Cinema e Argumento

“Querido Menino”, “O Retorno de Ben” e “Boy Erased”: três garotos em conflito com a vida, com a família e com eles próprios

“QUERIDO MENINO”, de Felix Van Groeningen

Responsável por um dos filmes mais devastadores dos últimos anos (o belga Alabama Monroe), Felix Van Groeningen faz sua estreia como diretor nos Estados Unidos com Querido Menino, filme subavaliado pela crítica e que preserva a identidade de um cineasta estrangeiro desembarcando em Hollywood. Assim como em Alabama Monroe, Van Groeningen conta mais uma história centrada em uma dupla cujo drama tem a tragédia como matéria-prima. A narrativa é igualmente fragmentada e truncada, com idas e vindas no tempo. Ou seja, é fácil se perder em Querido Menino, algo que uma maioria esmagadora da crítica considerou um grande defeito, mas que, na verdade, é um acerto por imprimir à história sentimentos tão incômodos e desnorteadores quanto aqueles vividos pelos personagens.

Adaptando as memórias reais de David e Nic Sheff, pai e filho que, respectivamente, atravessaram anos turbulentos quando Nic se entregou às drogas, Querido Menino está menos interessado na discussão do vício em si e mais nas cicatrizes que uma condição como essa cria nas relações familiares. Ao conhecermos a triste situação de um jovem talentoso entregue às drogas, Querido Menino se torna mais doloroso quando retrocede para os tempos em que Nic era uma criança doce e afetuosa. Isso ajuda a construir tanto a verossimilhança da relação entre pai e filho quanto a própria dramaticidade do longa, que se apoia na exaustão física e emocional de seus personagens: assim como David se sente impotente como pai ao não conseguir ajudar o filho, Nic é sufocado pela angústia de reconhecer um vício que ele simplesmente não consegue vencer.

Entre os fragmentos de Querido Menino, existe ainda uma mãe bastante ausente por razões pouco explicadas (Amy Ryan), assim como uma madrasta que tenta ajudar o marido enquanto toma certa distância para proteger seus próprios filhos (Maura Tierney). Entretanto, o coração do filme está todo com a dupla protagonista, que se destaca pela humanidade com que representa os percalços enfrentados por pessoas comuns e sem a mínima noção de como lidar com um problema tão complicado. Timothée Chalamet, que chegou a ser indicado a importantes prêmios como o Globo de Ouro e o Screen Actors Guild Awards, reafirma todo o talento que havia apresentado em Me Chame Pelo Seu Nome, mas é importante salientar como Steve Carell, em mais uma interpretação que encorpa a sua bela e eclética carreira no cinema norte-americano, é excelente ao conferir ao personagem todas as sutilezas que têm se tornado uma preciosa marca de sua vertente dramática como ator.

Estruturalmente, Querido Menino costura uma instigante narrativa quando decide, desde o princípio, pulverizar sua história e renegar uma narrativa linear. Porém, isso não deixa de acarretar repetições: são inúmeras as vezes em que ficamos com a sensação de que já vimos os mesmos arcos e os mesmos caminhos apresentados pelo longa. Talvez isso até seja uma decisão consciente do diretor para reforçar os cíclicos processos de convivência com um viciado irremediável, mas o efeito se esvazia diante de uma reprodução que não chega a expandir o íntimo dos personagens. Com isso, as duas horas de projeção são sentidas, amortecendo, na meia hora final, o impacto emocional de um filme mais sólido do que as mornas recepções acusavam e que, ao registrar a luz e a escuridão como dois lados de uma mesma moeda, mantém viva a identidade de um cineasta que chega a Hollywood sem domesticar as ideias que anos atrás fizeram com que ele chegasse estivesse entre os finalistas ao Oscar de filme estrangeiro com o já citado (e reverenciado) Alabama Monroe.

“O RETORNO DE BEN”, de Peter Hedges

Em uma dessas coincidências não tão benéficas do destino, O Retorno de Ben chega aos cinemas à sombra de Querido Menino, uma vez que ambos narram histórias de garotos envolvidos em problemas com drogas e que, com a ajuda dos pais, tentam atravessar períodos doídos e sombrios. Enquanto Querido Menino contempla a relação entre pai e filho, O Retorno de Ben captura os dias de um jovem enfrentando seus próprios fantasmas com a ajuda de uma mãe resiliente e destemida. O enfoque, ao menos, é outro: aqui, Ben acaba de voltar da clínica de reabilitação e tenta se reconectar com a família e com o mundo mesmo sabendo que, ao reencontrar o lugar onde a família vive, precisará revisitar lembranças desagradáveis e enfrentar uma importante jornada de resistência e (des)confiança pós-vício. Afinal, é possível uma família manter a tranquilidade perante alguém que já foi responsável por tanto transtorno? E teria o garoto realmente encontrado a paz com ele próprio?

