Cinema e Argumento

“O Diabo Veste Prada 2” rejeita ideia do mero fan service para medir o pulso do nosso tempo

May the bridges I burn light my way.

Direção: David Frankel

Roteiro: Aline Brosh McKenna

Elenco: Anne Hathaway, Meryl Streep, Emily Blunt, Stanley Tucci, Justin Theroux, Kenneth Branagh, Lucy Liu, B.J. Novak, Simone Ashley, Tracie Thoms, Caleb Hearon, Lady Gaga, Rachel Bloom, Helen J Shen, Patrick Brammall, Pauline Chalamet

The Devil Wears Prada 2, EUA, 2026, Comédia, 119 minutos

Sinopse: De volta às elegantes ruas de Nova York e aos sofisticados escritórios da revista Runway, as personagens de O Diabo Veste Prada se veem envolvidas em uma disputa por receita publicitária em meio ao declínio da mídia impressa, colocando à prova antigas relações e ambições profissionais.

Incrédula, Andy Sachs (Anne Hathaway) testemunha um momento que, vinte anos atrás, poderia ser uma miragem: Miranda Priestly (Meryl Streep) chegando ao escritório da revista Runway e, ela própria, colocando seu casaco em um cabide. Muita coisa mudou desde o lançamento de O Diabo Veste Prada em 2006, tanto para o mundo quanto para suas personagens, e a roteirista Aline Brosh McKenna, que escreveu o longa original e volta para o segundo, entende como tantos reveses são essenciais para revisitar um universo cinematográfico que marcou época e gerações.

Orçado em 35 milhões de dólares, o primeiro O Diabo Veste Prada faturou quase dez vezes mais quando chegou aos cinemas mundialmente, superando as expectativas em torno de um projeto protagonizado por mulheres e encabeçado por uma atriz já então considerada veterana aos 56 anos. Clássicos só podem receber tal distinção com o tempo, e não é exagero afirmar que o filme de David Frankel se tornou um na cultura pop. Motivos não faltaram, da interpretação icônica de Meryl Streep ao frescor estético de um império da moda embalado por hits nas vozes de Madonna, Alanis Morissette, U2, Moby, entre outros.

Não só O Diabo Veste Prada foi visto e revisto com o passar dos anos como também reinterpretado em muitas de suas simbologias. A vilania da história reside em Miranda ou no namorado de Andy vivido por Adrian Grenier? A editora-chefe da Runway seria, de fato, o diabo de saias ou é vista dessa maneira apenas por ser uma mulher — e não um homem — em posição de poder? À parte respostas, é indiscutível que Miranda Priestly, por si só, tornou-se um dos papéis mais emblemáticos da carreira de Meryl Streep, o que definitivamente não é pouca coisa.

Agora, após exatas duas décadas, O Diabo Veste Prada 2 apresenta um novo momento na vida de suas personagens. O tempo passou fora e dentro das telas, algo que a sequência dirigida por David Frankel abraça como mote. Não se trata, em suma, de uma continuação alheia às mudanças do mundo ou fabricada para satisfazer a nostalgia de uma legião de fãs. A virada de chave está nessa noção de que Andy e Miranda não podem ser mais as mesmas quando as noções de moda e jornalismo há muito já se transformaram.

Os casacos agora pendurados pela própria chefe são resultado de reclamações feitas ao setor de Recursos Humanos. Não há mais orçamento para viagens de quatro semanas com o objetivo de produzir o ensaio do mês. Os transportes executivos dão lugar às corridas por Uber, assim como viagens aéreas agora só são possíveis por meio de classe econômica. E a antes tão poderosa Runway praticamente deixa de existir na versão impressa para existir em uma versão digital que, como lembra Nigel (Stanley Tucci), virou uma mera rolagem no feed quando os usuários de redes sociais tiram um tempo para ir ao banheiro.

É surpreendente que O Diabo Veste Prada 2 talvez seja o primeiro filme sobre o estado atual do jornalismo porque Hollywood desaprendeu a fazer grandes projetos comerciais com algo a dizer, muito menos com algum tipo de posicionamento. Pois o roteiro de McKenna, além de fazer observações sobre o sucateamento das mídias, utiliza esse cenário para moldar suas personagens nos planos cômicos e dramáticos. Se o jornalismo virou negócio — e não um dos mais vantajosos para os próprios jornalistas —, tudo passa a se dar na base de negociação, mesmo para quem antes apenas demandava.

