Cinema e Argumento

46º Festival de Cinema de Gramado #1: seleção de longas concorrentes busca a diversidade do cinema brasileiro e latino-americano

Após exibição no Festival de Sundance, Benzinho faz sua primeira exibição nacional no 46º Festival de Cinema de Gramado. Filme marca nova parceria entre o diretor Gustavo Pizzi e a atriz Karine Telles.

O Festival de Cinema de Gramado apresentou hoje, na coletiva de imprensa realizada na Cinemateca Capitólio, em Porto Alegre, as novidades de sua 46ª edição, que acontece entre os dias 17 e 25 de agosto. Sem Eva Piwowarski e Rubens Ewald Filho, que estiveram ausentes por eventualidades pessoais, o curador Marcos Santuario falou em nome do trio: “Este ano temos a satisfação de dizer que não há um tema, há muitos. A marca das mostras competitivas em Gramado será a diversidade, como é no cinema brasileiro e latino-americano”. Julgando pela lista de filmes apresentados, essa deve mesmo ser a tônica do evento, que, na última edição, consagrou o drama Como Nossos Pais, dirigido por Laís Bodanzky.

Com nove títulos brasileiros em competição, Gramado segue apostando no ineditismo de todos os títulos selecionados. Pelo menos dois dos longas brasileiros chegam com pompa internacional: Benzinho, de Gustavo Pizzi, e Ferrugem, de Aly Muritiba, foram os representantes da nossa mais recente safra no Festival de Sundance deste ano. Junto a eles, a pluralidade se faz presente com cinebiografias (10 Segundos Para Vencer, sobre o boxeador Éder Jofre, e Simonal, sobre a trajetória, claro, do cantor Wilson Simonal), animações (A Cidade dos Piratas, do gaúcho Otto Guerra, homenageado ano passado com o troféu Eduardo Abelin), comédias (Correndo Atrás, de Jeferson De) e dramas das mais variadas temáticas (O BanqueteMormaçoA Voz do Silêncio). Ao todos, foram inscritos 665 filmes, entre longas e curtas-metragens.

Após ser palco das primeiras exibições públicas em território brasileiro de filmes como O Som ao RedorFlores RarasQue Horas Ela Volta? Aquarius, para citar trabalhos mais célebres e de expressiva carreira internacional, Gramado, apesar da mostra estrangeira muito mais enxuta este ano (são apenas cinco longas em competição, o que tem se mostrado uma tendência no evento), segue administrando muito bem o alto status construído após a mudança de curadoria entre 2011 e 2012. Isso porque, além da competição, será apresentado, em primeira mão, O Grande Circo Místico, aguardado longa-metragem de Cacá Diegues com grande elenco e exibido fora de competição em Cannes. 

Na chamada programação paralela, a Itália é o país convidado de honra da 46ª edição, dando continuidade ao projeto iniciado ano passado com o Canadá, que chegou a trazer para a Serra Gaúcha a cineasta Amber Fares, produtora da quarta temporada de Transparent, da Amazon. Outra iniciativa do Festival que ganha nova edição é o Gramado Film Market, programação focada na discussão de pontos cruciais da atividade audiovisual e nas parcerias nacionais e internacionais. Para este ano, o Gramado Film Market se concentra em três frentes de discussão: plataformas de exibição, internacionalização de conteúdos ibero-americanos e no futuro das salas de exibição.

Completando as novidades apresentadas na coletiva, o Festival de Cinema de Gramado já adianta duas de suas quatro homenagens para 2018. A primeira é para o diretor carioca Carlos Saldanha, duas vezes indicado ao Oscar e autor de obras como RioA Era do GeloO Touro Ferdinando. Desembarcando diretamente de Los Angeles, onde vive nos Estados Unidos, ele receberá o Troféu Eduardo Abelin, distinção entregue a cineastas brasileiros. Já o Troféu Cidade de Gramado será do ator Ney Latorraca. Com mais de 50 anos de carreira, Latorraca contabiliza mais de 20 longas no currículo, entre eles O Beijo no AsfaltoFor All – O Trampolim da VitóriaCarlota Joaquina. Outras duas homenagens ainda estão para ser anunciadas: o Troféu Oscarito, destinado a grandes atores do cinema brasileiro, e o Troféu Kikito de Cristal para expoentes do cinema latino-americano.

