Cinema e Argumento

Os indicados ao Screen Actors Guild Awards 2022

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O que rolou aqui? Casa GucciAtaque dos Cães lideram a lista de indicações ao SAG 2022, mas a indicação a melhor elenco ficou apenas com o filme de Ridley Scott.

Quem diria. No ano em que o Globo de Ouro é boicotado e praticamente cancelado em função de escândalos recentes, a cota de constrangimentos acabou ficando com o Screen Actors Guild Awards, que apresentou, nesta quarta-feira (12), uma lista digna de rivalizar com as bobagens tão atribuídas aos votantes da Hollywood Foreign Press. Talvez a representação máxima dessa afirmação seja a lembrança a Jared Leto como ator coadjuvante por Casa Gucci — afinal, como uma interpretação tão caricatural e constrangedora ganha o apoio de um sindicato de atores (e até mesmo dos críticos, considerando a seleção do Critics’ Choice Awards)? Ao menos o Globo de Ouro pode se vangloriar de não ter passado por essa.

O apreço por Casa Gucci, indicado também a melhor elenco e melhor atriz (Lady Gaga), é descabido na medida em que observamos a ausência de Ataque dos Cães na seleção principal, mesmo com o filme de Jane Campion concorrendo em três categorias individuais: ator para Benedict Cumberbatch, atriz coadjuvante para Kirsten Dunst e ator coadjuvante par Kodi Smit-McPhee. Pelo jeito, o filme de Ridley Scott é o Bohemian Rhapsody da temporada de premiações de 2022. E o que falar sobre a escandalosa ausência de Kristen Stewart como melhor atriz por Spencer? Kristen ficou de fora para ressuscitarem Jennifer Hudson (Respect: A História de Aretha Franklin) na disputa, e sua grande falta foi inclusive alvo de reclamações públicas de alguns membros do SAG nas redes sociais.

A categoria de melhor atriz está abarrotada de cinebiografias (Olivia Colman é a exceção com A Filha Perdida) e é uma clara representação das escolhas cômodas feitas pelo votantes, que, assim como praticamente todas as premiações dessa temporada, ignoraram o trabalho sobrenatural do elenco de Mass. Como votante do Independent Spirit Awards, sei que screeners do longa de Franz Kanz estão rolando há muito tempo no circuito e de forma bastante ampla. Ou seja, Mass não ficou de fora por não ter chegado aos votantes. Os caminhos fáceis também foram tomados no segmento de séries e minisséries, onde, sabe-se lá como, a péssima segunda temporada de The Morning Show emplacou quatro indicações, incluindo um lembrança dupla para Jennifer Aniston e Reese Witherspoon.

Realmente não lembro a última vez que o SAG apresentou uma lista tão ruim e, em diversos pontos, bastante incoerente. Confiram abaixo:

CINEMA

MELHOR ELENCO
Belfast
Casa Gucci
King Richard: Criando Campeãs
Não Olhe Para Cima
No Ritmo do Coração

MELHOR ATRIZ
Jennifer Hudson (Respect: A História de Aretha Franklin)
Jessica Chastain (Os Olhos de Tammy Faye)
Lady Gaga (Casa Gucci)
Nicole Kidman (Apresentando os Ricardos)
Olivia Colman (A Filha Perdida)

MELHOR ATOR
Andrew Garfield (Tick, Tick…BOOM!)
Benedict Cumberbatch (Ataque dos Cães)
Denzel Washington (A Tragédia de Macbeth)
Javier Bardem (Apresentando os Ricardos)
Will Smith (King Richard: Criando Campeãs)

MELHOR ATRIZ COADJUVANTE
Ariana DeBose (Amor, Sublime Amor)
Caitriona Balfe (Belfast)
Cate Blanchett (O Beco do Pesadelo)
Kirsten Dunst (Ataque dos Cães)
Ruth Negga (Identidade)