McKenna toma o cuidado de não fazer de O Diabo Veste Prada 2 uma lição de moral ou uma espécie de punição em cima da sua personagem-título. Isso acontece porque todos estão no mesmo barco, envoltos em crises e incertezas, inclusive a Andy de Anne Hathaway, que volta à Runway após a demissão em massa realizada pelo jornal onde acreditava estar fazendo um trabalho com princípios e significados. Ao mesmo tempo, são as próprias pessoas da sua geração que tomam o poder através de ricaços da tecnologia, muitos deles invadindo todas as áreas apenas com números e métricas em mente.

Em meio ao naufrágio, o que resta é a colaboração entre os que tentam sobreviver. É quando surgem as transformações dos personagens de um filme para o outro, em especial as das protagonistas. Há quem possa dizer que Miranda está mais suavizada nessa sequência, o que, para mim, na realidade, faz total sentido. E, sendo bem sincero, é reconfortante ver que até o diabo pode mudar, mesmo que conforme a música da vez. Ocorre, enfim, a flexibilização de sentimentos — ou, então, as nuances — que, no fundo, gostaríamos de ter visto no primeiro longa.

Ao buscar novos pilares, O Diabo Veste Prada 2 não abandona, claro, a essência que tornou seu antecessor um marco na cultura pop. Em cena, há diversas referências ao que vimos em 2006, como o retorno de Vogue na trilha sonora e do suéter azul cerúleo no figurino. De Donatella Versace a Lady Gaga, o desfile de participações especiais também segue dando prestígio ao projeto. Felizmente, são inserções calibradas e que resistem à tentação de soarem cacoetes, algo exemplificado no uso do icônico That’s all de Miranda, utilizado uma única vez.

Mesmo com tantos méritos e com a presença gratificante de um elenco que volta aos personagens como se os tivessem interpretado ontem, não dá para se dizer que o raio cai duas vezes no mesmo lugar. O Diabo Veste Prada 2 não incendeia como o anterior, talvez por insistir em elementos que continuam não dando certo (o novo par romântico de Andy é outra vez insípido) e por não corrigir aquelas rotas fáceis demais que contornam problemas aparentemente incontornáveis para as personagens. Há ainda adições que em nada contribuem — e, nesse sentido, me pergunto qual a razão de desperdiçar um grande ator como Kenneth Branagh para um papel tão descartável. E, ah, claro, sem esquecer da estética pouco viva em cores e iluminação que toma conta das produções comerciais atuais.

Pode até ser que eu não reveja O Diabo Veste Prada 2 da mesma maneira incansável com que revejo o primeiro, mas fico feliz em poder dizer que a sequência tem vida própria diante de tantos projetos semelhantes que se sustentam apenas pela nostalgia momentânea. Ao ser comparado com, digamos, Gladiador 2 e Uma Sexta-Feira Mais Louca Ainda, o retorno de Meryl Streep e companhia ao universo da moda justifica sua existência ao apostar em um tipo de cinema outrora bem trabalhado em Hollywood: o que comunica ideias por meio da despretensão. Como o bom jornalismo, O Diabo Veste Prada 2 se sai vitorioso porque nega as expectativas óbvias e busca novos ângulos para explorar.

“Michael” é mais uma cinebiografia como tantas outras (e que, com certeza, frustraria o próprio Rei do Pop)

Keep those feet still, my man!

Direção: Antoine Fuqua

Roteiro: John Logan

Elenco: Jaafar Jackson, Colman Domingo, Juliano Valdi, Nia Long, Miles Teller, Mike Myers, Kendrick Sampson, Jayden Harville, Jaylen Lyndon Hunter, Judah Edwards, Nathaniel Logan McIntyre, Tre’ Horton, Rhyan Hill, Joseph David-Jones, Jamal Henderson

EUA/Reino Unido, 2026, Drama, 127 minutos

Sinopse: O filme conta a história da vida de Michael Jackson além da música, acompanhando sua jornada desde a descoberta de seu talento extraordinário como líder dos Jackson Five, até se tornar o artista visionário cuja ambição criativa impulsionou uma busca incansável para ser o maior entertainer do mundo.

