Cinema e Argumento

Melhores de 2019 – Elenco

Em janeiro deste ano, antes de marcar época no Oscar como a primeira produção de língua não-inglesa a levar o prêmio de melhor filme em mais de 90 anos de história, Parasita já havia deixado sua marca pioneira no Screen Actors Guild Awards, onde levou a estatueta de melhor elenco, algo até então também inédito para produções em outro idioma que não seja o inglês. A consagração é inquestionável, pois o elenco de Parasita é a perfeita definição de um talentoso grupo de atores que sustenta com louvor a equação quantidade versus qualidade. Por mais que alguns atores tenham mais destaque do que outros em função do que a própria história exige (Song-kang Ho, Cho Yeo-jeong são dois destaques pontuais) todos estão em perfeita sintonia e inspiração, especialmente se tratando de um coletivo que, durante o desenrolar da trama, precisa alternar entre tantos gêneros diferentes sem jamais perder consistência e unidade. Ainda disputavam a categoria: Assunto de Família, Bacurau, Entre Facas e Segredos e A Favorita.

EM ANOS ANTERIORES: 2018 – O Animal Cordial | 2017 – Um Mergulho no Passado | 2016 – Animais Noturnos | 2015 – Birdman ou (A Inesperada Virtude da Ignorância) | 2014 – Relatos Selvagens | 2013 – Álbum de Família | 2012 – O Impossível | 2011 – Tudo Pelo Poder | 2010 – Minhas Mães e Meu Pai | 2009 – Dúvida | 2008 – Vicky Cristina Barcelona | 2007 – Bobby

Melhores de 2019 – Ator

Sem saber escrever seu próprio nome, Zain al Rafeea foi descoberto aos 12 anos pela cineasta Nadine Labaki nas ruas de Beirut, quando ela procurava o protagonista de Cafarnaum. Refugiado, pobre e desamparado nesse país que lhe obrigou a crescer muito antes do esperado, o pequeno Zain, assim como outros tantos outros integrantes do elenco, tem em Cafarnaum a sua primeira experiência com interpretação, o que não transparece ao longo do filme: trazendo dentro de si vivências muito próximas àquelas que são mostradas ao longo da projeção, além de um grandioso talento, Zain dá vida a um personagem dolorosamente real, fruto de uma performance tão verdadeira quanto devastadora.

Ainda que pese o fato de Cafarnaum ter um tom praticamente documental ao colocar pessoas da vida real para interpretar fatos muito parecidos com os de sua própria existência — e há quem considere isso um demérito —, é simplesmente impossível diminuir o talento de Zain al Rafeea. Certamente nós vimos filmes diferentes se você, assim como eu, não testemunhou um desempenho miraculoso, onde um garoto inexperiente domina a tela e carrega quase sozinho um filme de duas horas. E não qualquer filme, mas um absurdamente triste, fulminante e narrado quase como uma jornada solo, algo capaz de intimidar até mesmo atores experientes.

Com carisma e profundidade, Zain faz o retrato perfeito de uma criança obrigada a ser adulta e que diariamente se vê agredida por uma vida que jamais lhe dá a mão. Suas lágrimas são genuínas e a empatia que ele desperta no espectador é inquestionável. Como ele conseguiu fazer tudo o que vemos em Cafarnaum? Nem Nadine Labaki sabe explicar. Quando o longa foi exibido pela primeira vez no Festival de Cannes, a diretora disse que apenas ligava a câmera e Zain entregava tudo aquilo que está registrado em Cafarnaum, praticamente sem orientações, como um ator nato. Há quem passe a vida inteira tentando despertar um fascínio como esse. Ainda disputavam a categoria: Adam Driver (História de Um Casamento), Antonio Banderas (Dor e Glória), Joaquin Phoenix (Coringa) e Marco Nanini (Greta).

EM ANOS ANTERIORES: 2018 – Daniel Day-Lewis (Trama Fantasma) | 2017 – Casey Affleck (Manchester à Beira-Mar| 2016 – Nelson Xavier – A Despedida | 2015 – David Oyelowo (Selma: Uma Luta Pela Igualdade| 2014 – Jake Gyllenhaal (O Abutre| 2013 – Joaquin Phoenix (O Mestre| 2012 – Rodrigo Santoro (Heleno| 2011 – Colin Firth (O Discurso do Rei| 2010 – Colin Firth (Direito de Amar| 2009 – Sean Penn (Milk – A Voz da Igualdade| 2008 – Daniel Day-Lewis (Sangue Negro| 2007 – Forest Whitaker (O Último Rei da Escócia)

Melhores de 2019 – Atriz

Uma das raríssimas atrizes agraciadas com o Oscar pelo papel certo, Olivia Colman é um furacão em A Favorita. Mesmo quando ela não está em cena, o filme de Yorgos Lanthimos respira a sua presença, o que não é pouca coisa, especialmente quando também temos Rachel Weisz e Emma Stone em momentos inspirados. Não há como contestar: é genial a forma como ela dá vida à conturbada rainha Anne, sempre com muita humanidade e sem cair no risco de torná-la caricata. E a missão era muito difícil, visto que a personagem transita por uma gama de emoções com extrema velocidade e tem na insanidade a matéria-prima para variáveis de drama e humor.

