Cinema e Argumento

Três atores, três filmes… com Vera Fischer

Com mais de 40 anos de carreira, Vera Fischer já ultrapassou a marca de 30 participações em novelas e seriados. No meu imaginário de ex-noveleiro, ela mora, claro, como a protagonista Helena de Laços de Família, novela do ano 2000 que, escrita por Manoel Carlos, chegou a registrar o maior índice de audiência do Canal Viva quando foi reprisada em 2016. Vera também fez filmes — mais de 20 — e sempre foi uma cinéfila de carteirinha. Recentemente, passou a compartilhar suas aventuras cinematográficas no Instagram. De grandes clássicos a sucessos modernos, ela também registra por lá os seus comentários sobre premiações como o Globo de Ouro e o Oscar (aliás, Rede Globo, já fica registrada aqui a dica para que a Vera comente a transmissão do ano que vem!). Sou grande fã da completa espontaneidade e autenticidade com que Vera produz suas postagens. Mais ainda da frequência com que ela assiste diferentes filmes para, logo em seguida, recomendar aos seus seguidores. Convidada a elencar três interpretações do cinema que lhe marcaram, Vera selecionou para a nossa coluna dois desempenhos agraciados com o Oscar e um eternizado pelo tempo. Os três primeiros comentários abaixo foram enviados por ela especialmente para o blog. Já os demais foram publicados recentemente no Instagram da Vera, onde ela também comenta especificamente sobre desempenhos de seus colegas de profissão. Tão importantes quanto os críticos não são os espectadores assíduos? Que privilégio tê-la por aqui!

Holly Hunter (O Piano)
No filme de Jane Campion, ela faz uma mulher muda que fala por sinais e que ama o seu piano mais do que tudo na vida, a ponto do piano falar por ela. Com um desempenho tão forte, tão maduro, e ao mesmo tempo tão surreal, ela me tocou profundamente.

Liza Minelli (Cabaret)
Ela estava maravilhosa nesse filme dirigido pelo coreógrafo Bob Fosse! A sua Sally Bowles, uma sonhadora americana, que canta e dança no Cabaret KitKat, em Berlim, durante a ascensão do nazismo, é digna dos maiores elogios. Ela criou, através da maquiagem e das roupas, uma personagem meio clown, uma figura patética no meio daquele ambiente decadente. Adorei como Liza conseguiu me emocionar, a cada cena, seja dançando, cantando ou apenas em silêncio, no close.

Jack Nicholson (O Iluminado)
O primeiro épico de terror que ficou amedrontador não apenas por ser uma historia de Stephen King dirigida por Kubrick, mas também pelo horror, loucura e insanidade que o ator vai revelando ao longo do filme. É impossível ficar impassível! É um grande trabalho de Nicholson e dá mesmo muito medo.

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Rita Hayworth (Gilda)
A lendária Rita Hayworth, dama da Columbia Pictures, brilha neste filme de 1946, dirigido por Charles Vidor. Com muita sensualidade e magnetismo, ela canta “Put the Blame on Mame”, num cassino ilegal em uma cidade da América Latina; é uma história cheia de reviravoltas. Gilda, mulher infiel, sedutora, ciumenta, vingativa, intimidadora e… maravilhosa. Dizem que, nunca houve uma mulher como Gilda!

Forest Whitaker (O Último Rei da Escócia)
Encantador. Fascinante. Assassino. É assim o filme O Último Rei da Escócia, com o vencedor do Oscar e do Globo de Ouro de 2007, Forest Whitaker. No papel de Idi Amin Dada, o ditador se Uganda, Forest nos brinda com uma das melhores interpretações da história do cinema moderno. Esta é a incrível história de Amin, vista através dos olhos de Nicholas Garrigan (James McAvoy, também excelente!), um jovem escocês que foi médico pessoal do instável líder, em parte devido à inesperada paixão de Amin pela cultura escocesa. Amin até se autoproclamou “O Último Rei da Escócia”. Seduzido pelo carisma de Amin e cegado pela decadência, a vida dos sonhos de Garrigan torna-se um pesadelo de traição e loucura, da qual não há fuga. Inspirado em pessoas e acontecimentos reais, esta história de grande impacto e cheia de suspense é repleta de interpretações inesquecíveis. Forest Whitaker me inspira sempre. É tão bom ator que você é fisgado no primeiro instante. Esse é um filmaço. Daqueles que, sempre que você o vê, nunca mais vai ser a mesma pessoa.

