Cinema e Argumento

Melhores de 2018 – Canção Original

Como toda canção marcante escrita especialmente para um longa-metragem, “Shallow” é uma excelente síntese em versão musical de tudo aquilo que acompanhamos em Nasce Uma Estrela. Tanto na tela quanto na canção, o espectador se depara com dois personagens insatisfeitos com suas próprias vidas e que, quando se conhecem, passam a enxergar, no amor e na música, uma razão para seguir em frente e criar. Escrita por Andrew Wyatt, Anthony Rossomando, Lady Gaga e Mark Ronson, “Shallow” é o ponto alto de uma trilha sonora que molda os caminhos emocionais de um filme sobre dois músicos. Também é uma canção que reafirma a incrível potência musical de Lady Gaga e que, acima de tudo, carrega toda a força e a emoção que, para o escriba que vos fala, não se desenha de maneira equivalente no filme em si. Merecidamente premiada com o Oscar, “Shallow” já se firmou como uma das canções mais marcantes premiadas recentemente na categoria, e não por menos: se há uma razão para Nasce Uma Estrela ser lembrado, essa é, sem dúvida alguma, esse hit que ainda levou para casa um Grammy na categoria de melhor performance de uma dupla ou grupo pop. Ainda disputavam a categoria: “All the Stars” (Pantera Negra), “Mystery of Love” (Me Chame Pelo Seu Nome), “Remember Me” (Viva – A Vida é Uma Festa) e “Visions of Gideon” (Me Chame Pelo Seu Nome).

EM ANOS ANTERIORES: 2017 – “Another Day of Sun” (La La Land: Cantando Estações) | 2016 – “Simple Song #3” (A Juventude) | 2015 – “Glory” (Selma: Uma Luta Pela Igualdade) | 2014 – “Let it Go” (Frozen – Uma Aventura Congelante) | 2013 – “Last Mile Home” (Álbum de Família) | 2012 – “Skyfall” (007 – Operação Skyfall) | 2011 – “Life’s a Happy Song” (Os Muppets) | 2010 – “Better Days” (Comer Rezar Amar) | 2009 – “By the Boab Tree” (Austrália) | 2008 – “Falling Slowly” (Apenas Uma Vez)

Três atores, três filmes… com Fatimarlei Lunardelli

Foto: Taiane Lunardelli

Em dezembro do ano passado, quando completei 11 anos ininterruptos de atividades com o Cinema e Argumento, recebi, com muita honra, o convite para integrar a Associação de Críticos de Cinema do Rio Grande do Sul – ACCIRS. Quem me fez esse convite foi a queridíssima jornalista Fatimarlei Lunardelli, atual vice-presidente da associação e que agora recebo aqui na coluna Três atores, três filmes. A entrada na ACCIRS foi uma honra dupla porque, fora a alegria de ter meu trabalho vinculado a essa respeitada entidade, o convite veio especificamente da Fatimarlei, uma grande profissional com vasta atuação no campo da crítica de cinema. Jornalista pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul, mestre em Artes e doutora em Ciências da Comunicação pela Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo, a Fati é professora de História do Cinema Internacional no Curso de Realização Audiovisual da Unisinos. Também é autora de livros e artigos sobre cinema, e tem um site de autoria própria, o Escrita Crítica, onde compartilha periodicamente suas percepções acerca dos mais variados filmes. Para a coluna, ela propôs um formato inédito: falar sobre três atores não a partir de três desempenhos específicos, mas através de alguns dos tantos diretores que contribuíram para a formação de suas mitológicas carreiras. São análises imperdíveis. Confiram abaixo!

Clint Eastwood
Aprecio o cinema pelos diretores, mais do que pelos atores. Minha relação com os filmes é sempre a partir desse sujeito que cria ou, no mais das vezes, é o orquestrador dos múltiplos talentos que se conjugam em sons e imagens que ocupam a tela. Não é comum que diretores sejam também atores e quando isso acontece o resultado nem sempre é satisfatório. Não é o caso de Clint Eastwood, que admiro tanto como cineasta quanto intérprete. Foi no western recriado como spaghetti por Sérgio Leone que Clint começou. Em 1992 ele dirigiu e protagonizou Os Imperdoáveis, obra-prima definitiva desse gênero que se confunde com a própria origem do cinema. Quando Clint se lançou como diretor em 1971, com Perversa Paixão, criou para si o personagem do radialista de jazz que rompeu com o estereótipo do cara durão do velho oeste e dos filmes de ação. Amante de jazz, ele mesmo compositor, Clint dirigiu Bird (1988), ousada cinebiografia de Charlie Parker, o documentário Piano Blues (2003), e resgatou nas trilhas nomes esquecidos como o de Johnny Hartman em As Pontes de Madison (1995), no qual contracena com Meryl Streep, um dos filmes mais românticos da história do cinema. Como intérprete nos próprios filmes ele encenou o personagem caído que busca redenção, solitário, com uma sensibilidade relutante, protegida por um sarcasmo mal-humorado. Dos filmes que dirigiu e interpretou, Menina de Ouro (2004), Gran Torino (2008) e, agora A Mula (2018), na qual Clint Eastwood aparece em cena com 88 anos, estão entre os melhores já realizados no cinema. Nos personagens que encarna, no drama que desenvolve, seus filmes tocam nas questões básicas da existência.

