Cinema e Argumento

“Mrs. Fletcher”: partindo de mais um texto crítico e sem amarras de Tom Perrotta, nova série da HBO é uma pérola a ser descoberta

Kathryn Hahn como Eve, a protagonista de Mrs. Fletcher: nova série da HBO criada por Tom Perrotta aborda com delicadeza as transformações internas e sexuais de uma mãe na faixa dos 40 anos.

Exímio observador das vidas comuns, o escritor Tom Perrotta faz questão de colocar em xeque todos os padrões, atrasos e preconceitos das relações urbanas. Em suas obras mais célebres adaptadas para o cinema e para a TV, ele expôs uma gama de comportamentos conflituosos a partir de uma disputa colegial (Eleição, dirigido por Alexander Payne em 1999), lançou luz sobre as hipocrisias matrimoniais e sobre os nossos tortuosos instintos sexuais (Pecados Íntimos, levado para as telas em 2006 por Todd Field) e ilustrou como a sociedade lida de diferentes maneiras com o luto, seja ele qual for (The Leftovers, série magistral da HBO exibida entre 2014 e 2017).

Perrotta não precisa de nada muito extraordinário. O que lhe interessa é o fascínio do detalhe, as complexidades do corriqueiro e a profundidade humana de quem vive ao nosso lado. Ainda assim, talvez nenhum de seus trabalhos adaptados até aqui tenha um plot tão trivial quanto o de Mrs. Fletcher, série cuja primeira temporada acaba de ser exibida pela HBO e que, mesmo transmitida aos domingos (um dia privilegiado na grade da emissora), passou quase despercebida entre público e crítica. Dessa vez, o escritor, atuando pela primeira vez como showrunner de um seriado, registra o momento em que Eve (Kathryn Hahn), uma mulher solteira e na faixa de seus 40 anos, lida com o fato do seu único filho ter saído de casa para finalmente cursar uma faculdade.

As coisas, entretanto, não são tão simples quanto parecem, pois Mrs. Fletcher deixa o conflito do adeus ao filho em segundo plano, centrando sua discussão em como essa mãe reconstrói sua vida e passa a fazer o que bem entender, inclusive do ponto de vista sexual. Na mesma proporção, os roteiristas desfiam uma outra descoberta: a do filho de Eve, antes um dos garotos mais desejados do colégio e que agora se vê deslocado em uma vida acadêmica que o obriga a firmar os pés no chão. Essa inversão de clichês (a mãe aproveitando a liberdade, enquanto o garoto administra uma imensa frustração) dá um tom cativante ao seriado e é impulsionada por uma delicadeza cultivada já atrás das câmeras, onde todos os episódios são dirigidos somente por mulheres.

Quando sai de casa, Brendan (Jackson White) se depara com uma vida frustrante na universidade. Enquanto isso, quem passa a se redescobrir através da liberdade é a sua própria mãe.

Na internet e na vida real, Eve renasce sexualmente com novos encontros, transas casuais e até mesmo interesse por experiências homossexuais, impulsionada por toda a independência que, ela sim, passou a cultivar com a ausência do filho. Em diferentes níveis, a personagem, que ainda é estimulada pela repentina paixão que um garoto de 19 anos passa a nutrir por ela, abraça a vibração de tudo isso, reconstruindo a sua ideia de mundo e de seu papel como mãe e mulher. Não há qualquer humor pastelão ou construções simplistas em Mrs. Fletcher, pois os roteiristas desenvolvem as transformações da protagonista sem alardes, focando nos detalhes corriqueiros que contribuem para a nova roupagem assumida por essa mãe em pleno redesenho de sua intimidade.

