Cinema e Argumento

Rapidamente: “Apresentando os Ricardos”, “Cruella”, “Druk” e “Duna”

BEING THE RICARDOS

Como a inesquecível Lucille Ball, Nicole Kidman tem, em Apresentando os Ricardos, a sua melhor interpretação no cinema em pelo menos dez anos.

APRESENTANDO OS RICARDOS (Being the Ricardos, 2021, de Aaron Sorkin): Ao que tudo indica, Aaron Sorkin tem a intenção de se tornar uma espécie de referência em filmes históricos/cinebiográficos — o que, neste caso, não é uma notícia das mais entusiasmantes. Tanto em Os 7 de Chicago quanto agora em Apresentando os Ricardos fica claro que ele pode até ser bom roteirista, mas também o quão longe ele está de ser um diretor inspirado. Se outrora seus roteiros rendiam forma criativa nas mãos de diretores como David Fincher (A Rede Social) e Danny Boyle (Steve Jobs), agora eles se apequenam por justamente não terem um cineasta de visão atrás das câmeras. Apresentando os Ricardos é uma produção que parece ter sido feita a toque de caixa, inclusive do ponto de vista técnico, onde aspectos como design de produção, figurino e trilha sonora soam até familiares, como se já tivessem sido usados em outros filmes de ideias semelhantes. Sorkin aposta na alternância da vida de Lucille Ball (Nicole Kidman) à frente e atrás das câmeras, do seu sucesso estrondoso com I Love Lucy ao seu romance com Desi Arnaz. Acusações envolvendo uma suposta participação de Lucille no partido comunista vêm à tona, e o roteiro busca equilibrar esse recorte com idas e vindas no tempo para ilustrar outros pontos da carreira da estrela. Só que nada ganha a devida tração, restando para Nicole Kidman a tarefa tão recorrente em filmes desse gênero de trazer algum brilho para o filme. E ela consegue, mas não na mímica da Lucille conhecida do público: é nos bastidores da vida da protagonista que Nicole entrega a sua interpretação mais completa e envolvente em pelo menos dez anos. Ela merecia um longa à altura deste momento.

CRUELLA (idem, 2021, de Craig Gillespie): Tenho resistência às desconstruções que a Disney vem fazendo de suas vilãs porque a saída é sempre a mesma: encontrar um outro vilão como explicação. Foi assim com Malévola, que inaugurou, em 2014, essas desconstruções, e é agora, mais uma vez, com Cruella, longa dedicado às origens da icônica Cruella de Vil da animação 101 Dálmatas. Na pele da personagem, Emma Stone se diverte com sua desenvoltura habitual e com os incontáveis e criativos figurinos assinados por Jenny Beavan, vencedora do Oscar por Mad Max: Estrada da Fúria. Outra Emma, entretanto, diverte-se ainda mais: a Thompson, vivendo a nova vilã que vem para justificar as razões que levaram Cruella e se tornar Cruella. Ela é deslumbrante e divertida em exageros performados sempre no ponto e coerentes com o tom adotado pelo filme. Tirando esses acertos da conta, resta muito pouco em Cruella, pois o filme segue a receita habitual da nova coleção de trabalhos da Disney sobre suas vilãs, estendendo-se além da conta com uma trama em que já sabemos onde tudo vai dar. Em comparação com a animação de 1961, falta à Cruella uma personalidade que vá além dos looks inegavelmente criativos. A Disney já confirmou uma continuação, e fico na expectativa para que, na sequência, possamos mergulhar de verdade nas sombras que fazem de Cruella de Vil uma grande vilã.

