Cinema e Argumento

Três atores, três filmes… com Ronaldo Trancoso Jr.

Trocar ideias com pessoas apaixonadas por cinema sempre foi um dos meus prazeres favoritos nesse ofício de escrever sobre filmes na internet. Raras são as vezes, no entanto, que a gente se depara com colegas cinéfilos tão ponderados, democráticos e com um alto nível de conhecimento como o Ronaldo Trancoso Jr., criador do blog Cinematic Tips e colaborador dos blogs Trash to Tarkovsky e You! Me! Dancing. Destaco essas qualidades no Ronaldo pois admiro a forma como ele se utiliza do seu próprio conhecimento para propôr novos olhares, questionar o que está aí pré-estabelecido e estimular o público a ser o mais plural possível na busca por novos filmes. Aliás, basta vocês também acompanharem o Twitter do Ronaldo para saber do que eu estou falando. Garanto que, muito mais do que se informar sobre tudo o que está rolando no cinema e também nas temporadas de premiações, vocês encontrarão opiniões bem posicionadas e que fogem do lugar-comum. Não por acaso, as escolhas dele para a coluna não poderiam fugir disso. Do Brasil à China, temos três mulheres maravilhosas selecionadas por desempenhos que indiscutivelmente marcam as suas respectivas carreiras. Valeu, Ronaldo!

Marcélia Cartaxo (A Hora da Estrela)
Com muita sutileza, Marcélia Cartaxo deu vida a uma das personagens mais arrebatadoras da nossa literatura. Na adaptação do livro de Clarice Lispector, Cartaxo nos faz lembrar que todos já tivemos uma Macabéa dentro de nós em algum momento. A delicadeza da atriz nos cativa do início ao fim, revelando toda a profundidade da personagem em olhares que ficam para sempre na memória. Curiosamente, Cartaxo conseguiu o mesmo efeito no recente Pacarrete, mais uma prova de sua facilidade para mesclar drama com leveza.

Michelle Pfeiffer (Batman: O Retorno)
A atuação de Michelle Pfeiffer em Batman: O Retorno sempre me fascinou, não só por sua presença física inesquecível, mas também pela complexidade da performance. A entrega total da atriz faz da personagem uma figura trágica e multifacetada, sem nunca deixar de mostrar sua vulnerabilidade, até nos momentos em que precisa intimidar outras pessoas. Antagonistas assim, cheios de nuances, sempre foram uma raridade em blockbusters, geralmente povoados por vilões unidimensionais. Selina Kyle é uma pessoa que, mesmo tomando as rédeas do próprio destino, continua marcada por traumas e conflitos internos, que se refletem em cada fala e gesto de Pfeiffer. O desempenho da atriz é tão fantástico que fica difícil escolher sua cena mais icônica.

Tao Zhao (As Montanhas se Separam)
Quando assisti a As Montanhas se Separam, estava numa das piores fases da minha vida. Eis que dei uma chance a este filme de Jia Zhangke e senti novamente o poder transformador do cinema. A atuação fenomenal de Tao Zhao foi fundamental para isso. A cada bola curva lançada sobre a personagem, a atriz carrega um mundo de emoções em seu semblante, mostrando uma evolução constante até o desfecho catártico do filme, que coroa Zhao como uma das melhores atrizes de sua geração.

Três atores, três filmes… com Vera Fischer

Com mais de 40 anos de carreira, Vera Fischer já ultrapassou a marca de 30 participações em novelas e seriados. No meu imaginário de ex-noveleiro, ela mora, claro, como a protagonista Helena de Laços de Família, novela do ano 2000 que, escrita por Manoel Carlos, chegou a registrar o maior índice de audiência do Canal Viva quando foi reprisada em 2016. Vera também fez filmes — mais de 20 — e sempre foi uma cinéfila de carteirinha. Recentemente, passou a compartilhar suas aventuras cinematográficas no Instagram. De grandes clássicos a sucessos modernos, ela também registra por lá os seus comentários sobre premiações como o Globo de Ouro e o Oscar (aliás, Rede Globo, já fica registrada aqui a dica para que a Vera comente a transmissão do ano que vem!). Sou grande fã da completa espontaneidade e autenticidade com que Vera produz suas postagens. Mais ainda da frequência com que ela assiste diferentes filmes para, logo em seguida, recomendar aos seus seguidores. Convidada a elencar três interpretações do cinema que lhe marcaram, Vera selecionou para a nossa coluna dois desempenhos agraciados com o Oscar e um eternizado pelo tempo. Os três primeiros comentários abaixo foram enviados por ela especialmente para o blog. Já os demais foram publicados recentemente no Instagram da Vera, onde ela também comenta especificamente sobre desempenhos de seus colegas de profissão. Tão importantes quanto os críticos não são os espectadores assíduos? Que privilégio tê-la por aqui!

Holly Hunter (O Piano)
No filme de Jane Campion, ela faz uma mulher muda que fala por sinais e que ama o seu piano mais do que tudo na vida, a ponto do piano falar por ela. Com um desempenho tão forte, tão maduro, e ao mesmo tempo tão surreal, ela me tocou profundamente.

Liza Minelli (Cabaret)
Ela estava maravilhosa nesse filme dirigido pelo coreógrafo Bob Fosse! A sua Sally Bowles, uma sonhadora americana, que canta e dança no Cabaret KitKat, em Berlim, durante a ascensão do nazismo, é digna dos maiores elogios. Ela criou, através da maquiagem e das roupas, uma personagem meio clown, uma figura patética no meio daquele ambiente decadente. Adorei como Liza conseguiu me emocionar, a cada cena, seja dançando, cantando ou apenas em silêncio, no close.

Jack Nicholson (O Iluminado)
O primeiro épico de terror que ficou amedrontador não apenas por ser uma historia de Stephen King dirigida por Kubrick, mas também pelo horror, loucura e insanidade que o ator vai revelando ao longo do filme. É impossível ficar impassível! É um grande trabalho de Nicholson e dá mesmo muito medo.

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Rita Hayworth (Gilda)
A lendária Rita Hayworth, dama da Columbia Pictures, brilha neste filme de 1946, dirigido por Charles Vidor. Com muita sensualidade e magnetismo, ela canta “Put the Blame on Mame”, num cassino ilegal em uma cidade da América Latina; é uma história cheia de reviravoltas. Gilda, mulher infiel, sedutora, ciumenta, vingativa, intimidadora e… maravilhosa. Dizem que, nunca houve uma mulher como Gilda!

Forest Whitaker (O Último Rei da Escócia)
Encantador. Fascinante. Assassino. É assim o filme O Último Rei da Escócia, com o vencedor do Oscar e do Globo de Ouro de 2007, Forest Whitaker. No papel de Idi Amin Dada, o ditador se Uganda, Forest nos brinda com uma das melhores interpretações da história do cinema moderno. Esta é a incrível história de Amin, vista através dos olhos de Nicholas Garrigan (James McAvoy, também excelente!), um jovem escocês que foi médico pessoal do instável líder, em parte devido à inesperada paixão de Amin pela cultura escocesa. Amin até se autoproclamou “O Último Rei da Escócia”. Seduzido pelo carisma de Amin e cegado pela decadência, a vida dos sonhos de Garrigan torna-se um pesadelo de traição e loucura, da qual não há fuga. Inspirado em pessoas e acontecimentos reais, esta história de grande impacto e cheia de suspense é repleta de interpretações inesquecíveis. Forest Whitaker me inspira sempre. É tão bom ator que você é fisgado no primeiro instante. Esse é um filmaço. Daqueles que, sempre que você o vê, nunca mais vai ser a mesma pessoa.

