Cinema e Argumento

Adeus, 2019! (e as melhores cenas do ano)

2019 foi um ano difícil. A enxurrada de notícias absurdas, reviravoltas políticas inacreditáveis e desmontes que levarão anos (talvez décadas) para serem recuperados abalou a estrutura de um Brasil já fraturado há alguns anos. Como sempre, os filmes foram o meu refúgio. Na sala de cinema, mesmo revisitando nossas angústias diárias discutidas por filmes de tantos cantos do mundo, mergulhei em outras dimensões. Dez dos momentos que mais me marcaram estão listados abaixo, sem ordem de preferência, seguindo a tradição do blog ao final de cada ano. Que estas sequências sirvam de retrospectiva para 2019 e que também nos dêem força e vigor para encarar 2020. Continuamos juntos, queridos leitores!

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O sorriso de Zain em Cafarnaum

Possivelmente o único vislumbre de esperança no poderoso filme de Nadine Labaki. Mais um momento avassalador do pequeno Zain al Rafeea, que estraçalhou meu coração durante pouco mais de duas horas. Embalada pela marcante trilha de Khaled Mouzanar, é uma imagem hipnotizante capaz de ecoar durante muito tempo após a sessão.

O reencontro de Salvador e Federico em Dor e Glória

Todo o universo de uma paixão intensa e impossível traduzido em uma única noite. Antonio Banderas e Leonardo Sbaraglia criam uma química de tirar o fôlego. Uma cena cuja sensibilidade, profundidade e dimensão só poderia vir de um cineasta tão humano e apaixonado como Pedro Almodóvar.

Uma dança para a rainha Anne em A Favorita

A cena que merecidamente garantiu o Oscar de melhor atriz para a excepcional Olivia Colman. Em um plano sem cortes, o diretor Yorgos Lanthimos aproxima o espectador do rosto de uma personagem cujos sentimentos se modificam a cada segundo. Uma aula de atuação sem uma palavra sequer, baseada em expressões que sintetizam a grandeza de uma intérprete.

A participação especial de Fernanda Montenegro em A Vida Invisível

Seja na TV, no teatro ou no cinema, o ar parece se transformar quando Fernanda Montenegro entra em cena. Não é diferente em A Vida Invisível. Com uma participação especial de cortar o coração, ela dobra a intensidade dramática do filme, fechando a trama com chave de ouro.

Sorrindo para o caos em Coringa

Sequência que marca um dos auges da imponente interpretação de Joaquin Phoenix. Quando Coringa finalmente nasce em meio ao caos, o ator segue preocupado em mergulhar no homem conturbado por trás de um sorriso desenhado com sangue. Perturbadora e intensa, a cena seria o desfecho perfeito caso Coringa não tivesse avançado um tantinho mais na história.

Uma ligação carregada de culpa em O Irlandês

Entre murmuros, hesitações e espantos, Robert De Niro tem, em uma ligação assombrada pela culpa, o seu maior momento em muitos anos. Todo o remorso de um personagem lidando com as consequências e os fantasmas de suas escolhas é capturado com plenitude pelo ator. Precisamos sempre de mais momentos como esse para De Niro.

O número musical da canção-título de Rocketman

Passagem que melhor sintetiza a criatividade e a liberdade artística de Rocketman. Por ter carta branca de Elton John e por se permitir explorar a magia que sempre cercou a carreira do cantor, o musical de Dexter Fletcher escapa do lugar-comum, especialmente nessa cena da canção-título, que leva Elton da overdose em uma piscina ao céu como um foguete.

Noite de chuva em Parasita

Mais do que um momento específico, todo o ato envolvendo a noite de chuva em Parasita é um assombro. Com reviravoltas, críticas sociais e diferentes leituras dramáticas, Bong Joon-ho leva o espectador por caminhos surpreendentes e inesperados, dando mais uma guinada nas tantas transformações de gênero trabalhadas ao longo da projeção.

Invasão ao edifício em Mormaço

Totalmente alinhado com a nossa realidade, Mormaço é uma inquietante experiência que começa quase documental para, aos poucos, tornar-se uma obra de toques fantásticos, flertando até mesmo com o terror. E a sequência final, que acompanha uma invasão da polícia carioca a um prédio em particular, é um pesadelo social que Marina Meliande filma com brutalidade e veracidade.

