Cinema e Argumento

Festival de Sundance 2022: “Fire of Love”, de Sara Dosa

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Parece estranho o que vou dizer a seguir, mas há algo de muito belo na morte de Katia e Maurice Krafft no monte japonês Unzen em 1991. Estranho porque, observando de forma isolada, as condições da morte são inimagináveis: Katia e Maurice foram pegos de surpresa pelo chamado fluxo piroclástico de uma erupção vulcânica. Em linhas gerais, significa que ambos forma atingidos por fluidos de até 160 quilômetros por hora, compostos de gás quente e com uma temperatura entre 100 e 500 graus celsius. E o que há de belo nisso? Simples: Katia e Maurice sempre souberam que esse poderia o seu derradeiro fim — ou, quem sabe, o único destino possível e aceitável?

Recusando ser um mero documentário sobre a exploração de vulcões, Fire of Love compila imagens extraordinárias de ambiciosas expedições tendo como linha condutora a vida do casal. Mais do que uma talentosa dupla de trabalho, eles eram ligados pela obsessão em comum por vulcões, e não só do ponto de vista científico, mas também existencial: em inúmeras passagens, a diretora Sara Dosa recupera entrevistas e registros em que Katia e Maurice refletiam, por exemplo, sobre a ambição do homem diante da natureza, o poder da curiosidade diante do medo e a consciente decisão de ter uma vida curta e intensa ao invés de uma longa e banal.

Os dois tinham estilos profissionais muito distintos (ela era afeita aos detalhes, ele às grandes paisagens; ela fazia o trabalho de bastidores, ele as palestras e entrevistas), mas ambos não tinham escolha: as visões compartilhadas sobre o mundo e os vulcões eram tão únicas e intensas que esse encontro só poderia resultar em um relacionamento íntimo em um universo muito particular. São dois pesquisadores que literalmente estavam cientes de que poderiam morrer a qualquer momento, o que não era motivo de preocupação. Pelo contrário: era dessa adrenalina que eles se alimentavam e encontravam uma razão para viver.

Fire of Love é inteiramente feito de imagens registradas pelo casal em suas expedições, com acréscimos de um vasto acervo de entrevistas na TV. Trabalhar apenas com essas imagens, sem recorrer a depoimentos de pessoas que conheceram Katia e Maurice ou de vulcanologistas sobre o legado do trabalho realizado por eles, é um conceito dos mais acertados, pois traz uma atmosfera melancólica para a proposta do documentário de explorar uma vida compartilhada em circunstâncias tão extraordinárias. E não se trata de um acervo qualquer: os extensos registros feitos pela dupla são de tirar o fôlego, tanto pelas grandiosidades vulcânicas quanto pela natural intimidade entre os dois.

Documentarista de mão cheia, Sara Dosa já realizou quase 20 documentários como produtora, e Fire of Love é somente o seu quarto como diretora. Do que viu atuando nos bastidores de filmes como os brasileiros Elena e Democracia em Vertigem, e estando próxima do universo de Al Gore em Uma Verdade Mais Inconveniente e de Michelle Obama em Minha História, Sara parece ter se tornado afeita a essa relação entre o íntimo e o mundo à volta, levantando também questões importantes sobre esse binômio em Fire of Love, como o momento em que Katia começa a passar por dilemas morais ao testemunhar cidades devastadas e milhares de vidas perdidas em função das erupções que tanto admira.

Em certa altura, Maurice diz ter a impressão de já ter vivido cem anos ao fazer um retrospecto de tudo o que viu na vida. Essa afirmação ganha importante significado ao estar mais ao final do longa porque, após também termos entrado em contato com um pouco do que os dois viram, ela realmente faz grande sentido. O que se leva de Fire of Love é um bonito relato sobre duas pessoas que tiveram a oportunidade de viver como bem entenderam e que, por felicidade do destino, acabaram se encontrando em uma paixão intensa e por muitas vezes incompreendida. Antes vistos como um legado histórico e científico, seus materiais agora se eternizam como o merecido registro de um amor pleno.

Fire of Love review

It may seem strange what I am going to say next, but there is something very beautiful about the death of Katia and Maurice Krafft on the Japanese mountain Unzen in 1991. It is strange because the conditions of death are unimaginable: Katia and Maurice were taken by surprise by the so-called flow pyroclastic from a volcanic eruption. In general terms, it means that both were hit by fluids of up to 160 kilometers per hour, composed of hot gas and with a temperature between 100 and 500 degrees celsius. And what’s so beautiful about that? Well, Katia and Maurice always knew that this could be their ultimate end—or, who knows, their only possible and acceptable fate?

