Cinema e Argumento

Apostas para o Oscar 2019 (e algumas breves impressões sobre os indicados, a cerimônia e os favoritos)

O Oscar 2019 já é histórico porque poucas vezes a Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood se viu tão encurralada com a repercussão de suas escolhas inexplicáveis e catastróficas. Mal sabíamos, por exemplo, que a ideia de um prêmio para filmes populares lançada ainda em 2018 seria apenas o início de uma série de polêmicas: após voltar atrás dessa ideia, o Oscar também se viu sem apresentador (Kevin Hart abandonou o cargo após seus tweets homofóbicos serem desenterrados na internet) e em maus lençóis com praticamente toda a indústria quando decidiu não apresentar ao vivo determinadas categorias técnicas e não apresentar ao vivo todas as canções indicadas. O presidente da Academia, John Bailey, voltou atrás de todas as decisões, provando que tanto não tem tino para comandar o prêmio mais célebre do cinema como é incapaz de tomar qualquer decisão com plena convicção. Tudo isso, aliado ao fato de que o Oscar 2019 tem uma das seleções mais fracas em pelo menos duas décadas, faz com que cinéfilos do mundo inteiro sintonizem na cerimônia de hoje à noite quase com uma curiosidade mórbida: afinal, após tantas decisões erradas, ainda é possível esperar algo de bom da premiação?

O mínimo de defesa que podemos fazer em relação ao Oscar 2019 é essa: a seleção de melhor filme, apesar da baixa média de qualidade, é a fiel representação daquilo que vemos em Hollywood ao longo do ano. Entre os oito títulos indicados na categoria principal, temos filme de super-herói (Pantera Negra), sátira política (Vice), uma obra estrangeira lançada diretamente em streaming (Roma), a biografia musical que os votantes (e o público) tanto adoram (Bohemian Rhapsody), olhares superficiais ou profundos sobre questões sociais e raciais (Green Book e Infiltrado na Klan), uma comédia dramática de época (A Favorita) e uma refilmagem impulsionada por um galã confiável da indústria ao lado de uma gigante pop star (Nasce Uma Estrela). Acuse o Oscar 2019 do que você quiser, menos de ele não representar, para o bem e para o mal, nas devidas dimensões, tudo aquilo que fez sucesso entre público e crítica no ano que passou. Além disso, é gratificante ver a Academia finalmente se abrindo para obras mais populares, aceitando e reconhecendo que Hollywood vive e sobrevive por causa delas e que não há mal algum em abrir as portas para as produções que tanto mobilizam milhões (ou bilhões) de pessoas mundo afora.

Falando dos filmes propriamente ditos, o nível realmente não é alto e, pela primeira vez, acho que chego a um Oscar sem ter um filme que vou levar para a vida inteira. Admiro demais Roma, por exemplo, ao mesmo tempo em que sou apaixonado por tudo aquilo que a A Favorita representa em termos de transgressão narrativa, mas também tenho problemas imensos com Green Book: O Guia, um filme que considero simplesmente inadmissível de tão empoeirado. Também acho Vice um CTRL+C/CTRL+V do formato de A Grande Aposta, assim como sigo sem entender tanta paixão por Nasce Uma Estrela, uma obra que é igual a incontáveis outras que já vimos sobre romances conturbados no mundo da música. O que me pega mesmo no Oscar 2019 é a seleção de títulos estrangeiros que, atenção, é amplamente liderada por Roma, que concorre em dez categorias, mas que está longe de ser resumida a isso. Na maratona deste ano, ainda me faltou ver Guerra Fria, mas o japonês Assunto de Família e especialmente o libanês Cafarnaum são claros exemplos de como os longas não falados em inglês são mais sofisticados, interessantes e comoventes do que os concorrem na categoria principal. Esses sim eu vou guardar no meu coração como as melhores lembranças dessa temporada.

Com favoritos em pouquíssimas categorias, o Oscar 2019 acontece na noite deste domingo (24) com a real sensação de que tudo pode acontecer, o que pode não significar boa coisa. Não duvide, por exemplo, que o adorado e premiado Roma de repente saia da cerimônia sem o prêmio principal para que Green Book, o clássico filme formulaico e apaziguador sobre racismo, seja o grande consagrado da noite. É importante lembrar: há pelo menos dois anos o Oscar cansa do grande favorito da temporada para premiar outro título: foi assim com La La Land sendo desbancado por Moonlight e com Três Anúncios Para Um Crime perdendo o prêmio principal para A Forma da Água. Seria muito triste ver Green Book tirando o prêmio de Roma, mas é um cenário possível e bastante real. Entre os atores, viverei uma alegria sem fim quando Glenn Close finalmente subir ao palco para levar o Oscar por A Esposa, ainda que o meu coração esteja com Olivia Colman em A Favorita. Sem ter visto Regina King em Se a Rua Beale Falasse, também torço pelo filme de Yorgos Lanthimos entre as coadjuvantes: Amy Adams, de quem eu gosto muito em Vice, precisa me desculpar, pois minha torcida fica com Rachel Weisz.

