Cinema e Argumento

Os vencedores do Emmy 2021

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Com a vitória por Hacks, Jean Smart é a única atriz, ao lado de Betty White, a já faturar os prêmios de melhor protagonista, coadjuvante e convidada em série de comédia na história do Emmy.

Quando apresentou sua lista de indicados, o Emmy 2021 nos fez celebrar a marca do maior número de pessoas negras já selecionadas para concorrer ao prêmio. Já ontem, ao revelar seus vencedores, o gosto deixado foi amargo: nenhum deles venceu entre interpretações de drama, comédia e minissérie. E não foi por falta de oportunidade. Pelo contrário. Na pior cerimônia dos seus anos recentes, o Emmy demonstrou que só assistiu a uma meia dúzia de seriados, premiando-os até mesmo em que categorias sem qualquer justificativa, como na de melhor ator coadjuvante, onde Tobias Menzies levou a estatueta por The Crown sem sequer ter material na temporada para fazer algo significativo. A derrota do agora saudoso Michael K. Williams por Lovecraft Country certamente foi um dos maiores choques da noite.

Por falar nisso, o cômodo lugar assumido pelo Emmy ao premiar The Crown em todas as categorias possíveis é de um descompasso gigantesco. Sinais já haviam sido dados na semana passada, quando Claire Foy faturou a estatueta de melhor atriz convidada em drama por sua participação em um flashback que, caso retirado da série, não faria falta alguma. E o comportamento dos votantes realmente se confirmou: The Crown ganhou todas as categorias principais em que concorria, incluindo roteiro e direção, além de cada uma de interpretação, feito que nem séries icônicas e historicamente celebradas como Six Feet UnderThe SopranosMad Men jamais conseguiram. Uma pena que esse marco tenha sido alcançado por puro acaso e mediante equívocos. Contudo, não me interpretem mal: a quarta temporada deste programa que finalmente deu o prêmio de melhor série para a Netflix é a melhor até agora, o que, ainda assim, não justifica os prêmios entregues de forma desenfreada e irrestrita.

Nos segmentos de comédia e minisséries, a lógica foi basicamente a mesma, com um leque um tantinho maior de opções. Ted Lasso ganhou melhor série de comédia, enquanto Hacks levou os prêmios de melhor direção, roteiro e atriz, algo que, ao meu ver, não faz muito sentido: como é possível um seriado ter a melhor direção e o melhor roteiro, dois aspectos centrais de qualquer obra audiovisual, e simplesmente não ser a melhor série? No mais, todas as palmas do mundo para a consagração de Jean Smart, uma atriz que, aos 70 anos, vive o grande momento da sua carreira com papeis coadjuvantes de séries importantes dos últimos anos (FargoWatchmen) e agora com um protagonismo à altura do seu grande talento. Por fim, a vitória de The Queen’s Gambit como melhor minissérie foi um banho de água fria após a consagração de Michaela Coel em melhor roteiro com I May Destroy You e a de Mare of Easttown em atriz, atriz coadjuvante e ator coadjuvante. A seleção de minisséries com certeza merecia um desfecho melhor na premiação.

Confira abaixo a lista de vencedores:

MELHOR SÉRIE DE DRAMA: The Crown
MELHOR ATRIZ EM SÉRIE DE DRAMA: Olivia Colman (The Crown)

MELHOR ATOR EM SÉRIE DE DRAMA: Josh O’Connor (The Crown)
MELHOR ATRIZ COADJUVANTE EM SÉRIE DE DRAMA: Gillian Anderson (The Crown)
MELHOR ATOR COADJUVANTE EM SÉRIE DE DRAMA: Tobias Menzies (The Crown)
MELHOR DIREÇÃO EM SÉRIE DE DRAMA: Jessica Hobbs (The Crown), pelo episódio “War”
MELHOR ROTEIRO EM SÉRIE DE DRAMA: Peter Morgan (The Crown), pelo episódio “War”