Refusing to be a mere documentary about the exploration of volcanoes, Fire of Love compiles extraordinary images of ambitious expeditions based on the couple’s life. More than a talented working duo, they were linked by the common obsession with volcanoes, and not only from a scientific point of view, but also from an existential one: in countless passages, director Sara Dosa compiles interviews and records in which Katia and Maurice talk, for example, about human ambition towards nature, the power of curiosity in the face of fear and the conscious decision to live a short and intense life instead of a long and banal one.

The two had very different professional styles (she was fond of the details, he of the great landscapes; she did the behind the scenes, he did the talks and interviews), but they both had no choice: their shared views on the world and volcanoes were so unique. and intense that this encounter could only result in an intimate relationship with a very particular universe. These are two researchers who were literally aware that they could die at any moment, which was no cause for concern. On the contrary: it was from this adrenaline that they fed and found a reason to live.

Fire of Love is made entirely of images recorded by the couple on their expeditions, in addition to a vast collection of TV interviews. Working only with these images, without resorting to testimonies from people who knew Katia and Maurice or from volcanologists about the legacy of their work, the concept proves to be one of the most successful, as it brings a melancholy atmosphere to the documentary’s proposal of exploring a life shared in such extraordinary circumstances. And it is not just any collection: the extensive records made by the duo are breathtaking, both for the volcanic grandeur and for the natural intimacy between the two researchers.

A prolific filmmaker, Sara Dosa has made nearly 20 documentaries as a producer, and Fire of Love is only her fourth as a director. From what she saw working behind the scenes in films such as the Brazilian films Elena and The Edge of Democracy, and being close to the universe of Al Gore An Inconvenient Sequel: Truth to Power and Michelle Obama in Becoming, Sara seems to have embraced this relationship between the intimate and the world around, also raising important questions about this binomial in Fire of Love, such as the moment when Katia begins to go through moral dilemmas when witnessing devastated cities and thousands of lives lost due to the eruptions she so admires.

At one point, Maurice says he has the impression that he has already lived a hundred years when he looks back on everything he has seen in his life. This statement gains important meaning when it is closer to the end of the film because, after we also got in touch with a little bit of what the two saw, it really makes a lot of sense. Fire of Love is a beautiful story about two people who had the opportunity to live as they pleased and who, by the happiness of fate, ended up finding themselves in an intense and often misunderstood passion. Once a historical and scientific legacy, his records are now immortalized as the delicate portrait of a great love.

Os indicados ao Screen Actors Guild Awards 2022

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O que rolou aqui? Casa Gucci e Ataque dos Cães lideram a lista de indicações ao SAG 2022, mas a indicação a melhor elenco ficou apenas com o filme de Ridley Scott.

Quem diria. No ano em que o Globo de Ouro é boicotado e praticamente cancelado em função de escândalos recentes, a cota de constrangimentos acabou ficando com o Screen Actors Guild Awards, que apresentou, nesta quarta-feira (12), uma lista digna de rivalizar com as bobagens tão atribuídas aos votantes da Hollywood Foreign Press. Talvez a representação máxima dessa afirmação seja a lembrança a Jared Leto como ator coadjuvante por Casa Gucci — afinal, como uma interpretação tão caricatural e constrangedora ganha o apoio de um sindicato de atores (e até mesmo dos críticos, considerando a seleção do Critics’ Choice Awards)? Ao menos o Globo de Ouro pode se vangloriar de não ter passado por essa.

O apreço por Casa Gucci, indicado também a melhor elenco e melhor atriz (Lady Gaga), é descabido na medida em que observamos a ausência de Ataque dos Cães na seleção principal, mesmo com o filme de Jane Campion concorrendo em três categorias individuais: ator para Benedict Cumberbatch, atriz coadjuvante para Kirsten Dunst e ator coadjuvante par Kodi Smit-McPhee. Pelo jeito, o filme de Ridley Scott é o Bohemian Rhapsody da temporada de premiações de 2022. E o que falar sobre a escandalosa ausência de Kristen Stewart como melhor atriz por Spencer? Kristen ficou de fora para ressuscitarem Jennifer Hudson (Respect: A História de Aretha Franklin) na disputa, e sua grande falta foi inclusive alvo de reclamações públicas de alguns membros do SAG nas redes sociais.

