Cinema e Argumento

Melhores de 2019 – Roteiro Adaptado

Foi necessário um período dois anos para que o roteiro de A Vida Invisível chegasse à sua estrutura final. Ao longo desse tempo, Karim Aïnouz e Murilo Hauser, que tomavam como base, claro, o livro A Vida Invisível de Eurídice Gusmão, de Martha Batalha, discutiram muitos pontos que poderiam funcionar na literatura, mas que, no cinema, talvez pudessem soar menos orgânicos para o ritmo da narrativa (a grande quantidade de saltos no tempo, por exemplo). Procurando manter a essência do romance de Martha Batalha, a dupla também propôs ajustes pontuais, como o fato de Eurídice tocar piano — e não flauta, como originalmente escrito —, um instrumento muito mais visual e que amplia a linguagem corporal da personagem.

A mistura de reverência ao livro de origem com a plena consciência de que literatura é uma coisa e cinema é outra confere ao roteiro de A Vida Invisível uma grande delicadeza. Estruturalmente bem resolvido (Karim e Murilo ainda desconstruíram o texto original para colocá-lo em ordem cronológica e, a partir daí, definirem a gênese dramática e o formato da narrativa), a adaptação contempla diversos temas — a emancipação feminina, o machismo, a relação entre irmãs, a passagem do tempo — com grande comoção, provando que é possível sim fazer um melodrama bem dosado e com raízes novelescas admiráveis. Ainda disputavam a categoria: Greta, Poderia Me Perdoar?, Querido Menino e Se a Rua Beale Falasse.

EM ANOS ANTERIORES: 2018 – Me Chame Pelo Seu Nome | 2017 – Minha Vida de Abobrinha | 2016 – Carol |  2015 – 45 Anos | 2014 – Garota Exemplar | 2013 – Azul é a Cor Mais Quente | 2012 – Precisamos Falar Sobre o Kevin | 2011 – A Pele Que Habito | 2010 – Direito de Amar | 2009 – Dúvida | 2008 – Desejo e Reparação | 2007 – Notas Sobre Um Escândalo

Melhores de 2019 – Montagem

Ao aceitar o convite para assinar a montagem de Parasita, Jinmo Yang já tinha em mente que Bong Joon-ho é um cineasta que escreve roteiros com espírito de montador. Por isso mesmo, a primeira conversa entre Bong e Yang foi outra: ao invés de discutirem como a casa que foi construída especialmente para o filme seria explorada pela montagem ou sobre como se dariam as transições de gênero, a dupla debateu a amplitude de cada personagem. Nas entrevistas que concedeu desde o lançamento do filme, Yang ressaltou que o grande foco da montagem de Parasita foi criar uma unidade dramática para a interação entre famílias tão diferentes. Lançando um olhar meticuloso para aquilo que estava faltando ou sobrando em cada personagem, ele leva o filme a um patamar completamente diferenciado: além de ter um excelente ritmo e de se movimentar entre variados gêneros, Parasita é, em sua gênese, um filme sobre seres humanos e suas relações, algo amplamente reverenciado por uma das montagens mais brilhantes dos últimos anos. Trabalho de mestre. Ainda disputavam a categoria: Bacurau, Cafarnaum, Democracia em Vertigem e A Favorita.

EM ANOS ANTERIORES: 2018 – Você Nunca Esteve Realmente Aqui | 2017 – Em Ritmo de Fuga | 2016 – A Grande Aposta | 2015 – Whiplash: Em Busca da Perfeição | 2014 – O Lobo Atrás da Porta | 2013 – Capitão Phillips | 2012 – Guerreiro | 2011 – 127 Horas | 2010 – A Origem | 2009 – Quem Quer Ser Um Milionário? | 2008 – Onde os Fracos Não Têm Vez | 2007 – Babel

Melhores de 2019 – Fotografia

James Laxton acumula até aqui mais de 40 produções como diretor de fotografia, mas sua carreira está um degrau acima quando ele colabora com o cineasta Barry Jenkins. O primeiro encontro entre os dois foi em Moonlight: Sob a Luz do Luar, que rendeu a Laxton uma indicação ao Oscar. Infelizmente, reconhecimento equivalente não lhe foi dado por Se a Rua Beale Falasse, onde ele mais uma vez realiza um trabalho excepcional. Tendo como inspiração as habilidades singulares da literatura de James Baldwin — autor do livro homônimo em que o filme se baseia —, especialmente aquela de narrar sentimentos de maneira tão palpável, Laxton constrói uma fotografia pulsante para Se a Rua Beale Falasse, que, assim como a obra de Baldwin, é atmosférica nos sentimentos que busca despertar no espectador.

