Cinema e Argumento

Os indicados ao BAFTA 2020

Coringa lidera a lista do BAFTA 2020 com 11 indicações. Cerimônia acontece no dia 2 de fevereiro.

Já expressei em diversas ocasiões o quanto gosto do BAFTA, uma premiação que, durante muitos anos, foi autêntica e surpreendente (para quem duvida, há provas cabais aqui e aqui), mas, com a lista divulgada hoje (07), fica difícil defender a academia britânica, mesmo com muito esforço. Não é de hoje que o BAFTA se descaracteriza, tentando, assim como tantas outras premiações, ser somente mais uma prévia do Oscar. No entanto, é mesmo preocupante a seleção de 2020, onde não há vestígio de representatividade em um ano com elogiadas performances de atores negros no radar (Cynthia Erivo com Harriet, Lupita Nyong’o com Nós, citando as mais cotadas) e também vários filmes dirigidos por mulheres (Lulu Wang com The Farewell, Greta Gerwig com Adoráveis Mulheres). Tudo é muito branco e masculino, reafirmando o consumo cinematográfico de viés machista e racista de um eleitorado que coloca todos esses filmes em categorias técnicas ou de produção em língua não-inglesa, mas nunca na disputa de melhor filme, direção ou de interpretações.

É péssima também a estreia da categoria de melhor elenco, antes uma novidade a ser comemorada. Como, por exemplo, Dois Papas e Coringa concorrem munidos de somente dois ou três atores de destaque enquanto outros títulos que são claramente melhores definições de um excelente trabalho de elenco são sequer citados? Onde foi parar a ideia de celebrar o coletivo e não apenas uma dupla ou um trio, facilmente contempláveis em categorias individuais de interpretação? Com Coringa liderando a lista com 11 indicações, seguido de longas que já vimos em tantas outras seleções e de ajustes preguiçosos (Margot Robbie com indicação dupla?), o BAFTA logo antecipou a polêmica e emitiu um comunicado dizendo que o problema da falta de representatividade é anterior e que o prêmio só reflete um enorme buraco da indústria. É uma desculpa com seu fundo de verdade, mas incapaz de eximir a culpa de uma premiação que, como parte de celebração à indústria, também tem papel fundamental na missão de disseminar mudanças.

Os vencedores do BAFTA serão conhecidos no dia 2 de fevereiro. Confira abaixo a lista completa de indicados:

MELHOR FILME
1917
Coringa
Era Uma Vez Em… Hollywood
O Irlandês
Parasita

MELHOR DIREÇÃO
Bong Joon-ho (Parasita)
Martin Scorsese (O Irlandês)
Quentin Tarantino (Era Uma Vez Em… Hollywood)
Sam Mendes (1917)
Todd Phillips (Coringa)

MELHOR ATRIZ
Charlize Theron (O Escândalo)
Jessie Buckley (As Loucuras de Rose)
Renée Zellweger (Judy: Muito Além do Arco-Íris)
Saoirse Ronan (Adoráveis Mulheres)
Scarlett Johansson (História de Um Casamento)

MELHOR ATOR
Adam Driver (História de Um Casamento)
Joaquin Phoenix (Coringa)
Jonathan Pryce (Dois Papas)
Leonardo Dicaprio (Era Uma Vez Em… Hollywood)
Taron Egerton (Rocketman)

MELHOR ATRIZ COADJUVANTE
Florence Pugh (Adoráveis Mulheres)
Laura Dern (História de Um Casamento)
Margot Robbie (O Escândalo)
Margot Robbie (Era Uma Vez Em… Hollywood)
Scarlett Johansson (Jojo Rabbit)

MELHOR ATOR COADJUVANTE
Al Pacino (O Irlandês)
Anthony Hopkins (Dois Papas)
Brad Pitt (Era Uma Vez Em… Hollywood)
Joe Pesci (O Irlandês)
Tom Hanks (Um Lindo Dia na Vizinhança)

MELHOR ELENCO
Coringa
Dois Papas
Era Uma Vez Em… Hollywood
História de um Casamento
The Personal History Of David Copperfield

