Cinema e Argumento

“Pequena Mamãe” é a mais nova pérola de uma infalível Céline Sciamma

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Direção: Céline Sciamma

Roteiro: Céline Sciamma

Elenco: Joséphine Sanz, Gabrielle Sanz, Nina Meurisse, Stéphane Varupenne, Margot Abascal, Florès Cardo, Josée Schuller, Guylène Péan

França, 2021, Drama, 75 minutos

Sinopse: Nelly acaba de perder sua avó e está ajudando o pais a limpar a casa de infância de sua mãe. Ela explora a casa e o bosque ao redor. Um dia, ela conhece uma garota de sua idade construindo uma casa na árvore.

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Ainda estamos por ver algo minimamente decepcionante da cineasta francesa Céline Sciamma. Claro que sou suspeito para falar porque tenho grande admiração por seu estilo delicado, naturalista e, por vezes, imaginativo, mas Pequena Mamãe, filme assinado por ela e exibido no último Festival de Berlim reafirma essa sensação. Após o emblemático Retrato de Uma Jovem em Chamas, Sciamma volta a um tema bastante recorrente na sua filmografia: a infância, agora sob a perspectiva do luto. No centro da história, está Nelly (Josephine Sanz), uma menina de oito anos que acaba de perder a avó e tenta lidar com essa despedida através do vínculo com sua mãe. Simples na essência. Surpreendente nos detalhes.

Assim como em Tomboy, onde discutiu identidade de gênero, e no roteiro de Minha Vida de Abobrinha, em que abordou orfandade e abandono, a diretora olha para a vida adulta por meio das possibilidades e das imaginações presentes na vida infantil. E trata-se de um formato muito difícil de administrar, visto que é muito comum encontrar filmes que tratam crianças como mini-adultos ou, então, como personagens que só expressam suas angústias e contradições através de comportamentos que testam a paciência e os ouvidos da plateia. Sciamma passa longe disso, e o faz com inteligência, debruçando-se com delicadeza sobre os verdadeiros traços que orbitam essa faixa etária e fazendo com que eles sejam complexos sem perder a identidade inerente a personagens com curtas trajetórias de vida.

No caso de Pequena Mamãe, o luto fornece elementos para compreendermos a pequena Nelly, tanto na sua jornada individual quanto na relação estabelecida com uma mãe de função muito mais complexa do que aparenta. Ao abordar sentimentos decorrentes das perdas, Sciamma aproveita para explorar também o amor, a inocência e os interessantes prismas com que os pequenos enxergam o mundo. E não estamos falando de qualquer criança: a Marion de Petite Maman é especial, quase mágica, e o fato de ela eventualmente parecer um tanto mais madura do que o esperado para a sua idade é plenamente justificado com o desenrolar da trama.

Temos, portanto, um longa-metragem melancólico que encontra maturidade não na ideia de uma infância pura e simples, mas nas remanescências dela, particularmente nas de nós próprios. Feito de camadas desdobradas de maneira quase imperceptível, Pequena Mamãe pode ser uma ghost story, o retrato de um rito de passagem, uma fábula, um conto sobre como se (re)conhecer no luto e uma mistura disso tudo, o que não é problema algum para uma contadora de histórias como Sciamma. Ela cria a atmosfera ideal para que o filme se complemente e não se pulverize com suas tantas possibilidades de interpretação.

Em que pese um ponto de virada construído sem maiores surpresas, Pequena Mamãe é o caso de filme que alcança o subestimado e dificílimo feito de ser conciso em tudo que se propõe, a começar pela própria duração de meros 72 minutos. Há, no projeto, um universo rico e repleto de leituras poucas vezes encontradas em obras que acreditam na ideia de que quanto mais tudo — tempo, elenco, técnica — melhor. Com Sciamma, tudo flui naturalmente em uma experiência breve e plena em sua objetividade. Do ponto de vista formal e emotivo, a cineasta, com apenas cinco longas no currículo, já é mesmo uma grande e, até aqui, infalível referência. Estou desde já ansioso por seu próximo projeto.

