Melhores de 2021: categorias técnicas
Não faz muito tempo que me culpava por fazer cada vez mais tarde a minha lista de melhores do ano. Hoje, já começo a ter mais carinho por essa ideia, pois não há nada melhor do que tomar certa perspectiva, ter tempo para digerir as coisas e não agir no calor do momento quando se trata de escolhas, principalmente aquelas envolvendo qualquer forma de arte. Dito isso, com o devido hiato para fazer escolhas que agora me parecem devidamente calibradas, aqui vão os primeiros vencedores da lista de melhores de 2021!

MELHOR CANÇÃO ORIGINAL
Leos Carax, Ron Mael e Russell Mael
“So May We Start?” (Annette)
Cenas de abertura são importantes em musicais porque assinalam para o público o estilo que será seguido não apenas pelo filme, mas também pela própria parte musical. So May We Start? é muito feliz nessa premissa, revelando o quanto Annette se equilibrará entre a ambição e um tom mais descompromissado, além da mistura de ecleticidades proposta pelo diretor Leos Carax, bem ao estilo do que Ron e Russell Mael, os irmãos Sparks, exploram ao longo de sua carreira e aplicam na idealização deste musical. Para além do tom estabelecido, So May We Start? é um excelente ponto de partida para Annette porque é uma das melhores músicas do filme (meu coração se divide entre ela e We Love Each Other So Much) e porque funciona como uma espécie de abre-alas, começando até um tanto óbvia em um estúdio de música para logo ganhar as ruas com Adam Driver, Marion Cotillard e elenco. É de uma energia envolvente e de uma pegada bastante própria, característica ostentada por Annette como um todo.

MELHOR TRILHA SONORA
Jonny Greenwood
(Ataque dos Cães)
Pouquíssimas carreiras de compositores para cinema têm tanta personalidade e consistência como a de Jonny Greenwood. O guitarrista de 50 anos da banda Radiohead se tornou parceiro inseparável do diretor Paul Thomas Anderson (as trilhas de Sangue Negro e Trama Fantasma são verdadeiras obras-primas) e também vem colaborando com outros cineastas de ponta. É o caso de seu trabalho para Ataque dos Cães, de Jane Campion, que lhe rendeu sua segunda indicação ao Oscar. Ao mesmo tempo identificável, mas nunca repetitiva, a sonoridade das trilhas de Greenwood são sempre singulares ao evocarem os mais diferentes sentimentos. No caso de Ataque dos Cães, ela tem papel central na criação de toda a tensão que paira sob os personagens. Como esperado, Greenwood não cai na simples homenagem às referências de western e cria um universo próprio para um filme que rompe várias formalidades.

MELHOR FOTOGRAFIA
Joshua James Richards
(Nomadland)
Surpreende a sensibilidade com que Josua James Richards captura a mistura de individualidade e universalidade de Nomadland. Sua carreira é muito recente (o primeiro curta-metragem veio em 2011), prova de que talento de verdade se manifesta em qualquer momento. À parte ter em mente concepções importantes que nem todos diretores de fotografia têm (a de que ela nunca deve chamar atenção para si própria propositalmente) e experimentações que ele diz ter feito de forma deliberada para expandir seu repertório cinematográfico, o que Richard prova no filme de Chloé Zhao é que, acima de tudo, seu trabalho se move carregado de alma. Um exemplo disso é como as paisagens exploradas pelo filme não são apenas paisagens: elas estão ali para expressar as subjetividades de uma protagonista tão singular quanto Faye (Frances McDormand). O olhar é muito sensível, e o trabalho de Joshua é, sem dúvida, um dos pilares emocionais de Nomadland.

MELHOR MONTAGEM
Yorgos Lamprinos
(Meu Pai)
Somente a habilidade em construir a notável atmosfera labiríntica de Meu Pai já deveria render todo tipo de elogios ao montador greco-francês Yorgos Lamprinos, mas seu trabalho também é louvável em outra questão muita importante: a de conseguir calibrar a imensa oscilação de emoções vivida pelo protagonista Anthony (Anthony Hopkins). Construir o quebra-cabeça com peças as faltantes da memória do personagem deve ter sido um desafio repleto de dificuldades. Afinal, como fazer o espectador conhecer um homem que já não se (re)conhece mais? Pois Lamprinos consegue, emergindo a plateia em uma estrutura elegante, surpreendente e que reflete seu assumido entendimento de que Meu Pai é, de certa forma, uma história de horror. Há ritmo e envolvimento em cada decisão tomada para absorver a perspectiva e as impressões de um personagem cuja empatia junto ao público é definida de maneira decisiva pela montagem.