MELHOR SÉRIE DE COMÉDIATed Lasso
MELHOR ATRIZ EM SÉRIE DE COMÉDIA: Jean Smart (Hacks)
MELHOR ATOR EM SÉRIE DE COMÉDIA: Jason Sudeikis (Ted Lasso)
MELHOR ATRIZ COADJUVANTE EM SÉRIE DE COMÉDIA: Hannah Waddingham (Ted Lasso)
MELHOR ATOR COADJUVANTE EM SÉRIE DE COMÉDIA: Brett Goldstein (Ted Lasso)
MELHOR DIREÇÃO EM SÉRIE DE COMÉDIA: Lucia Aniello (Hacks), pelo episódio “There is No Line”
MELHOR ROTEIRO EM SÉRIE DE COMÉDIA: Lucia Aniello, Paul W. Downs e Jen Statsky (Hacks), pelo episódio “There is No Line”

MELHOR MINISSÉRIE: The Queen’s Gambit
MELHOR ATRIZ EM MINISSÉRIE/TELEFILME: Kate Winslet (Mare of Easttown)
MELHOR ATOR EM MINISSÉRIE/TELEFILME: Ewan McGregor (Halston)
MELHOR ATRIZ COADJUVANTE EM MINISSÉRIE/TELEFILME: Julianne Nicholson (Mare of Easttown)
MELHOR ATOR COADJUVANTE EM MINISSÉRIE/TELEFILME: Evan Peters (Mare of Easttown)
MELHOR DIREÇÃO EM MINISSÉRIE: Scott Frank (The Queen’s Gambit)
MELHOR ROTEIRO EM MINISSÉRIE: Michaela Coel (I May Destroy You)

Apostas para o Emmy 2021

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Na cerimônia que tem tudo para ser a mais desinteresse dos últimos anos, o Emmy tem pouco a fazer com uma lista que apenas estendeu o número de indicações de séries já normalmente reconhecidas. Com a ausência de SuccessionOzarkThe Marvelous Mrs. Maisel, por exemplo, os votantes basicamente terão que se dividir entre o claro domínio de The Crown entre os dramas (será que a Netflix finalmente levará o prêmio de melhor série) e de Ted Lasso entre as comédias. O jogo mais interessante está, a exemplo das últimas edições, nas minisséries, que tem produções marcantes da última temporada como Mare of EasttownI May Destroy You. A cerimônia será transmitida a partir das 21h (horário de Brasília) pelo canal TNT. Confira abaixo a nossa lista de apostas para as categorias principais nos segmentos de drama, comédia e minissérie.

MELHOR SÉRIE DE DRAMA: The Crown / alt: The Handmaid’s Tale
MELHOR ATRIZ EM SÉRIE DE DRAMA: Uzo Aduba (In Treatment) / alt: Emma Corrin (The Crown)