Festival de Sundance 2022: impressões sobre o evento e sobre os filmes exibidos

Diretamente de Portugal, o André Sousa, do canal Disquetes e Claquetes, me convidou para falar sobre a minha experiência cobrindo pela primeira o Festival de Sundance. Na conversa, fomos desde bastidores de credenciamento e cobertura até alguns destaques da programação, como Cha Cha Real Smooth, Fire of Love e Good Luck to You, Leo Grande. Agradeço ao André pelo convite, e espero que vocês gostem desse bate-papo tanto quanto eu gostei. É só dar o play!

Directly from Portugal, André Sousa, from Disquetes e Claquetes channel on YouTube, invited me to talk about my experience covering the Sundance Festival for the first time. In our conversation, we went from the backstage of accreditation and coverage to some highlights of the programming, such as Cha Cha Real Smooth, Fire of Love and Good Luck to You, Leo Grande. I thank André for the invitation, and I hope you enjoy this chat as much as I did.

Os indicados ao Oscar 2022

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Jane Campion nas filmagens de Ataque dos Cães. Longa lidera as indicações ao Oscar 2022 e faz de Campion a primeira cineasta a ser indicada duas vezes na categoria de melhor direção.

Enquanto os prêmios precursores, com exceção dos indicados ao BAFTA, tentam a todo custo prever o que acontecerá no Oscar, a Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood prova que tal previsão está cada vez mais complexa de ser feita. Basta olhar a lista deste ano para entender: há, nela, um conjunto de surpresas e indicações que só o Oscar terá registrado na temporada. Tamanha diferenciação é um claro reflexo do movimento que a Academia vem fazendo nos últimos anos para diversificar seus votantes, algo que não acontece com escala e estratégia semelhantes em premiações como o Globo de Ouro e o Screen Actors Guild Awards.

Com as mudanças gradativas surtindo efeito, o Oscar tem dado holofote maior para produções língua não-inglesa (Drive My Car, A Pior Pessoa do Mundo, Mães Paralelas), rejeitado vexames (Jared Leto em Casa Gucci) e provado que, independentemente de nome, histórico ou campanha, nunca há garantia completa de indicação (Aaron Sorkin fora de roteiro por Apresentando os Ricardos, Denis Villeneuve esnobado em direção por Duna). Aliás, quando uma celebridade do calibre de Lady Gaga faz campanha desde o lançamento de um filme, é indicada a todos os prêmios e sequer chega ao Oscar, realmente podemos dizer que já temos sinais de novos tempos.

Os vencedores do Oscar 2022 serão conhecidos no dia 27 de março. Confira abaixo comentários pontuais sobre a lista e, logo em seguida, a relação completa de indicados.

– Com Amor, Sublime Amor, Steven Spielberg se torna o primeiro cineasta a ter indicações ao Oscar de melhor direção por seis décadas consecutivas. Recorde mais do que apropriado para um realizador que, aos 75 anos de idade, consegue se reinventar com um grande musical;

– Outro feito histórico é a indicação tripla para Fuga. Reconhecimento merecido para essa ótima produção lembrada em melhor filme internacional, documentário e animação;

– King Richard: Criando Campeãs é o típico drama motivacional que a ala mais tradicional do Oscar costuma abraçar, mas o reconhecimento foi exacerbado até para esse padrão, já que são injustificadas as indicações nas categorias de melhor roteiro original e melhor montagem;

– Beyoncé e Billie Eilish concorrem em melhor canção original. O Oscar poderia ter abraçado ainda mais o pop com uma indicação para divertida canção de Ariana Grande em Não Olhe Para Cima;

– O Oscar está cada vez mais internacional, e não há notícia melhor do que essa. Afinal, quando poderíamos dizer, tempos atrás, que um filme japonês com três horas de duração e repleto de questões existenciais seria reconhecido em categorias como a de melhor filme, direção e roteiro adaptado? Em grande estilo, Drive My Car dá sequência ao caso de amor da Academia com o cinema oriental;

– É chocante a ausência de Aaron Sorkin por Apresentando os Ricardos na categoria de melhor roteiro original. Não pelo trabalho em si, que é um dos mais fracos de Sorkin, mas pela grife de seu nome, solenemente ignorada dessa vez;

– Quem também ficou de fora foi Jared Leto, nome misteriosamente indicado por praticamente todos os prêmios precursores por Casa Gucci. Pois o Oscar não caiu neste papo furado e ficou ao lado do Globo de Ouro;