MELHOR SOM
Andy Nelson, Brian Chumney, Gary Rydstrom, Shawn Murphy e Tod A. Maitland
(Amor, Sublime Amor)
Mesmo que ostente mais de 100 títulos em um currículo marcado por filmes de todo tipo de gênero, Tod A. Maitland é categórico ao afirmar que nenhuma experiência de sua carreira em mixagem de som foi tão difícil quanto a de Amor, Sublime Amor. Junto a Andy Nelson, Brian Chumney, Gary Rydstrom e Shawn Murphy, ele estabeleceu uma dinâmica definitiva a ser seguida: tornar o set mais realista possível em termos de energia. Nesse sentido, o time de som de Amor, Sublime Amor microfonou todos os bailarinos e cantores do filme, com o objetivo de capturar o máximo possível das sonoridades reais de movimentos, sapateados, acrobacias e tudo o que tornou o musical de Spielberg uma das melhores surpresas de 2021. O resultado é um espetáculo para os ouvidos: do primeiro ao último minuto, Amor, Sublime Amor é impactante nos sentidos e um trabalho à altura da trilha de Leonard Bernstein.

MELHOR FIGURINO
Jenny Beavan
(Cruella)
Tente encontrar uma figurinista como Jenny Beavan. Possivelmente, a busca será das mais longas. Os seus três Oscar falam por si só: Uma Janela Para o Amor, Mad Max: Estrada da Fúria e, agora em 2022, Cruella. Dos filmes de época aos mundos pós-apocalípticos, Beavan é uma figurinista cheia de criatividade, e é isso o que acaba tornando Cruella minimamente divertido. Talvez seja meio óbvio afirmar que, em um filme sobre moda, os figurinos fossem destaque, mas Beavan sai do lugar comum para criar peças tão vistosas quanto cheia de ideias. É interessante como ela mostra a sua própria versatilidade ao contrastar as peças usadas por Emma Stone e Emma Thomson, que interpretam personagens de intenções e vocações bastante opostas. São quase 50 as trocas de figurino realizadas apenas por Stone durante o filme, credenciando de vez, também em termos quantitativos, a importância das vestimentas de Cruella para a história contada.

MELHOR DESIGN DE PRODUÇÃO
Cathy Featherstone e Peter Francis
(Meu Pai)
Segmento que, na totalidade das premiações, acaba resumido a reconstituições de épocas e imponências de blockbusters, o design de produção costuma ser muito mais surpreendente e narrativo em filmes como Meu ´Pai. No filme dirigido por Florian Zeller, a dupla Cathy Featherston e Peter Francis é minimalista de um jeito que pode até passar de forma despercebida pelo público, mas que, é peça fundamental na construção das inúmeras emoções desta poderosa jornada interior estrelada por Anthony Hopkins. Mergulhando na mente de um homem que tenta se agarrar a certezas e memórias que estão se desintegrando, Cathy e Peter acompanham o labirinto proposto pelo diretor ao criar ambientes cujas composições variam de forma gradativa. Cores, móveis e quadros mudam sutilmente de tempos em tempos, contribuindo para a grande desorientação do protagonista e da própria plateia — algo que, no caso de Meu Pai é, sem dúvida, o maior elogio possível.

MELHORES EFEITOS VISUAIS
Brian Connor, Gerd Nefzer, Paul Lambert e Tristan Myles
(Duna)
Brinco que blockbusters hollywoodianos não fazem mais do que obrigação quando entregam bons efeitos visuais. Com orçamentos milionários no caixa, é preciso certo esforço para chegar a algo ruim. É por isso que, diante da imensa profusão de filmes de super heróis no mercado cinematográfico, os filmes que se interessam são aqueles que se utilizam dos efeitos para criar uma atmosfera de imersão e não apenas um espetáculo vistoso. Duna segue a tradição do diretor canadense Denis Villeneuve de tentar ser o mais realista possível em luzes, contrastes e cenários criados ou adaptados virtualmente especialmente para o filme. Muito do que o quarteto Brian Connor, Gerd Nefzer, Paul Lambert e Tristan Myles fez para este projeto foi abarcar as sensações e as texturas de uma vida no deserto, interferindo o mínimo possível em elementos como luminosidade e animação. O não à artificialidade é o que faz de Duna uma experiência grandiosa do ponto de vista de efeitos.

MELHOR MAQUIAGEM & PENTEADOS
Julia Vernon, Nadia Stacey e Naomi Donne
(Cruella)
Partindo de inúmeras referências que pudessem reproduzir o estilo de uma jovem na Londres dos anos 1970, Julia Vernon, Nadia Stacey e Naomi Donne conceberam Cruella como um filme divido em dois momentos diferentes. O primeiro envolvia uma garota que ainda não se (re)conhecia e que, ao entrar na indústria da moda, passa a buscar sua própria identidade, permitindo permitiu que maquiagem e penteados se alternassem com frequência, representando a busca da personagem por seu estilo. Já o segundo é quando Cruella (Emma Stone) finalmente se torna Cruella, fase em que a caracterização expressa não só a identidade pop de uma personagem marcante como também a maneira da protagonista mascarar quem sua verdadeira identidade e se apresentar ao mundo como uma pessoa inteiramente nova. São fronteiras bem desenhadas, mas, ao mesmo tempo, bastante interligadas pelo trabalho de Vernon, Stacey e Donne.
Melhores de 2021: “Ataque dos Cães” lidera disputa com 12 indicações