Quando questionada sobre como conduziu sua performance, Olivia pede desculpas e revela que ela, como atriz, não têm processos muito claros. Isso pode ser motivo de decepção para muitos entrevistadores (o que ela mais cita sobre sua vivência em A Favorita é o fato de ter comido muito durante as gravações), mas talvez seja a sua maior qualidade como intérprete. Esse mistério de não se encaixar em definições fáceis e que lhe permite ser escalada para qualquer papel acabou encantando Yorgos Lanthimos, que deu a Colman o palco perfeito para ela criar o tipo de performance que define uma carreira. Ainda disputavam a categoria: Camila Morgado (Vergel), Glenn Close (A Esposa), Lupita Nyong’o (Nós) e Scarlett Johansson (História de Um Casamento).

EM ANOS ANTERIORES: 2018 – Karine Teles (Benzinho) | 2017 – Jennifer Lawrence (Mãe!| 2016 – Isabelle Huppert (Elle| 2015 – Camila Márdila e Regina Casé (Que Horas Ela Volta?) | 2014 – Rosamund Pike (Garota Exemplar| 2013 – Adèle Exarchopoulos (Azul é a Cor Mais Quente| 2012 – Tilda Swinton (Precisamos Falar Sobre o Kevin| 2011 – Kirsten Dunst e Charlotte Gainsbourg (Melancolia| 2010 – Carey Mulligan (Educação| 2009 – Kate Winslet (Foi Apenas Um Sonho| 2008 – Meryl Streep (Mamma Mia!| 2007 – Marion Cotillard (Piaf – Um Hino ao Amor)

Melhores de 2019 – Roteiro Original

Em mais de 20 anos de carreira, o cineasta Bong Joon-ho sempre trabalhou com todo tipo de gênero, e Parasita não deixa de ser mais um trabalho onde ele mistura e subverte muitos deles, mas sua maior preocupação ao escrever o roteiro do filme era contar uma história sobre pessoas mundanas e que podem muito bem ser nossos vizinhos. Inicialmente pensado como uma peça de teatro, Parasita aos poucos foi tomando forma como uma experiência cinematográfica, com sua gênese dramática centrada na relação entre ricos e pobres, discussão já presente em Expresso do Amanhã, ficção científica assinada por Bong Joon Ho ainda quando o roteiro de Parasita estava sendo escrito por ele em parceria com Jin Won Han.

Sem estereótipos, a dupla cria dois núcleos de poder aquisitivo muito distintos, desfiando perspectivas inteligentíssimas, como a questão da (falta de) privacidade de cada família (os ricos moram em uma espécie castelo isolado, enquanto os pobre vivem em um apartamento subterrâneo cuja única janela está à altura do chão da rua, como se eles fossem mendigos). Conjugando uma trama de disparidades sociais e dinâmicas familiares, o roteiro de Parasita não limita seus personagens à mera definição de mocinhos e vilões, desenvolvendo todos com desenvoltura em um emaranhado de acontecimentos surpreendentes e empolgantes. Ainda disputavam a categoria: Bacurau, Dor e Glória, Entre Facas e Segredos e A Favorita.

EM ANOS ANTERIORES: 2018 – Trama Fantasma | 2017 – Manchester à Beira-Mar | 2016 – Aquarius | 2015 – Que Horas Ela Volta? | 2014 – Relatos Selvagens | 2013 – Antes da Meia-Noite | 2012 – A Separação | 2011 – Melancolia | 2010 – A Origem | 2009 – (500) Dias Com Ela | 2008 – WALL-E | 2007 – Ratatouille

Melhores de 2019 – Roteiro Adaptado

Foi necessário um período dois anos para que o roteiro de A Vida Invisível chegasse à sua estrutura final. Ao longo desse tempo, Karim Aïnouz e Murilo Hauser, que tomavam como base, claro, o livro A Vida Invisível de Eurídice Gusmão, de Martha Batalha, discutiram muitos pontos que poderiam funcionar na literatura, mas que, no cinema, talvez pudessem soar menos orgânicos para o ritmo da narrativa (a grande quantidade de saltos no tempo, por exemplo). Procurando manter a essência do romance de Martha Batalha, a dupla também propôs ajustes pontuais, como o fato de Eurídice tocar piano — e não flauta, como originalmente escrito —, um instrumento muito mais visual e que amplia a linguagem corporal da personagem.

A mistura de reverência ao livro de origem com a plena consciência de que literatura é uma coisa e cinema é outra confere ao roteiro de A Vida Invisível uma grande delicadeza. Estruturalmente bem resolvido (Karim e Murilo ainda desconstruíram o texto original para colocá-lo em ordem cronológica e, a partir daí, definirem a gênese dramática e o formato da narrativa), a adaptação contempla diversos temas — a emancipação feminina, o machismo, a relação entre irmãs, a passagem do tempo — com grande comoção, provando que é possível sim fazer um melodrama bem dosado e com raízes novelescas admiráveis. Ainda disputavam a categoria: Greta, Poderia Me Perdoar?, Querido Menino e Se a Rua Beale Falasse.

EM ANOS ANTERIORES: 2018 – Me Chame Pelo Seu Nome | 2017 – Minha Vida de Abobrinha | 2016 – Carol |  2015 – 45 Anos | 2014 – Garota Exemplar | 2013 – Azul é a Cor Mais Quente | 2012 – Precisamos Falar Sobre o Kevin | 2011 – A Pele Que Habito | 2010 – Direito de Amar | 2009 – Dúvida | 2008 – Desejo e Reparação | 2007 – Notas Sobre Um Escândalo

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