Audrey Hepburn (Bonequinha de Luxo)
Quem ainda não viu Bonequinha de Luxo, esta comédia com Audrey Hepburn, que brilha como diamante? Claro que todos já viram! Mas nunca é demais. Desde os acordes de abertura da inesquecível canção “Moon River”, de Henry Mancini e Johnny Mercer (vencedora do Oscar), todos ficam sob o encanto desta maluquinha garota de Nova York, conhecida como Holly Golightly (Audrey), nesta história baseada no best-seller de Truman Capote. George Peppard é um jovem e esforçado escritor que conhece Holly e é arrebatado para o seu intrigante e delicioso estilo de vida, mas Holly quer apenas encontrar um milionário para casar-se. Grande clássico do diretor Blake Edwards. Eu adoro, particularmente, as cenas em que ela está vestindo um Givenchy preto, diante da Tiffany’s, comendo um sanduíche ao amanhecer, admirando os diamantes, e, o momento em que, ao lado de Peppard, sentada na janela, ela canta “Moon River”. Audrey forever.

Três atores, três filmes… com Daniel Feix

A coluna “Três atores, três filmes” foi inaugurada em abril de 2013 para trazer ao blog queridos amigos comentando interpretações que consideram marcantes no cinema. Passados sete anos, chego agora ao convidado número 50 com o imenso orgulho de, ao longo dessa trajetória, ter também incorporado ao espaço colegas do jornalismo, profissionais do cinema e até mesmo atrizes e cineastas de quem sempre fui muito fã. Para marcar a 50ª edição da coluna, trago a participação do jornalista gaúcho Daniel Feix. Mestre em comunicação, crítico de cinema, editor dos suplementos de fim de semana do jornal Zero Hora e atual presidente da Associação de Críticos de Cinema do Rio Grande do Sul (ACCIRS), Daniel é jornalista cultural desde 2000 e tem artigos publicados na série “Os 100 melhores”, da Associação Brasileira dos Críticos de Cinema (Abraccine), em “Bernardet 80” (Paco Editorial) e “Cem autores que você precisa ler” (L&PM), entre outros livros, além de ser autor da biografia “Teixeirinha – Coração do Brasil”. Lembro de, ainda na faculdade, tê-lo entrevistado sobre, claro, crítica de cinema. Anos depois, nos tornamos colegas de jornalismo. Hoje, tenho a grande satisfação de estar junto ao Daniel na ACCIRS — aliás, foi durante sua bela gestão como presidente que recebi o convite para integrar o time de críticos dessa importante associação. Cumprindo o desafio proposto pela coluna, ele selecionou desempenhos que engrandecem três filmes assinados por cineastas icônicos: Ingmar Bergman, Jean-Luc Godard e Wong Kar-Wai. Obrigado pela participação, Daniel!

Tony Leung (Amor à Flor da Pele)
Entre os muitos bons filmes que têm como tema a impossibilidade da realização amorosa, Amor à Flor da Pele talvez seja um dos mais exasperadores – daí o sentido de suas cores quentes, sua trilha pop potente, o uso de recursos como a câmera lenta e os planos claustrofóbicos, tudo a ressaltar a dramaticidade da jornada de Chow (papel de Leung) e sua vizinha Chan (Maggie Cheung). O protagonista, no entanto, carrega uma misteriosa sobriedade, que o ator que o interpreta, sob a direção segura de Kar Wai (em sua melhor fase), usa como recurso para intrigar e mesmo seduzir o espectador. Seu desespero não aparece. Existe? No fundo, a inevitabilidade do sofrimento como que o anestesia, mas sem tirar dele o desejo, muito pelo contrário. Esse balanço que dá complexidade à composição do personagem encontrou em Tony Leung um intérprete à altura, tão capaz de comunicar sentimentos distintos, ora aparentemente opostos, que se tornou icônico quando o assunto é o amor irrealizável.

Max Von Sydow (A Paixão de Ana)
Von Sydow era alto, tinha um rosto com formato e traços muito marcantes e um olhar profundo, ressaltado por uma força expressiva rara. Mas o que o fez um ator realmente gigante foi a delicadeza. Nos filmes de Bergman (eles fizeram 10 longas-metragens juntos), invariavelmente encarnava um sujeito oprimido pelas angústias da existência, apequenado por descobrir-se insignificante diante dos desígnios de Deus. Não é preciso ter fé para partilhar desse tormento: a magnitude da vida está na sua imaterialidade; associá-la à religiosidade foi um subterfúgio bergmaniano, coerente com as inquietações pessoais do cineasta. Bergman foi um dos maiores, se não o maior dos cineastas. E ninguém encarnou com tanta propriedade suas aflições quanto Von Sydow – por conta de sua delicada expressividade. Eu poderia ter escolhido A Hora do Lobo (1967), em que a proximidade da loucura faz sua interpretação pender para um registro menos naturalista e mais impressionante, mas opto por A Paixão de Ana porque esse me parece ser o filme do completo esvaziamento – desacelerado, doloroso, inescapável – de sua alma atormentada, culminando, na histórica sequência final, com a decomposição (visual, inclusive) de sua figura.

Anna Karina (Viver a Vida)
Logo no segundo dos 12 capítulos desse pequeno grande filme, Anna Karina vai ao cinema para ver A Paixão de Joana d’Arc (de Carl T. Dreyer, 1928). Godard, que a filma com paixão, devoção, precisa de apenas um corte para estabelecer um paralelo entre a atuação histórica de Renée Falconetti e a de sua heroína sensibilizada – e, ali já vai ficando evidente, de alma nua diante da hostilidade do mundo lá fora. O filme dentro do filme mostra um diálogo apresentado em planos e contraplanos fechados de Joana d’Arc com o personagem de Antonin Artaud, deixando o espectador à expectativa de que, saindo do rosto dele, a imagem mostrará o dela – só que Godard surpreende e insere o rosto de Nana (a personagem de Anna Karina), como se fosse com ela que Artaud estivesse se comunicando. Seus traços delicados deixam a expressão ainda mais comovente, ressaltada por uma fotografia que faz brilhar as lágrimas escorrendo pelo rosto. Nem sempre valorizada como merece, a grande atuação da musa de Godard se dá pela capacidade de comunicar, ao mesmo tempo, descobertas e decepções, crescimento e abatimento, a maturidade e a aflição pelo que esta impõe.

Três atores, três filmes… com Maria Clara Senra

Formada em jornalismo pela UFRJ e pós-graduada em jornalismo cultural pela UERJ, Maria Clara Senra trabalha como repórter e editora no Canal Brasil, cobrindo festivais, pré-estreias, bastidores e participando de transmissões ao vivo direto dos maiores eventos cinematográficos do país. Nossos caminhos se cruzaram no Festival de Cinema de Gramado, onde, vocês podem perceber, conheci tantos dos queridos convidados dessa coluna. Por toda bagagem profissional da Maria Clara e também pelos anos em que convivemos profissionalmente em pequenas temporadas cinematográficas na serra gaúcha, fiquei curiosíssimo em saber quais seriam as escolhas que ela faria após aceitar esse convite. E me apaixonei pela lista: o trio de mulheres selecionado para a coluna representa, sem dúvida alguma, todo o poder e a pluralidade das atrizes brasileiras, aqui representadas por intérpretes grandiosas, em papeis marcantes. Por fim, para quem mora no Rio de Janeiro, fica a dica: desde julho de 2019 a Maria Clara conduz, ao lado de duas amigas, o Cine Dádiva (@cinedadiva), cineclube que acontece um domingo por mês em uma casa em Ipanema acompanhado de uma aula com uma diretora sobre algum aspecto específico da construção do filme exibido e uma festinha pensada especialmente para cada evento. Todo lucro obtido com o valor dos ingressos é revertido para projetos de capacitação de mulheres. Uma prévia de toda a expertise que ela compartilha nesse projeto já pode, de certa forma, ser conferida aqui na coluna. Gracias, Maria Clara!

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Quando Matheus me convidou para participar da seção “três atores, três filmes”, fiquei muito alegre, mas soube que teria que encarar minha relação de amor e ódio com listas. Adoro organizar informações, encontrar ordem, mas acho dificílima a tarefa de rankear ou enumerar o que quer que seja, pelo desconforto gerado por todas as exclusões.  Como trabalho direta e diariamente com cinema nacional, decidi que escreveria sobre filmes e profissionais brasileiros. Defini também que selecionaria atuações femininas, já que tantas me chamaram atenção ao longo dos anos.