Escrito e dirigido por Peter Hedges (pai do protagonista Lucas na vida real), O Retorno de Ben reapresenta a vocação do cineasta para histórias cotidianas e familiares. Hedges é o autor de duas pequenas pérolas do cinema independente norte-americano — Do Jeito Que Ela É e Eu, Meu Irmão e Nossa Namorada — e, ainda que O Retorno de Ben, não seja tão lapidado em delicadezas quanto seus trabalhos anteriores, é acertada a escolha de narrar a história não sob o ponto de vista do garoto que volta para casa, mas sob o da mãe que, com outros três filhos e um novo marido, tenta dar um novo voto de confiança ao filho. As devidas dimensões são conferidas ao jovem Ben, mas é na mãe Holly que o longa ancora as suas principais facetas dramáticas. Por outro lado, surpreendentemente, o que parecia ser o pequeno relato de uma família de classe média tentando superar fantasmas do passado durante uma festiva semana de Natal tem a sua proposta subvertida lá pela metade, quando o filme vira quase um thriller envolvendo ecos do passado de Ben em uma noite angustiante onde o amor e a força de uma mãe serão colocados à prova.

A guinada de estilo causa certa estranheza porque traz a velha sensação de dois filmes distintos dentro de um e porque muda o tom de uma trama que, até então, parecia destinada a contar mais do mesmo, especialmente quando comparada a Querido Menino. Entretanto, Julia Roberts e Lucas Hedges conferem a consistência dramática que, muitas vezes, o filme tenta construir com desdobramentos que, perto de outros longas sobre protagonistas erráticos em uma espiral de carmas (o drama Bom Comportamento é uma excelente pedida), não chegam a ser surpreendentes. O Retorno de Ben causa maior empatia por causa dos dois, que criam uma ótima química em cena. Uma curiosidade é que o diretor não queria escalar o próprio filho para o papel, mas, por insistência de Julia Roberts, que havia se encantado com a performance de Hedges em Manchester à Beira-Mar, essa decisão foi repensada. Julia estava certa: ainda que ofuscado por Querido Menino, O Retorno de Ben é, sem dúvida, elevado por Hedges e ela.

“BOY ERASED: UMA VERDADE ANULADA”, de Joel Edgerton

Assim como O Retorno de Ben, Boy Erased: Uma Verdade Anulada tem seu impacto de certa forma amortecido quando comparado a outro título de temática equivalente. Por mais que dessa vez o espaço de tempo entre uma obra e outra seja muito maior, é impossível não traçar comparações entre o novo longa-metragem assinado pelo ator Joel Edgerton e o telefilme Orações Para Bobby, produzido pela emissora Lifetime e estrelado pela grande Sigourney Weaver em 2009. Quase dez anos separam Orações Para Bobby e Boy Erased, mas a potência emocional do primeiro permanece tão intocada e referenciada que fica difícil uma obra se equiparar em potência com a mesmíssima temática. Para quem não não conhece um ou outro, ambos são títulos que encenam a história de garotos que, ao se descobrirem gays, são reprimidos por famílias conservadoras, fervorosamente religiosas e simpatizantes à ideia de que a homossexualidade pode ser curada através de tratamentos. 

Mais um filme estrelado pelo prolífero Lucas Hedges, Boy Erased é baseado nas memórias de Garrard Conley, um jovem que, na vida real, foi obrigado pelos pais a passar por uma terapia de conversão após revelar a sua homossexualidade. Com flashbacks que ilustram a fase em que o protagonista começava a perceber os sinais de sua natureza sexual, o filme explora amplamente as inacreditáveis sessões que tentam “curar” o jovem em meados de 2004: dos exercícios de postura para eliminar qualquer resquício de afetação até as lavagens cerebrais repletas de lições de moral e orações, é chocante constatar que, 15 anos depois dos acontecimentos que deram origem ao filme, tais ideias ainda sejam muito reais e potencializadas pelos tempos conservadores que vivemos.

Ao mesmo tempo, Boy Erased dilui sua consistência dramática ao preferir falar majoritariamente sobre esse sistema. Até sabemos bastante sobre o protagonista Jared Eamons (Hedges) e as relações que ele estabelece com a família, mas o roteiro, também escrito por Joel Edgerton, prefere dimensionar o personagem através do choque das terapias e não tanto pelas complexidades de sua jornada íntima, o que termina por criar uma experiência bastante cíclica, por vezes frustrante. Se as cenas de “cura gay” impactam nos primeiros registros, logo nos interessamos mais pelas vivências pessoais do protagonista com a família e com as pessoas em sua volta (uma cena no dormitório da faculdade é particularmente impactante).