A sensação é de déjà-vu imediato: tão logo Michael começa, surge a silhueta icônica do protagonista, aquecendo-se antes de entrar no palco, enquanto um público delirante grita por seu nome ao fundo. Vemos Michael Jackson apenas de costas para, logo em seguida, retrocedermos algumas décadas até a sua infância nas mãos de um rígido pai que tinha por missão de vida treinar os filhos rumo ao estrelato. É o tipo de história e estrutura que, no campo das cinebiografias, já vimos dezenas de vezes e que Michael, mesmo com um personagem sui generis, não faz questão nenhuma de subverter. De todas as frustrações que um projeto como esse poderia causar, trata-se da maior: a de colocar a vida do Rei do Pop em uma caixinha de caminhos prontos e fáceis, sem minimamente evocar, em termos cinematográficos, a pulsante criatividade de um brilhante repertório musical.

Bem como aconteceu com Wicked, Michael chega aos cinemas camuflando — pelo menos em seus materiais promocionais — a informação de que haverá uma sequência e que, por óbvio, os acontecimentos desse primeiro são apenas a primeira parte de um arco a ser finalizado na segunda obra. A ambição poderia ser justificada caso o diretor Antoine Fuqua (Dia de Treinamento, O Protetor) se utilizasse da imaginação para ir além da narrativa tradicional e investigar a mente do cantor, a exemplo do que Dexter Fletcher fez no ótimo Rocketman, ainda a melhor cinebiografia musical realizada por Hollywood nos últimos anos. Contudo, Fuqua não é exatamente um diretor inspirado, basta olharmos para sua carreira que, em retrospecto, é apenas marcada por obras de ação muito parecidas entre si.

Junte a isso o fato de Michael passar pelo crivo da família Jackson e ter eliminado polêmicas como as acusações de abuso infantil contra o cantor, tornando-se mais um projeto chapa branca entre tantos. Tal abordagem não é novidade se considerarmos como as celebridades norte-americanas vêm sendo retratadas pelo cinemão já há certo tempo, e talvez seja por já esperar pouco de Michael que meu problema tenha ficado mais com a decisão mercadológica — e nunca artística — de narrar a vida de Jackson em dois filmes. Há uma série de efeitos colaterais resultantes dessa escolha, a começar, sem dúvida, pela sensação de incompletude. Afinal, a partir do roteiro de John Logan (O Aviador, 007 – Operação Skyfall), Fuqua pouco consegue fazer com que Michael se sustente sozinho, embora já entregue vários hits como Thriller, Billie Jean e Beat It.

Se a história tem bastante para contar – ela até o final dos anos 1980, quando Michael Jackson já havia se tornado uma febre mundial e detentor do título de álbum mais vendido de todos os tempos —, há, por outro lado, um enorme vazio em como tudo é retratado. A condução formulaica nunca alcança a verve extasiante das músicas, e o roteiro não descortina o cantor para além da superfície. Percebam, por exemplo, como, mesmo se dedicando a abarcar um bom pedaço da infância de Michael, saímos da sessão sem sequer compreender os perfis dos quatro irmãos que, com ele, formaram a banda The Jackson 5. Seu próprio processo criativo é um mistério: à parte o momento em que Beat It ganha vida, em uma das melhores passagens do filme, ou quando Michael começa os trabalhos do videoclipe de Thriller, a origem do seu álbum mais célebre é resumida a um mural onde o protagonista fixa o nome de cada música produzida para escolher qual servirá como título.

Dramaticamente falando, temos apenas um grande conflito: o do artista que tenta sair da sombra do pai. Para o bem e para o mal, Joseph (Colman Domingo) exerceu papel fundamental na criação dos filhos, e é interessante como Michael não se furta de mostrar, em especial, como o controle do pai fez mal para toda a família, até mesmo para a mãe (Nia Long), que, pouco a pouco, tenta se impor em uma casa dominada por uma voz masculina. Defensor da ideia de que sucesso não vem de mão beijada e que, sendo negro, é preciso fazer todo tipo de sacrifício, seja ele qual for, para ser alguém na vida, Joseph alçou os filhos ao sucesso, mas também produziu uma série de traumas, negando, inclusive, o prazer da infância a eles. Não por acaso, Michael vivia em uma eterna síndrome de Peter Pan, adotando macacos e girafas ou fazendo de sua mansão um lugar dos mais recreativos — a famosa Neverland que, espera-se, seja abordada futuramente.

Fuqua e Logan não se aprofundam nas leituras possíveis em cima desses fatos, fazendo do protagonista um personagem raso em emoções, condição perfeita para que várias lacunas se abram no estudo do biografado. É nula, por exemplo, qualquer sugestão aos desejos afetivos e sexuais de Michael — ou à falta deles. E como podemos acreditar que a família é tão importante para o protagonista quando não conhecemos mais facetas da sua mãe e de seus irmãos? O dilema da trama está, enfim, na busca por libertação de um artista e de um filho, o que rende alguma densidade até determinado ponto, mas que não dá sustentação ao filme no geral. Ao dar tanta atenção a isso, Michael termina suas duas horas de duração sem navegar nas tantas possibilidades envolvendo um grande ícone, mesmo no que ele tinha de mais mundano e humano.