Pensei primeiro nas personagens que marcaram não só a mim, como a todos que conhecem a nossa cinematografia: a Dora de Fernanda Montenegro; a Xica da Silva de Zezé Motta; a Sueli de Marília Pêra e tantas outras. Mas elas já estão gravadas nas nossas memórias e, definitivamente, presentes em muitas listas. Por fim, escolhi intérpretes de três longas-metragens bastante recentes — um lançado em 2018, outro em 2019 e um ainda inédito no circuito comercial. Olhares autorais em produções novas que eu gostaria que fossem vistas por muita gente.

Magali Biff (Pela Janela)
Magali Biff é paulistana e um grande nome do teatro no Brasil. Atuou no longa “Jogo das Decapitações”, de Sérgio Bianchi, mas seus trabalhos de destaque no cinema são “Deserto”, de Guilherme Weber, “Açúcar”, de Sergio Oliveira e Renata Pinheiro, e “Pela Janela”, de Caroline Leone, no qual interpretou sua primeira protagonista. No enredo, Biff vive Rosália, uma operária de uma pequena fábrica de reatores em São Paulo. Ela dedica a vida ao serviço, mas é demitida de repente. Sem o trabalho, fica perdida e é consolada pelo irmão José, que resolve levá-la junto com ele em uma viagem de carro até Buenos Aires. No road movie com pouquíssimos diálogos, tudo na personagem fala: olhos, gestos, postura corporal. Não há eloquência, mas muito sentimento. Vivemos com Rosália uma jornada íntima de descobertas e reinvenção. E como é importante ver um roteiro nada óbvio e tão interessante sobre uma mulher de 65 anos. O filme é uma coprodução entre Brasil e Argentina. A estreia mundial aconteceu no Festival de Roterdã, onde o título conquistou o prêmio Fipresci “pela forma como mistura as esferas emocional e política sem ser excessivamente demonstrativo”. Passou ainda pelo Festival de Gramado e foi laureado em Washington e Havana.

Grace Passô (Temporada)
Grace é atriz, diretora e dramaturga de Minas Gerais. A primeira vez que a vi na tela grande foi em “Praça Paris”, de Lúcia Murat, que lhe rendeu o Troféu Redentor no Festival do Rio 2017. Fiquei hipnotizada pela ascensorista Gloria, naquela trama que expunha a relação entre duas mulheres e as tensões — em diversos níveis — entre elas. Mas foi conhecendo Juliana, sua protagonista em “Temporada”, de André Novais Oliveira, que me pareceu que a atriz estava cravando seu nome de vez na história do cinema brasileiro. Em uma entrevista ao Cinejornal, do Canal Brasil, ela revelou que com a turma da produtora Filmes de Plástico encontrou o que considerava difícil achar na sétima arte: papéis femininos fortes, complexos e interessantes. No coletivo teve espaço para construir junto, exercer sua potência criativa e foi assim que a personagem — uma agente de combate à dengue e suas questões cotidianas — conquistou público, crítica e a minha completa afeição. Pelo papel, recebeu os prêmios de melhor atriz no Festival de Brasília e no Festival de Turim, na Itália. Lembrando que Grace também integra o elenco de “No Coração do Mundo”, de Gabriel Martins e Maurílio Martins e é a narradora de “Enquanto Estamos Aqui”, de Clarissa Campolina e Luiz Pretti.

Marcélia Cartaxo (Pacarrete)
Marcélia é uma consagrada atriz paraibana. Em 1985, recebeu o Urso de Prata no Festival de Berlim por “A Hora da Estrela”, de Suzana Amaral. Atuou em diversos outros filmes como “Madame Satã” e “O Céu de Suely”, de Karim Aïnouz; “Baixio das Bestas” (2006) e “Big Jato”, de Claudio Assis; “A História da Eternidade”, de Camilo Cavalcante. Em “Pacarrete” interpreta a personagem homônima. O longa, baseado em uma história real, é ambientado em Russas, no interior do Ceará, e conta a história de uma mulher que sonhou a vida inteira com ser artista e bailarina, em uma cidade pequena e super conservadora. Era vista como louca, mas, na verdade, era revolucionária. O convite para fazer o papel surgiu em 2010, quando a atriz atuou e fez preparação de elenco do primeiro curta-metragem de Allan Deberton, “Doce de Coco”. Para viver a inesquecível Pacarrete — que em francês significa margarida —, Marcélia teve aulas de voz, canto e dança. Em diversas coletivas nos festivais por onde passou, contou que teve medo de ser caricata, de não encontrar o tom correto. Acredito que o receio tenha ido embora na sessão de estreia em Gramado em que ela foi ovacionada e depois ainda levou o Kikito para casa. Com a produção, Marcélia realizou a vontade de infância de fazer ballet e o desejo maduro de seguir tocando o coração das pessoas com seu trabalho. Tentei somar quantos prêmios ela conquistou, mas é bem fácil perder a conta.

Três atores, três filmes… com Ticiano Osório

Atual editor dos cadernos DOC, Vida e Viagem do jornal Zero Hora de Porto Alegre, Ticiano Osório é um colega jornalista cujo trabalho venho acompanhando há alguns anos. Por falar nisso, ainda tenho guardados recortes de jornais com críticas que li logo quando descobri a minha cinefilia e, entre elas, está uma de Ticiano para Em Busca da Terra do Nunca, publicada na estreia do filme no Brasil. Lembro, no entanto, que nosso primeiro contato foi, de fato, em 2011, quando ele, então integrante do Segundo Caderno no mesmo jornal, esteve na equipe que, através de um concurso cultural, me deu a honra de representar a publicação no júri popular do Festival de Cinema de Gramado. Logo em seguida, viramos colegas de Jornalismo. Além das vezes que nos comunicamos profissionalmente (eu como assessor de imprensa, ele na redação de ZH), tive a oportunidade de entrevistá-lo na rádio Mínima, conjugando duas de suas paixões: cinema e quadrinhos. Ao longo dos anos e dessas experiências, tornei-me um grande admirador do Ticiano e de sua sensibilidade e inteligência como crítico de cinema (vejam vocês próprios na coluna que hoje ele assina na Zero Hora). Por isso é uma imensa satisfação recebê-lo aqui na coluna, onde ele nos traz uma proposta inédita: a de homenagear três atores que seguem nos deixando muitas saudades. E que atores! Valeu, Ticiano!

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Decidi homenagear nesta seção três atores que morreram antes da hora — se é que existe hora para morrer. Mas as três mortes foram inesperadas, embora, em retrospecto, tivessem sido anunciadas. Os três partiram por conta própria, assombrados por fantasmas particulares, ainda que alguns fossem públicos e comuns a outras tantas pessoas, famosas ou não, talentosas ou não. Um era jovem, tinha uma imensa carreira pela frente. O outro não tinha nem 50 anos. E o terceiro, sessentão, já tinha um passado inteiro pelo qual se orgulhar. Os três deixaram atuações memoráveis e uma saudade tremenda.

Heath Ledger (1979-2008)
Quem viu o australiano como o rebelde com alma de 10 Coisas que Eu Odeio em Você (1999) sentiu que estava diante de uma energia diferente. Dali em diante, Heath Ledger galvanizaria a atenção sempre que surgisse em cena, fosse qual fosse o gênero e a despeito da qualidade do filme: do controverso O Patriota a Batman: O Cavaleiro das Trevas, que lhe valeu o Oscar póstumo de ator coadjuvante, do polêmico A Última Ceia a Candy, um título subestimado e certamente pouco visto. Aliás, agora me dei conta de como a tragédia e a autodestruição estavam sempre presentes nos papéis de Ledger, que morreu com apenas 28 anos. Difícil escolher um só desempenho, mas, para cumprir o pedido, fico com o de O Segredo de Brokeback Mountain, pelo qual concorreu ao Oscar de melhor ator. Seu Ennis del Mar é um personagem inesquecível, um trabalhador rural que engole suas palavras para tentar engolir junto seus sentimentos em relação ao caubói de rodeio Jack Twist. Ennis é um homem que se esconde dos outros e de si mesmo, mas, quando enfim está sozinho, permite-se um gesto delicado e doído como aquele afago na jaqueta jeans que Jack costumava usar. Arrepiante.