MELHOR ATOR COADJUVANTE
Ben Affleck (Bar, Doce Lar)
Bradley Cooper (Licorice Pizza)
Jared Leto (Casa Gucci)
Kodi Smit-McPhee (Ataque dos Cães)
Troy Codsur (No Ritmo do Coração)

SÉRIES, MINISSÉRIES E TELEFILMES

MELHOR ELENCO EM SÉRIE DE DRAMA
The Handmaid’s Tale
The Morning Show
Round 6
Succession
Yellowstone

MELHOR ELENCO EM SÉRIE DE COMÉDIA
The Great
Hacks
O Método Kominski
Only Murders in the Building
Ted Lasso

MELHOR ATRIZ EM SÉRIE DE DRAMA
Elisabeth Moss (The Handmaid’s Tale)
Jennifer Aniston (The Morning Show)
Jung Ho-Yeon (Round 6)
Reese Witherspoon (The Morning Show)
Sarah Snook (Succession)

MELHOR ATOR EM SÉRIE DE DRAMA
Billy Crudup (The Morning Show)
Brian Cox (Succession)
Jeremy Strong (Succession)
Kieran Culkin (Succession)
Lee Jung-Jae (Round 6)

MELHOR ATRIZ EM SÉRIE DE COMÉDIA
Elle Fanning (The Great)
Hannah Waddingham (Ted Lasso)
Jean Smart (Hacks)
Juno Temple (Ted Lasso)
Sandra Oh (The Chair)

MELHOR ATOR EM SÉRIE DE COMÉDIA
Brett Goldstein (Ted Lasso)
Jason Sudeikis (Ted Lasso)
Martin Short (Only Murders in the Building)
Michael Douglas (O Método Kominski)
Steve Martin (Only Murders in the Building)

MELHOR ATRIZ EM MINISSÉRIE OU TELEFILME
Cynthia Erivo (Genius: Aretha)
Jean Smart (Mare of Easttown)
Jennifer Coolidge (The White Lotus)
Kate Winslet (Mare of Easttown)
Margaret Qualley (Maid)

MELHOR ATOR EM MINISSÉRIE OU TELEFILME
Evan Peters (Mare of Easttown)
Ewan McGregor (Halston)
Michael Keaton (Dopesick)
Murray Bartlett (The White Lotus)
Oscar Isaac (Scenes from a Marriage)

Os vencedores do Globo de Ouro 2022

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Com três estatuetas, Ataque dos Cães, de Jane Campion, é o vencedor do Globo de Ouro 2022.

Sem público ou transmissão, o Globo de Ouro 2022 anunciou ontem seus vencedores. O drama Ataque dos Cães, de Jane Campion, levou, merecidamente, os prêmios de melhor filme, direção e ator coadjuvante para Kodi Smit-McPhee (particularmente, eu ainda colocaria na conta o prêmio de melhor ator para Benedict Cumberbatch). No segmento de comédia/musical, Steven Spielberg reinou com seu Amor, Sublime Amor. São resultados coerentes para uma ótima temporada e que fazem muito bem ao Globo de Ouro, cuja lista desde ano não nos reservou vexames. O mesmo se aplica para o segmento de séries, minisséries e antologias, onde Succession foi o melhor drama, Hacks a melhor comédia e The Underground Railroad a melhor minissérie. 

Só o tempo dirá se os resultados tão “comportados” do Globo de Ouro são reflexo das amplas críticas que a HFPA vem recebendo por seus escândalos e falta de representatividade, mas, por ora, saldo positivo para a premiação. Entretanto, deixo aqui dois rápidos adendos. O primeiro é que, por mais que tenha, em Apresentando os Ricardos, um excelente desempenho, Nicole Kidman não deveria ter desbancado concorrentes muito mais fortes e de trabalhos bem mais complexos, como Kristen Stewart por Spencer e Olivia Colman por A Filha Perdida. Vale ficar de olho para conferir se esta é uma tendência da temporada ou uma escolha particular do Globo de Ouro.