Para Jaafar Jackson, sobrinho de Michael na vida real, resta o trabalho de mimetizar o tio, o que ele executa com precisão do ponto de vista técnico. Acontece que, como meu interesse nesse tipo de interpretação reside na alma e na essência, não cheguei a me impressionar, muito em função de Jaafar ter pouco material dramático para revelar uma verdadeira vocação para atuar neste que é o seu primeiro papel no cinema. Ele, junto a Michael como um todo, tem missões árduas para o segundo filme, entre elas, a de dar mais camadas a um personagem que, no primeiro longa, surge deveras plano em uma homenagem aquém de sua grandeza. Se Michael Jackson pensava cada trabalho e aparição para causar impacto ou fazer a diferença como artista, sua cinebiografia deveria, no mínimo, tentar o mesmo, sem medo de assumir riscos. Tenho certeza de que o Rei do Pop concordaria.

Apostas para o Oscar 2026

Hoje é dia de arriscar no bolão e ficar feliz em perder pontos. O motivo? Das categorias principais do Oscar 2026, somente duas têm seus favoritos plenamente posicionados: Paul Thomas Anderson em melhor direção com Uma Batalha Após a Outra e Jessie Buckley em melhor atriz com Hamnet: A Vida Antes de Hamlet. Nas demais, abre-se espaço para diversas conjecturas, como em melhor ator e melhor atriz coadjuvante. Mesmo entre as categorias técnicas, fica no ar a possibilidade de Pecadores surpreender converter em vitórias o seu número recorde de indicações ao prêmio da Academia. E quanto ao Brasil? Vamos sorrir entre algumas das cinco possibilidades que temos de levar a estatueta para casa? A situação é mais difícil do que a do ano passado, mas podemos ter esperança, e deposito a minha em filme internacional.

Abaixo, minhas apostas para todas as categorias:

MELHOR FILME: Uma Batalha Após a Outra / alt: Hamnet: A Vida Antes de Hamlet
MELHOR DIREÇÃO: Paul Thomas Anderson (Uma Batalha Após a Outra) / alt: Ryan Coogler (Pecadores)

MELHOR ATRIZ: Jessie Buckley (Hamnet: A Vida Antes de Hamlet) / alt: Rose Byrne (Se Eu Tivesse Pernas, Eu Te Chutaria)
MELHOR ATOR: Timothée Chalamet (Marty Supreme) / alt: Michael B. Jordan (Pecadores)
MELHOR ATRIZ COADJUVANTE: Teyana Taylor (Uma Batalha Após a Outra) / alt: Amy Madigan (A Hora do Mal)
MELHOR ATOR COADJUVANTE: Sean Penn (Uma Batalha Após a Outra) / alt: Delroy Lindo (Pecadores)
MELHOR ESCALAÇÃO DE ELENCO: Pecadores / alt: O Agente Secreto
MELHOR ROTEIRO ORIGINAL: Pecadores / alt: Valor Sentimental
MELHOR ROTEIRO ADAPTADO: Uma Batalha Após a Outra / alt: Hamnet: A Vida Antes de Hamlet

MELHOR FILME INTERNACIONAL: O Agente Secreto (Brasil) / alt: Valor Sentimental (Noruega)
MELHOR DOCUMENTÁRIO: A Vizinha Perfeita / alt: Mr. Nobody Against Putin
MELHOR ANIMAÇÃO: Guerreiras do K-Pop / alt: Zootopia 2
MELHOR MONTAGEM: Uma Batalha Após a Outra / alt: F1: O Filme
MELHOR FOTOGRAFIA: Pecadores / alt: Uma Batalha Após a Outra
MELHOR DESIGN DE PRODUÇÃO: Frankenstein / alt: Pecadores
MELHOR FIGURINO: Frankenstein / alt: Pecadores

MELHOR TRILHA SONORA: Pecadores / alt: Uma Batalha Após a Outra
MELHOR CANÇÃO ORIGINAL: “Golden” (Guerreiras do K-Pop) / alt: “I Lied to You” (Pecadores)

