Festival de Sundance 2022: “Good Luck to You, Leo Grande”, de Sophie Hyde

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Passei a pensar muito mais sobre envelhecer desde que conheci a obra da pesquisadora e antropóloga Mirian Goldenberg em um trabalho que realizamos juntos no ano passado. Mirian é a maior ativista pela ideia de uma bela velhice que temos, e a missão diária abraçada por ela para quebrar todos os tabus e preconceitos envolvendo o envelhecimento deveria ser uma bandeira de todos. Trago-a como contextualização porque Good Luck to You, Leo Grande é, de certo jeito, a adaptação cinematográfica de tudo o que Mirian vem questionando ao longo dos anos, inclusive a mesma naturalidade, transparência e delicadeza.

Neste filme estrelado por Emma Thompson, conhecemos Nancy Stokes, uma mulher que está prestes a receber a visita de um garoto de programa depois de dias, meses e até anos pensando na ideia de chamá-lo. O filme se desenrola não apenas a partir desse encontro, mas de quatro que Nancy terá com o jovem Leo (Daryl McCormack). Nem tudo, entretanto, é simples. Muito pelo contrário. Professora aposentada de educação religiosa, Nancy perdeu o marido com quem estava casada há 31 anos e tem plena consciência de que, ao longo da vida, nunca soube o que era sexo de verdade. Sexo bom, muito menos.

Nem preciso entrar em detalhes sobre a importância de um filme como esse ser escrito e dirigido por mulheres como de fato o é, mas vale reforçar que somente com essa composição ele teria tamanha sensibilidade. Como roteirista, Katy Brand usa a história de Nancy para falar sobre a história de muitas como ela. Mulheres que se casaram cedo demais e só tiveram um homem na vida. Esposas que viveram uma vida de sexo protocolar e sem orgasmos. Figuras femininas que não aprenderam a admirar seu próprio corpo — e pior: sempre estiveram inclinadas a depreciá-lo. No mundo delas, vaidade nunca foi uma qualidade, mas sim um julgamento.

Desde o início, é possível deduzir todo o desenrolar de Good Luck to You, Leo Grande, algo que o roteiro não faz questão de esconder. E isso não diminui o bonito arco dramático de Nancy, uma mulher insegura, impaciente e nervosa que, a cada novo encontro com Leo, passa a compreender coisas que ela nunca imaginou poder compreender. Vê-la confessando que nunca bebeu demais, viveu uma aventura, deixou de atender um telefonema de quem quer que fosse e ou deixou de considerar os filhos um fardo depois de adultos confirma que o filme é um retrato fiel do que a sociedade injustamente impõe às mulheres, ainda mais na terceira idade, quando a liberdade ainda segue sendo um elemento desconhecido.

É fácil dar um desconto para eventuais previsibilidades de Good Luck to You, Leo Grande porque a diretora Sophie Hyde não tenta fazer do longa mais do que ele realmente é. O exercício de Sophie é dar graça e verossimilhança a um filme passado em um único cenário e com apenas dois atores. E ela se sai bem especialmente em função da presença de uma grande atriz como Emma Thomspon, totalmente entregue ao papel. Seu talento de sempre está ali, em uma performance também sem qualquer tabu. Há um momento em que Emma, aos 62 anos de idade, literalmente se despe para observar em detalhes seu corpo nu frente a um espelho, aceitando-o como ele é. Não vejo melhor momento para imaginar o quanto esse projeto faz sentido para Emma e o quanto ele também fará para tantas outras mulheres mundo afora.

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