Em parceria com Jenkins, Laxton incorporou no trabalho outras inspirações da dupla, como o cinema de Wong Kar-Wai e Claire Denis, voltando-se também para os contrastes do romance que se materializa na tela, onde o amor é cercado pelo sofrimento ou onde o racismo e o preconceito são enfrentados com resiliência. A fotografia captura literalmente de perto as emoções dos personagens e dialoga no uso cores com a paleta de figurinos e cenários que homenageiam grandes melodramas da chamada Era de Ouro de Hollywood. Com técnicas e referências sublimes, mas, acima de tudo, com muita paixão, Laxton inebria e cria composições que deixariam Baldwin muito orgulhoso. Ainda disputavam a categoria: Ad Astra: Rumo às Estrelas, Coringa, A Favorita e Vergel.

EM ANOS ANTERIORES: 2018 – Roma |  2017 – Blade Runner 2049 | 2016 – Ponto Zero | 2015 – Macbeth: Ambição e Guerra | 2014 – Ida | 2013 – Gravidade | 2012 – As Aventuras de Pi | 2011 – A Árvore da Vida | 2010 – Direito de Amar | 2009 – Quem Quer Ser Um Milionário? | 2008 – Ensaio Sobre a Cegueira

Melhores de 2019 – Som

Formado por Nicolas Hallet, Ricardo Cutz e Cyril Holtz, o trio responsável por capitanear o trabalho de som de Bacurau traz para o filme de Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles a experiência acumulada tanto em produções brasileiras quanto estrangeiras. Enquanto Nicolas e Ricardo já trabalharam separadamente em títulos como Edifício MasterTatuagemO Lobo Atrás da PortaA História da Eternidade, além dos longas anteriores assinados por Kleber, o francês Cyril Holtz tem na bagagem, por exemplo, o premiado Elle, de Paul Verhoeven. Ou seja, experiência é o que não falta ao trio, algo que está evidente em Bacurau, onde o som é ferramenta primordial para situar o espectador em um universo muito particular e que transita por diferentes gêneros. Da atmosfera de um povoado que vive em uma humilde (e fictícia) cidade do nordeste brasileiro aos imprevisíveis acontecimentos que, em tons de suspense e até mesmo de ficção científica, passam a assombrar os personagens do longa, Nicolas, Ricardo e Cyril usam o som para ampliar os sentidos do espectador desde os primeiros minutos de projeção. É com essa preciosa contribuição do trio que tudo em Bacurau acaba nos parecendo muito próximo e, em diversas passagens, angustiante. Ainda disputavam a categoria: Ad Astra: Rumo às Estrelas, Coringa, Nós e Rocketman.

EM ANOS ANTERIORES: 2018 – Um Lugar Silencioso | 2017 – Dunkirk | 2016 – Ponto Zero | 2015 – Mad Max: Estrada da Fúria | 2014 – Até o Fim | 2013 – Gravidade | 2012 – 007 – Operação Skyfall | 2011 – Harry Potter e as Relíquias da Morte – Parte 2 | 2010 – Tron: O Legado | 2009 – Avatar | 2008 – WALL-E | 2007 – O Ultimato Bourne

Melhores de 2019 – Design de Produção

Uma informação que redimensiona a nossa relação de fascínio com o universo de Parasita é a de que os principais ambientes em que o filme desenvolve a sua ação (a casa da família rica e a casa da família pobre) foram construídos especialmente para o projeto, tornando o design de produção um elemento fundamental na narrativa criada por Bong Joon-Ho. Em sua segunda coleboração com o diretor, Lee Ha-Jun imaginou espaços que deveriam cumprir duas funções básicas: instigar visualmente e viabilizar toda a mise-en-scène, bem como os jogos de câmera propostos por Bong Joon-Ho. Ele ainda teve o desafio extra de projetar a casa da família rica como se fosse um arquiteto, já que, em determinado momento da trama, uma personagem menciona que aquela moradia teria sido planejada sob encomenda. Enquanto isso, na casa da família pobre, tudo se afunila: com cômodos pequenos, estreitos e habitados por várias pessoas, Ha-Jun saiu de escalas amplas para dimensões quase claustrofóbicas. O resultado é um design de produção que entrega a Parasita um universo muito particular e que reforça a necessidade de sempre apurarmos o nosso olhar para trabalhos contemporâneos como esse. Ainda disputavam a categoria: Coringa, A Favorita, Rocketman e Vergel.

EM ANOS ANTERIORES: 2018 – A Forma da Água | 2017 – Blade Runner 2049 | 2016 – Animais Fantásticos e Onde Habitam | 2015 – Expresso do Amanhã | 2014 – O Grande Hotel Budapeste | 2013 – Anna Karenina | 2012 – A Invenção de Hugo Cabret | 2011 – Harry Potter e as Relíquias da Morte – Parte 2 | 2010 – O Mundo Imaginário do Dr. Parnassus | 2009 – O Curioso Caso de Benjamin Button | 2008 – Sweeney Todd – O Barbeiro Demoníaco da Rua Fleet | 2007 – Maria Antonieta