“Mass”, uma conversa muito franca (e com grandes interpretações) sobre luto, culpa e as complexidades parentais

You say you wanna heal. Is this how?

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Direção: Fran Kranz

Roteiro: Fran Kranz

Elenco: Reed Birney, Ann Dowd, Jason Isaacs, Martha Plimpton, Breeda Wool, Kagen Albright, Michelle N. Carter, Michael White, Campbell Spoor

EUA, 2021, Drama, 110 minutos

Sinopse: Dois casais se encontram para uma dolorosa conversa após uma violenta tragédia.

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Quatro personagens são o fio condutor da trama. O cenário se resume a uma pequena sala. Tudo se desenvolve por meio de diálogos. A lógica adotada é de um relato em tempo real. E, mesmo assim, Mass nunca parece um teatro filmado. Para além disso, o que se vê na tela sequer tem qualquer proximidade com os palcos nos bastidores, visto que o diretor e roteirista Fran Kanz idealizou o projeto desde sempre para o cinema. Certamente, Mass ainda será transposto muitas vezes para o teatro daqui para frente, e com toda razão: se a essência do texto tem vocação para esse formato, a firmeza de Kanz na cadeira de direção consolida o impacto que essa história terá em inúmeros espectadores mundo afora.

Abordado em outras diversas ocasiões, o tema espinhoso e difícil mais uma vez rende ricas análises. Se, em Precisamos Falar Sobre o Kevin e Tarde Demais, por exemplo, víamos pais tentando entender uma tragédia cometida por seus próprios filhos, em Mass a situação é mais complicada. O foco está no encontro específico entre dois casais: um deles, Linda (Ann Dowd) e Richard (Reed Birney), administra o rastro de destruição deixado por seu filho, enquanto o outro, Gail (Martha Plimpton) e Jay (Jason Isaacs), está despedaçado em consequência dos ato criminoso do menino.

Poucas situação são tão inimagináveis como essa, assim como angústias e os anseios envolvidos. De um lado, a busca por algum tipo de paz e o assombro de ter que viver com a ideia de um filho que não reconhecem mais. De outro, uma dor sem precedentes, capaz de de levar duas pessoas à loucura na ânsia de encontrar verdadeiros culpados e dar nomes a eles. Seja qual for a perspectiva, outro aspecto une os dois casais, e esse é o de que ambos nada mais fazem do que se empenhar em compreender uma pessoa que sequer está em cena e que revirou a vida de cada um deles pelo avesso.

Mass não deixa de remontar aos dilemas clássicos de um tema dessa natureza. Temas, aliás, eternamente pungentes e desesperadores por não terem respostas simples. Há o olhar para a figura do filho criminoso e das circunstâncias que podem ter contribuído para os seus atos (a depressão na infância, o deslocamento social na escola, o vício em videogames, o sentimento de não pertencimento), mas o debate envolvendo a criação dos filhos também é tão central quanto complexo. Afinal, qual o real tamanho da responsabilidade dos pais nos caminhos tortuosos tomados por seus filhos?

No que aproxima e separa quatro pais bastante diferentes, Mass calibra cada dilema colocando-os em colisão e em frente a incômodos espelhos. Há um abismo de diferença entre o que eles enxergam ou não de seus filhos e, principalmente, entre o que eles querem enxergar. Fran Kanz estimula o espectador a entender os dois lados, sem decretar culpa ou inocência, e a sentir todas as nuances trazidas por um luto bastante complexo. Ou seja, fácil e palatável Mass com certeza não é. Assim como a vida.

Penso muito na palavra martírio para definir a sensação trazida pelo filme, e não no sentido pejorativo. Kanz parte do princípio de que conversa encenada é muito necessária, mas que, talvez, ela possa nunca chegar a lugar algum, já que todos os personagens têm suas indiscutíveis razões. Não há necessariamente uma conclusão ou um acordo possível. Dores não podem ser colocadas em uma balança. E tudo orbita em torno de um ato já consumado. Nada do que se diga ou do que se faça pode mudar o ocorrido com aquelas quatro pessoas. É algo irreparável, para a vida inteira.

A dinâmica estabelecida em cena para colocar tais discussões na mesa é muito bem costurada pelo roteiro. Indo na contramão do que se apresenta em longas de natureza teatral, a situação não parece implausível, muito menos as razões que levam os personagens a debater temas tão difíceis e a ficar naquela sala durante cerca de 100 minutos. Mass é orgânico ao saltar de uma discussão para outra e ao desdobrar linhas de pensamento cada vez mais específicas, sempre alternando o foco entre cada um dos pais. Tamanha plausibilidade só contribui para a imersão da plateia, que se sente parte daquele encontro.

Ator de papeis pequenos e participações especiais em séries como Frasier e Homecoming, além de outros tantos longas-metragens, Kanz mostra seu carinho pelo trabalho de elenco conduzindo quatro performances maravilhosas em Mass. É difícil fazer comparativos aqui porque os atores assumem papeis muito distintos, com dilemas maleáveis de acordo com suas respectivas identidades. Todos estão em pé de igualdade em um trabalho complementar e carregado de sinergia. Reservo, entretanto, um breve espaço para registrar minha reverência às atrizes, que, no próprio cinema como um todo, sempre me tocam mais do que os homens.

Desde que completou 60 anos de idade em 2016, Ann Down vem recebendo os reconhecimentos que já deveriam ter começado em 2012, quando esteve ótima no provocador e imperdível Obediência. Até aqui, Mass é o ponto alto de uma carreira recente onde Dowd brilhou em seriados marcantes como The Leftovers e The Handmaid’s Tale — este segundo, inclusive, lhe rendeu um merecido Emmy de melhor atriz coadjuvante. A sabedoria em tratar com comovente generosidade uma mulher mais despedaçada do que busca transparecer lhe dá munições de sobra para explorar todo o repertório responsável que a posicionou como uma atriz tão especial e camaleônica.

Já Martha Plimpton, muito lembrada por papeis cômicos em séries como Raising Hope e The Good Wife, dá vida à Gail com a posição já imaginada para uma mãe que perdeu o filho em um episódio fatal: a de ataque, como se, entre as brechas, estivesse em busca das respostas que ela quer ouvir ou de determinadas curas que, na realidade, só o tempo pode trazer. Por meio dessa composição, Plimpton é potente como a personagem mais suscetível a oscilações e transformações na trama, sobretudo quando conversa de mãe para a mãe com a Linda de Ann Dowd, em momentos capazes de levar o filme a outros patamares.

Kanz reverencia o quarteto de atores ao colocar a ação no rosto de cada um deles. É possível fazer essa observação quando o diretor posiciona a câmera, por exemplo, no rosto de um personagem enquanto outro está falando, de forma a capturar diferentes reações para um mesmo momento — e, tratando-se de um filme capaz de abarcar discussões tão doídas, paira até um certo suspense no ar quando tentamos deduzir o que determinados personagens interpretam do que estão ouvindo.

Rodado em meros 14 dias, Mass encontra ainda o ponto exato de equilíbrio no uso do silêncio. Estamos falando de um longa-metragem passado em tempo real, e aí está a importância das pausas: no cuidado de Kanz em evitar a verborragia que expressa o óbvio ou explora cada vírgula em potencial dos conflitos, a exaustão emocional acaba se intensificando. Ao reduzir suas dimensões de projeto ao mínimo com muita destreza, concentrando forças em direção, roteiro e elenco, Mass carrega, sim, a vaga lembrança de um espetáculo teatral, mas, paradoxalmente e vitorioso, jamais se comporta como um.

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