Excetuando a recorrente insipidez do roteiro, Lucas Hedges se sai muito bem ao registrar a angústia e as transformações de um jovem que se encontra em um verdadeiro inferno pessoal. Seu Jared Eamons é um jovem resistente, o que traz momentos interessantes para o ator (a cena final com Russell Crowe é tocante pela maturidade com que o personagem evolui na nossa frente). Há outras facetas que Hedges pode explorar aqui ou ali, chance pouco oferecida nas mesmas proporções para Nicole Kidman, que não tem um texto à altura de sua caracterização para uma personagem cujas motivações e transformações soam verdadeiras mais pelo seu trabalho do que pela construção do roteiro propriamente dita. Hedges e Kidman mereciam uma obra mais pungente em emoção, bem ao estilo de Orações Para Bobby, longa que merece ser sempre revisto, inclusive depois de Boy Erased.

Melhores de 2018 – Roteiro Adaptado

Delicada adaptação do romance homônimo escrito pelo egípcio André Aciman em 2007, Me Chame Pelo Seu Nome tem como base uma história que já oferece um riquíssimo material para uma boa transposição ao cinema. Eis, no entanto, que o diretor e produtor Luca Guadagnino convoca James Ivory (Retorno a Howards End, Vestígios do Dia) para cuidar da adaptação. Ivory, aos 89 anos, tornou-se a pessoa mais velha a concorrer (e a vencer) um Oscar, e seu prêmio de melhor roteiro adaptado não poderia ser mais justo: iluminando uma jornada de autodescoberta sexual que normalmente é tratada pelo cinema (e pela vida) com dor e pesar, ele descomplica qualquer discussão em torno da sexualidade de dois personagens para simplesmente encará-los como pessoas apaixonadas e que, assim como todos nós, passam por desencontros, mágoas, frustrações e amadurecimentos. Em cada personagem, há uma imensidão de sentimentos, inclusive naqueles que aparecem tão pouco em cena, como o pai vivido por Michael Stuhlbarg. O que Ivory faz na adaptação de Me Chame Pelo Seu Nome é de uma maturidade ímpar, aliando, com sabedoria, o talento de um profissional veterano com um material que lhe proporciona todas as munições para a criação de uma delicada pérola. Ainda disputavam a categoria: Desobediência, Infiltrado na Klan, Paddington 2 e Você Nunca Esteve Realmente Aqui.

EM ANOS ANTERIORES: 2017 – Minha Vida de Abobrinha | 2016 – Carol |  2015 – 45 Anos | 2014 – Garota Exemplar | 2013 – Azul é a Cor Mais Quente| 2012 – Precisamos Falar Sobre o Kevin | 2011 – A Pele Que Habito | 2010 – Direito de Amar | 2009 – Dúvida | 2008 – Desejo e Reparação | 2007 – Notas Sobre Um Escândalo

As Glorias de Sebatián Lelio: histórias praticamente iguais, mas em contextos um tanto diferentes

Despontando como um dos realizadores mais interessantes da atualidade, o chileno Sebastián Lelio recentemente dirigiu um longa-metragem vencedor do Oscar de melhor filme estrangeiro (Uma Mulher Fantástica) e também proporcionou momentos sublimes a atrizes como Rachel Weisz e Rachel McAdams (Desobediência). Ainda assim, a expressão mais cativante de sua identidade como realizador está no ano de 2013, com Gloria, filme que rendeu à protagonista Paulina García um incontestável Urso de Prata de melhor atriz no Festival de Berlim. Lelio diz ter imaginado o papel da protagonista-título especialmente para Paulina, intérprete que sempre o impressionou, mas que, segundo o cineasta, jamais havia recebido um papel à altura de seu talento. De certa forma, o contexto se repete agora, quando Lelio chega aos cinemas brasileiros com o remake do filme que ele próprio dirigiu em 2013.

Dessa vez, o realizador está em Hollywood e com Julianne Moore no papel principal. Não deixa de ser simbólico que ele novamente esteja valorizando uma atriz que, mesmo premiada recentemente com o Oscar (Para Sempre Alice), poderia receber mais papeis dignos de sua excelência. Paulina e Moore são, cada uma a sua maneira, atrizes fascinantes e entregam diferentes perspectivas para a mesma personagem, ainda que Gloria (2013) e Gloria Bell (2019) sejam longas-metragens praticamente idênticos. Se Sebastián Lelio resolveu dirigir o que podemos chamar de uma versão de seu próprio filme chileno para norte-americano ver sem legendas, ao menos a repetição da história vale pela chance de observar duas Glorias tão semelhantes quanto distintas.