MELHOR ROTEIRO ORIGINAL
Entre Facas e Segredos
Era Uma Vez em… Hollywood
Fora de Série
História de Um Casamento
Parasita

MELHOR ROTEIRO ADAPTADO
Adoráveis Mulheres
Coringa
Dois Papas
O Irlandês
Jojo Rabbit

MELHOR TRILHA SONORA
1917
Adoráveis Mulheres
Coringa
Jojo Rabbit
Star Wars: A Ascensão Skywalker

MELHOR FOTOGRAFIA
1917
Coringa
O Farol
Ford vs Ferrari
O Irlandês

MELHOR MONTAGEM
Coringa
Era Uma Vez em… Hollywood
Ford vs Ferrari
O Irlandês
Jojo Rabbit

MELHOR DESIGN DE PRODUÇÃO
1917
Coringa
Era Uma Vez em… Hollywood
O Irlandês
Jojo Rabbit

MELHOR FIGURINO
Adoráveis Mulheres
Era Uma Vez Em… Hollywood
O Irlandês
Jojo Rabbit
Judy: Muito Além do Arco-Íris

MELHOR MAQUIAGEM E PENTEADOS
1917
Coringa
O Escândalo
Judy: Muito Além do Arco-Íris
Rocketman

MELHOR SOM
1917
Coringa
Ford vs Ferrari
Rocketman
Star Wars: A Ascensão Skywalker

MELHORES EFEITOS VISUAIS
1917
O Irlandês
O Rei Leão
Star Wars: A Ascensão Skywalker
Vingadores: Ultimato

MELHOR FILME BRITÂNICO
1917
Dois Papas
Bait
For Sama
Rocketman
Você Não Estava Aqui

MELHOR FILME EM LÍNGUA NÃO-INGLESA
Dor e Glória
The Farewell
For Sama
Parasita
Retrato de uma Jovem em Chamas

MELHOR DOCUMENTÁRIO
American Factory
Apollo 11
Diego Maradona
The Great Hack

For Sama

MELHOR ANIMAÇÃO
Frozen 2
Klaus
Shaun, o Carneiro: Aliens
Toy Story 4

MELHOR ESTREIA DE UM DIRETOR, PRODUTOR OU ROTEIRISTA BRITÂNICO
Bait (Mark Jenkin, diretor e roteirista; Kate Byers; Linn Waite, produtor)
For Sama (Waad Al-Kateab, diretor e produtor; Edward Watts, diretor)
Maiden (Alex Holmes, diretor)
Only You (Harry Wootliff, roteirista e diretor)
Retablo (Álvaro Delgado-Aparicio, roteirista e diretor)

MELHOR CURTA BRITÂNICO
Azaar
Goldfish
Kamali
Learning To Skateboard In A Warzone (If You’re A Girl)
The Trap

MELHOR CURTA BRITÂNICO (ANIMAÇÃO)
Grandad Was a Romantic
In Her Boots
The Magic Boat

EE RISING STAR AWARD – Estrela em ascensão
Awkwafina
Jack Lowden
Kaitlyn Dever
Kelvin Harrison Jr.
Micheal Ward

Três atores, três filmes… com Maria Clara Senra

Formada em jornalismo pela UFRJ e pós-graduada em jornalismo cultural pela UERJ, Maria Clara Senra trabalha como repórter e editora no Canal Brasil, cobrindo festivais, pré-estreias, bastidores e participando de transmissões ao vivo direto dos maiores eventos cinematográficos do país. Nossos caminhos se cruzaram no Festival de Cinema de Gramado, onde, como vocês podem perceber, conheci tantos dos queridos convidados dessa coluna. Por toda bagagem profissional da Maria Clara e também pelos anos em que convivemos profissionalmente em pequenas temporadas cinematográficas na serra gaúcha, fiquei curiosíssimo em saber quais seriam as escolhas que ela faria após aceitar esse convite. E me apaixonei pela lista: o trio de mulheres selecionado para a coluna contempla todo o poder e a pluralidade das atrizes brasileiras, aqui representadas por intérpretes grandiosas em papeis marcantes. Por fim, para quem mora no Rio de Janeiro, fica a dica: desde julho de 2019 a Maria Clara conduz, ao lado de duas amigas, o Cine Dádiva (@cinedadiva), cineclube que acontece um domingo por mês em uma casa em Ipanema acompanhado de uma aula com uma diretora sobre algum aspecto específico da construção do filme exibido e uma festinha pensada especialmente para cada evento. Todo lucro obtido com o valor dos ingressos é revertido para projetos de capacitação de mulheres. Uma prévia de toda a expertise que ela compartilha nesse projeto já pode, de certa forma, ser conferida aqui na coluna. Gracias, Maria Clara!