Dirigido por Jane Campion, Ataque dos Cães é o novo recordista de indicações do blog.
Vivo sempre um misto de prazer e agonia quando chega a hora de fazer a lista de melhores do ano aqui do blog. Prazer porque é encantador imaginar esse mundo ideal onde só você dá as cartas, e angústia porque é difícil chegar a um número reduzido de selecionados quando há tantos filmes bons e aptos a entrar na lista. É um exercício que venho fazendo desde 2007 e que nunca se torna mais fácil. Não foi diferente com os filmes de 2021, que procurei condensar na lista abaixo.
No topo das indicações está o belo Ataque dos Cães, de Jane Campion, com 12 indicações, batendo o recorde até então ostentado por La La Land: Cantando Estações. O segundo mais lembrado da lista é o Amor, Sublime Amor, de Steven Spielberg, em nove categorias. À parte as estatísticas, foi um excelente ano para diferentes gêneros (há documentário, comédia, musical e drama na categoria principal), diretoras mulheres (três concorrem em melhor direção) e os mais variados estilos de interpretação (as categorias mais difíceis da lista!).
Confiram abaixo a seleção:
MELHOR FILME
Amor, Sublime Amor
Ataque dos Cães
Druk: Mais Uma Rodada
A Filha Perdida
Judas e o Messias Negro
Meu Pai
Nomadland
Quo Vadis, Aida?
Shiva Baby
Summer of Soul (Ou, Quando a Revolução Não Podia Ser Televisionada)
MELHOR DIREÇÃO
Chloé Zhao (Nomadland)
Emma Seligman (Shiva Baby)
Florian Zeller (Meu Pai)
Jane Campion (Ataque dos Cães)
Steven Spielberg (Amor, Sublime Amor)
MELHOR ATRIZ
Carrie Coon (O Refúgio)
Frances McDormand (Nomadland)
Olivia Colman (A Filha Perdida)
Rachel Sennott (Shiva Baby)
Tessa Thompson (Identidade)
MELHOR ATOR
Anthony Hopkins (Meu Pai)
Benedict Cumberbatch (Ataque dos Cães)
Daniel Kaluuya (Judas e o Messias Negro)
Lakeith Stanfield (Judas e o Messias Negro)
Mads Mikkelsen (Druk: Mais Uma Rodada)
MELHOR ATRIZ COADJUVANTE
Ariana DeBose (Amor, Sublime Amor)
Kirsten Dunst (Ataque dos Cães)
Jessie Buckley (A Filha Perdida)
Ruth Negga (Identidade)
Youn Yuh-jung (Minari: Em Busca da Felicidade)
MELHOR ATOR COADJUVANTE
David Strathairn (Nomadland)
Jesse Plemons (Ataque dos Cães)
Kodi Smit-McPhee (Ataque dos Cães)
Mike Faist (Amor, Sublime Amor)
Troy Kotsur (No Ritmo do Coração)
MELHOR ELENCO
Ataque dos Cães
Não Olhe Para Cima
No Ritmo do Coração
O Novelo
Shiva Baby
MELHOR ROTEIRO ORIGINAL
Um Animal Amarelo
Druk: Mais Uma Rodada
Judas e o Messias Negro
Uma Noite em Miami…
O Refúgio
MELHOR ROTEIRO ADAPTADO
Ataque dos Cães
A Filha Perdida
Meu Pai
Nomadland
Shiva Baby
MELHOR TRILHA SONORA
Ataque dos Cães
A Crônica Francesa
Minari: Em Busca da Felicidade
Não Olhe Para Cima
Shiva Baby
MELHOR CANÇÃO ORIGINAL
“Fight for You” (Judas e o Messias Negro)
“Just Look Up” (Não Olhe Para Cima)
“No Time to Die” (Sem Tempo Para Morrer)
“So May We Start?” (Annette)
“We Love Each Other So Much” (Annette)
MELHOR FOTOGRAFIA
Amor, Sublime Amor
Um Animal Amarelo
Ataque dos Cães
Identidade
Nomadland
MELHOR MONTAGEM
Amor, Sublime Amor
Ataque dos Cães
Meu Pai
Nomadland
Summer of Soul (Ou, Quando a Revolução Não Podia Ser Televisionada)
MELHOR SOM
Amor, Sublime Amor
Ataque dos Cães
Duna
Um Lugar Silencioso: Parte II
Summer of Soul (Ou, Quando a Revolução Não Podia Ser Televisionada)
MELHOR FIGURINO
A Crônica Francesa
Amor, Sublime Amor
Casa Gucci
Cruella
Identidade
MELHOR DESIGN DE PRODUÇÃO
Amor, Sublime Amor
A Crônica Francesa
Cruella
Duna
Meu Pai
MELHORES EFEITOS VISUAIS
Duna
Homem-Aranha: Sem Volta Para Casa
Um Lugar Silencioso: Parte II
Sem Tempo Para Morrer
Tempo
MELHOR MAQUIAGEM & PENTEADOS
Casa Gucci
A Crônica Francesa
Cruella
Identidade
Tempo
Melhores de 2020: roteiros, direção e filme