Já a segunda é referente ao mestre Hans Zimmer, que levou o prêmio de melhor trilha sonora por Duna. Não escondo que tenho meus problemas com o filme de Denis Villeneuve, mas a consagração realmente me chateia, já que Zimmer, um compositor de mão cheia, teve uma série de trabalhos inspirados e inovadores para quebrar seu jejum na premiação ao longo das duas últimas décadas, de O Código Da Vinci a qualquer um dos longas de Christopher Nolan (a estatueta mais “recente” do compositor era de 2001, por Gladiador). Pode ser que, ao fechar as contas, esta tenha sido a saída do Globo de Ouro para não deixar Duna de mãos abanando.

Confira abaixo a lista de vencedores: 

CINEMA

MELHOR FILME – DRAMA: Ataque dos Cães
MELHOR FILME COMÉDIA/MUSICAL: Amor, Sublime Amor
MELHOR DIREÇÃO: Jane Campion (Ataque dos Cães)
MELHOR ATRIZ – DRAMA: Nicole Kidman (Apresentando os Ricardos)
MELHOR ATOR – DRAMA: Will Smith (King Richard: Criando Campeãs)
MELHOR ATRIZ – COMÉDIA/MUSICAL: Rachel Zegler (Amor, Sublime Amor)
MELHOR ATOR – COMÉDIA/MUSICAL: Andrew Garfield (Tick, Tick… BOOM!)
MELHOR ATRIZ COADJUVANTE: Ariana DeBose (Amor, Sublime Amor)
MELHOR ATOR COADJUVANTE: Kodi Smith-McPhee (Ataque dos Cães)
MELHOR ROTEIRO: Belfast
MELHOR ANIMAÇÃO: Encanto
MELHOR FILME DE LÍNGUA NÃO-INGLESA: Drive My Car (Japão)

MELHOR CANÇÃO ORIGINAL: “No Time to Die” (Sem Tempo Para Morrer)
MELHOR TRILHA SONORA: Duna

SÉRIES, MINISSÉRIES E TELEFILMES

MELHOR SÉRIE – DRAMA: Succession
MELHOR SÉRIE – COMÉDIA: Hacks
MELHOR MINISSÉRIE/TELEFILME:The Underground Railroad

MELHOR ATRIZ – DRAMA: MJ Rodriguez (Pose)
MELHOR ATOR – DRAMA: Jeremy Strong (Succession)
MELHOR ATRIZ – COMÉDIA: Jean Smart (Hacks)
MELHOR ATOR – COMÉDIA: Jason Sudeikis (Ted Lasso)
MELHOR ATRIZ – MINISSÉRIE/TELEFILME: Kate Winset (Mare of Easttown)
MELHOR ATOR – MINISSÉRIE/TELEFILME: Michael Keaton (Dopesick)
MELHOR ATRIZ COADJUVANTE – SÉRIE/MINISSÉRIE/TELEFILME: Sarah Snook (Succession)
MELHOR ATOR COADJUVANTE – SÉRIE/MINISSÉRIE/TELEFILME: O Yeong-su (Round 6)

Apostas para o Globo de Ouro 2022

Unveiling Of The New 2009 Golden Globe Statuettes

Não houve uma celebridade sequer disposta a participar do Globo de Ouro 2022. O motivo já é conhecido: o aberto boicote da indústria à falta de representatividade do prêmio e outras questões que rondam a Hollywood Foreign Press Association desde muito tempo, como todos os privilégios ofertados e aceitos pelos membros votantes na prospecção de votos. O boicote deu tão certo que nem os movimentos já feitos pelo Globo de Ouro para diversificar seu corpo de associados surtiu efeito, fazendo com que a HFPA ficasse sem emissoras interessadas em transmitir uma cerimônia em qualquer formato.

