Cinema e Argumento

Melhores de 2019 – Efeitos Visuais

À frente de uma ficção científica cuja força dramática se encontra na jornada pessoal de um personagem solitário, o diretor James Gray tomou uma decisão importantíssima: a de que os efeitos visuais de Ad Astra: Rumo às Estrelas deveriam ser os mais realistas possíveis, sem que eles se tornassem uma atração à parte ou levassem a história para um patamar excessivamente futurístico. Com essa perspectiva, o quarteto Allen Maris, Guillaume Rocheron, Jedediah Smith e Scott R. Fisher atuou de forma colaborativa com a equipe de design de produção para criar, por exemplo, o interior de naves e foguetes, além de cenários na Lua e em Marte. Atenção microscópica também foi dada, claro, a detalhes de escala e luz para que tudo parecesse real, em atividade conjunta com efeitos especiais práticos para materializar poeiras e tempestades. Munidos de grande precisão, os efeitos visuais de Ad Astra impressionam sem a ânsia de impressionar. Ainda disputavam a categoria: O Irlandês e Vingadores: Ultimato.

EM ANOS ANTERIORES: 2018 – Jogador Nº 1 | 2017 – Blade Runner 2049 | 2016 – Doutor Estranho | 2015 – Mad Max: Estrada da Fúria | 2014 – Planeta dos Macacos: O Confronto| 2013 – Gravidade | 2012 – O Hobbit: Uma Jornada Inesperada | 2011 – Harry Potter e as Relíquias da Morte – Parte 2 | 2010 – Tron: O Legado | 2009 – Avatar (primeiro ano da categoria)

 

Melhores de 2019 – Figurino

O trabalho do figurinista Julian Day em Rocketman foi acompanhado de perto pelo cantor Elton John. A proximidade, entretanto, não aponta para o vaidoso controle criativo de uma estrela que tem sua vida contada em um longa-metragem, mas sim para um saudável espírito colaborativo. Prova disso é o fato de Elton não ter vetado nenhuma peça de figurino proposta por Julian, que encontrou, nas reuniões com o cantor, a fonte perfeita de inspiração para um guarda-roupa idealizado a partir de memórias. Isso quer dizer que o figurino de Rocketman deixa de lado a mera cópia de peças emblemáticas para, a partir delas, expandir a lembrança e o estado de espírito que cada roupa desperta no cantor. Através do redesenho de cada look, Julian colaborou com vibração e inventividade para uma cinebiografia que, em toda a sua concepção, consegue se diferenciar dentro do gênero por ser autêntica a seu biografado e por permitir total liberdade criativa a todos os envolvidos nos bastidores. Ainda disputavam a categoria: A Favorita, Hebe – A Estrela do Brasil, O Irlandês e Se a Rua Beale Falasse.

EM ANOS ANTERIORES: 2018 – Trama Fantasma | 2017 – Jackie | 2016 – Carol | 2015 – Macbeth: Ambição e Guerra | 2014 – O Grande Hotel Budapeste | 2013 – Anna Karenina | 2012 – W.E. – O Romance do Século | 2011 – O Discurso do Rei | 2010 – A Jovem Rainha Victoria | 2009 – O Curioso Caso de Benjamin Button | 2008 – Elizabeth – A Era de Ouro | 2007 – Maria Antonieta

Melhores de 2019 – Maquiagem & Penteados

Nadia Stacey foi surpreendida pelo diretor Yorgos Lanthimos quando ele descartou a pesquisa histórica realizada por ela e afirmou que seu objetivo não era rodar um filme de época parecido com tantos, mas sim fazer algo completamente autêntico, a serviço da história e dos personagens. Nadia entendeu o recado: ainda que fiel à identidade da época retratada pelo roteiro, sua proposta foi explorar possibilidades fora da curva dentro de um universo particular. A base dessa transgressão está no claro contraste de caracterização entre figuras masculinas e femininas. Enquanto Olivia Colman, Emma Stone e Rachel Weisz usam o mínimo possível de maquiagem para ressaltar a transparência das mulheres, os homens surgem com perucas montanhosas e cores espalhafatosas, evidenciando a personalidade infantil e imatura de personagens masculinos que vivem pelo poder e pelas aparências. É um belo exemplo de como Nadia Stacey abraça a carta branca para escantear a caretice tão habitual de filmes de época, conceito que permeia A Favorita como um todo. Ainda disputavam a categoria: Hebe – A Estrela do Brasil, O Irlandês, Rocketman e A Vida Invisível.

EM ANOS ANTERIORES: 2018 – Pantera Negra | 2017 – Blade Runner 2049 | 2016 – Ave, César! | 2015 – Mad Max: Estrada da Fúria | 2014 – O Grande Hotel Budapeste | 2013 – A Morte do Demônio | 2012 – A Dama de Ferro (primeiro ano da categoria)

Melhores de 2019: “Parasita” e “A Favorita” lideram lista do blog com nove indicações cada

Disputando nove categorias, Parasita é o filme de língua não-inglesa com o maior número de indicações em todas as listas de melhores do ano já realizadas pelo blog.