MELHOR ROTEIRO ADAPTADO
J.C. Lee e Julius Onah (Luce)
Quando apresentado pela primeira em 2013, o espetáculo teatral Luce, escrito por J.C. Lee, foi saudado como um trabalho “reflexivo e bem interpretado” nas palavras do jornal The New York Times, elogios que também podem ser atribuídos à versão cinematográfica, onde Lee contou com a parceria do diretor Julius Onah na escrita do roteiro. A transposição para as telas não guarda resquícios teatrais, mesmo quando a trama é centrada mais em diálogos e suposições do que necessariamente em acontecimentos. Por meio do texto, Lee e Onah criam um filme muito intrigante e inteligente, com personagens repletos de camadas, sejam eles protagonistas ou coadjuvantes, e leituras tão pertinentes quanto assertivas para muitas questões envolvendo a forma como a sociedade enxerga a população negra em diferentes esferas. Os labirintos criados por Luce são dos mais interessantes, rejeitando a panfletagem e se apoiando na grande dimensão dada a personagens que nos puxam de um lado para o outro. Sem respostas prontas ou fáceis, a adaptação brilha ao compreender o poder da dúvida e ao confiar na maturidade do espectador para entregar (ou não) os elementos que ele precisa para tirar algumas de suas próprias conclusões.

MELHOR ROTEIRO ORIGINAL
Eliza Hittman (Nunca, Raramente, Às Vezes, Sempre)
Tenho a sensação de que o tempo fará justiça a essa pérola chamada Nunca, Raramente, Às Vezes, Sempre, filme escrito e dirigido por Eliza Hittman sobre uma adolescente que, ao descobrir uma gravidez indesejada, viaja com uma amiga para outro estado com o objetivo de fazer legalmente um aborto. A propriedade com que Hittman navega nos anseios e silêncios de uma jovem que aos poucos se revela para o espectador é um assombro. Da tocante explicação do título do longa ao retrato muito discreto dos mais diferentes sentimentos vividos pela por ela, o roteiro descortina um universo particular pelo qual é difícil ficar indiferente. E, se a maravilhosa interpretação de Sidney Flanigan já nos coloca nos lugares mais íntimos da personagem, o texto impulsiona essa sensação de proximidade por fazer com que acompanhemos a jovem naqueles momentos aparentemente cotidianos e banais mas que, na verdade, refletem tudo o que precisamos saber sobre ela. Hittman versa sobre família, juventude e aborto sem jamais espetacularizar qualquer um desses temas, e talvez seja por isso mesmo que Nunca, Raramente, Às Vezes, Sempre tenha uma dramaticidade tão certeira e de crescimento gradativo. É um roteiro de pequenas grandiosidades. Exatamente como a vida.

MELHOR DIREÇÃO
Céline Sciamma (Retrato de Uma Jovem em Chamas)
Aos 42 anos de idade, a cineasta francesa Céline Sciamma contabiliza apenas quatro longas-metragens como diretora. A ênfase no apenas é necessária porque, apesar do número relativamente baixo de trabalhos, Sciamma demonstra um domínio técnico e emocional que alguns diretores demoram uma carreira inteira para alcançar. Como roteirista, sua carreira é mais extensa (e eu destaco aqui o belo trabalho feito por ela na animação Minha Vida de Abobrinha), o que também acaba contribuindo para toda a beleza que impressa ao ótimo Retrato de Uma Jovem em Chamas. Céline é um deslumbro em todas as escolhas técnicas e também compreende o quanto é necessário que o filme tenha seu próprio ritmo para desbravar todas as nuances de uma paixão secreta entre duas mulheres em pleno século XVIII. Seu olhar feminino faz a diferença para um romance de época cercado de escolhas minuciosas e diretamente ligadas à essência do filme, como a discreta potência conferida às cenas íntimas entre as duas personagens e toda a influência da geografia local no estado de espírito de cada uma delas. Antes, conhecendo longas como o também belo Tomboy, eu já ficava ansioso para ver mais de Céline Sciamma. Agora, tendo testemunhado Retrato de Uma Jovem Chamas, a sensação se multiplica.

MELHOR FILME
O Som do Silêncio, de Darius Marder
O Som do Silêncio é o tipo de filme que, nas mãos erradas, poderia ser uma experiência qualquer. Poderia também ser um dramalhão dos mais manjados ou, então, uma história motivacional construída em cima de lições de moral. Felizmente, não vemos nada disso no surpreendente trabalho de estreia de Darius Marder como diretor de ficções (antes, ele havia realizado apenas o documentário Loot). Meu fascínio pelo que Marder apresenta em O Som do Silêncio reside justamente em sua capacidade de se esquivar do óbvio através das escolhas mais simples. Tudo em O Som do Silêncio está no lugar certo: a abordagem do universo de pessoas com deficiência, o ritmo certo para que a história tenha a devida imersão, o trabalho técnico para nos colocar no lugar do protagonista, o desempenho espetacular de Darius Marder, o suporte do ótimo Paul Raci e até as pequenas participações como o do francês Mathieu Almaric. Em muitos sentidos, é um filme que merece ser referenciado por sua capacidade de explorar tantas camadas humanas com muita sutileza e sem alardes, provando que, sim, ainda existem novas perspectivas possíveis para temáticas já tão abordadas pelo cinema.
Melhores de 2020: categorias de interpretação