DRUK: MAIS UMA RODADA (Druk, 2021, de Thomas Vinterberg): Vencedor do Oscar 2021 de melhor filme internacional, Druk: Mais Uma Rodada talvez seja um dos filmes mais “acessíveis” da carreira do cineasta dinamarquês Thomas Vinterberg, e isso não é mau sinal, ao contrário do que costuma acontecer com muitos diretores. Muito mais do que uma brincadeira envolvendo quatro amigos que, tendo descoberto um estudo sobre como precisamos compensar um déficit de álcool no sangue para equilibrar a vida, Druk é uma análise muito bem articulada sobre os estímulos bons ou ruins que procuramos para encontrar algum sentido e atravessar os nossos dias tão exaustivamente mundanos. Passada a euforia vivida pelos personagens a partir da premissa apresentada, Vinterberg convida o espectador a adentrar nas razões que levaram os quatro amigos a procurar um caminho alternativo. É possível voltarmos a ser quem um dia já fomos? Em que momento as coisas se perdem pelo caminho? Como acontecimentos tão cotidianos podem descaracterizar uma vida? Essa virada de chave para o que orbita o experimento etílico não limita Druk à instigante curiosidade de seu ponto de partida, colocando a experiência em um patamar mais reflexivo, sempre potencializado pela ótima interpretação de Mads Mikkelsen, e com direito a passagens catárticas, como a cena final, embalada pela ótima canção “What a Life”, do Scarlet Pleasure, e facilmente um dos momentos mais marcantes entre as produções lançadas no Brasil em 2021.

DUNA (Dune: Part One, 2021, de Denis Villeneuve): O canadense Denis Villeneuve tem redefinido o cenário de blockbusters “conceituais”, movimento ensaiado em A Chegada, evoluído em Blade Runner 2049 e agora consolidado de vez em Duna. Meu envolvimento com os filmes do diretor, no entanto, tem sido inversamente proporcional às dimensões cada vez mais ambiciosas trabalhadas por ele. Sinto falta do Villeuve de filmes como Incêndios, O Homem Duplicado, Sicario e Os Suspeitos ao me deparar com trabalhos como este recente Duna, uma odisseia tão grandiosa quanto insípida e que já recebeu carta branca para um segundo capítulo. Além de replicar o problemático e elitista discurso de ser um filme para ser visto na sala de cinema, Villeneuve não sustenta o filme em uma tela menor, onde Duna se torna maçante e até mesmo tecnicamente frustrante. Se o diretor, assim como em Blade Runner 2049, tenta engrandecer, a todo custo, uma história mínima e circular, atributos como a fotografia de Greig Fraser perdem o impacto, rendendo uma sessão nada sensorial e deveras escura, a ponto de não se enxergar direito boa parte da história. O grande elenco, do protagonista Timothée Chalamet a participações especiais como as de Charlotte Rampling e Zendaya, vaga por areias infinitas em uma trama sem senso de urgência e pasteurizada em um mesmo tom. Na tela grande, Duna pode ser um espetáculo. Em casa, é basicamente um sonífero para quem não abraça o conceito.

“Turma da Mônica: Lições” confirma êxito da franquia com sequência madura em conflitos e ideias

Não é preciso ser diferente pra ser único.

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Direção: Daniel Rezende

Roteiro: Thiago Dottori e Mariana Zatz, baseado na obra de Mauricio de Sousa e inspirado na graphic novel “Lições”, de Lu Cafaggi e Vitor Cafaggi

Elenco: Giulia Benite, Kevin Vechiatto, Laura Rauseo, Gabriel Moreira, Monica Iozzi, Paulo Vilhena, Isabelle Drummond, Malu Mader, Vinícius Higo, Gustavo Merighi, Camila Brandão, Lucas Infante, Emily Nayara, Ana Carolina Godoy, Beto Schultz, Angélica Paula, Adriano Paixão, Gabriel Blotto, Pedro Souza

Sinopse: Mônica (Giulia Benitte), Cebolinha (Kevin Vechiatto), Magali (Laura Rauseo) e Cascão (Gabriel Moreira) fogem da escola. Agora, terão que encarar as suas consequências, e elas não serão poucas. Nesta nova jornada, a turma descobrirá o real valor e sentido da palavra amizade.

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Até onde se tem notícia, a versão cinematográfica da Turma da Mônica será composta por uma trilogia inteiramente comandada pelo cineasta Daniel Rezende. Há fôlego de sobra para que a franquia se desdobre em mais capítulos, mas, se for mantida a ideia de somente três filmes, é bem provável que seja entregue uma trinca invejável. Isso porque o segundo capítulo intitulado Lições chega aos cinemas brasileiros preservando e ampliando o que deu certo em Laços ao mesmo tempo em que compreende sua missão como um filme de transição, preparando o terreno para um terceiro capítulo onde, possivelmente, Mônica, Cebolinha, Cascão e Magali se confrontarão até mesmo com dilemas de gente grande.