Já Brendan (Jackson White) chega à faculdade com a mesma pose de garoto desejado que sempre cultivou no colégio, até encontrar colegas com propósitos muito diferentes dos seus. A vida já não é mais uma festa, e essa é uma frustração que ele, agora sem o amparo da mãe, tem dificuldade em enfrentar. Pode parecer uma proposta genérica, mas novamente Mrs. Fletcher olha para uma situação específica de modo crítico: cheio de si e imaturo, Brendan é a perfeita representação do jovem branco, heterossexual e mimado que trata mulheres como objetos, sem muita noção do sentimento alheio, comportamento responsável por vários de seus ruídos de comunicação. Ao contrário do que sua saída de casa sugeria, quem precisa superar os desafios de uma transição como essa é ele próprio.

Entre Eve e Brendan, Mrs. Fletcher recheia a história com excelentes coadjuvantes. É calorosa, por exemplo, qualquer aparição de Jen Richards como Margo, a professora transexual do grupo de redação em que Eve se matricula. Isso porque o roteiro jamais se utiliza da transexualidade de Margo para definir os conflitos da personagem. Bem pelo contrário: é muito bonito ver como a série cria relações tão íntimas e esperançosas para uma figura que, conforme descobrimos entre um diálogo e outro, já se frustrou o suficiente na vida. A dinâmica que Eve estabelece com Julius (Owen Teague) também é outro ponto de destaque, especialmente porque a assumida paixão do garoto desperta na protagonista uma boa dose de sentimentos tão conflituosos quanto excitantes.

Mesmo assim não há brilho maior em Mrs. Fletcher do que o de Kathryn Hahn. Atriz de vasto talento, Hahn já foi coadjuvante de destaque em seriados como Transparent e fez um grande trabalho junto a Paul Giamatti no longa-metragem Mais Uma Chance, mas o seriado criado por Tom Perrotta é, até o momento, o projeto que lhe coloca no centro definitivo das atenções. Navegando em um oceano de emoções sem precisar de um monólogo ou de uma hipérbole qualquer para comunicar ao espectador todas as transições da personagem, ela prova novamente ser uma das atrizes mais interessantes de sua geração. E que gratificante é vê-la trabalhando tamanho repertório em uma série como Mrs. Fletcher, que, entre produções de larga escala produzidas pela HBO como Game of Thrones, Watchmen e His Dark Materials, silenciosamente surgiu como uma pérola a ser descoberta no catálogo da emissora.

Os indicados ao Screen Actors Guild Awards 2020

Com Charlize Theron, Nicole Kidman e Margot Robbie, O Escândalo lidera a lista de indicados ao Screen Actors Guild Awards 2020. Vencedores serão conhecidos no dia 19 de janeiro.

Munido de interessantes surpresas, o Screen Actors Guild Awards movimentou alguns pontos da temporada de premiações ao revelar hoje (11) a sua lista de indicados. E o melhor: sem trazer inclusões indigestas. Quem lidera a seleção é O Escândalo, que, além de concorrer na categoria de melhor elenco, emplacou menções individuais para Charlize Theron, Margot Robbie e Nicole Kidman (a última, inclusive, é uma das surpresas da lista, já que não havia aparecido na seleção do Critics’ Choice Awards, do Globo de Ouro e de outras associações de críticos).

Com o SAG, alguns candidatos renasceram na disputa e outros ganharam embalo rumo ao Oscar. Taron Egerton, por exemplo, mais uma vez nos lembrou que os prêmios não resistem a uma cinebiografia, ainda que Rocketman se diferencie de produções formulaicas como Bohemian Rhapsody. Já Lupita Nyong’o, que parecia apenas uma predileção muito específica da crítica, agora ganha o importante apoio de uma significativa parcela de atores em Hollywood, marcando a primeira vez em que o SAG indica duas intérpretes negras na categoria de melhor atriz. 

Outra vitória já significativa é a inclusão de Parasita na categoria de melhor elenco. Desbancando nomes fortes na corrida como História de Um Casamento e filmes repletos de estrelas como Adoráveis Mulheres (que, aliás, parece não ter cativado os votantes de qualquer premiação até agora), o filme de Bong-Joon Ho quebra o preconceito histórico do SAG com produções estrangeiras: a última vez que um longa de língua não-inglesa chegou entre os finalistas de melhor elenco foi em 1999 com A Vida é Bela. Unanimidade por onde passa, Parasita é um fenômeno que parece ter uma força muito maior do que imaginávamos.