MELHOR ATOR EM SÉRIE DE DRAMA: Billy Porter (Pose) / alt: Josh O’Connor (The Crown)
MELHOR ATRIZ COADJUVANTE EM SÉRIE DE DRAMA: Gillian Anderson (The Crown) / alt: Aunjanue Ellis (Lovecraft Country)
MELHOR ATOR COADJUVANTE EM SÉRIE DE DRAMA: Michael K. Williams (Lovecraft Country) / alt: Bradley Whitford (The Handmaid’s Tale)
MELHOR SÉRIE DE COMÉDIATed Lasso / alt: Hacks
MELHOR ATRIZ EM SÉRIE DE COMÉDIA: Jean Smart (Hacks) / alt: Kaley Cuoco (The Flight Attendant)
MELHOR ATOR EM SÉRIE DE COMÉDIA: Jason Sudeikis (Ted Lasso) / alt: Kenan Thompson (Kenan)
MELHOR ATRIZ COADJUVANTE EM SÉRIE DE COMÉDIA: Hannah Einbinder (Hacks) / alt: Juno Temple (Ted Lasso)
MELHOR ATOR COADJUVANTE EM SÉRIE DE COMÉDIA: Kenan Thompson (Saturday Night Live) / alt: Carl Clemons-Hopkins (Hacks)
MELHOR MINISSÉRIE: Mare of Easttown / alt: I May Destroy You
MELHOR ATRIZ EM MINISSÉRIE/TELEFILME: Kate Winslet (Mare of Easttown) / alt: Anya Taylor-Joy (The Queen’s Gambit)
MELHOR ATOR EM MINISSÉRIE/TELEFILME: Ewan McGregor (Halston) / alt: Hugh Grant (The Undoing)
MELHOR ATRIZ COADJUVANTE EM MINISSÉRIE/TELEFILME: Kathryn Hahn (WandaVision) / alt: Julianne Nicholson (Mare of Easttown)
MELHOR ATOR COADJUVANTE EM MINISSÉRIE/TELEFILME: Evan Peters (Mare of Easttown) / alt: Paapa Essiedu (I May Destroy You)

49º Festival de Cinema de Gramado #2: “Para o Brasil se (re)conhecer” (ou uma reflexão sobre a escolha dos curtas brasileiros)

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Reunião de seleção dos curtas-metragens brasileiros do 49º Festival de Cinema de Gramado.

Aproximando-se de um emblemático aniversário de 50 anos, o Festival de Cinema de Gramado realiza, entre os dias 13 e 21 de agosto, a sua 49ª edição, mais uma vez em formato híbrido, com transmissões pelo Canal Brasil e por streaming, devido às restrições que ainda vivemos em função da pandemia do Coronavírus. Mais do que celebrar a histórica resistência de um festival que nunca deixou de acontecer apesar de adversidades das mais diferentes naturezas, é importante constatar que, ao completar 49 anos, Gramado segue refletindo a força comovente de um cinema brasileiro que, nos últimos anos, vem sendo desprezado e vilipendiado pelas políticas (ou falta delas) em curso no país.

Digo que tal resistência do cinema brasileiro está representada em Gramado porque isso se reflete na lista de filmes selecionados para a edição 2021. O Brasil segue produzindo, apesar dos pesares. E pude fazer essa constatação ainda mais de perto este ano, quando fui convidado pela organização do evento a integrar a comissão responsável por selecionar os curtas-metragens brasileiros que disputarão o Kikito. Honra gigante. Responsabilidade à altura. E um exercício dos mais instigantes. Afinal, o que levar em consideração na hora de mergulhar em um universo com centenas de curtas-metragens inscritos? Não há fórmula. E é aí que está o fascínio.

Junto a Jaqueline Beltrame, Milena Moura e Thaís Cabral, tive a oportunidade de explorar, a partir dos títulos aptos a avaliação, gêneros e temáticas variadas, trabalhadas pelos mais diferentes realizadores em todos os cantos do país. Em que pese a bagagem, a identificação e as preferências cinematográficas de cada um de nós da comissão, buscamos selecionar 14 filmes que contemplassem o Brasil em que vivemos. Esse mesmo: plural e tão único, iluminado e sofrido, cambaleante e capaz de recobrar forças. Nada mais justo para uma sociedade que merece sempre se ver representada na tela, com suas qualidades e imperfeições. A meu ver, esse foi o ponto de partida do nosso trabalho, o que me deixa muito feliz, já que cinema também serve para ser o registro histórico e a eternização da identidade cultural, social e política de um país.