Confira abaixo a lista completa de filmes selecionados para o 46º Festival de Cinema de Gramado. Mais informações no site http://www.festivaldegramado.net.

LONGAS-METRAGENS BRASILEIROS

10 Segundos Para Vencer (RJ), de José Alvarenga Jr.
O Banquete (SP), de Daniela Thomas
Benzinho (RJ), de Gustavo Pizzi
A Cidade dos Piratas (RS), de Otto Guerra
Correndo Atrás (RJ), de Jeferson De
Ferrugem (PR), de Aly Muritiba
Mormaço (RJ), de Marina Meliande
Simonal (RJ), de Leonardo Domingues
A Voz do Silêncio (SP), de André Ristum

LONGAS-METRAGENS ESTRANGEIROS

Averno (Bolívia/Uruguai), de Marcos Loayza
Las Herederas (Paraguai/Brasil/Uruguai/França/Alemanha), de Marcelo Martinessi
Mi Mundial (Uruguai/Argentina/Brasil), de Carlos Morelli
Recreo (Argentina), de Hernán Guerschuny e Jazmín Stuart
Violeta al Fin (Costa Rica/México), de Hilda Hidalgo

CURTAS-METRAGENS BRASILEIROS

À Tona (DF), de Daniella Cronemberger
Apenas o Que Você Precisa Saber Sobre Mim (SC), de Maria Augusta V. Nunes
Aquarela (MA), de Thiago Kistenmacker e Al Danuzio
Catadora de Gente (RS), de Mirela Kruel
Estamos Todos Aqui (SP), de Chico Santos e Rafael Mellim
Um Filme de Baixo Orçamento (SP), de Paulo Leierer
Guaxuma (PE), de Nara Normande
Kairo (SP), de Fabio Rodrigo
Majur (MT), de Rafael Irineu
Minha Mãe, Minha Filha (SP), de Alexandre Estevanato
Nova Iorque (PE), de Leo Tabosa
Plantae (RJ), de Guilherme Gehr
A Retirada Para Um Coração Bruto (MG), de Marco Antonio Pereira
Torre (SP), de Nádia Mangolini

CURTAS-METRAGENS GAÚCHOS – PRÊMIO ASSEMBLEIA LEGISLATIVA

À Sombra (Canoas), de Felipe Iesbick
O Abismo (Sapucaia do Sul), de Lucas Reis
Antes do Lembrar (Porto Alegre), de Luciana Mazeto e Vinícius Lopes
Coágulo (São Leopoldo), de Jéssica Gonzatto
O Comedor de Sementes (São Leopoldo), de Victoria Farina
Um Corpo Feminino (Porto Alegre), de Thais Fernandes
Entre Sós (Porto Alegre), de Caetano Salerno
Fè Mye Talè (Encantado), de Henrique Both Lahude
A Formidável Fabriqueta de Sonhos Menina Betina (Pelotas), de Tiago Ribeiro
Gasparotto (Porto Alegre), de Zeca Brito
Grito (Santa Maria), de Luiz Alberto Cassol
Maçãs em Fogo (Porto Alegre), de Bruno de Oliveira
Movimento à Margem (Porto Alegre), de Lícia Arosteguy e Lucas Tergolina
Mulher Ltda (Canoas), de Taísa Ennes
Nós Montanha (Porto Alegre), de Gabriel Motta
Pelos Velhos Tempos (Porto Alegre), de Ulisses da Motta
Sem Abrigo (Porto Alegre), de Leonardo Remor
Subtexto (Caxias do Sul), de Cristian Beltrán
Vinil (Porto Alegre), de Catherine Silveira de Vargas e Valentina Peroni Freire Barata
O Viúvo (Porto Alegre), de Luiz Carlos Wolf Chemale

45º Festival de Cinema de Gramado #15: “Como Nossos Pais” é o grande vencedor com seis Kikitos

