Cinema e Argumento

“Três Verões”: brilho habitual de Regina Casé domina mistura de drama e comédia sobre o desmoronamento dos ricos brasileiros

É tanta coisa difícil nessa vida, né?

Direção: Sandra Kogut

Roteiro: Iana Cossoy Paro e Sandra Kogut

Elenco: Regina Casé, Rogério Fróes, Otávio Müller, Gisele Fróes, Jéssica Ellen, Daniel Rangel, Vilma Mello

Brasil/França, 2019, Comédia/Drama, 93 minutos

Sinopse: ​A cada verão, entre Natal e Ano-Novo, o casal Edgar e Marta recebe amigos e familiares na sua mansão espetacular à beira-mar. Em 2015 tudo parece ir bem, mas em 2016 a mesma festa é cancelada. O que acontece com aqueles que gravitam em torno dos ricos e poderosos quando a vida deles desmorona? Através do olhar de uma empregada e de um velho patriarca, ambos vítimas do sonho neoliberal, vemos um retrato do Brasil contemporâneo.​

Um carinho em meio a tempos tão difíceis no Brasil e no mundo, a iniciativa do Espaço Itaú de Cinema de viabilizar por streaming, ainda que em tempo limitado, a exibição de filmes brasileiros inéditos, muitos deles previstos para estrear nos meses sufocados pela pandemia do Coronavírus, trouxe na programação títulos para todos os gostos e outros tantos que vinham despertando grande curiosidade. Um deles é Três Verões, mistura de drama e comédia dirigida por Sandra Kogut que teve sua primeira exibição mundial na mostra World Contemporary Cinema do Festival de Toronto em 2019. Antes de qualquer coisa, julgo fundamental fazer uma ampla defesa para esse longa já nas linhas gerais de sua proposta: ao contrário do que comparações simplistas podem apontar, Três Verões não traz a brilhante Regina Casé se repetindo no papel de uma mulher humilde que presta serviços domésticos para uma família rica. Reduzir a performance de Regina, bem como as discussões de Três Verões em si, a uma reciclagem da inesquecível Val de Que Horas Ela Volta? ou da adorável Lurdes da novela Amor de Mãe é um desserviço à atriz e à experiência proporcionada pelo novo trabalho de Sandra Kogut.

Ao lado de Iana Cossoy, a diretora criou um roteiro estruturado, como o título indica, em três tempos. Sempre às vésperas das festas de Natal e Ano Novo, Madá (Regina Casé) vê o desmoronamento moral e financeiro da família rica que paga o seu salário, a partir de fatos não exatamente explicitados para o espectador, mas claros o suficiente para que se compreenda o quanto tudo parte de ações da Operação Lava-Jato. Fragmentar os acontecimentos entre três recortes pontuais surte efeito positivo, fazendo de Três Verões um filme muito fluido e agradável de se acompanhar, onde a trama sempre desperta curiosidade pelo que está por vir logo quando vemos o letreiro anunciando a chegada de um verão diferente. Uma discussão, no entanto, define o centro dramático de Três Verões, inclusive a cada salto temporal: a de como ainda vivemos tempos em que a vida dos empregados é diretamente definida pela vida de quem paga seus salários em quase todos os sentidos. Isso quer dizer que, na medida em que Edgar (Otávio Muller) se vê em maus lençóis, é questão de pouquíssimo tempo para que Madá também tenha muitos dos seus seus sonhos e recursos confiscados.

A título de comparação temática, se Que Horas Ela Volta? mostrava um Brasil em que pessoas de origem humilde já conseguiam dar um grito de independência e escrever capítulos importantes de sua história sem depender dos patrões, Três Verões registra o retrocesso vivido pelo Brasil nos últimos anos, onde toda a vida de uma empregada é empurrada para dentro do redemoinho de trambiques provocado pelo provedor de seu salário. De mãos atadas e sem ter para onde ir, ela passa a buscar formas de se sustentar, fazendo também do filme de Kogut uma divertida carta de amor ao poder de reinvenção de uma classe batalhadora. Confinada na mansão sem os patrões, Madá faz alguns bazares, aluga quartos da casa em um Airbnb e arruma outras maneiras de sustentar minimamente essa mansão agora decadente onde tantos outros empregados aguardam salários cada vez mais atrasados. E aí Três Verões se torna delicioso e divertido de se acompanhar, encontrando graça e bom humor em momentos super cotidianos, todos ligados à doce humildade de pessoas que aprenderam desde sempre a lidar com as adversidades da vida.

Entre esses momentos, Kogut aproveita para cultivar aqui e ali símbolos muito pertinentes à história, como o pato inflável que flutua na piscina da família rica e que, na vida real, foi símbolo das manifestações contra o governo da ex-presidente Dilma Rousseff. É possível deduzir muito sobre os patrões ausentes com apenas esse detalhe. Aliás, chama a atenção como Três Verões tem todo o desenrolar da trama ligado a personagens que aparecem muito pouco, mas que conhecemos o bastante, inclusive porque Otávio Müller é um expert em interpretar homens comuns definidos pela mediocridade de seus atos. Contudo, por alguma razão, o filme nunca chega a criar a mesma musculatura vista em tantos outros títulos brasileiros, mais alegóricos ou não, que se assemelham a ele na questão de registrar um momento recente do Brasil. Sim, Três Verões é divertido de acompanhar, combina esperteza e uma linguagem acessível para agradar diversas plateias e tem uma estrutura bem trabalhada, mas talvez tenha um certo descompasso ao criar involuntariamente uma protagonista maior do que a própria história.

A ênfase no involuntário se faz necessária porque Madá ganha contornos luminosos no desempenho mais uma vez milagroso de Regina Casé. É impressionante como Regina tem o talento de se aproximar do espectador. Sua habilidade em observar aspectos cotidiano do povo brasileiro — a pose, os costumes, o temperamento, o humor — é uma fonte inesgotável de criação, e por isso mesmo fiz questão de começar esse texto reforçando a importância de percebermos o quanto Madá, Val e Lurdes são mulheres tão distintas. Ao encapsular a força do humor como ferramenta para traduzir e refletir vidas, ela, além de divertir, prepara o terreno para um momento inesperado de dor ao final de Três Verões, onde, em um monólogo, Madá revela um passado sofrido e muito diferente desses dias em que aprendemos a rir com ela. Somente a mistura entre drama e comédia traz um impacto fascinante e repentino como esse. Regina Casé brilha absoluta no longa de Sandra Kogut, que estende o tapete para atriz sem pensar duas vezes, ainda que isso não dê muito espaço para que Três Verões expanda outras de suas potenciais qualidades. 

Não tem na Netflix: 20 ótimos filmes para serem assistidos em diferentes plataformas de streaming

Se existe uma habilidade que perdi nos últimos anos foi a de responder a pergunta “tem um filme pra me indicar?”. E não é porque não tenho filmes para indicar, mas porque, além dos filtros habituais que devem ser considerados para cada pessoa, agora existe a famosa réplica: “tem na Netflix?”. E nunca sei dizer, pois não sou assinante da plataforma (recorro à conta de um amigo sempre quando desejo ver algo isoladamente), e fico de certa forma triste quando vejo as pessoas perdendo a chance de ver um grande filme simplesmente porque não está disponível por lá.

Durante esse período de isolamento, tirei um tempinho para desbravar outras plataformas e compilar dicas de excelentes filmes, todos disponíveis não na Netflix, mas em outras plataformas de streaming. Vejam bem, acho que Netflix faz um lindo trabalho ao redimensionar a popularização do cinema e das séries, mas é sempre muito importante, assim como na TV, por exemplo, o incentivo à pluralidade e não ao monopólio. Não podemos nos limitar. Ou seja, para quem deseja buscar outras alternativas e circuitos, espero que a listinha abaixo seja um bom incentivo.

P.S.: Quando terminei a seleção, imediatamente me dei conta de que somente dois longas levam a assinatura de diretoras mulheres. Uma falha terrível de minha parte. Para compensar esse tremendo equívoco, deixo como dica algumas postagens do Mulher no Cinema, site que celebra o trabalho das mulheres nas telas. A primeira traz dicas de filmes assinados por sete grande diretoras que estão disponíveis no streaming do Telecine. Já as demais, elencam os filmes dirigido por mulheres que chegaram em diferentes plataformas nos meses de janeiro, fevereiro, março e abril

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Dois Dias, Uma Noite, de Jean-Pierre e Luc Dardenne

GLOBOBLAY

120 Batimentos Por Minuto (2017), de Robin Campillo

Sinopse: França, início dos anos 1990. O grupo ativista Act Up está intensificando seus esforços para que a sociedade reconheça a importância da prevenção e do tratamento em relação a AIDS. Recém-chegado ao grupo, Nathan (Arnaud Valois) logo fica impressionado com a dedicação de Sean (Nahuel Pérez Biscayart), apesar de seu estado de saúde cada vez mais delicado.

Por que assistir? É o raro tipo de história que funciona ao misturar o registro quase documental de um movimento verídico (o Act Up, criado para exigir do governo medidas de prevenções contra a AIDS) e a jornada muito íntima e dolorosa de um personagem diagnosticado com a doença. Trata-se de uma sessão difícil, equivalente a um soco no estômago, mas com uma discussão muito bonita e, como podemos constatar ainda hoje, sempre muito urgente.


Acima das Nuvens (2014), de Olivier Assayas

Sinopse: Maria Enders (Juliette Binoche) é uma famosa atriz que fica perturbada com o fato de que JoAnn (Chloë Moretz), jovem estrela de Hollywood, irá interpretar o papel que a fez famosa há vinte anos. Convidada a dividir o palco com a novata, uma insegura Enders viaja até os Alpes para ensaiar e conta com o apoio de sua assistente (Kristen Stewart) no confrontamento com seu passado.

Por que assistir? La Binoche está em um de seus melhores papeis recentes, e isso já seria o suficiente para justificar a espiada, mas Acima das Nuvens também transformou de vez a carreira de Kristen Stewart, que, aqui, finalmente se firmou como uma das atrizes mais interessantes de sua geração. O diretor Sem nunca soar erudito ou ininteligível, o diretor Olivier Assayas é espetacular ao misturar a linguagem cinematográfica e teatral, explorando com fascínio duas personagens femininas muito complexas e refletindo sobre processos artísticos, aqui representados no ofício da interpretação.


Mapas Para as Estrelas (2014), de David Cronenberg

Sinopse: Agatha Weiss (Mia Wasikowska) acabou de chegar a Los Angeles e logo conhece Jerome Fontana (Robert Pattinson), um jovem motorista de limusine que sonha se tornar ator. Não demora muito para que ela comece a trabalhar para Havana Segrand (Julianne Moore), uma atriz decadente que está desesperada para conseguir o papel principal da refilmagem de um sucesso estrelado por sua mãe, décadas atrás. Paralelamente, o garoto Benjie Weiss (Evan Bird) enfrenta problemas ao lidar com seu novo colega de elenco. 

Por que assistir? Com esse filme, Julianne Moore completou a sua trinca de consagrações nos festivais de cinema mais importantes do mundo, levando o prêmio de melhor atriz em Cannes (ela já havia vencido Berlim por As Horas e Veneza por Longe do Paraíso). Ácido e provocador, o filme de David Cronenberg carrega o DNA dos melhores trabalhos da carreira da atriz, propondo uma viagem bastante crítica por uma Hollywood vista aqui essencialmente como indústria — e, por isso mesmo, tão viciada, destrutiva e ilusória.


Ausência (2014), de Chico Teixeira

Sinopse: Serginho (Matheus Fagundes) é um menino de 14 anos muito mais maduro que os outros jovens de sua idade. Ele cuida de seu irmão mais novo, Wiliam, e de sua mãe ausente e alcoolatra, Luzia. O único adulto com quem Serginho tem um relacionamento de afeto é o professor Ney, que o ajuda com o dever de casa durante à noite. A confusão entre o despertar de sua sexualidade e a busca de uma figura paterna faz Serginho perceber que ele está sozinho no mundo.