Marcello Mastroianni
Marcello Mastroianni fez quase 150 filmes e foi protagonista de vários que estão entre os que mais amo no cinema, dirigidos por Ettore Scola e Federico Fellini. Em Nós que nos Amávamos Tanto (1974) numa homenagem emocionante de Scola ao amigo Federico, Marcello aparece como ele mesmo na cena cinematográfica mais linda já criada, aquela do banho na Fontana di Trevi, em A Doce Vida (1960). Nas mãos de gênio de Fellini Marcelo foi seu alter ego em crise no 8 ½ (1963). Sedutor e seduzido pelas mulheres, dócil e ao mesmo tempo exasperante, seu personagem antecipa o Snáporaz perdido de Cidade das Mulheres (1980). Mastroianni começou diretamente no cinema, no início dos anos 40, foi aprendendo a interpretar nos sets de filmagem e só depois fez aulas de teatro. Tinha presença física marcante, uma beleza masculina que o transformou logo em símbolo sexual. Foi para quebrar o mito do latin lover que interpretou o macho impotente em O Belo Antônio (1960), de Mauro Bolognini. Mas foi com Ettore Scola, com o qual iniciou em 1970, em Dramma della Gelosia, que Mastroianni fez um de seus personagens antológicos, o radialista homossexual de Um Dia Muito Especial (1977). A arte do ator é o teatro, lugar por excelência do artista da interpretação; no cinema, na maior parte das vezes, é preciso apenas entregar o corpo para o trabalho criativo do diretor. Mastroianni, que tinha uma certa melancolia meio tímida, se deu com doçura e plena entrega a essa arte do século XX, inscrevendo-se em alguns dos momentos mais sublimes da história do cinema.

Juliete Binoche
Juliette Binoche me encanta. O sistema de estrelas, que ajudou a estruturar a indústria do cinema, se desenvolveu junto com os recursos da câmera de se aproximar dos corpos, percorrer as superfícies, chegar tão perto do rosto a ponto de revelar os sentimentos dos personagens sem que nada seja dito. É no corpo frágil de Juliette que se mostra o espírito valente da mulher de A Liberdade é Azul (1993) que perde tudo e, ainda assim, escolhe viver. Francesa nascida em Paris, com formação em arte dramática, Juliette tem uma carreira desigual, protagonizou filmes insignificantes, mas também deu sorte, tornou-se inesquecível como protagonista do primeiro filme da fabulosa Trilogia das Cores, de Krzysztof Kieslowski. Na mão de grandes diretores, como Abbas Kiarostami em Cópia Fiel (2010), a atriz deixou sua marca na cena belíssima em que corrige o batom diante do espelho e, logo adiante, contracena com Jean-Claude Carrière. O roteirista, que é uma lenda, escreveu a adaptação para o cinema de A Insustentável Leveza do Ser (1988), do tcheco Milan Kundera, filme que projetou Juliette, no início de sua carreira. A diferença entre os grandes filmes e aqueles que são apenas artesanato bem-feito são os artistas que se conjugam num momento único que resulta no filme. Ao lado de Daniel Day-Lewis e Lena Olin, Juliete foi filmada pelo grande Sven Nykvist, o fotógrafo de Ingmar Bergman, o maior decifrador de rostos da história do cinema. Outro momento memorável da atriz é O Paciente Inglês (1997) num papel secundário que lhe deu um merecido Oscar.

Melhores de 2018 – Maquiagem & Penteados

Pouco reconhecido na temporada de premiações deste ano, o trabalho de maquiagem e penteados de Pantera Negra é tão interessante e sofisticado quanto outros segmentos do filme que chegaram a vencer o Oscar, como o design de produção, os figurinos e a trilha sonora. Tomando como base uma ampla e meticulosa pesquisa envolvendo as identidades de inúmeros povos africanos através dos séculos, o trio formado por Camille Friend, Joel Harlow e Ken Diaz buscou criar determinados grupos de personagens que, em termos de maquiagem e penteados, perfeitamente se equivalem a tribos e guerreiros de países como Etiópia, Namíbia, Gana e República do Congo. A pesquisa realizada in loco na África não se limita, no entanto, à mera cópia, uma vez que Camille, Joel e Ken idealizaram todo o seu trabalho sob a luz dos dias atuais: para eles, era questão de honra, por exemplo, que as mulheres do fictício país Wakanda fossem fortes, belas e imponentes a sua própria maneira, estabelecendo uma referência de beleza que a sociedade como um todo nunca se interessou em criar para mulheres negras. Excelência com consciência: uma combinação impecável. Ainda disputavam a categoria: O Destino de Uma Nação e Eu, Tonya.