Por falar em força, é de se atentar também à forma como Scarlett Johansson vem performando na temporada: lembrada em todas as listas, a atriz ostenta este ano indicação tripla ao SAG com História de Um Casamento (protagonista) e Jojo Rabbit (elenco e coadjuvante). Se Renée Zellweger, que marca presença no circuito sem qualquer impulso de Judy em outras categorias, ficar para trás na preferência dos votantes, é de se imaginar que Scarlett possa ser a grande beneficiada. No geral, contudo, vale lembrar que o SAG tem perdido parte de sua expressividade como termômetro do Oscar: nos dois últimos anos, os filmes que receberam a honraria máxima da Academia (Green BookA Forma da Água) sequer foram lembrados pelo Sindicato na categoria de melhor elenco.

Confira abaixo a lista completa de indicados:

CINEMA

MELHOR ELENCO
Era uma Vez Em… Hollywood
O Escândalo
O Irlandês
Jojo Rabbit
Parasita

MELHOR ATRIZ
Charlize Theron (O Escândalo)
Cynthia Erivo (Harriet)
Lupita Nyong’o (Nós)
Renée Zellweger (Judy: Muito Além do Arco-Íris)
Scarlett Johansson (História de Um Casamento)

MELHOR ATOR
Adam Driver (História de Um Casamento)
Christian Bale (Ford vs Ferrari)
Joaquin Phoenix (Coringa)
Leonardo DiCaprio (Era Uma Vez Em… Hollywood)
Taron Egerton (Rocketman)

MELHOR ATRIZ COADJUVANTE
Jennifer Lopez (As Golpistas)
Laura Dern (História de Um Casamento)
Margot Robbie (O Escândalo)
Nicole Kidman (O Escândalo)
Scarlett Johansson (Jojo Rabbit)

MELHOR ATOR COADJUVANTE
Al Pacino (O Irlandês)
Brad Pitt (Era Uma Vez Em… Hollywood)
Jamie Foxx (Luta Por Justiça)
Joe Pesci (O Irlandês)
Tom Hanks (Um Lindo Dia na Vizinhança)

SÉRIES, MINISSÉRIES E TELEFILMES

MELHOR ELENCO – DRAMA
Big Little Lies
The Crown
Game of Thrones
The Handmaid’s Tale
Stranger Things

MELHOR ELENCO – COMÉDIA
Barry
Fleabag
The Kominsky Method
The Marvelous Mrs. Maisel
Schitt’s Creek

MELHOR ATRIZ – DRAMA
Elisabeth Moss (The Handmaid’s Tale)
Helena Bonham Carter (The Crown)
Jennifer Aniston (The Morning Show)
Jodie Comer (Killing Eve)
Olivia Colman (The Crown)

MELHOR ATOR – DRAMA
Billy Crudup (The Morning Show)
David Harbour (Stranger Things)
Peter Dinklage (Game of Thrones)
Sterling K. Brown (This is Us)
Steve Carrell (The Morning Show)

MELHOR ATRIZ – COMÉDIA
Alex Borstein (The Marvelous Mrs. Maisel)
Catherine O’ Hara (Schitt’s Creek)
Christina Applegate (Dead to Me)
Phoebe Waller-Bridge (Fleabag)
Rachel Brosnahan (The Marvelous Mrs. Maisel)

MELHOR ATOR – COMÉDIA
Alan Arkin (The Kominsky Method)
Andrew Scoot (Fleabag)
Bill Hader (Barry)
Michael Douglas (The Kominsky Method)
Tony Shalhoub (The Marvelous Mrs. Maisel)

MELHOR ATRIZ – MINISSÉRIE/TELEFILME
Emily Watson (Chernobyl)
Joey King (The Act)
Michelle Williams (Fosse/Verdon)
Patricia Arquette (The Act)
Toni Collette (Unbelievable)

MELHOR ATOR – MINISSÉRIE/TELEFILME
Jared Harris (Chernobyl)
Jharrel Jerome (When They See Us)
Mahershala Ali (True Detective)
Russell Crowe (The Loudest Voice)
Sam Rockwell (Fosse/Verdon)

Os indicados ao Globo de Ouro 2020

História de Um Casamento lidera a lista de indicações ao Globo de Ouro 2020. Ao todo, Netflix também domina o ano como um todo: com quatro filmes, acumula 17 indicações ao prêmio.