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Quando Matheus me convidou para participar da seção “três atores, três filmes”, fiquei muito alegre, mas soube que teria que encarar minha relação de amor e ódio com listas. Adoro organizar informações, encontrar ordem, mas acho dificílima a tarefa de rankear ou enumerar o que quer que seja, pelo desconforto gerado por todas as exclusões.  Como trabalho direta e diariamente com cinema nacional, decidi que escreveria sobre filmes e profissionais brasileiros. Defini também que selecionaria atuações femininas, já que tantas me chamaram atenção ao longo dos anos.

Pensei primeiro nas personagens que marcaram não só a mim, como a todos que conhecem a nossa cinematografia: a Dora de Fernanda Montenegro; a Xica da Silva de Zezé Motta; a Sueli de Marília Pêra e tantas outras. Mas elas já estão gravadas nas nossas memórias e, definitivamente, presentes em muitas listas. Por fim, escolhi intérpretes de três longas-metragens bastante recentes — um lançado em 2018, outro em 2019 e um ainda inédito no circuito comercial. Olhares autorais em produções novas que eu gostaria que fossem vistas por muita gente.

Magali Biff (Pela Janela)
Magali Biff é paulistana e um grande nome do teatro no Brasil. Atuou no longa “Jogo das Decapitações”, de Sérgio Bianchi, mas seus trabalhos de destaque no cinema são “Deserto”, de Guilherme Weber, “Açúcar”, de Sergio Oliveira e Renata Pinheiro, e “Pela Janela”, de Caroline Leone, no qual interpretou sua primeira protagonista. No enredo, Biff vive Rosália, uma operária de uma pequena fábrica de reatores em São Paulo. Ela dedica a vida ao serviço, mas é demitida de repente. Sem o trabalho, fica perdida e é consolada pelo irmão José, que resolve levá-la junto com ele em uma viagem de carro até Buenos Aires. No road movie com pouquíssimos diálogos, tudo na personagem fala: olhos, gestos, postura corporal. Não há eloquência, mas muito sentimento. Vivemos com Rosália uma jornada íntima de descobertas e reinvenção. E como é importante ver um roteiro nada óbvio e tão interessante sobre uma mulher de 65 anos. O filme é uma coprodução entre Brasil e Argentina. A estreia mundial aconteceu no Festival de Roterdã, onde o título conquistou o prêmio Fipresci “pela forma como mistura as esferas emocional e política sem ser excessivamente demonstrativo”. Passou ainda pelo Festival de Gramado e foi laureado em Washington e Havana.

Grace Passô (Temporada)
Grace é atriz, diretora e dramaturga de Minas Gerais. A primeira vez que a vi na tela grande foi em “Praça Paris”, de Lúcia Murat, que lhe rendeu o Troféu Redentor no Festival do Rio 2017. Fiquei hipnotizada pela ascensorista Gloria, naquela trama que expunha a relação entre duas mulheres e as tensões — em diversos níveis — entre elas. Mas foi conhecendo Juliana, sua protagonista em “Temporada”, de André Novais Oliveira, que me pareceu que a atriz estava cravando seu nome de vez na história do cinema brasileiro. Em uma entrevista ao Cinejornal, do Canal Brasil, ela revelou que com a turma da produtora Filmes de Plástico encontrou o que considerava difícil achar na sétima arte: papéis femininos fortes, complexos e interessantes. No coletivo teve espaço para construir junto, exercer sua potência criativa e foi assim que a personagem — uma agente de combate à dengue e suas questões cotidianas — conquistou público, crítica e a minha completa afeição. Pelo papel, recebeu os prêmios de melhor atriz no Festival de Brasília e no Festival de Turim, na Itália. Lembrando que Grace também integra o elenco de “No Coração do Mundo”, de Gabriel Martins e Maurílio Martins e é a narradora de “Enquanto Estamos Aqui”, de Clarissa Campolina e Luiz Pretti.