Reunião familiar em Se a Rua Beale Falasse

Quando Barry Jenkins reúne as duas famílias de Se a Rua Beale Falasse para um jantar onde Tish (KiKi Layne) revelará uma importante notícia, as melhores características do longa vêm à tona, começando pela forma crítica com que olha para estereótipos e indo até a leitura sensível que faz do verdadeiro significado da palavra família.  

Charlie e a carta de Nicole em História de Um Casamento

A cena de discussão entre os dois protagonistas já é famosa, mas prefiro ficar com a sequência em que Charlie (Adam Driver) encontra a carta que Nicole (Scarlett Johansson) não leu na sessão de terapia frequentada pelos dois. A interpretação de Driver é maravilhosa, e o momento, dividido entre a melancolia e o afeto, compreende que nem todo término de relação deixa apenas gostos amargos.

As dez melhores séries de 2019

Watchmen, da HBO, é uma das melhores séries do ano. No programa criado por Damon Lindelof, o universo dos quadrinhos é adaptado com personalidade própria e sem fórmulas tradicionais.

É hora de dar o start na brincadeira dos melhores do ano. Vi o que pude em um ano que não me permitiu ver tantos filmes e seriados quanto eu gostaria. Selecionei aquelas obras que mais me tocaram de alguma forma. Listas, como sempre, são muito pessoais e dizem mais sobre quem as faz do que necessariamente sobre os escolhidos em si. Gosto dessa lógica. Começo abaixo pelas séries, elencando as minhas dez favoritas de 2019 (sem ordem de preferência).

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The Act (Hulu, primeira temporada)
Uma antologia tão macabra que só poderia mesmo ter a vida real como inspiração. Temporada de oito episódios com duas grandes performances de Joey King e Patricia Arquette. Vale a dobradinha com o documentário Mamãe Morta e Querida, da HBO, sobre a mesma história. A Hulu ainda não deu informações sobre uma segunda temporada. Relembre a crítica publicada aqui no blog.

After Life (Netflix, primeira temporada) 
O trabalho mais sentimental da carreira de Ricky Gervais, sem perder a acidez típica do ator/diretor/roteirista. Um olhar tão delicado quanto tragicômico sobre o luto e sobre os desafios de (tentar) seguir em frente. Já está renovada para mais uma temporada.

The Crown (Netflix, terceira temporada)
Olivia Colman assume o protagonismo da terceira temporada de “The Crown” com o brilhantismo de sempre. De contornos muito mais políticos e morais, a nova fase da série tem na divisão democrática de espaço com os coadjuvantes a sua maior potência narrativa. A quarta temporada estreia em 2020, novamente com Olivia Colman.

Chernobyl (HBO, minissérie)
Uma densa crítica em torno da negligência, da mentira e da irresponsabilidade que parte de políticos e governantes em situações de crise. Ao centrar a história na forma como toda mentira é cobrada e como sempre há um preço a ser pago, a HBO criou um dos grandes eventos televisivos do ano.

Fleabag (Amazon Prime, segunda temporada)
Raramente vemos séries sobre uma personagem feminina, errática e complexa que diz muito mais sobre nós mesmos do que estamos dispostos a admitir. Fleabag é uma pérola porque compreende a força da comédia para falar sobre nossos anseios mais incômodos. A série não terá mais temporadas.

Modern Love (Amazon Prime, primeira temporada)
Uma grande evolução na relação da Amazon com o grande o público, embalada pelo toque delicado de John Carney como showrunner. Tem histórias mais interessantes do que outras, mas é uma experiência carinhosa e encabeçada por um grande elenco. Uma nova temporada já foi encomendada pela Amazon.

Mrs. Fletcher (HBO, primeira temporada)
Kathryn Hahn está inspiradíssima nessa pérola da HBO que passou despercebida em quase todas as listas do ano. Vale correr atrás: Mrs. Fletcher tem mais um texto lindo de Tom Perrotta e escapa de todos os clichês envolvendo a síndrome do ninho vazio. A HBO ainda não anunciou se o programa será renovado para uma segunda temporada. Relembre a crítica publicada aqui no blog.