Abrindo a temporada dos prêmios televisionados, o Globo de Ouro anunciou hoje (09) a sua lista de indicados para a cerimônia que será realizada no próximo dia 5 de janeiro. Se há uma tendência inegável confirmada pela Hollywood Foreign Press Association é a de que a Netflix terá um desempenho muito consistente pelos próximos meses. Além de História de Um Casamento liderar a lista com seis indicações, a plataforma de streaming chega na disputa com O IrlandêsDois PapasMeu Nome é Dolemite, somando, ao todo, 17 indicações ao prêmio. A estatística dispara na frente da Sony, por exemplo, que fica em segundo lugar na lista com somente oito menções.

Em um ano disputado nos dramas, onde novamente um filme de língua não-inglesa ganha amplo espaço e adoração (o extraordinário Parasita), temos também um novo filme inspirado no universo de quadrinhos concorrendo na categoria principal (Coringa, que recupera forças na corrida após uma temporada sofrendo todo tipo de problematização e que dá sequência à lembrança de Pantera Negra no ano passado). Vale registrar também a falta de cineastas mulheres na categoria de direção (mais uma vez!) e o fato de Adoráveis Mulheres, de Greta Gerwig, não ter caído nas graças dos votantes. Se o Brasil não conseguiu emplacar indicação em filme estrangeiro com A Vida Invisível, ao menos há de se comemorar o amplo reconhecimento a Dois Papas, de Fernando Meirellesnas categorias principais.

No segmento de minisséries, é criminoso o esquecimento de When They See Us, poderoso trabalho de Ava DuVernay que sequer conseguiu uma indicação para o grande desempenho de Jharrel Jerome. Igualmente frustrante é ver Watchmen solenemente ignorada: um dos seriados mais marcantes do ano, o programa criado por Damon Lindelof merecia, no mínimo, uma indicação de melhor atriz para Regina King e outra de atriz coadjuvante para Jean Smart. Não ter Watchmen e testemunhar uma indicação para a problemática segunda temporada de Big Little Lies? Difícil engolir tanta preguiça. Particularmente, ainda elenco uma terceira decepção: a ausência de Years and Years, coprodução da HBO com a BBC que traz uma assombrosa projeção do futuro, baseada em tudo que já vivemos de mais insano no plano político e social. 

Confira abaixo a lista completa de indicados:

CINEMA

MELHOR FILME – DRAMA
1917
Coringa
Dois Papas
História de Um Casamento
O Irlandês

MELHOR FILME – COMÉDIA/MUSICAL
Entre Facas e Segredos
Era Uma Vez Em… Hollywood
Jojo Rabbit
Meu Nome é Dolemite
Rocketman

MELHOR DIREÇÃO
Bong Joon-ho (Parasita)
Martin Scorsese (O Irlandês)
Quentin Tarantino (Era Uma Vez Em… Hollywood)
Sam Mendes (1917)
Todd Phillips (Coringa)

MELHOR ATRIZ – DRAMA
Charlize Theron (O Escândalo)
Cynthia Erivo (Harriet)
Renée Zellweger (Judy: Muito Além do Arco-Íris)
Saoirse Ronan (Adoráveis Mulheres)
Scarlett Johansson (História de Um Casamento)

MELHOR ATOR – DRAMA
Adam Driver (História de Um Casamento)
Antonio Banderas (Dor e Glória)
Christian Bale (Ford vs Ferrari)
Joaquin Phoenix (Coringa)
Jonathan Pryce (Dois Papas)