Criada em 2007 aqui no blog, a lista de Melhores do Ano busca, assim como qualquer outra seleção assinada por qualquer pessoa do universo, elencar as produções mais marcantes de determinado ano. É um trabalho em vão: ainda que existam exceções, somente o tempo poderá provar o quanto determinada obra é realmente grandiosa ou inesquecível. Ainda assim, adoramos listas, mas é importante lembrar que elas sempre dizem muito mais sobre quem as faz do que sobre os filmes em si. Não há certo ou errado: cada um escolhe a partir de suas preferências, afinidades, bagagens e identificações. O divertido mesmo é a troca de opiniões e perspectivas.

Selecionando os filmes que considero os melhores de 2019, usei, como sempre, o parâmetro de identificação. Todas as obras listadas abaixo se conectaram comigo de alguma maneira em suas respectivas categorias. E o resultado traz dois filmes liderando a lista com nove indicações cada: Parasita, de Bong Joon-ho, e A Favorita, de Yorgos Lanthimos, seguidos de perto pelo libanês Cafarnaum e pelo espanhol Dor e Glória, ambos com seis indicações. Cheguei organicamente a um conjunto mais próximo de filmes de língua não-inglesa, e verdade seja dita: foi lindo viajar por tantos países e sotaques em 2019. Os vencedores dessa seleção serão conhecidos nas próximas postagens, com comentários individuais em cada categoria. 

Confiram abaixo a lista completa de indicados, considerando os títulos lançados comercialmente no Brasil em 2019 (incluindo streaming):

MELHOR FILME
Bacurau
Cafarnaum
Dor e Glória
A Favorita
Parasita

MELHOR DIREÇÃO
Barry Jenkins (Se a Rua Beale Falasse)
Bong Joon-ho (Parasita)
Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles (Bacurau)
Nadine Labaki (Cafarnaum)
Pedro Almodóvar (Dor e Glória)

MELHOR ELENCO
Assunto de Família
Bacurau
Entre Facas e Segredos
A Favorita
Parasita

MELHOR ATRIZ
Camila Morgado (Vergel)
Glenn Close (A Esposa)
Lupita Nyong’o (Nós)
Olivia Colman (A Favorita)
Scarlett Johansson (História de Um Casamento)

MELHOR ATOR
Adam Driver (História de Um Casamento)
Antonio Banderas (Dor e Glória)
Joaquin Phoenix (Coringa)
Marco Nanini (Greta)
Zain al Rafeea (Cafarnaum)

MELHOR ATRIZ COADJUVANTE
Cho Yeo-jeong (Parasita)
Fernanda Montenegro (A Vida Invisível)
Penélope Cruz (Dor e Glória)
Regina King (Se a Rua Beale Falasse)
Yordanos Shiferaw (Cafarnaum)

MELHOR ATOR COADJUVANTE
Al Pacino (O Irlandês)
Joe Pesci (O Irlandês)
Leonardo Sbaraglia (Dor e Glória)
Richard E. Grant (Poderia Me Perdoar?)
Song Kang-ho (Parasita)

MELHOR ROTEIRO ORIGINAL
Bacurau
Dor e Glória
Entre Facas e Segredos
A Favorita
Parasita

MELHOR ROTEIRO ADAPTADO
Greta
Poderia Me Perdoar?
Querido Menino
Se a Rua Beale Falasse
A Vida Invisível

MELHOR MONTAGEM
Bacurau
Cafarnaum
Democracia em Vertigem

A Favorita
Parasita

MELHOR FOTOGRAFIA
Ad Astra: Rumo às Estrelas
Coringa
A Favorita
Se a Rua Beale Falasse
Vergel

MELHOR TRILHA SONORA
Ad Astra: Rumo às Estrelas
Cafarnaum
Coringa
História de Um Casamento
Se a Rua Beale Falasse

MELHOR DESIGN DE PRODUÇÃO
Coringa
A Favorita
Parasita
Rocketman
Vergel

MELHOR FIGURINO
A Favorita
Hebe – A Estrela do Brasil
O Irlandês

Rocketman
Se a Rua Beale Falasse

MELHOR SOM
Ad Astra: Rumo às Estrelas
Bacurau
Coringa
Nós
Rocketman

MELHOR CANÇÃO ORIGINAL
“A Glass of Soju” (Parasita)
“(I’m Gonna) Love Me Again” (Rocketman)
“I Can’t Let You Throw Yourself Away” (Toy Story 4)
“Revelation” (Boy Erased: Uma Verdade Anulada)
“Zero” (WiFi Ralph: Quebrando a Internet)

MELHORES EFEITOS VISUAIS
Ad Astra: Rumo às Estrelas
O Irlandês
Vingadores: Ultimato

MELHOR MAQUIAGEM & PENTEADOS
A Favorita
Hebe – A Estrela do Brasil
O Irlandês
Rocketman
A Vida Invisível

Adeus, 2019! (e as melhores cenas do ano)

2019 foi um ano difícil. A enxurrada de notícias absurdas, reviravoltas políticas inacreditáveis e desmontes que levarão anos (talvez décadas) para serem recuperados abalou a estrutura de um Brasil já fraturado há alguns anos. Como sempre, os filmes foram o meu refúgio. Na sala de cinema, mesmo revisitando nossas angústias diárias discutidas por filmes de tantos cantos do mundo, mergulhei em outras dimensões. Dez dos momentos que mais me marcaram estão listados abaixo, sem ordem de preferência, seguindo a tradição do blog ao final de cada ano. Que estas sequências sirvam de retrospectiva para 2019 e que também nos dêem força e vigor para encarar 2020. Continuamos juntos, queridos leitores!