Para falar a verdade, Lições já coloca os pequenos em situações muito próximas da vida adulta. Ao afastarem Mônica do resto da turma, os roteiristas Thiago Dottori e Mariana Zatz, mais uma vez tomando como base a graphic novel de Lu Cafaggi e Vitor Cafaggi, conduzem os personagens a reflexões sobre crescer e as coisas que perdemos ou devemos lutar para reconquistar pelo caminho. E vão além: é no mínimo surpreendente como Dottori e Zatz introduzem temas bastante contemporâneos através de características marcantes das figuras criadas por Mauricio de Sousa. Ver Lições interpretando a fome infinita de Magali como uma questão de ansiedade passível de ser tratada mostra que a franquia veio mesmo para dizer coisas novas e importantes.

A visão amadurecida dos personagens é bem-vinda a Lições porque filmes intermediários de trilogias costumam patinar para encontrar alguma identidade e não simplesmente replicar os acertos de um primeiro capítulo. Pois o longa de Daniel Rezende tem excelente noção do tempo e o quanto ele, na infância, parece se arrastar na mesma medida em que voa sem percebermos. O quarteto de protagonistas pode ter certa resistência, mas a convocação para o crescimento já está aí, e o desafio é conseguir manter o espírito de criança mesmo com a vida adulta acenando no horizonte. Tal norte tomado por Lições cria bases muito sólidas para um filme de transição ainda melhor que seu antecessor e com bastante a contribuir para a franquia.

Outro aspecto que gosto muito no longa de Rezende é como ele não cai em duas armadilhas plantadas desde os primeiros minutos de projeção. A primeira é em relação à narrativa episódica. Por ter um foco muito maior na vida escolar dos protagonistas, Lições parecia fadado a ser um conjunto de esquetes e aventuras, como um entretenimento caça-níqueis. Longe disso: com habilidade, Lições apenas se utiliza do contexto escolar para tratar de questões mais íntimas de seus personagens. A segunda se refere à introdução de outros personagens dos quadrinhos, como Franjinha, Tina e Do Contra. Ainda que haja certo excesso na quantidade de aparição deles, todos trazem alguma contribuição para o desenrolar da trama.

Para quem, assim como eu, já era fã de carteirinha do filme anterior, só há boas notícias em Lições, com a consolidação de tudo o que funcionava em Laços, do design de produção super caprichado ao tom nostálgico em homenagem à infância eternizada nos quadrinhos de Mauricio de Sousa. E são indispensáveis novos elogios para Giulia Benite, Kevin Vechiatto, Laura Rauseo e Gabriel Moreira, que fazem um trabalho maravilhoso como Mônica, Cebolinha, Magali e Cascão, respectivamente. Em tempo de tela, o destaque para os dois primeiros continua evidente, o que, no entanto, é de certa maneira equilibrado pelo fato de todos terem conflitos que desafiam suas personalidades isoladas e tão únicas. No próximo filme, eles estarão bem acompanhados de outro querido personagem que ainda não deu as caras, e vale acompanhar os créditos finais para descobrir quem está prestes a se juntar ao time. 

Em “Casa Gucci”, as manchetes e o marketing importam mais do que o filme em si (e isso nunca é uma boa notícia)

Father, son and House of Gucci.

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Direção: Ridley Scott

Roteiro: Becky Johnston e Roberto Bentivegna, baseado no livro “Casa Gucci: Uma história de glamour, ganância, loucura e morte”, de Sara Gay Forden

Elenco: Lady Gaga, Adam Driver, Al Pacino, Jared Leto, Jeremy Irons, Salma Hayek, Jack Huston, Alexia Murray, Vincent Riotta, Gaetano Bruno, Camille Cottin, Youssef Kerkour

House of Gucci, EUA/Canadá, Drama, 158 minutos

Sinopse: O casamento e o divórcio turbulento entre Patrizia Reggiani (Lady Gaga) e Maurizio Gucci (Adam Driver) leva a um assassinato.

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Com frequência, Hollywood se apropria de histórias da vida real (e com vocações cinematográficas) para realizar filmes que acreditam no apelo isolado dos fatos retratados como fórmula de sucesso, o que faz com que algo muito importante se perca nas discussões: a obra em si. Casa Gucci padece desse mal: tem Lady Gaga, que já deu incontáveis entrevistas sobre o seu método de atuação; há também a força da marca Gucci para despertar expectativas em torno de como o mundo da moda será retratado; e, por fim, soma-se a curiosidade voyeurística do público pelos bastidores da vida de ricos e poderosos envolvidos em crimes ou escândalos. Salvas raras exceções, não vejo como boa notícia quando curiosidades orbitantes ganham mais holofotes do que o próprio filme. Inclusive, vejo quase como quase uma sentença de que receberemos muito pouco em troca, e o novo trabalho de Ridley Scott não foge à regra.

Entendo, claro, o quanto tudo isso faz parte de um jogo muito natural de Hollywood. Por isso mesmo, também deixo de lado a problemática da apropriação cultural, visto que isso obviamente está posto desde os primeiros minutos de Casa Gucci, quando constatamos o quanto o filme está mais interessado nas caricaturas, nas perucas, nos sotaques e nos confetes do que em contar uma boa história. Tendo feito essas observações, parto para o filme em si, que, como esperado, já deu conta do esperado circo midiático em torno de sua realização (membros da família Gucci ficaram desgostosos com o resultado, enquanto o consagrado estilista Tom Ford diz ter dado risadas ao assistir ao longa, mas pelas razões erradas).

Assinado por Becky Johnston e Roberto Bentivegna, a partir do livro Casa Gucci: Uma história de glamour, ganância, loucura e morte, de Sara Gay Forden, o roteiro é um dos problemas centrais do filme de Ridley Scott, outrora um diretor de títulos inesquecíveis como Thelma & Louise, Blade Runner: O Caçador de Androides e Alien: O 8º Passageiro. Até dá para classificar como interessante a decisão dos roteiristas em se debruçar no encadeamento de fatos que levou ao assassinato em questão e não em todo o burburinho crime em si, mas a aposta só seria vitoriosa se Casa Gucci não fosse previsível, disperso, risível na construção de conflitos e sem ritmo até chegar ao tão aguardado “clímax” (entre aspas por razões a serem comentadas daqui a pouco).

O roteiro, de certa forma, está configurado mais como uma checklist de tudo o que não poderia faltar no episódio em questão, não abrindo espaço para respiros: a cada cena, Casa Gucci introduz um personagem, promove uma mudança de ares, apresenta um conflito que desaparece tão rápido quanto surge, faz variar motivações conforme cada acontecimento e revela uma coisa aqui e outra ali para criar intrigas e desafetos. Inexiste o espaço para nuances e camadas. Tudo está verbalizado e pontuado em marcos específicos, o que demonstra a dificuldade de Casa Gucci em explorar as verdadeiras essências e leituras dramáticas de fatos que, aqui, nada mais são do que meros… Fatos.

Fatos por fatos, esperava, ao menos, que o filme guardasse o melhor para o final, quando Maurizio Gucci (Adam Driver) é morto a mando de Patrizia Reggiani (Lady Gaga). Contudo, Casa Gucci termina abruptamente logo após duas ou três cenas subsequentes ao assassinato de Mauricio. É um anticlímax completo porque tanto não temos a recompensa de uma história bem contada até ali como também a parte que poderia dar alguma tração de última hora para a narrativa fica somente para os letreiros dos créditos finais. Erro duplo: a ideia de preferir a jornada do que o ponto de chegada é desarranjada e sequer  ganhamos algo em troca ao final para atenuar o cansaço até ali.

Toda a longa e exaustiva caminhada rumo ao desfecho é o que Casa Gucci tem de pior. Falta boa inflexão a cada virada de chave, a exemplo da súbita mudança de dinâmica no casamento de Mauricio e Patrizia, bem como a decisão de Patrizia em assassinar o marido, algo repentino demais para um roteiro tão dedicado a mostrar como a personagem operava para manipular Mauricio e se tornar uma figura fundamental dentro dos negócios da Gucci.

Aliás, qual seria a dimensão desse império e a razão da Gucci ser Gucci? Considerando o que é mostrando neste longa, sabemos muito pouco. Mais uma vez simplista — e aí também se repete o problema da falta de nuances —, o roteiro não dimensiona os processos criativos da marca, a engenhosidade das operações de negócios e o requinte dos bastidores. Passagens com potencial para serem triunfantes ganham espaço como acontecimentos quaisquer, a exemplo do período em que a Gucci estava em derrocada e se reergue a partir da ascensão de Tom Ford nas passarelas. Em certo ponto, chega a nosso conhecimento que Clark Gable usou sapatos da marca e que os icônicos lenços de Rodolfo Gucci (Jeremy Irons) estiveram no pescoço de Grace Kelly. Entretanto, fica para uma pesquisa pós-filme entender como tudo isso se deu.

Ao não ser um trabalho de encher os olhos em termos de figurino ou de caracterização, Casa Gucci tinha outra chance de ouro: se justificar na diversão e no aproveitamento de um elenco estelar. Só que a pompa raramente corresponde ao que se vê na tela. Jeremy Irons e Al Pacino, como os grandes atores que são, tentam tirar algum proveito, mas o roteiro e todo o contexto os aprisionam. Eles são bons acertos se lembrarmos da desastrosa interpretação de Jared Leto como o fracassado Paolo Gucci. Leto mira em uma leitura tragicômica e acerta no constrangimento, para dizer o mínimo.

A cota de entretenimento de Casa Gucci está na performance de Lady Gaga, visivelmente se divertindo do início ao fim. A cantriz, como sempre, tem grande presença, ainda mais se tratando de uma personagem com muitas particularidades. Se, na superestimada performance de Nasce Uma Estrela, eram claras as suas limitações dramáticas quando o filme lhe exigia maior repertório, aqui ela é mais funcional porque a história demanda presença e estrelato, atributos que Gaga, como um ícone pop e não necessariamente atriz, tem de sobra. A única ressalva é a de que, a partir determinado momento, sua personificação de Patrizia estaciona em uma nota só.

Costumo dizer que tão frustrante quanto ter uma experiência ruim ou mediana na sala de cinema é ter uma morna e que nem mesmo nos erros consegue criar um guilty pleasure involuntário. Para muitos, como já pude constatar, Casa Gucci diverte e sobrevive bem aos seus eventuais problemas. Não foi assim comigo. Desejava que tivesse sido, mas ver um filme que busca graça em frases como a de que não devemos confundir chocolate com cocô porque ambos se parecem mas tem gostos diferentes, não está nadinha próximo das minhas afinidades cinematográficas.

Três atores, três filmes… com Thiago Kistenmacker

trestiagokÉ revigorante encontrar profissionais do cinema que, apesar das adversidades vividas atualmente no Brasil em muitos aspectos, seguem acreditando no poder transformador da arte e batalhando para que múltiplas vozes sejam ouvidas por meio dos filmes. Recentemente, conheci o Thiago Kistenmacker, cineasta vencedor do Kikito de melhor montagem por Aquarela, membro da Academia Brasileira de Cinema e que se enquadra exatamente nesta definição. Apaixonado por seu ofício, ele apresentou, no último Festival de Cinema de Gramado, o curta-metragem Memória de Quem (Não) Fui, uma excelente crônica sobre identidade, gênero e a família que temos (ou, principalmente, a que escolhemos ter). Sou suspeito para falar porque estive na comissão que selecionou o curta do Thiago para a competição, mas ali realmente está o tipo de voz que nosso cinema precisa. De Fernanda Montenegro a Paulo Gustavo, ele também encontrou espaço para Jamie Lee Curtis na coluna, agrupando obras de drama, comédia e terror em escolhas bastante plurais e, claro, pessoais. Valeu, Thiago!


Sempre fico fascinado com pessoas que conseguem apontar facilmente qual é o seu filme, ator ou diretor favorito. Quando mais novo, era fácil eu definir rápido assim, mas o status de “favorito” hoje me soa definitivo demais. Nós mudamos, o mundo muda, filmes novos saem. Quando a gente aponta algo “inesquecível” há ainda mais peso nessa atribuição. Passei as últimas duas semanas debatendo internamente se compilaria uma lista de interpretações inesquecíveis para mim ou para um consenso acadêmico de cinema. Sinto que o consenso acadêmico é achado em qualquer lista no Google, então decidi me desprender e ser 100% pessoal. Então, essas são as performances que o Thiago de 2021 considera as mais inesquecíveis.