Paulina García na última cena de Gloria: premiada por sua interpretação no Festival de Berlim, atriz tem um dos desempenhos femininos mais marcantes do cinema recente de língua latina.

Perto dos 60 anos, Gloria (Paulina García) percebe que os filhos não precisam mais de sua ajuda. Separada, ela vive sozinha, mas mantem uma vida muito ativa: trabalha, almoça com os amigos, frequenta as aulas de yoga da filha e, acima de tudo, não encara a independência ou a solidão como o fim do mundo. Pelo contrário: estar sozinha e frequentar salões de baile em busca de um novo amor ou de apenas uma noite de sexo lhe é tão natural como talvez tenha sido na juventude. É essa a preciosa maturidade de Gloria, o filme: entender possíveis entristecimentos da protagonista, mas não fazer de seus dilemas uma densa sessão de terapia na tela grande. Sebastián Lelio prefere buscar uma tônica mais agridoce para os dias da personagem, que atravessa as dores e as alegrias de estar viva como qualquer ser humano.

Ver a vida pelos olhos de uma mulher madura sem que ela esteja reduzida a qualquer sofrimento de sua própria idade faz de Gloria um longa delicadíssimo, inclusive por conhecermos a protagonista por meio de uma ótica cotidiana. Se uma dança em meio à multidão ganha contornos diferenciados é pela decisão de Sebastián Lelio de capturar o momento com um viés observacional, interferindo o mínimo possível com estilizações ou guinadas de roteiro. Com isso, Gloria se atira com imensa confiança no universo de sua personagem, e acerto maior não há: toda a beleza dessa leitura a respeito de uma mulher que vive, ama, dança e sofre como todos nós está na construção de uma figura feminina crível e de fácil identificação não apenas para quem tem traços ou histórias em comum com ela.

A imensidão de sutilezas não seria a mesma sem, claro, o desempenho espetacular de Paulina García, que está totalmente alinhada ao espírito do longa de renegar a vitimização. Ela é ao mesmo tempo discreta e profunda em cena, incorporando uma mulher que, sabotada aqui e ali por relações amorosas complicadas ou pelo próprio destino, é encantadora por ter pleno conhecimento de si e por aceitar que, na vida e no amor, é preciso fazer tentar tirar ao menos algum aprendizado das situações mais difíceis. Elegante e radiante, a presença da atriz reforça a percepção muito verdadeira de que são raros os homens que conseguem conviver com mulheres seguras e autossuficientes. Podem acreditar: é impossível não se apaixonar pela construção de Paulina literalmente até o último milésimo de projeção. 

Apaixonada pelo longa chileno de 2013, Julianne Moore revive, com seu inegável talento, a Gloria de Paulina García, mas com uma perspectiva mais estilizada e rejuvenescida.

Seis anos depois de Gloria, Sebastián Lelio mais uma vez nos leva para o universo da personagem, que, agora em terras hollywoodianas, ganha vida pelas mãos da espetacular Julianne Moore. Em termos de história, vemos praticamente o mesmo filme, com pouquíssimos ajustes (há, no máximo, a inclusão de novos personagens bastante passageiros e falas que são transferidas de uma sequência para outra), decisão tomada deliberadamente pelo diretor, que nunca quis falar sobre outros momentos de Gloria que não fossem aqueles mostrados no filme estrelado por Paulina García. Entretanto, em entrevistas sobre o remake, Lelio revela que, ao revisitar a protagonista, Gloria Bell não deixa de atualizar sua personagem, que agora tem trajetória encenada em um outro país e com uma certa estilização já ensaiada pelo diretor em Uma Mulher Fantástica.

Por contar a mesmíssima história em um curto espaço de tempo, há a sensação de que Gloria Bell é somente um produto encomendado para que os norte-americanos entrem em contato com essa belíssima personagem sem ter que recorrer a um filme chileno com legendas. À parte a questão mercadológica, sejamos justos: a história é maravilhosa, o diretor é o mesmo e, sendo assim, a matemática soa infalível. Gloria Bell bebe da fonte de uma história quase intocada em sua transposição para os norte-americanos, e quem só tem a ganhar com esse texto é Julianne Moore, que, apaixonada pela versão de 2013, ligou para Lelio, lançou a ideia de uma refilmagem e logo tornou o projeto possível, inclusive assumindo o cargo de produtora executiva. Tratando-se de Moore, não há o que duvidar: como Gloria, agora batizada com o sobrenome Bell, ela aproveita o melhor de um papel nivelado ao seu inquestionável talento.