Tendo tudo isso em vista, o que veremos hoje é algo inédito na história do Globo de Ouro: nem mesmo uma transmissão ao vivo será viabilizada para anunciar os vencedores, que serão divulgados através do site e das redes sociais da premiação, basicamente em formato de release de imprensa, situação ainda mais crítica do que a cerimônia de 2008, realizada sem público devido à greve de roteiristas que acontecia à época. O impacto é claro: o Globo de Ouro terá impacto consideravelmente menor na temporada deste ano, visto que não teremos grande repercussão midiática da transmissão e dos discursos dos vencedores.

Ainda assim, para não perder o hábito, listo abaixo alguns palpites para a noite de hoje, que deve ser dominada pelo drama Ataque dos Cães, de Jane Campion, e pelo musical Amor, Sublime Amor, de Steven Spielberg. 

CINEMA

MELHOR FILME – DRAMA: Ataque dos Cães / alt: Belfast
MELHOR FILME COMÉDIA/MUSICAL: Amor, Sublime Amor / alt: Não Olhe Para Cima
MELHOR DIREÇÃO: Jane Campion (Ataque dos Cães) / alt: Steven Spielberg (Amor, Sublime Amor)
MELHOR ATRIZ – DRAMA: Kristen Stewart (Spencer) / alt: Olivia Colman (A Filha Perdida)
MELHOR ATOR – DRAMA: Benedict Cumberbatch (Ataque dos Cães) / alt: Will Smith (King Richard: Criando Campeãs)
MELHOR ATRIZ – COMÉDIA/MUSICAL: Rachel Zegler (Amor, Sublime Amor) / alt: Alana Haim (Licore Pizza)
MELHOR ATOR – COMÉDIA/MUSICAL: Andrew Garfield (Tick, Tick… BOOM!) / alt: Leonardo DiCaprio (Não Olhe Para Cima)
MELHOR ATRIZ COADJUVANTE: Ariana DeBose (Amor, Sublime Amor) / alt: Kirsten Dunst (Ataque dos Cães)
MELHOR ATOR COADJUVANTE: Kodi Smith-McPhee (Ataque dos Cães) / alt: Troy Kotsur (No Ritmo do Coração)
MELHOR ROTEIRO: Licorice Pizza / alt: Belfast
MELHOR ANIMAÇÃO: Encanto / alt: Luca
MELHOR FILME ESTRANGEIRO: A Mão de Deus (Itália) / alt: Drive My Car (Japão)

MELHOR CANÇÃO ORIGINAL: “No Time to Die” (Sem Tempo Para Morrer) / alt: “Be Alive” (King Richard: Criando Campeãs)
MELHOR TRILHA SONORA: Duna / alt: Ataque dos Cães

SÉRIES, MINISSÉRIES E TELEFILMES

MELHOR SÉRIE – DRAMA: Succession / alt: Round 6
MELHOR SÉRIE – COMÉDIA: Only Murders in the Building / alt: Hacks
MELHOR MINISSÉRIE/TELEFILME: Mare of Easttown / alt: Maid

MELHOR ATRIZ – DRAMA: MJ Rodriguez (Pose) / alt: Uzo Aduba (In Treatment)
MELHOR ATOR – DRAMA: Jeremy Strong (Succession) / alt: Billy Porter (Pose)
MELHOR ATRIZ – COMÉDIA: Jean Smart (Hacks) / alt: Elle Fanning (The Great)
MELHOR ATOR – COMÉDIA: Steve Martin (Only Murders in the Building) / alt: Jason Sudeikis (Ted Lasso)
MELHOR ATRIZ – MINISSÉRIE/TELEFILME: Kate Winset (Mare of Easttown) / alt: Jessica Chastain (Scenes from a Marriage)
MELHOR ATOR – MINISSÉRIE/TELEFILME: Ewan McGregor (Halston) / alt: Oscar Isaac (Scenes from a Marriage)
MELHOR ATRIZ COADJUVANTE – SÉRIE/MINISSÉRIE/TELEFILME: Jennifer Coolidge (The White Lotus) / alt: Sarah Snook (Succession)
MELHOR ATOR COADJUVANTE – SÉRIE/MINISSÉRIE/TELEFILME: Kieran Culkin (Succession) / alt: Brett Goldstein (Ted Lasso)