Por que assistir? Foi o último longa-metragem do cineasta Chico Teixeira, falecido em dezembro do ano passado, e talvez o seu mais marcante. Agraciado no Festival de Cinema de Gramado com os prêmios de melhor filme, direção, roteiro e trilha sonora, o drama retrata o cotidiano desolador de seu protagonista focando na maneira íntima e introspectiva com que ele lida com tanto desamparo e solidão. É um bonito e tocante relato sobre um garoto que a vida insiste em tornar adulto antes da hora.


Dois Dias, Uma Noite (2014), de Jean-Pierre e Luc Dardenne

Sinopse: Após se afastar do trabalho por conta da depressão, Sandra (Marion Cotillard) perde seu emprego pois outros trabalhadores da fábrica preferiram receber um bônus ao invés de mantê-la na equipe. Ela descobre que alguns de seus colegas foram persuadidos e abraça uma tarefa complicada para o final de semana: visitar os colegas de trabalho e convencê-los a abrir mão de seus bônus para que possa manter o seu emprego.

Por que assistir? Se não fosse por Piaf – Um Hino ao Amor, essa certamente seria a melhor interpretação da bela carreira de Marion Cotillard. Aqui ela está sem uma grama de maquiagem para dar vida à protagonista de um filme naturalista, falado em francês, resumido a diálogos e que é tanto o humano retrato de uma mulher enfrentando a depressão quanto uma provocadora análise sobre a hipocrisia, o individualismo e mercantilização das relações trabalhistas. É o combo perfeito: uma atriz espetacular à frente de um filme cuja trama fornece todas as ferramentas para que ela possa brilhar.

Tully, de Jason Reitman

AMAZON PRIME

Trama Fantasma (2017), de Paul Thomas Anderson

Sinopse: Década de 1950. Reynolds Woodcock (Daniel Day-Lewis) é um renomado e confiante estilista que trabalha ao lado da irmã, Cyril (Lesley Manville), para vestir grandes nomes da realeza e da elite britânica. Sua inspiração surge através das mulheres que constantemente entram e saem de sua vida. Mas tudo muda quando ele conhece a forte e inteligente Alma (Vicky Krieps), que vira sua musa e amante.

Por que assistir? Para investigar os vícios e os malefícios das relações amorosas, Paul Thomas Anderson cria dois protagonistas fascinantes justamente por serem tão opostos e difíceis. Daniel Day-Lewis, no último filme antes de sua aposentadoria, tem em Vicky Krieps uma companheira de tela à altura, e ambos redimensionam os inúmeros significados dessa obra elegantíssima que, entres outros tantos pontos brilhantes, ainda tem uma interpretação irretocável da coadjuvante Lesley Manville e uma trilha hipnotizante de Jonny Greenwood.


Precisamos Falar Sobre o Kevin (2011), de Lynne Ramsay

Sinopse: Eva (Tilda Swinton) mora sozinha e teve sua casa e carro pintados de vermelho. Maltratada nas ruas, ela tenta recomeçar a vida com um novo emprego e vive temorosa, evitando as pessoas. O motivo desta situação vem de seu passado, da época em que era casada com Franklin (John C. Reilly), com quem teve dois filhos: Kevin e Lucy. Seu relacionamento com o primogênito, Kevin, sempre foi complicado, desde quando ele era bebê. Com o tempo a situação foi se agravando mas, mesmo conhecendo o filho muito bem, Eva jamais imaginaria do que ele seria capaz de fazer.

Por que assistir? Poucos crimes da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood foram tão indesculpáveis dos anos 2000 para cá quanto o esquecimento de Tilda Swinton na disputa pelo Oscar de melhor atriz em 2012. Melhor do que todas as concorrentes daquele ano, Tilda é um assombro nesse conto perturbador sobre a difícil relação de uma mãe com o filho que, no fundo, ela nunca quis ter. Lynne Lamsay adapta o best-seller homônimo de Lionel Shriver com liberdade e identidade, navegando da maternidade à psicopatia em uma obra dramaticamente assustadora.


A Garota Ideal (2007), de Craig Gillespie

Sinopse: Lars Lindstrom (Ryan Gosling) é um homem tímido e introvertido que vive na garagem de seu irmão mais velho. Lars apenas acompanha o desenrolar de sua vida, sem se mexer para algo. Até que um dia ele encontra Bianca, uma missionária religiosa, através da internet. O problema é que para as pessoas Bianca não é alguém real, mas a réplica de uma mulher, feita de silicone. Só que Lars acredita piamente que ela é um ser humano, o que faz com que se torne seu apoio emocional.

Por que assistir? É uma das interpretações menos lembradas da carreira de Ryan Gosling, mesmo sendo, possivelmente, o seu momento mais interessante. Conhecendo a carreira de Craig Gillespie (Eu, Tonya e diversos episódios da série United States of Tara com Toni Collete), já é possível prever que essa não será uma sessão comum. E a impressão se confirma: comédia e drama se misturam em um filme que renega convenções e que investiga a nossa (in)capacidade de ressignificar a compreensão, a superação e aceitação.


Tully (2018), de Jason Reitman

Sinopse: Marlo (Charlize Theron), mãe de três filhos, sendo um deles um recém-nascido, vive uma vida muito atarefada, e, certo dia, ganha de presente de seu irmão: uma babá para cuidar das crianças durante a noite. Antes um pouco hesitante, Marlo acaba se surpreendendo com Tully (Mackenzie Davis).

Por que assistir? Pouco se falou sobre esse belo e singelo filme de Jason Reitman que atesta sua maturidade cada vez maior como observador da vida urbana. Dessa vez, novamente acompanhado da roteirista Diablo Cody (em seu melhor texto), ele explora a maternidade a partir de tudo o que ela pode trazer de mais cansativo. Claro que ele não abandona a beleza proporcionada pela chegada de um filho, mas o viés é outro: cansada, sem vaidade e sempre enrolada em uma rotina caótica, a Margo de Charlize Theron mostra como a maternidade pode ser um dos momentos mais solitários e exaustivos da vida de uma mulher. Tudo muito real, agridoce e com um desempenho excepcional de Charlize.


Sem Fôlego (2017), de Todd Haynes

Sinopse: Gunlint, Minnesota, 1977. Ao atender um telefonema, o garoto Ben (Oakes Fegley) é atingido pelo reflexo de um raio, que caiu bem em sua casa. Esta situação faz com que seja levado a um hospital em Nova York, onde descobre que não consegue mais ouvir um som sequer. Em 1927, a jovem surda Rose (Millicent Simonds) foge de sua casa em Nova York para encontrar sua mãe, a consagrada atriz Lillian Mayhew (Julianne Moore). A vida destes dois garotos que não conseguem mais ouvir está interligada a partir de um livro de curiosidades que os leva ao Museu de História Natural.

Por que assistir? Logo após ter conquistado o coração de incontáveis plateias mundo afora com Carol, o diretor Todd Haynes realizou essa fábula que passou despercebida pelo circuito comercial e que dividiu opiniões entre os críticos. Ainda que imperfeito, Sem Fôlego ganha pontos por não ser um filme acomodado e que constrói tudo com ritmo e personalidade próprios. Bem diferente do cinema fantástico, ritmado e comercial que, inevitavelmente, a sua promoção sugere, o longa coloca dois personagens na linha de frente para examinar a busca de cada um por algum tipo de pertencimento. Vale pela parte técnica, por seu universo particular e pela comovente participação especial de Julianne Moore

Desobediência, de Sebastián Lelio

HBO GO

Até o Fim (2013), de J.C. Chandor

Sinopse: Um navegador experiente (Robert Redford) está viajando pelo Oceano Pacífico, quando uma colisão com um contâiner leva à destruição parcial do veleiro. Ele consegue remendar o casco, mas terá a difícil tarefa de resistir às tormentas e aos tubarões para sobreviver, além de contar apenas com mapas e com as correntes marítimas para chegar ao seu destino.

Por que assistir? Espécie de Gravidade em alto-mar, Até o Fim é a jornada solo e sem diálogos de um homem que, após perder tudo (não sabemos exatamente o quê nem como), passa a encarar a vida como uma penitência. Ao invés de ser simplesmente uma aventura de sobrevivência, tudo é reinterpretado a partir da forma como o protagonista encara tudo o que vive. No rosto envelhecido de Robert Redford e em sua interpretação minimalista, encontramos um homem que, ao se deparar com tormentas e naufrágios parece seguir em frente por acreditar que, através deles, encontrará algum tipo de redenção. Quase nada é dito e respostas não são dadas, mas, ainda assim, tudo parece devidamente preenchido. 

Boogie Night – Prazer Sem Limites (1997), de Paul Thomas Anderson

Sinopse: Eddie Adams (Mark Wahlberg) é um jovem de 17 anos sexualmente bem-dotado. Ele é descoberto por Jack Horner (Burt Reynolds), um diretor veterano que o transforma em Dirk Diggler, uma celebridade da subcultura do mundo pornô no apogeu dos anos 70. O sucesso faz com que Eddie se envolva no mundo das drogas e a súbita fama pode ter seu preço.

Por que assistir? Segundo longa-metragem de Paul Thomas Anderson, Boogie Nights é um filme para maiores porque, claro, fala sobre a indústria pornográfica, mas porque pisa no acelerador para mostrar toda a turbulência de uma indústria cujos bastidores eram cercados por muito sexo, música e drogas. Exatamente como viria a fazer logo em seguida no também cultuado Magnólia, PTA cria um mosaico de personagens muito fortes e distintos. Temos destaques pontuais no elenco (minha favorita é Julianne Moore, como uma atriz pornô que luta pela guarda dos filhos), mas Boogie Nights é redondinho, além de muito pop (não deixem de revisitar a trilha sonora sempre que possível) e afinado com o melhor do cinema dos anos 1990.

Desobediência (2017), de Sebastián Lelio

Sinopse: A fotógrafa Ronit (Rachel Weisz) retorna para a cidade natal pela primeira vez em muitos anos em virtude da morte do pai, um respeitado rabino. Seu afastamento foi bastante abrupto e o reaparecimento é visto com desconfiança na comunidade, mas ela acaba acolhida por um amigo de infância (Alessandro Nivola), para sua surpresa atualmente casado sua paixão de juventude, Esti (Rachel McAdams).

Por que assistir? Depois de realizar pérolas como Gloria Uma Mulher Fantástica, o diretor chileno foi para os Estados Unidos realizar seu primeiro longa-metragem em língua inglesa. O interessante é que, ao contrário do que costuma acontecer com diretores “estrangeiros” que estreiam em Hollywood, Sebastián Lelio continua muito fiel a sua identidade como realizador, tocando em conflitos clássicos como o da religião versus homossexualidade sem o menor resquício de estereótipos ou apelações. Desobediência é uma obra sóbria e discreta, o que potencializa a relação tão intensa mas silenciosa das protagonistas, interpretadas com excelência por Rachel Weisz e Rachel McAdams.

Eu, Meu Irmão e Nossa Namorada (2007), de Peter Hedges

Sinopse: Dan Burns (Steve Carell) é um pai viúvo de três garotas que escreve uma coluna periódica em jornal onde compreende e resolve os problemas dos outros. Quando sai de férias com a família ele conhece Marie (Juliette Binoche), uma mulher inteligente e simpática por quem se apaixona. Só que, já na casa de praia e cercado por familiares, Dan descobre que Marie é a nova namorada de seu irmão mais novo, Mitch (Dane Cook), que diz estar profundamente apaixonado por ela.