Outros dois aspectos nos bateram muito forte como critério: a pluralidade de regiões onde os filmes foram produzidos, tentando escapar da massiva e inevitável predominância do eixo Rio-São Paulo, e a representatividade feminina atrás das câmeras (aliás, os dois curtas escolhidos para representar o nosso Rio Grande do Sul são dirigidos por mulheres: Desvirtude, de Gautier Lee, e Eu Não Sou Um Robô, de Gabriela Lamas). Ainda há nessa mistura comédia, drama, documentário, animação e exercícios experimentais de narrativa e estilo. Engana-se, no entanto, quem pensa que essa é uma seleção de “cotas”, como se tivéssemos categorizado as vagas que gostaríamos de preencher, inclusive porque seria uma frustração, já que não foram poucos os títulos deixados de fora e cujas discussões gostaríamos de levar a Gramado. Nunca deixamos de lado o olhar tão fundamental para a excelência e a qualidade inerentes a filmes merecedores de estarem em Gramado

Inevitavelmente, os dias de trabalho trouxeram frustrações, todas muito naturais em qualquer processo semelhante a esse. E elas estão concentradas, claro, naqueles títulos que cada um de nós quatro da comissão gostaria de ter colocado na lista final, mas que não eram unânimes ou que, então, não estavam alinhados aos conceitos abraçados pelo nosso perfil curatorial. Espero que esses filmes possam encontrar seu espaço nos outros tantos festivais realizados no Brasil e que bravamente também seguem resistindo. Em contraponto a essa pequena lamentação, trago um aprendizado dos mais interessantes: acredite, tudo pode acontecer entre o primeiro e o último dia de seleção. É bastante surpreendente constatar, por exemplo, que diversos curtas selecionados por nós de forma unânime e aclamada em uma primeira discussão simplesmente não chegaram ao corte final, por uma série de razões, enquanto um ou outro mais divisivo foi incluído no grupo (obviamente não vou revelar, mas houve até um certo filme que bati pé para não entrar e acabei cedendo nos momentos finais porque era coerente com o nosso conjunto).

Por fim, não poderia deixar de destacar o quanto a honra de ter sido escolhido para participar da seleção ganha novos contornos em tempos pandêmicos. Através do formato híbrido, estamos falando de um Festival de Cinema de Gramado que chega a todos os estados brasileiros e até mesmo a públicos que, em certos casos, jamais poderiam ir presencialmente à Serra Gaúcha para acompanhar o evento. Imaginem a responsabilidade de entrar na casa das pessoas com esses filmes! Como alguém que acredita no poder transformador e educativo do cinema (não em um sentido didático, mas sim no que ele pode representar e comunicar como exercício ou entretenimento para as mais diferentes plateias), creio que, por meio dos curtas-metragens selecionados, levaremos para as telas histórias em que o Brasil possa se (re)conhecer e se questionar. Tenho meus favoritos do coração, mas isso é assunto para mais tarde, quando vocês também puderem desbravar a a lista de selecionados. Nos encontramos nos filmes, combinado?

* Texto produzido originalmente para o portal Melhor do Sul

Apostas para o Oscar 2021 (e também palpites, impressões e preferências acerca dos indicados)

Naquele que é, possivelmente, o ano mais atípico em toda a trajetória do Oscar, não faltaram filmes para todos os gostos. A pandemia pode ter afetado o calendário da temporada, mas não a qualidade geral dos filmes selecionados, considerando as devidas proporções, claro. Há pelo menos três longas indicados na categoria principal que já moram no meu coração, algo realmente muito raro de acontecer: Nomadland, Meu Pai e O Som do Silêncio. Muito diferentes entre si, Minari e Judas e o Messias Negro são dois ótimos relatos que, da técnica à emoção, transitam entre a delicadeza e energia, respectivamente. No mais, ainda que eu não seja fã de Bela Vingança e muito menos menos de Mank e Os 7 de Chicago, fica nítido que os três filmes reúnem torcidas e entusiastas, especialmente o primeiro. Hoje à noite, a partir das 21h, saberemos qual deles leva a melhor. Tudo leva a crer que o jogo está ganho para Nomadland, assim como já esteve para Boyhood, La La Land, Três Anúncios Para Um Crime e 1917, todos derrotados de última hora no Oscar. Ou seja, é prudente não descartar uma possível surpresa na categoria principal, inclusive porque o sistema de votação do Oscar para melhor filme se distingue do processo das demais premiações.