Fernanda Montenegro (Central do Brasil)
Sei que essa interpretação já foi citada mais de uma vez, mas eu não consigo pensar em compilar uma lista sem Fernanda Montenegro como Dora. Central do Brasil é uma referência do nosso cinema e de sua potência. Eu poderia citar outras performances incríveis da Fernanda, como A Falecida e Eles Não Usam Black-tie, mas, toda vez que eu penso na atriz, automaticamente a trilha de Central do Brasil surge no fundo do meu ouvido. Essa interpretação não só sobreviveu ao teste do tempo como parece que ganhou ainda mais força — se é possível — na sua reverberação. Não tive a chance de viver o impacto de Central do Brasil no seu lançamento, pois era uma criança na época. Talvez eu tenha essa perspectiva de que o filme só se valoriza com o tempo porque tenho uma relação razoavelmente recente com ele. Aqui Fernanda está absolutamente impecável em todas as nuances, manipulando o espectador a amar, odiar, rir e chorar com Dora, dosando perfeitamente entrega e domínio. É irônico que o filme termine com a personagem pedindo que seu parceiro de cena não a esqueça, porque nós, como público, definitivamente nunca a esqueceremos.

Jamie Lee Curtis (Halloween, 1978 e 2018)
Halloween, de 1978, é uma referência do terror. O orçamento era tão baixo que os créditos do longa apresentam cerca de 12 profissionais de equipe técnica, e os bastidores dependiam da colaboração do elenco para tarefas como pintar cenários. Os envolvidos não imaginavam que, 40 anos depois, haveria uma franquia. Dito isso, tenho consciência de que Jamie Lee Curtis protagoniza o filme ainda imatura como atriz. Trata-se de uma performance irregular em técnica e que traduz alguns maneirismos que não sobreviveram ao tempo, mas esses fatores não tornam sua Laurie Strode menos icônica. A personagem é a primeira “final girl” (protagonista feminina que luta e sobrevive ao terror de seus filmes), e a atriz definiu características de performance que seriam replicadas à exaustão nos filmes de terror dos anos 1980 e 1990. No primeiro filme, Jamie Lee Curtis criou uma personagem pela qual o público torce e traduziu, na continuação de 2018, todo o trauma dos eventos de 40 anos atrás, dessa vez com domínio técnico sobre sua atuação e influência assumida no roteiro. Nessa leitura, eu considero os dois filmes. Jamie Lee Curtis criou história no terror e habitou a juventude de muitos. Inclusive a minha.

Paulo Gustavo (Minha Mãe é Uma Peça)
Eu assisti à peça original em um teatro aqui do subúrbio do Rio. Na época, eu não acessava teatros com frequência, muito pela distância geográfica deles, e essa foi uma das poucas peças de grande repercussão que alcançou meu território quando eu tinha meus 17 anos. Anos depois, o filme saiu, e eu fiquei feliz em ver as salas de cinema cheias com um produto nacional. Mais adiante, em algum momento, eu me vi seguindo, como cineasta, uma rota diferente da que Paulo Gustavo seguia. Às vezes, a gente sente que é obrigado a levar as coisas a sério demais pela seriedade em que as coisas se encontram. Mas a realidade é que, toda vez que algo da dona Hermínia chegava até mim, eu ria. Assim, o principal objetivo Paulo Gustavo como ator de comédia era atingido. E o público não apenas riu com a dona Hermínia. O filme também emocionou muita gente que a abraçava pelo seu reflexo afetuoso de tantas mães. Com alguns sacrifícios, ele sensibilizou, em drag, muita gente preconceituosa que, se não fosse por sua performance, nunca veriam nada além do homem gay de peruca e vestido. Sinto que a gente cai no erro de não encarar performances de comédia como performances com demandas tão complexas quanto as enraizadas num realismo dramático. E, montando essa lista, ele não poderia estar de fora. A Dona Hermínia de Paulo Gustavo de fato é uma personagem que não se apagará da nossa memória coletiva.

Menções honrosas que quase entraram para o corte final: Leandro Firmino da Hora (Cidade de Deus), Meryl Streep (O Diabo Veste Prada) e Tim Curry (The Rocky Horror Picture Show).

Os indicados ao Globo de Ouro, Critics’ Choice e Independent Spirit Awards 2022

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Belfast lidera a lista de indicados do Globo de Ouro e do Critics’ Choice Awards 2022. Ataque dos CãesAmor, Sublime Amor compartilham a dianteira respectivamente.