Curiosamente, o que me impede de admirar Gloria Bell tanto quanto admiro Gloria é a escalação da atriz. Nada a ver especificamente com Moore ou com o seu desempenho: na verdade, ela é perfeita para as atualizações propostas para a personagem na refilmagem. O que acontece é que a versão chilena tinha peso maior em sensibilidade e delicadeza porque falava sobre uma mulher se aproximando da terceira idade. Mesmo que Moore tenha 58 anos e seja mais velha ao interpretar o papel do que Paulina era na época do primeiro filme (52), sua Gloria é demasiadamente bem fotografada, beirando a glamourização inclusive em luxuosas locações de Las Vegas. A decisão de escalar um ator muito mais jovem como filho de Gloria (Michael Cera) e de colocar em cena a mãe da protagonista que não existia no filme anterior (Holland Taylor) também deixa a impressão de que Gloria, em sua versão Bell, está, no máximo, chegando aos 50, o que rejuvenesce bastante o contexto de importantes complexidades que ganham outras camadas na vida de quem está perto dos 60.

Melhores de 2018 – Montagem

Com maestria, Joe Bini ligou todos os pontos de Você Nunca Esteve Realmente Aqui através de uma montagem que carrega o difícil desafio de encontrar um perfeito equilíbrio entre drama, ação e suspense. Se o mais recente filme de Lynne Ramsay é harmônico nos tantos gêneros que se desdobram ao longo da história, certamente é em função da montagem de Bini, que já havia trabalhado com a diretora no também excepcional Precisamos Falar Sobre o Kevin. Boa parte da carga dramática de Você Nunca Esteve Realmente Aqui vem dessa mistura que orquestra com inventividade as potencialidades técnicas de um filme igualmente impactante em trilha sonora e fotografia, por exemplo. Ou seja, além de encontrar o timing perfeito ao transitar por diversas camadas emocionais e de gênero, o montador cria um filme ainda mais sensorial ao interseccionar, de maneira sempre surpreendente, segmentos técnicos que já seriam fascinantes por si só. Ainda disputavam a categoria: Eu, Tonya, O Processo, Roma e As Viúvas.

EM ANOS ANTERIORES: 2017 – Em Ritmo de Fuga | 2016 – A Grande Aposta | 2015 – Whiplash: Em Busca da Perfeição | 2014 – O Lobo Atrás da Porta | 2013 – Capitão Phillips | 2012 – Guerreiro | 2011 – 127 Horas | 2010 – A Origem | 2009 – Quem Quer Ser Um Milionário? | 2008 – Onde os Fracos Não Têm Vez | 2007 – Babel

Melhores de 2018 – Efeitos Visuais

Com o desafio de tornar dinâmico e envolvente um filme ambientado praticamente por inteiro em um universo de videogame, o quarteto David Shirk, Grady Cofer, Matthew E. Butler e Roger Guyett misturou técnicas de animação e de capturas de movimento (aquela mesmo que tanto consagrou Andy Serkis em sagas como O Senhor dos Aneis e Planeta dos Macacos) para reproduzir as relações que Jogador Nº1 estabelece entre o real e o virtual, além da infinidade de referências pop que somente um diretor como Steven Spielberg conseguiria colocar na tela com tanta propriedade. É fato que o longa usa e abusa de efeitos visuais sem se preocupar com sutilezas ou economia (seria difícil, considerando as cenas de ação e a gama de personagens recriados e idealizados especialmente para o filme), mas poucas vezes, assim como nos melhores momentos da carreira de Spielberg, o uso das tecnologias serviu tão bem a um entretenimento grandioso, empolgante e inventivo nas mesmas proporções. Ainda disputavam a categoria: Paddington 2, Pantera Negra, O Primeiro Homem e Vingadores: Guerra Infinita.

EM ANOS ANTERIORES: 2017 – Blade Runner 2049 | 2016 – Doutor Estranho | 2015 – Mad Max: Estrada da Fúria | 2014 – Planeta dos Macacos: O Confronto| 2013 – Gravidade | 2012 – O Hobbit: Uma Jornada Inesperada | 2011 – Harry Potter e as Relíquias da Morte – Parte 2 | 2010 – Tron: O Legado | 2009 – Avatar (primeiro ano da categoria)