“Turma da Mônica: Laços” é a adaptação live action que o público tanto merecia

Tem coisa mais chata do que ser normal?

Direção: Daniel Rezende

Roteiro: Thiago Dottori, baseado na obra de Mauricio de Sousa e inspirado na graphic novel “Laços”, de Vitor Cafaggi e Lu Cafaggi

Elenco: Kevin Vechiatto, Giulia Benite, Gabriel Moreira, Laura Rauseo, Paulo Vilhena, Monica Iozzi, Fafá Rennó, Ravel Cabral, Rodrigo Santoro

Brasil, 2019, Aventura, 97 minutos

Sinopse: Floquinho, o cachorro do Cebolinha (Kevin Vechiatto), desapareceu. O menino desenvolve então um plano infalível para resgatar o cãozinho, mas para isso vai precisar da ajuda de seus fiéis amigos Mônica (Giulia Benite), Magali (Laura Rauseo) e Cascão (Gabriel Moreira). Juntos, eles irão enfrentar grandes desafios e viver aventuras para levar o cão de volta para casa.  

A Disney vem tentando desde os anos 1990, mas é o Brasil que agora mostra como se faz: com imensa graça, carisma e nostalgia, Turma da Mônica: Laços chega às salas de cinema ostentando, com folga, o título de melhor adaptação live action de um universo consagrado no plano dos quadrinhos infantis e das animações. Desde 1994, quando lançou 101 Dálmatas até mais recentemente com DumboAladdin e um estratégico calendário de dominação mundial, a Disney produziu diversas adaptações com pessoas em carne e osso que, no máximo, poderiam ser encaradas como uma boa diversão. Raríssimos foram os títulos do estúdio que deixaram de ser uma mera cópia da animação original para reverenciar o material de origem com qualidades próprias (A Bela e a Fera dividiu opiniões, mas, por se assumir orgulhosamente como musical, ganhou de todas as outras adaptações em autenticidade). Pois Turma da Mônica: Laços, que celebra os icônicos personagens da obra de Mauricio de Sousa a partir da graphic novel de Vitor Cafaggi e Lu Cafaggi, faz tudo isso e mais um pouco, encantando adultos e crianças com a mesma facilidade.

Elogiado em 2017 por sua enérgica estreia como diretor em Bingo – O Rei das Manhãs, Daniel Rezende, antes montador de filmes como Cidade de Deus, Diários de Motocicleta, Tropa de Elite e A Árvore da Vida, segue despontando como um dos realizadores mais interessantes dos últimos anos. Sua versatilidade é tão notável quanto revigorante: se o álcool, as drogas e o politicamente incorreto compuseram com notável presença o centro cômico e dramático de Bingo, a inocência, a delicadeza e a nostalgia tomam conta de Turma da Mônica: Laços com grande frescor cinematográfico. Para início de conversa, há de se celebrar a bela homenagem que o filme faz para uma infância que não existe mais, com personagens que correm pelas ruas, andam de bicicleta, visitam uns aos outros e até mesmo conhecem o dono da única banca de revistas da vizinhança. Tudo isso é simplesmente impensável para os dias de hoje, quando a infância passou a ter outras atribuições. E, ao encenar uma aventura a partir dessa perspectiva, Turma da Mônica: Laços se engrandece, jamais parecendo antiquado ou fake: tanta inocência termina por reforçar todo o caráter saudoso e afetuoso de um universo desenvolvido com incansável criatividade por Mauricio de Sousa desde os anos 1960.

Reconstituído com uma parte técnica por vezes surpreendente (não é sempre que o cinema brasileiro mais “comercial” consegue usar tão bem uma trilha sonora instrumental como aqui), o Bairro do Limoeiro, vizanhança onde vivem Mônica (Giulia Benite), Cebolinha (Kevin Vechiatto), Cascão (Gabriel Moreira) e Magali (Laura Rauseo) pode parecer clean e perfeitinho demais em uma primeira visita, sensação que se dissipa na medida em que adentramos a vida dos personagens e compreendemos o tipo de homenagem que o filme presta a tempos que deixam saudades. A pegada lúdica de Turma da Mônica: Laços tem origem no próprio roteiro, que não se preocupa em desenvolver aventuras mirabolantes, reflexões profundas ou plot twists para uma história de mistério. Na verdade, a simplicidade da história é cristalina, ainda que isso, em determinado momento, custe alguns pontos ao filme: o terceiro ato é a parcela menos interessante da trama justamente porque busca criar maior suspense e expectativa pela resolução do conflito envolvendo o desaparecimento e o resgate do cãozinho Floquinho.

Para chegar ao quarteto de atores mirins que dá vida a personagens amados por incontáveis gerações, Turma da Mônica: Laços realizou aproximadamente dois mil testes em dez cidades brasileiras. A criteriosa seleção resultou em um acerto dos mais preciosos: tanto os atores selecionados são uma simpatia só quanto demonstram ser realmente bons intérpretes. Essa combinação é importante porque o roteiro de Thiago Dottori exige mais do que somente crianças carismáticas em cena. Além de incorporar as características que eternizaram seus respectivos personagens, os atores precisam abraçar certos desafios dramáticos quando o filme, também ciente da esperteza de seu público, coloca Mônica, Cebolinha, Magali e Cascão em conflito com suas próprias diferenças. Turma da Mônica: Laços mostra que conviver não é fácil, mesmo com as nossas pessoas favoritas, mas que são justamente essas relações que nos salvarão de muita coisa no mundo. Entre a celebração da obra de Mauricio de Sousa e a preocupação em realizar um longa com vida própria, Daniel Rezende acerta triplamente, entregando uma excelente adaptação live action, uma divertida aventura para os pequenos e uma sessão que também será aproveitada pelos adultos. Turma da Mônica: Laços é uma experiência para guardar no coração.

Um comentário em ““Turma da Mônica: Laços” é a adaptação live action que o público tanto merecia

  1. A Turma da Mônica fez parte da infância de muitas crianças brasileiras – incluindo eu! Apesar disso, não me interessei muito por conferir este filme.

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