Cinema e Argumento

“O Escândalo”: mesmo com ótimas atrizes, longa perde em sutileza ao falar sobre dilemas femininos a partir de perspectivas masculinas

People don’t stop watching when there’s a conflict. They stop watching when there isn’t one.

Direção: Jay Roach

Roteiro: Charles Randolph

Elenco: Charlize Theron, Nicole Kidman, Margot Robbie, John Lithgow, Kate McKinnon, Connie Britton, Mark Duplass, Allison Janney, Malcolm McDowell, Liv Hewson, Stephen Root, Robin Weigert, Amy Landecker, Brigette Lundy-Paine

Bombshell, EUA/Canadá, 2019, Drama, 109 minutos

Sinopse: Um gigante do telejornalismo e antigo CEO da Fox News, Roger Ailes (John Lithgow) tem seu poder questionado e sua carreira derrubada quando um grupo de mulheres o acusa de assédio sexual no ambiente de trabalho. (Adoro Cinema)

Uma dose considerável de cansaço tomou conta de mim nos primeiros minutos de O Escândalo. Quebrando a quarta parte, o filme de Jay Roach sobre a derrocada do magnata Roger Ailes após inúmeras denúncias de assédio sexual por parte de funcionárias da Fox News faz uma introdução ao seu universo televisivo e corporativo com sátira e descomplicações de determinados fatos e contextos. O cansaço veio porque já vimos demais esse estilo recentemente. Coloque na conta os dois últimos trabalhos de Adam McKay (A Grande Aposta e Vice), o Eu, Tonya de Craig Gillespie e o genérico A Lavanderia de Steven Soderbergh e você terá noção do quanto tal fórmula já soa repetitiva mesmo sendo uma tendência tão recente.

No caso de O Escândalo há um ligeiro frescor que não dissipa o sentimento de repetição, mas que brinca com uma interessante metalinguagem: apresentadora de TV, Megyn Kelly (Charlize Theron) explica eventos e circunstâncias olhando diretamente para o espectador ao transitar pelos bastidores da Fox News, com a mesma postura de alguém que está ao vivo em um telejornal. À parte essa boa brincadeira, a pegada e o ritmo são os mesmos de sempre,  o que imediatamente leva o espectador a deduzir que o filme inteiro se desdobrará dessa maneira. Não é exatamente o que acontece porque O Escândalo dá uma boa amortecida na proposta, tornando-se mais comedido do que o esperado em tiques e afetações.

Entretanto, como um relato ligeiramente mais comportado de fatos reais, o longa deixa revelar uma significativa fragilidade, alimentada desde a concepção do projeto. Ora, como é possível uma história sobre assédio sexual contra mulheres em um ambiente de trabalho não contar, justamente, com pelo menos uma presença feminina no roteiro ou na direção? Sejamos francos ao afirmar que O Escândalo funciona sem maiores problemas durante toda projeção, mas sempre há essa atmosfera de que algo está faltando. Sem um olhar feminino, o filme não cimenta as entrelinhas que deveriam explorar emocionalmente as angústias vividas por mulheres capazes de enfrentar todo tipo de adversidade para denunciar um homem e um sistema.

A limitação de olhares masculinos para dilemas femininos está exemplificada na cena em que uma das personagens confessa ter cedido às investidas imorais do chefe que prometeu colocá-la na linha de frente da Fox News caso ela provasse sua “lealdade”. A personagem em questão discursa e chora, protagonizando um momento comovente. O que acontece é que essa cena discute inúmeras cargas dramáticas de maneira expositiva, como se por si só compensasse o fato do longa não ter desenvolvido em detalhes e sutilezas os conflitos internos de uma mulher que custou a compreender o que estava acontecendo com ela própria. Para dilemas de tamanha importância, é frustrante que discussões tão sérias, profundas e relevantes acabem reduzidas a um discurso apoiado na verbalização de conflitos internos.

