Cinema e Argumento

A Forma da Água

Unable to perceive the shape of you, I find you all around me.

Direção: Guillermo Del Toro

Roteiro: Guillermo Del Toro e Vanessa Taylor

Elenco: Sally Hawkins, Michael Shannon, Richard Jenkins, Octavia Spencer, Michael Stuhlbarg, Doug Jones, David Hewlett, Nick Searcy, Stewart Arnott, Nigel Bennett, Lauren Lee Smith, Martin Roach

The Shape of Water, EUA, 2017, Drama, 123 minutos

Sinopse: Década de 60. Em meio aos grandes conflitos políticos e transformações sociais dos Estados Unidos da Guerra Fria, a muda Elisa (Sally Hawkins), zeladora em um laboratório experimental secreto do governo, se afeiçoa a uma criatura fantástica mantida presa e maltratada no local. Para executar um arriscado e apaixonado resgate ela recorre ao melhor amigo Giles (Richard Jenkins) e à colega de turno Zelda (Octavia Spencer). (Adoro Cinema)

Para o completo pavor de Donald Trump, não há país de língua latina que tenha conquistado mais os Estados Unidos nos últimos anos do que o México. Começou com Alfonso Cuarón, que, muito antes de ganhar sete Oscars com Gravidade, incluindo o de melhor direção, já havia assinado o melhor capítulo de uma das franquias mais lucrativas de todos os tempos: Harry Potter e o Prisioneiro de Azkaban. Trajetória semelhante teve, logo em seguida, Alejandro González Iñárritu, que também faturou o Oscar de melhor direção, dessa vez por dois anos consecutivos (BirdmanO Regresso) e que já tinha noção de como era ser abraçado pelos membros da Academia com suas múltiplas indicações por Amores BrutosBabelBiutiful. E todos nós sabíamos que era questão de tempo para Guillermo Del Toro, amicíssimo de Cuarón e Iñárritu, chegar ao topo de sua relação com os norte-americanos (as únicas honrarias destinadas a um filme seu foram Oscars técnicos por O Labirinto do Fauno). O desafio de Del Toro, entretanto, era muito maior: apesar de encher incontáveis cinemas para se divertir com filmes de monstros, Hollywood tem uma dificuldade tremenda de levá-los a sério. Apaixonado por todo tipo de estranha criatura, o diretor precisava, de certa maneira, quebrar esse paradigma. E aí vem a linda notícia: com A Forma da Água, o recordista de indicações ao Oscar 2018 (são treze, ao total), ele chegou lá. E mais: repetindo os passos de Cuarón e Inãrritu, que também precisaram fazer filmes falados em inglês para serem reconhecidos apesar da longa trajetória em língua latina, mas que navegaram nessa transposição preservando todo o talento que, lá atrás, antes de qualquer prêmio, firmou cada um deles como os grandes realizadores que sempre foram.

Mais uma vez renegando as ideias comerciais, infantilizadas e enraizadas em filmes de cunho fantástico para mostrar ao espectador como é possível — e natural — discutir o ser humano através da fantasia, Del Toro faz de A Forma da Água um filme bonito por si só, mas que, não podemos negar, ganha sentido mais apurado frente ao mundo em que vivemos (tendência cada vez mais forte em uma boa parcela de produções ao redor do mundo, afinal, filmes também são, de um jeito ou de outro, registros de seus respectivos tempos). Basicamente, a trama principal acompanha uma faxineira muda que se apaixona por um monstro capturado por um laboratório. Quem chega perto de compreendê-la são apenas dois de seus amigos próximos: o vizinho gay e a colega negra. Vejam só a composição abertamente crítica e contemporânea: o bem, representado por esse trio de “minorias”, trava sua batalha contra o mal, aqui visto sob uma perspectiva facilmente reconhecível: a do chefe homem, autoritário, branco, engravatado, intolerante e atolado em preconceitos. A Forma da Água, claro, nos conduz para reflexões impossíveis de serem ignoradas em uma história como essa, como a ideia de que a folclórica monstruosidade que o cinema tanto nos ensinou a temer em criaturas estranhas é, na maioria das vezes, coisa coisa somente do ser humano. E já que o filme decide contar tudo isso em tom de fábula, quase como se fosse uma encantadora e envolvente animação, tais conotações ganham uma força ainda maior, pois poucas coisas mexem tanto com a gente quanto os sonhos e a assustadora ameaça de que eles podem ser destruídos inclusive por quem, em tese, deveria ser nosso semelhante.

Em ideias e conceito, A Forma da Água é muitíssimo bem resolvido, e todo o espetáculo visual proporcionado pelo filme ajuda a corroborar essa afirmação. É impossível não se impressionar com a trilha do prolífero Alexandre Desplat, que entrega um dos seus melhores trabalhos tanto pela identidade criada para a saga da protagonista Elisa (Sally Hawkins) quanto pela discrição ao narrar uma história sem ser invasivo ou explicativo. Não deixe escapar também o impressionante design de produção assinado por Paul D. Austerberry: ele é capaz de, através de lindas e sutis composições, criar encantamento e proximidade mesmo em ambientes desgastados pelo tempo e pelo descuido, como o próprio edifício onde mora a nossa heroína. Mais: completando a grande contribuição técnica para os sentidos, a fotografia de Dan Laustsen transita entre a inocência de Elisa e a vilania do chefe Strickland (Michael Shannon) com igual apuro e imponência. Del Toro captura tão bem essa composição que saímos da sessão com a certeza de que esse universo sempre esteve muito vivo em sua cabeça. Sensação semelhante é traduzida pelo ótimo: Richard Jenkins, o eterno Nathaniel Fisher do seriado Six Feet Under, e Octavia Spencer, agora distante das caricaturas de Histórias Cruzadas para se tornar uma atriz cada vez mais espontânea, estão ótimos como coadjuvantes de Sally Hawkins, uma atriz de talento singular que surpreende não pela destreza técnica ao dar vida a uma mulher que só comunica através de LIBRAS, mas por fazer emergir, com extrema delicadeza, os sentimentos antes negados e agora descobertos por essa mulher que sempre foi julgada por sua deficiência física. Hawkins brilha em cada cena de A Forma da Água, nada menos do que isso.

E como o assunto é elenco, chegamos a quem quase coloca a perder todo esse vitorioso universo: Michael Shannon. É um pouco chocante fazer essa constatação porque Shannon é ator dos grandes e porque é um tremenda decepção vê-lo fora de tom como aqui. Culpa exclusivamente dele? Jamais. Shannon perde sim a mão ao entrar até demais no overacting exigido para clássico um vilão de conto-de-fadas, mas com uma grande ajuda do roteiro, que se dedica em excesso a esse antagonista que não chega perto de causar um décimo do interesse que qualquer outro personagem do filme desperta. Para justificar tanta atenção, vilões precisam ser fascinantes em suas ambições e medidas descabidas, mas aqui Strickland é aquele tipo de figura que você não deseja conhecer e você quer apenas que ele logo caia fora de cena. Não ajuda o roteiro tratá-lo como um mero obstáculo na vida da protagonista, abordagem que torna suas cenas simplórias, repetitivas e responsáveis por quebrar o ritmo e o encantamento construídos com tanto talento paralelamente. Submerso em doses de doçura consideravelmente maiores se comparadas a outras de suas obras (mesmo protagonizado por uma criança, O Labirinto do Fauno, por exemplo, era uma obra dura e trágica), Del Toro sofistica muito mais a luz no fim do túnel do que as trevas no meio do caminho. A Forma da Água não perde sua beleza em função disso, mas, sem dúvida, deixa escapar, por pura bobeira, a chance de ser o longa irretocável que, em diversos momentos, chegou muito perto de ser.

Rapidamente: “120 Batimentos Por Minuto”, “Cinquenta Tons de Liberdade”, “Fala Comigo” e “Projeto Flórida”

Vencedor do Grande Prêmio do Júri no Festival de Cannes, o francês 120 Batimentos Por Minuto é um registro histórico de suma importância e um relato dramático de potente impacto.