Marcélia Cartaxo (Pacarrete)
Marcélia é uma consagrada atriz paraibana. Em 1985, recebeu o Urso de Prata no Festival de Berlim por “A Hora da Estrela”, de Suzana Amaral. Atuou em diversos outros filmes como “Madame Satã” e “O Céu de Suely”, de Karim Aïnouz; “Baixio das Bestas” (2006) e “Big Jato”, de Claudio Assis; “A História da Eternidade”, de Camilo Cavalcante. Em “Pacarrete” interpreta a personagem homônima. O longa, baseado em uma história real, é ambientado em Russas, no interior do Ceará, e conta a história de uma mulher que sonhou a vida inteira com ser artista e bailarina, em uma cidade pequena e super conservadora. Era vista como louca, mas, na verdade, era revolucionária. O convite para fazer o papel surgiu em 2010, quando a atriz atuou e fez preparação de elenco do primeiro curta-metragem de Allan Deberton, “Doce de Coco”. Para viver a inesquecível Pacarrete — que em francês significa margarida —, Marcélia teve aulas de voz, canto e dança. Em diversas coletivas nos festivais por onde passou, contou que teve medo de ser caricata, de não encontrar o tom correto. Acredito que o receio tenha ido embora na sessão de estreia em Gramado em que ela foi ovacionada e depois ainda levou o Kikito para casa. Com a produção, Marcélia realizou a vontade de infância de fazer ballet e o desejo maduro de seguir tocando o coração das pessoas com seu trabalho. Tentei somar quantos prêmios ela conquistou, mas é bem fácil perder a conta.

Os vencedores do Globo de Ouro 2020

Joaquin Phoenix foi o melhor ator por Coringa no Globo de Ouro 2020. Renée Zellweger, Laura Dern e Brad Pitt também se consolidam como favoritos para as próximas premiações.

Entre títulos dirigidos por cineastas consagrados (O Irlandês, Era Uma Vez Em… Hollywood) e outros que ecoaram com grande impacto junto a público e crítica (Parasita, História de Um Casamento e Coringa), o Globo de Ouro optou por uma via mais inesperada: premiar 1917 como melhor filme. Dirigido por Sam Mendes, o épico de guerra sequer estreou comercialmente nos Estados Unidos, passando em branco nas listas de tantas associações de críticos que se dividiam entre O Irlandês e Parasita. Foi a maior surpresa de uma noite que, no geral, confirmou vários caminhos já ensaiados na temporada de premiações.

Há pelo menos dois grandes tombos registrados no Globo de Ouro 2020. O primeiro é o de O Irlandês, que não se beneficiou de uma lista altamente distributiva e saiu de mãos abanando. O segundo é o da Netflix, que ostentava 34 indicações e acabou levando somente duas (atriz coadjuvante em cinema para Laura Dern com História de Um Casamento e melhor atriz em série dramática para Olivia Colman com The Crown). Por outro lado, estão confirmados os favoritismos de nomes como Renée Zellweger (melhor atriz por Judy), Joaquin Phoenix (ator por Coringa) e Brad Pitt (ator coadjuvante por Era Uma Vez Em… Hollywood), além da já citada Laura Dern.