Com propriedade e lugar de fala garantidos por alguma presença feminina na linha de frente, O Escândalo poderia potencializar os efeitos de uma história tão significativa para a nossa realidade, dando subsídios ao próprio Jay Roach, que, após ter abandonado a realização de comédias como Austin Powers e Entrando Numa Fria, dirigiu produções baseadas em histórias reais com grande talento (destaque para Virada no JogoRecontagem, dois telefilmes bastante instigantes com o selo HBO). Isso seria desejar um projeto completamente diferente, mas é bem provável que a experiência pudesse se apresentar com mais consistência, contentando-se menos com a reprodução de fatos (a cena em que uma personagem levanta a saia para Roger Ailes não seria tão gráfica nas mãos de uma diretora)  e mais nos efeitos dramáticos de cada acontecimento para a vida das protagonistas e da sociedade como um todo.

Considerando as presenças femininas de O Escândalo, destaque absoluto para o trio central de atrizes. Charlize Theron hipnotiza com o tanto que ficou parecida com Megyn Kelly, desaparecendo por completo em uma personagem que domina as atenções. Já Nicole Kidman tem em Gretchen Carlson a figura mais transparente do filme: como a primeira profissional a denunciar Roger Ailes, Gretchen quebrou barreiras, mesmo quando se viu sem o apoio inicial de suas colegas. Por fim, Margot Robbie, que tem melhor material aqui do que no recente Era Uma Vez Em… Hollywood, trabalha com uma interessante personagem ficcional que representa as vítimas. Charlize, Nicole e Margot, não por acaso, são o ponto alto do filme e só comprovam o quanto as discussões de O Escândalo se tornam maiores e melhores quando dominadas por figuras femininas. 

Os vencedores do Screen Actors Guild Awards 2020

O elenco de Parasita triunfa no Screen Actors Guild Awards 2020: filme de Bong Joon-ho faz história como a primeira produção estrangeira a faturar o prêmio principal do sindicato de atores.

Recheado de surpresas no segmento de séries, minisséries e telefilmes (elenco em drama para The Crown, atriz em drama para Jennifer Aniston, ator em minissérie para Sam Rockwell), o Screen Actors Guild Awards, por outro lado, foi um marasmo na categoria de cinema ao carimbar de uma vez por todas o favoritismo absoluto de Renée Zellweger (Judy: Muito Além do Arco-Íris), Joaquin Phoenix (Coringa), Laura Dern (História de Um Casamento) e Brad Pitt (Era Uma Vez Em… Hollywood), todos rumo aos seus respectivos Oscars de interpretação no dia 9 de fevereiro. Se antes havia a suspeita, agora há a certeza: 2020 repetirá toda a cansativa previsibilidade do ano de 2018, quando Frances McDormand (Três Anúncios Para Um Crime), Gary Oldman (O Destino de Uma Nação), Allison Janney (Eu, Tonya) e Sam Rockwell (Três Anúncios Para Um Crime) dominaram a temporada sem deixar margem para qualquer competição.

O SAG só não ficou no tédio absoluto do ponto de vista cinematográfico porque todos os discursos foram bons e porque o melhor ficou guardado para o final: a vitória histórica de Parasita em melhor elenco. O excepcional filme de Bong Joon-ho foi a primeira produção em língua não-inglesa a faturar a categoria e apenas o quarto longa a vencer sem indicações individuais para seus atores (os outras foram Pantera Negra, O Senhor dos Anéis: O Retorno do Rei e Ou Tudo Ou Nada). Resta saber o que a vitória significa para a temporada. Teria Hollywood finalmente quebrado seu preconceito com produções estrangeiras a partir do significativo aval de um eleitorado importante como o dos atores? Estatísticas à parte, o prêmio foi justíssimo, além de ser o tipo de consagração que será para sempre referenciada.