120 BATIMENTOS POR MINUTO (120 Battements Par Minute, 2017, de Robin Campillo): Um dos mais elogiados filmes do último Festival de Cannes (inclusive um favorito de Pedro Almodóvar, presidente do júri), 120 Batimentos Por Minuto saiu do festival francês com o Grande Prêmio do Júri (espécie de segundo lugar), mas, injustamente ficou fora da disputa do Oscar 2018 de filme estrangeiro. Em linhas gerais, a história recupera as ações do Act Up, grupo ativista criado nos anos 1990 para exigir do governo medidas de prevenções contra a AIDS. Para esse retrospecto, o diretor Robin Campillo, que também assina o roteiro com a colaboração de Philippe Mangeot, mistura tons, digamos, mais “didáticos” com outros ficcionais bastante comoventes. E é surpreendente como ele alterna as reuniões do Atc Up para discutir as intervenções pela conscientização da AIDS com o relacionamento entre dois de seus integrantes sem jamais tornar o relato desarmônico. O ritmo não deixa de ser desafiador (muitas sequências são consideravelmente mais longas, com destaque para aquelas que acompanham os debates do grupo), mas nada se compara ao quanto o filme exige emocionalmente do espectador: é uma jornada dura ver o passar dos anos do protagonista Sean (Nahuel Pérez Biscayart, em grande desempenho), que, lutando contra a AIDS, começa a ver seus dias e sua saúde se esvaírem dia a dia. Nada em 120 Batimentos Por Minuto é maquiado ou econômico, o que rende diálogos detalhados com franqueza (uma cena muito íntima entre Sean e o namorado revela o relacionamento e a transa que lhe trouxeram a doença) e uma força dramática equivalente a um soco no estômago. Registro histórico importantíssimo e exercício dramático impactante, 120 Batimentos Por Minuto é uma produção para ser lembrada.

CINQUENTA TONS DE LIBERDADE (Fifty Shades Freed, 2018, de James Foley): Com o machismo completamente possessivo de Christian Grey (Jamie Dornan) já devidamente idealizado e consumado, além da questão sexual já resolvida entre ele e sua musa Anastasia (Dakota Johnson), não há mais o que ser dito em termos de história nesse terceiro e último capítulo da franquia Cinquenta Tons. O que resta para Christian e Ana é o casamento, que terá algumas pequenas intrigas (imaginem que absurdo ela não querer usar o sobrenome dele no trabalho!) e dilemas que, na vida real, seriam assunto sério para longas sessões de terapia, mas que, no filme, se tornam questões eventualmente bem humoradas e até abordadas com certo romantismo (Christian não quer ter filhos porque, assim, a mulher amada teria que dar praticamente toda a sua atenção para os filhos e não mais para ele). Existe também o ex-chefe de Anastasia, que após levar um fora da protagonista no filme anterior, agora resolve colocar em risco a vida da mocinha. Tudo papo furado para disfarçar a completa falta de assunto da franquia, que, ao menos, nos longas anteriores, causava certo escândalo pela abordagem errada de conflitos sérios ou certa graça pelo humor involuntário resultante de situações e interpretações que beiravam o ridículo. E, sem ter o que falar, Cinquenta Tons de Liberdade (aliás, onde está, afinal, essa liberdade?) anda infinitamente em círculos, incapaz de dar qualquer outra dimensão a personagens cujos principais conflitos e questionamentos já foram resolvidos. Pouca coisa mudou: a trilha continua sendo o ponto alto, os protagonistas seguem insossos e a nudez, como sempre, não é nada que impossibilite uma exibição na TV aberta, onde Anastasia, claro, se despe com muito mais frequência do que Christian. A diferença é que, em Cinquenta Tons de Liberdade, tudo parece invenção das mais preguiçosas para suprir duas horas de projeção sobre o nada. Se o filme é assim, é de se deduzir que o livro seja todo esse marasmo elevado à décima potência.

FALA COMIGO (idem, 2017, de Felipe Sholl): Quando você fica sabendo da existência de um projeto que reúne Karine Telles e Denise Fraga, duas das atrizes mais talentosas e preciosas que o cinema brasileiro tem atualmente, é inevitável esperar que esse encontro resulte em um grande filme. Não é o caso de Fala Comigo, que promove apenas duas cenas entre Karine e Denise, focando a sua trama no jovem Diogo, filho de uma terapeuta que acaba se envolvendo com Ângela (Karine), uma mulher muito mais velha tratada pela sua mãe. São facilmente identificáveis as razões que unem Diogo (Tom Karabachian) e Ângela: ele é virgem, está com os hormônios à flor da pele e quer, como todo adolescente, a tão sonhada independência, enquanto ela, recém saída de uma traumática separação, vive esse doloroso momento com oscilações de humor e crises de depressão. De maneira objetiva, Fala Comigo delineia bem os personagens, deixando claras as suas respectivas personalidades e motivações. No entanto, Felipe Sholl, que estreia na direção após ter escrito o roteiro de longas como Campo GrandeHistórias Que Só Existem Quando LembradasHoje (também com Denise Fraga), não sai muito da superfície para elucidar as vertentes dessa relação do ponto de vista emocional. Por isso mesmo Fala Comigo parece tão plano, como se lançasse uma discussão sem dar maiores subsídios para que o espectador consiga ir além das linhas gerais. Com um desfecho até provocativo frente a tudo o que a sociedade costuma definir como padrão para relacionamentos, o longa encontra mesmo a sua força no elenco, onde o jovem Tom Karabachian segura muito bem a responsabilidade de contracenar com as duas grandes atrizes que são Karine e Denise (a primeira, pela dimensão da personagem e pelo apelo da história, tem mais material para se destacar). Vamos ver como Felipe Sholl, sempre tão atento aos dramas humanos e cotidianos, se sai daqui para frente em outros projetos como diretor.