Três atores, três filmes… com Felipe Bragança

tresfbragancaJá são mais de 20 títulos entre trabalhos como diretor e roteirista, entre eles Não Devore Meu CoraçãoPraia do FuturoO Céu de Suely, Mormaço e, mais recentemente, Um Animal Amarelo, filme que tive o prazer de premiar, junto aos meus colegas de júri da crítica, como o melhor longa-metragem brasileiro do 48º Festival de Cinema de Gramado. Certamente é um currículo que atesta o quanto o carioca Felipe Bragança se tornou um dos realizadores mais interessantes da atualidade. Seu apuro estético e domínio como diretor, aliado a sua fina criatividade como roteirista, traz para esta coluna um olhar muito especial sobre a arte de interpretar, representada aqui por escolhas que transitam entre o Brasil, a Itália e os Estados Unidos, com duas grandes atrizes e um ícone do cinema nacional. Super obrigado por ter topado o convite, Felipe!


Tantas são as camadas que ligam uma personagem a um filme, suas presenças e seus recortes dentro das narrativas que optei por citar três momentos em que duas atrizes e um ator encarnaram não só um personagem, mas um filme — fizeram do filme seu corpo e vice-versa. São três dos meus atores/atrizes favoritos em todos os tempos, com quem teria uma alegria imensa de ter criado algo junto. Uma norte-americana, uma italiana e um brasileiro.

Giuletta Masina (A Estrada da Vida)
Criar uma fragilidade assim tão afiada, a ponto de conseguir conjugar encantamento e estranhamento, ternura e angústia, dentro dos mesmos gestos, é um trabalho primoroso de camadas, máscaras e afeto. Uma personagem que desmonta a realidade a seu redor não pelo que atua, mas pelo desacerto de seus gestos, de seus olhares. Masina cria um personagem que é uma peça fora da engrenagem do mundo e, ainda assim, é também todo o mundo. Precisão, ruptura e afeto. Inimitável.

Gena Rowlands (Noite de Estreia)
Minha atriz favorita de todos os tempos, com quem sonharia ter trabalhado em um filme. Gena é aqui força, desespero, firmeza, fábula, loucura, concretude e crônica cotidiana da vida de uma atriz — tudo brotando de seu corpo e de sua voz. A forma como ela consegue misturar todas essas camadas no turbilhão vivido pela personagem é de uma precisão e de uma visceralidade avassaladoras. Gena parece conseguir engolir a câmera de cinema e cuspi-la de volta, modificada.

Grande Otelo (Rio Zona Norte)
A cena em que Espírito canta seu samba para Ângela Maria e a reação que Otelo constrói com seu olhar, sorriso e corpo ao ver que sua canção foi bem recebida, essa cena, só ela, por si só, já merecia ser apresentada em looping em qualquer escola de atuação do mundo. Como pode um ator conseguir coreografar até o brilho de seus olhos? Como pode alguém conseguir modular entre a graça cômica e melancolia mais comovedora dentro de um mesmo plano, com tanta fluidez? Grande Otelo podia. E o fez. Diversas vezes ao longo de sua brilhante carreira. O maior ator brasileiro de todos os tempos, no meu sincero sentimento.

Extra: Helena Ignez
Poderosa criadora do cinema brasileiro, citada aqui não tanto por uma personagem só, mas pela rede de experimentações de cenas e gestos que ela conjuga em seus filmes e que nos abrem os olhos para o vasto mundo que nos cerca para além das regras já postas do que “se deve e que não se deve” fazer em cinema. Helena é o futuro.