Confira abaixo a lista completa de vencedores:

CINEMA

MELHOR ELENCO: Parasita
MELHOR ATRIZ: Renée Zellweger (Judy: Muito Além do Arco-Íris)

MELHOR ATOR: Joaquin Phoenix (Coringa)
MELHOR ATRIZ COADJUVANTE: Laura Dern (História de Um Casamento)
MELHOR ATOR COADJUVANTE: Brad Pitt (Era Uma Vez Em… Hollywood)

SÉRIES, MINISSÉRIES E TELEFILMES

MELHOR ELENCO – DRAMA: The Crown
MELHOR ELENCO – COMÉDIA: The Marvelous Mrs. Maisel
MELHOR ATRIZ – DRAMA: Jennifer Aniston (The Morning Show)

MELHOR ATOR – DRAMA: Peter Dinklage (Game of Thrones)
MELHOR ATRIZ – COMÉDIA: Phoebe Waller-Bridge (Fleabag)
MELHOR ATOR – COMÉDIA: Tony Shalhoub (The Marvelous Mrs. Maisel)

MELHOR ATRIZ – MINISSÉRIE/TELEFILME: Michelle Williams (Fosse/Verdon)
MELHOR ATOR – MINISSÉRIE/TELEFILME: Sam Rockwell (Fosse/Verdon)

Apostas para o Screen Actors Guild Awards 2020

A temporada de prêmios televisionados começou no último dia 5 com o Globo de Ouro, seguiu no dia 12 com mais uma cerimônia esquizofrênica do irrelevante Critics’ Choice Awards e agora chega neste domingo (19) ao Screen Actors Guild Awards, premiação que, nos últimos anos, tem perdido parte de seu impacto como termômetro de previsão ao Oscar (A Forma da Água e Green Book foram consagrados pela Academia, mas sequer indicados ao SAG de melhor elenco). Sem 1917 disputando a categoria de melhor elenco (estaria mais uma vez o vencedor do Oscar ausente no SAG?), é de se esperar que Era Uma Vez Em… Hollywood siga com o seu bom momento na temporada, levando para casa as estatuetas de melhor elenco e ator coadjuvante. Nos prêmios individuais, o jogo já parece garantido para Renée Zellweger (Judy), Joaquin Phoenix (Coringa), Laura Dern (História de Um Casamento) e Brad Pitt (Era Uma Vez Em… Hollywood). Para os brasileiros, uma má notícia: dessa vez, o SAG não terá transmissão em rede nacional. Abaixo, compartilho com vocês alguns rápidos palpites.

CINEMA

MELHOR ELENCOEra Uma Vez Em… Hollywood / alt: Parasita
MELHOR ATRIZ: Renée Zellweger (Judy: Muito Além do Arco-Íris) / alt: Lupita Nyong’o (Nós)

MELHOR ATOR: Joaquin Phoenix (Coringa) / alt: Adam Driver (História de Um Casamento)
MELHOR ATRIZ COADJUVANTE: Laura Dern (História de Um Casamento) / alt: Jennifer Lopez (As Golpistas)
MELHOR ATOR COADJUVANTE: Brad Pitt (Era Uma Vez Em… Hollywood) / alt: Al Pacino (O Irlandês)

SÉRIES, MINISSÉRIES E TELEFILMES

MELHOR ELENCO – DRAMAGame of Thrones / alt: Big Little Lies
MELHOR ELENCO – COMÉDIAFleabag / alt: The Marvelous Mrs. Maisel
MELHOR ATRIZ – DRAMA: Olivia Colman (The Crown) / alt: Jennifer Aniston (The Morning Show)

MELHOR ATOR – DRAMA: Peter Dinklage (Game of Thrones) / alt: Steve Carell (The Morning Show)
MELHOR ATRIZ – COMÉDIA: Phoebe Waller-Bridge (Fleabag) / alt: Rachel Brosnahan (The Marvelous Mrs. Maisel)
MELHOR ATOR – COMÉDIA: Andrew Scott (Fleabag) / alt: Tony Shalhoub (The Marvelous Mrs. Maisel)

MELHOR ATRIZ – MINISSÉRIE/TELEFILME: Michelle Williams (Fosse/Verdon) / alt: Patricia Arquette (The Act)
MELHOR ATOR – MINISSÉRIE/TELEFILME: Jharrel Jerome (When They See Us) / alt: Russell Crowe (The Loudest Voice)

Os indicados ao Oscar 2020

Coringa é o filme recordista de indicações ao Oscar 2020. Longa de Todd Phillips estrelado por Joaquin Phoenix concorre em 11 categorias.