Audrey Hepburn (Bonequinha de Luxo)
Quem ainda não viu Bonequinha de Luxo, esta comédia com Audrey Hepburn, que brilha como diamante? Claro que todos já viram! Mas nunca é demais. Desde os acordes de abertura da inesquecível canção “Moon River”, de Henry Mancini e Johnny Mercer (vencedora do Oscar), todos ficam sob o encanto desta maluquinha garota de Nova York, conhecida como Holly Golightly (Audrey), nesta história baseada no best-seller de Truman Capote. George Peppard é um jovem e esforçado escritor que conhece Holly e é arrebatado para o seu intrigante e delicioso estilo de vida, mas Holly quer apenas encontrar um milionário para casar-se. Grande clássico do diretor Blake Edwards. Eu adoro, particularmente, as cenas em que ela está vestindo um Givenchy preto, diante da Tiffany’s, comendo um sanduíche ao amanhecer, admirando os diamantes, e, o momento em que, ao lado de Peppard, sentada na janela, ela canta “Moon River”. Audrey forever.

Três atores, três filmes… com Daniel Feix

A coluna “Três atores, três filmes” foi inaugurada em abril de 2013 para trazer ao blog queridos amigos comentando interpretações que consideram marcantes no cinema. Passados sete anos, chego agora ao convidado número 50 com o imenso orgulho de, ao longo dessa trajetória, ter também incorporado ao espaço colegas do jornalismo, profissionais do cinema e até mesmo atrizes e cineastas de quem sempre fui muito fã. Para marcar a 50ª edição da coluna, trago a participação do jornalista gaúcho Daniel Feix. Mestre em comunicação, crítico de cinema, editor dos suplementos de fim de semana do jornal Zero Hora e atual presidente da Associação de Críticos de Cinema do Rio Grande do Sul (ACCIRS), Daniel é jornalista cultural desde 2000 e tem artigos publicados na série “Os 100 melhores”, da Associação Brasileira dos Críticos de Cinema (Abraccine), em “Bernardet 80” (Paco Editorial) e “Cem autores que você precisa ler” (L&PM), entre outros livros, além de ser autor da biografia “Teixeirinha – Coração do Brasil”. Lembro de, ainda na faculdade, tê-lo entrevistado sobre, claro, crítica de cinema. Anos depois, nos tornamos colegas de jornalismo. Hoje, tenho a grande satisfação de estar junto ao Daniel na ACCIRS — aliás, foi durante sua bela gestão como presidente que recebi o convite para integrar o time de críticos dessa importante associação. Cumprindo o desafio proposto pela coluna, ele selecionou desempenhos que engrandecem três filmes assinados por cineastas icônicos: Ingmar Bergman, Jean-Luc Godard e Wong Kar-Wai. Obrigado pela participação, Daniel!

Tony Leung (Amor à Flor da Pele)
Entre os muitos bons filmes que têm como tema a impossibilidade da realização amorosa, Amor à Flor da Pele talvez seja um dos mais exasperadores – daí o sentido de suas cores quentes, sua trilha pop potente, o uso de recursos como a câmera lenta e os planos claustrofóbicos, tudo a ressaltar a dramaticidade da jornada de Chow (papel de Leung) e sua vizinha Chan (Maggie Cheung). O protagonista, no entanto, carrega uma misteriosa sobriedade, que o ator que o interpreta, sob a direção segura de Kar Wai (em sua melhor fase), usa como recurso para intrigar e mesmo seduzir o espectador. Seu desespero não aparece. Existe? No fundo, a inevitabilidade do sofrimento como que o anestesia, mas sem tirar dele o desejo, muito pelo contrário. Esse balanço que dá complexidade à composição do personagem encontrou em Tony Leung um intérprete à altura, tão capaz de comunicar sentimentos distintos, ora aparentemente opostos, que se tornou icônico quando o assunto é o amor irrealizável.

