Cinema e Argumento

Melhores de 2017: indicados

Dirigido por Damien Chazelle, La La Land: Cantando Estações é finalista em 11 categorias nos melhores do ano do Cinema e Argumento, quebrando os recordes de O Grande Hotel Budapeste e Mad Max: Estrada da Fúria.

Selecionar os melhores filmes para um balanço anual tem se tornando um desafio cada vez mais complicado visto a crescente diversidade e democratização de todo e qualquer tipo de cinema, seja aquele produzido para a tela grande ou para uma plataforma on demand. Quando se trata de cinema brasileiro, então, a coisa fica ainda pior: este ano, excelentes obras produzidas aqui na nossa terra tiveram que ficar de fora da seleção final aqui do blog simplesmente por falta de espaço (Bingo – O Rei das ManhãsDivinas DivasCorpo Elétrico), o que não quer dizer, claro, que elas não seriam merecedoras de figurar em diversas categorias. 

Como vocês poderão observar abaixo, a nossa lista tenta refletir de forma orgânica o melhor dessa multiplicidade de gêneros, estilos e produção: na categoria principal, por exemplo, concorrem um musical, um filme de super-herói, uma obra amada e destroçada com a mesma intensidade, um drama poderosíssimo sobre a força do luto (e também dos laços que nos recompõem) e um filme de difícil definição estrelado por uma atriz outrora desacreditada. Mesmo com o coração partido por deixar de fora determinados longas e atores, essa é uma lista que foi elaborada sem concessões, além de guiada totalmente pela emoção e pela identificação. Os vencedores vocês descobrirão ao longo das próximas semanas! Lembrando que histórico completo da nossa premiação pode ser conferido aqui.

MELHOR FILME
La La Land: Cantando Estações
Logan
Mãe!
Manchester à Beira-Mar

Personal Shopper

MELHOR DIREÇÃO
Damien Chazelle (La La Land: Cantando Estações)

Darren Aronofsky (Mãe!)
Jordan Peele (Corra!)
Kenneth Lonnergan (Manchester à Beira-Mar)
Olivier Assayas (Personal Shopper)

MELHOR ELENCO
Como Nossos Pais
Estrelas Além do Tempo

O Estranho Que Nós Amamos
Um Mergulho no Passado
Moonlight: Sob a Luz do Luar

MELHOR ATRIZ
Emma Stone (A Guerra dos Sexos)
Jennifer Lawrence (Mãe!)
Jessica Chastain (Armas na Mesa)
Kate Winslet (Roda Gigante)
Kristen Stewart (Personal Shopper)

MELHOR ATOR
Casey Affleck (Manchester à Beira-Mar)
Hugh Jackman (Logan)
James McAvoy (Fragmentado)
Ralph Fiennes (Um Mergulho no Passado)
Steve Carell (A Guerra dos Sexos)

MELHOR ATRIZ COADJUVANTE
Clarisse Abujamra (Como Nossos Pais)
Michelle Pfeiffer (Mãe!)

Michelle Williams (Manchester à Beira-Mar)
Naomie Harris (Moonlight: Sob a Luz do Luar)
Nicole Kidman (Lion: Uma Jornada Para Casa)

MELHOR ATOR COADJUVANTE
Jeff Bridges (A Qualquer Custo)
Lucas Hedges (Manchester à Beira-Mar)
Mahershala Ali (Moonlight: Sob a Luz do Luar)
Matthias Schoenaerts (Um Mergulho no Passado)
Patrick Stewart (Logan)

MELHOR ROTEIRO ORIGINAL
Bom Comportamento
Corra!
Mãe!
Manchester à Beira-Mar
Personal Shopper

MELHOR ROTEIRO ADAPTADO
Extraordinário
O Filme da Minha Vida
Logan
Moonlight: Sob a Luz do Luar
Minha Vida de Abobrinha