Estatisticamente, o Oscar, nos últimos anos, foi um prêmio muito mais autêntico e espontâneo em comparação a qualquer outro da temporada. Além de ter bancado sozinha indicações como a de Marion Cotillard (Dois Dias, Uma Noite) e Charlotte Rampling (45 Anos), a Academia, que não está isenta de falhas, frequentemente desviou a rota de cerimônias que consagravam sempre o mesmo filme. Quando Boyhood reinava soberano, o Oscar optou por Birdman. No ano de Três Anúncios Para Um Crime, a Academia premiou A Forma da Água. E há também, claro, a clássica vitória de Moonlight em cima de La La Land.

Tendo em vista tudo isso, era de se esperar que a lista de indicados revelada hoje (13) garimpasse algumas novidades. O que aconteceu foi apenas um ajuste aqui e outro ali em possíveis indicações já consideradas desde sempre. Não é inesperado, por exemplo, Kathy Bates (O Caso Richard Jewell) e Florence Pugh (Adoráveis Mulheres) figurarem entre as atrizes coadjuvante em detrimento de Jennifer Lopez (As Golpistas), uma das ausências mais surpreendentes do ano, ainda que justa, pois ela é quase tão protagonista quanto Constance Wu no longa de Lorena Scafaria (e é preciso terminar com a cultura de fraudes de categoria!).

Mesmo a indicação de Antonio Banderas (Dor e Glória) em melhor ator não é uma raridade: o Globo de Ouro e o Critics’ Choice já haviam indicado o espanhol, que, após ter faturado o prêmio de melhor ator em Cannes, foi amplamente elogiado mundo afora. Igualmente previsível era o Oscar seguir a mesma batida de prêmios como o BAFTA no que se refere aos problemas envolvendo a celebração de cineastas mulheres e atores negros. Indicando apenas uma atriz negra em 20 vagas nos segmentos de atuações, a Academia segue com dificuldades em selecionar nomes fora do circuito branco e estadunidense. Não é desmerecer quem está indicado, mas sim lançar um importante olhar para aqueles que não foram e que também entregaram trabalhos dignos de lembrança.

Talvez o movimento mais curioso da seleção 2020 seja o amor incondicional por Coringa. Justiça seja feita: várias das 11 indicações que o filme de Todd Phillips recebeu são injustificadas, como figurino, maquiagem, edição de som e mixagem de som. Com isso, voltamos à discussão da indústria olhar somente para os mesmos filmes e não procurar algo fora da sua zona de conforto. Por outro lado, a liderança de Coringa representa algo muito maior: uma sinalização de que, talvez, o Oscar esteja mais aberto aos sucessos de bilheteria que representam o ganha-pão da indústria Hollywoodiana. Sucessos que a Academia sempre insiste em minimizar, premiando Guerra ao Terror no lugar de Avatar ou Spotlight ao invés de Mad Max: Estrada da Fúria.

Para os brasileiros, uma alegria: estamos de volta na disputa, agora na categoria de melhor documentário. Citado pela imprensa internacional desde a época de seu lançamento, Democracia em Vertigem, de Petra Costa, investiga os bastidores do golpe parlamentar de 2016 que tirou a então presidenta Dilma Rousseff do poder. Está disponível para ser assistido na Netflix. A indicação é um belo presente para os anos tão conturbados que temos vivido no cenário político nacional. Se Democracia conquista ou não a estatueta, é outra história. Saberemos, aliás, no dia 9 de fevereiro, quando o Oscar revela sua lista de vencedores. Por enquanto, fiquem abaixo com a lista completa de indicados:

MELHOR FILME
1917
Adoráveis Mulheres
Coringa
Era Uma Vez Em… Hollywood
Ford vs Ferrari
História de Um Casamento
O Irlandês
Jojo Rabbit
Parasita