PROJETO FLÓRIDA (The Florida Project, 2017, de Sean Baker): Até pouco tempo atrás, vinha conquistando prêmios e mais prêmios da crítica para o coadjuvante Willem Dafoe, mas agora o momento parece ter passado. Ainda assim, é difícil Projeto Flórida não ter público garantido no circuito indie, muito em função do diretor Sean Baker, que repercutiu bem por aqui com o elogiado Tangerine. Seu novo trabalho descortina os contrastes entre infância e vida adulta, mostrando como os pequenos enxergam o mundo de forma muito diferente da nossa, mas, principalmente, como eles também podem ser afetados pelas duras realidades da vida que, infelizmente, não poupam ninguém. Ai de você, portanto, não gostar de uma obra trabalhada em cima da ingenuidade e de crianças que tentam, na medida do possível, viver o seu próprio universo. Pois, nesse caso, podem me acusar de insensível mesmo, pois Projeto Flórida me trouxe mais momentos de tédio e impaciência do que de emoção. É complicado achar o ponto certo em um longa como esse porque ele é todo trabalhado em cima de crianças que correm, brincam, cospem em carros e até colocam fogo em lugar abandonados. Acompanhar isso durante um tempo dá a graça e a delicadeza que a história precisa, mas há uma dedicação excessiva, fazendo com que, em muitas vezes, o filme não vá a lugar algum e só ganhe certa força com a pequena Brooklynn Prince, que tem um momento de partir o coração quando tudo chega à reta final. Enquanto isso, o mundo adulto também pouco envolve, em especial a mãe da protagonista, que deveria ser melhor explorada em suas complexidades para não ser apenas a progenitora irresponsável, mas de boas intenções com a filha. Até mesmo Willem Dafoe, tão mergulhado em um desempenho econômico, surge sem impressionar nesse filme que, muitíssimo bem fotografado e instigante visualmente, termina justamente quando parecia perto de trilhar caminhos mais ambiciosos.

Três atores, três filmes… com Ale Ceratti

Queridíssima cinéfila que conheci nos bastidores do Festival de Cinema de Gramado, a Ale Ceratti, assim como eu, é uma das profissionais que atua no evento serrano com paixão extra porque desde sempre gostou de cinema. Recentemente, a Ale passou a registrar suas experiências com filmes e séries no Instagram, mas, muito antes disso, ela já merecia estar aqui na coluna. E sabe por que? A Ale tem uma característica que considero rara inclusive em muitos críticos atualmente: a de ver o cinema com prazer e emoção para somente depois analisá-lo ou coisa do gênero. É assim que eu sinto a paixão dela pelo cinema, e tenho certeza que é isso que vocês também vão perceber nas escolhas da Ale para a coluna. Curiosidade: com essa lista, Kate Winslet conquista o tricampeonato na coluna com Brilho Eterno de Uma Mente Sem Lembranças, desempenho também lembrado nas participações dos meus amigos Wally Soares e José Luís

Lamberto Maggiorani & Enzo Staiola (Ladrões de Bicicleta)
Me deparei com Ladrões de Bicicleta pela primeira vez em 2003, em um curso de História do Cinema promovido pelo MARGS. Ao falar de Realismo Italiano, a professora exibiu a cena final de Ladrões de Bicicleta (foi neste dia que descobri o spoiler!). Fiquei encantada com o poder de expressão dos personagens principais, pai e filho e como, apenas com o olhar, conseguiam passar tantos sentimentos: angústia, medo, desespero, humilhação, compaixão. Só assistindo para entender a dimensão. Suas atuações ficam mais incríveis quando se sabe que ambos eram atores amadores e que aquele havia sido seu primeiro trabalho em frente às câmeras. No dia seguinte – graças à locadora do CV/UFRGS que contava com vários clássicos – consegui assistir ao filme na íntegra. Costumo dizer que este foi o filme que fez eu me apaixonar pelo Cinema e que me mostrou o poder que uma história bem contata tem de mexer com a gente. DU-VI-DO alguém assistir Ladrões de Bicicleta sem precisar de um lencinho!