MELHOR TRILHA SONORA
Bom Comportamento
A Criada
Dunkirk

La La Land: Cantando Estações
Moonlight: Sob a Luz do Luar

MELHOR MONTAGEM
Até o Último Homem
Bom Comportamento
Dunkirk
Em Ritmo de Fuga

La La Land: Cantando Estações

MELHOR FOTOGRAFIA
Blade Runner 2049
Dunkirk
La La Land: Cantando Estações
Moonlight: Sob a Luz do Luar
Roda Gigante

MELHOR DESIGN DE PRODUÇÃO
A Bela e a Fera
Blade Runner 2049
A Criada
O Estranho Que Nós Amamos
La La Land: Cantando Estações

MELHOR FIGURINO
A Bela e a Fera
A Criada
Jackie
La La Land: Cantando Estações
Victoria & Abdul: O Confidente da Rainha

MELHOR SOM
Até o Último Homem
Blade Runner 2049
Dunkirk
Em Ritmo de Fuga
La La Land: Cantando Estações

MELHOR CANÇÃO ORIGINAL
“Another Day of Sun” (La La Land: Cantando Estações)
“Audition (The Fools Who Dream)” (La La Land: Cantando Estações)
“City of Stars” (La La Land: Cantando Estações)
“How Far I’ll Go” (Moana: Um Mar de Aventuras)
“This is Me” (O Rei do Show)

MELHORES EFEITOS VISUAIS
Blade Runner 2049
Planetas dos Macacos: A Guerra
Star Wars: Os Últimos Jedi

MELHOR MAQUIAGEM E PENTEADOS
Blade Runner 2049
Extraordinário
Okja

Os vencedores do Oscar 2018

Depois de Alfonso Cuarón e Alejandro González-Iñárritu, outro diretor mexicano conquista o Oscar: Guillermo Del Toro é o grande vencedor da cerimônia em 2018 com A Forma da Água, vencedor em quatro categorias, incluindo melhor filme.

Seguindo a linha de todas as outras premiações, o Oscar 2018 consagrou, no geral, todos os favoritos até então ou, ao menos, aqueles que eram considerados alternativas. Foi o ponto final esperado para uma temporada que, apesar da diversidade em qualidade e estilo de seus indicados, em nenhum momento chegou perto de ousar, seja nas categorias principais ou nas técnicas. Vejam bem, não falo da surpresa pela surpresa e sim da capacidade de pensar diferente em uma lista que claramente permitiria isso. Com quatro vitórias, incluindo filme e direção, A Forma da Água confirmou o seu favoritismo como melhor filme, principalmente porque, lá pelo meio da cerimônia, Três Anúncios Para Um Crime perdeu a categoria de roteiro original para Corra! (era sua única esperança de um triunfo maior, visto que não concorria em direção).

Com a celebração de A Forma da Água, a teoria de que o filme mais apaziguador reina no Oscar novamente se confirma. No entanto, não vale reduzir o filme de Del Toro a essa estatística: é super importante (e cinematograficamente justo) que cada vez mais sejam celebradas obras onde os heróis são uma faxineira muda, uma faxineira negra, um artista gay e um cientista comunista, especialmente quando eles estão todos contra o homem branco, engravatado, elitista, autoritário e preconceituoso. Para uma cerimônia de 90 anos, faltou um espírito maior de celebração, mas, quando um diretor mexicano que a vida inteira fez carreira com histórias de cunho fantástico ganha o Oscar de melhor filme, só temos a comemorar. Confira a lista completa de vencedores:

MELHOR FILME: A Forma da Água
MELHOR DIREÇÃO: Guillermo Del Toro (A Forma da Água)
MELHOR ATRIZ: Frances McDormand (Três Anúncios Para Um Crime)
MELHOR ATOR: Gary Oldman (O Destino de Uma Nação)
MELHOR ATRIZ COADJUVANTE: Allison Janney (Eu, Tonya)
MELHOR ATOR COADJUVANTE: Sam Rockwell (Três Anúncios Para Um Crime)
MELHOR ROTEIRO ADAPTADO: Me Chame Pelo Seu Nome
MELHOR ROTEIRO ORIGINAL: Corra!
MELHOR TRILHA SONORA: A Forma da Água
MELHOR CANÇÃO ORIGINAL: “Remember Me” (Viva – A Vida é Uma Festa)
MELHOR MONTAGEM: Dunkirk
MELHOR FOTOGRAFIA: Blade Runner 2049
MELHOR FIGURINO: Trama Fantasma
MELHOR DESIGN DE PRODUÇÃO: A Forma da Água

MELHOR MAQUIAGEM E PENTEADOS: O Destino de Uma Nação
MELHOR EDIÇÃO DE SOM: Dunkirk
MELHOR MIXAGEM DE SOM: Dunkirk
MELHORES EFEITOS VISUAIS: Blade Runner 2049
MELHOR FILME ESTRANGEIRO: Uma Mulher Fantástica (Chile)
MELHOR DOCUMENTÁRIO: Ícaro
MELHOR ANIMAÇÃO: Viva – A Vida é Uma Festa
MELHOR CURTA-METRAGEM: The Silent Child
MELHOR CURTA-METRAGEM (DOCUMENTÁRIO): Heaven is a Traffic Jam on the 405
MELHOR CURTA-METRAGEM (ANIMAÇÃO): Dear Basketball

Apostas para o Oscar 2018

A possibilidade de ter até nove indicados na categoria principal já proporciona por si só uma grande variedade de filmes, mas a renovação do corpo de votantes do Oscar feita pela ex-presidente Cheryl Boone Isacs no segundo semestre de 2016 já surte um efeito maior. Talvez nunca tenha existido na história da premiação uma seleção tão coerente com os nossos tempos: este ano, na categoria de melhor filme, tem obra dirigida por mulher, por negro, por mexicano, por italiano, e por aí vai, para não entrarmos apenas na questão de gêneros, que passa por drama, suspense, comédia, fantasia e guerra. Este é, enfim, o Oscar que reflete os estilos de cinema que vemos ao longo ano. Não há como negar essa linda vitória.

Com o quarteto de atores já com suas estatuetas praticamente em mãos (nem tente inventar qualquer surpresa para Frances McDormand, Gary Oldman, Allison Janney e Sam Rockwell), restam pouquíssimas disputas abertas. A maior é na categoria principal, que teria Três Anúncios Para Um Crime como soberano, caso o diretor Maruin McDonagh não tivesse ficado de fora da categoria de direção. É raríssimo um filme ganhar o Oscar na categoria principal sem indicação para seu diretor (Argo venceu anos atrás, mas o movimento reivindicando o esquecimento de Ben Affleck era infinitamente maior). Também existe o agravante do sistema de votação de melhor filme escolher a obra que, na escala de preferência dos votantes, alcançou a melhor média de aprovação. E Três Anúncios é ao mesmo tempo defendido e rejeitado com igual intensidade. Em tese, é caminho fácil para A Forma da Água, um longa mais apaziguador, faturar os dois grandes prêmios da noite.

Se a responsabilidade de escolher os vencedores estivesse nas minhas mãos, o cenário seria bastante diferente, mesmo gostando muito de sete dos nove indicados ao Oscar de melhor filme (uma estatística que tem sido compartilhada por muita gente e que acredito ser histórica desde que passaram a ser selecionadas até 10 obras para o prêmio principal). Não pensaria duas vezes antes de escolher Trama Fantasma como o melhor candidato de diversas categorias, incluindo melhor filme e direção. Já entre os atores, torcida total Sally Hawkins (A Forma da Água), Daniel Day-Lewis (Trama Fantasma), Laurie Metcalf (Lady Bird: A Hora de Voar) e Christopher Plummer (Todo o Dinheiro do Mundo). As categorias restantes vocês podem conferir abaixo junto à minha lista de apostas. 

Antes de assistir à cerimônia de 90 anos do Oscar, reforço o convite que todos participem da nossa live no Facebook. É a partir das 20h com comentários sobre favoritos nas categorias de filme e direção, além das categorias técnicas (os atores já foram comentadas em outras transmissões que seguem disponíveis na página). Lembrando que o Oscar 2018 será transmitido aqui no Brasil pela TNT a partir das 22h. A apresentação é de Jimmy Kimmel. Quem quiser relembrar a lista de indicados basta clicar aqui.

MELHOR FILMEA Forma da Água / alt: Três Anúncios Para Um Crime
Meu voto: Trama Fantasma

MELHOR DIREÇÃO: Guillermo Del Toro (A Forma da Água) / alt: Jordan Peele (Corra!)
Meu voto: Paul Thomas Anderson (Trama Fantasma)

MELHOR ATRIZ: Frances McDormand (Três Anúncios Para Um Crime) / alt: Sally Hawkins (A Forma da Água)
Meu voto: Sally Hawkins (A Forma da Água)

MELHOR ATOR: Gary Oldman (O Destino de Uma Nação) / alt: Timothée Chalamet (Me Chame Pelo Seu Nome)
Meu voto: Daniel Day-Lewis (Trama Fantasma)

MELHOR ATRIZ COADJUVANTE: Allison Janney (Eu, Tonya) / alt: Laurie Metcalf (Lady Bird: A Hora de Voar)
Meu voto: Laurie Metcalf (Lady Bird: A Hora de Voar)

MELHOR ATOR COADJUVANTE: Sam Rockwell (Três Anúncios Para Um Crime) / alt: Willem Dafoe (Projeto Flórida)
Meu voto: Christopher Plummer (Todo o Dinheiro do Mundo)

MELHOR ROTEIRO ORIGINALTrês Anúncios Para Um Crime / alt: Corra!
Meu voto: Lady Bird: A Hora de Voar

MELHOR ROTEIRO ADAPTADOMe Chame Pelo Seu Nome / alt: Mudbound: Lágrimas Sobre o Mississippi
Meu voto: Me Chame Pelo Seu Nome

MELHOR FOTOGRAFIABlade Runner 2049 / alt: A Forma da Água
Meu voto: Blade Runner 2049

MELHOR FIGURINOTrama Fantasma / alt: A Bela e a Fera
Meu voto: Trama Fantasma

MELHOR MIXAGEM DE SOMDunkirk / alt: Em Ritmo de Fuga
Meu voto: Dunkirk

MELHOR EDIÇÃO DE SOMDunkirk / alt: Em Ritmo de Fuga
Meu voto: Dunkirk

MELHORES EFEITOS VISUAISBlade Runner 2049 / alt: Planeta dos Macacos: A Guerra
Meu voto: Blade Runner 2049

MELHOR TRILHA SONORAA Forma da Água / alt: Dunkirk
Meu voto: Trama Fantasma

MELHOR DESIGN DE PRODUÇÃOA Forma da Água / alt: Blade Runner 2049
Meu voto: Blade Runner 2049

MELHOR CANÇÃO ORIGINAL: “Remember Me” (Viva – A Vida é Uma Festa) / alt: “This is Me” (O Rei do Show)
Meu voto: “Mystery of Love” (Me Chame Pelo Seu Nome)

MELHOR FILME ESTRANGEIROSem Amor (Rússia) / alt: Uma Mulher Fantástica (Chile)
Meu voto: Sem Amor (Rússia)

MELHOR ANIMAÇÃOViva – A Vida é Uma Festa / alt: Com Amor, Van Gogh
Meu voto: Viva – A Vida é Uma Festa

MELHOR DOCUMENTÁRIOVisages, Villages / alt: Últimos Homens em Aleppo

MELHOR CURTA-METRAGEMThe Silent Child / alt: DeKalb Elementary

MELHOR CURTA-METRAGEM (ANIMAÇÃO)Lou / alt: Garden Party

MELHOR CURTA-METRAGEM (DOCUMENTÁRIO)Edith+Eddie / alt: Heroin(e)

Trama Fantasma

Whatever you do, do it carefully.

Direção: Paul Thomas Anderson

Roteiro: Paul Thomas Anderson

Elenco: Daniel Day-Lewis, Vicky Krieps, Lesley Manville, Sue Clark, Joan Brown, Harriet Leitch, Dinah Nicholson,  Julie Duck, Maryanne Frost, Elli Banks, Amy Cunningham, Amber Brabant

Phantom Thread, EUA, 2017, Drama, 130 minutos

Sinopse: Década de 1950. Reynolds Woodcock (Daniel Day-Lewis) é um renomado e confiante estilista que trabalha ao lado da irmã, Cyril (Lesley Manville), para vestir grandes nomes da realeza e da elite britânica. Sua inspiração surge através das mulheres que constantemente entram e saem de sua vida. Mas tudo muda quando ele conhece a forte e inteligente Alma (Vicky Krieps), que vira sua musa e amante. (Adoro Cinema)

É possível regular as expectativas com diretores que estão acostumados a entregar obras-primas no cinema? Tratando-se de Paul Thomas Anderson, a situação é ainda mais complexa: responsável por obras irretocáveis dos anos 1990 como Magnólia Boogie Nights – Prazer Sem Limites, além de filmes recentes que já carregam a mesma influência (Sangue Negro costuma ser o favorito em todas as listas, mas cito também o poderoso e particular O Mestre), o cineasta volta a acrescentar outro título notável para sua celebradíssima carreira. Claro que só o tempo confirmará, mas, agora, no calor do momento, não parece exagero colocar Trama Fantasma como mais um dos grandes filmes do diretor. 

Marcado como a despedida do ator Daniel Day-Lewis (ele anunciou, de forma discreta e sem muitas explicações, que chegou a hora de se aposentar), Trama Fantasma esbanja o domínio fílmico tão característico de Paul Thomas Anderson. É o que define bons cineastas e o que nos dá a certeza de seus respectivos talentos: quando você identifica cada composição, plano e conjugação de texto, som e imagem sabendo exatamente quem é o responsável pelo conjunto. No entanto, Anderson não trabalha a seu favor (muitos diretores acham que dirigir bem é sinônimo de dirigir bonito, com certa vaidade), e sim em prol da história, que se engrandece com a elegância, a sobriedade e a vontade do cineasta em não facilitar as coisas para quem está do lado de cá da tela.

Sempre trabalhando com personagens únicos em personalidades e complexidades, Anderson abandona tanto a ideia de fazer um filme especificamente sobre moda quanto de falar sobre processos criativos. Claro que esses são assuntos que permeiam e pontuam Trama Fantasma, mas são detalhes que convergem em uma história centrada nos vícios, nos malefícios e nas (im)perfeições dos relacionamentos amorosos, a começar pelo protagonista que, em linhas gerais, é autoritário, machista e cheio de si, como se o seu talento e sua trajetória profissional fossem desculpa para que mulheres se submetam a qualquer uma de suas vontades.

Reyndolds Woodcock (Day-Lewis) agiu assim durante toda a vida, tirando da musa da vez tudo aquilo que precisava para uma nova coleção ou para uma nova peça, sem jamais enxergar uma amante, e sim alguém que deveria mais é agradecer pela chance de conviver com um homem talentoso como ele. Até mesmo Cyril (Lesley Manville), a única mulher que Reyndolds respeita por ser sua irmã ou por ser quem comanda com mãos de ferro o seu atelier, não deixa de o tratar com certa reverência. Entretanto, chega Alma (Vicky Krieps), que coloca tudo de pernas do ar por, a sua maneira, desafiar as dinâmicas daquele ambiente e os modelos de relacionamento cultivados por Reynolds, um homem que, como tantos outros, não têm ideia do quanto renega a importância das mulheres para, na verdade, ser definido por elas.

O ponto de virada na esperteza de Trama Fantasma é tratar Reynolds e Alma praticamente como oponentes. De início, ela segue os passos de suas antecessoras: deixa de fazer barulho durante o café-da-manhã para não estressar seu amante, acorda às quatro da madrugada para trabalhar com ele em um vestido e ouve todo tipo de comentário que Reynolds tenta travestir de elogio, mas que só revelam o quanto ele olha para as relações humanas com oportunismo artístico, como no primeiro encontro entre os dois, onde, já tirando as medidas de Alma, afirma que seus seios são menores do que a média com que está acostumado a lidar e que cabe a ele definir se irá exaltá-os ou não em um figurino. 

Por gostar de Reynolds (e aí estão as confusões emocionais causadas por relacionamentos tóxicos), Alma decide não abandoná-lo e permanece na casa, reivindicando desse homem tudo aquilo que, antes, jamais era dito ou clamado por qualquer mulher. A dinâmica instalada a partir daí é de confronto: uma simples refeição pode ser uma incansável quebra de braço entre os dois, e Reynolds, mesmo incomodado, de repente percebe que finalmente encontrou uma mulher à altura. A partir dessa manipulação e dessa co-dependência, Trama Fantasma ilumina as relações que diariamente se destroem e se reconstroem em ciclos viciosos e de auto-ilusão, já que Alma não deixa de representar o caso clássico de mulher abusada emocionalmente e que, de um jeito ou de outro, sempre cede ao seu homem.

O universo de perfeição costurado pelos lindos figurinos, pela impecável fotografia assinada pelo próprio Anderson e pela trilha arrebatadora de Jonny Greenwood ajuda na claustrofobia, pois costuma ser muito mais doloroso encontrar desconstrução e dor em um mundo aparentemente perfeito do que em um contexto que por si só sugere sofrimento e instabilidade. Seja no roteiro ou na direção, Anderson extrai o melhor dos sentidos ao apostar em um ritmo contemplativo e pausado, o que amplia a sensação propositalmente incômoda da obra. Trama Fantasma é de uma elegância ímpar, afirmação que se estende ao formato e, claro, ao conteúdo.

Por fim, despedindo-se da carreira de ator, Daniel Day-Lewis arrasa novamente, interiorizando as sensações e os pensamentos de um personagem que permitiria hipérboles e até caricaturas. É o tipo de papel que só poderia ser para ele, e é por isso mesmo que assusta o quanto Vicky Krieps, cumprindo uma tarefa dificílima, consegue se equiparar ao ator em força e inteligência. Essa dupla fenomenal também está em excelente companhia: Lesley Manville, frequente colaboradora do diretor Mike Leigh, é cortante e imponente com um simples olhar, evocando uma autoridade quase impossível diante do protagonista. Merecidamente reconhecido pelo Oscar 2018 com surpreendentes indicações em seis categorias, incluindo filme e direção, Trama Fantasma é o tipo de projeto que não termina após a sessão e que, muito em breve, será tema de novas leituras, conversas e discussões. E esse não é o melhor presente que um filme pode nos dar?

Cinema e Argumento comenta o Oscar 2018 com programação especial em vídeo

Lives do blog sobre o Oscar 2018 será comandada pelo editor Matheus Pannebecker, com a participação da jornalista Lou Cardoso. Foto: Bianca Carneiro.

Como forma de aquecimento para o Oscar 2018, que acontece no próximo domingo, 4 de março, o Cinema e Argumento realizará uma série de transmissões ao vivo na página do blog no Facebook para fazer suas avaliações e apostas para a festa mais aguardada e disputada do cinema mundial.

De sexta-feira até domingo, o editor Matheus Pannebecker estará acompanhado da jornalista Lou Cardoso, autora do blog Cine Lou e repórter do jornal Correio do Povo, para comentar as categorias principais da premiação. O cinéfilo Acauã Brondani também faz participações especiais na programação. 

Lembrando que, nesta temporada, o Cinema e Argumento já realizou duas lives comentando todos os nove filmes indicados na categoria principal do Oscar. Com as próximas três transmissões, o blog contabilizará mais de cinco horas de produção de conteúdo em vídeo sobre a cerimônia. Todas as transmissões ficam arquivadas na página.

Confira abaixo as informações sobre a programação que começa hoje no Facebook:

  • SEXTA-FEIRA, 2 de março, às 20h: atores protagonistas e coadjuvantes
  • SÁBADO, 3 de março, às 20h: atrizes protagonistas e coadjuvantes
  • DOMINGO, 4 de março, às 20h: filmes, direção e apostas técnicas