Years and Years (HBO/BBC, minissérie)
Perturbadora análise sobre tudo que pode acontecer em um futuro que, na verdade, já está muito próximo. São seis episódios afiadíssimos que capturam o caos político e moral de uma era que escolheu aplaudir a ignorância e a má fé de toscos governantes. Relembre a crítica publicada aqui no blog.

Watchmen (HBO, primeira temporada)
A expectativa era grande porque The Leftovers é o meu seriado favorito da década, mas Watchmen dá sequência ao que Damon Lindelof vem fazendo de melhor como contador de histórias. Os nerds espumaram de raiva. Sinal de que a série realmente é um espetáculo. Lindelof diz ter idealizado a série para somente uma temporada, mas a HBO ainda não oficializou a decisão final.

When They See Us (Netflix, minissérie)
Revoltante relato da vida real que a diretora Ava DuVernay adaptou para a Netflix com uma força emocional avassaladora. Impossível ficar indiferente a uma história tão potente e a um drama tão bem desenhado em suas críticas e justiças.

“Cats”: ao contrário dos melhores filmes ruins, musical de Tom Hooper sequer consegue divertir com o seu próprio desastre

I judge a cat by its soul.

Direção: Tom Hooper

Roteiro: Lee Hall e Tom Hooper, baseado na coleção de poemas “Old Possum’s Book of Practical Cats”, de T.S. Eliot, e no musical “Cats”, de Andrew Lloyd Webber

Reino Unido/EUA, 2019, Musical, 110 minutos

Sinopse: Uma tribo de gatos chamada Jellicles todo ano precisa tomar uma grande decisão em uma noite especial: escolher um dos gatos para ascender para o Heaviside Layer e conseguir uma nova e melhor vida. Cada um dos gatos conta a sua história para sua líder, a velha Deuteronomy (Judi Dench), na tentativa de ser o escolhido. (Adoro Cinema)

Determinados projetos não podem ser traduzidos para o cinema. Cats, o espetáculo que começou em Londres e se tornou um hit na Broadway durante mais de duas décadas, é um deles. No musical, os gatos jellicle, palavra cujo significado só os personagens conhecem, são reunidos uma vez por ano para que seu líder escolha aquele que terá a oportunidade de renascer. O espetáculo, que toma como base a coleção de poemas “Old Possum’s Book of Practical Cats”, de T.S. Eliot, obviamente não tem animais no palco, mas sim pessoas vestidas e maquiadas como gatos. Faz sentido, pois o teatro deixa para a plateia a missão de imaginar lugares, especificidades ou personagens impossíveis de serem reproduzidos em cena.

Já para fins cinematográficos, a ideia de uma adaptação sempre pareceu a receita perfeita para o desastre. Afinal, seria possível resolver o impasse de contar uma história tão específica onde pessoas interpretam gatos? Devemos ver animais ou seres humanos em cena? É bastante óbvio: pessoas vestidas de gatos só funcionam nos palcos. Por isso mesmo Cats é teatro e ponto final. Não há como torná-lo minimamente cinematográfico (talvez como uma animação, na melhor das hipóteses?). Pois não bastou a Universal fechar os olhos para todos os sinais da impossibilidade desse projeto desde a sua concepção: o estúdio foi além e resolveu chamar Tom Hooper para comandar uma versão live action. Antes já era preciso um milagre para fazer Cats dar certo. Com Hooper e sua carreira sem muita personalidade, a situação se tornou ainda mais difícil. E o milagre, claro, não aconteceu.

Empolgado com a ideia de fazer um musical após ter mexido com a mitologia de Os Miseráveis no longa-metragem homônimo de 2012, Tom Hooper, assim como a Universal (que inexplicavelmente lhe entregou 95 milhões de dólares para realizar o projeto), ignora o fato de que um exímio bailarino vestido de gato pode arrasar com um número de sapateado no teatro, mas que a mesma ideia não se aplica ao cinema, especialmente quando Cats opta por criar, através do uso de efeitos visuais, um híbrido entre atores reais e gatinhos. Ou seja, o tal número de sapateado se torna algo patético e fake na sala de cinema. A razão é simples: não vemos um bailarino. Muito menos sabemos o que está representado na tela: seria um humano, um gato ou um filtro de Instagram?