MELHOR ATRIZ – COMÉDIA/MUSICAL
Ana de Armas (Entre Facas e Segredos)
Awkwafina (The Farewell)
Beanie Feldstein (Fora de Série)
Cate Blanchett (Cadê Você, Bernadette?)
Emma Thompson (Late Night)

MELHOR ATOR – COMÉDIA/MUSICAL
Daniel Craig (Entre Facas e Segredos)
Eddie Murphy (Meu Nome é Dolemite)
Leonardo DiCaprio (Era Uma Vez Em… Hollywood)
Roman Griffin Davis (Jojo Rabbit)
Taron Egerton (Rocketman)

MELHOR ATRIZ COADJUVANTE
Annette Bening (O Relatório)
Kathy Bates (Richard Jewell)
Jennifer Lopez (As Golpistas)
Laura Dern (História de Um Casamento)
Margot Robbie (O Escândalo)

MELHOR ATOR COADJUVANTE
Al Pacino (O Irlandês)
Anthony Hopkins (Dois Papas)
Brad Pitt (Era Uma Vez Em… Hollywood)
Joe Pesci (O Irlandês)
Tom Hanks (Um Lindo Dia na Vizinhança)

MELHOR ROTEIRO
Dois Papas
Era Uma Vez Em… Hollywood
História de Um Casamento
O Irlandês
Parasita

MELHOR FILME ESTRANGEIRO
Dor e Glória (Espanha)
The Farewell (Estados Unidos)
Les Misérables (França)
Retrato de uma Jovem em Chamas (França)
Parasita (Coréia do Sul)

MELHOR ANIMAÇÃO
Como Treinar Seu Dragão 3
Frozen 2
Link Perdido
O Rei Leão
Toy Story 4

MELHOR CANÇÃO ORIGINAL
“Beautiful Ghosts” (Cats)
“(I’m Gonna) Love Me Again” (Rocketman)
“Into the Unknown” (Frozen 2)
“Spirit” (O Rei Leão)
“Stand Up” (Harriet)

MELHOR TRILHA SONORA
1917
Adoráveis Mulheres
Brooklyn – Sem Pai Nem Mãe
Coringa
História de Um Casamento

SÉRIES, MINISSÉRIES E TELEFILMES

MELHOR SÉRIE – DRAMA
Big Little Lies
The Crown
Killing Eve
The Morning Show
Succession

MELHOR SÉRIE – COMÉDIA/MUSICAL
Barry
Fleabag
The Kominsky Method
The Marvelous Mrs. Maisel
The Politician

MELHOR MINISSÉRIE/TELEFILME
Catch-22
Chernobyl
Fosse/Verdon
The Loudest Voice
Unbelievable

MELHOR ATRIZ – DRAMA
Jennifer Aniston (The Morning Show)
Jodie Comer (Killing Eve)
Nicole Kidman (Big Little Lies)

Olivia Colman (The Crown)
Reese Witherspoon (The Morning Show)

MELHOR ATOR – DRAMA
Billy Porter (Pose)
Brian Cox (Succession)

Kit Harington (Game of Thrones)
Rami Malek (Mr. Robot)
Tobias Menzies (The Crown)

MELHOR ATRIZ – COMÉDIA/MUSICAL
Christina Applegate (Dead to Me)
Kirsten Dunst (On Becoming a God in Central Florida)
Natasha Lyonne (Russian Doll)
Phoebe Waller-Bridge (Fleabag)
Rachel Brosnahan (The Marvelous Mrs. Maisel)

MELHOR ATOR – COMÉDIA/MUSICAL
Ben Platt (The Politician)
Bill Hader (Barry)
Michael Douglas (The Kominsky Method)

Paul Rudd (Living with Yourself)
Ramy Youssef (Ramy)

MELHOR ATRIZ – MINISSÉRIE/TELEFILME
Helen Mirren (Catherine the Great)
Joey King (The Act)
Kaitlyn Dever (Unbelievable)