A categoria de melhor atriz está abarrotada de cinebiografias (Olivia Colman é a exceção com A Filha Perdida) e é uma clara representação das escolhas cômodas feitas pelo votantes, que, assim como praticamente todas as premiações dessa temporada, ignoraram o trabalho sobrenatural do elenco de Mass. Como votante do Independent Spirit Awards, sei que screeners do longa de Franz Kanz estão rolando há muito tempo no circuito e de forma bastante ampla. Ou seja, Mass não ficou de fora por não ter chegado aos votantes. Os caminhos fáceis também foram tomados no segmento de séries e minisséries, onde, sabe-se lá como, a péssima segunda temporada de The Morning Show emplacou quatro indicações, incluindo um lembrança dupla para Jennifer Aniston e Reese Witherspoon.

Realmente não lembro a última vez que o SAG apresentou uma lista tão ruim e, em diversos pontos, bastante incoerente. Confiram abaixo:

CINEMA

MELHOR ELENCO
Belfast
Casa Gucci
King Richard: Criando Campeãs
Não Olhe Para Cima
No Ritmo do Coração

MELHOR ATRIZ
Jennifer Hudson (Respect: A História de Aretha Franklin)
Jessica Chastain (Os Olhos de Tammy Faye)
Lady Gaga (Casa Gucci)
Nicole Kidman (Apresentando os Ricardos)
Olivia Colman (A Filha Perdida)

MELHOR ATOR
Andrew Garfield (Tick, Tick…BOOM!)
Benedict Cumberbatch (Ataque dos Cães)
Denzel Washington (A Tragédia de Macbeth)
Javier Bardem (Apresentando os Ricardos)
Will Smith (King Richard: Criando Campeãs)

MELHOR ATRIZ COADJUVANTE
Ariana DeBose (Amor, Sublime Amor)
Caitriona Balfe (Belfast)
Cate Blanchett (O Beco do Pesadelo)
Kirsten Dunst (Ataque dos Cães)
Ruth Negga (Identidade)

MELHOR ATOR COADJUVANTE
Ben Affleck (Bar, Doce Lar)
Bradley Cooper (Licorice Pizza)
Jared Leto (Casa Gucci)
Kodi Smit-McPhee (Ataque dos Cães)
Troy Codsur (No Ritmo do Coração)

SÉRIES, MINISSÉRIES E TELEFILMES

MELHOR ELENCO EM SÉRIE DE DRAMA
The Handmaid’s Tale
The Morning Show
Round 6
Succession
Yellowstone

MELHOR ELENCO EM SÉRIE DE COMÉDIA
The Great
Hacks
O Método Kominski
Only Murders in the Building
Ted Lasso

MELHOR ATRIZ EM SÉRIE DE DRAMA
Elisabeth Moss (The Handmaid’s Tale)
Jennifer Aniston (The Morning Show)
Jung Ho-Yeon (Round 6)
Reese Witherspoon (The Morning Show)
Sarah Snook (Succession)

MELHOR ATOR EM SÉRIE DE DRAMA
Billy Crudup (The Morning Show)
Brian Cox (Succession)
Jeremy Strong (Succession)
Kieran Culkin (Succession)
Lee Jung-Jae (Round 6)

MELHOR ATRIZ EM SÉRIE DE COMÉDIA
Elle Fanning (The Great)
Hannah Waddingham (Ted Lasso)
Jean Smart (Hacks)
Juno Temple (Ted Lasso)
Sandra Oh (The Chair)

MELHOR ATOR EM SÉRIE DE COMÉDIA
Brett Goldstein (Ted Lasso)
Jason Sudeikis (Ted Lasso)
Martin Short (Only Murders in the Building)
Michael Douglas (O Método Kominski)
Steve Martin (Only Murders in the Building)

MELHOR ATRIZ EM MINISSÉRIE OU TELEFILME
Cynthia Erivo (Genius: Aretha)
Jean Smart (Mare of Easttown)
Jennifer Coolidge (The White Lotus)
Kate Winslet (Mare of Easttown)
Margaret Qualley (Maid)

MELHOR ATOR EM MINISSÉRIE OU TELEFILME
Evan Peters (Mare of Easttown)
Ewan McGregor (Halston)
Michael Keaton (Dopesick)
Murray Bartlett (The White Lotus)
Oscar Isaac (Scenes from a Marriage)

Os vencedores do Globo de Ouro 2022

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Com três estatuetas, Ataque dos Cães, de Jane Campion, é o vencedor do Globo de Ouro 2022.