Tudo o que vem após a decisão mercadológica de permitir essa adaptação cinematográfica impossível é mera consequência. Nasce dessa mistura, por exemplo, uma concepção artística muito torta, duvidosa e descuidada. Indeciso sobre quem são os personagens em cena (não são gatos, pois todos têm mãos, pés e dentes humanos; também não são humanos, já que cada um desfila com pêlos e rabos), o filme carece de lógica interna. Por que alguns gatos usam tênis e outros não? Como um dos felinos bebe champanhe direto da garrafa como uma pessoa normal, mas outro só consegue lamber delicadamente um potinho de água? E como eles alternam tanto de tamanho e proporção em comparação aos cenários humanos?

Tecnicamente descuidado com qualquer coerência de escala (em determinado momento, uma ratoeira parece ter um tamanho cinco vezes maior do que um ratinho), Cats deixa expôr toda a confusão e o impasse de traduzir as particularidades do musical para o cinema e o fato de Tom Hooper ter aprovado o último corte do longa na manhã da primeira exibição mundial só comprova a falta de comprometimento da produção com a sua própria qualidade. A partir disso, a base de todo o filme é comprometida: os efeitos são mal realizados, o universo concebido é visualmente incoerente e a relação entre esses dois aspectos torna tudo muito bizarro, resultando em momentos difíceis de acreditar, como uma dança entre gatos e baratas logo nos primeiros momentos de projeção.

Não é má vontade, inclusive porque o atrapalhamento de Cats não se resume ao visual. A história em si também é mal construída, estendendo-se aos aspectos musicais. Há um conflito central (a competição pelo renascimento de um dos gatos), mas ele se dilui em uma sucessão de personagens que entram e saem de cena apenas para cantar ou dançar. Impossível deduzir quem são esses felinos e muito menos os seus propósitos (por conta dos efeitos, muitas vezes é até complicado identificar os atores). Sem um desenvolvimento para uma trama rasa, todos não passam de uma abreviação de características óbvias. A situação piora com um roteiro sem diálogos, nem mesmo cantados (como era o caso de Os Miseráveis, onde os personagens conversavam através da música). Resultado: nada em Cats acontece ou é dito sem um número musical.

Carente de uma costura, o filme tenta fazer algum sentido ao encadear uma música na outra. De primeira, a situação parece contornável com Jellicle Songs for Jellicle Cats, divertida canção capaz de, na medida do possível, desviar a atenção de todos os problemas listados até aqui. Entretanto, o repertório do consagrado compositor Andrew Lloyd Webber para o musical original não é unanimidade e, em questão de minutos, as músicas começam a cansar porque não compensam o vazio da trama e porque realmente não são memoráveis. Aí o pacote se completa: efeitos ruins, história sem vocação cinematográfica, falta de lógica visual, roteiro sem diálogos e músicas bem abaixo do que Webber já produziu para títulos como O Fantasma da Ópera.

Enquanto isso, os atores parecem distantes um dos outros, como se cada um fizesse a sua parte sem querer se envolver muito com o todo. É deprimente ver um ator grandioso como Ian McKellen quase isolado em cena, tentando, a partir de uma mínima participação, cantar uma canção que em nada contribui para a narrativa. Outro exemplo: Judi Dench, que já havia se envolvido em projetos pavorosos como A Batalha de RiddickNine para pagar as contas, faz dobradinha com McKellen como outra veterana deslocada (o número onde ela, olhando para a câmera, explica como os gatos devem ser tratados é um dos mais constrangedores). E se Jennifer Hudson passa o tempo inteiro chorando e se lamuriando sem entendermos exatamente a razão, ao menos ela interpreta a música mais marcante do repertório (Memory, o momento “I Dreamed a Dream” de Cats, ainda que essa seja uma comparação injusta).

