“A Vida Invisível”: refinado melodrama de Karim Aïnouz traz uma perspectiva íntima e feminina para a labiríntica jornada de duas irmãs

Você não sabe a falta que você me faz…

Direção: Karim Aïnouz

Roteiro: Inés Bortagaray, Karim Aïnouz e Murilo Hauser, baseado no romance “A Vida Invisível de Eurídice Gusmão”, de Martha Batalha

Elenco: Carol Duarte, Julia Stockler, Gregório Duvivier, Maria Manoella, António Fonseca, Nikolas Antunes, Fernanda Montenegro, Gillray Coutinho, Cristina Pereira, Bárbara Santos

Brasil/Alemanha, 2019, Drama, 139 minutos

Sinopse: Rio de Janeiro, década de 1940. Eurídice (Carol Duarte) é uma jovem talentosa, mas bastante introvertida. Guida (Julia Stockler) é sua irmã mais velha, e o oposto de seu temperamento em relação ao convívio social. Ambas vivem em um rígido regime patriarcal, o que faz com que trilhem caminhos distintos: Guida decide fugir de casa com o namorado, enquanto Eurídice se esforça para se tornar uma musicista, ao mesmo tempo em que precisa lidar com as responsabilidades da vida adulta e um casamento sem amor com Antenor (Gregório Duvivier). (Adoro Cinema)

Em vários materiais promocionais de A Vida Invisível, o próprio filme se define como “um melodrama tropical de Karim Aïnouz”. É sensacional que a obra se (re)conheça de tal maneira e que já deixe muito claro para o espectador qual a tônica que será trabalhada na tela, pois os conflitos são desfiados a partir de situações muito clássicas, quase novelescas, o que pode ser interpretado de maneira pejorativa porque quem prima pela criatividade e não vê beleza na simplicidade. Criar um melodrama consistente e de elementos refinados é um trabalho dificílimo que o cineasta Karim Aïnouz, munido de toda a experiência acumulada em projetos como Madame Satã, O Céu de Suely e Praia do Futuro, domina com total destreza. Frente a isso, A Vida Invisível se apresenta como uma obra delicada e universal que, marcada pela passagem do tempo, conduz o espectador em um labirinto de desencontros entre duas irmãs no Rio de Janeiro dos anos 1940.

Grande vencedor da mostra Un Certain Regard do Festival de Cannes em 2019, A Vida Invisível tem como núcleo dramático a relação entre irmãs de personalidades muito distintas. Eurídice (Carol Duarte) é uma aspirante a pianista que, retraída, segue as regras da família e das tradições da época, tentando encontrar algum propósito de vida em meio a tantas repressões. Já Guida (Julia Stockler), a irmã mais velha, busca a autorrealização fazendo o que quer, mesmo que isso lhe custe a relação com a família e especialmente com o pai, um padeiro português que comanda as mulheres de sua vida (incluindo a esposa) com as doses de machismo e autoritarismo tão comuns à época. De tudo isso, A Vida Invisível poderia extrair uma linguagem televisiva e previsível, mas o roteiro escrito por Inés Bortagaray, Karim Aïnouz e Murilo Hauser, com base no romance “A Vida Invisível de Eurídice Gusmão”, de Martha Batalha, deixa de lado a afetação para buscar a sutileza, decisão que faz toda a diferença. 

Um exemplo desse acerto é o emocionante ponto de equilíbrio que A Vida Invisível encontra ao lidar com a questão da passagem do tempo. Narrando paralelamente a vida das duas irmãs, o filme envolve o espectador com reflexões que são inerentes a todos nós, como as relações que não remendamos, as palavras que não dizemos, as oportunidades que nos são tiradas, os erros que não consertamos e como, inevitavelmente, o tempo passa (e em determinado momento acaba nos cobrando tudo isso). Karim, que sempre foi um diretor de relatos difíceis, talvez pela primeira vez se veja na posição de encontrar o belo em personagens e situações mais “comuns”. E o faz com notável delicadeza: com duas excelentes protagonistas em cena e um Rio de Janeiro que está longe de flertar com uma versão cartão-postal, o diretor promove uma viagem muito íntima, feminina e familiar rumo a sentimentos e circunstâncias que não são extraordinários, mas que são palpáveis a todos nós, seres humanos.

A odisseia intimista de A Vida Invisível ganha brilho extra ao capturar tão bem o universo feminino e ao questionar as condições da mulher na sociedade. Tanto Eurídice quanto Guida buscam o domínio de seus próprios destinos ou pelo menos de alguma parcela daquilo que lhes pode fazer feliz, mesmo enfrentando figuras masculinas que, no filme, são propositalmente caricatas e a comédia é sempre uma excelente ferramenta para tecer críticas ou ridicularizar determinadas leituras, como acontece com o patético marido de Eurídice, vivido por Gregório Duvivier. Como um retrato específico, mas também amplo das angústias femininas, A Vida Invisível é um refinado melodrama que faz bonito com as mais simples ferramentas do cinema, e ainda nos brinda com uma comovente participação de Fernanda Montenegro, que, como sempre, preenche a tela apenas com um gesto ou com um olhar. Não há como duvidar: apesar das adversidades, a nossa produção audiovisual tem realmente vivido tempos preciosos.

Um comentário em ““A Vida Invisível”: refinado melodrama de Karim Aïnouz traz uma perspectiva íntima e feminina para a labiríntica jornada de duas irmãs

  1. Queria muito poder conferir, nos cinemas, mas não vou conseguir, então aguardando ansiosamente pelo lançamento do mesmo nas plataformas de streaming.

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