Os vencedores do 45º Festival de Cinema de Gramado. Seleção de longas brasileiros foi a melhor do evento serrano em anos. Foto: Cleiton Thiele/Pressphoto

Com o desafio de sintetizar os melhores longas brasileiros de uma seleção de alto nível, a lista de vencedores do 45º Festival de Cinema de Gramado consagrou o drama Como Nossos Pais, de Laís Bodanzky, em seis categorias, número expressivo que não era repetido desde 2002, quando Anna Muylaert levou cinco Kikitos por Durval Discos. A vitória já era de certa forma prevista – vindo de Berlim para sua primeira exibição nacional, Como Nossos Pais foi o primeiro longa de Bodanzky concorrente em Gramado -, e é impossível dizer que a vitória foi injusta, mas um pouco de modéstia na distribuição dos prêmios não cairia mal: pelo menos dois dos troféus concedidos ao filme poderiam ter saído dessa conta. O Kikito de melhor atriz para Maria Ribeiro, por exemplo, era claramente de Magali Biff (Pela Janela) ou de Camila Morgado (Vergel), assim como o de melhor ator para Paulo Vilhena – uma classificação questionável, diga-se de passagem, já que seu papel é basicamente de coadjuvante – era, por merecimento, de Cacá Amaral (Pela Janela). No mais, mesmo que minha preferência fosse pelo drama As Duas Irenes, de Fabio Meira, que levou roteiro, ator coadjuvante (Marco Ricca), júri da crítica e direção de arte, é difícil questionar o prêmio principal para Como Nossos Pais, um filme muito humano, delicado e contemporâneo.

Já entre os longas estrangeiros, surpresa total ao ver o amplamente criticado Sinfonia Para Ana, da Argentina, levar a categoria principal, o que pode ser a clássica situação onde um terceiro filme surge como alternativa para a falta de consenso de um júri com outras duas obras (PinamarLa Ultima Tarde, que dividiram as demais vitórias). Por outro lado, justiça foi feita no segmento de curtas-metragens brasileiros, onde o poderoso e emocionante A Gis, documentário sobre o assassinato da transexual brasileira Gisberta Salce, levou não só o prêmio de melhor filme como também o de júri popular, o que, para um filme dessa temática, é uma vitória altamente significativa. Além da emocionante vitória de Nando Cunha, por Telentrega, o júri foi certeiro em reconhecer a representatividade com um prêmio especial para Cabelo Bom e o Kikito de melhor direção para o diretor transgênero Calí dos Anjos. Confira abaixo a lista completa dos vencedores:

LONGAS-METRAGENS BRASILEIROS
Melhor Filme: Como Nossos Pais, de Laís Bodanzky
Melhor Direção: Laís Bodanzky, por Como Nossos Pais
Melhor Atriz: Maria Ribeiro, por Como Nossos Pais
Melhor Ator: Paulo Vilhena, por Como Nossos Pais
Melhor Atriz Coadjuvante: Clarisse Abujamra, por Como Nossos Pais
Melhor Ator Coadjuvante: Marco Ricca, por As Duas Irenes
Melhor Roteiro: Fábio Meira, por As Duas Irenes
Melhor Fotografia: Fabrício Tadeu, por O Matador
Melhor Montagem: Rodrigo Menecucci, por Como Nossos Pais
Melhor Trilha Musical: Ed Côrtes, por O Matador
Melhor Direção de Arte: Fernanda Carlucci, por As Duas Irenes
Melhor Desenho de Som: Augusto Stern e Fernando Efron, por Bio
Melhor Filme – Júri Popular: Bio, de Carlos Gerbase
Melhor Filme – Júri da Crítica: As Duas Irenes, de Fabio Meira
Prêmio Especial do Júri: Carlos Gerbase, pela direção dos 39 atores e atrizes em Bio
Prêmio Especial do Júri – Troféu Cidade de Gramado: Paulo Betti e Eliane Giardini, pela contribuição à arte dramática no teatro, televisão e cinema brasileiros

