Festival de Sundance 2022: “Fire of Love”, de Sara Dosa

fireoflovemovie

Parece estranho o que vou dizer a seguir, mas há algo de muito belo na morte de Katia e Maurice Krafft no monte japonês Unzen em 1991. Estranho porque, observando de forma isolada, as condições da morte são inimagináveis: Katia e Maurice foram pegos de surpresa pelo chamado fluxo piroclástico de uma erupção vulcânica. Em linhas gerais, significa que ambos forma atingidos por fluidos de até 160 quilômetros por hora, compostos de gás quente e com uma temperatura entre 100 e 500 graus celsius. E o que há de belo nisso? Simples: Katia e Maurice sempre souberam que esse poderia o seu derradeiro fim — ou, quem sabe, o único destino possível e aceitável?

Recusando ser um mero documentário sobre a exploração de vulcões, Fire of Love compila imagens extraordinárias de ambiciosas expedições tendo como linha condutora a vida do casal. Mais do que uma talentosa dupla de trabalho, eles eram ligados pela obsessão em comum por vulcões, e não só do ponto de vista científico, mas também existencial: em inúmeras passagens, a diretora Sara Dosa recupera entrevistas e registros em que Katia e Maurice refletiam, por exemplo, sobre a ambição do homem diante da natureza, o poder da curiosidade diante do medo e a consciente decisão de ter uma vida curta e intensa ao invés de uma longa e banal.

Os dois tinham estilos profissionais muito distintos (ela era afeita aos detalhes, ele às grandes paisagens; ela fazia o trabalho de bastidores, ele as palestras e entrevistas), mas ambos não tinham escolha: as visões compartilhadas sobre o mundo e os vulcões eram tão únicas e intensas que esse encontro só poderia resultar em um relacionamento íntimo em um universo muito particular. São dois pesquisadores que literalmente estavam cientes de que poderiam morrer a qualquer momento, o que não era motivo de preocupação. Pelo contrário: era dessa adrenalina que eles se alimentavam e encontravam uma razão para viver.

Fire of Love é inteiramente feito de imagens registradas pelo casal em suas expedições, com acréscimos de um vasto acervo de entrevistas na TV. Trabalhar apenas com essas imagens, sem recorrer a depoimentos de pessoas que conheceram Katia e Maurice ou de vulcanologistas sobre o legado do trabalho realizado por eles, é um conceito dos mais acertados, pois traz uma atmosfera melancólica para a proposta do documentário de explorar uma vida compartilhada em circunstâncias tão extraordinárias. E não se trata de um acervo qualquer: os extensos registros feitos pela dupla são de tirar o fôlego, tanto pelas grandiosidades vulcânicas quanto pela natural intimidade entre os dois.

Documentarista de mão cheia, Sara Dosa já realizou quase 20 documentários como produtora, e Fire of Love é somente o seu quarto como diretora. Do que viu atuando nos bastidores de filmes como os brasileiros Elena e Democracia em Vertigem, e estando próxima do universo de Al Gore em Uma Verdade Mais Inconveniente e de Michelle Obama em Minha História, Sara parece ter se tornado afeita a essa relação entre o íntimo e o mundo à volta, levantando também questões importantes sobre esse binômio em Fire of Love, como o momento em que Katia começa a passar por dilemas morais ao testemunhar cidades devastadas e milhares de vidas perdidas em função das erupções que tanto admira.

Em certa altura, Maurice diz ter a impressão de já ter vivido cem anos ao fazer um retrospecto de tudo o que viu na vida. Essa afirmação ganha importante significado ao estar mais ao final do longa porque, após também termos entrado em contato com um pouco do que os dois viram, ela realmente faz grande sentido. O que se leva de Fire of Love é um bonito relato sobre duas pessoas que tiveram a oportunidade de viver como bem entenderam e que, por felicidade do destino, acabaram se encontrando em uma paixão intensa e por muitas vezes incompreendida. Antes vistos como um legado histórico e científico, seus materiais agora se eternizam como o merecido registro de um amor pleno.

Um comentário em “Festival de Sundance 2022: “Fire of Love”, de Sara Dosa

  1. Pingback: Festival de Sundance 2022: impressões sobre o evento e sobre os filmes exibidos | Cinema e Argumento

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: