Martinessi é um delicado mergulho na autodescoberta — afetiva, sexual, emocional — de uma mulher nos seus 60 anos. O trio principal de atrizes é maravilhoso, mas Ana Brun é um show à parte, com uma atuação tão contida quanto imensa.

45 Anos (2015), de Andrew Haigh

Sinopse: Kate (Charlotte Rampling) está planejando a festa de comemoração dos 45 anos de casada. Porém, cinco dias antes do evento, o marido recebe uma carta: o corpo de seu primeiro amor foi encontrado congelado no meio dos Alpes Suíços. A estrutura emocional dele é seriamente abalada e Kate já não sabe se vai ter o que comemorar durante a festa.

Por que assistir? Em seus melhores momentos, o diretor Andre Haigh é um exímio observador de relacionamentos amorosos mais cotidianos. Foi assim com Weekend, seu primeiro longa-metragem, centrado no fim de semana romântico de dois personagens gays, e depois com o espetacular 45 Anos, que acompanha a semana em que um casal já na terceira idade prepara a sua festa de 45 anos de matrimônio. Dizer que Charlotte Rampling é uma força da natureza nesse filme não é o suficiente, uma vez que o próprio 45 Anos acompanha a grandeza de sua protagonista: em detalhes, Haigh analisa o efeito que o tempo causa nas relações e o quanto elas nos definem para o bem e para o mal. Assombroso.

Minha Vida de Abobrinha (2016), de Claude Barras

Sinopse: Apelidado Abobrinha, Icare, um sensível menino de nove anos, é deixado pela polícia em um orfanato depois que sua mãe falece. Deslocado neste novo universo, ele aos poucos começa a se relacionar com as outras crianças e descobre o significado de amizade e confiança.

Por que assistir? Céline Sciamma, a diretora de Tomboy Retrato de Uma Jovem Chamas, é coautora do roteiro dessa delicada animação francesa que chegou a concorrer ao Oscar. Apesar dos personagens carismáticos e do adorável visual, não estamos falando, entretanto, de um trabalho tematicamente destinado às crianças. Aliás, tudo é bastante adulto: ambientado em um orfanato, Minha Vida de Abobrinha fala sobre a vida de crianças criadas por pais acoolistas e abusivos ou então abandonadas por eles. Sem conhecer o real significado de amor e companheirismo, elas encontram a generosidade ao serem unidas pelas histórias trágicas que compartilham. É de cortar o coração, mas também capaz de deixar um esperançoso sorriso no rosto.

“Clemency”: vencedor de Sundance, drama sobre as reverberações do corredor da morte faz Alfre Woodard brilhar absoluta

I do my job.

Direção: Chinonye Chukwu

Roteiro: Chinonye Chukwu

Elenco: Alfre Woodard, Richard Schiff, Aldis Hodge, Wendell Pierce, Danielle Brooks, Michael O’Neill, Richard Gunn, LaMonica Garrett, Vernee Watson, Dennis Haskins, Alex Castillo, Alma Martinez, Michelle C. Bonilla

EUA, 2019, Drama, 112 minutos

Sinopse: A diretora (Alfre Woodard) de uma prisão de segurança máxima para homens é confrontada com seus próprios demônios psicológicos e emocionais, quando desenvolve um vínculo com o prisioneiro (Aldis Hodge) no corredor da morte que ela está programada para executar. (Adoro Cinema)

A primeira cena de Clemency, filme que venceu o Festival de Sundance em 2019, é muito impactante. Nela, Bernardine Williams (Alfre Woodard) cumpre os protocolos habituais daquela que é uma das tarefas mais recorrentes de seu cotidiano profissional: executar presidiários condenados à pena de morte. Dessa vez, entretanto, o destino parece dizer alguma coisa: os médicos não encontram uma artéria apropriada no braço para injetar o líquido que levará o homem em questão à morte. Também não encontram no pé. Até que, a muito custo, localizam a artéria femoral, situada ao longo das coxas. Algo segue dando errado: o homem começa a ter uma espécie de convulsão, e sangue passa a escorrer da artéria onde está sendo injetado o líquido fatal. Nada, no entanto, evita o óbito do condenado, mesmo com um ritual problemático e tão traumático que parecia um presságio para algum tipo de reviravolta.

Claro que toda a circunstância é inegavelmente perturbadora, mas a sequência incomoda pela expressão indecifrável, rígida e esvaziada de Bernardine naquele momento. Como a diretora de um corredor da morte, ela está acostumada a executar pessoas e enxerga tudo aquilo apenas como uma profissão, excluindo da equação o fator humano ou a brutalidade de um sistema punitivo tão tortuoso como o dos Estados Unidos. Realmente é possível alguém viabilizar um punhado de execuções com alguma naturalidade? Quantos óbitos dessa natureza um ser humano precisa testemunhar para tratar essa tarefa como mais uma entre tantas outras de uma checklist profissional? Também cito essa cena específica, pois é dela que nascem as duas abordagens fundamentais para compreender e discutir Clemency.

A primeira é hipnotizante: a do filme como estudo de caso de uma personagem. E não qualquer personagem, mas uma mulher negra bem sucedida e de personalidade, responsável por um setor onde só circulam homens. A rigidez com que Bernardine coordena o corredor da morte é abalada quando ela recebe a notícia de que, em virtude dos problemas ocorridos na execução do mais recente condenado, uma investigação acerca desse trabalho será conduzida no presídio. Mais importante do que isso, o assunto passa a repercutir dentro e fora do local, e Bernardine, talvez pela primeira vez afetada pela natureza da sua profissão, começa gradualmente a ter problemas de sono, a frequentar bares com maior frequência e a se tornar uma pessoa cada vez mais impenetrável. É um turbilhão interno de emoções muito discreto, sem o mínimo traço de obviedade.

Já o segundo recorte é menos sutil e contundente: aquele que leva Clemency para uma discussão sobre os dilemas e as contradições da pena de morte. Tal abordagem é desenhada com propriedade mulher e negra, a diretora Chinonye Chukwu é efetiva ao dosar dilemas íntimos e coletiva dentro desse contexto marcado por discussões raciais , mas o que não funciona é a atenção excessiva a uma subtrama onde acompanhamos a trajetória emocional de um presidiário negro que, supervisionado por Bernardine e defendido por um advogado em conflito com sua profissão, tem a esperança de conseguir escapar da execução. A subtrama tira a harmonia do filme porque corta tempo de tela da hipnotizante protagonista e porque, apesar dos comentários sociais e das reflexões que busca trazer, o personagem simplesmente não desperta o devido interesse.  

Sem fazer da história um relato de emoções mais clássicas e lacrimosas como Os Últimos Passos de Um Homem ou À Espera de Um Milagre, dois célebres títulos também ambientados em um corretor da morte, Clemency se apropria da rigidez da protagonista como parte de sua própria personalidade como filme. Faz sentido e funciona: na medida em que Bernardine ferve um punhado de sentimentos tempestuosos, a diretora não deixa que as eventuais angústias e desesperos da protagonista se traduzam em diálogos espetaculosos ou em conflitos hiperbólicos. Mesmo o casamento desgastado de Bernardine, que poderia ser considerada a faceta mais tradicional da trama, é desenvolvido uma dinâmica muito particular entre o casal. O próprio fato de ela ter que lidar diariamente com a morte também não é o fim do mundo, algo pouco habitual em longas dessa temática.

Ao alternar entre a história da protagonista e a jornada do detento que está prestes a ser executado, Clemency, ao invés de se complementar, resulta indeciso entre a vontade de ser o íntimo conto de uma mulher bastante particular e a reflexão acerca do sistema prisional estadunidense. Do micro ao macro, o filme se desencontra com frequência, mas acaba sempre voltando para aquilo que eleva a sua potência: Alfre Woodard. Solenemente ignorada na última temporada de premiações, inclusive pelas associações de críticos que costumam garimpar desempenhos fora da curva como esse, Alfre é uma gigante em cena. Com uma presença pulsante, ela é enigmática e transparente nas mesmas proporções para o espectador, canalizando uma imensidão de sentimentos em um desempenho milimétrico e também muito livre em criações e sentimentos. Em suma, Clemency tem sim suas virtudes, mas, no frigir dos ovos, o show é todo (e somente) de Alfre.

Rapidamente: “E Então Nós Dançamos”, “O Homem Invisível”, “As Panteras” e “Vida Selvagem”

Exibido na Quinzena dos Realizadores do Festival de Cannes, E Então Nós Dançamos foi o representante da Suécia na busca por uma indicação ao Oscar de melhor filme internacional em 2020.

E ENTÃO NÓS DANÇAMOS (And Then We Danced, 2019, de Levan Akin): Representante da Súecia na disputa por uma vaga na categoria de filme internacional do Oscar 2020, o drama E Então Nós Dançamos é outro relato muito bacana e econômico sobre as vivências de um jovem personagem gay. Assim como no recente Me Chame Pelo Seu Nome, Merab (Levan Gelbakhiani) tem sua rotina transformada pela descoberta de uma paixão repentina. Evidentemente, aqui pesam mais as questões de preconceito, já que E Então Nós Dançamos se passa em Tiblissi, uma cidade conservadora da Geórgia, mas o diretor e roteirista Levan Akin alcança um ótimo equilíbrio ao dar a devida dose de contextualização para esse problema sem tornar tal condição um elemento novelesco para os personagens. O foco de Akin está em como Merab, apesar das adversidades familiares, financeiras e sociais, segue tocando a vida sem se privar de suas maiores paixões. Além disso, a natureza sexual do protagonista não define E Então Nós Dançamos, que acaba sendo um relato muito mais amplo sobre a vida de um jovem atravessando todo tipo de transformação cotidiana. A vivacidade, as frustrações e as oscilações de Merab também despertam empatia extra através do caloroso desempenho de Levan Gelbakhiani, bailarino na vida real e aqui em sua primeira aparição no cinema. Somando ao personagem sua impressionante técnica como bailarino georgiano, Gelbakhiani é puro carisma e dá conta de todas as angústias características (mas não estereotipadas) da juventude. Ele, aliás, costuma ser o destaque absoluto do filme, que só não se engrandece em função de uma direção pouco inventiva.

O HOMEM INVISÍVEL (The Invisible Man, 2020, de Leigh Whannell): Acostumada a interpretar papeis sofridos ou atormentados, Elisabeth Moss acrescenta mais uma experiência dessa natureza ao seu currículo com O Homem Invisível, um dos últimos filmes a causar um interessante boca a boca antes do mundo suspender o funcionamento das salas de cinema com o início da pandemia do Coronavírus. Em que pese o tom elevado e os desdobramentos por vezes implausíveis, O Homem Invisível é robusto por utilizar o suspense como ferramenta para discutir o universo sempre muito dolorido de mulheres envolvidas  em relacionamentos abusivos. A premissa em si é a seguinte: após receber a notícia do suicídio de seu ex-namorado, Cecilia (Moss) passa a experienciar situações que sugerem a possibilidade de que a morte possa ter sido forjada. Daí em diante, O Homem Invisível não poupa o espectador de situações, conflitos e reviravoltas clássicas de suspenses exibidos durante a madrugada na TV, inclusive com uma parte técnica que reforça esse espírito, como a trilha sonora de notas altíssimas assinada por Benjamin Wallfisch. Tudo, no entanto, serve para potencializar o estado traumático enfrentado pela protagonista após anos sendo abusada emocionalmente pelo namorado. A vibe é aceitável e envolvente porque Elisabeth Moss é excelente atriz e porque O Homem Invisível sabe usar a identidade de um gênero cinematográfico para falar sobre pesadelos muito palpáveis, onde a insanidade de homens possessivos e violentos na vida real é mesmo mais absurda do que a própria ficção.

AS PANTERAS (Charlie’s Angels, 2019, de Elizabeth Banks): Quando perguntada sobre as possíveis razões que levaram um filme como As Panteras ser um retumbante fracasso de bilheteria (a arrecadação total nos Estados Unidos sequer pagou 1/4 do orçamento), a diretora Elizabeth Banks atribuiu toda a culpa ao sexismo de Hollywood, uma indústria ainda intolerante com longas de ação estrelados por mulheres e que não se enquadram em um formato masculino ou em um universo de quadrinhos. Banks não deixa de ter certa razão, mas é difícil endossar sua afirmativa quando As Panteras não motiva o espectador a defendê-lo. Desprovido do mínimo de personalidade, o filme chega a assustar pela ação genérica, pela apatia das personagens e pela trama aborrecida que nem reverencia direito a mitologia pop alcançada pelas Panteras na TV e no cinema. É inevitável a comparação até mesmo com os dois títulos anteriores a esse reboot, dirigidos por McG com um delicioso e absurdo senso de ridículo. Assim como Kristen Stewart, Naomi Scott e Ella Balinska não chegam aos pés do carisma e da atmosfera de diversão trazida por Cameron Diaz, Drew Barrymore e Lucy Liu, o filme em si se desenrola com indiferença, provando que Elizabeth Banks, vaidosa o bastante para atuar, dirigir, roteirizar e produzir o projeto (e ainda deixar isso bem claro nos materiais promocionais!), precisa se desenvolver muito como realizadora. E a torcida é grande, pois acho que todos nós gostaríamos de poder dizer que As Panteras foi injustiçado por questões sexistas, e não por ser simplesmente uma experiência vazia, tediosa e sem uma vírgula de inspiração.

VIDA SELVAGEM (Wildlife, 2018, de Paul Dano): Paul Thomas Anderson. Paolo Sorrentino. Steve McQueen. Bong Joon-Ho. Denis Villeneuve. Ang Lee. Spike Jonze. Rian Johnson. Jonathan Dayton. Valerie Farris. Aos 36 anos, Paul Dano já teve a oportunidade de trabalhar com uma lista invejável de diretores. Por isso, parecia tão compreensível quanto inevitável que, após toda essa imensa experiência, ele decidisse realizar Vida Selvagem, seu primeiro longa-metragem como diretor e roteirista, baseado no romance de mesmo título escrito por Richard Ford em 1990. Para dividir a adaptação da obra, Dano chamou sua namorada, a atriz Zoe Kazan. A sábia decisão de trazer uma perspectiva feminina para Vida Selvagem faz a diferença: por mais que o filme parta da visão estabelecida por um adolescente em relação ao gradual processo de separação dos pais na década de 1960, a potência dramática acaba vindo da maneira com que a mãe Jeanette (Carey Mulligan) lida com o afastamento do marido. Ao não se vitimizar ou se afundar em lágrimas na cama, ela rapidamente se ocupa para superar o fato do marido ter saído de casa por tempo indeterminado. Obviamente isso é um estado de negação abraçado por Jeanette para não ter que lidar com determinados sentimentos. O que para ela é um escudo, para o filho se torna motivo de estranhamento. Vida Selvagem tropeça em ritmo e se prolonga em sequências pontuais, como aquela onde mãe e filho saem para um jantar, mas brilha na grande atenção dada a sua protagonista, interpretada por Carey Mulligan com uma inspiração que ela não apresentava desde o ótimo Educação.

Afinal, o que terá acontecido a “The Death and Life of John F. Donovan”?

Kit Harington como John F. Donovan: cercado por nomes como Susan Sarandon, Kathy Bates e Michael Gambon, o astro de Game of Thrones confirma o seu limitado alcance dramático.

Amado e detestado nas mesmas proporções, o cineasta canadense Xavier Dolan sempre realizou um tipo de cinema que pode ser chamado de muitas coisas, menos de inexpressivo. A situação, entretanto, muda de cenário com The Death and Life of John F. Donovan, seu primeiro longa-metragem em língua inglesa. Algo realmente deu errado nessa investida: Dolan tanto fez diversas alterações na sala de montagem até chegar ao corte final (entre elas, reduzir a duração pela metade e eliminar por completo a participação de Jessica Chastain!) como sequer fez algum esforço para promover o filme, abrindo mão até mesmo de estreá-lo em Cannes, onde costuma exibir todos os seus projetos. A indiferença foi a mesma no circuito comercial: até a data de publicação desse texto que você lê agora, The Death and Life of John F. Donovan estreou em menos de uma dezena de países, sem qualquer engajamento de seu próprio realizador. Aqui no Brasil sequer tem previsão de estreia ou título em português. 

Mais do que marcar a estreia de Xavier Dolan como diretor de longas em língua inglesa, o projeto tinha outro grande apelo para ao menos ganhar alguma publicidade decente: um elenco irrepreensível, formado por nomes como Natalie Portman, Jacob Tremblay, Susan Sarandon, Kathy Bates, Thandie Newton e Michael Gambon. Uma constelação tão brilhante de atores não costuma ser garantia de grandes resultados (muito menos em um filme frequentemente adiado, modificado e promovido com descaso), mas é mesmo estranha a total falência de uma produção que, em tese, reúne muitas credenciais que vários diretores sonhariam em ostentar ao lançar um primeiro trabalho em inglês. Pois Dolan já até realizou outro longa nesse meio tempo (Matthias et Maxime, exibido na mostra competitiva do Festival de Cannes em 2020) e deixa a entender que já virou a página. É como se The Death and Life of John F. Donovan simplesmente não tivesse existido.

Há um punhado de razões para que todos tenham decidido ignorar o projeto. Vamos a elas. Com tantos atores talentosos reunidos, é inexplicável, por exemplo, que Dolan tenha cometido o pecado de escalar logo Kit Harington como protagonista. Mundialmente conhecido pelo papel de Jon Snow no seriado Game of Thrones, Kit simboliza o eterno clichê de astro fotogênico com pouquíssimo alcance dramático. Suas limitações se tornam ainda mais evidentes em The Death and Life of John F. Donovan, onde, com a mesma expressão do início ao fim e sem a larga escala de produção da HBO para camuflar sua apatia, o ator falha em construir o mínimo de camadas para o personagem-título. Complica também o fato de John F. Donovan ser aquele protagonista batido que todos nós conhecemos: o assediado astro de cinema e TV que esconde sua sexualidade, tem problemas com a mãe alcoolista e é assombrado pelo fardo de uma fama que, lá no fundo, talvez não preferisse ostentar.

Natalie Portman e Jacob Tremblay em um dos tantos pontos de vista de The Death and Life of John F. Donovan. Excesso de personagens e perspectivas diluem ainda mais as discussões do filme.

The Life and Death of John F. Donovan parte da relação que o protagonista estabelece com um garoto britânico de 11 anos que lhe escreve uma carta. Há, portanto, pontos de vista fragmentados: o de Donovan, interpretado com as devidas limitações por Kit, e o do garoto, vivido por Jacob Tremblay em um daqueles papéis onde é difícil crer que alguém tão jovem tenha tanta vivência de mundo para dizer certas coisas. Em menor escala, como artifício narrativo, o roteiro escrito por Dolan em parceria com Jacob Tierney, ainda opta por saltar no tempo e mostrar como o garoto, já adulto, segue processando essa relação que acabou de maneira bastante problemática. A ideia de diversos pontos de vista, recheada de um entra e sai constante de atores em pequenos papéis, poderia preencher várias lacunas do filme, descortinando revelações e novas dimensões de cada personagem. Não raro em inúmeras histórias que falham em criar uma narrativa coral, o efeito é o oposto, estacionando no efeito da dispersão e da inconsistência.

Mal ajambrado, The Death and Life of John F. Donovan se dissolve em sua própria estrutura, reduzindo certos personagens até mesmo a variações de caricatura, como a Grace de Susan Sarandon, que, sempre com um copo de whisky na mão, diz poucas e boas para o filho em um jantar com família e amigos. Demais veteranos como Kathy Bates e Michael Gambon também emprestam pompa e talento a outras figuras mal exploradas. Personagens com uma ou duas aparições e interpretados por grandes atores devem servir para potencializar detalhes ou redimensionar dilemas, como as emblemáticas aparições de Viola Davis em Dúvida ou de Julianne Moore em Direito de Amar, e não para proporcionar mero desfile de bons intérpretes em papeis rasteiros. E não deixa de ser um problema de escalação: afinal, por que chamar tanta gente boa se não é para aproveitar cada um com a devida atenção? O mosaico de atores talentosos seria a compensação perfeita para a insipidez de Kit Harington. Contudo, tal promessa traz à superfície mais uma decepção de The Death and Life of John F. Donovan.

Xavier Dolan entrega uma experiência cujas intenções dramáticas são de difícil diagnóstico. Do peso da fama à solidão infantil, passando pela forma como superamos ou não o passado e pelo isolamento que a homossexualidade pode desencadear em determinadas profissões, The Death and Life of John F. Donovan levanta muitas temáticas sem discuti-las como deveria. A origem do projeto está em uma vivência pessoal do diretor: quando criança, Dolan escreveu uma carta para Leonardo DiCaprio após conferir o clássico Titanic. Segundo ele, esse foi o momento de um despertar cultural, sexual e cinematográfico que definiu toda a sua vida como um homem de cinema. Esse ponto de partida tão pessoal e carinhosos não é traduzido na tela. Menos ainda no descaso com que a obra foi trabalhada a partir de sua pós-produção. Provavelmente nunca saberemos o que aconteceu nos bastidores para que The Death and Life of John F. Donovan caísse no esquecimento antes mesmo de nascer para o público, mas é impossível não imaginar que, ao colocar o filme para debaixo do tapete, Xavier Dolan tenha secretamente confessado a sua própria insatisfação com o resultado final.

Rapidamente: “Um Dia de Chuva em Nova York”, “Ford vs. Ferrari”, “As Golpistas” e “História de Um Casamento”

Constance Wu e Jennifer Lopez em As Golpistas: filme dirigido por Lorene Scafaria é tudo aquilo que Oito Mulheres e Um Segredo deveria ter sido.

UM DIA DE CHUVA EM NOVA YORK (A Rainy Day in New York, 2019, de Woody Allen): A Amazon não pensou duas vezes antes de colocar Um Dia de Chuva em Nova York na geladeira quando as problematizações envolvendo o passado de Woody Allen ressurgiram durante a era #MeToo. Finalmente revelado ao mundo após um processo do diretor contra a plataforma, o filme sai da geladeira direto para o esquecimento: com um roteiro repetitivo, apático e cansativo, Woody Allen recicla várias de suas marcas sem nenhuma inspiração, colocando abaixo a teoria de que mesmo os seus piores projetos são melhores do que muitos outros realizados por aí. Da interpretação inconvincente e recheada de tiques de Timothée Chalamet ao carrossel de coadjuvantes insípidos, Um Dia de Chuva em Nova York esbarra em táticas já empoeiradas de Allen, como a de traduzir nos personagens traços próprios de sua personalidade. O problema é que aqui estamos falando de protagonistas jovens, e por isso mesmo o linguajar erudito e as reflexões excessivamente filosóficas soam tão inverossímeis. Sem nem utilizar a geografia de Nova York com muita inspiração, Allen entrega uma trama das suas tramas mais cansativas, onde a única sequência arejada e envolvente é a do monólogo protagonizado por Cherry Jones. Frente a esse trabalho tedioso, o subestimado Roda Gigante, que Woody dirigiu anteriormente, tem as suas qualidades ainda mais evidenciadas. 

FORD VS. FERRARI (Ford v Ferrari, 2019, de James Mangold): Com um público-alvo muito bem definido, Ford vs. Ferrari não esconde a sua predileção por plateias brancas e masculinas, uma vez que não há qualquer traço de representatividade ou universalidade em sua concepção. A temática em si não deixa de ser limitadora: o mundo das corridas automobolísticas e toda a ganância de um contexto corporativo que faz duas grandes marcas do gênero se digladiarem dentro e fora das pistas. A partir dessa perspectiva, é importante perceber como Ford vs. Ferrari ignora a existência de qualquer pessoa negra, considera flatulências, socos e testículos como matéria-prima para o humor e desenvolve apenas uma personagem feminina, limitada a ficar mais da metade do filme apenas acompanhando as corridas do marido pela TV. Dramaticamente, os antagonistas são unidimensionais e pura caricatura, reforçando a falta de qualquer sutileza do filme. As cenas de corrida chegam a prender a atenção e refletem uma uma parte técnica bem acabada, assim como Christian Balese diverte à beça com seu personagem, mas tudo não vai muito além disso. Para quem não aprecia toda a testosterona envolvendo carros potentes, Ford vs. Ferrari faz jus a sua longuíssima metragem (152 minutos) e rende ao espectador um verdadeiro chá de cadeira. 

AS GOLPISTAS (Hustlers, 2019, de Lorene Scafaria): Em 2018, Oito Mulheres e Um Segredo tentou realizar um entretenimento protagonizado por mulheres que arquitetavam um grande assalto. Eventualmente, funcionava como passatempo, mas o roteiro era frágil, as personagens pouco desenvolvidas e o próprio assalto não transmitia nenhum senso de ameaça. Tudo isso, de certa forma, é compensado em As Golpistas, onde um grupo de strippers resolve passar a perna nos seus riquíssimos clientes de Wall Street quando eles deixam de frequentar o clube após a crise financeira que abalou os Estados Unidos entre 2007 e 2008. Com uma diretora mulher comandando a história, o cenário ultrapassa a barreira de um filme pop e feminino sobre trapaça para fazer inúmeros comentários sociais, seja sobre o papel das mulheres na sociedade (e como elas são julgadas por trabalhos tidos hipocritamente como indignos) ou sobre como o dinheiro é, para o bem e para o mal, um instrumento fundamental para definir nossa sobrevivência no mundo. Também autora do roteiro, Lorene Scafaria dirige As Golpistas harmonizando muito bem o senso de entretenimento e reflexão. É um feito raro e que ganha ótimos contornos com a ajuda de personagens femininas nunca objetificadas e sempre devidamente exploradas, com destaque para as duas protagonistas vividas com brilho por Constance Wu e Jennifer Lopez.

HISTÓRIA DE UM CASAMENTO (Marriage Story, 2019, de Noah Baumbach): Uma das boas surpresas da temporada de premiações em 2020 foi ver um filme simples e cotidiano como História de Um Casamento conseguir indicações em várias das categorias principais de cada cerimônia. Nele, o diretor e roteirista Noah Baumbach volta ao tema da separação que ele próprio já havia abordado em A Lula e a Baleia a partir de uma outra proposta, agora centrado no casal em si e não nos efeitos que o divórcio traz aos filhos. Sem cenas mirabolantes, Baumbach encontra grandeza na simplicidade e, especialmente, nos desempenhos comoventes de Scarlett Johansson e Adam Driver. Na escala dos coadjuvantes, Laura Dern, Alan Alda e Ray Liotta exploram, com diferentes abordagens, o espírito danoso e competitivo que os advogados de divórcio inevitavelmente despertam em um momento delicado como esse. Cada conflito ou reflexão de História de Um Casamento está em momentos corriqueiros do dia a dia, estreitando a possibilidade de identificação do espectador com o filme. Franco e por vezes doloroso, o longa, contudo, tem sua maior maturidade ao apresentar personagens que não estão necessariamente em um período de tentar recuperar o que um dia tiveram. Ele encena outro momento: aquele em que, aos poucos, ambas as partes percebem a necessidade de seguir em frente e superar todo um passado, mesmo que ainda reconheçam o quanto amam um ao outro. Trata-se de uma circunstância difícil de ser absorvida na vida real, mas que História de Um Casamento debate com grande sinceridade.

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