– Nenhuma ausência, no entanto, foi mais inesperada do que a de Lady Gaga em melhor atriz. Assumidamente em campanha desde a estreia de Casa Gucci, Gaga foi a única intérprete a ser indicada a todas as premiações da temporada. Menos ao Oscar. A estatística tem precedentes: Tilda Swinton (Precisamos Falar Sobre o Kevin), Marion Cotillard (Ferrugem e Osso), Daniel Brühl (Rush) e mais alguns outros…

– Entre os coadjuvantes, surpresa total para a indicação de J.K. Simmons, que não se traduz em merecimento, uma vez que o ator tem pouco o que fazer em Apresentando os Ricardos. Outra mudança inesperada foi a exclusão de Caitriona Balfe (Belfast) para a entrada de Judi Dench pelo mesmo filme e a de Ruth Negga (Identidade) para a merecida inclusão de Jessie Buckley (A Filha Perdida);

– Não tenho apreço por Duna, mas não faz sentido Denis Villeneuve ter sido esnobado em melhor direção. Afinal, como um filme com várias indicações técnicas e lembrado em melhor filme, montagem e roteiro não emplaca seu diretor?

– Para além da liderança com 12 indicações, Ataque dos Cães consagra Jane Campion como a primeira cineasta a conseguir uma segunda indicação em melhor direção (a anterior veio em 1994 por O Piano). Ao que tudo indica até aquui, o seu favoritismo e o do filme é absoluto.


INDICADOS AO OSCAR 2022

MELHOR FILME
Amor, Sublime Amor
Ataque dos Cães
O Beco do Pesadelo
Belfast
Drive My Car
Duna
King Richard: Criando Campeãs
Licorice Pizza
Não Olhe Para Cima
No Ritmo do Coração

MELHOR DIREÇÃO
Jane Campion (Ataque dos Cães)
Kenneth Branagh (Belfast)
Paul Thomas Anderson (Licorice Pizza)
Ryûsuke Hamaguchi (Drive My Car)
Steven Spielberg (Amor, Sublime Amor)

MELHOR ATRIZ
Jessica Chastain (Os Olhos de Tammy Faye)
Kristen Stewart (Spencer)
Nicole Kidman (Apresentando os Ricardos)
Olivia Colman (A Filha Perdida)
Penélope Cruz (Mães Paralelas)

MELHOR ATOR
Andrew Garfield (Tick, Tick… BOOM!)
Benedict Cumberbatch (Ataque dos Cães)
Denzel Washington (A Tragédia de Macbeth)
Javier Bardem (Apresentando os Ricardos)
Will Smith (King Richard: Criando Campeãs)

MELHOR ATRIZ COADJUVANTE
Ariana DeBose (Amor, Sublime Amor)
Aunjanue Ellis (King Richard: Criando Campeãs)
Jessie Buckley (A Filha Perdida)
Judi Dench (Belfast)
Kirsten Dunst (Ataque dos Cães)

MELHOR ATOR COADJUVANTE
Ciarán Hinds (Belfast)
Jesse Plemons (Ataque dos Cães)
J.K. Simmons (Apresentando os Ricardos)
Kodi Smit-McPhee (Ataque dos Cães)
Troy Kotsur (No Ritmo do Coração)

MELHOR ROTEIRO ORIGINAL
Belfast
King Richard: Criando Campeãs
Licorice Pizza
Não Olhe Para Cima
A Pior Pessoa do Mundo

MELHOR ROTEIRO ADAPTADO
Ataque dos Cães
A Filha Perdida
Drive My Car
Duna
No Ritmo do Coração

MELHOR FILME INTERNACIONAL
Drive My Car (Japão)
A Felicidade das Pequenas Coisas (Butão)
Fuga (Dinamarca)
A Mão de Deus (Itália)
A Pior Pessoa do Mundo (Noruega)

MELHOR DOCUMENTÁRIO
Ascension
Attica
Fuga
Summer of Soul (… ou Quando a Revolução Não Pode Ser Televisionada)
Writing with Fire