Philip Seymour Hoffman (1967-2014)
Você lembra dele em Perfume de Mulher (1992)? Eu lembro. Era uma ponta, como um personagem desprezível, mas de alguma forma cativante. Philip Seymour Hoffman encarnaria outros desses tipos, pessoas que nos provocavam asco ou pena, que transitavam entre o grotesco e o ridículo, em filmes poderosos como Boogie Nights, Felicidade, Magnólia, O Talentoso Ripley e A Família Savage. Acho que nunca fez um mocinho, e encarnou vilões em seus raros blockbusters — Missão: Impossível 3 e os dois últimos segmentos da franquia Jogos Vorazes (morreu antes de filmar suas últimas cenas, aos 46 anos). Concorreu ao Oscar de coadjuvante três vezes, por Jogos do Poder, Dúvida e O Mestre, e ganhou a estatueta de melhor ator por Capote. Mas o papel que escolhi é o de Antes que o Diabo Saiba que Você Está Morto, porque este filme é uma dessas pequenas joias que talvez não tenham o amplo reconhecimento merecido. O ator interpreta Andy, que convence o irmão, Hank (Ethan Hawke), a assaltar a joalheria do pai, Charles (Albert Finney), o que seria a solução de seus problemas financeiros e também a oportunidade de um acerto de contas afetivo com o velho. Neste filme engenhoso, com narrativa elíptica, Hoffman tem uma atuação magnífica como um sujeito que é um poço de inadequação e ressentimento, insegurança e ilusão.

Robin Williams (1951-2014)
Todo mundo tem seu Robin Williams favorito, embora não falte gente que torça o nariz para o ator morto aos 63 anos. Culpa, provavelmente, do seu jeitão histriônico, característica que o talhou para estrelar comédias como a deliciosa Uma Babá Quase Perfeita e emprestar sua voz a animações — seu Gênio da Lâmpada em Aladdin inclusive rendeu um Globo de Ouro especial. Mas muitos diretores perceberam que havia uma carga dramática muito interessante — não à toa, disputou o Oscar de melhor ator por Bom Dia, Vietnã, A Sociedade dos Poetas Mortos e O Pescador de Ilusões, e sua única estatueta, a de coadjuvante, veio por Gênio Indomável. Williams fez vários outros dramas pelos quais eu tenho carinho, como Tempo de Despertar e Amor Além da Vida, mas quero destacar um suspense em que ele esteve do outro lado do bem e especialmente contido — não, não é Insônia. Trata-se de Retratos de uma Obsessão, em que ele encarna Seymour Parrish, funcionário cinquentão do quiosque de revelações instantâneas de uma grande loja de departamentos. Solitário e opaco, o homem elege uma família feliz para ser a “sua”: faz uma cópia a mais de cada foto, para alimentar sua fantasia. Na pele de vilão, Williams derrubou o preconceito de que era vítima: a quem só o via como bufão e bonzinho, revelou uma faceta minimalista e macambúzia. Sem apelar para a histeria, perturbou.

Três atores, três filmes… com Reinaldo Glioche

Reinaldo Glioche é um dos queridos amigos cinéfilos que acompanho à distância há alguns anos. Hoje ele é editor de Cultura e Entretenimento do portal iG, mas nos esbarramos muito antes, mais especificamente quando ele ainda comandava o seu saudoso blog Claquete Cultural. Estreitamos nossos laços cinematográficos no Twitter, plataforma que Reinaldo, como o ótimo jornalista que é, sabe aproveitar tão bem. Dos blockbusters que faturam bilhões mundialmente às pérolas que precisam ser descobertas por todos os públicos, ele, assim como eu, é um grande entusiasta do círculo de premiações. Tanto seus textos no iG quanto a sua presença nas redes sociais são leitura indispensável para quem gosta de se manter informado sobre cinema com a devida dose de senso e crítico e ponderação. Sem mais delongas, deixo com vocês uma breve introdução que ele próprio preparou para a coluna e, claro, com as escolhas que ele defende com a propriedade que sempre lhe foi característica. Entre as três interpretações selecionadas, uma delas conquista o bicampeonato em quase 50 participações contabilizadas até aqui: Meryl Streep, mais uma vez citada com seu inesquecível desempenho em As Pontes de Madison, um dos melhores filmes de Clint Eastwood.

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Comecei a escrever sobre cinema com dez anos. A cinefilia foi algo que despontou em mim muito cedo e me ajudou a me formar como ser humano. Optei pelo jornalismo em detrimento da carreira no direito e mergulhei no sonho e desafio de atuar no jornalismo cultural e promover e viver o cinema da melhor maneira possível. Com o advento da blogsfera e a facilidade que a internet deu às pessoas de expressarem suas paixões e anseios, criei o blog Claquete Cultural, que me possibilitou conhecer pessoas maravilhosas que compartilhavam comigo do mesmo amor febril e impetuoso pelo cinema – ainda que com a maioria dessas pessoas a relação se dê apenas no campo virtual. O blog foi descontinuado em meados de 2014, quando eu já atuava como jornalista cultural no iG, onde entre outras atribuições editava a coluna Cineclube, idealizada para aprofundar a cobertura de cinema de um portal de notícias, mais inclinada a blockbusters por questões comerciais e práticas. Desde junho de 2016 sou editor de Cultura e Entretenimento do portal iG. Sou carioca, mas moro em São Paulo desde 1995 (ano do lançamento de um dos filmes que listo aqui).

Michael Fassbender (Shame)
De vez em quando acontece de um ator ter um ano especial com lançamentos engatilhados. Foi o caso do alemão naturalizado irlandês Michael Fassbender em 2011. Até então o ator era pouco conhecido do público, a despeito de já ter penetrado na epiderme da cinefilia com obras como “Fome” (2008) e “Bastardos Inglórios” (2009). Foram cinco filmes em 2011, sendo o mais famoso deles – e responsável pelo começo de sua popularização – “X-Men: Primeira Classe”, em que encarnava uma versão mais jovem e angustiada de Magneto, um dos personagens mais complexos oriundos das HQs. O romance de época “Jane Enyre”, o espetacular filme de ação de Steven Soderberg “A Toda Prova” e “Um Método Perigoso” de David Cronenberg, foram outros grandes filmes estrelados pelo ator naquele ano. É “Shame”, no entanto, o filme que o distingue. Se é justo dizer que a carreira do ator, mesmo com duas indicações ao Oscar que viriam por “12 Anos de Escravidão” e “Steve Jobs”, entrou em decadência depois do ápice que foi em 2011, é por causa de seu trabalho aqui, um dos mais impressionantes da década. A nudez completa pode ser um desafio para um ator, mas desnudar a alma de um personagem é muito mais estimulante – e complicado. Brandon, seu personagem, que é viciado em sexo, é pura dor. Um misto de tristeza e impulso em uma sonata desesperada que Fassbender tangencia com agudeza sem deixar de ser minimalista. Um equilíbrio tão raro que pode ser tido como imemorial.

Meryl Streep (As Pontes de Madison)
Eu tinha 12 anos quando “As Pontes de Madison” (1995) foi lançado e pouco mais de 14 quando o assisti. A cinefilia já estava embrenhada em mim desde muito cedo, mas este filme foi a porta de entrada para um dos maiores valores que existe no cinema: Meryl Streep. Sou fã confesso de Clint Eastwood como diretor, mas ali, aos 14 anos, não foi sua direção inequívoca, sensível e resoluta que me cativou, mas sim a densidade da atuação de Streep. Já tinha visto, claro, filmes com ela. Mas permaneciam inéditos alguns tesouros como “Kramer vs. Kramer”, “A Escolha de Sofia” e “Ironweed”. Sua Francesca é a afirmação de uma escolha dolorosamente romântica, um indício dos pesares da vida, das renúncias inerentes, de seus labirintos fortuitos, e é uma heroína que Streep habituou-se a fazer melhor do que ninguém. A filmografia da atriz nos anos 90, tirando duas comédias no alvorecer da década, se construiu sobre esse perfil maravilhosamente iluminado em “As Pontes de Madison”, decididamente um de meus Eastwoods favoritos e um drama romântico atemporal que tem na atuação de Streep não o único, mas o maior de seus virtuosismos.