Max Von Sydow (A Paixão de Ana)
Von Sydow era alto, tinha um rosto com formato e traços muito marcantes e um olhar profundo, ressaltado por uma força expressiva rara. Mas o que o fez um ator realmente gigante foi a delicadeza. Nos filmes de Bergman (eles fizeram 10 longas-metragens juntos), invariavelmente encarnava um sujeito oprimido pelas angústias da existência, apequenado por descobrir-se insignificante diante dos desígnios de Deus. Não é preciso ter fé para partilhar desse tormento: a magnitude da vida está na sua imaterialidade; associá-la à religiosidade foi um subterfúgio bergmaniano, coerente com as inquietações pessoais do cineasta. Bergman foi um dos maiores, se não o maior dos cineastas. E ninguém encarnou com tanta propriedade suas aflições quanto Von Sydow – por conta de sua delicada expressividade. Eu poderia ter escolhido A Hora do Lobo (1967), em que a proximidade da loucura faz sua interpretação pender para um registro menos naturalista e mais impressionante, mas opto por A Paixão de Ana porque esse me parece ser o filme do completo esvaziamento – desacelerado, doloroso, inescapável – de sua alma atormentada, culminando, na histórica sequência final, com a decomposição (visual, inclusive) de sua figura.

Anna Karina (Viver a Vida)
Logo no segundo dos 12 capítulos desse pequeno grande filme, Anna Karina vai ao cinema para ver A Paixão de Joana d’Arc (de Carl T. Dreyer, 1928). Godard, que a filma com paixão, devoção, precisa de apenas um corte para estabelecer um paralelo entre a atuação histórica de Renée Falconetti e a de sua heroína sensibilizada – e, ali já vai ficando evidente, de alma nua diante da hostilidade do mundo lá fora. O filme dentro do filme mostra um diálogo apresentado em planos e contraplanos fechados de Joana d’Arc com o personagem de Antonin Artaud, deixando o espectador à expectativa de que, saindo do rosto dele, a imagem mostrará o dela – só que Godard surpreende e insere o rosto de Nana (a personagem de Anna Karina), como se fosse com ela que Artaud estivesse se comunicando. Seus traços delicados deixam a expressão ainda mais comovente, ressaltada por uma fotografia que faz brilhar as lágrimas escorrendo pelo rosto. Nem sempre valorizada como merece, a grande atuação da musa de Godard se dá pela capacidade de comunicar, ao mesmo tempo, descobertas e decepções, crescimento e abatimento, a maturidade e a aflição pelo que esta impõe.

Três atores, três filmes… com Maria Clara Senra

Formada em jornalismo pela UFRJ e pós-graduada em jornalismo cultural pela UERJ, Maria Clara Senra trabalha como repórter e editora no Canal Brasil, cobrindo festivais, pré-estreias, bastidores e participando de transmissões ao vivo direto dos maiores eventos cinematográficos do país. Nossos caminhos se cruzaram no Festival de Cinema de Gramado, onde, vocês podem perceber, conheci tantos dos queridos convidados dessa coluna. Por toda bagagem profissional da Maria Clara e também pelos anos em que convivemos profissionalmente em pequenas temporadas cinematográficas na serra gaúcha, fiquei curiosíssimo em saber quais seriam as escolhas que ela faria após aceitar esse convite. E me apaixonei pela lista: o trio de mulheres selecionado para a coluna representa, sem dúvida alguma, todo o poder e a pluralidade das atrizes brasileiras, aqui representadas por intérpretes grandiosas, em papeis marcantes. Por fim, para quem mora no Rio de Janeiro, fica a dica: desde julho de 2019 a Maria Clara conduz, ao lado de duas amigas, o Cine Dádiva (@cinedadiva), cineclube que acontece um domingo por mês em uma casa em Ipanema acompanhado de uma aula com uma diretora sobre algum aspecto específico da construção do filme exibido e uma festinha pensada especialmente para cada evento. Todo lucro obtido com o valor dos ingressos é revertido para projetos de capacitação de mulheres. Uma prévia de toda a expertise que ela compartilha nesse projeto já pode, de certa forma, ser conferida aqui na coluna. Gracias, Maria Clara!