MELHOR ANIMAÇÃO
Encanto
A Família Mitchell e a Revolta das Máquinas
Fuga
Luca
Raya e o Último Dragão

MELHOR FOTOGRAFIA
Amor, Sublime Amor
Ataque dos Cães
O Beco do Pesadelo
Duna
A Tragédia de Macbeth

MELHOR TRILHA SONORA
Ataque dos Cães
Duna
Encanto
Mães Paralelas
Não Olhe Para Cima

MELHOR CANÇÃO ORIGINAL
“Be Alive” (King Richard: Criando Campeãs)
“Dos Oruguitas” (Encanto)
“Down to Joy” (Belfast)
“No Time to Die” (Sem Tempo Para Morrer)
“Somehow You Do” (Four Good Days)

MELHOR EDIÇÃO
Ataque dos Cães
Duna
King Richard: Criando Campeãs
Não Olhe Para Cima
Tick, Tick… BOOM!

MELHOR FIGURINO
Amor, Sublime Amor
O Beco do Pesadelo
Cruella
Cyrano
Duna

MELHOR DESIGN DE PRODUÇÃO
Amor, Sublime Amor
Ataque dos Cães
O Beco do Pesadelo
Duna
A Tragédia de Macbeth

MELHOR SOM
Amor, Sublime Amor
Ataque dos Cães
Belfast
Duna
Sem Tempo Para Morrer

MELHORES EFEITOS VISUAIS
Duna
Free Guy: Assumindo o Controle
Homem-Aranha: Sem Volta Para Casa
Sem Tempo Para Morrer
Shang-Chi e a Lenda dos Dez Anéis

MELHOR MAQUIAGEM E PENTEADOS
Casa Gucci
Cruella
Duna
Os Olhos de Tammy Faye
Um Príncipe em Nova York 2

MELHOR CURTA-METRAGEM
Ala Kachuu – Take and Run
The Dress
The Long Goodbye
On My Mind
Please Hold

MELHOR CURTA-METRAGEM (ANIMAÇÃO)
Affairs of the Art
Bestia
Boxballet
Robin Robin
The Windshield Wiper

MELHOR CURTA-METRAGEM (DOCUMENTÁRIO)
Audible
Lead Me Home
The Queen of Basketball
Three Songs for Ben Azir
When We Were Bullies

Festival de Sundance 2022: “Cha Cha Real Smooth”, de Cooper Raiff

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Sucesso no Festival de Sundance, onde foi agraciado com o prêmio do público, Cha Cha Real Smooth promove um encontro entre dois personagens que, em diferentes pontos de suas vidas, compartilham um certo sentimento de desorientação. Enquanto Andrew (Cooper Raiff) chega aos 22 anos ainda tendo que compartilhar o quarto com o irmão caçula e trabalhar em um emprego qualquer porque não encontrou uma vocação, Domino (Dakota Johnson) vive dias solitários com sua filha autista enquanto o noivo, um homem que ela escolheu se relacionar para ter uma vida “adulta” e “responsável”, passa dias fora da cidade a trabalho. Quando Andrew vai a um bar mitzvá e se descobre um party starter — espécie de animador de festas —, esses dois caminhos se cruzam, dando início a uma relação tão delicada quanto impossivelmente apaixonante.

Cha Cha Real Smooth é contado do ponto de vista de Andrew, esse garoto gentil e sentimental que chega para abrilhantar a vida de uma mãe feliz com sua estabilidade, mas que carrega um desejo melancólico pela liberdade e pela novidade da juventude usufruída por Andrew. A conexão imediata entre os dois, no entanto, não faz deste filme um emaranhado de conflitos sobre diferenças geracionais ou a impossibilidade de uma relação. Na verdade, o que há em Cha Cha Real Smooth é um relato muito sensível, afetivo e que, apesar dos traço indie do cinema norte-americano, dispensa a todo momento qualquer maneirismo para soar cool. Além de ator, Cooper Raiff dirige e roteiriza o longa como uma história de amor que não trilha os caminhos imaginados no desenrolar do primeiro terço, o que é uma ótima notícia.