Por que assistir? Juliette Binoche fazendo par romântico com Steve Carell? E com um ótimo elenco de coadjuvantes formado por Dianne Wiest, Amy Ryan, Allison Pill e John Mahoney? Pois Eu, Meu Irmão e Nossa Namorada aproveita é mesmo um filme tocante e bem interpretado. Também é trágico e cômico nas mesmas proporções (o protagonista se apaixona logo pela namorada do irmão após anos de luto!), como vários dos melhores papeis de Steve Carell, um grande ator especialista em personagens dessa natureza. É uma comédia com toques de melancolia e que encontra profundidade na leveza, algo difícil de construir. 

Guerreiro (2011), de Gavin O’Connor

Sinopse: Tommy Conlon (Tom Hardy) é o filho mais novo de Paddy (Nick Nolte) e voltou há pouco tempo para casa. Tommy supera os problemas do pai com bebida e passa a treinar com ele para poder participar de campeonatos de MMA (Mixed Martial Arts), o famoso vale-tudo. Só que sua trajetória faz com que tenha que enfrentar no ringue Brendan Conlon (Joel Edgerton), seu próprio irmão.

Por que assistir? Em sua premissa, Guerreiro exala masculinidade ao falar sobre dois irmãos envolvidos com a prática MMA. No entanto, o filme de Gavin O’Connor só tem a casca grossa. Por dentro, é capaz de fazer qualquer marmanjo se emocionar. As lutas e a testosterona são, na realidade, mero pano de fundo para uma história sobre cicatrizes familiares e sobre dos irmãos diferentes, distantes e abandonados por um pai alcoolista. Os dramas são clássicos, e Guerreiro não se preocupa muito em se distanciar dessa ideia, o que não é desculpa para que o longa se afunde em melodramas. Pelo contrário: Gavin O’Connor dirige com firmeza e encontra em Joel Edgerton, Tom Hardy e Nick Nolte a dinâmica perfeita para encontrar a emoção de almas frágeis em meio aos socos e pontapés de homens musculosos.

Minha Vida de Abobrinha, de Claude Barras

NOW

Luce (2019), de Julius Onah

Sinopse: Luce (Kelvin Harrison Jr.) é um jovem brilhante, além de ser muito estudioso, campeão em debates e um excelente atleta. Tudo isso faz com que seus pais adotivos (Naomi Watts e Tim Roth) sejam muito orgulhosos. No entanto, a professora de Lucas, Harriet (Octavia Spencer), descobre um artigo político escrito por ele que revela traços obscuros de sua personalidade desencadeando uma série de situações negativas na vida de todos os envolvidos.

Por que assistir? Para quem gostou de Dúvida, o provocador Luce é uma excelente pedida. Novamente, está em jogo a índole de personagens que, a partir de um acontecimento específico não encenado pelo filme, acabam se confrontando para provar sua própria inocência ou sanidade. Dessa vez, discussões raciais, sociais e familiares dos Estados Unidos se espalham pela trama, sem tons panfletários, instiganto tanto os personagens do filme que frequentemente oscilam suas opiniões diante dos fatos quanto o espectador que, sem ter a exatidão de cada motivação, se vê encurralado a não tomar nada como certo. Importante: Octavia Spencer está melhor aqui do que em qualquer indicação que já recebeu ao Oscar.

Bixa Travesty (2018), de Claudia Priscilla e Kiko Goifman

Sinopse: O corpo político de Linn da Quebrada, cantora transexual negra, é a força motriz desse documentário que captura a sua esfera pública e privada, ambas marcadas não só por sua presença de palco inusitada, mas também por sua incessante luta pela desconstrução de esteriótipos de gênero, classe e raça. 

Por que assistir? Caso você se considere uma pessoa desconstruída, espere até ver um show de Linn da Quebrada. E se você não tiver a oportunidade, talvez Bixa Travesty seja o suficiente para constatar que, apesar dos avanços, precisamos sempre discutir muito sobre raça, corpo e sexualidade. Com tamanha força, Linn acaba sendo maior do que Bixa Travesty em si, um documentário totalmente entregue a sua personagem. Isso não chega a ser um problema quando a personagem é de fato forte e interessante como acontece aqui, o que acaba fazendo com que o documentário só abra ainda mais os nossos horizontes.

As Herdeiras (2018), de Marcelo Martinessi

Sinopse: Chela (Ana Brun) e Chiquita (Margarita Irún), herdeiras de famílias abastadas do Paraguai, vivem da venda de seus bens. Quando Chiquita acaba presa por dívidas jamais acertadas, a até então submissa e reclusa Chela precisa se virar e começa por acaso a prestar serviço para um grupo de senhoras ricas como motorista. Logo a nova realidade, e especialmente a exuberante Angy (Ana Ivanova), a quem conhece durante o trabalho, afetam os interesses, prioridades e atitudes da taxista amadora.

Por que assistir? Representante do Paraguai na disputa por uma vaga ao Oscar de melhor filme internacional em 2019, As Herdeiras varreu o 46º Festival de Cinema de Gramado, onde levou, entre seis categorias, a rara tríplice coroa de melhor filme pelos júris oficial, popular e da crítica. Merecidíssimo, tendo em vista que o longa de Marcelo Martinessi é um delicado mergulho na autodescoberta — afetiva, sexual, emocional — de uma mulher nos seus 60 anos. O trio principal de atrizes é maravilhoso, mas Ana Brun é um show à parte, com uma atuação tão contida quanto imensa.

45 Anos (2015), de Andrew Haigh

Sinopse: Kate (Charlotte Rampling) está planejando a festa de comemoração dos 45 anos de casada. Porém, cinco dias antes do evento, o marido recebe uma carta: o corpo de seu primeiro amor foi encontrado congelado no meio dos Alpes Suíços. A estrutura emocional dele é seriamente abalada e Kate já não sabe se vai ter o que comemorar durante a festa.

Por que assistir? Em seus melhores momentos, o diretor Andre Haigh é um exímio observador de relacionamentos amorosos mais cotidianos. Foi assim com Weekend, seu primeiro longa-metragem, centrado no fim de semana romântico de dois personagens gays, e depois com o espetacular 45 Anos, que acompanha a semana em que um casal já na terceira idade prepara a sua festa de 45 anos de matrimônio. Dizer que Charlotte Rampling é uma força da natureza nesse filme não é o suficiente, uma vez que o próprio 45 Anos acompanha a grandeza de sua protagonista: em detalhes, Haigh analisa o efeito que o tempo causa nas relações e o quanto elas nos definem para o bem e para o mal. Assombroso.

Minha Vida de Abobrinha (2016), de Claude Barras

Sinopse: Apelidado Abobrinha, Icare, um sensível menino de nove anos, é deixado pela polícia em um orfanato depois que sua mãe falece. Deslocado neste novo universo, ele aos poucos começa a se relacionar com as outras crianças e descobre o significado de amizade e confiança.

Por que assistir? Céline Sciamma, a diretora de Tomboy Retrato de Uma Jovem Chamas, é coautora do roteiro dessa delicada animação francesa que chegou a concorrer ao Oscar. Apesar dos personagens carismáticos e do adorável visual, não estamos falando, entretanto, de um trabalho tematicamente destinado às crianças. Aliás, tudo é bastante adulto: ambientado em um orfanato, Minha Vida de Abobrinha fala sobre a vida de crianças criadas por pais acoolistas e abusivos ou então abandonadas por eles. Sem conhecer o real significado de amor e companheirismo, elas encontram a generosidade ao serem unidas pelas histórias trágicas que compartilham. É de cortar o coração, mas também capaz de deixar um esperançoso sorriso no rosto.

“Clemency”: vencedor de Sundance, drama sobre as reverberações do corredor da morte faz Alfre Woodard brilhar absoluta

I do my job.

Direção: Chinonye Chukwu

Roteiro: Chinonye Chukwu

Elenco: Alfre Woodard, Richard Schiff, Aldis Hodge, Wendell Pierce, Danielle Brooks, Michael O’Neill, Richard Gunn, LaMonica Garrett, Vernee Watson, Dennis Haskins, Alex Castillo, Alma Martinez, Michelle C. Bonilla

EUA, 2019, Drama, 112 minutos

Sinopse: A diretora (Alfre Woodard) de uma prisão de segurança máxima para homens é confrontada com seus próprios demônios psicológicos e emocionais, quando desenvolve um vínculo com o prisioneiro (Aldis Hodge) no corredor da morte que ela está programada para executar. (Adoro Cinema)

A primeira cena de Clemency, filme que venceu o Festival de Sundance em 2019, é muito impactante. Nela, Bernardine Williams (Alfre Woodard) cumpre os protocolos habituais daquela que é uma das tarefas mais recorrentes de seu cotidiano profissional: executar presidiários condenados à pena de morte. Dessa vez, entretanto, o destino parece dizer alguma coisa: os médicos não encontram uma artéria apropriada no braço para injetar o líquido que levará o homem em questão à morte. Também não encontram no pé. Até que, a muito custo, localizam a artéria femoral, situada ao longo das coxas. Algo segue dando errado: o homem começa a ter uma espécie de convulsão, e sangue passa a escorrer da artéria onde está sendo injetado o líquido fatal. Nada, no entanto, evita o óbito do condenado, mesmo com um ritual problemático e tão traumático que parecia um presságio para algum tipo de reviravolta.

Claro que toda a circunstância é inegavelmente perturbadora, mas a sequência incomoda pela expressão indecifrável, rígida e esvaziada de Bernardine naquele momento. Como a diretora de um corredor da morte, ela está acostumada a executar pessoas e enxerga tudo aquilo apenas como uma profissão, excluindo da equação o fator humano ou a brutalidade de um sistema punitivo tão tortuoso como o dos Estados Unidos. Realmente é possível alguém viabilizar um punhado de execuções com alguma naturalidade? Quantos óbitos dessa natureza um ser humano precisa testemunhar para tratar essa tarefa como mais uma entre tantas outras de uma checklist profissional? Também cito essa cena específica, pois é dela que nascem as duas abordagens fundamentais para compreender e discutir Clemency.

A primeira é hipnotizante: a do filme como estudo de caso de uma personagem. E não qualquer personagem, mas uma mulher negra bem sucedida e de personalidade, responsável por um setor onde só circulam homens. A rigidez com que Bernardine coordena o corredor da morte é abalada quando ela recebe a notícia de que, em virtude dos problemas ocorridos na execução do mais recente condenado, uma investigação acerca desse trabalho será conduzida no presídio. Mais importante do que isso, o assunto passa a repercutir dentro e fora do local, e Bernardine, talvez pela primeira vez afetada pela natureza da sua profissão, começa gradualmente a ter problemas de sono, a frequentar bares com maior frequência e a se tornar uma pessoa cada vez mais impenetrável. É um turbilhão interno de emoções muito discreto, sem o mínimo traço de obviedade.

Já o segundo recorte é menos sutil e contundente: aquele que leva Clemency para uma discussão sobre os dilemas e as contradições da pena de morte. Tal abordagem é desenhada com propriedade mulher e negra, a diretora Chinonye Chukwu é efetiva ao dosar dilemas íntimos e coletiva dentro desse contexto marcado por discussões raciais , mas o que não funciona é a atenção excessiva a uma subtrama onde acompanhamos a trajetória emocional de um presidiário negro que, supervisionado por Bernardine e defendido por um advogado em conflito com sua profissão, tem a esperança de conseguir escapar da execução. A subtrama tira a harmonia do filme porque corta tempo de tela da hipnotizante protagonista e porque, apesar dos comentários sociais e das reflexões que busca trazer, o personagem simplesmente não desperta o devido interesse.  