Heath Ledger (O Cavaleiro das Trevas)
Simpatizei com Heath Ledger à primeira vista na comédia adolescente Dez Coisas que Eu Odeio em Você e pude acompanhar, filme a filme, seu crescimento como ator. É incrível ver como, em uma carreira tão curta, ele construiu uma obra tão diversa. Seu Coringa, de O Cavaleiro das Trevas, recebeu todos os prêmios possíveis, e arrisco dizer que o que lhe rendeu todo este reconhecimento não foi a morte prematura como muitos críticos/profissionais da área indicam, mas sim a cena em que o palhaço se pendura para fora de uma viatura de polícia, extasiado em ver a cidade ruindo, curtindo o vento na cara – dez segundos onde ele não fala nada, mas diz tudo! Uma das muitas cenas do filme onde podemos ver a força de sua interpretação e o compromisso na construção do personagem.

Kate Winslet (Brilho Eterno de Uma Mente Sem Lembranças)
Sou apaixonada pelo trabalho da Kate Winslet, que é, para mim, a maior “coringa” do cinema atual. Ela consegue adaptar seu visual, tom de voz e sotaque como ninguém, o que lhe permite passear suavemente por todos os gêneros. De todos os seus filmes, o meu preferido é Brilho Eterno de Uma Mente Sem Lembranças, onde ela interpreta uma mulher comum passando por fases de um relacionamento “complicado”, com suas alegrias e dúvidas, vivendo sem medo, tentando entender o que lhe faz bem (a metáfora das cores de cabelo é genial!). Kate interpreta Clementine de uma maneira que gera identificação imediata do espectador, e este é um dos maiores trunfos de um ator, quando o público empatizar com seu personagem, seja ele mocinho ou vilão. A facilidade com que ela muda sua expressão de derrota para um soluço de alegria ao pronunciar um simples OK para o personagem de Jim Carrey ao final do filme sempre coloca um sorriso no meu rosto.

Os vencedores do BAFTA 2018

Melhor filme do BAFTA 2018, Três Anúncios Para Um Crime também repete no prêmio britânico as estatuetas para Frances McDormand e Sam Rockwell.

Está registrada e sacramentada a temporada mais previsível e entediante de todos. Normalmente, essa é uma firmação que parece ser repetida ano após ano, mas, dessa vez, temos fatos: pela primeira vez, os vencedores das quatro categorias de atuação (Frances McDormand, Gary Oldman, Allison Janney e Sam Rockwell) se repetiram no Globo de Ouro, no Screen Actors Guild Awards, no Critics’ Choice Awards e no BAFTA. Com essa estatística, é caminho certo para que ganhem o Oscar também. A lógica é bastante semelhante em filme e direção, onde Três Anúncios Para Um Crime e A Forma da Água se alteram na primeira e Guillermo Del Toro (A Forma da Água) reina soberano na segunda. O BAFTA assinou embaixo de tudo isso, dando ligeira vantagem para Três Anúncios Para Um Crime, que saiu o prêmio com as estatuetas de melhor filme, atriz, ator coadjuvante, roteiro original e filme britânico. A divisão entre melhor filme e melhor direção parece um cenário real para o Oscar. Já considerando o segmento técnico, um panorama distributivista, onde apenas A Forma da ÁguaBlade Runner 2049 conquistaram duas categorias. Tratando-se de merecimento, há pouco o que ser celebrado: são injustificadas as reações tão eufóricas para Três Anúncios Para Um Crime e é perfeitamente possível trocar todos os vencedores entre os intérpretes premiados, mas isso é assunto para o futuro. Confira abaixo a lista completa de vencedores:

MELHOR FILME: Três Anúncios Para Um Crime
MELHOR DIREÇÃO: Guillermo Del Toro (A Forma da Água)
MELHOR ATRIZ: Frances McDormand (Três Anúncios Para Um Crime)
MELHOR ATOR: Gary Oldman (O Destino de Uma Nação)
MELHOR ATRIZ COADJUVANTE: Allison Janney (Eu, Tonya)
MELHOR ATOR COADJUVANTE: Sam Rockwell (Três Anúncios Para Um Crime)
MELHOR ROTEIRO ORIGINALTrês Anúncios Para Um Crime
MELHOR ROTEIRO ADAPTADO: Me Chame Pelo Seu Nome
MELHOR FILME BRITÂNICOTrês Anúncios Para Um Crime
MELHOR TRILHA SONORAA Forma da Água

MELHOR MAQUIAGEM E PENTEADOSO Destino de Uma Noção
MELHOR ANIMAÇÃO: Viva – A Vida é Uma Festa
MELHOR FIGURINOTrama Fantasma
MELHOR MONTAGEMEm Ritmo de Fuga
MELHOR FOTOGRAFIA: Blade Runner 2049

MELHORES EFEITOS VISUAIS: Blade Runner 2049
MELHOR DESIGN DE PRODUÇÃO: A Forma da Água
MELHOR SOMDunkirk

MELHOR DOCUMENTÁRIOEu Não Sou Seu Negro
MELHOR FILME ESTRANGEIRO: A Criada (Coréia do Sul)
MELHOR CURTA-METRAGEM DE ANIMAÇÃOPoles Apart
MELHOR CURTA-METRAGEM BRITÂNICO: Cowboy Dave

EEE RISING STAR: Daniel Kaluuya (Corra!)

Três Anúncios Para Um Crime

The time it took you to get out here whining like a bitch, Willoughby, some other poor girl’s probably out there being butchered.

Direção: Martin McDonagh

Roteiro: Martin McDonagh

Elenco: Frances McDormand, Sam Rockwell, Woody Harrelson, Peter Dinklage, John Hawkes, Caleb Landry Jones, Lucas Hedges, Abbie Cornish, Kerry Condon, Zeljko Ivanek, Amanda Warren, Selah Atwood, Darrell Britt-Gibson

Three Billboards Outside Ebbing, Missouri, EUA/Reino Unido, 2017, Drama, 115 minutos

Sinopse: Inconformada com a ineficácia da polícia em encontrar o culpado pelo brutal assassinato de sua filha, Mildred Hayes (Frances McDormand) decide chamar atenção para o caso não solucionado alugando três outdoors em uma estrada raramente usada. A inesperada atitude repercute em toda a cidade e suas consequências afetam várias pessoas, especialmente a própria Mildred e o detetive Willoughby (Woody Harrelson), responsável pela investigação.

6 de março de 2006. Foi logo na primeira hora desse dia, em plena madrugada, que milhões de cinéfilos do mundo inteiro acompanhavam atônitos uma das maiores reviravoltas do Oscar: Crash – No Limite, aos 45 do segundo tempo, desbancava o favorito absoluto O Segredo de Brokeback Mountain na categoria de melhor filme. O choque foi generalizado pela surpresa, claro, mas também porque Brokeback Mountain é reverenciado como uma obra-prima irrepreensível, enquanto Crash segue sendo acusado, entre outras coisas, de ser uma obra manipuladora e bagunçada em todas as suas discussões sobre racismo, xenofobia e qualquer tipo de intolerância. Considerado o pior vencedor do Oscar de todos os tempos, o longa assinado por Paul Haggis (diretor que esteve recentemente entre os inúmeros homens acusados de má conduta e assédio sexual em Hollywood) agora tem um irmão caçula: Três Anúncios Para Um Crime, filme equivocado que, por ser defendido por nomes respeitados e por se vender como uma comédia inteligente e politicamente incorreta, tem sido mais poupado do que deveria. E o pior: mais elogiado do que jamais mereceria, chegando ao Oscar 2018, inclusive, com toda pompa de favorito ao prêmio principal junto ao drama fantástico A Forma da Água.

Beira o chocante ver uma obra como Três Anúncios Para Um Crime flertando com celebração que tanto fez mal a Crash tempos atrás. Inclusive, um adendo se faz necessário: ainda que problemática para muitos, Crash era uma obra que, ao menos, tinha a autenticidade de assumir a série de coincidências que adotava como componente dramático de sua trama e, principalmente, a vontade de manipular as emoções do espectador. A situação é mais complicada com Três Anúncios Para Um Crime porque o filme se disfarça de obra esperta, temperamental e transgressora quando, lá no fundo, está repleta de problemas como as fáceis piadas de mau gosto com um personagem anão que só está ali para ser motivo de chacota e como a tão discutida redenção de um personagem racista (esse não chega a ser o maior dos problemas pois também precisamos refletir sobre até que ponto pessoas de ideias e conceitos discutíveis não podem ter algum material dramático digno de transformação ou evolução). O que faz o longa ser uma verdadeira bagunça são os pontos mais básicos do roteiro escrito pelo próprio diretor Martin McDonagh, que chegou a ser defendido como autor de um dos textos mais afiados dos últimos anos.