MELHOR ATOR COADJUVANTE
Paul Raci (O Som do Silêncio)
São 72 anos de idade e 40 de carreira, mas foi somente agora, em 2021, que Paul Raci ganhou seu primeiro papel de grande repercussão com O Som do Silêncio, chegando, inclusive, a concorrer ao Oscar de melhor ator coadjuvante. A chance tardia se dá com um trabalho repleto de significados para Raci: filho de pais surdos, ele cresceu entendendo intimamente esse universo, além de ter se tornado uma figura ativa na busca pelos direitos das pessoas surdas. Toda a sua experiência como membro de um grupo de atores surdos em Los Angeles e como vocalista da banda Hands of Doom ASL Rock, que realiza performances em LIBRAS, está evidente em cada segundo de sua interpretação, que busca apresentar a surdez com mais camadas do que o cinema norte-americano costuma abordar: sem estereótipos, mas com felicidade e tristeza, pessimismo e esperança, exatamente como acontece com todos nós.
É com essa perspectiva que o ator amplifica a importância de um papel muito pequeno e que se torna peça fundamental na jornada de autoconhecimento do protagonista Ruben (Riz Ahmed). Mais do que um personagem que o próprio Raci assume ter natureza autobiográfica, Joe é a sábia representação de um homem já em paz com a ideia de que a surdez não é algo a ser consertado. Em meio a tantas pessoas lutando contra seus próprios fantasmas em uma clínica de reabilitação, o personagem é construído com uma discrição exemplar. Aliás, Raci revelou em entrevistas que foram várias as vezes em que estava comovido por dentro ao observar a angústia de um protagonista tão perdido, mas que também sabia o quanto o controle das emoções faria bem à história, a seu personagem e ao filme como um um todo. Razão e emoção em uma performance que está entre os tantos elementos responsáveis por elevar O Som do Silêncio.

MELHOR ATRIZ COADJUVANTE
Octavia Spencer (Luce)
Atriz muito querida do público, Octavia Spencer caiu nas graças de incontáveis plateias com papeis de natureza cômica, como os de A Forma da Água e Histórias Cruzadas, que lhe rendeu o Oscar de melhor atriz coadjuvante. Seu melhor papel, no entanto, está em Luce, onde reafirma a máxima de que bons atores não são necessariamente bons comediantes, mas bons comediantes são indiscutivelmente bons atores. Mais comedida do que o habitual, Octavia explora as nuances de uma professora que, ao ler uma redação com comentários violentos e armamentistas de um de seus alunos, passa a desconfiar de que ele realmente concorda com tudo aquilo que escreve. Também negro, o garoto é o menino perfeito adotado por uma família rica e branca, enquanto a Harriet de Octavia é uma professora rígida que precisa manter certa autoridade e se provar constantemente na vida e na profissão.
O encontro entre os dois tem um quê de Dúvida, o filme de John Patrick Shanley estrelado por Meryl Streep e Philip Seymour Hoffman que coloca o espectador em uma sinuca de bico ao ter que decidir quem diz a verdade em um filme palavroso e costurado nas entrelinhas, mas Luce entra, claro, na seara racial, discutindo tudo o que se espera ou não de dois personagens negros tão distintos quanto semelhantes. A interpretação de Octavia é engrenagem potente na trama porque, ao invés de cair no radicalismo fácil de uma personagem que acusa tendo apenas seus instintos como argumento, ela prefere explorar as diferentes facetas de uma mulher que parece não ter certezas à toa em função da vida, do seu meio e de sua própria cor. Sem jamais julgar Harriet ou tentar manipular o espectador para que ele tome partido por ela, Spencer é sutil, firme e enigmática, travando um duelo dos mais instigantes com o também ótimo Kelvin Harrison Jr.

MELHOR ATOR
Riz Ahmed (O Som do Silêncio)
Ao contrário do seu colega de cena Paul Raci, o britânico Riz Ahmed embarcou em O Som do Silêncio sem uma vivência prévia com a população surda. Contudo, isso não foi um problema para o ator, que resolveu dispensar tudo o que pudesse facilitar o convívio com as pessoas surdas de verdade no set. Ahmed escolheu, por exemplo, trabalhar sem o apoio de intérpretes. Para ele, era fundamental que pudesse descobrir sozinho como se comunicar com os outros atores. Riz também decidiu usar bloqueadores auditivos nas cenas em que o seu personagem se sentia mais desorientado quanto à perda da audição. O que muitos enxergam como mérito, o ator viu apenas como parte corriqueira de seu trabalho: no final das contas, o que ele diz ter tirado de todo esse preparo foi, na verdade, a descoberta de um profundo entendimento sobre o real sentido da comunicação e sobre como enxergar o outro vai muito além da voz e do som.
Minimalista, a interpretação de Riz é daquele tipo que marca uma carreira. A habilidade com que ele abarca uma série de situações difíceis — a perda da audição, a angústia do vício, a busca por uma nova identidade, a inevitável entrada na clínica de reabilitação — revela um ator no pleno controle técnico e emotivo de um personagem imenso em emoções e frustrações. Ao entender Ruben como um homem que se vê em uma espécie de purgatório ao ter que ressignificar o que é importante na vida, Ahmed comunica com os olhares e transmite para o espectador todas as transformações do protagonista, indo do céu ao inferno com todo o entendimento da comunicação que ele diz ter incorporado durante as filmagens. Trata-se de uma interpretação ao mesmo tempo discreta e forte, capaz de despertar a empatia do espectador do início ao fim.