Não é difícil imaginar o Globo de Ouro sinalizando uma ampla consagração para 1917 no Oscar. Épicos ainda mobilizam a Academia, especialmente aqueles repletos de virtuosismos técnicos e artifícios como o uso de planos-sequência. Em um ano onde é difícil achar uma métrica para diretores tão unânimes em diferentes espectros, essa parece ser uma saída bastante lógica. Na próxima semana, o longa de Sam Mendes volta a concorrer a um prêmio: o Critics’ Choice Awards, que costuma ser confuso e de relevância menor do que a do Globo de Ouro. Fica, entretanto, a curiosidade em relação a como o filme performará junto a um novo grupo de votantes.

Confira abaixo a lista completa de vencedores do Globo de Ouro 2020:

CINEMA

MELHOR FILME – DRAMA: 1917
MELHOR FILME COMÉDIA/MUSICAL: Era Uma Vez Em… Hollywood
MELHOR DIREÇÃO: Sam Mendes (1917)
MELHOR ATRIZ – DRAMA: Renée Zellweger (Judy: Muito Além do Arco-Íris)
MELHOR ATOR – DRAMA: Joaquin Phoenix (Coringa)
MELHOR ATRIZ – COMÉDIA/MUSICAL: Awkwafina (The Farewell)
MELHOR ATOR – COMÉDIA/MUSICAL: Taron Egerton (Rocketman)
MELHOR ATRIZ COADJUVANTE: Laura Dern (História de Um Casamento)
MELHOR ATOR COADJUVANTE: Brad Pitt (Era Uma Vez Em… Hollywood)
MELHOR ROTEIRO: Era Uma Vez Em… Hollywood
MELHOR ANIMAÇÃO: Link Perdido
MELHOR FILME ESTRANGEIRO: Parasita (Coreia do Sul)

MELHOR CANÇÃO ORIGINAL: “(I’m Gonna) Love Me Again” (Rocketman)
MELHOR TRILHA SONORA: Coringa

SÉRIES, MINISSÉRIES E TELEFILMES

MELHOR SÉRIE – DRAMA: Succession
MELHOR SÉRIE – COMÉDIA: Fleabag
MELHOR MINISSÉRIE/TELEFILME: Chernobyl

MELHOR ATRIZ – DRAMA: Olivia Colman (The Crown)
MELHOR ATOR – DRAMA: Brian Cox (Succession)
MELHOR ATRIZ – COMÉDIA: Phoebe Waller-Bridge (Fleabag)
MELHOR ATOR – COMÉDIA: Ramy Youssef (Ramy)
MELHOR ATRIZ – MINISSÉRIE/TELEFILME: Michelle Williams (Fosse/Verdon)
MELHOR ATOR – MINISSÉRIE/TELEFILME: Russell Crowe (The Loudest Voice)
MELHOR ATRIZ COADJUVANTE – SÉRIE/MINISSÉRIE/TELEFILME: Patricia Arquette (The Act)
MELHOR ATOR COADJUVANTE – SÉRIE/MINISSÉRIE/TELEFILME: Stellan Skarsgård (Chernobyl)

Apostas para o Globo de Ouro 2020

Neste domingo (05), a Hollywood Foreign Press Association revelerá a sua lista de vencedores para a edição de 2020 do Globo de Ouro. Entre prêmios voltados para o cinema e para os seriados, acompanharemos a entrega de estatuetas para 25 categorias, abrindo a temporada das premiações televisivas que, posteriormente, segue com o Critics’ Choice Awards (12/01), o Screen Actors Guild Awards (19/01), o BAFTA (02/02) e, claro, o Oscar (09/02). Para quem for acompanhar a cerimônia pela TV, a TNT transmitirá ao vivo a entrega dos prêmios às 22h (horário de Brasília), antecedida pelo tapete vermelho às 21h. Já na página oficial do Cinema e Argumento no Facebook, estaremos ao vivo a partir das 20h para comentar as nossas apostas já listadas abaixo.