Afeito aos pequenos momentos de uma relação, seja ela de qualquer natureza — amorosa, familiar ou de amizade —, Cha Cha Real Smooth reserva bons espaços para coadjuvantes que, mesmo em papeis bastante pequenos, complementam a imagem apresentada de Andrew. É o caso da mãe vivida por Leslie Mann, cujas aparições são breves, mas assertivas em cada observação sobre o filho. Há também o adorável irmão caçula vivido por Evan Assante, capaz de enxergar no primogênito uma sabedoria e um companheirismo que o protagonista não é capaz de enxergar em si mesmo. E não dá para deixar em branco a presença de Vanessa Burghardt, responsável por dar vida a uma personagem autista que, de fato, é interpretada por uma atriz autista, mostrando como representatividade importa e só tem a contribuir para uma história.

Com tantos coadjuvantes bacanas orbitando a história, Cooper Raiff e Dakota Johnson são generosos com todos eles e, claro, com a relação afetiva que precisam estabelecer como os dois protagonistas. Ambos trilham os caminhos tortuosos e realistas de Andrew e Domino nessa busca pelo que eles significam um para o outro. Cooper esbanja carisma do início ao fim (desafio qualquer pessoa a não querer guardar Andrew em um potinho e levar para casa) e Dakota Johnson confirma as excelentes escolhas de sua carreira recente, mais uma vez vivendo uma mãe jovem e bonita que coloca em pauta diversas e importantes questões maternas, assim como vimos há poucos meses em A Filha Perdida. A química entre os dois é apaixonante, mas, no sorriso de ponta a ponta deixado pelo filme, faço minha maior reverência a Raiff mesmo, que, como ator, diretor, roteirista e produtor, jamais faz de Cha Cha Real Smooth uma egotrip — e sim um ato generoso que celebra a beleza e a melancolia das relações cotidianamente humanas.

Cha Cha Real Smooth review

A success at Sundance Film Festival, where it won the U.S. Dramatic Audience Award, Cha Cha Real Smooth promotes an encounter between two characters who, at different points in their lives, share a certain feeling of disorientation. While Andrew (Cooper Raiff) reaches the age of 22 sharing a room with his younger brother and workgin at a random job because he still hasn’t found a vocation, Domino (Dakota Johnson) goes through lonely days with his autistic daughter while her fiancé, a man that she chose to relate to in order to have an “adult” and “responsible” life, spends days out of town for work. When Andrew goes to a bar mitzvah and turns himself into a “party starter” — a kind of party entertainer —, these two paths cross, beginning a very special relationship.

Cha Cha Real Smooth is told from the point of view of Andrew, this gentle and sentimental boy who comes to brighten the life of a happy mother with his stability, but who carries a melancholic desire for the freedom and novelty she sees in Andrew. The immediate connection between the two, however, does not make this film a tangle of conflicts over generational differences or the impossibility of a relationship. In fact, Cha Cha Real Smooth is a very affective story that dispenses any mannerism to sound cool. In addition to being an actor, Cooper Raiff is the director and the screenwriter, facing the feature as a love story that does not follow the obvious.

Used to the small moments of any relationship — love, family or friendship —, Cha Cha Real Smooth saves good spaces for supporting actors who, even in very small roles, complement the image presented by Andrew. This is the case of the mother played by Leslie Mann, whose appearances are brief, but assertive in every observation about her son. There is also the adorable younger brother played by Evan Assante, able to see in his older brother wisdom and companionship that the leading character is not able to see in himself. And you can’t miss Vanessa Burghardt. She gives life to an autistic character who is actually played by an autistic actress, showing how representation matters.

With so many cool supporting actors orbiting the story, Cooper Raiff and Dakota Johnson are generous with all of them and, of course, with the delicate relationship they need to establish as the two leading characters. They both walk the crooked and down-to-earth paths of Andrew and Domino in their quest for what they mean to each other. Cooper oozes charisma from start to finish (I dare anyone not to want to keep Andrew in a pot and take it home) and Dakota Johnson confirms the excellent choices of her recent career, once again playing a young and beautiful mother who puts several maternal issues in discussion, as we saw a few months ago in The Lost Daughter. The chemistry between the two is passionate, but, in the end-to-end smile left by the film, I pay my biggest bow to Raiff himself, who, as an actor, director, screenwriter and producer, never makes Cha Cha Real Smooth an egotrip. Actually, it is a generous act that celebrates the beauty and melancholy of everyday human relationships.