Já aberta previamente por incontáveis associações de críticos, a temporada de premiações de 2022 ganhou nova tração entre ontem (13) e hoje (14), quando o Globo de Ouro, o Critics’ Choice Awards e o Independent Spirit Awards revelaram os seus indicados. Como um todo, é possível constatar o quanto a temporada está repleta de possibilidades, o que é resultado direto de uma concorrência ampla e forte em várias categorias. Aqui ou ali, faltam vagas, por exemplo, na categoria de melhor atriz, onde Penélope Cruz, vencedora do último Festival de Veneza, ficou de fora por Madres Paralelas, assim como Jennifer Hudson, que parecia ter a receita infalível para prêmios com a sua personificação de Aretha Franklin na cinebiografia Respect. Tais oscilações em presenças e ausências são sempre interessantes para manter o entusiasmo e a curiosidade.

Isoladamente, as polêmicas e os boicotes envolvendo o Globo de Ouro parecem ter surtido efeito na Hollywood Foreign Press Association, que ampliou o seu número de membros para ter um time mais diverso e apresentou, pela primeira vez em muitos anos, uma lista sem qualquer constrangimento. Não há um Music da vida como no ano passado ou, então, o desastre cometido por Jared Leto em Casa Gucci. No lugar, temos uma lista sem surpresas e basicamente dentro do esperado, o que, para o Globo de Ouro, é um bom sinal. Ataque dos CãesBelfast lideram a lista, com Licorice Pizza ganhando o impulso necessário para não ficar restrito ao círculo dos críticos e Não Olhe Para Cima provando que a HFPA continua sem resistir a elencos estelares, mesmo quando os filmes não são bem recebidos. Agora é guardar para ver como se dará a premiação — se é que ela acontecerá, tendo em vista que a estrela escolhida para anunciar os indicados foi… Snoop Dog. Será que o boicote realmente se concretizará?

Enquanto isso, no Critics’ Choice Awards, Belfast, de Kenneth Branagh, também lidera a lista, agora ao lado de Amor, Sublime Amor, de Steven Spielberg. Neste prêmio onde, ao contrário do Globo de Ouro, todas as categorias técnicas são contempladas, há a cota do vexame com a indicação de Jared Leto como melhor ator coadjuvante por Casa Gucci (logo vocês, críticos?!) e uma característica muito importante que faz com que o Critics’ Choice Awards não alcance grande relevância: a de que há aqui um apanhado de tudo o que está pipocando na temporada em termos de favoritismo. E a situação piora na noite de premiação, pois já virou um hábito a decisão de promover empates. Quem lembra de quando Glenn Close (A Esposa) dividiu prêmio com Lady Gaga (Nasce Uma Estrela) ou de quando Bong Joon Ho (Parasita) empatou com Sam Mendes (1917) em melhor direção para ambos perderem melhor filme para o Era Uma Vez Em… Hollywood, de Quentin Tarantino? A dificuldade em se posicionar e ânsia por prever o Oscar jogam o Critics’ Choice no limbo.

E também tivemos os indicados ao Independent Spirit Awards que, comparado aos últimos anos, nunca foi tão… Independente! Isso está evidente no fato da premiação ter, por exemplo, reconhecido A Filha PerdidaC’mon C’mon em melhor filme, mas ignorado Olivia Colman e Joaquin Phoenix por seus desempenhos como protagonistas nos respectivos filmes. Ou seja, na medida em que as “estrelas” parecem ter ficado de lado, o Independent Spirit Awards se dedicou a garimpar obras realmente fora da curva, fato que também se reflete com o elogiado Mass sendo escolhido para o prêmio Robert Altman de elenco (dessa forma, os atores ficam fora da corrida individual por seus desempenhos) e com a baixa recepção a longas que eram dados como palpite fácil, a exemplo o ótimo Shiva Baby. É uma lista que, acertadamente, não tenta ser uma prévia do cinema independente rumo ao Oscar e que estimula o espectador a conhecer filmes que não costumam ganhar holofotes. E o melhor: temos nada menos do que quatro (!!!) mulheres na categoria de direção. De longe, a lista mais interessante até agora.

Confira os indicados:
Globo de Ouro / Critics’ Choice Awards / Independent Spirit Awards.