Bradley Cooper (O Lado Bom da Vida)
Eu queria colocar Daniel Day Lewis por “Trama Fantasma” aqui, mas peço licença ao leitor para explicar esse plot twist na minha escolha. Day Lewis é um gênio e creio haver pouca ou quase nenhuma dissonância quanto a isso. É um ator magnético, metódico que mesmeriza não só a mim, mas a todos os leitores desse espaço a cada novo trabalho. E aí tem Bradley Cooper. Um cara que parecia destinado a comédias bobas lá atrás com “Penetras Bons de Bico” (2005) e “Sim Senhor” (2008) e que virou astro com o surpreendente (e bom, sim!) “Se Beber, Não Case!” (2009), mas que fez a opção por virar ator de verdade (o que é louvável, mas nem sempre possível dentro das engrenagens de Hollywood). “O Lado Bom da Vida” é o sensacional ponto de partida dessa trajetória que ostenta sete indicações ao Oscar nesta década, quatro como ator, sendo três delas seguidas – algo só conquistado por Russell Crowe e Spencer Tracy. Não é um dado desprezível. Cooper também está aqui porque defende uma atuação que conjuga drama e comédia com rara beleza e muita intuitividade. É um trabalho de muitas camadas e que a percepção que se tinha dele à época nublou. À luz de sua realização artística com “Nasce Uma Estrela” esse julgamento pode ser mais bem composto. Em “O Lado Bom da Vida”, ele vive Pat, um cara com transtorno obsessivo compulsivo que quer colocar sua vida em ordem e cisma de reconquistar uma mulher que não o quer mais e acaba se apaixonando pela pessoa errada na hora certa. Ou seria a pessoa certa na hora errada? Cooper dá graciosidade, urgência e fidedignidade a esse homem e ao retrato de uma desordem mental que acomete a tantos nesses tempos de relações líquidas.

Três atores, três filmes… com Fatimarlei Lunardelli

Foto: Taiane Lunardelli

Em dezembro do ano passado, quando completei 11 anos ininterruptos de atividades com o Cinema e Argumento, recebi, com muita honra, o convite para integrar a Associação de Críticos de Cinema do Rio Grande do Sul – ACCIRS. Quem me fez esse convite foi a queridíssima jornalista Fatimarlei Lunardelli, atual vice-presidente da associação e que agora recebo aqui na coluna Três atores, três filmes. A entrada na ACCIRS foi uma honra dupla porque, fora a alegria de ter meu trabalho vinculado a essa respeitada entidade, o convite veio especificamente da Fatimarlei, uma grande profissional com vasta atuação no campo da crítica de cinema. Jornalista pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul, mestre em Artes e doutora em Ciências da Comunicação pela Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo, a Fati é professora de História do Cinema Internacional no Curso de Realização Audiovisual da Unisinos. Também é autora de livros e artigos sobre cinema, e tem um site de autoria própria, o Escrita Crítica, onde compartilha periodicamente suas percepções acerca dos mais variados filmes. Para a coluna, ela propôs um formato inédito: falar sobre três atores não a partir de três desempenhos específicos, mas através de alguns dos tantos diretores que contribuíram para a formação de suas mitológicas carreiras. São análises imperdíveis. Confiram abaixo!

Clint Eastwood
Aprecio o cinema pelos diretores, mais do que pelos atores. Minha relação com os filmes é sempre a partir desse sujeito que cria ou, no mais das vezes, é o orquestrador dos múltiplos talentos que se conjugam em sons e imagens que ocupam a tela. Não é comum que diretores sejam também atores e quando isso acontece o resultado nem sempre é satisfatório. Não é o caso de Clint Eastwood, que admiro tanto como cineasta quanto intérprete. Foi no western recriado como spaghetti por Sérgio Leone que Clint começou. Em 1992 ele dirigiu e protagonizou Os Imperdoáveis, obra-prima definitiva desse gênero que se confunde com a própria origem do cinema. Quando Clint se lançou como diretor em 1971, com Perversa Paixão, criou para si o personagem do radialista de jazz que rompeu com o estereótipo do cara durão do velho oeste e dos filmes de ação. Amante de jazz, ele mesmo compositor, Clint dirigiu Bird (1988), ousada cinebiografia de Charlie Parker, o documentário Piano Blues (2003), e resgatou nas trilhas nomes esquecidos como o de Johnny Hartman em As Pontes de Madison (1995), no qual contracena com Meryl Streep, um dos filmes mais românticos da história do cinema. Como intérprete nos próprios filmes ele encenou o personagem caído que busca redenção, solitário, com uma sensibilidade relutante, protegida por um sarcasmo mal-humorado. Dos filmes que dirigiu e interpretou, Menina de Ouro (2004), Gran Torino (2008) e, agora A Mula (2018), na qual Clint Eastwood aparece em cena com 88 anos, estão entre os melhores já realizados no cinema. Nos personagens que encarna, no drama que desenvolve, seus filmes tocam nas questões básicas da existência.

Marcello Mastroianni
Marcello Mastroianni fez quase 150 filmes e foi protagonista de vários que estão entre os que mais amo no cinema, dirigidos por Ettore Scola e Federico Fellini. Em Nós que nos Amávamos Tanto (1974) numa homenagem emocionante de Scola ao amigo Federico, Marcello aparece como ele mesmo na cena cinematográfica mais linda já criada, aquela do banho na Fontana di Trevi, em A Doce Vida (1960). Nas mãos de gênio de Fellini Marcelo foi seu alter ego em crise no 8 ½ (1963). Sedutor e seduzido pelas mulheres, dócil e ao mesmo tempo exasperante, seu personagem antecipa o Snáporaz perdido de Cidade das Mulheres (1980). Mastroianni começou diretamente no cinema, no início dos anos 40, foi aprendendo a interpretar nos sets de filmagem e só depois fez aulas de teatro. Tinha presença física marcante, uma beleza masculina que o transformou logo em símbolo sexual. Foi para quebrar o mito do latin lover que interpretou o macho impotente em O Belo Antônio (1960), de Mauro Bolognini. Mas foi com Ettore Scola, com o qual iniciou em 1970, em Dramma della Gelosia, que Mastroianni fez um de seus personagens antológicos, o radialista homossexual de Um Dia Muito Especial (1977). A arte do ator é o teatro, lugar por excelência do artista da interpretação; no cinema, na maior parte das vezes, é preciso apenas entregar o corpo para o trabalho criativo do diretor. Mastroianni, que tinha uma certa melancolia meio tímida, se deu com doçura e plena entrega a essa arte do século XX, inscrevendo-se em alguns dos momentos mais sublimes da história do cinema.

Juliete Binoche
Juliette Binoche me encanta. O sistema de estrelas, que ajudou a estruturar a indústria do cinema, se desenvolveu junto com os recursos da câmera de se aproximar dos corpos, percorrer as superfícies, chegar tão perto do rosto a ponto de revelar os sentimentos dos personagens sem que nada seja dito. É no corpo frágil de Juliette que se mostra o espírito valente da mulher de A Liberdade é Azul (1993) que perde tudo e, ainda assim, escolhe viver. Francesa nascida em Paris, com formação em arte dramática, Juliette tem uma carreira desigual, protagonizou filmes insignificantes, mas também deu sorte, tornou-se inesquecível como protagonista do primeiro filme da fabulosa Trilogia das Cores, de Krzysztof Kieslowski. Na mão de grandes diretores, como Abbas Kiarostami em Cópia Fiel (2010), a atriz deixou sua marca na cena belíssima em que corrige o batom diante do espelho e, logo adiante, contracena com Jean-Claude Carrière. O roteirista, que é uma lenda, escreveu a adaptação para o cinema de A Insustentável Leveza do Ser (1988), do tcheco Milan Kundera, filme que projetou Juliette, no início de sua carreira. A diferença entre os grandes filmes e aqueles que são apenas artesanato bem-feito são os artistas que se conjugam num momento único que resulta no filme. Ao lado de Daniel Day-Lewis e Lena Olin, Juliete foi filmada pelo grande Sven Nykvist, o fotógrafo de Ingmar Bergman, o maior decifrador de rostos da história do cinema. Outro momento memorável da atriz é O Paciente Inglês (1997) num papel secundário que lhe deu um merecido Oscar.