Aqui no Brasil, o Oscar 2019 será transmitido pelo canal TNT a partir das 20h30 com o Tapete Vermelho e a partir das 22h com a cerimônia oficial. No mais, compartilho abaixo as apostas para a noite de hoje e também as duas lives realizadas na página do Cinema e Argumento no Facebook sobre as categorias de interpretação. Logo mais nos vemos novamente para comentar os vencedores. Até lá!

APOSTAS

MELHOR FILME: Roma / alt: Green Book: O Guia
MELHOR DIREÇÃO: Alfonso Cuarón (Roma) / alt: Spike Lee (Infiltrado na Klan)
MELHOR ATRIZ: Glenn Close (A Esposa) / alt: Olivia Colman (A Favorita)
MELHOR ATOR: Rami Malek (Bohemian Rhapsody) / alt: Christian Bale (Vice)
MELHOR ATRIZ COADJUVANTE: Regina King (Se a Rua Beale Falasse) / alt: Amy Adams (Vice)
MELHOR ATOR COADJUVANTE: Mahershala Ali (Green Book: O Guia) / alt: Richard E. Grant (Poderia Me Perdoar?)
MELHOR ROTEIRO ORIGINAL: A Favorita / alt: Green Book: O Guia
MELHOR ROTEIRO ADAPTADO: Infiltrado na Klan / alt: Poderia Me Perdoar?
MELHOR FILME ESTRANGEIRO: Roma / alt: Guerra Fria
MELHOR ANIMAÇÃO:Homem-Aranha no Aranhaverso / alt: Ilha dos Cachorros

MELHOR TRILHA SONORA: Se a Rua Beale Falasse / alt: Pantera Negra
MELHOR CANÇÃO ORIGINAL: “Shallow” (Nasce Uma Estrela) / alt: “All the Stars” (Pantera Negra)
MELHOR MONTAGEM: Vice / alt: Bohemian Rhapsody
MELHOR DESIGN DE PRODUÇÃO: A Favorita / alt: Roma
MELHOR FOTOGRAFIA: Roma / alt: Guerra Fria
MELHOR FIGURINO: A Favorita / alt: Pantera Negra

MELHOR MIXAGEM DE SOM: Bohemian Rhapsody / alt: Nasce Uma Estrela
MELHOR EDIÇÃO DE SOM: Um Lugar Silencioso / alt: Bohemian Rhapsody
MELHOR MAQUIAGEM & PENTEADOS: Vice / alt: Duas Rainhas
MELHORES EFEITOS VISUAIS: O Primeiro Homem / alt: Vingadores: Guerra Infinita

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Melhores de 2018 – Figurino

Figurinista dos filmes de Paul Thomas Anderson desde quando o cineasta estreou em longas-metragens com Jogada de Risco em 1996, Mark Bridges recriou para Trama Fantasma toda a inspiração da moda britânica dos anos 1950, imaginando o que vestiria a geração que chegava ao fictício ateliê House of Woodcock para encomendar as desejadas criações do estilista vivido por Daniel Day-Lewis. É um trabalho sofisticado que não torna as peças hiperbólicas, como se elas fossem um personagem à parte, já que, em cada vestido projetado por Reynolds, existe muito do perfeccionismo e da forte personalidade do protagonista. Partindo dessa perspectiva, Mark Bridges trabalhou de forma muito próxima com Day-Lewis, definindo junto ao ator quais seriam os traços não das roupas daquela época, mas sim daquelas que o personagem teria criado com tanto controle e orgulho. O belíssimo resultado rendeu ao figurinista um segundo e incontestável Oscar (o primeiro veio por O Artista em 2012). Ainda disputavam a categoria: Animais Fantásticos: Os Crimes de Grindelwald, O Destino de Uma Nação, A Forma da Água e O Retorno de Mary Poppins.

