“Batman”: grande renovação ou uma retomada dos elementos que marcaram os melhores momentos do Homem-Morcego?
Let’s play a game. Just me and you.

Direção: Matt Reeves
Roteiro: Matt Reeves e Peter Craig, baseados no personagem criado por Bill Finger e Bob Kane
Elenco: Robert Pattinson, Jeffrey Wright, Paul Dano, Zoë Kravitz, Colin Farrell, John Turturro, Andy Serkis, Peter Sarsgaard, Barry Keoghan, Max Carver, Charlie Carver, Rupert Penry-Jones, Alex Ferns, Jayme Lawson
The Batman, EUA, 2022, Ação, 175 minutos
Sinopse: Com apenas alguns aliados de confiança entre a rede corrupta de funcionários e figuras importantes da cidade, Batman (Robert Pattinson) se estabeleceu como a única personificação da vingança em Gotham City. Mas, em uma de suas investigações, acaba envolvendo o Comissário Gordon e ele mesmo em um jogo de gato e rato ao investigar uma série de maquinações sádicas e trilhas de pistas enigmáticas arquitetadas por Charada (Paul Dano). A investigação o leva a descobrir uma onda de corrupção que envolve até mesmo o nome de sua família, pondo em risco sua própria integridade e as memórias que tinha sobre seu pai, Thomas Wayne.

Há determinados super-heróis que sobrevivem aos anos e que, levando em consideração o atual cenário, parecem fadados a receber incontáveis releituras de tempos em tempos. É o caso de Batman, que já foi gótico, estapafúrdio, realista e um mero caça-níquel. De Adam West a Ben Affleck, incluindo até mesmo uma versão em LEGO dublada por Will Arnett, o Homem-Morcego já foi interpretado no cinema por quase uma dezena de atores e dirigido por cineastas dos mais variados estilos, o que sempre me leva à seguinte pergunta toda vez que leio a notícia de que teremos um novo projeto do herói: ainda há algo de realmente novo a ser dito sobre o mascarado de Gotham City?
A resposta, na verdade, nunca será definitiva, pois ela varia em relevância de espectador para espectador. Os fãs com certeza dirão que, sim, sempre dá para explorar novos prismas de um personagem tão versátil e repleto de materiais de origem quanto Batman. Já quem não tem muito afinidade com o mundo dos quadrinhos ou dos super-heróis leva outros elementos em consideração: aqueles mais cinematográficos, oxigenados e experimentais. Como fico no segundo caso, fui para a sessão de Batman sem muitos estímulos, não só porque a péssima fase estrelada por Ben Affleck ainda é muito fresca na memória, mas também porque, ao fim da projeção, o filme de Matt Reeves me pareceu menos revolucionário do que apontam as comovidas e já esperadas reações ao resultado.
Por mais que Reeves, um sólido realizador de blockbusters, como os dois últimos Planeta dos Macacos, apresente aqui a sua visão muito própria do super-herói, não deixa de existir aquele déjà-vu de estarmos vendo de novo a introdução de um novo Batman, de uma nova Mulher-Gato, de um novo Charada, de um novo Pinguim, etc. Os eternos recomeços de franquias terminam por banalizar bastante a experiência com certos universos, e foi exatamente assim que me senti durante boa parte desta versão estrelada por Robert Pattinson. O público que consegue apertar o reset junto, realmente o faz sem concessões, pois é até estranho constatar como são amplamente elogiadas e até tidas como inovadoras algumas características de Batman que já davam as caras, de um jeito ou de outro, em versões anteriores.
Não é desmerecer as escolhas feitas por Reeves, que, como um todo, aproveitam as melhores facetas dos protagonistas, e sim refrescar a memória: tratar, por exemplo, o tom realista, a Gotham sombria e a atenção aos personagens em substituição à ação desenfreada como epifanias é basicamente esquecer o que Christopher Nolan fez, principalmente, em Batman Begins e em Batman: O Cavaleiro das Trevas. Sendo mais específico ainda: como é possível festejar a tensão física/sensual entre Batman (Robert Pattinson) e Selina Kyle (Zoë Kravitz) sem lembrar de tudo o que Michelle Pfeiffer fez como Mulher-Gato, ainda que em um projeto com tons diferentes dos abordados aqui? Reeves fez certo em abraçar tudo isso, mas, ao contrário do que sugere a polvorosa mundial, ele não inventou a roda.
A fonte de inspiração de Batman é, claro, filmes de David Fincher como Se7en e Zodíaco no que tange o tom investigativo e, por que não, a imensa duração de quase três horas. Um pouco de sutileza na reverência não faria mal ao resultado, ainda que tais referências tragam surpresas bastante agradáveis a esse reboot. Reeves é feliz, entre outras coisas, ao não explorar pela milésima vez o assassinato dos pais de Bruce Wayne e na total supressão de elementos cartunescos, permitindo que personagens como Pinguim (Colin Farell) tenham seus pés bem firmados no mundo real. Quando vê Gotham City pela ótica da investigação, dos personagens e dos demônios internos do protagonista, Batman inevitavelmente se torna mais envolvente do ponto de vista emocional.
Se o filme segue a nova moda de tornar todo blockbuster o mais escuro possível para imediatamente trazer seriedade ao visual, como se filmes de cores vibrantes ou saturadas como Mad Max: Estrada da Fúria não o fossem, por outro lado, o background dado a alguns personagens atenua essa prática visual. A melancolia do Bruce Wayne de Robert Pattinson, que, passa pelo menos dois terços do filme com o rosto mascarado, casa perfeitamente com as sombras de Gotham. O mesmo se aplica para Zoë Kravitz, cuja personagem tem boas motivações em jogo e é um excelente complemento a essa visão desesperançosa do protagonista para uma cidade nada convidativa.
Ainda na zona dos atores, Batman sabe a importância de trazer bons nomes para o projeto e dar o devido destaque a cada um deles. Nem todos personagens são essenciais à trama, o que não diminui o prazer de ver um filme de tamanha dimensão compreendendo que nomes como Paul Dano, Jeffrey Wright, Peter Sarsgaard, entre outros, não devem estar em cena apenas como curiosidade ou participações especiais. Batman é um trabalho de elenco, mesmo que Reeves, aqui e ali, não resista em dar a possibilidade para que um ou outro ator tenha sua cena isolada de brilho em detrimento do roteiro, especialmente no caso de Paul Dano, que, se não fosse o ator maravilhoso que é, teria transformado sua primeira cena frente a frente com Robert Pattinson em uma egotrip impulsionada pela vontade do longa em ecoar a vibe Coringa de Heath Ledger e Joaquin Phoenix.
Após as bobeiras dos filmes estrelados por Ben Affleck, a DC estava precisando de um filme como Batman, que pende mais para o realismo das obras de Christopher Nolan do que para o entretenimento sem muito compromisso com a qualidade. Se Reeves partiu de um briefing como esse, a modelagem está bem evidente na tela. Da fabulosa trilha de Michael Giacchino que remete ao trabalho de Hans Zimmer e James Newton Howard na trilogia de Nolan a um conceito de ação menos fantasioso, Batman reverenciando elementos marcantes de alguns dos melhores tempos do Homem-Morcego. Paralelamente, contudo, fica a sensação de uma renovação que não divide tantas águas assim. Para um primeiro filme, o resultado é mais do que satisfatório. Agora, colocá-lo à altura de clássicos noir e de diretores consagrados como William Friedkin… Aí já é outra história. Precisamos ver o que Reeves fará daqui em diante para realmente entender o que pode ser considerado como real renovação ou não.