Sem fazer da história um relato de emoções mais clássicas e lacrimosas como Os Últimos Passos de Um Homem ou À Espera de Um Milagre, dois célebres títulos também ambientados em um corretor da morte, Clemency se apropria da rigidez da protagonista como parte de sua própria personalidade como filme. Faz sentido e funciona: na medida em que Bernardine ferve um punhado de sentimentos tempestuosos, a diretora não deixa que as eventuais angústias e desesperos da protagonista se traduzam em diálogos espetaculosos ou em conflitos hiperbólicos. Mesmo o casamento desgastado de Bernardine, que poderia ser considerada a faceta mais tradicional da trama, é desenvolvido uma dinâmica muito particular entre o casal. O próprio fato de ela ter que lidar diariamente com a morte também não é o fim do mundo, algo pouco habitual em longas dessa temática.

Ao alternar entre a história da protagonista e a jornada do detento que está prestes a ser executado, Clemency, ao invés de se complementar, resulta indeciso entre a vontade de ser o íntimo conto de uma mulher bastante particular e a reflexão acerca do sistema prisional estadunidense. Do micro ao macro, o filme se desencontra com frequência, mas acaba sempre voltando para aquilo que eleva a sua potência: Alfre Woodard. Solenemente ignorada na última temporada de premiações, inclusive pelas associações de críticos que costumam garimpar desempenhos fora da curva como esse, Alfre é uma gigante em cena. Com uma presença pulsante, ela é enigmática e transparente nas mesmas proporções para o espectador, canalizando uma imensidão de sentimentos em um desempenho milimétrico e também muito livre em criações e sentimentos. Em suma, Clemency tem sim suas virtudes, mas, no frigir dos ovos, o show é todo (e somente) de Alfre.

Rapidamente: “E Então Nós Dançamos”, “O Homem Invisível”, “As Panteras” e “Vida Selvagem”

Exibido na Quinzena dos Realizadores do Festival de Cannes, E Então Nós Dançamos foi o representante da Suécia na busca por uma indicação ao Oscar de melhor filme internacional em 2020.

E ENTÃO NÓS DANÇAMOS (And Then We Danced, 2019, de Levan Akin): Representante da Súecia na disputa por uma vaga na categoria de filme internacional do Oscar 2020, o drama E Então Nós Dançamos é outro relato muito bacana e econômico sobre as vivências de um jovem personagem gay. Assim como no recente Me Chame Pelo Seu Nome, Merab (Levan Gelbakhiani) tem sua rotina transformada pela descoberta de uma paixão repentina. Evidentemente, aqui pesam mais as questões de preconceito, já que E Então Nós Dançamos se passa em Tiblissi, uma cidade conservadora da Geórgia, mas o diretor e roteirista Levan Akin alcança um ótimo equilíbrio ao dar a devida dose de contextualização para esse problema sem tornar tal condição um elemento novelesco para os personagens. O foco de Akin está em como Merab, apesar das adversidades familiares, financeiras e sociais, segue tocando a vida sem se privar de suas maiores paixões. Além disso, a natureza sexual do protagonista não define E Então Nós Dançamos, que acaba sendo um relato muito mais amplo sobre a vida de um jovem atravessando todo tipo de transformação cotidiana. A vivacidade, as frustrações e as oscilações de Merab também despertam empatia extra através do caloroso desempenho de Levan Gelbakhiani, bailarino na vida real e aqui em sua primeira aparição no cinema. Somando ao personagem sua impressionante técnica como bailarino georgiano, Gelbakhiani é puro carisma e dá conta de todas as angústias características (mas não estereotipadas) da juventude. Ele, aliás, costuma ser o destaque absoluto do filme, que só não se engrandece em função de uma direção pouco inventiva.

O HOMEM INVISÍVEL (The Invisible Man, 2020, de Leigh Whannell): Acostumada a interpretar papeis sofridos ou atormentados, Elisabeth Moss acrescenta mais uma experiência dessa natureza ao seu currículo com O Homem Invisível, um dos últimos filmes a causar um interessante boca a boca antes do mundo suspender o funcionamento das salas de cinema com o início da pandemia do Coronavírus. Em que pese o tom elevado e os desdobramentos por vezes implausíveis, O Homem Invisível é robusto por utilizar o suspense como ferramenta para discutir o universo sempre muito dolorido de mulheres envolvidas  em relacionamentos abusivos. A premissa em si é a seguinte: após receber a notícia do suicídio de seu ex-namorado, Cecilia (Moss) passa a experienciar situações que sugerem a possibilidade de que a morte possa ter sido forjada. Daí em diante, O Homem Invisível não poupa o espectador de situações, conflitos e reviravoltas clássicas de suspenses exibidos durante a madrugada na TV, inclusive com uma parte técnica que reforça esse espírito, como a trilha sonora de notas altíssimas assinada por Benjamin Wallfisch. Tudo, no entanto, serve para potencializar o estado traumático enfrentado pela protagonista após anos sendo abusada emocionalmente pelo namorado. A vibe é aceitável e envolvente porque Elisabeth Moss é excelente atriz e porque O Homem Invisível sabe usar a identidade de um gênero cinematográfico para falar sobre pesadelos muito palpáveis, onde a insanidade de homens possessivos e violentos na vida real é mesmo mais absurda do que a própria ficção.

AS PANTERAS (Charlie’s Angels, 2019, de Elizabeth Banks): Quando perguntada sobre as possíveis razões que levaram um filme como As Panteras ser um retumbante fracasso de bilheteria (a arrecadação total nos Estados Unidos sequer pagou 1/4 do orçamento), a diretora Elizabeth Banks atribuiu toda a culpa ao sexismo de Hollywood, uma indústria ainda intolerante com longas de ação estrelados por mulheres e que não se enquadram em um formato masculino ou em um universo de quadrinhos. Banks não deixa de ter certa razão, mas é difícil endossar sua afirmativa quando As Panteras não motiva o espectador a defendê-lo. Desprovido do mínimo de personalidade, o filme chega a assustar pela ação genérica, pela apatia das personagens e pela trama aborrecida que nem reverencia direito a mitologia pop alcançada pelas Panteras na TV e no cinema. É inevitável a comparação até mesmo com os dois títulos anteriores a esse reboot, dirigidos por McG com um delicioso e absurdo senso de ridículo. Assim como Kristen Stewart, Naomi Scott e Ella Balinska não chegam aos pés do carisma e da atmosfera de diversão trazida por Cameron Diaz, Drew Barrymore e Lucy Liu, o filme em si se desenrola com indiferença, provando que Elizabeth Banks, vaidosa o bastante para atuar, dirigir, roteirizar e produzir o projeto (e ainda deixar isso bem claro nos materiais promocionais!), precisa se desenvolver muito como realizadora. E a torcida é grande, pois acho que todos nós gostaríamos de poder dizer que As Panteras foi injustiçado por questões sexistas, e não por ser simplesmente uma experiência vazia, tediosa e sem uma vírgula de inspiração.

VIDA SELVAGEM (Wildlife, 2018, de Paul Dano): Paul Thomas Anderson. Paolo Sorrentino. Steve McQueen. Bong Joon-Ho. Denis Villeneuve. Ang Lee. Spike Jonze. Rian Johnson. Jonathan Dayton. Valerie Farris. Aos 36 anos, Paul Dano já teve a oportunidade de trabalhar com uma lista invejável de diretores. Por isso, parecia tão compreensível quanto inevitável que, após toda essa imensa experiência, ele decidisse realizar Vida Selvagem, seu primeiro longa-metragem como diretor e roteirista, baseado no romance de mesmo título escrito por Richard Ford em 1990. Para dividir a adaptação da obra, Dano chamou sua namorada, a atriz Zoe Kazan. A sábia decisão de trazer uma perspectiva feminina para Vida Selvagem faz a diferença: por mais que o filme parta da visão estabelecida por um adolescente em relação ao gradual processo de separação dos pais na década de 1960, a potência dramática acaba vindo da maneira com que a mãe Jeanette (Carey Mulligan) lida com o afastamento do marido. Ao não se vitimizar ou se afundar em lágrimas na cama, ela rapidamente se ocupa para superar o fato do marido ter saído de casa por tempo indeterminado. Obviamente isso é um estado de negação abraçado por Jeanette para não ter que lidar com determinados sentimentos. O que para ela é um escudo, para o filho se torna motivo de estranhamento. Vida Selvagem tropeça em ritmo e se prolonga em sequências pontuais, como aquela onde mãe e filho saem para um jantar, mas brilha na grande atenção dada a sua protagonista, interpretada por Carey Mulligan com uma inspiração que ela não apresentava desde o ótimo Educação.

Afinal, o que terá acontecido a “The Death and Life of John F. Donovan”?

Kit Harington como John F. Donovan: cercado por nomes como Susan Sarandon, Kathy Bates e Michael Gambon, o astro de Game of Thrones confirma o seu limitado alcance dramático.

Amado e detestado nas mesmas proporções, o cineasta canadense Xavier Dolan sempre realizou um tipo de cinema que pode ser chamado de muitas coisas, menos de inexpressivo. A situação, entretanto, muda de cenário com The Death and Life of John F. Donovan, seu primeiro longa-metragem em língua inglesa. Algo realmente deu errado nessa investida: Dolan tanto fez diversas alterações na sala de montagem até chegar ao corte final (entre elas, reduzir a duração pela metade e eliminar por completo a participação de Jessica Chastain!) como sequer fez algum esforço para promover o filme, abrindo mão até mesmo de estreá-lo em Cannes, onde costuma exibir todos os seus projetos. A indiferença foi a mesma no circuito comercial: até a data de publicação desse texto que você lê agora, The Death and Life of John F. Donovan estreou em menos de uma dezena de países, sem qualquer engajamento de seu próprio realizador. Aqui no Brasil sequer tem previsão de estreia ou título em português. 

Mais do que marcar a estreia de Xavier Dolan como diretor de longas em língua inglesa, o projeto tinha outro grande apelo para ao menos ganhar alguma publicidade decente: um elenco irrepreensível, formado por nomes como Natalie Portman, Jacob Tremblay, Susan Sarandon, Kathy Bates, Thandie Newton e Michael Gambon. Uma constelação tão brilhante de atores não costuma ser garantia de grandes resultados (muito menos em um filme frequentemente adiado, modificado e promovido com descaso), mas é mesmo estranha a total falência de uma produção que, em tese, reúne muitas credenciais que vários diretores sonhariam em ostentar ao lançar um primeiro trabalho em inglês. Pois Dolan já até realizou outro longa nesse meio tempo (Matthias et Maxime, exibido na mostra competitiva do Festival de Cannes em 2020) e deixa a entender que já virou a página. É como se The Death and Life of John F. Donovan simplesmente não tivesse existido.

Há um punhado de razões para que todos tenham decidido ignorar o projeto. Vamos a elas. Com tantos atores talentosos reunidos, é inexplicável, por exemplo, que Dolan tenha cometido o pecado de escalar logo Kit Harington como protagonista. Mundialmente conhecido pelo papel de Jon Snow no seriado Game of Thrones, Kit simboliza o eterno clichê de astro fotogênico com pouquíssimo alcance dramático. Suas limitações se tornam ainda mais evidentes em The Death and Life of John F. Donovan, onde, com a mesma expressão do início ao fim e sem a larga escala de produção da HBO para camuflar sua apatia, o ator falha em construir o mínimo de camadas para o personagem-título. Complica também o fato de John F. Donovan ser aquele protagonista batido que todos nós conhecemos: o assediado astro de cinema e TV que esconde sua sexualidade, tem problemas com a mãe alcoolista e é assombrado pelo fardo de uma fama que, lá no fundo, talvez não preferisse ostentar.

Natalie Portman e Jacob Tremblay em um dos tantos pontos de vista de The Death and Life of John F. Donovan. Excesso de personagens e perspectivas diluem ainda mais as discussões do filme.