Devastado pela crítica e pelo público, o novo longa de Tom Hooper tem despertado reações extremas, inclusive do próprio estúdio, que desistiu de fazer qualquer campanha para a temporada de premiações. Tom Hooper e a montadora Melanie Oliver (parceira do diretor desde os tempos do telefilme Elizabeth I) também voltaram para a sala de edição com o objetivo de ajustar efeitos visuais e até fazer novos cortes. Ignoram, contudo, que não há nada a ser feito nessa altura do campeonato. A solução não está no reparo de uma cena deslocada ou na concepção visual de um personagem específico. Cats como um todo é estranho e desencontrado. Para conseguir recuperar algum prejuízo, só haveria uma opção: começar do zero. Ou melhor: nem começar. Cats certamente é um dos eventos cinematográficos de 2019. O problema é que, ao contrário dos melhores filmes ruins, ele sequer diverte involuntariamente para ser lembrado como um pavoroso guilty pleasure.

“Dois Papas”: simplicidade, leveza e excelentes interpretações para resgatar o poder transformador do diálogo

When no one is to blame, everyone is to blame.

Direção: Fernando Meirelles

Roteiro: Anthony McCarten

Elenco: Jonathan Pryce, Anthony Hopkins, Juan Minujín, Luis Gnecco, Cristina Banegas, María Ucedo, Renato Scarpa, Sidney Cole, Achille Brugnini, Federico Torre, Germán de Silva

The Two Popes, Reino Unido/Itália/Argentina/Estados Unidos, 2019, Drama, 125 minutos

Sinopse: Buenos Aires, 2012. O cardeal argentino Jorge Bergoglio (Jonathan Pryce) está decidido a pedir sua aposentadoria, devido a divergências sobre a forma como o papa Bento XVI (Anthony Hopkins) tem conduzido a Igreja. Com a passagem já comprada para Roma, ele é surpreendido com o convite do próprio papa para visitá-lo. Ao chegar, eles iniciam uma longa conversa onde debatem não só os rumos do catolicismo, mas também afeições e peculiaridades da personalidade de cada um. (Adoro Cinema)

Dois homens de idade conversando durante mais de duas horas sobre fé e religião. A premissa de Dois Papas não é das mais estimulantes, mas o cineasta brasileiro Fernando Meirelles, em seu primeiro longa-metragem após o pouco visto e comentado 360, consegue elevar o projeto a uma bonita convocação ao diálogo em tempos que estamos cada vez mais intolerantes a opiniões e posicionamentos diferentes dos nossos. O poder transformador da escutatória e da compreensão, lembra Meirelles, precisa ser resgatado de alguma forma.

De um lado está o papa Bento XVI (Anthony Hopkins) com um perfil assumidamente conservador. De outro está o papa Francisco (Jonathan Pryce), figura mais aberta ao diálogo e a propostas para remodelar o catolicismo. O inusitado encontro entre os dois se dá no momento em que Bento decide renunciar ao cargo de papa, levando Francisco para uma breve temporada no Vaticano onde tentará compreender melhor esse homem que, ao que tudo indica, será o seu provável sucessor.

São realmente mais de duas horas centradas em diálogos, o que é tanto um empecilho para captar o grande público quanto um desafio para que a obra não caia na armadilha de se tornar um teatro filmado. Pois Meirelles dribla as duas circunstâncias apostando em uma câmera mais inquieta e dinâmica, sem que isso pareça maneirismo, amparado pelo espirituoso roteiro escrito por Anthony McCarten.

Dois Papas, aliás, é um claro marco de amadurecimento na carreira de McCarten, antes limitado a escrever roteiros quadrados e acadêmicos como os de A Teoria de TudoO Destino de Uma Nação. Dessa vez, ele navega entre momentos verídicos e situações mais imaginativas com bastante leveza, compreendendo que a homenagem a qualquer biografado não está apenas em seguir uma cartilha de fatos e formatos. Liberdades criativas também são bem-vindas.

Sem diminuir Bento XVI ao clichê do adorável rabugento ou Francisco ao alívio cômico de um divertido personagem que amolece corações, Dois Papas trata suas duas figuras históricas com reverência, aproximando ambos de maneira íntima e pessoal para discutir pontos pertinentes à fé e também ao modo como temos deixado de ouvir o próximo. Tudo é mais orgânico do que se pode imaginar, e Dois Papas se torna um filme fácil e agradável de ser assistido em função disso.