Sem público ou transmissão, o Globo de Ouro 2022 anunciou ontem seus vencedores. O drama Ataque dos Cães, de Jane Campion, levou, merecidamente, os prêmios de melhor filme, direção e ator coadjuvante para Kodi Smit-McPhee (particularmente, eu ainda colocaria na conta o prêmio de melhor ator para Benedict Cumberbatch). No segmento de comédia/musical, Steven Spielberg reinou com seu Amor, Sublime Amor. São resultados coerentes para uma ótima temporada e que fazem muito bem ao Globo de Ouro, cuja lista desde ano não nos reservou vexames. O mesmo se aplica para o segmento de séries, minisséries e antologias, onde Succession foi o melhor drama, Hacks a melhor comédia e The Underground Railroad a melhor minissérie. 

Só o tempo dirá se os resultados tão “comportados” do Globo de Ouro são reflexo das amplas críticas que a HFPA vem recebendo por seus escândalos e falta de representatividade, mas, por ora, saldo positivo para a premiação. Entretanto, deixo aqui dois rápidos adendos. O primeiro é que, por mais que tenha, em Apresentando os Ricardos, um excelente desempenho, Nicole Kidman não deveria ter desbancado concorrentes muito mais fortes e de trabalhos bem mais complexos, como Kristen Stewart por Spencer e Olivia Colman por A Filha Perdida. Vale ficar de olho para conferir se esta é uma tendência da temporada ou uma escolha particular do Globo de Ouro.

Já a segunda é referente ao mestre Hans Zimmer, que levou o prêmio de melhor trilha sonora por Duna. Não escondo que tenho meus problemas com o filme de Denis Villeneuve, mas a consagração realmente me chateia, já que Zimmer, um compositor de mão cheia, teve uma série de trabalhos inspirados e inovadores para quebrar seu jejum na premiação ao longo das duas últimas décadas, de O Código Da Vinci a qualquer um dos longas de Christopher Nolan (a estatueta mais “recente” do compositor era de 2001, por Gladiador). Pode ser que, ao fechar as contas, esta tenha sido a saída do Globo de Ouro para não deixar Duna de mãos abanando.

Confira abaixo a lista de vencedores: 

CINEMA

MELHOR FILME – DRAMA: Ataque dos Cães
MELHOR FILME COMÉDIA/MUSICAL: Amor, Sublime Amor
MELHOR DIREÇÃO: Jane Campion (Ataque dos Cães)
MELHOR ATRIZ – DRAMA: Nicole Kidman (Apresentando os Ricardos)
MELHOR ATOR – DRAMA: Will Smith (King Richard: Criando Campeãs)
MELHOR ATRIZ – COMÉDIA/MUSICAL: Rachel Zegler (Amor, Sublime Amor)
MELHOR ATOR – COMÉDIA/MUSICAL: Andrew Garfield (Tick, Tick… BOOM!)
MELHOR ATRIZ COADJUVANTE: Ariana DeBose (Amor, Sublime Amor)
MELHOR ATOR COADJUVANTE: Kodi Smith-McPhee (Ataque dos Cães)
MELHOR ROTEIRO: Belfast
MELHOR ANIMAÇÃO: Encanto
MELHOR FILME DE LÍNGUA NÃO-INGLESA: Drive My Car (Japão)

MELHOR CANÇÃO ORIGINAL: “No Time to Die” (Sem Tempo Para Morrer)
MELHOR TRILHA SONORA: Duna

SÉRIES, MINISSÉRIES E TELEFILMES

MELHOR SÉRIE – DRAMA: Succession
MELHOR SÉRIE – COMÉDIA: Hacks
MELHOR MINISSÉRIE/TELEFILME:The Underground Railroad

MELHOR ATRIZ – DRAMA: MJ Rodriguez (Pose)
MELHOR ATOR – DRAMA: Jeremy Strong (Succession)
MELHOR ATRIZ – COMÉDIA: Jean Smart (Hacks)
MELHOR ATOR – COMÉDIA: Jason Sudeikis (Ted Lasso)
MELHOR ATRIZ – MINISSÉRIE/TELEFILME: Kate Winset (Mare of Easttown)
MELHOR ATOR – MINISSÉRIE/TELEFILME: Michael Keaton (Dopesick)
MELHOR ATRIZ COADJUVANTE – SÉRIE/MINISSÉRIE/TELEFILME: Sarah Snook (Succession)
MELHOR ATOR COADJUVANTE – SÉRIE/MINISSÉRIE/TELEFILME: O Yeong-su (Round 6)