Merritt Wever (Unbelievable)
Michelle Williams (Fosse/Verdon)

MELHOR ATOR – MINISSÉRIE/TELEFILME
Christopher Abbott (Catch-22)
Jared Harris (Chernobyl)
Russell Crowe (The Loudest Voice)

Sacha Baron Cohen (The Spy)
Sam Rockwell (Fosse/Verdon)

MELHOR ATRIZ COADJUVANTE – SÉRIE/MINISSÉRIE/TELEFILME
Emily Watson (Chernobyl)
Helena Bonham Carter (The Crown)
Meryl Streep (Big Little Lies)
Patricia Arquette (The Act)

Toni Collette (Unbelievable)

MELHOR ATOR COADJUVANTE – SÉRIE/MINISSÉRIE/TELEFILME
Alan Arkin (The Kominsky Method)
Andrew Scott (Fleabag)
Henry Winkler (Barry)

Kieran Culkin (Succession)
Stellan Skarsgård (Chernobyl)

“O Juízo”, um suspense genérico e deslocado na recente safra do cinema brasileiro

Você já se perguntou por que nada em sua vida dá certo?

Direção: Andrucha Waddington

Roteiro: Fernanda Torres

Elenco: Felipe Camargo, Joaquim Torres Waddington, Carol Castro, Criolo, Kênia Bárbara, Fernando Eiras, Fernanda Montenegro, Lima Duarte

Brasil, 2019, Suspense, 90 minutos

Sinopse: Augusto Menezes (Felipe Camargo) muda-se com a mulher Tereza (Carol Castro) e o filho, Marinho (Joaquim Torres Waddington), para uma fazenda abandonada, herdada do avô, na esperança de colocar a vida nos trilhos. A propriedade, no entanto, carrega o carma da traição ao escravo Couraça (Criolo), que busca ao longo dos séculos a vingança contra a família de Augusto.

Todo contexto envolvendo a idealização de um filme pode ser fator crucial para definir a reação do público com o que é colocado na tela. Afinal, nada acontece no vácuo, nem mesmo o cinema. Podemos analisar O Juízo a partir dessa premissa: estreando nos cinemas em uma era onde o audiovisual brasileiro viu seus chamados filmes de gênero ressurgirem de maneira empoderada, o longa dirigido por Andrucha Waddington empalidece, por exemplo, perante As Boas Maneiras, O Animal Cordial e Mormaço, três títulos recentes que discutiram cicatrizes sociais de nosso país com identidade, bravura e inventividade.

Não tem a ver necessariamente com o nível de excelência alcançado por cada obra, mas sim com o contexto, como já mencionado. Em meio a essa nova corrente de longas de suspense/terror, O Juízo em nada se parece com os seus pares. Claro que isso poderia ser interpretado como um elogio caso o resultado não se assemelhasse, na verdade, com produções de 20 ou 30 anos atrás que não envelheceram bem e adotam fórmulas bastante ultrapassadas, sem tratar clichês em tom de homenagem ou com certa brincadeira.

As pitadas de frustração começam na premissa que ainda insiste em colocar uma família afundada em conflitos no meio do mato, isolada de toda a sociedade e de qualquer meio de comunicação. Lá, coisas estranhas começam a acontecer, espíritos surgem, barulhos passam a vir da floresta e os personagens, inevitavelmente, serão afetados por tudo isso, testemunhando, aos poucos, o desdobramento de um relato envolvendo conturbados episódios de seus antepassados. Tudo da forma como você supõe, entregue do jeitinho convencional que você já viu muitas vezes.

Era de se esperar astúcia maior de O Juízo porque o roteiro é escrito por Fernanda Torres, que, além de ser uma atriz de mão cheia, tornou-se uma autora genial nos últimos anos (seus dois romances, Fim A Glória e Seu Cortejo de Horrores, são obras-primas cercadas de fluidez, criatividade e esperteza) e já havia co-assinado o roteiro de Redentor, uma produção que escapava de ideias formulaicas. Uma teoria para justificar tamanha insipidez talvez seja a de que O Juízo estivesse engavetado há anos, sendo realizado somente agora com certo atraso, sem acompanhar a atual linguagem do cinema brasileiro.