MELHOR SOM: F1: O Filme / alt: Sirāt
MELHORES EFEITOS VISUAIS: Avatar: Fogo e Cinzas / alt: Pecadores
MELHOR MAQUIAGEM E CABELO: Frankenstein / alt: Pecadores
MELHOR CURTA-METRAGEM: Two People Exchanging Saliva / alt: The Singers
MELHOR CURTA-METRAGEM DE ANIMAÇÃO: Butterfly / alt: The Girl Who Cried Pearls

MELHOR CURTA-METRAGEM DE DOCUMENTÁRIO: All the Empty Rooms / alt: Armed Only With a Camera: The Life and Death of Brent Renaud

Mais de duas décadas depois e agora em dose única, “Kill Bill” está de volta aos cinemas com sangue, adrenalina e… amor!

Sei que, pela proximidade do Oscar, eu deveria estar falando sobre o que a Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood deverá aprontar na cerimônia do próximo domingo (12), mas fui ver Kill Bill: The Whole Bloody Affair no cinema e veio uma vontade incontrolável de falar sobre essa versão unificada de Quentin Tarantino para os dois filmes — Kill Bill: Vol. 1 e Kill Bill: Vol. 2 — lançados em 2003 e 2004, respectivamente. À época, por pressões comerciais e exigências do famigerado produtor Harvey Weinstein, Tarantino precisou dividir em dois o seu longa-metragem então concebido como uma experiência única. A imposição do lançamento nesse formato nunca foi segredo e, agora, mais de 20 anos depois, quando vemos a versão em um só filme, dá para entender o porquê. Ainda que tenham sido aclamados com o mesmo entusiasmo, os dois capítulos de Kill Bill se engrandecem ainda mais quando condensados.

Há, no entanto, um adendo a ser feito: o marketing dá conta de que The Whole Bloody Affair seria uma experiência nova por ter cenas adicionais, o que não é exatamente uma verdade. Com exceção da versão estendida do anime envolvendo a origem da rainha do crime O-Ren Ishii (Lucy Liu), o que se acrescenta são apenas poucos segundos a algumas sequências, como pequenos alívios cômicos na batalha da Noiva (Uma Thurman) com os Crazy 88. A mudança mais significativa se dá em termos de estrutura: enquanto o Vol. 1 terminava com uma grande revelação — pensada, diga-se de passagem, exatamente para estimular o público a ver o Vol. 2 que seria lançado cerca de um ano depois —, The Whole Bloody Affair abre mão dessa sequência para deixar que o público ainda leigo na história descubra o tal segredo junto com a protagonista, somente no terço final, o que fortalece os traços essencialmente dramáticos que a história adota em seus momentos derradeiros.

Em síntese, Kill Bill é sobre uma ex-assassina profissional que, após acordar de um coma de quatro anos, decide se vingar do esquadrão responsável por sua quase-morte e liderado pelo Bill do título. Na divisão da obra, o primeiro volume se apresentava, inegavelmente, como uma obra mais violenta, pop e frenética, enquanto o segundo desacelerava em muitos aspectos, quase como uma antítese do que havíamos visto até então — não à toa, o clímax envolvendo o ato de, enfim, matar Bill (David Carradine) está envolto em diálogos e sentimentos, longe, por exemplo, da sanguinolência e da brutalidade com que todas as outras mortes se deram. A disparidade de estilos afetou, durante muitos anos, o meu envolvimento com a saga da protagonista, pois nunca nutri pela segunda parte o mesmo entusiasmo que eu tinha pela primeira, algo que, hoje, ao me deparar com The Whole Bloody Affair, vejo que foi problema direto da decisão comercial que separou a obra como um todo.

Daqui para frente, contudo, o que ficará na minha memória é a experiência de ter assistido ao filme como ele foi concebido no papel. E é algo que faz toda a diferença, pois, tendo visto todos os acontecimentos de uma tacada só e sem a espera entre um lançamento e outro, os próprios descompassos que eu sentiam se torna uma qualidade. Toda a brutalidade vertiginosa da primeira parte vai gradativamente se tornando mais humana e ramificada em seus propósitos, culminando em uma série de relações interpessoais para lá de tortas e conflituosas, sejam as dos negócios mortais estabelecidos pelo Esquadrão Assassino de Víboras Mortais ou das relações afetivas, começando, claro, pela relação da Noiva com Bill. Em aproximadamente 4h30min, Tarantino desenha as transformações da trama com calma e criatividade, sem usar reviravoltas como meras muletas, mas sim como forma de trazer nuances para vários personagens que não chegamos a conhecer em meio aos deliciosos baldes de sangue e violência do primeiro ato. As horas de The Whole Bloody Affair não se fazem sentir e estão, a todo momento, trabalhando a favor de uma grande construção dramática.