Apostas para o Globo de Ouro 2022

Unveiling Of The New 2009 Golden Globe Statuettes

Não houve uma celebridade sequer disposta a participar do Globo de Ouro 2022. O motivo já é conhecido: o aberto boicote da indústria à falta de representatividade do prêmio e outras questões que rondam a Hollywood Foreign Press Association desde muito tempo, como todos os privilégios ofertados e aceitos pelos membros votantes na prospecção de votos. O boicote deu tão certo que nem os movimentos já feitos pelo Globo de Ouro para diversificar seu corpo de associados surtiu efeito, fazendo com que a HFPA ficasse sem emissoras interessadas em transmitir uma cerimônia em qualquer formato.

Tendo tudo isso em vista, o que veremos hoje é algo inédito na história do Globo de Ouro: nem mesmo uma transmissão ao vivo será viabilizada para anunciar os vencedores, que serão divulgados através do site e das redes sociais da premiação, basicamente em formato de release de imprensa, situação ainda mais crítica do que a cerimônia de 2008, realizada sem público devido à greve de roteiristas que acontecia à época. O impacto é claro: o Globo de Ouro terá impacto consideravelmente menor na temporada deste ano, visto que não teremos grande repercussão midiática da transmissão e dos discursos dos vencedores.

Ainda assim, para não perder o hábito, listo abaixo alguns palpites para a noite de hoje, que deve ser dominada pelo drama Ataque dos Cães, de Jane Campion, e pelo musical Amor, Sublime Amor, de Steven Spielberg. 

CINEMA

MELHOR FILME – DRAMA: Ataque dos Cães / alt: Belfast
MELHOR FILME COMÉDIA/MUSICAL: Amor, Sublime Amor / alt: Não Olhe Para Cima
MELHOR DIREÇÃO: Jane Campion (Ataque dos Cães) / alt: Steven Spielberg (Amor, Sublime Amor)
MELHOR ATRIZ – DRAMA: Kristen Stewart (Spencer) / alt: Olivia Colman (A Filha Perdida)
MELHOR ATOR – DRAMA: Benedict Cumberbatch (Ataque dos Cães) / alt: Will Smith (King Richard: Criando Campeãs)
MELHOR ATRIZ – COMÉDIA/MUSICAL: Rachel Zegler (Amor, Sublime Amor) / alt: Alana Haim (Licore Pizza)
MELHOR ATOR – COMÉDIA/MUSICAL: Andrew Garfield (Tick, Tick… BOOM!) / alt: Leonardo DiCaprio (Não Olhe Para Cima)
MELHOR ATRIZ COADJUVANTE: Ariana DeBose (Amor, Sublime Amor) / alt: Kirsten Dunst (Ataque dos Cães)
MELHOR ATOR COADJUVANTE: Kodi Smith-McPhee (Ataque dos Cães) / alt: Troy Kotsur (No Ritmo do Coração)
MELHOR ROTEIRO: Licorice Pizza / alt: Belfast
MELHOR ANIMAÇÃO: Encanto / alt: Luca
MELHOR FILME ESTRANGEIRO: A Mão de Deus (Itália) / alt: Drive My Car (Japão)

MELHOR CANÇÃO ORIGINAL: “No Time to Die” (Sem Tempo Para Morrer) / alt: “Be Alive” (King Richard: Criando Campeãs)
MELHOR TRILHA SONORA: Duna / alt: Ataque dos Cães

SÉRIES, MINISSÉRIES E TELEFILMES

MELHOR SÉRIE – DRAMA: Succession / alt: Round 6
MELHOR SÉRIE – COMÉDIA: Only Murders in the Building / alt: Hacks
MELHOR MINISSÉRIE/TELEFILME: Mare of Easttown / alt: Maid