MELHOR DIREÇÃO
Bong Joon-ho (Parasita)
Martin Scorsese (O Irlandês)
Quentin Tarantino (Era Uma Vez Em… Hollywood)
Sam Mendes (1917)
Todd Phillips (Coringa)

MELHOR ATRIZ
Charlize Theron (O Escândalo)
Cynthia Erivo (Harriet)
Renée Zellweger (Judy: Muito Além do Arco-Íris)
Saoirse Ronan (Adoráveis Mulheres)
Scarlett Johansson (História de Um Casamento)

MELHOR ATOR
Adam Driver (História de Um Casamento)
Antonio Banderas (Dor e Glória)
Joaquin Phoenix (Coringa)
Jonathan Price (Dois Papas)
Leonardo DiCaprio (Era Uma Vez Em… Hollywood)

MELHOR ATRIZ COADJUVANTE
Florence Pugh (Adoráveis Mulheres)
Kathy Bates (O Caso Richard Jewell)
Laura Dern (História de Um Casamento)
Margot Robbie (O Escândalo)
Scarlett Johansson (Jojo Rabbit)

MELHOR ATOR COADJUVANTE
Al Pacino (O Irlandês)
Anthony Hopkins (Dois Papas)
Brad Pitt (Era Uma Vez Em… Hollywood)
Joe Pesci (O Irlandês)
Tom Hanks (Um Lindo Dia na Vizinhança)

MELHOR ROTEIRO ORIGINAL
1917
Entre Facas e Segredos
Era Uma Vez Em… Hollywood
História de Um Casamento
Parasita

MELHOR ROTEIRO ADAPTADO
Adoráveis Mulheres
Coringa
Dois Papas
O Irlandês
Jojo Rabbit

MELHOR FILME INTERNACIONAL
Corpus Christi (Polônia)
Dor e Glória (Espanha)
Honeyland (Macedônia)
Os Miseráveis (França)
Parasite (Coreia do Sul)

MELHOR ANIMAÇÃO
Como Treinar Seu Dragão 3
Klaus
Link Perdido
Perdi Meu Corpo

Toy Story 4

MELHOR DOCUMENTÁRIO
The Cave
Democracia em Vertigem
Honeyland
Indústria Americana
For Sama

MELHOR FOTOGRAFIA
1917
Coringa
Era Uma Vez Em… Hollywood
O Farol
O Irlandês

MELHOR MONTAGEM
Coringa
Ford vs Ferrari
O Irlandês
Jojo Rabbit
Parasita

MELHOR DESIGN DE PRODUÇÃO
1917

Era Uma Vez Em… Hollywood
O Irlandês
Jojo Rabbit
Parasita

MELHOR FIGURINO
Adoráveis Mulheres
Coringa
Era Uma Vez Em… Hollywood
O Irlandês
Jojo Rabbit

MELHOR TRILHA SONORA
1917
Adoráveis Mulheres
Coringa
História de Um Casamento
Star Wars: A Ascensão Skywalker

MELHOR CANÇÃO ORIGINAL
“I Can’t Let You Throw Yourself Away” (Toy Story 4)

“(I’m Gonna) Love Me Again” (Rocketman)
“I’m Standing With You” (Superação: O Milagre da Fé)
“Into the Unknown” (Frozen 2)
“Stand Up” (Harriet)

MELHOR EDIÇÃO DE SOM
1917
Coringa
Era Uma Vez Em… Hollywood
Ford vs Ferrari
Star Wars: A Ascensão Skywalker

MELHOR MIXAGEM DE SOM
1917
Ad Astra: Rumo às Estrelas
Coringa
Era Uma Vez Em… Hollywood
Ford vs Ferrari

MELHOR MAQUIAGEM E PENTEADOS
1917
Coringa
O Escândalo
Judy: Muito Além do Arco-Íris
Malévola: Dona do Mal

MELHORES EFEITOS VISUAIS
1917
O Irlandês
O Rei Leão
Star Wars: A Ascensão Skywalker
Vingadores: Ultimato