EM ANOS ANTERIORES: 2017 – Blade Runner 2049 | 2016 – Ave, César! | 2015 – Mad Max: Estrada da Fúria | 2014 – O Grande Hotel Budapeste | 2013 – A Morte do Demônio | 2012 – A Dama de Ferro (primeiro ano da categoria)

Melhores de 2018 – Som

Realizar um filme de terror onde a tensão e os sustos são construídos através da discrição e não a partir de barulhos estridentes ou de trilhas acima do tom não é prática muito comum no gênero, especialmente se considerarmos as grandes produções hollywoodianas. Por isso mesmo é precioso o trabalho de som realizado pela dupla Ethan Van Der Ryn e Erik Aadahl para Um Lugar Silencioso. Tratando o silêncio como um personagem muito mais importante do que os próprios protagonistas de carne e osso, Van Der Ryn e Aadahl articulam a sensação de ameaça e perigo por meio de cada inflexão de som, potencializando-o com a sua quase ausência e não com a sua excessiva presença. O feito é grandioso: tanto Um Lugar Silencioso envolve por completo as plateias hiper-conectadas e dispersas dos dias de hoje como constrói uma narrativa própria de suspense e drama através do som, revitalizando no cinema comercial aquela máxima por vezes tão esquecida e subestimada: a de que menos é sempre mais. Ainda disputavam a categoria: Bohemian Rhapsody, Ilha dos Cachorros, Nasce Uma Estrela e Você Nunca Esteve Realmente Aqui.

EM ANOS ANTERIORES: 2017 – Dunkirk | 2016 – Ponto Zero | 2015 – Mad Max: Estrada da Fúria | 2014 – Até o Fim | 2013 – Gravidade | 2012 – 007 – Operação Skyfall | 2011 – Harry Potter e as Relíquias da Morte – Parte 2 | 2010 – Tron: O Legado | 2009 – Avatar | 2008 – WALL-E | 2007 – O Ultimato Bourne

Os vencedores do Oscar 2019

Olivia Colman e o Oscar de melhor atriz por A Favorita: apesar da sétima derrota de Glenn Close, prêmio foi para um papel e uma interpretação que ficarão para a posteridade.

Provando que um apresentador não faz falta alguma, o Oscar 2019 trouxe um desfecho inacreditavelmente indigesto para uma temporada tortuosa e de ideias muito confusas. Afinal, como a mesma Academia premia o fabuloso desempenho de Olivia Colman em A Favorita e o roteiro de Spike Lee em Infiltrado na Klan, mas consagra o empoeirado Green Book: O Guia como melhor filme e dá o título de longa mais premiado da noite para Bohemian Rhapsody? É simplesmente inexplicável. Há pouco o que se dizer de uma noite marcada por alguns prêmios disruptivos (além dos já citados, foi lindo ver Pantera Negra faturando trilha sonora, design de produção e figurino) que parecem ofuscados pela vitória de um filme antiquado, de mensagens ultrapassadas e que, em qualquer universo sensato, não se equivale tematicamente a Infiltrado na Klan, A Favorita e Pantera Negra.

O que se leva da cerimônia são os discursos de Olivia Colman (por uma vitória merecida e ao mesmo tempo intrigante em melhor atriz), Spike Lee e Regina King, todos marcantes, e também a tradicional e poderosa performance vocal de Lady Gaga com “Shallow”, que lhe rendeu o prêmio de melhor canção. De resto, nada a ser lembrado. Se você pensava que as amargas vitórias de Crash – No Limite e O Discurso do Rei não poderiam ser superadas, a Academia sempre nos lembra, assim como o Brasil e o mundo ultimamente, que tudo sempre pode piorar.

Confira abaixo a lista completa de vencedores:

MELHOR FILME: Green Book: O Guia
MELHOR DIREÇÃO: Alfonso Cuarón (Roma)
MELHOR ATRIZ: Olivia Colman (A Favorita)
MELHOR ATOR: Rami Malek (Bohemian Rhapsody)
MELHOR ATRIZ COADJUVANTE: Regina King (Se a Rua Beale Falasse)
MELHOR ATOR COADJUVANTE: Mahershala Ali (Green Book: O Guia)
MELHOR ROTEIRO ORIGINAL: Green Book: O Guia
MELHOR ROTEIRO ADAPTADO: Infiltrado na Klan
MELHOR FILME ESTRANGEIRO: Roma
MELHOR ANIMAÇÃO: Homem-Aranha no Aranhaverso

MELHOR TRILHA SONORA: Pantera Negra
MELHOR CANÇÃO ORIGINAL: “Shallow” (Nasce Uma Estrela)
MELHOR MONTAGEM: Bohemian Rhapsody
MELHOR DESIGN DE PRODUÇÃO: Pantera Negra
MELHOR FOTOGRAFIA: Roma
MELHOR FIGURINO: Pantera Negra

MELHOR MIXAGEM DE SOM: Bohemian Rhapsody
MELHOR EDIÇÃO DE SOM: Bohemian Rhapsody
MELHOR MAQUIAGEM & PENTEADOS: Vice
MELHORES EFEITOS VISUAIS: O Primeiro Homem
MELHOR DOCUMENTÁRIO: Free Solo
MELHOR CURTA-METRAGEM: Skin
MELHOR CURTA-METRAGEM (ANIMAÇÃO): Bao
MELHOR CURTA-METRAGEM (DOCUMENTÁRIO): Period. End of Sentence.