Os indicados ao BAFTA 2022

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Com 11 indicações, Duna é o líder de indicações ao BAFTA 2022.

Não foram bem recebidas as mudanças promovidas no ano passado pelo BAFTA para diversificar sua lista de indicados após críticas severas envolvendo uma escancarada falta de representatividade. À parte indicações de fato inexplicáveis e o problema de os vencedores serem escolhidos por um sistema diferente — e que, no final das contas, cai na vala comum de outras premiações —, vi como positivos os drásticos ajustes porque eles lançam holofotes para obras pouco valorizadas no circuito e porque, ao meu ver, premiações precisam ser de alguma forma autênticas e não um mera tentativa de antecipar os indicados ao Oscar, conceito que está enraizado inclusive entre os críticos.

Também é importante lembrar que, em certa medida, o Oscar tem feito suas próprias escolhas e quebrado tradições dos prêmios precursores (A Forma da Água e Green Book receberam o Oscar de melhor filme sem indicações ao SAG; Regina King foi a melhor atriz coadjuvante por Se a Rua Beale Falasse sem estar presente no BAFTA e no SAG; Moonlight e Spotlight venceram Oscar de melhor filme sem vencer o PGA…). Por isso, acho que faz cada vez mais sentido analisar prêmios isoladamente, sem tratá-los como mais justos ou injustos por terem deixado de fora alguns nomes tidos como favoritos ao Oscar. Atualmente, o cenário como um todo nos dá indícios, mas não necessariamente certezas de indicações ou garantia de vitórias.

Dito isso, o BAFTA, acuado pela onda de críticas que recebeu no ano passado por incluir filmes que jamais chegariam ao Oscar (Clemência, The 40-Year Old Version, O Que Ficou Para Trás), procurou um meio termo em 2022 para contemplar tanto escolhas mais autorais quanto nomes unânimes na temporada. É particularmente corajosa (ou polêmica, dependendo do ponto de vista) a seleção de melhor atriz, onde não há indicações para Nicole Kidman (Apresentando os Ricardos), Olivia Colman (A Filha Perdida) e Kristen Stewart (Spencer). Mas como reclamar quando encontram espaço, por exemplo, para Tessa Thompson (Identidade) e Renate Reinsve (A Pior Pessoa do Mundo)?

Claro que há escolhas contraditórias (Não Olhe Para Cima como melhor filme em uma categoria com apenas cinco indicados?), o que é compensado por um ponto de equilíbrio e até por momentos de inspiração, como a lembrança para o desempenho fabuloso de Ann Dowd em Mass. Tomando certa perspectiva para ver o todo, percebe-se que a campanha tardia para Amor, Sublime Amor afetou as chances do filme, aqui esquecido em categorias como melhor filme, direção e montagem. Já Paul Thomas Anderson, outrora um diretor quase de nicho, ganha grande espaço e relevância com Licorice Pizza, o único longa-metragem a figurar nas categorias de filme, direção, roteiro e montagem do BAFTA.

Os vencedores serão conhecidos no dia 13 de março. Confira a lista de indicados:

MELHOR FILME
Ataque dos Cães
Belfast
Duna
Licorice Pizza
Não Olhe Para Cima

MELHOR FILME BRITÂNICO
After Love
Ali & Ava
Belfast
Boiling Point
Casa Gucci
Cyrano
Identidade
Noite Passada em Soho
Sem Tempo Para Morrer
Todos Estão Falando Sobre Jamie

MELHOR DIREÇÃO
Aleem Khan (After Love)
Audrey Diwan (Happening)
Jane Campion (Ataque dos Cães)
Julia Ducournau (Titane)
Paul Thomas Anderson (Licorice Pizza)
Ryûsuke Hamaguchi (Drive My Car)

MELHOR ATRIZ
Alana Haim (Licorice Pizza)
Emilia Jones (No Ritmo do Coração)
Joanna Scanlan (After Love)
Lady Gaga (Casa Gucci)
Renate Reinsve (A Pior Pessoa do Mundo)
Tessa Thompson (Identidade)

