Cinema e Argumento

Melhores de 2019 – Atriz

Uma das raríssimas atrizes agraciadas com o Oscar pelo papel certo, Olivia Colman é um furacão em A Favorita. Mesmo quando ela não está em cena, o filme de Yorgos Lanthimos respira a sua presença, o que não é pouca coisa, especialmente quando também temos Rachel Weisz e Emma Stone em momentos inspirados. Não há como contestar: é genial a forma como ela dá vida à conturbada rainha Anne, sempre com muita humanidade e sem cair no risco de torná-la caricata. E a missão era muito difícil, visto que a personagem transita por uma gama de emoções com extrema velocidade e tem na insanidade a matéria-prima para variáveis de drama e humor.

Quando questionada sobre como conduziu sua performance, Olivia pede desculpas e revela que ela, como atriz, não têm processos muito claros. Isso pode ser motivo de decepção para muitos entrevistadores (o que ela mais cita sobre sua vivência em A Favorita é o fato de ter comido muito durante as gravações), mas talvez seja a sua maior qualidade como intérprete. Esse mistério de não se encaixar em definições fáceis e que lhe permite ser escalada para qualquer papel acabou encantando Yorgos Lanthimos, que deu a Colman o palco perfeito para ela criar o tipo de performance que define uma carreira. Ainda disputavam a categoria: Camila Morgado (Vergel), Glenn Close (A Esposa), Lupita Nyong’o (Nós) e Scarlett Johansson (História de Um Casamento).

EM ANOS ANTERIORES: 2018 – Karine Teles (Benzinho) | 2017 – Jennifer Lawrence (Mãe!) | 2016 – Isabelle Huppert (Elle) | 2015 – Camila Márdila e Regina Casé (Que Horas Ela Volta?) | 2014 – Rosamund Pike (Garota Exemplar) | 2013 – Adèle Exarchopoulos (Azul é a Cor Mais Quente) | 2012 – Tilda Swinton (Precisamos Falar Sobre o Kevin) | 2011 – Kirsten Dunst e Charlotte Gainsbourg (Melancolia) | 2010 – Carey Mulligan (Educação) | 2009 – Kate Winslet (Foi Apenas Um Sonho) | 2008 – Meryl Streep (Mamma Mia!) | 2007 – Marion Cotillard (Piaf – Um Hino ao Amor)

Melhores de 2019 – Roteiro Original

Em mais de 20 anos de carreira, o cineasta Bong Joon-ho sempre trabalhou com todo tipo de gênero, e Parasita não deixa de ser mais um trabalho onde ele mistura e subverte muitos deles, mas sua maior preocupação ao escrever o roteiro do filme era contar uma história sobre pessoas mundanas e que podem muito bem ser nossos vizinhos. Inicialmente pensado como uma peça de teatro, Parasita aos poucos foi tomando forma como uma experiência cinematográfica, com sua gênese dramática centrada na relação entre ricos e pobres, discussão já presente em Expresso do Amanhã, ficção científica assinada por Bong Joon Ho ainda quando o roteiro de Parasita estava sendo escrito por ele em parceria com Jin Won Han.

Sem estereótipos, a dupla cria dois núcleos de poder aquisitivo muito distintos, desfiando perspectivas inteligentíssimas, como a questão da (falta de) privacidade de cada família (os ricos moram em uma espécie castelo isolado, enquanto os pobre vivem em um apartamento subterrâneo cuja única janela está à altura do chão da rua, como se eles fossem mendigos). Conjugando uma trama de disparidades sociais e dinâmicas familiares, o roteiro de Parasita não limita seus personagens à mera definição de mocinhos e vilões, desenvolvendo todos com desenvoltura em um emaranhado de acontecimentos surpreendentes e empolgantes. Ainda disputavam a categoria: Bacurau, Dor e Glória, Entre Facas e Segredos e A Favorita.

EM ANOS ANTERIORES: 2018 – Trama Fantasma | 2017 – Manchester à Beira-Mar | 2016 – Aquarius | 2015 – Que Horas Ela Volta? | 2014 – Relatos Selvagens | 2013 – Antes da Meia-Noite | 2012 – A Separação | 2011 – Melancolia | 2010 – A Origem | 2009 – (500) Dias Com Ela | 2008 – WALL-E | 2007 – Ratatouille

Melhores de 2019 – Roteiro Adaptado

Foi necessário um período dois anos para que o roteiro de A Vida Invisível chegasse à sua estrutura final. Ao longo desse tempo, Karim Aïnouz e Murilo Hauser, que tomavam como base, claro, o livro A Vida Invisível de Eurídice Gusmão, de Martha Batalha, discutiram muitos pontos que poderiam funcionar na literatura, mas que, no cinema, talvez pudessem soar menos orgânicos para o ritmo da narrativa (a grande quantidade de saltos no tempo, por exemplo). Procurando manter a essência do romance de Martha Batalha, a dupla também propôs ajustes pontuais, como o fato de Eurídice tocar piano — e não flauta, como originalmente escrito —, um instrumento muito mais visual e que amplia a linguagem corporal da personagem.