The Life and Death of John F. Donovan parte da relação que o protagonista estabelece com um garoto britânico de 11 anos que lhe escreve uma carta. Há, portanto, pontos de vista fragmentados: o de Donovan, interpretado com as devidas limitações por Kit, e o do garoto, vivido por Jacob Tremblay em um daqueles papéis onde é difícil crer que alguém tão jovem tenha tanta vivência de mundo para dizer certas coisas. Em menor escala, como artifício narrativo, o roteiro escrito por Dolan em parceria com Jacob Tierney, ainda opta por saltar no tempo e mostrar como o garoto, já adulto, segue processando essa relação que acabou de maneira bastante problemática. A ideia de diversos pontos de vista, recheada de um entra e sai constante de atores em pequenos papéis, poderia preencher várias lacunas do filme, descortinando revelações e novas dimensões de cada personagem. Não raro em inúmeras histórias que falham em criar uma narrativa coral, o efeito é o oposto, estacionando no efeito da dispersão e da inconsistência.

Mal ajambrado, The Death and Life of John F. Donovan se dissolve em sua própria estrutura, reduzindo certos personagens até mesmo a variações de caricatura, como a Grace de Susan Sarandon, que, sempre com um copo de whisky na mão, diz poucas e boas para o filho em um jantar com família e amigos. Demais veteranos como Kathy Bates e Michael Gambon também emprestam pompa e talento a outras figuras mal exploradas. Personagens com uma ou duas aparições e interpretados por grandes atores devem servir para potencializar detalhes ou redimensionar dilemas, como as emblemáticas aparições de Viola Davis em Dúvida ou de Julianne Moore em Direito de Amar, e não para proporcionar mero desfile de bons intérpretes em papeis rasteiros. E não deixa de ser um problema de escalação: afinal, por que chamar tanta gente boa se não é para aproveitar cada um com a devida atenção? O mosaico de atores talentosos seria a compensação perfeita para a insipidez de Kit Harington. Contudo, tal promessa traz à superfície mais uma decepção de The Death and Life of John F. Donovan.

Xavier Dolan entrega uma experiência cujas intenções dramáticas são de difícil diagnóstico. Do peso da fama à solidão infantil, passando pela forma como superamos ou não o passado e pelo isolamento que a homossexualidade pode desencadear em determinadas profissões, The Death and Life of John F. Donovan levanta muitas temáticas sem discuti-las como deveria. A origem do projeto está em uma vivência pessoal do diretor: quando criança, Dolan escreveu uma carta para Leonardo DiCaprio após conferir o clássico Titanic. Segundo ele, esse foi o momento de um despertar cultural, sexual e cinematográfico que definiu toda a sua vida como um homem de cinema. Esse ponto de partida tão pessoal e carinhosos não é traduzido na tela. Menos ainda no descaso com que a obra foi trabalhada a partir de sua pós-produção. Provavelmente nunca saberemos o que aconteceu nos bastidores para que The Death and Life of John F. Donovan caísse no esquecimento antes mesmo de nascer para o público, mas é impossível não imaginar que, ao colocar o filme para debaixo do tapete, Xavier Dolan tenha secretamente confessado a sua própria insatisfação com o resultado final.

Rapidamente: “Um Dia de Chuva em Nova York”, “Ford vs. Ferrari”, “As Golpistas” e “História de Um Casamento”

Constance Wu e Jennifer Lopez em As Golpistas: filme dirigido por Lorene Scafaria é tudo aquilo que Oito Mulheres e Um Segredo deveria ter sido.

UM DIA DE CHUVA EM NOVA YORK (A Rainy Day in New York, 2019, de Woody Allen): A Amazon não pensou duas vezes antes de colocar Um Dia de Chuva em Nova York na geladeira quando as problematizações envolvendo o passado de Woody Allen ressurgiram durante a era #MeToo. Finalmente revelado ao mundo após um processo do diretor contra a plataforma, o filme sai da geladeira direto para o esquecimento: com um roteiro repetitivo, apático e cansativo, Woody Allen recicla várias de suas marcas sem nenhuma inspiração, colocando abaixo a teoria de que mesmo os seus piores projetos são melhores do que muitos outros realizados por aí. Da interpretação inconvincente e recheada de tiques de Timothée Chalamet ao carrossel de coadjuvantes insípidos, Um Dia de Chuva em Nova York esbarra em táticas já empoeiradas de Allen, como a de traduzir nos personagens traços próprios de sua personalidade. O problema é que aqui estamos falando de protagonistas jovens, e por isso mesmo o linguajar erudito e as reflexões excessivamente filosóficas soam tão inverossímeis. Sem nem utilizar a geografia de Nova York com muita inspiração, Allen entrega uma trama das suas tramas mais cansativas, onde a única sequência arejada e envolvente é a do monólogo protagonizado por Cherry Jones. Frente a esse trabalho tedioso, o subestimado Roda Gigante, que Woody dirigiu anteriormente, tem as suas qualidades ainda mais evidenciadas. 

FORD VS. FERRARI (Ford v Ferrari, 2019, de James Mangold): Com um público-alvo muito bem definido, Ford vs. Ferrari não esconde a sua predileção por plateias brancas e masculinas, uma vez que não há qualquer traço de representatividade ou universalidade em sua concepção. A temática em si não deixa de ser limitadora: o mundo das corridas automobolísticas e toda a ganância de um contexto corporativo que faz duas grandes marcas do gênero se digladiarem dentro e fora das pistas. A partir dessa perspectiva, é importante perceber como Ford vs. Ferrari ignora a existência de qualquer pessoa negra, considera flatulências, socos e testículos como matéria-prima para o humor e desenvolve apenas uma personagem feminina, limitada a ficar mais da metade do filme apenas acompanhando as corridas do marido pela TV. Dramaticamente, os antagonistas são unidimensionais e pura caricatura, reforçando a falta de qualquer sutileza do filme. As cenas de corrida chegam a prender a atenção e refletem uma uma parte técnica bem acabada, assim como Christian Balese diverte à beça com seu personagem, mas tudo não vai muito além disso. Para quem não aprecia toda a testosterona envolvendo carros potentes, Ford vs. Ferrari faz jus a sua longuíssima metragem (152 minutos) e rende ao espectador um verdadeiro chá de cadeira. 

AS GOLPISTAS (Hustlers, 2019, de Lorene Scafaria): Em 2018, Oito Mulheres e Um Segredo tentou realizar um entretenimento protagonizado por mulheres que arquitetavam um grande assalto. Eventualmente, funcionava como passatempo, mas o roteiro era frágil, as personagens pouco desenvolvidas e o próprio assalto não transmitia nenhum senso de ameaça. Tudo isso, de certa forma, é compensado em As Golpistas, onde um grupo de strippers resolve passar a perna nos seus riquíssimos clientes de Wall Street quando eles deixam de frequentar o clube após a crise financeira que abalou os Estados Unidos entre 2007 e 2008. Com uma diretora mulher comandando a história, o cenário ultrapassa a barreira de um filme pop e feminino sobre trapaça para fazer inúmeros comentários sociais, seja sobre o papel das mulheres na sociedade (e como elas são julgadas por trabalhos tidos hipocritamente como indignos) ou sobre como o dinheiro é, para o bem e para o mal, um instrumento fundamental para definir nossa sobrevivência no mundo. Também autora do roteiro, Lorene Scafaria dirige As Golpistas harmonizando muito bem o senso de entretenimento e reflexão. É um feito raro e que ganha ótimos contornos com a ajuda de personagens femininas nunca objetificadas e sempre devidamente exploradas, com destaque para as duas protagonistas vividas com brilho por Constance Wu e Jennifer Lopez.

HISTÓRIA DE UM CASAMENTO (Marriage Story, 2019, de Noah Baumbach): Uma das boas surpresas da temporada de premiações em 2020 foi ver um filme simples e cotidiano como História de Um Casamento conseguir indicações em várias das categorias principais de cada cerimônia. Nele, o diretor e roteirista Noah Baumbach volta ao tema da separação que ele próprio já havia abordado em A Lula e a Baleia a partir de uma outra proposta, agora centrado no casal em si e não nos efeitos que o divórcio traz aos filhos. Sem cenas mirabolantes, Baumbach encontra grandeza na simplicidade e, especialmente, nos desempenhos comoventes de Scarlett Johansson e Adam Driver. Na escala dos coadjuvantes, Laura Dern, Alan Alda e Ray Liotta exploram, com diferentes abordagens, o espírito danoso e competitivo que os advogados de divórcio inevitavelmente despertam em um momento delicado como esse. Cada conflito ou reflexão de História de Um Casamento está em momentos corriqueiros do dia a dia, estreitando a possibilidade de identificação do espectador com o filme. Franco e por vezes doloroso, o longa, contudo, tem sua maior maturidade ao apresentar personagens que não estão necessariamente em um período de tentar recuperar o que um dia tiveram. Ele encena outro momento: aquele em que, aos poucos, ambas as partes percebem a necessidade de seguir em frente e superar todo um passado, mesmo que ainda reconheçam o quanto amam um ao outro. Trata-se de uma circunstância difícil de ser absorvida na vida real, mas que História de Um Casamento debate com grande sinceridade.

“1917” e os efeitos do plano-sequência: ganha o fascínio ou a dispersão?

Hope is a dangerous thing.

Direção: Sam Mendes

Roteiro: Krysty Wilson-Cairns e Sam Mendes

Elenco: George MacKay, Dean-Charles Chapman, Colin Firth, Benedict Cumberbatch, Daniel Mays, Pip Carter, Andy Apollo, Paul Tinto, Josef Davies, Billy Postlethwaite, Gabriel Akuwudike

EUA/Reino Unido, Drama, 119 minutos

Sinopse: Os cabos Schofield (George MacKay) e Blake (Dean-Charles Chapman) são jovens soldados britânicos durante a Primeira Guerra Mundial. Quando eles são encarregados de uma missão aparentemente impossível, os dois precisam atravessar território inimigo, lutando contra o tempo, para entregar uma mensagem que pode salvar cerca de 1600 colegas de batalhão. (Adoro Cinema)

Objeto de reflexões amplas e opostas entre teóricos do cinema como André Bazin e Jacques Aumont, o tão cultuado plano-sequência costuma comover plateias. Em linhas gerais, a ideia consiste na captura de determinada cena sem cortes aparentes, como se a câmera fosse exatamente a mesma ao longo de toda uma ação. Filmes recentes foram altamente elogiados pelo uso dessa técnica, como BirdmanO Regresso (não por acaso, ambos renderam ao mexicano Alejando González-Iñárritu o Oscar de melhor direção). Contudo, há uma diferença crucial entre eles e 1917, que agora tem rendido prêmios e aclamação mundial ao diretor Sam Mendes. Enquanto Iñárritu usava o plano-sequência em momentos pontuais, 1917 narra toda a sua história com essa linguagem, propondo a ideia de que o longa é contado em tempo real durante aproximadamente duas horas.

Como em tudo no cinema, partimos inevitavelmente para o campo da identificação. Tanto o espectador pode interpretar o ambicioso plano-sequência de 1917 como uma poderosa ferramenta de imersão quanto pode se distanciar do filme justamente em função dele. Afinal, onde fica a espontaneidade ou o espaço para a criação quando tudo foi tão planejado em detalhes, além de extensivamente ensaiado para que nada fugisse do controle? Sabemos, claro, que há diversos cortes camuflados, mas a lógica interna de que a história se desenvolve em um único plano exige sincronia e continuidade cirúrgicas. Informações dão conta de que os atores ensaiaram durante seis meses para que tudo fosse registrado da maneira como o diretor Sam Mendes havia imaginado. Por ser uma produção de ampla escala, qualquer erro nesse processo também custaria a 1917 uma boa quantia em dinheiro. 