Três atores, três filmes… com Karine Teles

Uma das grandes atrizes em atividade no cinema brasileiro, Karine Teles gentilmente me deu a honra de ser a nova convidada da coluna “Três atores, três filmes”. Além da realização pessoal de tê-la aqui, é um presente descobrir como uma talentosa intérprete como ela enxerga o trabalho dos próprios colegas e, principalmente, o quanto ela, de certa forma, é influenciada por cada um deles. Aos desavisados (ou esquecidos), Karine esteve recentemente nos cinemas com Benzinho, exibido no Festival de Sundance e multipremiado no Festival de Cinema de Gramado. Anterior ao filme, estrelou títulos como o ótimo Riscado e também deu vida a grandes personagens, a exemplo de dona Bárbara, a “antagonista” do premiadíssimo Que Horas Ela Volta?. Seus próximos projetos incluem a série Gilda, onde é novamente dirigida por Gustavo Pizzi, e Hebe, cinebiografia da apresentadora Hebe Camargo (Andréa Beltrão), onde dá vida à atriz Lolita Rodrigues. Quebrando o protocolo, Karine escolheu não três, mas sim quatro interpretações para sua participação a coluna, e eu, claro, aceitei com a maior alegria.

Giulieta Masina (Noites de Cabíria)
A combinação de força, fragilidade e humor que a atriz consegue manipular para criar sua Cabíria (sem nenhuma vaidade de ator) é extremamente poderosa, fora que Cabíria somos todos nós que, no fundo, só queremos ser amados. Assisto a esse filme sempre que quero me inspirar.

Leonardo DiCaprio (O Lobo de Wall Street)
Acho um primor a entrega dele para este personagem, que tem cenas dificílimas, mas feitas com leveza e, de novo, sem vaidade, conseguindo gerar empatia e repulsa ao mesmo tempo. Em nenhum momento você vê DiCaprio orgulhoso de si mesmo, como vemos em muitos grandes atores em importantes personagens.

Gena Rowlands (Noite de Estreia)
Acho Gena uma das mais impressionantes atrizes americanas. Ela, assim como Giulietta, consegue estar presente e verdadeira em cena ao mesmo tempo em que consegue “comentar” o que a personagem está vivendo. As pessoas falam muito de Uma Mulher Sob Influência (e eu também adoro esse filme), mas Noite de Estreia me impressiona muito mais com a complexidade da personagem e a imensa gama de emoções vividas por Gena com total destreza.

+ Sigourney Weaver (Alien, o Oitavo Passageiro)
Também gostaria de incluir a Sigourney Weaver porque me impressiona e encanta a sua capacidade de contracenar nesse grau de “fantasia”. Se acreditar em um companheiro de cena e contracenar com ele já é difícil, imagina com um boneco cheio de baba falsa quando você é uma astronauta em uma nave espacial…. O que ela faz nesse filme é da ordem da perfeição!

Três atores, três filmes… com Simone Zuccolotto

Uma das principais vozes quando o assunto é a divulgação do cinema brasileiro, a jornalista Simone Zuccolotto entrou para o célebre Canal Brasil no ano de 2003. Ao longo desses 15 anos de atuação na emissora comandada por Paulo Mendonça, já esteve à frente e atrás das câmeras de séries jornalísticas como A Mulher no Cinema, Nas Sombas do Medo, Rir é o Melhor Remédio e De Semelhanças e Coincidências. Hoje, ela também comanda o Cinejornal, que faz um balanço semanal dos principais eventos de Cinema no Brasil, além, claro, de mostrar os bastidores de inúmeras produções realizadas em território nacional com entrevistas exclusivas. Nessa caminhada, não poderia faltar, claro, a cobertura de festivais Brasil afora, incluindo o Festival de Cinema de Gramado, onde já a encontrei diversas vezes, seja no Tapete Vermelho, nos bastidores ou na própria sala de cinema. Por isso mesmo,  dada toda essa experiência e conhecimento, é uma imensa satisfação recebê-la aqui na coluna, especialmente quando ela comenta atuações de três atrizes de talento gigante e inquestionável. E uma curiosidade: com a menção da Simone, o desempenho de Gena Rowlands em Uma Mulher Sob Influência empata com o de Kate Winslet em Brilho Eterno de Uma Mente Sem Lembrança como o mais lembrado entre as atrizes, com três citações cada.

Gena Rowlands (Uma Mulher Sob Influência)
Aos 88 anos, a atriz americana tem uma carreira profícua no cinema e em séries de TV, mas foi a parceria com o marido John Cassavetes que lhe rendeu as melhores atuações. Filmes como Noite de Estreia e Gloria, mas especialmente Uma Mulher Sob Influência deixaram marcado o turbilhão de emoções que cabe nessa atriz. Por esse filme, inclusive, ela recebeu o Globo de Ouro de melhor atriz de drama e foi indicada ao Oscar. Inicialmente escrito como uma peça de teatro, o texto, a pedido de Gena, acabou virando cinema, no melhor estilo Cassavetes, conhecido como o “autor do improviso” ou o expoente do “cinéma vérité” (atribuído a Jean Rouch). A levada experimental (mais radical do que as convenções tanto dramáticas quanto narrativas), a câmera na mão, a utilização de luz natural e, sobretudo a coautoria oferecida/exigida dos atores… E é aí que surfa Gena, na história da “problemática” dona de casa de classe média baixa americana, mãe de três filhos e casada com um funcionário de estaleiro. O tom intenso, os nervos à flor da pele e a sensação de um mundo prestes a ruir são radiografados pela atriz que, na pele de Mabel, passa por um transe, com inúmeras camadas sutis que retratam a loucura de uma forma assustadora (destaque para a cena do almoço com os parceiros de trabalho do marido).

Charlotte Gainsbourg (Ninfomaníaca)
A parceria de Charlotte com Lars Von Trier começou em Anticristo (2009) e seguiu com Melancolia (2011). No caso de Ninfomaníaca, a atriz disse que aceitou o convite sem nem ler o roteiro, o que atesta uma cumplicidade nos assuntos e na maneira como o diretor dinamarquês faz seus filmes. Joe é uma mulher viciada em sexo e, por conta da obsessão, vai às ultimas consequências no assunto. Como é comum no cinema de Trier, não há limites e, quando há, eles os testa o tempo inteiro. É disso que Gainsbourg gosta: de personagens intensos e desequilibrados, à beira da insanidade – e, de fato, ela mergulha nessas performances, não necessariamente para se perder em neuroses, mas parece que para sair da zona de conforto e testar a si mesma. A atriz, filha de Serge Gainsbourg e Jane Birkin, se joga, e sem rede. Em Ninfomaníaca usou prótese de vagina, fez cenas de sadomasoquismo humilhantes e constrangedoras, e o que resulta dessa parceria é uma interpretação que imprime na tela uma disponibilidade de alguém que nasceu pra ser testada e, em minha opinião, aprovada. E, além de tudo, a danada canta que é uma beleza!

Romy Schneider (L’Enfer / O Inferno de Henri-Georges Clouzot)
A atriz austríaca ficou conhecida pela personagem Sissi na trilogia Sissi / Sissi, a Imperatriz / Sissi e Seu Destino, dirigida por Ernst Marischka, entre 1955 e 1957; foi indicada ao Globo de Ouro por O Cardeal, de Otto Preminger; ganhou dois César por O Importante é Amar, de Andrzej Zulawski, e Uma História Simples, de Claude Sautet; trabalhou com nomes como Luchino Visconti, Orson Welles, Costa-Grava e teve uma vida pessoal trágica (a morte precoce do filho, o suicídio do ex-marido, traições). Tudo isso a transformou num mito que morreu aos 43 anos, mas deixou interpretações inesquecíveis. Elegi sua atuação em L’Enfer, de Henri-Georges Clouzot (realizador dos excelentes O Salário do Medo e As Diabólicas), filme inacabado que virou assunto do documentário O Inferno de Henri-Georges Clouzot, de Serge Bromberg e Ruxandra Medrea. Do roteiro, uma delirante história de ciúme, pouco se vê, mas as imagens recuperadas – cenas e os flagrantes de testes de luz, figurino e maquiagem – embora avulsas e costuradas com depoimentos de colaboradores, não perdem a magnitude da interpretação de Schneider, sedutora, brincalhona, forte, leve e livre, e ao mesmo tempo amarrada na técnica e na obsessão de Clouzot. Mais do que isso, deixam uma sensação de quão avassaladora teria sido o desempenho de Romy. P.S. – Destaque para dois momentos: a cena que a atriz brinca com um brinquedo de mola que vai passeando pelo seu corpo e quando ela se diverte com uma taça de champagne.