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Quando Matheus me convidou para participar da seção “três atores, três filmes”, fiquei muito alegre, mas soube que teria que encarar minha relação de amor e ódio com listas. Adoro organizar informações, encontrar ordem, mas acho dificílima a tarefa de rankear ou enumerar o que quer que seja, pelo desconforto gerado por todas as exclusões.  Como trabalho direta e diariamente com cinema nacional, decidi que escreveria sobre filmes e profissionais brasileiros. Defini também que selecionaria atuações femininas, já que tantas me chamaram atenção ao longo dos anos.

Pensei primeiro nas personagens que marcaram não só a mim, como a todos que conhecem a nossa cinematografia: a Dora de Fernanda Montenegro; a Xica da Silva de Zezé Motta; a Sueli de Marília Pêra e tantas outras. Mas elas já estão gravadas nas nossas memórias e, definitivamente, presentes em muitas listas. Por fim, escolhi intérpretes de três longas-metragens bastante recentes — um lançado em 2018, outro em 2019 e um ainda inédito no circuito comercial. Olhares autorais em produções novas que eu gostaria que fossem vistas por muita gente.

Magali Biff (Pela Janela)
Magali Biff é paulistana e um grande nome do teatro no Brasil. Atuou no longa “Jogo das Decapitações”, de Sérgio Bianchi, mas seus trabalhos de destaque no cinema são “Deserto”, de Guilherme Weber, “Açúcar”, de Sergio Oliveira e Renata Pinheiro, e “Pela Janela”, de Caroline Leone, no qual interpretou sua primeira protagonista. No enredo, Biff vive Rosália, uma operária de uma pequena fábrica de reatores em São Paulo. Ela dedica a vida ao serviço, mas é demitida de repente. Sem o trabalho, fica perdida e é consolada pelo irmão José, que resolve levá-la junto com ele em uma viagem de carro até Buenos Aires. No road movie com pouquíssimos diálogos, tudo na personagem fala: olhos, gestos, postura corporal. Não há eloquência, mas muito sentimento. Vivemos com Rosália uma jornada íntima de descobertas e reinvenção. E como é importante ver um roteiro nada óbvio e tão interessante sobre uma mulher de 65 anos. O filme é uma coprodução entre Brasil e Argentina. A estreia mundial aconteceu no Festival de Roterdã, onde o título conquistou o prêmio Fipresci “pela forma como mistura as esferas emocional e política sem ser excessivamente demonstrativo”. Passou ainda pelo Festival de Gramado e foi laureado em Washington e Havana.

Grace Passô (Temporada)
Grace é atriz, diretora e dramaturga de Minas Gerais. A primeira vez que a vi na tela grande foi em “Praça Paris”, de Lúcia Murat, que lhe rendeu o Troféu Redentor no Festival do Rio 2017. Fiquei hipnotizada pela ascensorista Gloria, naquela trama que expunha a relação entre duas mulheres e as tensões — em diversos níveis — entre elas. Mas foi conhecendo Juliana, sua protagonista em “Temporada”, de André Novais Oliveira, que me pareceu que a atriz estava cravando seu nome de vez na história do cinema brasileiro. Em uma entrevista ao Cinejornal, do Canal Brasil, ela revelou que com a turma da produtora Filmes de Plástico encontrou o que considerava difícil achar na sétima arte: papéis femininos fortes, complexos e interessantes. No coletivo teve espaço para construir junto, exercer sua potência criativa e foi assim que a personagem — uma agente de combate à dengue e suas questões cotidianas — conquistou público, crítica e a minha completa afeição. Pelo papel, recebeu os prêmios de melhor atriz no Festival de Brasília e no Festival de Turim, na Itália. Lembrando que Grace também integra o elenco de “No Coração do Mundo”, de Gabriel Martins e Maurílio Martins e é a narradora de “Enquanto Estamos Aqui”, de Clarissa Campolina e Luiz Pretti.