Antes ou depois de Kill Bill, não faltaram reverências a Quentin Tarantino, que levou para casa da Palma de Ouro ao Oscar por filmes como Pulp Fiction e Django Livre. Seu último longa, Era Uma Vez… Em Hollywood rendeu a Brad Pitt todos os prêmios de melhor ator coadjuvante em 2020. Não acho que sua fase mais recente seja das mais interessantes. Pelo contrário: o que não me falta é desinteresse por um Tarantino cujo cinema se tornou consciente demais de si próprio, resultando em trabalhos tão interessantes quanto verborrágicos, como Os Oito Odiados, e cuja persona tem proferido um punhado de bobagens, a exemplo de seu depoimento depreciando, aleatoriamente, o grande desempenho de Paul Dano em Sangue Negro. Nada, contudo, afeta minha admiração por Kill Bill, que considero seu auge como contador de histórias. Em nenhum outro trabalho Tarantino amalgamou ocidente e oriente, samurais e caubóis, sangue e lágrimas ou amor e vingança com tanta disciplina e criatividade, sem fazer de The Whole Bloody Affair uma homenagem genérica a diversos gêneros e cineastas. É trabalho fino e de muitas constelações alinhadas.

Todo esse universo não seria possível sem a presença de outra figura fundamental no processo de concepção de Kill Bill: a atriz Uma Thurman. Mais do que a protagonista, Thurman imaginou a personagem da Noiva junto a Tarantino antes mesmo da concepção do roteiro. E não é só com distância que a imensidão da atriz como a estrela do longa se faz notar: mesmo no lançamento do primeiro volume, a performance de Thurman já se estabelecia como um parâmetro para a posteridade tamanha a sua entrega física e dramática. O tempo só tornou ainda mais icônica uma performance sempre lembrada em Hollywood, como constatado em uma entrevista recente de Charlize Theron. Estrela do também memorável Mad Max: Estrada da Fúria, Theron falou que Uma Thurman em Kill Bill sempre foi a sua “sensei”, o que faz todo sentido comparado tudo o que as duas fizeram de marcante como protagonistas de suas duas obras. Se o Oscar vem quebrando preconceitos com o gênero de terror ao indicar com mais frequência nomes como Demi Moore (A Substância) e Amy Madigan (A Hora do Mal), o próximo passo é rever a relação com o gênero de ação, para que as próximas Uma Thurman e Charlize Theron não sejam mais uma vez também absurdamente ignoradas.

E, não menos importante, ao voltar a Kill Bill, me peguei pensando sobre o quanto a saga também é sobre… Amor! Dos mais tortos, cruéis e mortais, é verdade, mas, ainda assim, amor. Permito-me aqui abraçar o spoiler. Na reta final, a Noiva encontra um antigo conhecido de Bill que, enfim, lhe dará informações sobre onde está aquele que é último alvo da sua lista de vingança. Ao receber a localização com facilidade suspeita, ela questiona a veracidade dos fatos, ao que o personagem responde: “Ele gostaria que eu a ajudasse. Afinal, como a reencontraria novamente?”.  Já é o indício de que o último encontro do filme se dará não com violência, mas sim como o acerto de contas envolvendo uma série de ressentimentos, mágoas e respostas desproporcionais aos rumos tomados por um relacionamento outrora romântico. Não deixa de ser a inversão definitiva de expectativas que Tarantino guarda para uma saga recheada de surpresas por si só e que, entre cenas de ação muitíssimo bem coreografadas e o extremo bom gosto para a seleção de uma coletânea de canções na trilha sonora, acaba sendo, ao fim e ao cabo, sobre como o amor pode ser, ironicamente, um sentimento destrutivo e com muito mais sangue do que um certo coração que explode após ser atingido por uma técnica milenar.