MELHOR ATRIZ
Alfre Woodard (Clemência)
É indesculpável o fato da Neon, distribuidora de Clemência, não ter feito uma ampla campanha para o desempenho de Alfre Woodard na temporada de premiações de 2020. Com certo atraso devido ao calendário britânico de estreias, a performance chegou a ser lembrada agora em 2021 pelo BAFTA, mas é pouco para um trabalho que, de tão forte e construído a partir do rico repertório de uma atriz, entra para o hall daqueles serão sempre referenciadas em uma filmografia. E não qualquer filmografia: a da grande Alfre Woodard. Nascida em Tulsa, nos Estados Unidos, Alfre se manteve ativa desde que iniciou sua carreira em 1978 com o telefilme The Trial of the Moke. Não passou um ano sequer sem atuar desde então e criou uma carreira sólida na TV, de Hill Street Blues, que lhe rendeu um Emmy logo na primeira indicação em 1984, a sucessos como Desperate Housewives, True Blood e Empire. Contudo, seu merecido e complexo protagonismo em Clemência é um caso à parte.
No drama dirigido pela nigeriana Chinonye Chuku, Alfre interpreta Bernardine, uma personagem forte e rica em possibilidades por si só. Diretora de um corredor da morte nos Estados Unidos, Bernardine é a única mulher em um ambiente masculino. Tendo que lidar diariamente com a morte e com os sentimentos extremos dos que estão à espera da execução ou daqueles que estão às vésperas de perder seus familiares, ela precisa camuflar qualquer tipo de emoção e se apresentar somente como uma profissional, sem qualquer envolvimento emocional. Na medida em que entendemos a natureza de seu trabalho e principalmente a forma com que Bernardine se comunica com as pessoas no trabalho e até mesmo com o marido que lhe reivindica mais presença e afeto, o trabalho de Alfre se engrandece em detalhes. Ao explorar a linha tênue entre razão e emoção, sua performance é de rara elegância e inteligência, culminando em uma cena final de tirar o fôlego e que só poderia ter tamanho impacto graças a combinação entre tempo, talento e repertório. Tudo o que Alfre Woodard tem de sobra.

MELHOR ELENCO
Destacamento Blood
Denzel Washington e Samuel L. Jackson que me desculpem, mas é difícil imaginar Destacamento Blood sem Delroy Lindo. Também não reclamaria se Giancarlo Esposito e John David Washington estivessem no projeto, mas novamente tenho a impressão de que o filme de Spike Lee não poderia ter outra composição de elenco. É palpável a amizade entre Paul (Lindo), Otis (Clark Peters), Melvin (Isiah Whitlock Jr.) e Eddie (Norm Lewis), seja em tudo que ela carrega de melhor (a cumplicidade, a camaradagem, o bom humor) ou nas consequências inevitáveis do tempo (os afastamentos, as distintas visões de vida, os diferentes rumos tomados). São todos homens marcados pelos traumas da Guerra do Vietnã, o que os afasta na medida em que também os aproxima.
A dinâmica entre o quarteto é o retrato espirituoso e maduro de uma amizade de longa data, defendido por atores talentosos e extremamente à vontade em seus papeis. Destacamento Blood ainda reserva outras participações especiais, como a de Chadwick Boseman, em um de seus últimos trabalhos; outras estelares, a exemplo do francês Jean Reno; e complementos interessantes à jornada dos protagonistas, como a presença de Jonathan Majors interpretando o filho de Paul, em uma ótima dinâmica com Delroy Lindo. É essa composição entre estilos e talentos diversos que forma ótimos elencos, caso desse subestimado filme de Spike Lee.
Melhores de 2020: categorias técnicas
É chegada a hora de conhecer os vencedores da tradicional lista de melhores do ano aqui do blog. Revelados no último mês de maio, os indicados contemplam os filmes de 2020, considerando lançamentos comerciais no Brasil tanto em cinema em streaming. Sem categorizações específicas para longas brasileiros, animações ou documentários, todos concorrem juntinhos, de forma a reforçar que cinema é cinema, independentemente de gênero ou nacionalidade. Ao todo, serão três postagens para revelar os vencedores, começando hoje com as categorias técnicas e suas respectivas justificativas: canção original, maquiagem e penteados, efeitos visuais, figurino, montagem, fotografia, design de produção, trilha sonora e som. Lembrando que, desde 2007, todo o histórico de vencedores está registrado aqui.

