Melhores de 2018 – Ator

Nem Jack Nicholson que é Jack Nicholson conseguiu se aposentar com grandeza semelhante a de Daniel Day-Lewis. Enquanto o veterano de filmes como Um Estranho no Ninho, O Iluminado e Melhor é Impossível abandonou a carreira de ator com um pequeno papel em Como Você Sabe (uma comédia insípida e tediosa dirigida por seu amigo James L. Brooks), Day-Lewis deixou o ofício com Trama Fantasma, a mais recente obra-prima dirigida pelo mestre Paul Thomas Anderson. E não só esse filme nos lembra o quanto o terceiro Oscar do ator foi protocolar (ele é ótimo em Lincoln, mas o ano era tão forte para os atores que fica difícil nutrir maior entusiasmo com tal consagração) como registra um dos melhores momentos da carreira de um intérprete que sempre colecionou desempenhos inesquecíveis.
Como o perfeccionista estilista Reynolds Woodcock, o ator alcança um tom que só alguém com um talento à altura do seu conseguiria alcançar: o de criar complexidade e algum tipo de interesse pela natureza egocêntrica, machista e intolerante de um personagem essencialmente insuportável. Day-Lewis, que é conhecido por não sair de seus personagens quando está no set de filmagens, realmente se torna Woodcock com a imensa presença que lhe é tão característica e ao estabelecer um comportamento muito peculiar e complexo para um estilista que parece desprezar praticamente tudo e todos. É um trabalho impressionante até mesmo para o padrão Daniel Day-Lewis, o que não é pouca coisa. Ainda disputavam a categoria: Joaquin Phoenix (Você Nunca Esteve Realmente Aqui), Murilo Benício (O Animal Cordial), Shico Menegat (Tinta Bruta) e Timothée Chalamet (Me Chame Pelo Seu Nome).
EM ANOS ANTERIORES: 2017 – Casey Affleck (Manchester à Beira-Mar) | 2016 – Nelson Xavier – A Despedida | 2015 – David Oyelowo (Selma: Uma Luta Pela Igualdade) | 2014 – Jake Gyllenhaal (O Abutre) | 2013 – Joaquin Phoenix (O Mestre) | 2012 – Rodrigo Santoro (Heleno) | 2011 – Colin Firth (O Discurso do Rei) | 2010 – Colin Firth (Direito de Amar) | 2009 – Sean Penn (Milk – A Voz da Igualdade) | 2008 – Daniel Day-Lewis (Sangue Negro) | 2007 – Forest Whitaker (O Último Rei da Escócia)
Melhores de 2018 – Atriz

Nada necessariamente extraordinário acontece com Irene, a humilde protagonista de Benzinho que, de repente, recebe a notícia de que o filho está prestes a se mudar para Alemanha, onde jogará handebol. Ela, como tantas mulheres desse Brasil, carrega uma família nas costas, busca soluções para os mais diversos problemas, trabalha com o que pode para sustentar os filhos e, no meio disso, tudo, ainda encontra tempo para distribuir afeto aos que dividem o mesmo teto que ela. Como a atriz extraordinária que é, Karine Teles explora todas as camadas de uma personagem que é uma clara homenagem às tantas mulheres que passam pelas ruas despercebidas e também àquelas que fazem toda a diferença dentro das nossas próprias casas. Interiorizando o turbilhão de emoções de uma mãe que busca não transparecer sua insegurança, Karine dá vida a uma mulher incrivelmente real e comovente, elevando a beleza das tantas complexidades que a vida em si nos traz todos os dias e que o filme ilumina com delicadeza. Ela, que já era grandiosa em filmes como Riscado e Que Horas Ela Volta?, tem em Benzinho o tipo de papel que marca uma carreira. Ainda disputavam a categoria: Charlize Theron (Tully), Charlotte Rampling (Hannah), Toni Collette (Hereditário) e Vicky Krieps (Trama Fantasma).
EM ANOS ANTERIORES: 2017 – Jennifer Lawrence (Mãe!) | 2016 – Isabelle Huppert (Elle) | 2015 – Camila Márdila e Regina Casé (Que Horas Ela Volta?) | 2014 – Rosamund Pike (Garota Exemplar) | 2013 – Adèle Exarchopoulos (Azul é a Cor Mais Quente) | 2012 – Tilda Swinton (Precisamos Falar Sobre o Kevin) | 2011 – Kirsten Dunst e Charlotte Gainsbourg (Melancolia) | 2010 – Carey Mulligan (Educação) | 2009 – Kate Winslet (Foi Apenas Um Sonho) | 2008 – Meryl Streep (Mamma Mia!) | 2007 – Marion Cotillard (Piaf – Um Hino ao Amor)
Melhores de 2018 – Roteiro Original

