Três atores, três filmes… com Thiago Kistenmacker

trestiagokÉ revigorante encontrar profissionais do cinema que, apesar das adversidades vividas atualmente no Brasil em muitos aspectos, seguem acreditando no poder transformador da arte e batalhando para que múltiplas vozes sejam ouvidas por meio dos filmes. Recentemente, conheci o Thiago Kistenmacker, cineasta vencedor do Kikito de melhor montagem por Aquarela, membro da Academia Brasileira de Cinema e que se enquadra exatamente nesta definição. Apaixonado por seu ofício, ele apresentou, no último Festival de Cinema de Gramado, o curta-metragem Memória de Quem (Não) Fui, uma excelente crônica sobre identidade, gênero e a família que temos (ou, principalmente, a que escolhemos ter). Sou suspeito para falar porque estive na comissão que selecionou o curta do Thiago para a competição, mas ali realmente está o tipo de voz que nosso cinema precisa. De Fernanda Montenegro a Paulo Gustavo, ele também encontrou espaço para Jamie Lee Curtis na coluna, agrupando obras de drama, comédia e terror em escolhas bastante plurais e, claro, pessoais. Valeu, Thiago!


Sempre fico fascinado com pessoas que conseguem apontar facilmente qual é o seu filme, ator ou diretor favorito. Quando mais novo, era fácil eu definir rápido assim, mas o status de “favorito” hoje me soa definitivo demais. Nós mudamos, o mundo muda, filmes novos saem. Quando a gente aponta algo “inesquecível” há ainda mais peso nessa atribuição. Passei as últimas duas semanas debatendo internamente se compilaria uma lista de interpretações inesquecíveis para mim ou para um consenso acadêmico de cinema. Sinto que o consenso acadêmico é achado em qualquer lista no Google, então decidi me desprender e ser 100% pessoal. Então, essas são as performances que o Thiago de 2021 considera as mais inesquecíveis.

Fernanda Montenegro (Central do Brasil)
Sei que essa interpretação já foi citada mais de uma vez, mas eu não consigo pensar em compilar uma lista sem Fernanda Montenegro como Dora. Central do Brasil é uma referência do nosso cinema e de sua potência. Eu poderia citar outras performances incríveis da Fernanda, como A Falecida e Eles Não Usam Black-tie, mas, toda vez que eu penso na atriz, automaticamente a trilha de Central do Brasil surge no fundo do meu ouvido. Essa interpretação não só sobreviveu ao teste do tempo como parece que ganhou ainda mais força — se é possível — na sua reverberação. Não tive a chance de viver o impacto de Central do Brasil no seu lançamento, pois era uma criança na época. Talvez eu tenha essa perspectiva de que o filme só se valoriza com o tempo porque tenho uma relação razoavelmente recente com ele. Aqui Fernanda está absolutamente impecável em todas as nuances, manipulando o espectador a amar, odiar, rir e chorar com Dora, dosando perfeitamente entrega e domínio. É irônico que o filme termine com a personagem pedindo que seu parceiro de cena não a esqueça, porque nós, como público, definitivamente nunca a esqueceremos.

Jamie Lee Curtis (Halloween, 1978 e 2018)
Halloween, de 1978, é uma referência do terror. O orçamento era tão baixo que os créditos do longa apresentam cerca de 12 profissionais de equipe técnica, e os bastidores dependiam da colaboração do elenco para tarefas como pintar cenários. Os envolvidos não imaginavam que, 40 anos depois, haveria uma franquia. Dito isso, tenho consciência de que Jamie Lee Curtis protagoniza o filme ainda imatura como atriz. Trata-se de uma performance irregular em técnica e que traduz alguns maneirismos que não sobreviveram ao tempo, mas esses fatores não tornam sua Laurie Strode menos icônica. A personagem é a primeira “final girl” (protagonista feminina que luta e sobrevive ao terror de seus filmes), e a atriz definiu características de performance que seriam replicadas à exaustão nos filmes de terror dos anos 1980 e 1990. No primeiro filme, Jamie Lee Curtis criou uma personagem pela qual o público torce e traduziu, na continuação de 2018, todo o trauma dos eventos de 40 anos atrás, dessa vez com domínio técnico sobre sua atuação e influência assumida no roteiro. Nessa leitura, eu considero os dois filmes. Jamie Lee Curtis criou história no terror e habitou a juventude de muitos. Inclusive a minha.

Paulo Gustavo (Minha Mãe é Uma Peça)
Eu assisti à peça original em um teatro aqui do subúrbio do Rio. Na época, eu não acessava teatros com frequência, muito pela distância geográfica deles, e essa foi uma das poucas peças de grande repercussão que alcançou meu território quando eu tinha meus 17 anos. Anos depois, o filme saiu, e eu fiquei feliz em ver as salas de cinema cheias com um produto nacional. Mais adiante, em algum momento, eu me vi seguindo, como cineasta, uma rota diferente da que Paulo Gustavo seguia. Às vezes, a gente sente que é obrigado a levar as coisas a sério demais pela seriedade em que as coisas se encontram. Mas a realidade é que, toda vez que algo da dona Hermínia chegava até mim, eu ria. Assim, o principal objetivo Paulo Gustavo como ator de comédia era atingido. E o público não apenas riu com a dona Hermínia. O filme também emocionou muita gente que a abraçava pelo seu reflexo afetuoso de tantas mães. Com alguns sacrifícios, ele sensibilizou, em drag, muita gente preconceituosa que, se não fosse por sua performance, nunca veriam nada além do homem gay de peruca e vestido. Sinto que a gente cai no erro de não encarar performances de comédia como performances com demandas tão complexas quanto as enraizadas num realismo dramático. E, montando essa lista, ele não poderia estar de fora. A Dona Hermínia de Paulo Gustavo de fato é uma personagem que não se apagará da nossa memória coletiva.

Menções honrosas que quase entraram para o corte final: Leandro Firmino da Hora (Cidade de Deus), Meryl Streep (O Diabo Veste Prada) e Tim Curry (The Rocky Horror Picture Show).

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