MELHOR CANÇÃO ORIGINAL
Laura Mvula, por “Brighter Dawn” (Clemência)
Com um background que vai do jazz à música gospel, a britânica Laura Mvula descobriu seu desejo pela carreira musical quando começou a prestar atenção nos corais da igreja que frequentava de maneira diferente, descolando-se de uma mera análise da vertente religiosa. A partir daí, foi questão de tempo para que ela acumulasse referências de Nina Simone, Ella Fitzgerald e Diana Ross para encontrar a sua própria voz. E parte desse repertório está traduzido na canção “Brighter Dawn”, escrita por Mvula para o ótimo e pouco visto Clemência. Enxuta, a canção que dura pouco menos de dois minutos e meio captura toda a personalidade vocal da britânica. Entretanto, o mais simbólico está mesmo na letra da música, também escrita por ela, que sintetiza toda a jornada de Bernardine (Alfre Woodard) com precisão e poesia. Trechos como “Todas as minhas cicatrizes são minhas joias mais brilhantes, todas as minhas lágrimas brilham como orvalho da manhã” atestam que, em muitos sentidos, Clemência foi realmente um filme subapreciado.

MELHOR MAQUIAGEM & PENTEADOS
Adam Bailey, Anouck Sullivan e Sarah Hindsgaul
(Estou Pensando em Acabar Com Tudo)
Possivelmente o filme mais nichado já escrito (e agora dirigido!) por Charlie Kaufman, Estou Pensando em Acabar Com Tudo tem nas complexidades e nas possibilidades do tempo a matéria-prima para desenvolver muitas das múltiplas perspectivas tomadas pelos personagens ao longo do filme. Com isso, o trio Adam Bailey, Anouck Sullivan e Sarah Hindsgaul precisou explorar, por meio da maquiagem e dos cabelos, as várias oscilações imaginadas por Kaufman. O método escolhido não foi o de O Irlandês, por exemplo, onde os atores foram rejuvenescidos através de efeitos visuais, mas sim o da maquiagem e das próteses clássicas. Dessa forma, personagens como a de Toni Collette se desenharam a partir de um longo e minucioso trabalho que buscou aplicar diferentes camadas no rosto e nas mãos do elenco para representar os diferentes avanços no tempo e as variações propostas pelo texto de Kaufman. E a maneira como Estou Pensando em Acabar Com Tudo se utiliza dessa ferramenta com sutileza no início para depois impressionar é inegavelmente intrigante.

MELHORES EFEITOS VISUAIS
Andrew Lockley, Andrew Jackson, David Lee e Scott R. Fisher (Tenet)
Tenet é uma caricatura de tudo o que existe de pior na carreira do diretor Christopher Nolan, exceto nos quesitos técnicos. Dessa vez, a equipe de efeitos visuais reunida por ele teve o grande desafio de imaginar um filme onde toda a ação ocorre de trás para frente, o que exigiu uma mistura de efeitos práticos e sequências em CGI. Ao contrário do que se pode imaginar, Andrew Lockley, Andrew Jackson, David Lee e Scott R. Fisher não usaram a simples técnica de gravar normalmente as cenas para depois revertê-las. Como apenas metade das sequências de ação eram possíveis de ser performadas em sentido cronológico, atores e dublês tiveram o desafio de treinar os movimentos em reverso, tentando usar o máximo possível de efeitos práticos, complementados na pós-produção apenas com o que era realmente necessário ou impossível de ser materializado sem a interferência de tecnologias. O resultado é de tirar o fôlego, e não é por menos: Andrew Jackson, o supervisor de efeitos visuais de Tenet, também trabalhou em Mad Max: Estrada da Fúria, outra produção de natureza muito semelhante no sentido de se preocupar mais com a realidade do que com criações virtuais.

MELHOR FIGURINO
Chris Garrido (Pacarrete)
Pacarrete tem uma protagonista das mais singulares, o que estabelece uma série de armadilhas para todos os envolvidos no filme. Afinal, como não tornar a incompreendida e geniosa bailarina de Russas uma caricatura pouco crível e até mesmo irritante? Pois o diretor Allan Deberton, munido de sua reverência, curiosidade e carinho por essa personagem que de fato existiu no Ceará, tratou de (re)imaginá-la para o cinema com respeito e minimalismo, algo também perceptível no belo trabalho de Chris Garrido nos figurinos. Não é só a luminosidade de uma mulher cujo nome é inspirado em pâquerrete (“margarida” em francês) que está representada, por exemplo, nos chapéus de palha decorados com flores que traduz sua singularidade, mas cada roupa inspirada em figurinos usados pela bailarina Anna Pavlova entre os anos 1930 e 1940. É entre a admiração de Pacarrete (Marcélia Cartaxo) por Pavlova e a sua personalidade incomparável como uma mulher apaixonada pela arte que Chris Garrido criou um figurino tão iluminado quanto a personagem-título.

MELHOR MONTAGEM
Mikkel E.G. Nielsen (O Som do Silêncio)
O montador dinamarquês E.G. Nielsen embarcou em O Som do Silêncio no momento em que disse ao diretor Darius Marder o que gostaria de fazer com o material do filme. Isso foi um fator decisivo para que ele fosse contratado, pois, nas tantas entrevistas que Marder havia feito até então, os candidatos em potencial apenas perguntavam de que maneira ele gostaria de estruturar o longa, sem a firmeza e a visão que Nielsen viria a expor em uma primeira conversa. Rodado em ordem cronológica, O Som do Silêncio ganhou, através da montagem, a imersão que normalmente é reconhecida em outros elementos de um filme, como o som e a fotografia. Para o dinamarquês, o importante era sintonizar o espectador no mesmo timing de descobertas que o protagonista e se perguntar constantemente quando era a hora colocar ou tirar o personagem de determinadas situações, além do quanto ele conseguia suportar ou não novas realidades até finalmente aceitá-las, sem entregar conflitos logo de cara. É o tipo de história que Nielsen avalia ser contada com escolhas quase imperceptíveis, sensação capturada com perfeição por seu discreto e eficiente trabalho na montagem.