Marcélia Cartaxo (Pacarrete)
Marcélia é uma consagrada atriz paraibana. Em 1985, recebeu o Urso de Prata no Festival de Berlim por “A Hora da Estrela”, de Suzana Amaral. Atuou em diversos outros filmes como “Madame Satã” e “O Céu de Suely”, de Karim Aïnouz; “Baixio das Bestas” (2006) e “Big Jato”, de Claudio Assis; “A História da Eternidade”, de Camilo Cavalcante. Em “Pacarrete” interpreta a personagem homônima. O longa, baseado em uma história real, é ambientado em Russas, no interior do Ceará, e conta a história de uma mulher que sonhou a vida inteira com ser artista e bailarina, em uma cidade pequena e super conservadora. Era vista como louca, mas, na verdade, era revolucionária. O convite para fazer o papel surgiu em 2010, quando a atriz atuou e fez preparação de elenco do primeiro curta-metragem de Allan Deberton, “Doce de Coco”. Para viver a inesquecível Pacarrete — que em francês significa margarida —, Marcélia teve aulas de voz, canto e dança. Em diversas coletivas nos festivais por onde passou, contou que teve medo de ser caricata, de não encontrar o tom correto. Acredito que o receio tenha ido embora na sessão de estreia em Gramado em que ela foi ovacionada e depois ainda levou o Kikito para casa. Com a produção, Marcélia realizou a vontade de infância de fazer ballet e o desejo maduro de seguir tocando o coração das pessoas com seu trabalho. Tentei somar quantos prêmios ela conquistou, mas é bem fácil perder a conta.

Três atores, três filmes… com Ticiano Osório

Atual editor dos cadernos DOC, Vida e Viagem do jornal Zero Hora de Porto Alegre, Ticiano Osório é um colega jornalista cujo trabalho venho acompanhando há alguns anos. Por falar nisso, ainda tenho guardados recortes de jornais com críticas que li logo quando descobri a minha cinefilia e, entre elas, está uma de Ticiano para Em Busca da Terra do Nunca, publicada na estreia do filme no Brasil. Lembro, no entanto, que nosso primeiro contato foi, de fato, em 2011, quando ele, então integrante do Segundo Caderno no mesmo jornal, esteve na equipe que, através de um concurso cultural, me deu a honra de representar a publicação no júri popular do Festival de Cinema de Gramado. Logo em seguida, viramos colegas de Jornalismo. Além das vezes que nos comunicamos profissionalmente (eu como assessor de imprensa, ele na redação de ZH), tive a oportunidade de entrevistá-lo na rádio Mínima, conjugando duas de suas paixões: cinema e quadrinhos. Ao longo dos anos e dessas experiências, tornei-me um grande admirador do Ticiano e de sua sensibilidade e inteligência como crítico de cinema (vejam vocês próprios na coluna que hoje ele assina na Zero Hora). Por isso é uma imensa satisfação recebê-lo aqui na coluna, onde ele nos traz uma proposta inédita: a de homenagear três atores que seguem nos deixando muitas saudades. E que atores! Valeu, Ticiano!