Spirit Awards 2026 tem poucas intersecções com o Oscar — e, por isso mesmo, traz frescor para a temporada de premiações

É raro acontecer, mas, em 2026, o Independent Spirit Awards praticamente não tem intersecção com o Oscar. Se, em anos anteriores, o prêmio mais importante do cinema independente realizado nos Estados Unidos fez dobradinha com a Academia ao consagrar títulos como Anora, Tudo em Todo o Lugar ao Mesmo Tempo, Nomadland e Moonlight na categoria principal, hoje temos um cenário bastante atípico, onde nenhum dos cinco concorrentes ao Spirit Awards de melhor filme aparece no Oscar em qualquer categoria. No mais, apenas cinco títulos são compartilhados pelas duas premiações nas demais categorias técnicas e de interpretação: Sonhos de Trem, O Agente Secreto, Sirāt, A Vizinha Perfeita e Se Eu Tivesse Pernas, Eu Te Chutaria. E isso é demérito? Muito pelo contrário: a seleção, na verdade, traz frescor para uma temporada de premiações cada vez mais abarrotada de associações que, na prática, apesar da pluralidade de origens e vocações, acabam premiando sempre os mesmos concorrentes.

O Dia de Peter Hujar é o filme mais indicado do Spirit Awards 2026.

O líder de indicações deste ano no Spirit Awards é O Dia de Peter Hujar, tradução cinematográfica do diretor Ira Sachs (Passagens, O Amor é Estranho, Deixe a Luz Acesa) para uma conversa gravada em 1974 entre o fotógrafo Peter Hujar (Ben Whishaw, sempre excelente) e a escritora Linda Rosenkrantz (Rebecca Hall). Trata-se de um diálogo sobre 24 horas aparentemente banais na vida de Hujar, artista que se tornou uma das figuras centrais da lendária cena cultural nova-iorquina das décadas de 1970 e 80. A banalidade é aparente porque o relato acaba documentando as movimentações artísticas de uma Nova York em plena efervescência, o que pode ser muito interessante para quem se interessa pelo recorte ou perfeitamente tedioso frente à estrutura adotada. Tudo ocorre em um mesmo espaço, somente com dois atores conversando e gravando diálogos que foram encontrados em fitas na vida real. Há poucas engrenagens cinematográficas em O Dia de Peter Hujar, daí a minha incredulidade com tamanho amor do Spirit Awards pelo resultado final.

Kathleen Chalfant brilha em Toque Familiar.

Pelo menos quatro outros títulos mereciam mais reconhecimento. Começo com Toque Familiar, indicado somente a melhor performance protagonista e ao prêmio John Cassavetes, limitado a obras com orçamento de até um milhão de dólares. A belíssima e delicada performance de Kathleen Chalfant é, por óbvio, o grande destaque, mas como um todo, a diretora Sarah Friedland se sai admiravelmente bem ao não cair nas armadilhas tão tradicionais envolvendo relatos de personagens que se confrontam com a perda da memória e o Mal de Alzheimer na velhice. Tudo é elegante, silencioso e meticulosamente bordado em intimismo. Por falar em discrição, Depois do Fogo, o mais novo trabalho do diretor Max Walker-Silverman, também se ampara na lógica de que menos é mais para abordar uma circunstância familiar aos Estados Unidos em sua história recente: a do cowboy Dusty (Josh O’Connor), que, após ver incêndios florestais tomarem conta de seu rancho, chega a um acampamento tendo que reconstruir sua vida e seus laços. Assim como em Uma Noite no Lago, Walker-Silverman filma a solidão e os recomeços com melancolia e humanidade. A única indicação foi para a coadjuvante Kali Reis, o que em nada reflete a beleza cotidiana do longa.

Ainda na conta dos subestimados, coloco Hedda, adaptação da diretora Nia DaCosta para a famosa peça de 1891 do aclamado dramaturgo Henrik Ibsen. A promessa de que a nova leitura seria cativante e de grande escala, a meu ver, é cumprida: à parte as merecidas indicações para Tessa Thompson e Nina Hoss em performance protagonista e coadjuvante, respectivamente, a obra em si é ambiciosa do ponto de vista técnico e de ideias. Nia DaCosta tem ótimo tino para lidar com a malícia, a insegurança e a ardilosidade das personagens centrais, todas femininas e emolduradas por uma atmosfera instigante que traz, por exemplo, mais um ótimo trabalho da Oscarizada compositora islandesa Hildur Guðnadóttir (Coringa, Chernobyl). E o que dizer sobre O Testamento de Ann Lee, um dos casos mais emblemáticos de campanha mal conduzida nos últimos anos? Um musical de época que poderia ter emplacado múltiplas indicações em todos os prêmios acabou relegado exclusivamente a uma indicação de melhor montagem no Spirit Awards. Ainda que nem sempre o filme de Mona Fastvold convença na mitologia criada em torno da personagem de Amanda Seyfried, é inegável que os outros vários méritos do filme, como a fabulosa trilha de Daniel Blumberg, mereciam muito mais atenção.