Nomadland é o favorito absoluto da categoria de melhor filme. Entretanto, vale sempre considerar a capacidade da Academia de surpreender.

Como forma de aquecimento para a cerimônia, faço aqui o meu ligeiro balanço das categorias principais e técnicas, começando, claro, com melhor filme, uma categoria bastante harmônica, talvez uma das mais equilibradas dos últimos anos. O favorito, repito, é Nomadland, que não perdeu um prêmio sequer nesta temporada, seja em sindicados ou em premiações televisionadas. E é difícil discordar: o que Chloé Zhao faz nesse filme é de uma delicadeza imensa. Lindo de ver e de sentir, Nomadland constrói uma ficção de contornos documentais para refletir sobre o íntimo e o coletivo de pessoas que resolveram largar tudo para viver na estrada, refletindo a realidade de diversas questões políticas e sociais dos Estados Unidos que são perfeitamente identificáveis em todos os cantos do mundo. De sofisticação equivalente, Meu Pai de Florian Zeller foi a grande surpresa da lista por fazer algo raro de se ver: a transposição de uma peça de teatro para o cinema sem qualquer vício ou linguagem dos palcos. Seria justo — e não necessariamente surpreendente — se esse filme performasse melhor do que o esperado na cerimônia. No entanto, meu sinal de alerta é para Os 7 de Chicago, dirigido pelo adorado Aaron Sorkin e que atende todos os pré-requisitos do público que adora um filme mais acadêmico e comportado.

Se a categoria de melhor filme tem um favorito claro seguido de outras possibilidades, o mesmo não acontece em melhor direção, onde o jogo já está ganho para Chloé Zhao. É para apostar de olhos fechados: ela será, sim, a segunda mulher a vencer o Oscar de direção em quase 100 anos de Oscar, fazendo par com Kathryn Bigelow, vencedora em 2010 por Guerra ao Terror. Essa categoria nos reservou uma das mais gratas surpresas da lista — a indicação de melhor direção para Thomas Vinterberg (Druk: Mais Uma Rodada) —, mas, em uma realidade paralela, a minha seleção teria dois ajustes: a substituição de David Fincher (Mank) por Florian Zeller (Meu Pai) e a de Emerald Fennell (Bela Vingança) por Regina King (Uma Noite em Miami…). Já entrando nas categorias de atuação, temos outra barbada: Daniel Kaluuya como melhor ator coadjuvante por Judas e o Messias Negro. Contesto radicalmente: Kaluuya está mais uma vez excelente, o que não justifica o redimensionamento de seu posto de protagonista a coadjuvante pelos prêmios, assim como acontece com o seu colega Lakeith Stanfield, também indicado. É preciso refutar esse tipo de fraude, o que me leva a torcer por Paul Raci com sua delicada performance em O Som do Silêncio. Situação semelhante de favoritismo vive Yuh-Jung Youn em melhor atriz coadjuvante com Minari. Além de ser uma coadjuvante — coisa que Maria Bakalova (Borat: Fita de Cinema Seguinte) e Olivia Colman (Meu Pai) não são —, ela dá um baile em Glenn Close (Era Uma Vez Um Sonho) e Amanda Seyfried (Mank).

Extraordinário em Meu Pai, Anthony Hopkins concorre a melhor ator. Caso aconteça, sua vitória seria uma das mais merecidas do Oscar 2021 (e das últimas décadas categoria).