A arrancada por si só é aberta a questionamentos: McDonagh, que sempre foi conhecido pela utilização do humor (Na Mira do Chefe é um excelente exemplar desse seu talento), agora se confronta com uma história dramática e de pegada oposta aos seus trabalhos anteriores, que partiam da comédia para, aí sim, pensar em desdobramentos dramáticos. Em suma, Três Anúncios Para Um Crime nasce de uma ideia triste e provocadora: a de uma mãe que, desesperada, compra três outdoors em uma estrada para causar algum efeito nas investigações estagnadas do assassinato de sua filha, que foi estuprada até a morte. E aí vem piada atrás de piada, algumas delas eficientes na missão de potencializar sensações incômodos no espectador, mas que, no geral, não combinam com uma trama bem menos criativa do que o roteiro julga contar. É hiper rasa a dimensão dramática que McDonagh tenta dar aos seus personagens, incluindo a protagonista Mildred Hayes (Frances McDormand), que, bem defendida por Frances McDormand na medida do possível, já seria uma figura trágica, mas que o diretor insiste em dramatizar através de momentos até mesmo constrangedores, como no lamentável flashback onde ela, em uma histérica discussão, diz torcer para que sua filha seja estuprada por andar sozinha à noite pelas ruas, antecipando o que aconteceria tempos depois.

Três Anúncios Para Um Crime, contudo, não é centrado somente em Mildred, dividindo boa parte de sua história com outros personagens, em especial o policial racista e assumidamente escroto vivido por Sam Rockwell, um ator talentosíssimo que sempre serviu para qualquer papel. A divisão do protagonismo se dá na ideia da produção querer fazer, como o próprio diretor gosta de dizer, um amplo panorama desse mundo bagunçado que vivemos, como se fosse um doloroso mosaico em carne viva de pessoas que não sabem muito bem como reagir aos obstáculos e aos problemas da vida. Sob essa perspectiva, McDonagh, assim como no roteiro que Paul Haggis escreveu para Crash, coloca todas as cartas possíveis na mesa, fazendo a clássica confusão entre quantidade e qualidade. Tem questionamento sobre tudo o que você pode imaginar: abuso de poder, racismo, pedofilia, violência doméstica, e assim por diante… E quando digo que a quantidade se confunde com a qualidade é para elucidar, por exemplo, o desdobramento gratuito de uma amiga negra de Mildred que acaba na prisão. O momento quer falar sobre a frágil condição dos negros em situações onde autoridades brancas se aproveitam de condições privilegiadas, mas esquece que sequer sabíamos qualquer coisa sobre a personagem, antes uma mera figurante praticamente sem nome. Ora, quando uma personagem serve apenas de muleta para uma discussão temática, o roteiro se dilui.

A provocação mais inteligente de Três Anúncios Para Um Crime é não querer ser um filme de investigação, ainda que, no terço final, por um breve momento de sua última hora, decida o ser. A jogada esperta, que sabota de forma interessante várias expectativas, faz com que esse relato seja sobre o entorno do crime e sobre como uma decisão corajosa como a da protagonista é capaz de ter efeitos inesperados e fora de controle. Por mais que seja tortuoso como suspense, comédia e drama, é necessário reconhecer esse mérito que alivia um pouco a barra de uma obra cujo maior estofo está no talentoso elenco reunido aqui, todos bons por natureza e não por incentivo do filme. Por maior que seja a boa vontade com Três Anúncios Para Um Crime, é um árduo desafio compreender como um longa problemático e dispersivo como esse tenha chegando tão longe com o público e com a crítica desde a sua primeira elogiada exibição no Festival de Veneza em setembro do ano passado. Infelizmente, não é a experiência relevante que precisávamos sobre uma série de mazelas que atingem o conturbado mundo em que vivemos nos dias de hoje. Se o destino for justo, será apenas questão de tempo para que todos percebam a manipulação velada e os problemas reais de um filme cuja personalidade é somente confusa e fora de tom.