Lurker investiga os caminhos tortuosos da obsessão e da falta de identidade.

Tematicamente, percebo aproximação entre vários indicados, caso de Lurker, Twinless e The Plague, que, cada um à sua maneira, versam sobre os caminhos tortos traçados por protagonistas que buscam algum senso de pertencimento, nem que, para tanto, precisem abrir mão de suas histórias verdadeiras para assumir outros papeis. O primeiro adota o tom de suspense e tensão, extraindo excelentes interpretações de Théodore Pellerin e Archie Madekwe, que fazem um duelo não tão velado de pessoas cujas carências e egocentrismos se retroalimentam. Já Twinless é bem sucedido e envolvente ao lidar com as camadas complicadas do luto, aqui visto sob a ótica de um personagem que se aproveita da dor do próximo para, secretamente, conseguir o que precisa para administrar suas próprias feridas emocionais. E, por fim, The Plague pisa no terreno da adolescência – e nos lembra de levantar as mãos do céu para agradecer que só passamos por essa fase uma vez na vida. Jovens podem ser muito cruéis, especialmente diante do diferente, e o diretor Charlie Polinger cria um incômodo palpável ao explorar as possibilidades das crueldades sociais às quais os adolescentes se submetem para encontrar alguma construção de personalidade.

Blue Sun Palace e Lucky Lu também rendem uma sessão conjunta, mas ficam estacionados em um certo lugar-comum. Ambos se debruçam sobre a chegada de personagens asiáticos em Nova York e a extenuante rotina adotada por eles para tentar sobreviver em uma Big Apple pouco amigável aos que vêm de fora. Se os estilos são distintos – Blue Sun Palace tem olhar feminino e subjetivo para o desenvolvimento íntimo de cada figura em cena, enquanto Lucky Lu se agarra à jornada individual de um homem em meio a uma série de adversidades que testam sua resiliência –, os resultados são semelhantes até demais em discursos. Esperava que os dois tivessem mais a dizer sobre a dureza com que os Estados Unidos tratam imigrantes. Ao fim e ao cabo, valem sobretudo pela ótica oriental dada a um viés que é predominantemente encenado a partir da vivência de personagens latinos.

Nick Offerman e Jacob Tremblay são pai e filho no potente Sovereign.

Enquanto isso, Sovereign e A Little Prayer questionam a reverberação paterna na criação dos filhos. O retrato de Sovereign é desolador, no caso, o de Jerry (Nick Offerman), que, declaradamente antigoverno, vê conspiração em tudo o que os Estados Unidos colocam como regra ou lei para a sociedade. Da carteira de habilitação que ele se nega a tirar para poder dirigir às aulas que dá ao próprio filho para não o colocar em uma escola, Jerry cria Joe (Jacob Tremblay) em uma redoma de alienação e negacionismo que, claro, só poderia resultar em tragédia. É um dos meus favoritos entre os indicados ao Spirit Awards 2026 – e, por ser baseado em uma história real, torna-se ainda mais impactante no estudo de uma paternidade falida. Em contraste, A Little Prayer é sensível na busca de um pai para entender como seu filho, um homem que ele criou com retidão e carinho em uma pequena cidade do interior, vem traindo a esposa. Afinal, quais valores são realmente absorvidos de uma geração para outra? Há alguma culpa paterna na traição reiterada do filho? A condução é simples, quase artesanal, característica de um cinema pequeno e independente bastante raro nos dias de hoje.

Para fechar o balanço de títulos assistidos, há Sorry, Baby, do qual gosto muito e já falei aqui; A Longa Marcha: Caminha ou Morra, ótima adaptação da obra homônima de Stephen King cujo elenco recebe o prêmio Robert Altman; a comédia-pastelão Um Dia Daqueles, que coloca duas mulheres negras (Keke Palmer e SZA) no centro de uma divertida história sobre a busca quase impossível pelo dinheiro devido do aluguel até o fim do dia; e O Bom Bandido, sobre a história verídica de um ladrão profissional (Channing Tatum) que encontra um esconderijo numa loja de brinquedos, sobrevivendo por meses sem ser detectado enquanto planeja seu próximo passo. Esses dois últimos talvez sejam mais convencionais se tratando de forma e desenvolvimento, mas, nem por isso deixam de ter brilho próprio, em especial Um Dia Daqueles no que se refere às presenças cativantes de suas duas protagonistas.

A lista completa de indicados ao Spirit Awards pode ser conferida aqui.