Três atores, três filmes… com Suzana Uchôa Itiberê

Editora-chefe da revista Preview, a Suzana Uchôa Itiberê, que eu conheci pessoalmente nesses encontros cinéfilos proporcionados pelos festivais de cinema, separou mais do que três atores para a nossa coluna. A lista que vocês conferem abaixo traz, na verdade, três ícones do cinema mundial, em desempenhos indiscutivelmente emblemáticos. Da inesquecível Audrey Hepburn em Charada, passando por Jack Nicholson em Melhor é Impossível, até chegar aos dias de hoje com o arraso que é Daniel Day-Lewis em Trama Fantasma, a Suzana recapitula essas performances ao mesmo tempo em que ilumina as razões e os detalhes que fazem delas paradas obrigatórias na lista de qualquer cinéfilo.

Audrey Hepburn (Charada)
Sou apegada a sutilezas. Costumo não me impressionar com interpretações marcadas por arroubos emocionais, gritarias, gente se descabelando (talvez por isso me irrite tanto com novelas). São as pequenas coisas que tornam certos personagens únicos. A icônica sequência em que a estrela canta “Moon River” na escada de incêndio em Bonequinha de Luxo é a essência da delicadeza e da solidão, mas uma das cenas mais saborosas e espontâneas que tenho guardada na memória acontece em Charada, que Stanley Donen dirigiu em 1963. Na trama, o marido da protagonista (Audrey) é assassinado e começa um jogo de gato e rato para descobrir onde foi parar o dinheiro que estava com ele. O personagem de Cary Grant oferece ajuda, mas seus motivos são suspeitos. No auge da ação, ela o pega de surpresa e pergunta: “Sabe o que você tem de errado?”. Ele, afobado e na defensiva, responde: “Não, o quê?”. E ela solta um sedutor e malandro: “Nada!”. O tom de voz perfeito e um rosto suave irresistível. Essa era Audrey Hepburn, simples, elegante e naturalmente sensual.

Daniel Day-Lewis (Trama Fantasma)
Em 2013, o astro inglês se tornou o primeiro a receber três Oscar de melhor ator. No discurso, citou o diretor de Lincoln, Steven Spielberg, claro, mas agradeceu especialmente à mulher, Rebecca Miller, por ter suportado viver com tantos homens diferentes e estranhos desde que se casaram, em 1996. Um parêntesis: Rebecca é filha do dramaturgo Arthur Miller e conheceu Day-Lewis nos bastidores da adaptação para o cinema da peça As Bruxas de Salem. Talvez ela não tenha convivido com o viúvo John Proctor, mas passou vários meses com o ex-militante do IRA Danny Flynn, de O Lutador, o gângster William Cutting (Bill Açougueiro) de Gangues de Nova York, o cineasta italiano Guido Contini de Nine, e ninguém menos que o 16º presidente dos Estados Unidos, Abraham Lincoln. Day-Lewis não interpreta, ele se torna, e ver esse mergulho profundo é inebriante. Todos esses personagens me arrancaram arrepios, mas nenhum me pegou pelo estômago como o Reynolds Woodcock de Trama Fantasma, nova parceria com Paul Thomas Anderson (de Sangue Negro). Na Londres dos anos 1950, Woodcock é um estilista confiante e focado que comanda a Maison ao lado da irmã, Cyrill (Lesley Manville). Solteiro convicto, ele encontra inspiração nas mulheres que entram e saem da sua vida. Até o dia em que conhece Alma (Vicky Krieps), a garçonete de modos desajeitados e personalidade forte que se torna a nova musa e abala as rígidas estruturas do mago da moda. Essa breve sinopse pode dar a ideia de um romance enfadonho, mas há algo macabro nessa relação. Nada é aleatório no idiossincrático Reynolds. A maneira de segurar uma xícara, a altura do olhar, o posicionar de pernas, o tom da voz e um impagável bufar impaciente. Fiquei hipnotizada pela meticulosidade na construção desse personagem. No final, ele manda um beijinho para Alma que diz mais que mil palavras. É coisa de mestre, obra-prima da atuação. O próprio ator admite que é um enorme sofrimento largar seus personagens, uma das explicações para ter anunciado a aposentadoria depois desse trabalho sem igual. Para mim, resta a esperança de que mude de ideia.

Jack Nicholson (Melhor é Impossível)
Há uma cena de bastidores de O Iluminado (disponível no YouTube) em que Jack Nicholson se movimenta freneticamente para entrar no clima do personagem, antes de rodar a antológica sequência da machadada. É um instinto animal que ele faz brotar ali e acredito que seu canal criativo venha do âmago – enquanto o de Daniel Day-Lewis, por exemplo, pareça ser fruto de meticulosidade. O que nos leva ao excêntrico escritor Melvin Udall de Melhor é Impossível, dirigido por James L. Brooks, e que em 1998 rendeu ao ator seu segundo Oscar na categoria principal. Em tempos de #TimesUp, o personagem de Nicholson ganha atualidade como um amálgama de tudo o que é considerado execrável em um ser humano: misógino, preconceituoso, xenófobo, cruel com animais, machista, grosseiro e por aí vai… Pois o popular romancista ainda sofre de transtorno obsessivo compulsivo (TOC), e almoçar todos os dias no restaurante onde Carol (Helent Hunt) é garçonete também é uma mania. Então como é possível um sujeito tão odioso ser ao mesmo tempo tão cativante? Simples. Porque Nicholson explora cada uma de suas camadas (e são muitas) com uma mescla única de humor e melancolia. É uma atuação instintiva e cheia de charme, que faz as qualidades de Melvin surgirem das formas mais inesperadas. “Você me faz ser um homem melhor”, ele responde à Carol quando ela lhe pede um elogio. E então arqueia as sobrancelhas. Melhor, impossível…

Três atores, três filmes… com Paulo Henrique Silva

Criada em 2011, a Associação Brasileira de Críticos de Cinema – Abraccine é a primeira entidade nacional a reunir os críticos de cinema de todas as regiões do país. Promovendo as diversas formas de pensamento crítico, reflexão e debate sobre cinema, hoje a entidade é presidida pelo jornalista mineiro Paulo Henrique Silva, que também atua no jornal Hoje em Dia, de Belo Horizonte. Como de costume, o Paulo foi convidado a escrever para a coluna sobre três interpretações que considera marcantes no cinema. A partir desse convite, vieram três grandes atrizes em três grandes desempenhos. E vejam só: todas de intérpretes acima dos 60 anos, ativas profissionalmente e com a sorte de terem ao seu lado grandes diretores que reverenciam, na tela e fora dela, o imenso valor de suas respectivas carreiras e talentos. É, sem dúvida, uma seleção para ninguém colocar defeito. Confiram!

Meryl Streep (The Post: A Guerra Secreta)
A ferramenta principal do ator é o seu corpo, mas, no caso de Meryl Streep, o trabalho dela se dá principalmente por meio do olhar e dos lábios. Dependendo do gênero e do filme, eles nos conduzem de uma alegria contagiante a uma raiva incontrolável. Em As Pontes de Madison, Meryl não precisa dizer muito para mostrar uma mulher madura cheia de sentimentos guardados prontos para transbordar. Ela parece ser o retrato da mulher de seu tempo, ou das mulheres de seu tempo, multifacetada, uma amálgama entre a dona de casa submissa e àquela que está à frente das transformações sociais. Num filme recente como The Post, de Steven Spielberg, ela faz a síntese de uma carreira, reunindo numa mesma personagem os lados frágil e forte. Numa produção marcadamente dominada por homens, Meryl levanta a bandeira feminista, em que a atitude dela é determinante na trama. Em dois diálogos decisivos, com Tom Hanks e Bruce Greenwood, a fala num tom quase inalterado contrasta com um olhar e lábios que nos apontam muito do que acontecerá em seguida.