Entre os protagonistas, a situação é mais embaralhada, quando não deliciosamente caótica, como é o caso de melhor atriz. Para quem chegou de última hora, a matemática explica: Andra Day (Estados Unidos vs. Billie Holiday) venceu o Globo de Ouro, Carey Mulligan (Bela Vingança) levou a melhor no Critics Choice, Viola Davis (A Voz Suprema do Blues) se consagrou no Screen Actors Guild Awards, Frances McDormand (Nomadland) faturou o BAFTA e Vanessa Kirby traz na bagagem o prêmio de melhor atriz no Festival de Veneza, que já antecipou prêmios como os de Olivia Colman (A Favorita) e Emma Stone (La La Land). É muito simples: faça unidunitê para fazer a sua aposta, pois todas têm narrativa para vencer nessa seleção bastante equilibrada. A versão que eu abraço é a de Frances McDormand, por ela estar maravilhosa em Nomadland, por ser o rosto absoluto do filme de Chloé Zhao e por protagonizar o grande favorito da temporada. Em melhor ator, o jogo parecia ganho até pouco tempo atrás para Chadwick Boseman (A Voz Suprema do Blues), em um prêmio mais de homenagem do que de merecimento, mas as duas derrotas consecutivas que ele sofreu nas últimas premiações (BAFTA e Independent Spirit Awards) parecem abrir caminho para o vencedor moral da categoria: Anthony Hopkins, em desempenho extraordinário. Particularmente, antes de Boseman e como segundo na fila, ainda prefiro Riz Ahmed, que tem, em O Som do Silêncio, uma virada de jogo na carreira.

Inclinado pela minha afeição a Meu Pai, acredito que a vitória de Anthony é possível porque também me parece que o filme de Florian Zeller tem chances em outras categorias, como melhor roteiro adaptado, uma vez que a adaptação é mesmo fantástica e que talvez os votantes entendam que o roteiro de Nomadland seja mais fruto do acaso e das histórias de pessoas reais que aparecem no filme do que de uma escrita de Chloé Zhao. Enquanto isso, em melhor roteiro original, Emerald Fennell deve receber a estatueta por Bela Vingança, garantindo a cota do filme na tendência distributivista adotada pelo Oscar nos últimos anos. Entretanto, vale sempre a pena ficar de olho em Aaron Sorkin (Os Sete de Chicago), autor de um roteiro que cai como uma luva para o gosto dos votantes mais conservadores da Academia. Por falar em tendência distributivista, outras categorias já parecem definidas, como melhor figurino e melhor cabelo e maquiagem para A Voz Suprema do Blues, melhor trilha e melhor animação para Soul, melhor filme internacional para Druk: Mais Uma Rodada, melhor fotografia para Nomadland e melhor som para O Som do Silêncio. Nas demais, jogo dividido entre candidatos específicos, o que exige nossa intuição na hora de apostar. Enfim, era isso! Nos vemos logo mais para comentar os vencedores? Não esqueçam de me seguir no Twitter (@mathpann) onde comentarei a cerimônia ao vivo. Espero vocês!