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Decidi homenagear nesta seção três atores que morreram antes da hora — se é que existe hora para morrer. Mas as três mortes foram inesperadas, embora, em retrospecto, tivessem sido anunciadas. Os três partiram por conta própria, assombrados por fantasmas particulares, ainda que alguns fossem públicos e comuns a outras tantas pessoas, famosas ou não, talentosas ou não. Um era jovem, tinha uma imensa carreira pela frente. O outro não tinha nem 50 anos. E o terceiro, sessentão, já tinha um passado inteiro pelo qual se orgulhar. Os três deixaram atuações memoráveis e uma saudade tremenda.

Heath Ledger (1979-2008)
Quem viu o australiano como o rebelde com alma de 10 Coisas que Eu Odeio em Você (1999) sentiu que estava diante de uma energia diferente. Dali em diante, Heath Ledger galvanizaria a atenção sempre que surgisse em cena, fosse qual fosse o gênero e a despeito da qualidade do filme: do controverso O Patriota a Batman: O Cavaleiro das Trevas, que lhe valeu o Oscar póstumo de ator coadjuvante, do polêmico A Última Ceia a Candy, um título subestimado e certamente pouco visto. Aliás, agora me dei conta de como a tragédia e a autodestruição estavam sempre presentes nos papéis de Ledger, que morreu com apenas 28 anos. Difícil escolher um só desempenho, mas, para cumprir o pedido, fico com o de O Segredo de Brokeback Mountain, pelo qual concorreu ao Oscar de melhor ator. Seu Ennis del Mar é um personagem inesquecível, um trabalhador rural que engole suas palavras para tentar engolir junto seus sentimentos em relação ao caubói de rodeio Jack Twist. Ennis é um homem que se esconde dos outros e de si mesmo, mas, quando enfim está sozinho, permite-se um gesto delicado e doído como aquele afago na jaqueta jeans que Jack costumava usar. Arrepiante.

Philip Seymour Hoffman (1967-2014)
Você lembra dele em Perfume de Mulher (1992)? Eu lembro. Era uma ponta, como um personagem desprezível, mas de alguma forma cativante. Philip Seymour Hoffman encarnaria outros desses tipos, pessoas que nos provocavam asco ou pena, que transitavam entre o grotesco e o ridículo, em filmes poderosos como Boogie Nights, Felicidade, Magnólia, O Talentoso Ripley e A Família Savage. Acho que nunca fez um mocinho, e encarnou vilões em seus raros blockbusters — Missão: Impossível 3 e os dois últimos segmentos da franquia Jogos Vorazes (morreu antes de filmar suas últimas cenas, aos 46 anos). Concorreu ao Oscar de coadjuvante três vezes, por Jogos do Poder, Dúvida e O Mestre, e ganhou a estatueta de melhor ator por Capote. Mas o papel que escolhi é o de Antes que o Diabo Saiba que Você Está Morto, porque este filme é uma dessas pequenas joias que talvez não tenham o amplo reconhecimento merecido. O ator interpreta Andy, que convence o irmão, Hank (Ethan Hawke), a assaltar a joalheria do pai, Charles (Albert Finney), o que seria a solução de seus problemas financeiros e também a oportunidade de um acerto de contas afetivo com o velho. Neste filme engenhoso, com narrativa elíptica, Hoffman tem uma atuação magnífica como um sujeito que é um poço de inadequação e ressentimento, insegurança e ilusão.

Robin Williams (1951-2014)
Todo mundo tem seu Robin Williams favorito, embora não falte gente que torça o nariz para o ator morto aos 63 anos. Culpa, provavelmente, do seu jeitão histriônico, característica que o talhou para estrelar comédias como a deliciosa Uma Babá Quase Perfeita e emprestar sua voz a animações — seu Gênio da Lâmpada em Aladdin inclusive rendeu um Globo de Ouro especial. Mas muitos diretores perceberam que havia uma carga dramática muito interessante — não à toa, disputou o Oscar de melhor ator por Bom Dia, Vietnã, A Sociedade dos Poetas Mortos e O Pescador de Ilusões, e sua única estatueta, a de coadjuvante, veio por Gênio Indomável. Williams fez vários outros dramas pelos quais eu tenho carinho, como Tempo de Despertar e Amor Além da Vida, mas quero destacar um suspense em que ele esteve do outro lado do bem e especialmente contido — não, não é Insônia. Trata-se de Retratos de uma Obsessão, em que ele encarna Seymour Parrish, funcionário cinquentão do quiosque de revelações instantâneas de uma grande loja de departamentos. Solitário e opaco, o homem elege uma família feliz para ser a “sua”: faz uma cópia a mais de cada foto, para alimentar sua fantasia. Na pele de vilão, Williams derrubou o preconceito de que era vítima: a quem só o via como bufão e bonzinho, revelou uma faceta minimalista e macambúzia. Sem apelar para a histeria, perturbou.