Normalmente reverenciado pelo sua grandeza como diretor, Paul Thomas Anderson também é um roteirista excepcional, e deveria receber mais reconhecimento por isso. Trama Fantasma, seu mais recente filme, é outro exemplo que corrobora essa afirmação. Ambientado na Londres dos anos 1950, o longa explora a linha tênue entre o amor e o poder, no melhor estilo Andersoniano de inverter expectativas e convencionalidades. Ao mergulhar nos malefícios das disputas de controle que contaminam relações amorosas, o diretor traz para o roteiro ecos romanticamente sinistros de muitos de seus filmes favoritos, alguns deles clássicos dos anos 1940, como Rebecca, a Mulher Inesquecível, de Alfred Hitchcock, e À Meia-Luz, estrelado por Ingrid Bergman.
Anderson está focado primordialmente em um comportamento que ele próprio diz perceber a sua volta — a alternância de poderes entre os envolvidos em qualquer relação amorosa — para descortinar as idiossincrasias e as contradições da natureza relativa aos romances. Daniel Day-Lews, que colaborou ativamente na construção dos personagens, afirma que não existe estranheza maior no universo do que aquela que habita a vida aparentemente normal de pessoas comuns entre quatro paredes. Verdade. E se, de um jeito ou de outro, Anderson já dissecava tudo isso em filmes como Embriagado de Amor e O Mestre, é de se considerar que, com Trama Fantasma, ele alcança sua discussão mais sofisticada acerca de tal temática. Ainda disputavam a categoria: As Boas Maneiras, Benzinho, Sem Amor e Tully.
EM ANOS ANTERIORES: 2017 – Manchester à Beira-Mar | 2016 – Aquarius | 2015 – Que Horas Ela Volta? | 2014 – Relatos Selvagens | 2013 – Antes da Meia-Noite | 2012 – A Separação | 2011 – Melancolia | 2010 – A Origem | 2009 – (500) Dias Com Ela | 2008 – WALL-E | 2007 – Ratatouille
Melhores de 2018 – Fotografia

Quando o multipremiado diretor de fotografia Emmanuel Lubezki precisou desistir de Roma em função de conflitos de agenda, o cineasta Alfonso Cuarón imediatamente assumiu, pela primeira vez, o cargo do seu amigo e colaborador de longa data. Para essa nova empreitada, Cuarón diz ter sempre se perguntado quais seriam as escolhas que Lubezki teria feito para a fotografia de Roma, reproduzindo os tantos aprendizados de colaborações como E Sua Mãe Também, Filhos da Esperança e Gravidade. Mesmo inspirado pelo amigo, o diretor quis criar uma identidade própria, o que começa logo na decisão de filmar Roma em preto-e-branco: descartando o mero apelo estético, Cuarón cria um filme que, visualmente falando, não parece vintage ou datado, mas de certa forma moderno e contemporâneo ao registrar, com imensa beleza, memórias distantes e muito íntimas. Essa dualidade entre presente e passado é fascinante porque a câmera flutua como se estivesse em um tempo diferente e como se soubesse todos os detalhes e reverberações de um universo que os próprios personagens só (re)conhecerão com o passar dos anos. Lubezki, que assistiu ao longa, diz que a fotografia de Roma é elegante e cadenciada como um complexo número de jazz. Para um trabalho de estreia, Cuarón nem precisaria do Oscar que recebeu na respectiva categoria para se sentir realizado: somente esse elogio de um mestre como Lubezki já é o suficiente para coroar o trabalho. Ainda disputavam a categoria: A Forma da Água, Sem Fôlego, Trama Fantasma e Você Nunca Esteve Realmente Aqui.
EM ANOS ANTERIORES: 2017 – Blade Runner 2049 | 2016 – Ponto Zero | 2015 – Macbeth: Ambição e Guerra | 2014 – Ida | 2013 – Gravidade | 2012 – As Aventuras de Pi | 2011 – A Árvore da Vida | 2010 – Direito de Amar | 2009 – Quem Quer Ser Um Milionário? | 2008 – Ensaio Sobre a Cegueira
Melhores de 2018 – Roteiro Adaptado

Delicada adaptação do romance homônimo escrito pelo egípcio André Aciman em 2007, Me Chame Pelo Seu Nome tem como base uma história que já oferece um riquíssimo material para uma boa transposição ao cinema. Eis, no entanto, que o diretor e produtor Luca Guadagnino convoca James Ivory (Retorno a Howards End, Vestígios do Dia) para cuidar da adaptação. Ivory, aos 89 anos, tornou-se a pessoa mais velha a concorrer (e a vencer) um Oscar, e seu prêmio de melhor roteiro adaptado não poderia ser mais justo: iluminando uma jornada de autodescoberta sexual que normalmente é tratada pelo cinema (e pela vida) com dor e pesar, ele descomplica qualquer discussão em torno da sexualidade de dois personagens para simplesmente encará-los como pessoas apaixonadas e que, assim como todos nós, passam por desencontros, mágoas, frustrações e amadurecimentos. Em cada personagem, há uma imensidão de sentimentos, inclusive naqueles que aparecem tão pouco em cena, como o pai vivido por Michael Stuhlbarg. O que Ivory faz na adaptação de Me Chame Pelo Seu Nome é de uma maturidade ímpar, aliando, com sabedoria, o talento de um profissional veterano com um material que lhe proporciona todas as munições para a criação de uma delicada pérola. Ainda disputavam a categoria: Desobediência, Infiltrado na Klan, Paddington 2 e Você Nunca Esteve Realmente Aqui.
EM ANOS ANTERIORES: 2017 – Minha Vida de Abobrinha | 2016 – Carol | 2015 – 45 Anos | 2014 – Garota Exemplar | 2013 – Azul é a Cor Mais Quente| 2012 – Precisamos Falar Sobre o Kevin | 2011 – A Pele Que Habito | 2010 – Direito de Amar | 2009 – Dúvida | 2008 – Desejo e Reparação | 2007 – Notas Sobre Um Escândalo