Com um texto bem resolvido no debate de ideias, é estranho Dois Papas ter permitido que longos flashbacks envolvendo o passado do papa Francisco chegassem ao corte final. Claro que se trata de uma tentativa de arejar uma história construída em diálogos, só que, além de serem longos e explicativos demais, os flashbacks não contam nada que justifique tanta encenação, muito pelo contrário: cada lembrança poderia ser perfeitamente verbalizada pelo personagem de Jonathan Pryce, dando ainda mais munição para a ótima interpretação do ator.

Esse problema evidencia uma linha muito tênue cujas fronteiras Dois Papas acaba não traçando com esmero. Ora, a intenção de dar linguagem cinematográfica a uma história de vocação teatral é válida. Igualmente sedutora, no entanto, é a opção de simplificar demais as coisas para não perder um número considerável de espectadores. Quando optam por desenvolver dois ou três flashbacks que ocupam um tempo significativo da trama, Meirelles e McCarten se excedem na vontade de tornar a experiência mais palatável.

Os flashbacks ainda deixam em modo de espera o aspecto mais fascinante do longa: a interação entre Hopkins e Pryce. Repertório e talento de sobra os dois atores têm, além de semelhanças físicas assombrosas com as figuras que interpretam, e cada momento entre eles é mesmo um deleite. Pryce, que há pouco foi coprotagonista de Glenn Close em A Esposa, confere grande humanidade para a personalidade compreensiva e comunicativa do papa Francisco, mas é Hopkins, na sua melhor aparição em muitos anos, que impressiona a cada palavra, gesto e expressão, com a classe e discrição que sempre lhe foram características.

Para efeitos comparativos, Dois Papas está distante de toda acidez e imponência de The Young Pope, série que a HBO realizou em parceria com a Sky e que retorna para uma segunda temporada em 2020 sob o título de The New Pope. No programa criado pelo italiano Paolo Sorrentino, o papado, a fé e o Vaticano são discutidos com mais crítica e provocação, enquanto o filme de Meirelles aborda temas espinhosos com mais cautela e parcimônia. E isso não chega a ser um problema, mas sim questão de estilo. Afinal, Dois Papas acerta na simplicidade com leveza e sinceridade, um feito que não costuma ser alcançado com tanta frequência.

Rapidamente: “Cadê Você, Bernadette?”, “Coringa”, “Entre Facas e Segredos” e “O Irlandês”

Quando um grande elenco faz a diferença: eficiente por si só, Entre Facas e Segredos só ganha pontos com os excelentes atores reunidos em cena.

CADÊ VOCÊ, BERNADETTE? (Where’d You Go, Bernadette, 2019, de Richard Linklater): Desde que foi amplamente premiado com Boyhood: Da Infância à Juventude, o diretor Richard Linklater tem apresentado projetos medianos e que pouco endossam o seu talento como o delicado contador de histórias que já nos entregou títulos como a trilogia Antes do Amanhecer, Antes do Pôr-do-Sol e Antes da Meia-Noite. Pois Cadê Você, Bernadette? é mais um exemplo da fase pouco inspirada que o diretor vem vivendo. Nem mesmo Cate Blanchett, limitada a interpretar uma versão genérica de sua marcante personagem em Blue Jasmine, consegue tirar o filme do marasmo. Tomando como base o livro homônimo de Maria Semple, Linklater conta a história de uma arquiteta que decide sumir para recuperar algum tipo de juízo ou esperança, abandonando um ideal de vida que não quer mais seguir. A premissa poderia render momentos interessantes, especialmente para Blanchett, mas Cadê Você, Bernadette? é banalíssimo e desperdiça todas as transformações internas da protagonista em uma viagem entediante que, desenvolvida com diálogos clichês e rasteiramente sentimentais, traz as conclusões mais manjadas possíveis para os conflitos de uma personagem que o filme insiste em desperdiçar.

