Rapidamente: “Apresentando os Ricardos”, “Cruella”, “Druk” e “Duna”

BEING THE RICARDOS

Como a inesquecível Lucille Ball, Nicole Kidman tem, em Apresentando os Ricardos, a sua melhor interpretação no cinema em pelo menos dez anos.

APRESENTANDO OS RICARDOS (Being the Ricardos, 2021, de Aaron Sorkin): Ao que tudo indica, Aaron Sorkin tem a intenção de se tornar uma espécie de referência em filmes históricos/cinebiográficos — o que, neste caso, não é uma notícia das mais entusiasmantes. Tanto em Os 7 de Chicago quanto agora em Apresentando os Ricardos fica claro que ele pode até ser bom roteirista, mas também o quão longe ele está de ser um diretor inspirado. Se outrora seus roteiros rendiam forma criativa nas mãos de diretores como David Fincher (A Rede Social) e Danny Boyle (Steve Jobs), agora eles se apequenam por justamente não terem um cineasta de visão atrás das câmeras. Apresentando os Ricardos é uma produção que parece ter sido feita a toque de caixa, inclusive do ponto de vista técnico, onde aspectos como design de produção, figurino e trilha sonora soam até familiares, como se já tivessem sido usados em outros filmes de ideias semelhantes. Sorkin aposta na alternância da vida de Lucille Ball (Nicole Kidman) à frente e atrás das câmeras, do seu sucesso estrondoso com I Love Lucy ao seu romance com Desi Arnaz. Acusações envolvendo uma suposta participação de Lucille no partido comunista vêm à tona, e o roteiro busca equilibrar esse recorte com idas e vindas no tempo para ilustrar outros pontos da carreira da estrela. Só que nada ganha a devida tração, restando para Nicole Kidman a tarefa tão recorrente em filmes desse gênero de trazer algum brilho para o filme. E ela consegue, mas não na mímica da Lucille conhecida do público: é nos bastidores da vida da protagonista que Nicole entrega a sua interpretação mais completa e envolvente em pelo menos dez anos. Ela merecia um longa à altura deste momento.

CRUELLA (idem, 2021, de Craig Gillespie): Tenho resistência às desconstruções que a Disney vem fazendo de suas vilãs porque a saída é sempre a mesma: encontrar um outro vilão como explicação. Foi assim com Malévola, que inaugurou, em 2014, essas desconstruções, e é agora, mais uma vez, com Cruella, longa dedicado às origens da icônica Cruella de Vil da animação 101 Dálmatas. Na pele da personagem, Emma Stone se diverte com sua desenvoltura habitual e com os incontáveis e criativos figurinos assinados por Jenny Beavan, vencedora do Oscar por Mad Max: Estrada da Fúria. Outra Emma, entretanto, diverte-se ainda mais: a Thompson, vivendo a nova vilã que vem para justificar as razões que levaram Cruella e se tornar Cruella. Ela é deslumbrante e divertida em exageros performados sempre no ponto e coerentes com o tom adotado pelo filme. Tirando esses acertos da conta, resta muito pouco em Cruella, pois o filme segue a receita habitual da nova coleção de trabalhos da Disney sobre suas vilãs, estendendo-se além da conta com uma trama em que já sabemos onde tudo vai dar. Em comparação com a animação de 1961, falta à Cruella uma personalidade que vá além dos looks inegavelmente criativos. A Disney já confirmou uma continuação, e fico na expectativa para que, na sequência, possamos mergulhar de verdade nas sombras que fazem de Cruella de Vil uma grande vilã.

DRUK: MAIS UMA RODADA (Druk, 2021, de Thomas Vinterberg): Vencedor do Oscar 2021 de melhor filme internacional, Druk: Mais Uma Rodada talvez seja um dos filmes mais “acessíveis” da carreira do cineasta dinamarquês Thomas Vinterberg, e isso não é mau sinal, ao contrário do que costuma acontecer com muitos diretores. Muito mais do que uma brincadeira envolvendo quatro amigos que, tendo descoberto um estudo sobre como precisamos compensar um déficit de álcool no sangue para equilibrar a vida, Druk é uma análise muito bem articulada sobre os estímulos bons ou ruins que procuramos para encontrar algum sentido e atravessar os nossos dias tão exaustivamente mundanos. Passada a euforia vivida pelos personagens a partir da premissa apresentada, Vinterberg convida o espectador a adentrar nas razões que levaram os quatro amigos a procurar um caminho alternativo. É possível voltarmos a ser quem um dia já fomos? Em que momento as coisas se perdem pelo caminho? Como acontecimentos tão cotidianos podem descaracterizar uma vida? Essa virada de chave para o que orbita o experimento etílico não limita Druk à instigante curiosidade de seu ponto de partida, colocando a experiência em um patamar mais reflexivo, sempre potencializado pela ótima interpretação de Mads Mikkelsen, e com direito a passagens catárticas, como a cena final, embalada pela ótima canção “What a Life”, do Scarlet Pleasure, e facilmente um dos momentos mais marcantes entre as produções lançadas no Brasil em 2021.

DUNA (Dune: Part One, 2021, de Denis Villeneuve): O canadense Denis Villeneuve tem redefinido o cenário de blockbusters “conceituais”, movimento ensaiado em A Chegada, evoluído em Blade Runner 2049 e agora consolidado de vez em Duna. Meu envolvimento com os filmes do diretor, no entanto, tem sido inversamente proporcional às dimensões cada vez mais ambiciosas trabalhadas por ele. Sinto falta do Villeuve de filmes como Incêndios, O Homem Duplicado, Sicario e Os Suspeitos ao me deparar com trabalhos como este recente Duna, uma odisseia tão grandiosa quanto insípida e que já recebeu carta branca para um segundo capítulo. Além de replicar o problemático e elitista discurso de ser um filme para ser visto na sala de cinema, Villeneuve não sustenta o filme em uma tela menor, onde Duna se torna maçante e até mesmo tecnicamente frustrante. Se o diretor, assim como em Blade Runner 2049, tenta engrandecer, a todo custo, uma história mínima e circular, atributos como a fotografia de Greig Fraser perdem o impacto, rendendo uma sessão nada sensorial e deveras escura, a ponto de não se enxergar direito boa parte da história. O grande elenco, do protagonista Timothée Chalamet a participações especiais como as de Charlotte Rampling e Zendaya, vaga por areias infinitas em uma trama sem senso de urgência e pasteurizada em um mesmo tom. Na tela grande, Duna pode ser um espetáculo. Em casa, é basicamente um sonífero para quem não abraça o conceito.

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