Adeus, 2021! (com uma maravilhosa dose dupla de Olivia Colman)

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Quem pensava que 2021 seria um ano inteiramente novo se comparado a 2020 estava redondamente enganado. Embora a situação envolvendo a pandemia tenha melhorado minimamente, o mundo continuou (e continua) sofrendo com um vírus que ainda deve ficar um bom tempo entre nós. Ao meu ver, isso significa que nossas vidas continuarão sendo transformadas constantemente (e, às vezes, colocadas à prova, quando não de pernas para o ar). Por isso, sigo acreditando na resiliência como a virtude mais necessária para estes nossos tempos. É difícil fazer um balanço claro do ano quando tudo continua tão atípico e quando o mundo (e, mais especificamente, o Brasil) ainda nos atordoa com suas maluquices, mas, do meu lado, dentro do possível, 2021 valeu bastante a pena.

Como espectador, não poderia ter encerrado o ano de maneira mais interessante do que com uma dobradinha de Olivia Colman. Sou do time que considera seu Oscar por A Favorita uma preciosidade e a carreira trilhada por ela desde então uma das mais magníficas. Na TV, Olivia fez FleabagThe Crown, enquanto, no cinema, já garantiu uma segunda indicação ao Oscar pelo impressionante Meu Pai. Em 2021, agorinha aos 45 do segundo tempo, adiciona outra duas pérolas ao currículo: a minissérie Landscapersexibida no início de dezembro, e o longa-metragem A Filha Perdida, disponibilizado hoje, véspera de ano novo, na Netflix. São presentes incríveis de final de ano vindos de uma atriz que coleciona personagens singulares. Não deixem de conferir. Até 2022, queridos leitores!

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“Landscapers”, de Will Sharpe (minissérie, Sky/HBO)

This is a true story. E, logo após, apenas This is a story. Pode parecer a deixa mais simples do mundo, mas o letreiro que abre o primeiro dos quatro episódios da minissérie Landscapers diz muito sobre esse true crime que não se assemelha a qualquer outro visto nesta onda recente do “gênero” formada por produções inegavelmente espetaculares, como a minissérie brasileira O Caso Evandro (disponível na Globoplay), e outras tão inacreditáveis quanto incômodas, como The Act, antologia da Hulu que rendeu um Emmy de melhor atriz coadjuvante para a ótima Patricia Arquette.

A abertura é sugestiva não porque, assim como outros trabalhos ficcionais, Landscapers ajuste fatos para fins dramáticos, e sim porque de fato sabemos muito pouco sobre o que realmente aconteceu com Susan e Christopher Edwards, casal sentenciado a 25 anos de prisão por ter arquitetado o assassinato dos pais de Susan e depois enterrado os corpos no jardim da casa onde as vítimas viviam. Susan e Christopher esconderam este segredo por 15 anos, além de falsificarem cartas e outros documentos para indicar que os pais de Susan ainda estavam vivos, viajando pelo mundo. O casal clama inocência até os dias de hoje e sustenta uma versão onde apenas Susan teria alguma culpa, limitada à morte da mãe.

Como se não bastasse o fato das autoridades nunca terem conseguido arrancar qualquer confissão de Susan e Edwards que corroborasse a versão pela qual foram condenados, ambos são extremamente polidos, educados, afetuosos e fieis um ao outro. Vendo de fora e sem prova alguma, é difícil acreditar no que eles possam ter feito. E é por isso que estamos falando de uma true story: sem depoimentos e confissões para tomar como base, resta somente o exercício da imaginação ao roteirista Ed Sinclair, que opta pelo caminho interessante de dimensionar muito mais a relação dos protagonistas do que o crime em si. 

A gênese do relacionamento entre Susan e Christopher está no não pertencimento. Landscapers lança olhar sobre duas pessoas muito calejadas em diferentes níveis e que, quando se encontram, desobrem uma razão para viver, mesmo que em um mundo alheio à vida real, construído por eles próprios, um em que eles possam sobreviver sendo quem são. A minissérie compreende o poder da ilusão deste mundo particular ao explorar as múltiplas alternativas que ele pode apresentar para os fatos. Na cabeça de Susan e Christopher, nada é tão objetivo assim, muito menos na versão trabalhada incansavelmente pela polícia.