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O sorriso de Zain em Cafarnaum

Possivelmente o único vislumbre de esperança no poderoso filme de Nadine Labaki. Mais um momento avassalador do pequeno Zain al Rafeea, que estraçalhou meu coração durante pouco mais de duas horas. Embalada pela marcante trilha de Khaled Mouzanar, é uma imagem hipnotizante capaz de ecoar durante muito tempo após a sessão.

O reencontro de Salvador e Federico em Dor e Glória

Todo o universo de uma paixão intensa e impossível traduzido em uma única noite. Antonio Banderas e Leonardo Sbaraglia criam uma química de tirar o fôlego. Uma cena cuja sensibilidade, profundidade e dimensão só poderia vir de um cineasta tão humano e apaixonado como Pedro Almodóvar.

Uma dança para a rainha Anne em A Favorita

A cena que merecidamente garantiu o Oscar de melhor atriz para a excepcional Olivia Colman. Em um plano sem cortes, o diretor Yorgos Lanthimos aproxima o espectador do rosto de uma personagem cujos sentimentos se modificam a cada segundo. Uma aula de atuação sem uma palavra sequer, baseada em expressões que sintetizam a grandeza de uma intérprete.

A participação especial de Fernanda Montenegro em A Vida Invisível

Seja na TV, no teatro ou no cinema, o ar parece se transformar quando Fernanda Montenegro entra em cena. Não é diferente em A Vida Invisível. Com uma participação especial de cortar o coração, ela dobra a intensidade dramática do filme, fechando a trama com chave de ouro.

Sorrindo para o caos em Coringa

Sequência que marca um dos auges da imponente interpretação de Joaquin Phoenix. Quando Coringa finalmente nasce em meio ao caos, o ator segue preocupado em mergulhar no homem conturbado por trás de um sorriso desenhado com sangue. Perturbadora e intensa, a cena seria o desfecho perfeito caso Coringa não tivesse avançado um tantinho mais na história.

Uma ligação carregada de culpa em O Irlandês

Entre murmuros, hesitações e espantos, Robert De Niro tem, em uma ligação assombrada pela culpa, o seu maior momento em muitos anos. Todo o remorso de um personagem lidando com as consequências e os fantasmas de suas escolhas é capturado com plenitude pelo ator. Precisamos sempre de mais momentos como esse para De Niro.

O número musical da canção-título de Rocketman

Passagem que melhor sintetiza a criatividade e a liberdade artística de Rocketman. Por ter carta branca de Elton John e por se permitir explorar a magia que sempre cercou a carreira do cantor, o musical de Dexter Fletcher escapa do lugar-comum, especialmente nessa cena da canção-título, que leva Elton da overdose em uma piscina ao céu como um foguete.

Noite de chuva em Parasita

Mais do que um momento específico, todo o ato envolvendo a noite de chuva em Parasita é um assombro. Com reviravoltas, críticas sociais e diferentes leituras dramáticas, Bong Joon-ho leva o espectador por caminhos surpreendentes e inesperados, dando mais uma guinada nas tantas transformações de gênero trabalhadas ao longo da projeção.

Invasão ao edifício em Mormaço

Totalmente alinhado com a nossa realidade, Mormaço é uma inquietante experiência que começa quase documental para, aos poucos, tornar-se uma obra de toques fantásticos, flertando até mesmo com o terror. E a sequência final, que acompanha uma invasão da polícia carioca a um prédio em particular, é um pesadelo social que Marina Meliande filma com brutalidade e veracidade.

Reunião familiar em Se a Rua Beale Falasse

Quando Barry Jenkins reúne as duas famílias de Se a Rua Beale Falasse para um jantar onde Tish (KiKi Layne) revelará uma importante notícia, as melhores características do longa vêm à tona, começando pela forma crítica com que olha para estereótipos e indo até a leitura sensível que faz do verdadeiro significado da palavra família.  

Charlie e a carta de Nicole em História de Um Casamento

A cena de discussão entre os dois protagonistas já é famosa, mas prefiro ficar com a sequência em que Charlie (Adam Driver) encontra a carta que Nicole (Scarlett Johansson) não leu na sessão de terapia frequentada pelos dois. A interpretação de Driver é maravilhosa, e o momento, dividido entre a melancolia e o afeto, compreende que nem todo término de relação deixa apenas gostos amargos.