EM ANOS ANTERIORES: 2017 – Jackie | 2016 – Carol | 2015 – Macbeth: Ambição e Guerra | 2014 – O Grande Hotel Budapeste | 2013 – Anna Karenina | 2012 – W.E. – O Romance do Século | 2011 – O Discurso do Rei | 2010 – A Jovem Rainha Victoria | 2009 – O Curioso Caso de Benjamin Button | 2008 – Elizabeth – A Era de Ouro | 2007 – Maria Antonieta

Melhores de 2018 – Design de Produção

Inicialmente idealizado como uma obra em preto e branco, A Forma da Água logo se coloriu quando o diretor Guillermo Del Toro convocou Paul D. Austerberry para assinar o design de produção do filme junto à dupla Jeffrey A. Melvin e Shane Vieau. Austerberry não apenas convenceu Del Toro que seu filme seria muito mais pulsante e instigante caso abandonasse a ideia do preto e branco como analisou com o diretor cada uma das 3.500 cores da paleta proposta para o design de produção do projeto. Mais do que isso, Austerberry, Melvin e Vieau mergulharam criativamente nas assumidas referências estéticas do cineasta, como o longa Os Sapatinhos Vermelhos, de 1948, para moldar os cenários e as decorações dos diferentes núcleos de A Forma da Água. Entre os laboratórios onde Elisa (Sally Hawkins) trabalha e os apartamentos envelhecidos em cima de um cinema de rua, o design de produção do filme transita entre a fantasia e o realista com detalhes tão mínimos quanto impressionantes. Ainda disputavam a categoria: Animais Fantásticos: Os Crimes de Grindelwald, O Retorno de Mary Poppins, Roma e Sem Fôlego.

EM ANOS ANTERIORES: 2017 – Blade Runner 2049 | 2016 – Animais Fantásticos e Onde Habitam | 2015 – Expresso do Amanhã | 2014 – O Grande Hotel Budapeste | 2013 – Anna Karenina | 2012 – A Invenção de Hugo Cabret | 2011 – Harry Potter e as Relíquias da Morte – Parte 2 | 2010 – O Mundo Imaginário do Dr. Parnassus | 2009 – O Curioso Caso de Benjamin Button | 2008 – Sweeney Todd – O Barbeiro Demoníaco da Rua Fleet | 2007 – Maria Antonieta

Melhores de 2018 – Ator Coadjuvante

Coadjuvante no filme com um todo, mas protagonista da cena indiscutivelmente mais bela de Me Chame Pelo Seu Nome, Michael Stuhlbarg tinha uma missão muito difícil ao dar vida ao pai de Elio (Timothée Chalamet). Como, afinal, em apenas uma cena, sintetizar a gama de emoções construída pelo texto e fazer com que o espectador acredite que o personagem, de fato, diz, sente e já viveu tudo aquilo que está posto pelo roteiro? Em poucos minutos, muito é dito na cena entre os dois personagens — e é verdade que o texto dá conta de boa parte do sentimento avassalador dessa sequência —, mas é loucura subestimar Stuhlbarg, que, em cada movimento e em cada olhar, esbanja a delicadeza, a generosidade e a sabedoria que todo pai deveria compartilhar com um filho. É um trabalho sutil e meticuloso que engrandece o momento que tanto faz Me Chame Pelo Seu Nome reverberar após a sessão. Ainda disputavam a categoria: Barry Keoghan (O Sacrifício do Cervo Sagrado), Bruno Fernandes (Tinta Bruta), Daniel Kaluuya (As Viúvas) e Irandhir Santos (O Animal Cordial).

EM ANOS ANTERIORES: 2017 – Lucas Hedges (Manchester à Beira-Mar) | 2016 – Steve Carell (A Grande Aposta) | 2015 – Edward Norton (Birdman ou (A Inesperada Virtude da Ignorância)) | 2014 – Jared Leto (Clube de Compras Dallas) | 2013 – Philip Seymour Hoffman (O Mestre) | 2012 – Nick Nolte (Guerreiro) | 2011 – Alan Rickman (Harry Potter e as Relíquias da Morte – Parte 2) | 2010 – Michael Douglas (Wall Street – O Dinheiro Nunca Dorme) | 2009 – Christoph Waltz (Bastados Inglórios) | 2008 – Javier Bardem (Onde os Fracos Não Têm Vez) | 2007 – Casey Affleck (O Assassinato de Jesse James Pelo Covarde Robert Ford)

“Todos Já Sabem”: trio de atores notáveis é desperdiçado por trama que não assume a sua própria natureza melodramática

Direção: Asghar Farhadi

Roteiro: Asghar Farhadi

Elenco: Javier Bardem, Penélope Cruz, Ricardo Darín, Eduard Fernández, Bárbara Lennie, Inma Cuesta, Elvira Mínguez, Ramón Barea, Sara Sálamo, Roger Casamajor, José Ángel Egido, Sergio Castellanos, Iván Chavero, Tomás del Estal