Isabelle Huppert (Elle)
Isabelle Huppert é um mistério. Seus personagens, num mesmo filme, apontam para vários caminhos. Talvez seja o que mais gosto nela: a imprevisibilidade. É uma risada característica que parece dizer mais da loucura interior do que qualquer outra coisa; um olhar que nos angustia ao revelar que ela irá até às últimas consequências; e uma voz que vai do angelical ao diabólico, com cada frase saindo dúbia. Seus personagens são sempre fortes. De Paul Verhoeven, ela ganhou em Elle um dos papéis mais emblemáticos de sua carreira, uma empresária que não sabe o que é, vivendo um processo assustador de autodescoberta, conectada ao pensamento de hoje – do homem? – sobre a mulher que emergirá de tantas transformações. Tanto o filme quanto ela parecem não querer dar uma resposta. A única coisa certa é que a sua ironia incômoda, outro traço marcante no trabalho de Isabelle. Vê-la em ação é sempre um prazer incômodo.

Sonia Braga (Aquarius)
Ver a brasileira Sonia Braga no filme Extraordinário, como uma avó que apoia a neta num momento familiar conturbado, é muito evocativo, como se fosse um prosseguimento de sua personagem em Aquarius, de Kleber Mendonça Filho, e fechando uma linha do tempo iniciada com Eu Te Amo e A Dama do Lotação, na década de 70. Ela sempre viveu uma mulher forte, em contraste com um universo masculino em decadência. Os homens dos filmes de Arnaldo Jabor e Neville D’Almeida parecem já não dar conta da emancipação feminina. Esse desconcerto é muito simbólico de uma época em que passávamos pelos últimos anos da ditadura militar no Brasil. O que nos leva a Aquarius, mais de 30 anos depois, agora em que o país sofre com o liberalismo econômico e a corrupção. Resistir à venda de sua casa, que conta a rica história de sua trajetória, é um ato político, em torno da preservação da individualidade e da liberdade contra o apagamento liderado por um suposto progresso. Sônia representa muita coisa, menos ordem e progresso.

Três atores, três filmes… com Pablo Villaça

O tempo voa. De repente, chegamos ao 40º convidado da coluna Três atores, três filmes! E quem protagoniza essa simbólica estatística é um nome de peso: o crítico de cinema Pablo Villaça, que, desde 1997, comanda o Cinema em Cena, um dos mais antigos sites de cinema do Brasil. Fui aluno do Pablo em 2012, quando cursei, aqui mesmo em Porto Alegre, o curso de Linguagem e Crítica Cinematográfica ministrado por ele, mas a influência vem de muito antes: ainda em 2006, quando comecei a rabiscar meus primeiros escritos sobre cinema, já tinha o trabalho do Pablo como uma referência entre os nomes que eu acompanhava nacionalmente. Por isso, não é apenas pela extensa e consistente trajetória profissional que tenho imensa alegria em recebê-lo aqui. É também pela ligação afetiva que tenho com o trabalho do Pablo e pela forma aberta e acessível com que ele topou participar da coluna. Quanto às performances escolhidas, elas revelam preferências já conhecidas do nosso convidado, mas o mais bacana é que, a cada nova análise assinada por ele, descobrimos outros tantos detalhes que passavam despercebidos. Não é diferente agora. Confiram abaixo!

Marlon Brando (O Poderoso Chefão)
Brando tinha 46 anos de idade quando rodou o filme, mas, observando seu envelhecimento progressivo ao longo da narrativa (que iniciou quando seu personagem já era bem mais velho do que ele), é notável constatar sua fragilidade física crescente que se torna patente não pela maquiagem, mas por sua postura, sua voz e seus maneirismos. Além disso, o momento em que Don Vito recebe a notícia da morte de Santino representa, para mim, o ponto máximo da carreira de um ator que já é o melhor dos melhores: ao ouvir Tom Hagen (Robert Duvall) informar que Sonny foi metralhado e está morto, Brando expulsa o ar do corpo de uma vez só, como se tivesse levado um soco. No entanto, ciente de que deve tomar decisões imediatas, ele reúne as forças para dizer que não quer nenhuma investigação – quando, então, solta um pequeno gemido que sugere a imensa dor que está enfrentando. Aos poucos, recobra um pouco das forças e ergue o queixo, mas, ao dizer a última fala (“This war stops now”), ele mal chega ao final e sua voz desaparece num suspiro. Este momento sempre me parte o coração.

Al Pacino (trilogia O Poderoso Chefão)
A transformação de Michael Corleone é o centro narrativo da trilogia: de jovem idealista que quer se manter longe dos negócios da Família, é obrigado a assumir sua liderança até perder completamente qualquer bússola moral, eliminando o próprio irmão mais por sentir-se traído do que por necessidade – algo que o atormenta pelo resto da vida até sua morte solitária no meio de cachorros vira-latas no chão poeirento de um lugar vazio. Pacino retrata todas estas etapas de Michael com sutileza: da alegria jovial do personagem ao dançar com a noiva ao ressentimento que demonstra para com o pai, ele deixa claro que aquele é um homem que valoriza muito mais a família do que a Família – e é sua preocupação com a segurança do pai que o leva a assumir uma ação que, ele sabe, irá eliminar qualquer possibilidade de uma vida longe da violência. Aos poucos, ele recupera um quê de alegria na Sicília, mas a morte de Apollonia acaba deixando-o amargo. A partir, sua frieza se torna chocante, revelando-se no planejamento do ataque contra as quatro outras famílias, na relação com a esposa e na forma como lida com o cunhado e com Sal, que considerava um tio. A partir da Parte II, esta implacabilidade do personagem se torna ainda maior, sendo a decisão de matar Fredo a que finalmente elimina qualquer traço de humanidade e o afasta de vez daqueles que ama. O curioso é que, na Parte III, Michael ressurge consideravelmente mais leve e feliz – o que é fruto óbvio de seu alívio por finalmente ter legitimado todos os negócios da Família e saído do mundo do crime (algo que sempre prometeu fazer). Esta alegria temporária, contudo, é destruída quando seu passado retorna para cobrar tudo que fez, o que finalmente o destrói definitivamente. E Al Pacino encarna toda esta jornada mesclando introspecção e explosão, carinho e frieza, amor e ódio.

Brooklynn Kimberly Prince (Projeto Flórida)
O que a pequena atriz faz no filme de Sean Baker é algo de único: com uma naturalidade surpreendente para uma estreante, a garota constrói todo o universo de sua personagem, Moone, a partir de ações displicentes como brincar de bater a cabeça na parede (até se machucar e agir com surpresa infantil diante do óbvio), lamber um sorvete com a empolgação de alguém que encara cada guloseima como uma alegria a ser explorada ao máximo e os saltos sapecas ao convidar os amigos para invadirem uma sala na qual não deveriam entrar. A performance de Prince é tão autêntica, aliás, que muitos parecem não acreditar que se trata de interpretação. “Ela está sendo ela mesma”. Ora, ninguém se atreveria a dizer algo assim sobre Meryl Streep ou Daniel Day-Lewis. Por que com Prince é diferente? Porque é criança. Até que você lê o roteiro, assiste a vídeos dos bastidores ou testemunha mais uma vez sua vulnerabilidade repleta de lágrimas nos minutos finais e constata que, sim, ela estava interpretando. Suas falas eram decoradas; suas emoções, “simuladas” (o que não quer dizer que ela não as experimentou de verdade). E isso, somado ao carisma da garota, cria uma performance que não apenas deveria ter sido indicada a todos os prêmios de Melhor Atriz relativos a 2017, mas também vencido todos.

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