MELHOR ATRIZ – DRAMA: MJ Rodriguez (Pose) / alt: Uzo Aduba (In Treatment)
MELHOR ATOR – DRAMA: Jeremy Strong (Succession) / alt: Billy Porter (Pose)
MELHOR ATRIZ – COMÉDIA: Jean Smart (Hacks) / alt: Elle Fanning (The Great)
MELHOR ATOR – COMÉDIA: Steve Martin (Only Murders in the Building) / alt: Jason Sudeikis (Ted Lasso)
MELHOR ATRIZ – MINISSÉRIE/TELEFILME: Kate Winset (Mare of Easttown) / alt: Jessica Chastain (Scenes from a Marriage)
MELHOR ATOR – MINISSÉRIE/TELEFILME: Ewan McGregor (Halston) / alt: Oscar Isaac (Scenes from a Marriage)
MELHOR ATRIZ COADJUVANTE – SÉRIE/MINISSÉRIE/TELEFILME: Jennifer Coolidge (The White Lotus) / alt: Sarah Snook (Succession)
MELHOR ATOR COADJUVANTE – SÉRIE/MINISSÉRIE/TELEFILME: Kieran Culkin (Succession) / alt: Brett Goldstein (Ted Lasso)

Três atores, três filmes… com Felipe Bragança

tresfbragancaJá são mais de 20 títulos entre trabalhos como diretor e roteirista, entre eles Não Devore Meu Coração, Praia do Futuro, O Céu de Suely, Mormaço e, mais recentemente, Um Animal Amarelo, filme que tive o prazer de premiar, junto aos meus colegas de júri da crítica, como o melhor longa-metragem brasileiro do 48º Festival de Cinema de Gramado. Certamente é um currículo que atesta o quanto o carioca Felipe Bragança se tornou um dos realizadores mais interessantes da atualidade. Seu apuro estético e domínio como diretor, aliado a sua fina criatividade como roteirista, traz para esta coluna um olhar muito especial sobre a arte de interpretar, representada aqui por escolhas que transitam entre o Brasil, a Itália e os Estados Unidos, com duas grandes atrizes e um ícone do cinema nacional. Super obrigado por ter topado o convite, Felipe!


Tantas são as camadas que ligam uma personagem a um filme, suas presenças e seus recortes dentro das narrativas que optei por citar três momentos em que duas atrizes e um ator encarnaram não só um personagem, mas um filme — fizeram do filme seu corpo e vice-versa. São três dos meus atores/atrizes favoritos em todos os tempos, com quem teria uma alegria imensa de ter criado algo junto. Uma norte-americana, uma italiana e um brasileiro.

Giuletta Masina (A Estrada da Vida)
Criar uma fragilidade assim tão afiada, a ponto de conseguir conjugar encantamento e estranhamento, ternura e angústia, dentro dos mesmos gestos, é um trabalho primoroso de camadas, máscaras e afeto. Uma personagem que desmonta a realidade a seu redor não pelo que atua, mas pelo desacerto de seus gestos, de seus olhares. Masina cria um personagem que é uma peça fora da engrenagem do mundo e, ainda assim, é também todo o mundo. Precisão, ruptura e afeto. Inimitável.

Gena Rowlands (Noite de Estreia)
Minha atriz favorita de todos os tempos, com quem sonharia ter trabalhado em um filme. Gena é aqui força, desespero, firmeza, fábula, loucura, concretude e crônica cotidiana da vida de uma atriz — tudo brotando de seu corpo e de sua voz. A forma como ela consegue misturar todas essas camadas no turbilhão vivido pela personagem é de uma precisão e de uma visceralidade avassaladoras. Gena parece conseguir engolir a câmera de cinema e cuspi-la de volta, modificada.

Grande Otelo (Rio Zona Norte)
A cena em que Espírito canta seu samba para Ângela Maria e a reação que Otelo constrói com seu olhar, sorriso e corpo ao ver que sua canção foi bem recebida, essa cena, só ela, por si só, já merecia ser apresentada em looping em qualquer escola de atuação do mundo. Como pode um ator conseguir coreografar até o brilho de seus olhos? Como pode alguém conseguir modular entre a graça cômica e melancolia mais comovedora dentro de um mesmo plano, com tanta fluidez? Grande Otelo podia. E o fez. Diversas vezes ao longo de sua brilhante carreira. O maior ator brasileiro de todos os tempos, no meu sincero sentimento.

Extra: Helena Ignez
Poderosa criadora do cinema brasileiro, citada aqui não tanto por uma personagem só, mas pela rede de experimentações de cenas e gestos que ela conjuga em seus filmes e que nos abrem os olhos para o vasto mundo que nos cerca para além das regras já postas do que “se deve e que não se deve” fazer em cinema. Helena é o futuro.