APOSTAS

MELHOR FILME: Nomadland / alt: Os 7 de Chicago
MELHOR DIREÇÃO: Chloé Zhao (Nomadland) / alt: Emerald Fennell (Bela Vingança)
MELHOR ATRIZ: Frances McDormand (Nomadland) / alt: Viola Davis (A Voz Suprema do Blues)
MELHOR ATOR: Anthony Hopkins (Meu Pai) / alt: Chadwick Boseman (A Voz Suprema do Blues)
MELHOR ATRIZ COADJUVANTE: Yuh-jung Youn (Minari) / alt: Glenn Close (Era Uma Vez Um Sonho)
MELHOR ATOR COADJUVANTE: Daniel Kaluuya (Judas e o Messias Negro) / alt: Paul Raci (O Som do Silêncio)
MELHOR ROTEIRO ORIGINAL: Emerald Fennell (Bela Vingança) / alt: Aaron Sorkin (Os 7 de Chicago)
MELHOR ROTEIRO ADAPTADO: Christopher Hampton e Florian Zeller (Meu Pai) / alt: Chloé Zhao (Nomadland)
MELHOR FILME INTERNACIONAL: Druk: Mais Uma Rodada (Dinamarca) / alt: Quo Vadis, Aida? (Bósnia e Herzegovina)
MELHOR DOCUMENTÁRIO: Professor Polvo / alt: Crip Camp: Revolução Pela Inclusão
MELHOR ANIMAÇÃO: Soul / alt: Wolfwalkers
MELHOR TRILHA SONORA: Jon Batiste, Trent Reznor e Atticus Ross (Soul) / alt: Emile Mosseri (Minari)
MELHOR CANÇÃO ORIGINAL: Diane Warren e Laura Pausini, por “Io Sí (Seen)” (Rosa e Momo) / alt: Leslie Odom Jr. e Sam Ashworth, por “Speak Now” (Uma Noite em Miami…
MELHOR MONTAGEM: Alan Baumgarten (Os 7 de Chicago) / alt: E.G. Nielsen (O Som do Silêncio)
MELHOR DESIGN DE PRODUÇÃO: Donald Graham Burt (Mank) / alt: Peter Francis (Meu Pai)
MELHOR FOTOGRAFIA: Joshua James Richards (Nomadland) / alt: Erik Messerschmidt (Mank)
MELHOR FIGURINO: Ann Roth (A Voz Suprema do Blues) / alt: Trish Summerville (Mank)
MELHOR SOM: Carlos Cortés, Jaime Baksht, Michelle Couttolenc, Nicolas Becker e Phillip Bladh (O Som do Silêncio) / alt: Coya Elliott, David Parker e Ren Klyce (Soul)
MELHOR MAQUIAGEM & PENTEADOS: Jamika Wilson, Mia Neal e Sergio Lopez-Rivera (A Voz Suprema do Blues) / alt: Dalia Colli, Francesco Pegoretti e Mark Coulier (Pinóquio)
MELHORES EFEITOS VISUAIS: Andrew Jackson, Andrew Lockley, David Lee e Scott R. Fisher (Tenet) / alt: Chris Lawrence, David Watkins, Matt Kasmir e Max Solomon (O Céu da Meia-Noite)

Os vencedores do BAFTA 2021

Após vitória no Screen Actors Guild Awards, Yuh-Jung Youn também leva o BAFTA de atriz coadjuvante por Minari. Prêmio ajuda a desembaralhar uma categoria incerta até então.

Há uma certa contradição entre a lista de indicados e a lista de vencedores do BAFTA 2021, pois a segunda não necessariamente reflete a imensa diversidade da primeira e volta a reafirmar a vontade dos britânicos em apenas prever o Oscar. Sabemos onde está o gargalo dessa situação: enquanto os indicados das categorias de direção e interpretação tomam forma a partir do crivo de um júri cujo objetivo é garantir a diversidade do prêmio, os vencedores apenas refletem o lugar-comum quando os britânicos se veem obrigados a fazer uma única escolha por categoria, escapando da personalidade altamente fora da curva apresentada na lista de indicados.

O que vimos, portanto, foi Nomadland: Sobreviver na América faturar novamente os prêmios de filme e direção, garantindo de uma vez por todas o seu favoritismo absoluto, especialmente em um ano em que parece não existir qualquer candidato capaz de oferecer alguma ameaça. Idem para Daniel Kaluuya, que não perdeu prêmio algum nesta temporada como ator coadjuvante por Judas e o Messias Negro, o que não foi diferente no BAFTA. E até a vitória de Yuh-Jung Youn como atriz coadjuvante por Minari: Em Busca da Felicidade não vem como uma surpresa, visto que, na semana passada, o SAG já havia antecipado essa tendência.