A mistura de reverência ao livro de origem com a plena consciência de que literatura é uma coisa e cinema é outra confere ao roteiro de A Vida Invisível uma grande delicadeza. Estruturalmente bem resolvido (Karim e Murilo ainda desconstruíram o texto original para colocá-lo em ordem cronológica e, a partir daí, definirem a gênese dramática e o formato da narrativa), a adaptação contempla diversos temas — a emancipação feminina, o machismo, a relação entre irmãs, a passagem do tempo — com grande comoção, provando que é possível sim fazer um melodrama bem dosado e com raízes novelescas admiráveis. Ainda disputavam a categoria: Greta, Poderia Me Perdoar?, Querido Menino e Se a Rua Beale Falasse.

EM ANOS ANTERIORES: 2018 – Me Chame Pelo Seu Nome | 2017 – Minha Vida de Abobrinha | 2016 – Carol |  2015 – 45 Anos | 2014 – Garota Exemplar | 2013 – Azul é a Cor Mais Quente | 2012 – Precisamos Falar Sobre o Kevin | 2011 – A Pele Que Habito | 2010 – Direito de Amar | 2009 – Dúvida | 2008 – Desejo e Reparação | 2007 – Notas Sobre Um Escândalo

Melhores de 2019 – Montagem

Ao aceitar o convite para assinar a montagem de Parasita, Jinmo Yang já tinha em mente que Bong Joon-ho é um cineasta que escreve roteiros com espírito de montador. Por isso mesmo, a primeira conversa entre Bong e Yang foi outra: ao invés de discutirem como a casa que foi construída especialmente para o filme seria explorada pela montagem ou sobre como se dariam as transições de gênero, a dupla debateu a amplitude de cada personagem. Nas entrevistas que concedeu desde o lançamento do filme, Yang ressaltou que o grande foco da montagem de Parasita foi criar uma unidade dramática para a interação entre famílias tão diferentes. Lançando um olhar meticuloso para aquilo que estava faltando ou sobrando em cada personagem, ele leva o filme a um patamar completamente diferenciado: além de ter um excelente ritmo e de se movimentar entre variados gêneros, Parasita é, em sua gênese, um filme sobre seres humanos e suas relações, algo amplamente reverenciado por uma das montagens mais brilhantes dos últimos anos. Trabalho de mestre. Ainda disputavam a categoria: Bacurau, Cafarnaum, Democracia em Vertigem e A Favorita.

EM ANOS ANTERIORES: 2018 – Você Nunca Esteve Realmente Aqui | 2017 – Em Ritmo de Fuga | 2016 – A Grande Aposta | 2015 – Whiplash: Em Busca da Perfeição | 2014 – O Lobo Atrás da Porta | 2013 – Capitão Phillips | 2012 – Guerreiro | 2011 – 127 Horas | 2010 – A Origem | 2009 – Quem Quer Ser Um Milionário? | 2008 – Onde os Fracos Não Têm Vez | 2007 – Babel

Melhores de 2019 – Fotografia

James Laxton acumula até aqui mais de 40 produções como diretor de fotografia, mas sua carreira está um degrau acima quando ele colabora com o cineasta Barry Jenkins. O primeiro encontro entre os dois foi em Moonlight: Sob a Luz do Luar, que rendeu a Laxton uma indicação ao Oscar. Infelizmente, reconhecimento equivalente não lhe foi dado por Se a Rua Beale Falasse, onde ele mais uma vez realiza um trabalho excepcional. Tendo como inspiração as habilidades singulares da literatura de James Baldwin — autor do livro homônimo em que o filme se baseia —, especialmente aquela de narrar sentimentos de maneira tão palpável, Laxton constrói uma fotografia pulsante para Se a Rua Beale Falasse, que, assim como a obra de Baldwin, é atmosférica nos sentimentos que busca despertar no espectador.

Em parceria com Jenkins, Laxton incorporou no trabalho outras inspirações da dupla, como o cinema de Wong Kar-Wai e Claire Denis, voltando-se também para os contrastes do romance que se materializa na tela, onde o amor é cercado pelo sofrimento ou onde o racismo e o preconceito são enfrentados com resiliência. A fotografia captura literalmente de perto as emoções dos personagens e dialoga no uso cores com a paleta de figurinos e cenários que homenageiam grandes melodramas da chamada Era de Ouro de Hollywood. Com técnicas e referências sublimes, mas, acima de tudo, com muita paixão, Laxton inebria e cria composições que deixariam Baldwin muito orgulhoso. Ainda disputavam a categoria: Ad Astra: Rumo às Estrelas, Coringa, A Favorita e Vergel.

EM ANOS ANTERIORES: 2018 – Roma |  2017 – Blade Runner 2049 | 2016 – Ponto Zero | 2015 – Macbeth: Ambição e Guerra | 2014 – Ida | 2013 – Gravidade | 2012 – As Aventuras de Pi | 2011 – A Árvore da Vida | 2010 – Direito de Amar | 2009 – Quem Quer Ser Um Milionário? | 2008 – Ensaio Sobre a Cegueira