De certa forma, Landscapers pode ser um estudo sobre até onde um amor pode ir quanto testado. É convincente e comovente como Christopher (David Thewlis) repete o quanto ele não pode decepcionar Susan por ela ser uma pessoa muito frágil, esperando que as autoridades peguem mais leve ou sejam mais compreensíveis somente por terem essa informação. Não se trata de teatro: em tudo que Landscapers captura do cotidiano do casal, ambos se tratam com imenso carinho e respeito. O que tais sentimentos significam é outra história.

Engana-se, entretanto, quem supõe que a minissérie romantize criminosos ou procure justificativas para seus atos. É, na verdade, um outro olhar — mais complexo e provocador — para defender a ideia de que nada é tão reducionista quanto as pessoas estão acostumadas a acreditar quando se deparam com a figura de um assassino. E tudo se potencializa na dupla de atores que dá vida aos personagens. Olivia Colman e David Thewlis dão uma verdadeira aula de interpretação, com momentos impressionantes juntos ou separados em cena. Eles mergulham em todo tipo de sentimento de uma jornada que não soa condizente ou justa para o mundo paralelo dos personagens. Temos aqui nada menos do que uma construção brilhante de dois grandes atores.

O roteiro de Landscapers é o primeiro da carreira de Ed Sinclair, marido de Olivia Colman, algo bastante surpreendente tendo em vista as tantas camadas e especificidades do texto. Contudo, ele não está sozinho atrás das câmeras: a direção de Will Sharpe, realizador de carreira curta até aqui, joga com imaginação, realidade, estilo e boas ideias aproveitando elementos da paixão de Susan pelo cinema e, eventualmente, adotando uma linguagem bastante teatral para trabalhar as reconstituições do crime. Mesmo no que evoca como conclusão, há incertezas e improbabilidades em Landscapers, o que pode ser a principal razão para se encantar ou se frustrar com o resultado.

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“A Filha Perdida”, de Maggie Gyllenhaal (Netflix)

Quando confrontada sobre uma de suas tantas atitudes tomadas a partir de razões aparentemente indecifráveis, Leda (Olivia Colman) diz que ela própria não sabe explicar por que fez o que fez. Este momento é a melhor síntese possível — se é que ela pode existir — de A Filha Perdida, estreia da atriz Maggie Gyllenhaal como diretora. Durante cerca de duas horas, Leda se revela uma personagem complexa, nuançada, compulsiva e imprevisível. Sem tentar necessariamente explicá-la, a adaptação do livro de Elena Ferrante propõe uma meditação sobre as múltiplas e incômodas camadas de uma protagonista em um grande entrave com seus próprios traumas — todos ainda muito vivos na personagem, traduzidos em impulsos muita vezes incompreensíveis.

Atriz talentosíssima, Maggie Gyllenhal foi ousada ao escolher A Filha Perdida como seu trabalho de estreia atrás das câmeras. Há, primeiro, toda a expectativa em cima de uma adaptação da célebre e enigmática Elena Ferrante, autora italiana cuja identidade é desconhecida do público e que colocou como condição a escolha de uma mulher para dirigir o filme na negociação da cessão dos direitos de adaptação. E, segundo, A Filha Perdida é, por si só, em sua versão cinematográfica, uma experiência enredada sentimentalmente, complexa em termos de prosa e com uma narrativa complicada de ser transposta para o cinema. É admirável a coragem de Maggie ao abraçar o projeto e, mais ainda, o seu talento para também escrever ela própria o roteiro, entrelaçando as tantas discussões propostas por Ferrante em uma estrutura de idas e vindas no tempo.