CORINGA (Joker, 2019, de Todd Phillips): Maior especialista em neurocriminologia do mundo, o britânico Adrian Raine disse, em entrevista à revista Vanity Fair, que Coringa faz “uma representação surpreendentemente precisa do tipo de contexto e circunstâncias sociais que, quando combinadas, criam um assassino”. Entre os estudos fundamentados de Raine e a percepção da legião de críticos e espectadores que resolveram problematizar o filme por ele supostamente glamourizar a violência de modo irresponsável, faço coro à opinião de Raine, inclusive porque não acho que compreender a construção de uma mente criminosa seja sinônimo de celebrá-la. À parte as polêmicas que desviam a atenção da excelente experiência que é Coringa, não se revela nada justo, por exemplo, diminuir toda a força da interpretação de Joaquin Phoenix, que se distancia das celebradas personificações de Jack Nicholson e Heath Ledger parar compôr uma figura crível, cujas vivências resumem muito bem a era nada empática que vivemos. Brutal e nada apelativo, o longa é uma intensa imersão no mundo dos desassistidos, atmosfera também reverberada por uma excepcional parte técnica, com destaque para a fotografia de Lawrence Sher e para a trilha sonora de Hildur Guðnadóttir. Isso sem falar no fato de Coringa jamais se enquadra nas caixinhas de filmes baseados em HQ’s. Há aqui uma personalidade própria que deveria ser exercitada com mais frequência pelos blockbusters hollywoodianos.

ENTRE FACAS E SEGREDOS (Knives Out, 2019, de Rian Johnson): Nem mesmo a refilmagem de O Assassinato no Expresso do Oriente, que adaptou à risca o clássico homônimo de Agatha Christie em 2017, conseguiu chegar perto de capturar o senso de suspense e entretenimento da escritora como Entre Facas e Segredos, que, a partir de um roteiro inteiramente original do diretor Rian Johnson (Looper: Assassinos do Futuro, Star Wars: Os Últimos Jedi e Ozymandias, o melhor episódio de todas as cinco temporadas do seriado Breaking Bad), administrou com pique e envolvimento o tradicional mistério do “quem matou?”. A grata surpresa é que Entre Facas e Segredos avança na fórmula e, a partir de importantes revelações, desdobra uma série de comentários sociais e novas dinâmicas entre os personagens. Também faz toda a diferença o número de talentos reunidos no elenco: de Christopher Plummer a Michael Shannon, passando por Toni Collette, Jamie Lee Curtis e a revelação Ana de Armas, o filme se torna ainda mais prazeroso por conta dos atores, que estão divertidíssimos como um clã familiar de tipos muito específicos. A leitura social do longa não é tão robusta quanto a de outros títulos marcantes deste ano (ParasitaBacurau), o que não tira o brilho de uma proposta que deve ser sempre valorizada: a de que é saudável ver qualquer filme, seja ele de “mero” entretenimento ou não, convocando o espectador a refletir sobre os problemas e as contradições do nosso mundo.

O IRLANDÊS (The Irishman, 2019, de Martin Scorsese): Com o domínio e o talento de sempre, Martin Scorsese tem em O Irlandês aquele que é possivelmente o seu trabalho mais pessoal. Agora interessado no peso, nos arrependimentos e nas frustrações trazidas por uma vida errática e clandestina, Scorsese olha para a máfia com pesar, e para isso conta com amigos de longa data, como Robert De Niro e Joe Pesci, além de novas parcerias que sabe-se lá como nunca aconteceram antes (Al Pacino). A tão comentada duração do filme (189 minutos) não chega a ser um problema, mas sim o fato do roteiro escrito por Steven Zaillian, com base no livro “I Heard You Paint Houses”, de Charles Brandt, ser menos ambicioso do que a direção de Scorsese. As próprias interpretações, em muitos casos, são mais interessantes do que a história, com Joe Pesci e, especialmente, Al Pacino roubando a cena. De Niro tem uma cena grandiosa em detalhes ao final do filme (aquela em que, após um acontecimento fatídico, atende uma ligação ao chegar em casa), mas, no geral, não se equipara aos colegas de cena, já que é o mais prejudicado pelo uso de efeitos visuais, maquiagem e lentes de contato. Scorsese filma, claro, com imensa classe, o que leva seus fãs ao delírio. Já para outros espectadores que, assim como eu, não se envolvem tanto com o cinema do diretor, O Irlandês talvez seja menos imponente do que suas circunstâncias sugerem.