MELHOR CURTA METRAGEM
Brotherhood

Nefta Footbal Club
The Neighbor’s Window
Saria
A Sister

MELHOR CURTA-METRAGEM (DOCUMENTÁRIO)
In the Absence
Learning to Skateboard in a Warzone (If You’re a Girl)
Life Overtakes Me
St. Louis Superman
Walk Run Cha-Cha

MELHOR CURTA-METRAGEM (ANIMAÇÃO)
Dcera (Daughter)
Hair Love
Kitbull
Memorable
Sister

“Adoráveis Mulheres”, uma refilmagem capaz de reverenciar e oxigenar o seu material de origem na mesma medida

I believe we have some power over who we love.

Direção: Greta Gerwig

Roteiro: Greta Gerwig, baseado no romance “Little Women”, de Louisa May Alcott

Elenco: Saoirse Ronan, Florence Pugh, Timothée Chalamet, Emma Watson, Eliza Scanlen, Laura Dern, Meryl Streep, Louis Garrel, Chris Cooper, Tracy Letts, Bob Odenkirk, James Norton, Jayne Houdyshell, Maryann Plunkett

Little Women, EUA, 2019, Drama, 135 minutos

Sinopse: As irmãs Jo (Saoirse Ronan), Beth (Eliza Scanlen), Meg (Emma Watson) e Amy (Florence Pugh) amadurecem na virada da adolescência para a vida adulta enquanto os Estados Unidos atravessam a Guerra Civil. Com personalidades completamente diferentes, elas enfrentam os desafios de crescer unidas pelo amor que nutrem umas pelas outras. (Adoro Cinema)

Há duas razões plausíveis para uma obra querida por gerações ser revisitada de tempos em tempos. Em primeiro lugar, gosto de pensar que há o fator da reverência: quando bem feita, uma nova adaptação pode homenagear determinada história com todo o respeito e o refinamento merecidos, mesmo sem modificar uma única vírgula do material original. Afinal, é um prazer reencontrar queridos personagens se eles renascem com certo encanto (o imperdoável é ficar entre as fronteiras da indiferença e do desastre). A segunda razão vem da necessidade de atualização, quando um diretor ou uma diretora busca, na raiz de uma história clássica, motivos para interpretá-la a partir da vivência de novas gerações.

Escrito em 1868 pela autora estadunidense Louisa May Alcott, o romance Mulherzinhas já foi adaptado para o cinema, para o teatro e para a TV. A versão mais célebre, talvez, seja a cinematográfica de 1994, que reuniu nomes como Winona Ryder, Susan Sarandon, Kirsten Dunst, Claire Danes, Christian Bale e Gabriel Byrne. Era simpática, mas não marcante. Pois agora chegamos a uma versão de elenco igualmente estelar e comandada por uma cineasta que, recém saída de indicações ao Oscar de melhor roteiro e direção por Lady Bird: A Hora de Voar, adapta o material de Louisa May Alcott com reverência e atualizações pontuais para justificar a releitura.

“Eu passei por muitas dificuldades, por isso escrevo histórias felizes”. Abrindo Adoráveis Mulheres com essa frase da própria Louisa, Greta Gerwig já dá um pequeno spoiler de como será o seu filme: luminoso, espirituoso e afetuoso, ainda que, no caminho, as protagonistas enfrentem desamores, perdas e frustrações. Melhor diretora aqui do que em Lady Bird, Gerwig compreende o quanto o carinho presente na obra da escritora é essencial para o diálogo com o espectador, e o amplia em todas as frentes, como no gracioso trabalho de elenco, nos delicados figurinos de Jacqueline Durran e na encantadora trilha sonora de Alexandre Desplat.