Todos lo Saben, Espanha/França/Itália, 2018, Drama, 132 minutos

Sinopse: Quando sua irmã se casa, Laura (Penélope Cruz) retorna à Espanha natal para acompanhar a cerimônia. Por motivos de trabalho, o marido argentino (Ricardo Darín) não pode ir com ela. Chegando no local, Laura reencontra o ex-namorado, Paco (Javier Bardem), que não via há muitos anos. Durante a festa de casamento, uma tragédia acontece. Toda a família precisa se unir diante de um possível crime de grandes proporções, enquanto se questionam se o culpado não está entre eles. Na busca por uma solução, segredos e mentiras são revelados sobre o passado de cada um. (Adoro Cinema)

É um feito e tanto: reunir, em um mesmo filme, Javier Bardem, Penélope Cruz e Ricardo Darín, nada menos do que três grandes ícones do cinema contemporâneo de língua latina. A expectativa também se multiplica porque Todos Já Sabem é dirigido pelo premiado cineasta iraniano Asghar Farhadi, que assinou dois títulos premiados com o Oscar de melhor filme estrangeiro: A Separação (2012) e O Apartamento (2016). Ainda assim, com todas as variáveis trabalhando a favor do resultado, a recepção morna no Festival de Cannes em 2018 já sugeria que tal mistura não havia resultado em grande coisa, e é preciso realmente ver para crer: não só Todos Já Sabem desperta a desoladora frustração de não ser uma obra à altura dos profissionais envolvidos em sua realização como deixa a certeza de que, mesmo se fosse um projeto menos suscetível a expectativas, seria impossível não sair desapontado com a limitação de ideias de um roteiro inacreditavelmente escrito no piloto-automático.

Somente o segundo longa-metragem espanhol a abrir uma edição do Festival de Cannes (o primeiro foi Má Educação, de Pedro Almodóvar, em 2004), Todos Já Sabem parte da vontade de contar uma história bastante cotidiana e familiar, onde Laura (Penélope Cruz), uma mulher espanhola vivendo na Argentina, volta a sua terra-natal para o casamento da irmã. Lá, reencontra um amor mal resolvido do passado e, de repente, enfrenta uma situação angustiante que colocará os nervos, as memórias e as emoções da família à flor da pele. Farhadi, que também assina o roteiro, leva um tempo considerável da projeção apenas acompanhando os personagens em tarefas mundanas, claramente convidando o espectador a fazer parte daquele universo. A proposta não deixa de causar estranheza em um primeiro momento, pois toma tempo demais da projeção sem sugerir basicamente nada do que será a matéria-prima dos dramas posteriores.

Finalmente, quando os personagens de Todos Já Sabem passam a enfrentar o tal acontecimento que desafia a consistência dos laços familiares, a preparação de terreno é percebida na tela, muito porque Javier Bardem e Penélope Cruz (dois excelentes atores que ficam ainda melhores quando atuam em espanhol) conferem por si só um inegável sentimento de intimidade para a dupla de personagens que interpretam. O que derruba Todos Já Sabem, entretanto, é a escolha de contar a história em tom de melodrama familiar, construindo uma novela limitadíssima do ponto de vista emocional que, por outro lado, tenta se apresentar como comedida e introspectiva. Não há problema algum no melodrama (ele, inclusive, quando bem trabalhado, é capaz de alcançar notas interessantíssimas, como no Álbum de Família estrelado por Meryl Streep e Julia Roberts), mas, quando inexiste qualquer resquício de frescor ou simplesmente a vontade de assumi-lo, é difícil nutrir qualquer tipo de entusiasmo.

Todos Já Sabem é um imperdoável desperdício de talentos porque tenta disfarçar o tom novelesco de uma série de dilemas no mínimo batidos para quem tem o mínimo de vivência cinematográfica. Há tudo o que você pode imaginar: homens com histórico de alcoolismo, rancores envolvendo negócios familiares mal resolvidos, segredos de gravidez guardados durante anos, adolescentes em ebulição sexual e o filho da empregada que até hoje é julgado em função de sua origem. Do micro ao macro, Todos Já Sabem acumula melodramas, mas parece envergonhado de abraçá-los como parte de sua personalidade, o que é grave para uma trama que se desenvolve justamente a partir de desdobramentos tão novelescos. Dessa maneira, Farhadi cria uma obra contraditória: como uma odisseia familiar, não possui sequer uma verve hiperbólica para que os atores tirem algum proveito; como um suposto filme de arte, não tem a sofisticação dramática que lhe impulsione a esse título. 2019 mal começou e já temos uma das grandes frustrações do ano.