Realizado em família, o filme tem o privilégio de contar com Fernanda Montenegro em um papel coadjuvante. Ela faz o que pode com uma personagem que cai na vala comum: uma médium que, em determinado momento, chega a dizer para um médico que ele precisa acreditar no poder da fé para tratar traumas hereditários, fazendo uma pequena menção ao clássico conflito entre ciência e fé. É um mero detalhe, mas também um elemento que exemplifica bem as abordagens tão antigas quanto o mundo que moldam a trama.

Marido de Fernanda Torres, o cineasta Andrucha Waddington trouxe ainda o filho do casal para integrar o trio de protagonistas. Joaquim Torres Waddington, assim como seus companheiros de tela Felipe Camargo e Carol Castro, navegam no suspense de O Juízo com visível envolvimento, mesmo que a direção de Andrucha não ajude no tema de casa. Tudo leva a crer, no entanto, que o problema esteja no casamento com o texto da vez, pois Andrucha já havia feito um ótimo trabalho com toques de suspense em Gêmeas, longa realizado em 1999 com base em uma obra do mestre Nelson Rodrigues.

Em breves 90 minutos, O Juízo mergulha em traumas transmitidos de geração para geração, fé, (in)sanidade, escravidão e incomunicabilidade, ancorado em um ajuste de contas do fantasma Couraça (Criolo) com a linhagem familiar que um dia lhe causou uma grande perda. A espinha dorsal do suspense, enfim, falha igualmente em surtir efeito. Ao não se apresentar como reflexão social ou como um relato lúcido o bastante para explorar as vertentes do gênero, o conflito central se esvai e, ocasionalmente, sequer desperta interesse. E o descaso, como sempre, é um dos piores sentimentos que qualquer filme pode despertar na plateia.

“Parasita”: fascinante mistura de gêneros ilustra questões sociais marcantes dos nossos tempos

Direção: Bong Joon-ho

Roteiro: Bong Joon-ho e Han Jin Won

Elenco: Kang-ho Song, Sun-kyun Lee, Yeo-jeong Jo, Woo-sik Choi, Hye-jin Jang, So-dam Park, Ji-so Jung, Ji-hye Lee, JaeWook Park, Myeong-hoon Park, Seo-joon Park, Keun-rok Park

Gisaengchung, Coréia do Sul, 2019, Drama/Comédia/Suspense, 132 minutos

Sinopse: Toda a família de Ki-taek está desempregada, vivendo num porão sujo e apertado. Uma obra do acaso faz com que o filho adolescente da família comece a dar aulas de inglês à garota de uma família rica. Fascinados com a vida luxuosa destas pessoas, pai, mãe, filho e filha bolam um plano para se infiltrarem também na família burguesa, um a um. No entanto, os segredos e mentiras necessários à ascensão social custarão caro a todos. (Adoro Cinema)

A possibilidade de viajar o mundo é um dos maiores fascínios proporcionados pelos filmes que assistimos. Navegando por obras de diversas nacionalidades, podemos desbravar novas culturas, conhecer diferentes linguagens e descobrir a maneira como cada lugar registra, através do cinema, a sua própria existência. Tão maravilhoso quanto isso é perceber como, uma vez que outra, apesar dos idiomas, dos quilômetros e das vivências que nos separam, compartilhamos muitas coisas, até mesmo angústias e conflitos. Nesse sentido, poucas ferramentas conseguem ser tão poderosas quanto a sétima arte, algo que é possível constatar em uma involuntária quadrilogia de filmes recentes que, em língua não-inglesa, evidencia problemas equivalentes em diversos cantos do mundo, como as brutais diferenças entre classes, a reivindicação por algum tipo de humanidade e as dores dos desassistidos pela vida, pela sociedade e pelos governantes.