Com drama, bom humor e romance, Adoráveis Mulheres conta, claro, uma história muito feminina, a partir de um ambiente familiar onde é fácil nutrir simpatia e torcida por cada uma das personagens, todas com seus próprios sonhos e objetivos, mesmo quando umas são melhor trabalhadas do que outras (Emma Watson, que já costuma ser uma atriz limitada, não tem muito o que fazer ao dar vida para a filha mais desinteressante). Em papeis menores, há espaço, por exemplo, para que Laura Dern, com sua ternura habitual, traga todo o calor materno tão necessário ao papel da matriarca ou para que Meryl Streep, em suas pequenas aparições como alívio cômico, represente a divertida tia rica que optou por não se casar e que tenta planejar um destino semelhante para as sobrinhas.

Enquanto isso, o coração mais pulsante de Adoráveis Mulheres fica com o trio Saoirse Ronan, Florence Pugh e Timothée Chalamet. A primeira, em outro desempenho que comprova as razões de ser considerada o nome mais versátil e interessante de sua geração, conduz o papel da independente e inteligente Jo com múltiplas dimensões, principalmente quando ela se parece mais com as sentimentais irmãs do que está disposta a admitir. Já Pugh, que há pouco esteve em Midsommar, segue com grande presença, explorando as oscilações de uma jovem apaixonada por um garoto que, na verdade, deseja a sua irmã. E, por fim, Chalamet dá uma arejada nos tiques frequentemente repetidos em filmes como Um Dia de Chuva em Nova York para criar um Laurie carismático, espontâneo e com excelente química tanto com Ronan quanto com Pugh.

Na novela radiante e sentimental que é Adoráveis Mulheres, Gerwig, também autora do roteiro, busca, enfim, fazer os comentários capazes de conferir o sentimento de atualização ao enredo. Dessa vez, o enredo da protagonista Jo ganha discussões pertinentes para dias de hoje, como a própria questão mercadológica na criação de uma história, responsável por um dos melhores momentos do filme: por que todas as mulheres precisam casar no final de uma trama, seja ela literária ou cinematográfica, para que o público saia satisfeito? Vale a pena bater pé para quebrar estereótipos ou é justo se vender desde que a um bom preço e mediante a exigências? E, na vida, Gerwig segue questionando sob a luz dos nossos tempos: o que acontece com aqueles destinados a viver sem um grande amor? Somente a paixão dá sentido à existência, inclusive quando todo o resto está no seu devido lugar? É mais importante amar ou a sensação de ser amado? 

Algumas dessas questões já estavam presentes nas outras adaptações, mas Gerwig, agora ciente do seu lugar de fala em uma época muito mais aberta a reflexões do gênero, pincela cada uma delas até de forma bastante direta. A vontade de levantar bandeiras eventualmente corta um pouco a sutileza do filme a cena envolvendo um lacrimoso desabafo de Jo com a mãe sobre aquilo a sociedade espera das mulheres soa um tanto artificial, como um discurso pronto , o que não diminui as boas intenções que, na maior parte de Adoráveis Mulheres, funcionam tão bem ao lado de outros singelos e importantes detalhes, como o fato de todas as personagens terem alguma vocação artística ou aspiração profissional, escapando do mero ofício de belas, recatadas e do lar.

Ao diminuir o melodrama no sentido de não se ater tanto a pesos dramáticos ou problemas familiares (e tratá-los, vejam só, como amadurecimento e aprendizado!), Adoráveis Mulheres também tem, em comparação com o longa de 1994, uma escolha narrativa diferenciada, abandonando a estrutura linear para usar a ideia de ir e vir no tempo. E a montagem de Nick Houy, que colaborou com Greta em Lady Bird, trabalha a temporalidade sem parecer um artifício dramático para fazer revelações ou introduzir alguma explicação. Sempre que Adoráveis Mulheres salta no tempo, a atmosfera parece ganhar um novo cunho afetivo. São detalhes muito simples e que, assim como aconteceu em Lady Bird, podem ser recebidos com descaso justamente por conta disso (que injustiça!). Prevendo essa equivocada percepção, de repente me flagro com a necessidade de defender Greta mais uma vez da seguinte forma, reproduzindo a última frase que escrevi sobre o seu filme anterior: “não é todo mundo que encontra a fibra da emoção e da inteligência na simplicidade”.