CINEMA

MELHOR FILME – DRAMA: Coringa / alt: O Irlandês
MELHOR FILME COMÉDIA/MUSICAL: Era Uma Vez Em… Hollywood / alt: Entre Facas e Segredos
MELHOR DIREÇÃO: Bong Joon-ho (Parasita) / alt: Quentin Tarantino (Era Uma Vez Em… Hollywood)
MELHOR ATRIZ – DRAMA: Renée Zellweger (Judy: Muito Além do Arco-Íris) / alt: Scarlett Johansson (História de Um Casamento)
MELHOR ATOR – DRAMA: Joaquin Phoenix (Coringa) / alt: Adam Driver (História de Um Casamento)
MELHOR ATRIZ – COMÉDIA/MUSICAL: Awkwafina (The Farewell) / alt: Ana de Armas (Entre Facas e Segredos)
MELHOR ATOR – COMÉDIA/MUSICAL: Taron Egerton (Rocketman) / alt: Leonardo DiCaprio (Era Uma Vez Em… Hollywood)
MELHOR ATRIZ COADJUVANTE: Jennifer Lopez (As Golpistas) / alt: Laura Dern (História de Um Casamento)
MELHOR ATOR COADJUVANTE: Brad Pitt (Era Uma Vez Em… Hollywood) / alt: Joe Pesci (O Irlandês)
MELHOR ROTEIROParasita / alt: História de Um Casamento
MELHOR ANIMAÇÃOFrozen 2 / alt: Toy Story 4
MELHOR FILME ESTRANGEIROParasita / alt: Retrato de Uma Jovem em Chamas

MELHOR CANÇÃO ORIGINAL: “(I’m Gonna) Love Me Again” (Rocketman) / alt: “Spirit” (O Rei Leão)
MELHOR TRILHA SONORACoringa / alt: 1917

SÉRIES, MINISSÉRIES E TELEFILMES

MELHOR SÉRIE – DRAMAThe Morning Show / alt: The Crown
MELHOR SÉRIE – COMÉDIAFleabag / alt: The Kominsky Method
MELHOR MINISSÉRIE/TELEFILME: Chernobyl / alt: Unbelievable

MELHOR ATRIZ – DRAMA: Olivia Colman (The Crown) / alt: Jennifer Aniston (The Morning Show)
MELHOR ATOR – DRAMA: Billy Porter (Pose) / alt: Tobias Menzes (The Crown)
MELHOR ATRIZ – COMÉDIA: Phoebe Waller-Bridge (Fleabag) / alt: Kirsten Duns (On Becoming a God in Central Florida)
MELHOR ATOR – COMÉDIA: Paul Rudd (Living With Yourself) / alt: Ramy Youssef (Ramy)
MELHOR ATRIZ – MINISSÉRIE/TELEFILME: Michelle Williams (Fosse/Verdon) / alt: Kaitlyn Dever (Unbelievable)
MELHOR ATOR – MINISSÉRIE/TELEFILME: Sacha Baron Cohen (The Spy) / alt: Russell Crowe (The Loudest Voice)
MELHOR ATRIZ COADJUVANTE – SÉRIE/MINISSÉRIE/TELEFILME: Meryl Streep (Big Little Lies) / alt: Helena Bonham Carter (The Crown)
MELHOR ATOR COADJUVANTE – SÉRIE/MINISSÉRIE/TELEFILME: Andrew Scott (Fleabag) / alt: Stellan Skarsgård (Chernobyl)

“O Caso Richard Jewell”: questionando quais são os verdadeiros tribunais em uma acusação, Clint Eastwood realiza o melhor longa de sua mais recente safra como diretor

I’m sorry the world has gone insane.

Direção: Clint Eastwood

Roteiro: Billy Ray, baseado no artigo “American Nightmare: The Ballad of Richard Jewell”, de Marie Brenner

Elenco: Paul Walter Hauser, Sam Rockwell, Kathy Bates, Jon Hamm, Olivia Wilde, Nina Arianda, Charles Green, Ian Gomez, Grant Roberts, Alan Heckner, Desmond Phillips

Richard Jewell, EUA, 2019, Drama, 131 minutos

Sinopse: A história real de Richard Jewell (Paul Walter Hauser), segurança que se tornou um dos principais suspeitos de bombardear as Olimpíadas de Atlanta, no ano de 1996. Na realidade, ele foi o responsável por ajudar inocentes a fugirem do local e avisar da existência de um dos explosivos. (Adoro Cinema)

A figura do protagonista inocente que é perseguido por autoridades ou pela imprensa de maneira injusta tem sido um interesse de Clint Eastwood desde os anos 1990 com Crime Verdadeiro. Entre Sobre Meninos e LobosA TrocaSully: O Herói do Rio Hudson, Clint questionou o julgamento, seja o real ou da opinião pública, com histórias provocadoras, ainda que nem sempre executadas com o esmero que consagrou a sua carreira. Agora, o diretor volta ao tema com O Caso Richard Jewell, que, remontando a história do personagem-título, pode ser considerado o seu trabalho mais instigante em uma carreira recente de grande produtividade, mas pouca assertividade.

O recorte se dá nas Olimpíadas de Atlanta em 1996, quando Richard Jewell (Paul Walter Hauser, ótimo), um segurança contratado para o evento, salva a vida de diversas pessoas após constatar que o lugar estava prestes a ser bombardeado. Tentando inutilmente achar o verdadeiro culpado pelo atentado, o FBI, desesperado por respostas, decide incriminar aos poucos o próprio Richard Jewell, aproveitando-se de uma série de fatos e circunstâncias que, quando ajustados, agem contra a sua imagem de herói. Junto a isso, uma jornalista sem escrúpulos e sedenta por conseguir uma capa de jornal entra na jogada para engrossar o caldo de acusações sem fundamentos.

Clint filma O Caso Richard Jewell de maneira formal e linear, sublinhando até mesmo os momentos mais dramáticos com os clássicos temas em piano que tanto gosta de usar na trilha sonora. E isso não é um problema, pois a trama é tão envolvente e bem interpretada que o espectador, assim como os próprios personagens, também se vê ansioso por algum tipo de justiça. É um trabalho que fala muito sobre a necessidade de imediatamente encontrarmos heróis ou vilões para situações trágicas e sobre como alguns profissionais, frustrados por falharem em seu próprio trabalho, não medem esforços para transferir qualquer culpa.

Sem colocar o espectador em dúvida sobre a inocência de Richard Jewell (o que é muito digno e respeitoso da parte de Clint), o longa cria, com simplicidade e eficiência, uma reflexão muito contemporânea sobre aquele tribunal que é o mais perigoso de todos: o da opinião pública, especialmente quando estimulado por autoridades e pela mídia. Ainda que não se passe na tenebrosa era das redes sociais, O Caso Richard Jewell fala muito sobre como sempre somos convencidos com facilidade pela migalha mais incerta e rasa de informação. O que importa, no final das contas, é apontar o dedo para confirmar convicções pessoais.

Nessa discussão, no entanto, há um calcanhar de Aquiles: a figura da jornalista vivida por Olivia Wilde. E o problema é anterior ao fato da representação envolvendo uma personagem feminina oportunista que veste roupas chamativas e transa com a fonte para conseguir informações privilegiadas. Além de Olivia Wilde apostar na caricatura, a subtrama em si é muito artificial e pouco produtiva, estereotipando discussões que já são bem abordadas por outros pontos de vista do roteiro. Sua humanização manjada ao final do filme também não contribui para uma storyline que, no mínimo, deveria ter sido sistematicamente reduzida nos tratamentos da história escrita por Billy Ray.

O que compensa esse deslize é o fato do lado injustiçado da história somar tantos pontos em naturalidade e boas nuances, muitos deles proporcionadas por excelentes coadjuvantes. A mãe vivida com extrema humanidade por Kathy Bates, por exemplo, rende alguns dos momentos mais emocionantes do filme e o advogado interpretado por um inspirado Sam Rockwell é a voz do espectador em busca de algum tipo de justiça e bom senso nas acusações estapafúrdias. Eles ancoram tudo o que existe de melhor em O Caso Richard Jewell, um filme que recupera a ideia de que o maior terrorismo segue sendo o da injustiça contra aqueles que supostamente não tem voz.