Não se trata de questionar a excelência dos vencedores, até porque todos estão acima de qualquer suspeita, mas a autoralidade que veio pulsante na lista de indicadas não se fez presente entre os premiados. Era de se esperar que a categoria de melhor atriz, por exemplo, reservasse alguma surpresa que não a de Frances McDormand por Nomadland. Embalada pelo entusiasmo do BAFTA com o filme, Frances levou a melhor na categoria de melhor atriz, a mais imprevisível de todas, onde Carey Mulligan (Bela Vingança) e Viola Davis (A Voz Suprema do Blues) ficaram surpreendentemente de fora e onde quatro atrizes negras concorriam por papeis que iam da comédia ao terror. Talvez seja cedo esperar uma mudança de cultura tão rápida assim, mas houve a promessa…

Considerando os prêmios principais, o BAFTA só fugiu mesmo do esperado ao premiar Anthony Hopkins, extraordinário em Meu Pai. Não é surpreendente se levarmos em conta o carinho dos britânicos por Hopkins (essa é a quarta estatueta que ele vence!), mas sim se observarmos o domínio absoluto de Chadwick Boseman (A Voz Suprema do Blues) até então e toda a saudade em torno dessa celebração. Entre as categorias técnicas, repetiram-se também os prêmios para Soul (animação e trilha sonora), confirmaram-se outros já esperados (figurino e maquiagem para A Voz Suprema do Blues, design de produção para Mank) e alguns outros se revelaram como possíveis tendências para o Oscar (roteiro adaptado para Meu Pai, montagem para O Som do Silêncio).

Confira abaixo a lista de vencedores:

MELHOR FILME: Nomadland
MELHOR FILME BRITÂNICO: Bela Vingança
MELHOR DIREÇÃO: Chloé Zhao (Nomadland)
MELHOR ELENCO: Lucy Pardee (Rocks)
MELHOR ATRIZ: Frances McDormand (Nomadland)
MELHOR ATOR: Anthony Hopkins (Meu Pai)
MELHOR ATRIZ COADJUVANTE: Yuh-Jung Youn (Minari: Em Busca da Felicidade)
MELHOR ATOR COADJUVANTE: Daniel Kaluuya (Judas e o Messias Negro)
MELHOR ROTEIRO ORIGINAL: Emerald Fennell (Bela Vingança)
MELHOR ROTEIRO ADAPTADO: Christopher Hampton e Florian Zeller (Meu Pai)
MELHOR FILME EM LÍNGUA NÃO-INGLESA: Druk: Mais Uma Rodada (Dinamarca)
MELHOR DOCUMENTÁRIO: Professor Polvo
MELHOR ANIMAÇÃO: Soul
MELHOR TRILHA SONORA ORIGINAL: Jon Batiste, Trent Reznor e Atticus Ross (Soul)
MELHOR FOTOGRAFIA: Joshua James Richards (Nomadland)
MELHOR MONTAGEM: Mikkel EG Nielsen (O Som do Silêncio)
MELHOR DESIGN DE PRODUÇÃO: Donald Graham Burt e Jan Pascale (Mank)
MELHOR FIGURINO: Ann Roth (A Voz Suprema do Blues)
MELHOR MAQUIAGEM E PENTEADOS: Larry M. Cherry, Matiki Anoff, Mia Neal e Sergio Lopez-Rivera (A Voz Suprema do Blues)
MELHOR SOM: Carlos Cortés, Jaime Baksht, Michelle Couttolenc, Nicolas Becker e Phillip Bladh (O Som do Silêncio)
MELHORES EFEITOS VISUAIS: Andrew Jackson, Andrew Lockley e Scott Fisher (Tenet)
MELHOR ROTEIRISTA, DIRETOR OU PRODUTOR BRITÂNICO REVELAÇÃO: Remi Weekes (Roteiro e Direção), por O Que Ficou Para Trás
MELHOR CURTA-METRAGEM BRITÂNICO: The Present
MELHOR CURTA-METRAGEM BRITÂNICO DE ANIMAÇÃO: The Owl and the Pussycat
EE RISING STAR AWARD: Bukky Bakray

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