Muito resumidamente, A Filha Perdida abrange o período de férias de uma professora universitária cuja tranquilidade é abalada por memórias que vêm à tona a partir de um encontro à beira-mar. Passado e presente colidem em um drama psicológico imerso em tensão, ainda que não saibamos exatamente qual. O que, para alguns, pode ser uma mera problemática da vida cotidiana, para Ferrante, é trauma. E por que as escolhas difíceis e exaustivas do nosso dia a dia não haveriam de ser? Gota a gota, o filme desembrulha uma protagonista em suas incontáveis camadas, ao ponto de toda a situação ser muito mais atribulada do que imaginávamos quando o filme começou.

Como um homem, nunca terei qualquer noção sobre como é viver as turbulências maternas, mas fui provocado pelas discussões evocadas por A Filha Perdida sobre tudo o que não é dito ou mostrado em relação ao papel de uma mãe, especialmente no que tange as habilidades e os comportamentos cobrados pela sociedade. Trata-se de um raro (e necessário) caso de filme que dá voz inclusive a pensamentos ruins envolvendo esse momento da vida de uma mulher, algo que Lynne Ramsay já havia discutido, com semelhante teor, no poderoso Precisamos Falar Sobre o Kevin. Vale, aliás, perceber como ambos os longas abordam o incômodo materno através de simbologias bastante interessantes. Ao passo que Ramsay inunda a tela com o vermelho pulsante de tintas, cores e tomates, Gyllenhaal esmiúça, por exemplo, tudo o que pode ser interpretado a partir da função de uma boneca na criação de meninas. Não por acaso, os dois longas são dirigidos por mulheres.

Assim como no livro, acompanhamos cenas pontuais da vida de Leda quando mais jovem, artifício que nem sempre funciona, seja no material original ou na adaptação. Em ambos os formatos, os flashbacks interrompem um pouco o fluxo da trama, mesmo que essenciais ao que estamos acompanhando. Talvez esse pudesse ser um ponto passível de inovação por parte de Maggie como roteirista, que, bastante reverente ao texto de Ferrante, faz ajustes pontuais na adaptações, mas nenhum fora da curva. Embora ainda não demonstre ser uma cineasta necessariamente criativa ou estética, Maggie é exímia ao construir atmosfera, munida de uma tensão constante, intrigante e que, em boa parte dos casos, não consegue nem ser ensaiada por outros filmes que necessitam dela, como os suspenses assumidos. Se esse não é um belo atestado de que encontramos uma diretora promissora, difícil saber qual é.

Por ser atriz, é muito natural que Maggie dê atenção especial ao elenco, começando por mais um trabalho extraordinário de Olivia Colman. Com uma capacidade muito natural de elevar seus próprios padrões a cada trabalho, Olivia dá um show ao assumir um papel centrado não em diálogos ou exposições, mas sim em expressões e silêncios. Leda é uma esfinge muito em função da atriz, que navega pela imprevisibilidade da personagem através de uma interpretação enigmática. Ao passo que Dakota Johnson lhe faz uma boa dupla na narrativa presente, Jessie Buckley é maravilhosa ao dar vida à versão mais jovem da protagonista. Atriz em ascensão, Buckley alcança o devido grau de profundidade aos flashbacks que, como já mencionado, podem soar, vez ou outra, como interrupções não tão bem sucedidas.

Pragmaticamente falando, é fácil listar os temas abordados em A Filha Perdida: maternidade, abandono, infidelidade, diferenças e semelhanças entre gerações, o efeito do tempo, traumas, remorsos… E ainda é pouco para traduzir em palavras. Tão truncado quanto carregado de nuances, o longa dificilmente se define em explicações fáceis, e é o caso de experiência que, em diferentes níveis, ainda será pauta de muitas conversas. Não creio que seja papel de cineastas, autores ou artistas de qualquer natureza explicarem suas obras ou dar pitacos sobre como outras pessoas devem encarar suas obras, mas, no caso específico de A Filha Perdida, lamento muito que Elena Ferrante seja uma autora reclusa e de identidade desconhecida, pois daria tudo para saber o que ela tem a dizer sobre essa excelente adaptação.