Três atores, três filmes… com Reinaldo Glioche

Reinaldo Glioche é um dos queridos amigos cinéfilos que acompanho à distância há alguns anos. Hoje ele é editor de Cultura e Entretenimento do portal iG, mas nos esbarramos muito antes, mais especificamente quando ele ainda comandava o seu saudoso blog Claquete Cultural. Estreitamos nossos laços cinematográficos no Twitter, plataforma que Reinaldo, como o ótimo jornalista que é, sabe aproveitar tão bem. Dos blockbusters que faturam bilhões mundialmente às pérolas que precisam ser descobertas por todos os públicos, ele, assim como eu, é um grande entusiasta do círculo de premiações. Tanto seus textos no iG quanto a sua presença nas redes sociais são leitura indispensável para quem gosta de se manter informado sobre cinema com a devida dose de senso e crítico e ponderação. Sem mais delongas, deixo com vocês uma breve introdução que ele próprio preparou para a coluna e, claro, com as escolhas que ele defende com a propriedade que sempre lhe foi característica. Entre as três interpretações selecionadas, uma delas conquista o bicampeonato em quase 50 participações contabilizadas até aqui: Meryl Streep, mais uma vez citada com seu inesquecível desempenho em As Pontes de Madison, um dos melhores filmes de Clint Eastwood.

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Comecei a escrever sobre cinema com dez anos. A cinefilia foi algo que despontou em mim muito cedo e me ajudou a me formar como ser humano. Optei pelo jornalismo em detrimento da carreira no direito e mergulhei no sonho e desafio de atuar no jornalismo cultural e promover e viver o cinema da melhor maneira possível. Com o advento da blogsfera e a facilidade que a internet deu às pessoas de expressarem suas paixões e anseios, criei o blog Claquete Cultural, que me possibilitou conhecer pessoas maravilhosas que compartilhavam comigo do mesmo amor febril e impetuoso pelo cinema – ainda que com a maioria dessas pessoas a relação se dê apenas no campo virtual. O blog foi descontinuado em meados de 2014, quando eu já atuava como jornalista cultural no iG, onde entre outras atribuições editava a coluna Cineclube, idealizada para aprofundar a cobertura de cinema de um portal de notícias, mais inclinada a blockbusters por questões comerciais e práticas. Desde junho de 2016 sou editor de Cultura e Entretenimento do portal iG. Sou carioca, mas moro em São Paulo desde 1995 (ano do lançamento de um dos filmes que listo aqui).