MELHOR FOTOGRAFIA
Claire Mathon (Retrato de Uma Jovem em Chamas)
Foi na primeira visita às locações de Retrato de Uma Jovem em Chamas que a diretora Céline Sciamma entendeu o que precisava para o seu filme em termos de fotografia. Ao invés de se deparar com um céu acinzentado, a diretora encontrou paisagens ensolaradas na isolada ilha da Bretanha onde a trama acontece. Ou seja, quando assumiu a fotografia do filme, a experiente Claire Mathon (segundo o IMDb, já são mais de 60 títulos desde que começou a trabalhar em 2000!) sabia exatamente que Retrato de Uma Jovem em Chamas deveria ser uma experiência luminosa. O processo foi meticuloso, uma vez que o maior desafio era trazer para as locações internas a mesma vibração do sol que banhava as paisagens externas. Segundo a própria Sciamma, o longo processo de preparação de luz reduziu o tempo disponível para a gravação das cenas, mas o resultado está no que Mathon entrega: filmado digitalmente e trazendo como referência obras de arte assinadas por pintoras do final do século XVIII, a fotografia é solar e capaz de mergulhar em épocas passadas com um olhar muito contemporâneo e apurado.

MELHOR DESIGN DE PRODUÇÃO
Rodrigo Frota (Pacarrete)
Toda a proximidade pessoal e afetiva do diretor Allan Deberton com a história contada em Pacarrete serviu de base para que Rodrigo Frota criasse um design de produção fiel às memórias do diretor e próximo de toda a identidade de uma protagonista tão única. Naturalmente, o foco central foi a casa da própria Pacarrete, uma vez que é onde uma imensa parcela do longa se desenvolve. Mais do que isso, é nesse ambiente que entendemos, em cada mobília e em cada decoração, a essência de uma mulher presa a um passado que lhe desperta grande saudade e que ela vê ficar cada vez mais para trás. Escolhendo as melhores opções entre cada quatro ou cinco variações para objetos que seriam usados em cena, Rodrigo Frota criou um universo muito particular e lúdico, repleto de referências ao amor de Pacarrete pela arte (com o ballet tendo certo destaque, claro) e também à vida como ela é, pois tudo o que vemos em cena é de grande familiaridade, como se um dia já estivéssemos vivido ou pelo menos visitado uma casa como aquela.

MELHOR TRILHA SONORA
Michael Abels (Má Educação)
Com muita curiosidade, fui pesquisar mais sobre Michael Abels assim que terminei de assistir a Má Educação. E, para minha surpresa, descubro que esse compositor norte-americano estreou nos cinemas somente em 2017, quando, aos 54 anos, fez a trilha de Corra!. Dois anos depois, seguiu colaborando com o diretor Jordan Peele em Nós, passou pela aventura infanto-juvenil A Gente Se Vê Ontem e chegou a Má Educação, inexplicavelmente apenas o quarto trabalho de sua carreira. Dou ênfase ao inexplicável porque Abels é de um talento gigante e o que ele faz nesse drama verídico adquirido pela HBO é de um frescor raro de se ver. Acertadamente definida pelo Awards Daily como uma “queda operística”, a trilha usa a experiência de Abels como compositor de concertos para representar o intelecto do protagonista (um homem trambiqueiro, mas também muito esperto e que deduzimos ser apreciador de música clássica) e justamente causar incômodo na simultânea desconstrução que faz dele e dos próprios elementos da música clássica. É uma trilha minimalista, econômica e eficiente em tantos experimentos que poderiam facilmente dar errado em mãos menos talentosas.

MELHOR SOM
Carlos Cortés, Jaime Baksht, Michelle Couttolenc, Nicolas Becker e Phillip Bladh (O Som do Silêncio)
Talvez fosse um pouco óbvio que um filme com “som” e “silêncio” no título caprichasse na relação entre esses dois aspectos, especialmente se tratando de uma trama onde um baterista de heavy metal perde a sua audição pouco a pouco. A virada de chave é que, assim como a montagem já comentada aqui, O Som do Silêncio também utiliza mais esse setor não como mera curiosidade, mas como uma fundamental ferramenta de imersão. É acreditando que a relação de um espectador com um filme se dá no incentivo para que ele se coloque no lugar dos personagens que o quinteto formado por Carlos Cortés, Jaime Baksht, Michelle Couttolenc, Nicolas Becker e Phillip Bladh moldar um trabalho de som capaz de absorver a relação do protagonista com o silêncio, criando um mundo de grande vibração, já que estamos falando de um personagem submerso e em busca de novas formas de observar o mundo a sua volta. Tudo com o intuito de se aproximar ao máximo da vida real, sem que as escolhas se escancararem para a plateia como pequenas manipulações.