Toda essa contextualização é importante para entender como não há espaço para naturalidade ou improviso em 1917. A experiência começa muito impressionante, e a sensação de imponência é preservada até o último minuto de projeção porque a equipe técnica reunida aqui é do mais alto nível. Entretanto, com o desenrolar da trama, logo se percebe cada intenção de Sam Mendes na construção desse espetáculo. É perceptível onde o diretor realizou algum corte (conte as cenas em que a tela fica escura de um ambiente para outro e você já terá uma boa noção) ou onde o roteiro, escrito por Mendes em parceria com Krysty Wilson-Cairns, planejou uma pausa reflexiva em meio à adrenalina. Se abrissemos 1917 como um mapa, veríamos cada fronteira dramática e cada movimento técnico desenhados de maneira muito clara. 

Uma comparação feita com fervor até aqui pela crítica e por aqueles que não embarcam na proposta é a de que o longa se assemelha muito a um videogame. E há verdade nisso: em tempo real, os personagens parecem avançar entre fases, enfrentando um desafio a cada novo ambiente explorado. Schofield (George MacKay) e Blake (Dean-Charles Chapman) passam por trincheiras, escapam de tiros, enfrentam um desabamento subterrâneo, desbravam a noite, caem na lama, são levados pela forte correnteza de um rio, administram o surgimento de inimigos inesperados e, quando passam de determinadas fases, encontram até sargentos e generais interpretados por atores famosos como Colin Firth e Benedict Cumberbatch, todos remetendo aos personagens que surgem com explicações ou informações para um jogador ao concluir uma importante etapa de um game.

Em meio a essa lógica que só não entrega um joystick ao espectador para que ele controle a brincadeira, Dean-Charles Chapman e principalmente George MacKay fazem o possível para conferir algum tipo de profundidade aos protagonistas. O desafio é impossível de ser cumprido, pois 1917 está mais preocupado com suas virtudes técnicas do que com qualquer outra coisa, e por isso só resta aos atores a comunicação corporal entre tantas exigências físicas. Ainda é pouco: Chapman e MacKay não vão muito longe dramaticamente, e é até difícil lembrar o rosto de cada um após a sessão. Ambos são empenhados e comprometidos, é verdade, mas limitados à preparação física e aos ensaios de um filme cuja amplitude dramática está concentrada no tamanho da guerra.

Como exercício técnico, 1917 entrega o espetáculo prometido com o uso do plano-sequência: o mestre Roger Deakins se esbalda na direção de fotografia (a sequência noturna é de arrepiar e está entre as mais belas imagens já criadas por ele), Thomas Newman dá o tom clássico de um filme de guerra na trilha sonora e o cuidadoso trabalho de som do quarteto Mark Taylor, Oliver Tarney, Rachael Tate e Stuart Wilson contribui para todas as intenções de imersão do longa. Mendes foi muito mais feliz casando conteúdo e estética em 007 – Operação Skyfall, mas isso não diminui a ambição técnica de 1917, que, como uma produção grandiosa, é irrepreensível. Créditos também devem lhe ser dados pela ideia de fazer uma celebração não a grandes líderes, mas aos homens comuns das trincheiras. E fica por aí. Elogiar mais do que isso está diretamente condicionado ao fato de cada espectador se conectar ou não com a proposta do plano-sequência.

“Judy: Muito Além do Arco-Íris”: cinebiografia presta tributo à memória de Judy Garland sem hipocrisia, embelezamentos ou momentos edificantes

You won’t forget me, will you?

Direção: Rupert Goold

Roteiro: Tom Edge, baseado no espetáculo “End of the Rainbow”, de Peter Quilter

Elenco: Renée Zellweger, Jessie Buckley, Finn Wittrock, Michael Gambon, Rufus Sewell, Richard Cordery, Royce Pierreson, Darci Shaw, Andy Nyman, Bella Ramsey, Lewin Lloyd

Judy, Reino Unido, 2019, Drama, 118 minutos

Sinopse: Inverno de 1968. Com a carreira em baixa, Judy Garland (Renée Zellweger) aceita estrelar uma turnê em Londres, por mais que tal trabalho a mantenha afastada dos filhos menores. Ao chegar ela enfrenta a solidão e os conhecidos problemas com álcool e remédios, compensando o que deu errado em sua vida pessoal com a dedicação no palco. (Adoro Cinema)

Fatores externos não devem necessariamente ser pré-requisitos para a devida apreciação de um filme, mas há casos em que compreender elementos orbitantes a um projeto enriquece determinada experiência de maneira categórica. Reserve um tempo, portanto, para investigar a vida de Judy Garland antes de conferir Judy: Muito Além do Arco-Íris. E o mais importante: recupere também a carreira de Renée Zellweger, desde quando ela teve seu primeiro papel de destaque em Jerry Maguire: A Grande Virada nos anos 1990 até chegar ao próprio Judy. Espelhando a trajetória de ambas, a semelhança fica clara em um piscar de olhos: descobertas, celebradas, mastigadas e, por fim, cuspidas por Hollywood, as duas viram o melhor e o pior dessa indústria.

A diferença, claro, é que Renée não faleceu aos 47 anos em um dos momentos mais baixos de sua carreira. Na verdade, aos 50, a texana vencedora do Oscar de melhor atriz coadjuvante por Cold Mountain tem a chance de renascer em Hollywood justamente ao prestar um tributo muito íntimo e particular à colega. Após ter amargado vários projetos terríveis, enfrentado anos de depressão e lidado com toda a misoginia de uma opinião pública impiedosa com a aparência e o envelhecimento das mulheres, Renée agora reverencia o legado de Garland com uma série de significados muito particulares que talvez apenas ela pudesse traduzir com tanta propriedade.

A escalação da atriz é perfeita porque Renée compreende que uma cinebiografia como essa não deve ser feita para passar a mão na cabeça de Hollywood. Judy recusa a ideia de glamourizar a vida de sua personagem-título ou de tentar amenizar todo o sofrimento vivido por ela em suas últimas semanas de vida. A escolha do recorte já é um claro recado por si só: com base no espetáculo “End of the Rainbow”, de Peter Quilter, o roteirista Tom Edge reúne acontecimentos da temporada em que Garland, esquecida e escanteada pelos Estados Unidos, viaja à Inglaterra para juntar algum dinheiro com uma agenda de shows e, assim, voltar a sustentar seus próprios filhos.

Ao mesmo tempo em que encena os dias de uma Judy Garland já derrotada e debilitada, o filme, em meio a essa tristeza, busca devolver à atriz algum tipo de respeito e dignidade. E o faz sem purpurinas, momentos edificantes ou a tão esperada apresentação final responsável por induzir o espectador a pensar que, apesar dos pesares, tudo ficou bem. Sem hipocrisia, Judy se apresenta como uma comovente reparação para uma estrela que, nos bastidores, não desistia apesar das adversidades. As pílulas que lhe foram empurradas goela abaixo desde criança, a pressão por ter se tornado estrela cedo demais em um mundo de aparências e as crueldades trazidas pela vida e pelo trabalho após o envelhecimento lhe abalavam, mas, até ali, nunca lhe aniquilavam.

Na pequena grande resistência de Garland, Judy tem uma personagem que, no fundo, tentava seguir em frente porque, assim como todos nós, tinha medo de ser esquecida. Essa perspectiva é traduzida na relação estabelecida pelo filme entre a protagonista e os palcos. Cantar, de certa forma, já não era mais suficiente para Garland, que muitas vezes subia ao palco alterada por remédios, bebidas e noites de insônia. No entanto, quando se empoderava sob os holofotes, dominava a atenção por completo. A mulher magra, pálida e frágil dos bastidores de repente voltava a alcançar as notas que lhe alçaram ao sucesso mundial, (re)conquistando plateias e também o espectador do lado de cá da tela.

Quando Garland eventualmente se reergue, a conexão entre Renée e ela se estreita, e aí fica difícil (no bom sentido) distinguir quem nos comove: a protagonista em si dentro daquele recorte pontual ou quem a interpreta. Essa simbiose é íntima e especial inclusive porque as canções são interpretadas por Renée. Mesmo que auxiliada pelo playback de gravações em estúdio, a atriz se junta a Taron Egerton em Rocketman e não a Rami Malek em Bohemian Rhapsody no sentido de criar a sua homenagem particular a Garland, procurando voz e interpretação próprias para encarnar uma figura que merece ser muito maior do que uma simples mímica.

Assumindo que um tributo a Garland tem mais dignidade quando inexiste a obsessão de tentar copiá-la, Renée se mostra sábia e corajosa. A cena em que ela canta Somewhere Over the Rainbow atesta tal posicionamento: para a atriz, o importante nesse momento não é reproduzir fielmente a voz de Garland, mas sim toda a rouquidão, a hesitação e a fragilidade de uma mulher tão sugada pela vida que já não consegue cantar um de seus maiores clássicos com desenvoltura. Renée ressignifica muitas das fragilidades do filme e potencializa detalhes importantes, como a relação da protagonista com o público gay, aqui representado por um humilde casal que faz companhia a Garland em uma noite onde, assim como em tantas outras, ninguém mais lhe espera na saída do teatro para um autógrafo.

Tratando-se de forma, Judy: Muito Além do Arco-Íris é um longa-metragem tradicional, imperfeito e até inexpressivo do ponto de vista estético. O diretor Rupert Goold, cuja carreira é muito mais teatral do que cinematográfica, não faz muita diferença no projeto: tê-lo ou não atrás das câmeras parece irrelevante, pois as decisões mais importantes não vêm dele, e sim do recorte proposto pelo roteiro e, claro, da escalação de Renée Zellweger. Judy, portanto, ganha na franqueza: sem ser apaziguador, associa a retrospectiva do legado de Garland à necessidade de fazer Hollywood refletir sobre cicatrizes que ainda continuam bastante abertas. As coisas realmente não mudaram muito com o passar dos anos.

“O Escândalo”: mesmo com ótimas atrizes, longa perde em sutileza ao falar sobre dilemas femininos a partir de perspectivas masculinas

People don’t stop watching when there’s a conflict. They stop watching when there isn’t one.

Direção: Jay Roach

Roteiro: Charles Randolph

Elenco: Charlize Theron, Nicole Kidman, Margot Robbie, John Lithgow, Kate McKinnon, Connie Britton, Mark Duplass, Allison Janney, Malcolm McDowell, Liv Hewson, Stephen Root, Robin Weigert, Amy Landecker, Brigette Lundy-Paine

Bombshell, EUA/Canadá, 2019, Drama, 109 minutos

Sinopse: Um gigante do telejornalismo e antigo CEO da Fox News, Roger Ailes (John Lithgow) tem seu poder questionado e sua carreira derrubada quando um grupo de mulheres o acusa de assédio sexual no ambiente de trabalho. (Adoro Cinema)

Uma dose considerável de cansaço tomou conta de mim nos primeiros minutos de O Escândalo. Quebrando a quarta parte, o filme de Jay Roach sobre a derrocada do magnata Roger Ailes após inúmeras denúncias de assédio sexual por parte de funcionárias da Fox News faz uma introdução ao seu universo televisivo e corporativo com sátira, agilidade e, claro, descomplicações de determinados fatos e contextos. O cansaço veio porque já vimos demais esse estilo recentemente. Coloque na conta os dois últimos trabalhos de Adam McKay (A Grande Aposta e Vice), o Eu, Tonya de Craig Gillespie e o genérico A Lavanderia de Steven Soderbergh e você terá noção do quanto tal fórmula já soa repetitiva mesmo sendo uma tendência tão recente.