Vem do Brasil, aliás, um dos exemplares dessa quadrilogia tão representativa: Bacurau, que levou o Prêmio do Júri do Festival de Cannes e versa sobre uma cidade nordestina diante da ameaça de sumir do mapa. Antes disso, o Japão e o Líbano nos entregaram, respectivamente, Assunto de Família e Cafarnaum, dois longas que, entre a delicadeza e a visceralidade, lançaram luz sobre a duríssima jornada de pessoas sem perspectivas de vida. E, agora, chegamos ao impactante Parasita, da Coreia do Sul, que ganhou a Palma de Ouro do último Festival de Cannes em uma escolha unânime do júri presidido pelo cineasta Alejandro González-Iñárritu. Acumulando elogios por onde passa, tornando-se, inclusive, um grande sucesso de público nos Estados Unidos, onde obras de língua não-inglesa raramente performam com certa popularidade, Parasita ostenta um consenso justíssimo ao observar as disparidades no convívio entre famílias de classes distintas, saltando de um gênero a outro com maestria e elevando a já reconhecida carreira de Bong Joon-Ho (Mother, O Hospedeiro, Okja, Expresso do Amanhã) a um novo (e emblemático) patamar de excelência.

São claras e inteligentes as fronteiras de gênero entrelaçadas por Parasita. Desconhecendo a trama, é possível supor que, a partir do primeiro terço, trata-se de uma curiosa e instigante comédia. Passada a apresentação dos personagens e a conclusão do conflito inicial, Bong Joon-ho, que assina o roteiro ao lado de Han Jin Won, leva o espectador para um eufórico suspense de becos aparentemente sem saída. Por fim, o ciclo se completa com um peso dramático que ressignifica a comédia e o suspense trabalhados até ali. O caldeirão de gêneros apresentado em Parasita funciona porque Bong Joon-ho, claro, é um expert nessa mistura (para quem ainda não conferiu qualquer outro filme assinado por ele, vale a busca para constatar tal talento), e o diretor se esbalda em cada abordagem: a comédia é esperta e apropriada para a fase introdutória do filme, o suspense não é nada óbvio e consegue promover uma grande virada na trama, e o drama amarra todas as pontas com um misto de delicadeza e profundidade. Tudo sem fazer com que Parasita pareça ter vários filmes dentro de um.

A matéria-prima para qualquer um dos gêneros trabalhados por Bon Joon-ho é, sem dúvida, a contemporânea sequência de reflexões sociais que atravessa o filme do início ao fim. Interpretando a família pobre como animais que precisam se esconder ou ser exterminados (a casa sendo dedetizada logo no início, a família embaixo da mesa da sala, a forma como a mãe fala que todos devem se esconder como baratas quando a família rica chegar), Parasita ilustra contrastes sociais com um roteiro impecável. Toda ação tem uma consequência, cada detalhe ganha um significado posterior e até mesmo algumas das revelações da trama são plantadas muito discretamente entre um diálogo e outro, sem que o espectador perceba. E não é pouca coisa, uma vez que temos quase uma dezena de personagens interagindo em um mesmo ambiente, o que gera um considerável número de dinâmicas diferentes.

A imensa casa onde a ação do longa se desdobra é também um personagem à parte. Tanto o casarão pode representar a ascensão financeira e social que uma família pobre tanto almeja quanto pode ser desprovida de qualquer idealização material para se tornar o secreto reduto de uma dolorosa distância familiar. Bong Joon-ho distribui acontecimentos e personagens por uma quantidade infinita quantidade de cômodos com um elegante trabalho de mise-en-scène que define praticamente toda a ação do filme, assim como o comportamento e as decisões tomadas pelos personagens (vale também registrar, claro, o excepcional trabalho de elenco, onde há unidade e destaques pontuais). Com cada elemento orquestrado no devido esmero, Parasita agrega as mais distintas plateias, tornando-se grandioso no detalhe, e hiper relevante em tudo aquilo que, assim como tantos outros filmes recentes, acaba registrando sobre cicatrizes sociais e universais.