Michael Fassbender (Shame)
De vez em quando acontece de um ator ter um ano especial com lançamentos engatilhados. Foi o caso do alemão naturalizado irlandês Michael Fassbender em 2011. Até então o ator era pouco conhecido do público, a despeito de já ter penetrado na epiderme da cinefilia com obras como “Fome” (2008) e “Bastardos Inglórios” (2009). Foram cinco filmes em 2011, sendo o mais famoso deles – e responsável pelo começo de sua popularização – “X-Men: Primeira Classe”, em que encarnava uma versão mais jovem e angustiada de Magneto, um dos personagens mais complexos oriundos das HQs. O romance de época “Jane Enyre”, o espetacular filme de ação de Steven Soderberg “A Toda Prova” e “Um Método Perigoso” de David Cronenberg, foram outros grandes filmes estrelados pelo ator naquele ano. É “Shame”, no entanto, o filme que o distingue. Se é justo dizer que a carreira do ator, mesmo com duas indicações ao Oscar que viriam por “12 Anos de Escravidão” e “Steve Jobs”, entrou em decadência depois do ápice que foi em 2011, é por causa de seu trabalho aqui, um dos mais impressionantes da década. A nudez completa pode ser um desafio para um ator, mas desnudar a alma de um personagem é muito mais estimulante – e complicado. Brandon, seu personagem, que é viciado em sexo, é pura dor. Um misto de tristeza e impulso em uma sonata desesperada que Fassbender tangencia com agudeza sem deixar de ser minimalista. Um equilíbrio tão raro que pode ser tido como imemorial.

Meryl Streep (As Pontes de Madison)
Eu tinha 12 anos quando “As Pontes de Madison” (1995) foi lançado e pouco mais de 14 quando o assisti. A cinefilia já estava embrenhada em mim desde muito cedo, mas este filme foi a porta de entrada para um dos maiores valores que existe no cinema: Meryl Streep. Sou fã confesso de Clint Eastwood como diretor, mas ali, aos 14 anos, não foi sua direção inequívoca, sensível e resoluta que me cativou, mas sim a densidade da atuação de Streep. Já tinha visto, claro, filmes com ela. Mas permaneciam inéditos alguns tesouros como “Kramer vs. Kramer”, “A Escolha de Sofia” e “Ironweed”. Sua Francesca é a afirmação de uma escolha dolorosamente romântica, um indício dos pesares da vida, das renúncias inerentes, de seus labirintos fortuitos, e é uma heroína que Streep habituou-se a fazer melhor do que ninguém. A filmografia da atriz nos anos 90, tirando duas comédias no alvorecer da década, se construiu sobre esse perfil maravilhosamente iluminado em “As Pontes de Madison”, decididamente um de meus Eastwoods favoritos e um drama romântico atemporal que tem na atuação de Streep não o único, mas o maior de seus virtuosismos.

Bradley Cooper (O Lado Bom da Vida)
Eu queria colocar Daniel Day Lewis por “Trama Fantasma” aqui, mas peço licença ao leitor para explicar esse plot twist na minha escolha. Day Lewis é um gênio e creio haver pouca ou quase nenhuma dissonância quanto a isso. É um ator magnético, metódico que mesmeriza não só a mim, mas a todos os leitores desse espaço a cada novo trabalho. E aí tem Bradley Cooper. Um cara que parecia destinado a comédias bobas lá atrás com “Penetras Bons de Bico” (2005) e “Sim Senhor” (2008) e que virou astro com o surpreendente (e bom, sim!) “Se Beber, Não Case!” (2009), mas que fez a opção por virar ator de verdade (o que é louvável, mas nem sempre possível dentro das engrenagens de Hollywood). “O Lado Bom da Vida” é o sensacional ponto de partida dessa trajetória que ostenta sete indicações ao Oscar nesta década, quatro como ator, sendo três delas seguidas – algo só conquistado por Russell Crowe e Spencer Tracy. Não é um dado desprezível. Cooper também está aqui porque defende uma atuação que conjuga drama e comédia com rara beleza e muita intuitividade. É um trabalho de muitas camadas e que a percepção que se tinha dele à época nublou. À luz de sua realização artística com “Nasce Uma Estrela” esse julgamento pode ser mais bem composto. Em “O Lado Bom da Vida”, ele vive Pat, um cara com transtorno obsessivo compulsivo que quer colocar sua vida em ordem e cisma de reconquistar uma mulher que não o quer mais e acaba se apaixonando pela pessoa errada na hora certa. Ou seria a pessoa certa na hora errada? Cooper dá graciosidade, urgência e fidedignidade a esse homem e ao retrato de uma desordem mental que acomete a tantos nesses tempos de relações líquidas.

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