MELHOR ATOR
Adeel Akhtar (Ali & Ava)
Benedict Cumberbatch (Ataque dos Cães)
Leonardo DiCaprio (Não Olhe Para Cima)
Mahershala Ali (O Canto do Cisne)
Stephen Graham (Boiling Point)
Will Smith (King Richard: Criando Campeãs)

MELHOR ATRIZ COADJUVANTE
Ann Dowd (Mass)
Ariana DeBose (Amor, Sublime Amor)
Aunjanue Ellis (King Richard: Criando Campeãs)
Caitriona Balfe (Belfast)
Jessie Buckley (A Filha Perdida)
Ruth Negga (Identidade)

MELHOR ATOR COADJUVANTE
Ciarán Hinds (Belfast)
Jesse Plemons (Ataque dos Cães)
Kodi Smit-McPhee (Ataque dos Cães)
Mike Faist (Amor, Sublime Amor)
Troy Kotsur (No Ritmo do Coração)
Woody Norman (C’mon C’mon)

MELHOR ELENCO
Amor, Sublime Amor
Boiling Point
Duna
King Richard: Criando Campeãs
A Mão de Deus

MELHOR ROTEIRO ORIGINAL
Apresentando os Ricardos
Belfast
King Richard: Criando Campeãs
Licorice Pizza
Não Olhe Para Cima

MELHOR ROTEIRO ADAPTADO
Ataque dos Cães
Drive My Car
Duna
A Filha Perdida
No Ritmo do Coração

MELHOR FILME EM LÍNGUA NÃO-INGLESA
Drive My Car (Japão)
A Mão de Deus (Itália)
Madres Paralelas (Espanha)
Pequena Mamãe (França)
A Pior Pessoa do Mundo (Noruega)

MELHOR DOCUMENTÁRIO
Becoming Cousteau
Cow
Flee
The Rescue
Summer of Soul (…ou, Quando A Revolução Não Pode Ser Televisionada)

MELHOR ANIMAÇÃO
Encanto
A Família Mitchell e a Revolta das Máquinas
Flee
Luca

MELHOR FOTOGRAFIA
Ataque dos Cães
O Beco do Pesadelo
Duna
Sem Tempo Para Morrer
A Tragédia de Macbeth

MELHOR TRILHA SONORA
Apresentando os Ricardos
Ataque dos Cães
A Crônica Francesa
Duna 
Não Olhe Para Cima

MELHOR DESIGN DE PRODUÇÃO
Amor, Sublime Amor
O Beco do Pesadelo
A Crônica Francesa
Cyrano
Duna

MELHOR FIGURINO
O Beco do Pesadelo
A Crônica Francesa
Cruella
Cyrano
Duna

MELHOR MONTAGEM
Belfast
Duna
Licorice Pizza
Sem Tempo Para Morrer
Summer of Soul (…ou, Quando A Revolução Não Pode Ser Televisionada)

MELHOR MAQUIAGEM E PENTEADOS
Casa Gucci
Cruella
Cyrano
Duna
Os Olhos de Tammy Faye

MELHOR SOM
Amor, Sublime Amor
Duna
Um Lugar Silencioso II
Noite Passada em Soho
Sem Tempo Para Morrer

MELHORES EFEITOS VISUAIS
Duna
Free Guy: Assumindo o Controle
Ghostbusters: Mais Além
Matrix Resurrections
Sem Tempo Para Morrer

MELHOR ESTREIA BRITÂNICA 
After Love (Aleem Khan, roteiro e direção)
Boiling Point (James Cummings, roteiro; Hester Ruoff, produção)
Identidade (Rebecca Hall, roteiro e direção)
Keyboard Fantasies (Posy Dixon, direção; Liv Proctor, produção)
Vingança & Castigo (Jeymes Samuel, roteiro e direção)

MELHOR CURTA BRITÂNICO
The Black Cop
Femme
The Palace
Stuffed
Three Meetings of the Extraordinary Committee

MELHOR CURTA BRITÂNICO DE ANIMAÇÃO
Affairs of the Art
Do Not Feed the Pigeons
Night of the Living Dread

EE RISING STAR (REVELAÇÃO)
Ariana DeBose
Harris Dickinson
Lashana Lynch
Kodi Smit-McPhee
Millicent Simmonds