No caso de O Escândalo há um ligeiro frescor que não dissipa o sentimento de repetição, mas que brinca com uma interessante metalinguagem: apresentadora de TV, Megyn Kelly (Charlize Theron) explica eventos e circunstâncias olhando diretamente para o espectador ao transitar pelos bastidores da Fox News, com a mesma postura de alguém que está ao vivo em um telejornal. À parte essa boa brincadeira, a pegada e o ritmo são os mesmos de sempre,  o que imediatamente leva o espectador a deduzir que o filme inteiro se desdobrará dessa maneira. Não é exatamente o que acontece porque O Escândalo dá uma boa amortecida na proposta, tornando-se mais comedido do que o esperado em tiques e afetações.

Entretanto, como um relato ligeiramente mais comportado de fatos reais, o longa deixa revelar uma significativa fragilidade, alimentada desde a concepção do projeto. Ora, como é possível uma história sobre assédio sexual contra mulheres em um ambiente de trabalho não contar, justamente, com pelo menos uma presença feminina no roteiro ou na direção? Sejamos francos ao afirmar que O Escândalo funciona sem maiores problemas durante toda projeção, mas sempre há essa atmosfera de que algo está faltando. Sem um olhar feminino, o filme não cimenta as entrelinhas que deveriam explorar emocionalmente as angústias vividas por mulheres capazes de enfrentar todo tipo de adversidade para denunciar um homem e um sistema.

A limitação de olhares masculinos para dilemas femininos está exemplificada na cena em que uma das personagens confessa ter cedido às investidas imorais do chefe que prometeu colocá-la na linha de frente da Fox News caso ela provasse sua “lealdade”. A personagem em questão discursa e chora, protagonizando um momento comovente. O que acontece é que essa cena discute inúmeras cargas dramáticas de maneira expositiva, como se por si só compensasse o fato do longa não ter desenvolvido em detalhes e sutilezas os conflitos internos de uma mulher que custou a compreender o que estava acontecendo com ela própria. Para dilemas de tamanha importância, é frustrante que discussões tão sérias, profundas e relevantes acabem reduzidas a um discurso apoiado na verbalização de conflitos internos.

Com propriedade e lugar de fala garantidos por alguma presença feminina na linha de frente, O Escândalo poderia potencializar os efeitos de uma história tão significativa para a nossa realidade, dando subsídios ao próprio Jay Roach, que, após ter abandonado a realização de comédias como Austin Powers e Entrando Numa Fria, dirigiu produções baseadas em histórias reais com grande talento (destaque para Virada no JogoRecontagem, dois telefilmes bastante instigantes com o selo HBO). Isso seria desejar um projeto completamente diferente, mas é bem provável que a experiência pudesse se apresentar com mais consistência, contentando-se menos com a reprodução de fatos (a cena em que uma personagem levanta a saia para Roger Ailes não seria tão gráfica nas mãos de uma diretora)  e mais nos efeitos dramáticos de cada acontecimento para a vida das protagonistas e da sociedade como um todo.

Considerando as presenças femininas de O Escândalo, destaque absoluto para o trio central de atrizes. Charlize Theron hipnotiza com o tanto que ficou parecida com Megyn Kelly, desaparecendo por completo em uma personagem que domina as atenções. Já Nicole Kidman tem em Gretchen Carlson a figura mais transparente do filme: como a primeira profissional a denunciar Roger Ailes, Gretchen quebrou barreiras, mesmo quando se viu sem o apoio inicial de suas colegas. Por fim, Margot Robbie, que tem melhor material aqui do que no recente Era Uma Vez Em… Hollywood, trabalha com uma interessante personagem ficcional que sintetiza várias outras vítimas. Charlize, Nicole e Margot, não por acaso, são o ponto alto do filme e só comprovam o quanto as discussões de O Escândalo se tornam maiores e melhores quando dominadas por figuras femininas. 

“Adoráveis Mulheres”, uma refilmagem capaz de reverenciar e oxigenar o seu material de origem na mesma medida

I believe we have some power over who we love.

Direção: Greta Gerwig

Roteiro: Greta Gerwig, baseado no romance “Little Women”, de Louisa May Alcott

Elenco: Saoirse Ronan, Florence Pugh, Timothée Chalamet, Emma Watson, Eliza Scanlen, Laura Dern, Meryl Streep, Louis Garrel, Chris Cooper, Tracy Letts, Bob Odenkirk, James Norton, Jayne Houdyshell, Maryann Plunkett

Little Women, EUA, 2019, Drama, 135 minutos

Sinopse: As irmãs Jo (Saoirse Ronan), Beth (Eliza Scanlen), Meg (Emma Watson) e Amy (Florence Pugh) amadurecem na virada da adolescência para a vida adulta enquanto os Estados Unidos atravessam a Guerra Civil. Com personalidades completamente diferentes, elas enfrentam os desafios de crescer unidas pelo amor que nutrem umas pelas outras. (Adoro Cinema)

Há duas razões plausíveis para uma obra querida por gerações ser revisitada de tempos em tempos. Em primeiro lugar, gosto de pensar que há o fator da reverência: quando bem feita, uma nova adaptação pode homenagear determinada história com todo o respeito e o refinamento merecidos, mesmo quando os pontos e as vírgulas do roteiro são iguais entre um trabalho e outro. Afinal, é um prazer reencontrar conhecidos personagens se eles renascem com encanto (o imperdoável é ficar entre as fronteiras do desastre e da indiferença). A segunda razão vem da necessidade de atualização, quando um diretor ou uma diretora busca, na raiz de uma história clássica, motivos para interpretá-la a partir do olhar de novas gerações.

Escrito em 1868 pela autora estadunidense Louisa May Alcott, o romance Mulherzinhas já foi adaptado para o cinema, para o teatro e para a TV. A versão mais célebre, talvez, seja a cinematográfica de 1994, que reuniu nomes como Winona Rider, Susan Sarandon, Kirsten Dunst, Claire Danes, Christian Bale e Gabriel Byrne. Era simpática, mas não marcante. Pois agora chegamos a uma versão de elenco ainda mais estelar e comandada por uma cineasta que, recém saída de indicações ao Oscar de melhor roteiro e direção por Lady Bird: A Hora de Voar, adapta o material de Louisa May Alcott com reverência e atualizações pontuais que justificam a releitura.

“Eu passei por muitas dificuldades, por isso escrevo histórias felizes”. Abrindo Adoráveis Mulheres com essa frase da própria Louisa, Greta Gerwig já dá um pequeno spoiler de como será o seu filme: luminoso, espirituoso e afetuoso, ainda que, no caminho, as protagonistas enfrentem desamores, perdas e frustrações. Melhor diretora aqui do que em Lady Bird, Gerwig compreende o quanto o carinho presente na obra da escritora é essencial para o diálogo com o espectador, e o amplia em todas as frentes, como no gracioso trabalho de elenco, nos delicados figurinos de Jacqueline Durran e na encantadora trilha sonora de Alexandre Desplat. É preciso estar disposto a abraçar essa atmosfera para tirar o melhor da refilmagem.

Entre o drama, o bom humor e o romance, Adoráveis Mulheres conta, claro, uma história muito feminina, a partir de um ambiente familiar onde é fácil nutrir simpatia e torcida por cada uma das personagens, todas com seus próprios sonhos e objetivos, mesmo quando umas são melhor trabalhadas do que outras (Emma Watson, que já costuma ser uma atriz limitada, não tem muito o que fazer ao dar vida para a filha mais desinteressante). Em papeis menores, há espaço, por exemplo, para que Laura Dern, com sua ternura habitual, traga todo o calor materno tão necessário ao papel da matriarca ou para que Meryl Streep, em pequenas aparições como alívio cômico, represente a interessante tia rica que optou por não se casar e que tenta planejar um destino equivalente para as sobrinhas.

Enquanto isso, o coração mais pulsante de Adoráveis Mulheres fica com o trio Saoirse Ronan, Florence Pugh e Timothée Chalamet. A primeira, em outro desempenho que comprova as razões de ser considerada o nome mais versátil e interessante de sua geração, conduz o papel da independente e inteligente Jo com múltiplas dimensões, principalmente quando ela se parece mais com as sentimentais irmãs do que está disposta a admitir. Já Pugh, que há pouco esteve em Midsommar, segue com grande presença, explorando as oscilações de uma jovem apaixonada por um garoto que, na verdade, deseja a sua irmã. E, por fim, Chalamet dá uma arejada em tiques frequentemente repetidos em filmes como Um Dia de Chuva em Nova York para criar um Laurie carismático, espontâneo e com excelente química tanto com Ronan quanto com Pugh.

Na novela radiante e sentimental que é Adoráveis Mulheres, Gerwig, também autora do roteiro, busca, enfim, fazer os comentários capazes de conferir o sentimento de atualização para o enredo. Dessa vez, por exemplo, a história da protagonista Jo ganha questionamentos pertinentes para o presente. Um deles é a própria questão mercadológica, responsável por um dos melhores momentos do filme: por que todas as mulheres precisam casar no final de uma trama, seja ela literária ou cinematográfica, para que o público saia satisfeito? Vale a pena bater pé para quebrar estereótipos ou é justo se vender desde que a um bom preço e mediante a exigências? E, na vida, o que acontece com aqueles destinados a viver sem um grande amor? A paixão é o que dá sentido à existência, inclusive quando todo o resto está no seu devido lugar? É mais importante amar ou a sensação de ser amado? 

Algumas dessas questões já estavam presentes nas outras adaptações, mas Gerwig, agora ciente do seu lugar de fala em uma época muito mais aberta a reflexões do gênero, pincela cada uma delas até de forma bastante direta. A vontade de levantar bandeiras eventualmente corta um pouco a sutileza do filme a cena envolvendo um lacrimoso desabafo de Jo com a mãe sobre aquilo a sociedade espera das mulheres soa um tanto artificial como um discurso pronto , o que não diminui as boas intenções que, na maior parte de Adoráveis Mulheres, funcionam tão bem junto a outros singelos mas importantes detalhes, como o fato de todas as personagens terem alguma vocação artística ou aspiração profissional, escapando do mero ofício de belas, recatadas e do lar.

Ao diminuir o melodrama no sentido de não se ater tanto a pesos dramáticos ou problemas familiares (e tratá-los, vejam só, como amadurecimento e aprendizado), Adoráveis Mulheres também tem, em comparação com o longa de 1994, uma escolha narrativa diferenciada, abandonando a estrutura linear para ir e vir no tempo. E a montagem de Nick Houy, que colaborou com Greta em Lady Bird, trabalha a temporalidade sem parecer um artifício dramático para fazer revelações ou alardear alguma explicação. Sempre que Adoráveis Mulheres salta no tempo, a atmosfera parece ganhar um novo cunho afetivo. São detalhes muito simples e que, assim como aconteceu em Lady Bird, podem ser recebidos com descaso justamente por conta disso (que injustiça!). Prevendo essa equivocada percepção, de repente me flagro com a necessidade de defender Greta mais uma vez da seguinte forma, reproduzindo a última frase que escrevi sobre o seu filme anterior: “não é todo mundo que encontra a fibra da emoção e da inteligência na simplicidade”.

“O Caso Richard Jewell”: questionando quais são os verdadeiros tribunais em uma acusação, Clint Eastwood realiza o melhor longa de sua mais recente safra como diretor

I’m sorry the world has gone insane.

Direção: Clint Eastwood

Roteiro: Billy Ray, baseado no artigo “American Nightmare: The Ballad of Richard Jewell”, de Marie Brenner

Elenco: Paul Walter Hauser, Sam Rockwell, Kathy Bates, Jon Hamm, Olivia Wilde, Nina Arianda, Charles Green, Ian Gomez, Grant Roberts, Alan Heckner, Desmond Phillips

Richard Jewell, EUA, 2019, Drama, 131 minutos

Sinopse: A história real de Richard Jewell (Paul Walter Hauser), segurança que se tornou um dos principais suspeitos de bombardear as Olimpíadas de Atlanta, no ano de 1996. Na realidade, ele foi o responsável por ajudar inocentes a fugirem do local e avisar da existência de um dos explosivos. (Adoro Cinema)

A figura do protagonista inocente que é perseguido por autoridades ou pela imprensa de maneira injusta tem sido um interesse de Clint Eastwood desde os anos 1990 com Crime Verdadeiro. Entre Sobre Meninos e LobosA TrocaSully: O Herói do Rio Hudson, Clint questionou o julgamento, seja o real ou da opinião pública, com histórias provocadoras, ainda que nem sempre executadas com o talento que consagrou a sua carreira. Pois agora o diretor volta ao tema com O Caso Richard Jewell, que, remontando a história do personagem-título, pode ser considerado o seu trabalho mais instigante em uma carreira recente de grande produtividade, mas pouca assertividade.

O recorte se dá nas Olimpíadas de Atlanta em 1996, quando Richard Jewell (Paul Walter Hauser, ótimo), um segurança contratado para o evento, salva a vida de diversas pessoas após constatar que o lugar estava prestes a ser bombardeado. Tentando inutilmente achar o verdadeiro culpado pelo atentado, o FBI, desesperado por respostas, decide incriminar aos poucos o próprio Richard Jewell, aproveitando-se de uma série de fatos e circunstâncias que, quando ajustados, agem contra a sua imagem de herói. Junto a isso, uma jornalista sem escrúpulos e sedenta por conseguir uma capa de jornal entra na jogada para engrossar o caldo de acusações sem fundamentos.

Clint filma O Caso Richard Jewell de maneira formal e linear, sublinhando até mesmo os momentos mais dramáticos com os clássicos temas em piano que tanto gosta de usar na trilha sonora. E isso não é um problema, pois a trama é tão envolvente e bem interpretada que o espectador, assim como os próprios personagens, também se vê ansioso por algum tipo de justiça. É um trabalho que fala muito sobre a necessidade de imediatamente encontrarmos heróis ou vilões para situações trágicas e sobre como alguns profissionais, frustrados por falharem em seu próprio trabalho, não medem esforços para transferir qualquer culpa.

Sem colocar o espectador em dúvida sobre a inocência de Richard Jewell (o que é muito digno e respeitoso da parte de Clint), o longa cria, com simplicidade e eficiência, uma reflexão muito contemporânea sobre aquele tribunal que é o mais perigoso de todos: o da opinião pública, especialmente quando estimulado por autoridades e pela mídia. Ainda que não se passe na tenebrosa era das redes sociais, O Caso Richard Jewell fala muito sobre como sempre somos convencidos com facilidade pela migalha mais incerta e rasa de informação. O que importa, no final das contas, é apontar o dedo para confirmar convicções pessoais.

Nessa discussão, no entanto, há um calcanhar de Aquiles: a figura da jornalista vivida por Olivia Wilde. E o problema é anterior ao fato da representação envolvendo uma personagem feminina oportunista que veste roupas chamativas e transa com a fonte para conseguir informações privilegiadas. Além de Olivia Wilde apostar na caricatura, a subtrama em si é muito artificial e pouco produtiva, estereotipando discussões que já são bem abordadas por outros pontos de vista do roteiro. Sua humanização manjada ao final do filme também não contribui para uma storyline que, no mínimo, deveria ter sido sistematicamente reduzida nos tratamentos da história escrita por Billy Ray.

O que compensa esse deslize é o fato do lado injustiçado da história somar tantos pontos em naturalidade e boas nuances, muitos deles proporcionadas por excelentes coadjuvantes. A mãe vivida com extrema humanidade por Kathy Bates, por exemplo, rende alguns dos momentos mais emocionantes do filme e o advogado interpretado por um inspirado Sam Rockwell é a voz do espectador em busca de algum tipo de justiça e bom senso nas acusações estapafúrdias. Eles ancoram tudo o que existe de melhor em O Caso Richard Jewell, um filme que recupera a ideia de que o maior terrorismo segue sendo o da injustiça contra aqueles que supostamente não tem voz.

“Cats”: ao contrário dos melhores filmes ruins, musical de Tom Hooper sequer consegue divertir com o seu próprio desastre

I judge a cat by its soul.

Direção: Tom Hooper

Roteiro: Lee Hall e Tom Hooper, baseado na coleção de poemas “Old Possum’s Book of Practical Cats”, de T.S. Eliot, e no musical “Cats”, de Andrew Lloyd Webber

Reino Unido/EUA, 2019, Musical, 110 minutos

Sinopse: Uma tribo de gatos chamada Jellicles todo ano precisa tomar uma grande decisão em uma noite especial: escolher um dos gatos para ascender para o Heaviside Layer e conseguir uma nova e melhor vida. Cada um dos gatos conta a sua história para sua líder, a velha Deuteronomy (Judi Dench), na tentativa de ser o escolhido. (Adoro Cinema)

Determinados projetos não podem ser traduzidos para o cinema. Cats, o espetáculo que começou em Londres e se tornou um hit na Broadway durante mais de duas décadas, é um deles. No musical, os gatos jellicle, palavra cujo significado só os personagens conhecem, são reunidos uma vez por ano para que seu líder escolha aquele que terá a oportunidade de renascer. O espetáculo, que toma como base a coleção de poemas “Old Possum’s Book of Practical Cats”, de T.S. Eliot, obviamente não tem animais no palco, mas sim pessoas vestidas e maquiadas como gatos. Faz sentido, pois o teatro deixa para a plateia a missão de imaginar lugares, especificidades ou personagens impossíveis de serem reproduzidos no palco.

Já para fins cinematográficos, a ideia de uma adaptação sempre pareceu a receita perfeita para o desastre. Afinal, seria possível resolver o impasse de contar uma história tão específica onde pessoas interpretam gatos? Devemos ver animais ou seres humanos em cena? É bastante óbvio: pessoas vestidas de gatos só funcionam nos palcos. Por isso mesmo Cats é teatro e ponto final. Não há como torná-lo minimamente cinematográfico (talvez como uma animação, na melhor das hipóteses?). Pois não bastou a Universal fechar os olhos para todos os sinais de que esse projeto era impossível desde a sua concepção: o estúdio foi além e resolveu chamar Tom Hooper para comandar uma versão live action. Antes já era preciso um milagre para fazer Cats dar certo. Com Hooper e sua carreira sem muita personalidade, a situação se tornou ainda mais difícil. Spoiler: o milagre, claro, não aconteceu.

Empolgado com a ideia de fazer um musical após ter mexido com a mitologia de Os Miseráveis no longa-metragem homônimo de 2012, Tom Hooper, assim como a Universal (que inexplicavelmente lhe entregou 95 milhões de dólares para realizar o projeto), ignora o fato de que um exímio bailarino vestido de gato pode arrasar com um número de sapateado no teatro, mas que a mesma ideia não se aplica ao cinema, especialmente quando Cats opta por criar, através do uso de efeitos visuais, um híbrido entre atores reais e gatinhos. Partindo disso, o tal número de sapateado se torna algo patético e fake na sala de cinema. A razão é simples: não vemos um bailarino. Muito menos sabemos o que está representado na tela: seria um humano, um gato ou um filtro de Instagram?

Tudo o que vem após a decisão mercadológica de permitir essa adaptação cinematográfica impossível é mera consequência. Nasce dessa mistura, por exemplo, uma concepção artística muito torta, duvidosa e descuidada. Indeciso sobre quem são os personagens em cena (não são gatos, pois todos têm mãos, pés e dentes humanos; também não são humanos, já que cada um desfila com pêlos e rabos), o filme carece de lógica interna. Por que alguns gatos usam tênis e outros não? Como um dos felinos bebe champanhe direto da garrafa como uma pessoa normal, mas outro só consegue lamber delicadamente um potinho de água? E como eles alternam tanto de tamanho e proporção em comparação aos cenários humanos?

Tecnicamente descuidado com qualquer coerência de escala (em determinado momento, uma ratoeira parece ter um tamanho cinco vezes maior do que um ratinho), Cats deixa expôr toda confusão e o impasse de traduzir as particularidades do musical para o cinema e o fato de Tom Hooper ter aprovado o último corte do longa na manhã da primeira exibição mundial só comprova a falta de comprometimento da produção com a sua própria qualidade. A partir disso, a base de todo o filme é comprometida: os efeitos são mal realizados, o universo concebido é visualmente incoerente e a relação entre esses dois aspectos torna tudo muito bizarro, resultando em momentos difíceis de acreditar, como uma dança entre gatos e baratas logo nos primeiros momentos de projeção.

Não é má vontade, inclusive porque o atrapalhamento de Cats não se resume ao visual. A história em si também é mal construída, estendendo-se aos aspectos musicais. Há um conflito central (a competição pelo renascimento de um dos gatos), mas ele se dilui em uma sucessão de personagens que entram e saem de cena apenas para cantar ou dançar. Impossível deduzir quem são esses felinos e muito menos os seus propósitos (por conta dos efeitos, muitas vezes é até complicado constatar qual ator acaba de surgir). Sem um desenvolvimento para uma trama rasa, todos não passam de uma abreviação de características óbvias. A situação piora com um roteiro sem diálogos, nem mesmo cantados (como era o caso de Os Miseráveis, onde os personagens conversavam através da música). Resultado: nada em Cats acontece ou é dito sem um número musical.

Carente de uma costura, o filme tenta fazer algum sentido ao encadear uma música na outra. De primeira, a situação parece contornável com Jellicle Songs for Jellicle Cats, divertida canção capaz de, na medida do possível, desviar a atenção de todos os problemas listados até aqui. Entretanto, o repertório do consagrado compositor Andrew Lloyd Webber para o musical original não é uma unanimidade e, em questão de minutos, as músicas começam a cansar porque não compensam o vazio da trama e porque realmente não são memoráveis. Aí o pacote se completa: efeitos ruins, história sem vocação cinematográfica, falta de lógica visual, roteiro sem diálogos e músicas bem abaixo do que Webber já produziu para títulos como O Fantasma da Ópera.

Enquanto isso, os atores parecem distantes um dos outros, como se cada um fizesse a sua parte sem querer se envolver muito com o todo. É deprimente ver um ator grandioso como Ian McKellen quase isolado em cena, tentando, a partir de uma mínima participação, cantar uma canção que em nada contribui para a narrativa. Outro exemplo: Judi Dench, que já havia se envolvido em projetos pavorosos como A Batalha de RiddickNine para pagar as contas, faz dobradinha com McKellen como outra veterana deslocada (o número onde ela, olhando para a câmera, explica como os gatos devem ser tratados é um dos piores). E se Jennifer Hudson passa o tempo inteiro chorando e se lamuriando sem entendermos exatamente a razão, ao menos ela interpreta a música mais marcante do repertório (Memory, o momento I Dreamed a Dream de Cats, ainda que essa seja uma comparação injusta).

Devastado pela crítica e pelo público, o novo longa de Tom Hooper tem despertado reações extremas, inclusive do próprio estúdio, que desistiu de fazer qualquer campanha para a temporada de premiações. Tom Hooper e a montadora Melanie Oliver (parceira do diretor desde os tempos do telefilme Elizabeth I) também voltaram para a sala de edição com o objetivo de aprimorar efeitos visuais e até fazer alguns cortes. Ignoram, contudo, que não há nada a ser feito nessa altura do campeonato. A solução não está no reparo de uma cena deslocada ou na concepção visual de um personagem específico. Cats como um todo é estranho e desencontrado. Para conseguir recuperar algum prejuízo, só haveria uma opção: começar do zero. Ou melhor: nem começar, remontando o que deveria ter sido feito no exato momento em que alguém propôs a ideia da adaptação. Cats certamente é um dos eventos cinematográficos de 2019. O problema é que, ao contrário dos melhores filmes ruins, ele sequer diverte involuntariamente para ser lembrado como um guilty pleasure.

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