“Dois Papas”: simplicidade, leveza e excelentes interpretações para resgatar o poder transformador do diálogo

When no one is to blame, everyone is to blame.

Direção: Fernando Meirelles

Roteiro: Anthony McCarten

Elenco: Jonathan Pryce, Anthony Hopkins, Juan Minujín, Luis Gnecco, Cristina Banegas, María Ucedo, Renato Scarpa, Sidney Cole, Achille Brugnini, Federico Torre, Germán de Silva

The Two Popes, Reino Unido/Itália/Argentina/Estados Unidos, 2019, Drama, 125 minutos

Sinopse: Buenos Aires, 2012. O cardeal argentino Jorge Bergoglio (Jonathan Pryce) está decidido a pedir sua aposentadoria, devido a divergências sobre a forma como o papa Bento XVI (Anthony Hopkins) tem conduzido a Igreja. Com a passagem já comprada para Roma, ele é surpreendido com o convite do próprio papa para visitá-lo. Ao chegar, eles iniciam uma longa conversa onde debatem não só os rumos do catolicismo, mas também afeições e peculiaridades da personalidade de cada um. (Adoro Cinema)

Dois homens de idade conversando durante mais de duas horas sobre fé e religião. A premissa de Dois Papas não é das mais estimulantes, mas o cineasta brasileiro Fernando Meirelles, em seu primeiro longa-metragem após o pouco visto e comentado 360, consegue elevar o projeto a uma bonita convocação ao diálogo em tempos que estamos cada vez mais intolerantes a opiniões e posicionamentos diferentes dos nossos. O poder transformador da escutatória e da compreensão, lembra Meirelles, precisa ser resgatado de alguma forma.

De um lado está o papa Bento XVI (Anthony Hopkins) com um perfil assumidamente conservador. De outro está o papa Francisco (Jonathan Pryce), figura mais aberta ao diálogo e a propostas para remodelar o catolicismo. O inusitado encontro entre os dois se dá no momento em que Bento decide renunciar ao cargo de papa, levando Francisco para uma breve temporada no Vaticano onde tentará compreender melhor esse homem que, ao que tudo indica, será o seu provável sucessor.

São realmente mais de duas horas centradas em diálogos, o que é tanto um empecilho para captar o grande público quanto um desafio para que a obra não caia na armadilha de se tornar um teatro filmado. Pois Meirelles dribla as duas circunstâncias apostando em uma câmera mais inquieta e dinâmica, sem que isso pareça maneirismo, amparado pelo espirituoso roteiro escrito por Anthony McCarten.

Dois Papas, aliás, é um claro marco de amadurecimento na carreira de McCarten, antes limitado a escrever roteiros quadrados e acadêmicos como os de A Teoria de TudoO Destino de Uma Nação. Dessa vez, ele navega entre momentos verídicos e situações mais imaginativas com bastante leveza, compreendendo que a homenagem a qualquer biografado não está apenas em seguir uma cartilha de fatos e formatos. Liberdades criativas também são bem-vindas.

Sem diminuir Bento XVI ao clichê do adorável rabugento ou Francisco ao alívio cômico de um divertido personagem que amolece corações, Dois Papas trata suas duas figuras históricas com reverência, aproximando ambos de maneira íntima e pessoal para discutir pontos pertinentes à fé e também ao modo como temos deixado de ouvir o próximo. Tudo é mais orgânico do que se pode imaginar, e Dois Papas se torna um filme fácil e agradável de ser assistido em função disso.

Com um texto bem resolvido no debate de ideias, é estranho Dois Papas ter permitido que longos flashbacks envolvendo o passado do papa Francisco chegassem ao corte final. Claro que se trata de uma tentativa de arejar uma história construída em diálogos, só que, além de serem longos e explicativos demais, os flashbacks não contam nada que justifique tanta encenação, muito pelo contrário: cada lembrança poderia ser perfeitamente verbalizada pelo personagem de Jonathan Pryce, dando ainda mais munição para a ótima interpretação do ator.

Esse problema evidencia uma linha muito tênue cujas fronteiras Dois Papas acaba não traçando com esmero. Ora, a intenção de dar linguagem cinematográfica a uma história de vocação teatral é válida. Igualmente sedutora, no entanto, é a opção de simplificar demais as coisas para não perder um número considerável de espectadores. Quando optam por desenvolver dois ou três flashbacks que ocupam um tempo significativo da trama, Meirelles e McCarten se excedem na vontade de tornar a experiência mais palatável.

Os flashbacks ainda deixam em modo de espera o aspecto mais fascinante do longa: a interação entre Hopkins e Pryce. Repertório e talento de sobra os dois atores têm, além de semelhanças físicas assombrosas com as figuras que interpretam, e cada momento entre eles é mesmo um deleite. Pryce, que há pouco foi coprotagonista de Glenn Close em A Esposa, confere grande humanidade para a personalidade compreensiva e comunicativa do papa Francisco, mas é Hopkins, na sua melhor aparição em muitos anos, que impressiona a cada palavra, gesto e expressão, com a classe e discrição que sempre lhe foram características.

Para efeitos comparativos, Dois Papas está distante de toda acidez e imponência de The Young Pope, série que a HBO realizou em parceria com a Sky e que retorna para uma segunda temporada em 2020 sob o título de The New Pope. No programa criado pelo italiano Paolo Sorrentino, o papado, a fé e o Vaticano são discutidos com mais crítica e provocação, enquanto o filme de Meirelles aborda temas espinhosos com mais cautela e parcimônia. E isso não chega a ser um problema, mas sim questão de estilo. Afinal, Dois Papas acerta na simplicidade com leveza e sinceridade, um feito que não costuma ser alcançado com tanta frequência.

Um comentário em ““Dois Papas”: simplicidade, leveza e excelentes interpretações para resgatar o poder transformador do diálogo

  1. Não é preciso ser religioso para gostar dessa grata surpresa da Netflix. Gostei de ver Fernando Meirelles fazendo algo realmente bom novamente. E de fato, é algo bem diferente da série da HBO.

    Abs.

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