LONGAS-METRAGENS ESTRANGEIROS
Melhor Filme: Sinfonia Para Ana, de Virna Molina e Ernesto Ardito
Melhor Direção: Federico Godfrid, por Pinamar
Melhor Atriz: Katerina D’Onofrio, por La Ultima Tarde
Melhor Ator: Juan Grandinetti e Agustín Pardella, por Pinamar
Melhor Roteiro: Joel Calero, por La Ultima Tarde
Melhor Fotografia: Fernando Molina, por Sinfonia Para Ana
Melhor Filme – Júri Popular: Mirando al Cielo, de Guzman García
Melhor Filme – Júri da Crítica: Pinamar, de Federico Godfrid
Prêmio Especial do Júri: Los Niños, de Maite Alberdi

CURTAS-METRAGENS BRASILEIROS
Melhor Filme: A Gis, de Thiago Carvalhaes
Melhor Direção: Calí dos Anjos, por Tailor
Melhor Atriz: Sofia Brandão, por O Espírito do Bosque
Melhor Ator: Nando Cunha, por Telentrega
Melhor Roteiro: Carolina Markowicz, por Postergados
Melhor Fotografia: Pedro Rocha, por Telentrega
Melhor Montagem: Beatriz Pomar, por A Gis
Melhor Trilha Musical: Dênio de Paula, por O Violeiro Fantasma
Melhor Direção de Arte: Wesley Rodrigues, por O Violeiro Fantasma
Melhor Desenho de Som: Fernando Henna e Daniel Turini, por Caminho dos Gigantes
Melhor Filme – Júri Popular: A Gis, de Thiago Carvalhaes
Melhor Filme – Júri da Crítica: O Quebra-Cabeça de Sara, de Allan Ribeiro
Prêmio Canada 150 de Jovens Cineastas: Calí dos Anjos (Tailor)
Prêmio Canal Brasil de Curtas: O Quebra-Cabeça de Sara, de Allan Ribeiro
Prêmio Especial do Júri: Cabelo Bom, de Swahili Vidal e Claudia Alves

45º Festival de Cinema de Gramado #14: “João, o Maestro”, “A Fera na Selva” e “Vergel”

Por falta de tempo – e, em certos casos, de interesse – deixei de escrever sobre outros longas-metragens exibidos aqui no 45º Festival de Cinema de Gramado. Aproveito a reta final do evento para me retratar e compensar essa leva que ficou para trás. Vamos aos filmes.

Na cinebiografia João, o Maestro, as esforçadas performances de Rodrigo Pandolfo e Alexandre Nero se diluem em um filme tradicional e sem tempero.

João, o Maestro

Exibido fora de competição como o longa de abertura do 45º Festival de Cinema de Gramado, João, o Maestro é um filme-evento no sentido de ser uma obra que registra a inspiradora história verídica de João Carlos Martins, pianista brasileiro de repercussão mundial que, após um acidente, ficou impossibilitado de tocar piano e encontrou na regência de orquestras uma forma de dar continuidade ao seu amor pela música. Como evento, tem a garantia de grande público e bilheteria. Já em termos de valor artístico, há muito pouco a ser dito sobre um filme que apenas reproduz fórmulas e vícios de cinebiografias populares assinadas pela Globo Filmes.

Ainda que não apresente a confusão narrativa de Elis, citando outro longa biográfico exibido recentemente no evento gramadense, falta a João, o Maestro qualquer tipo de tempero. Falando quase inteiramente em espanhol e inglês – o que imediatamente nos tira da verdade que as interpretações esforçadas de Alexandre Nero e principalmente Rodrigo Pandolfo poderiam trazer -, o filme tem um roteiro apressado que novamente viaja ao mundo, dá saltos temporais e apresenta uma gama de personagens sem aprofundá-los ao mesmo tempo em que a direção de Mauro Lima – que, diga-se de passagem, fez trabalhos bacanas como Meu Nome Não é JohnnyTim Maia – peca por não trazer personalidade ao relato de um personagem riquíssimo.

Repleto de apresentações musicais – são mais de 16 números ao piano, muitos deles interpretados pelos próprios atores -, João, o Maestro não dá a real dimensão dos problemas, que sempre se resolvem muito facilmente em um curto espaço de tempo. Em tempos em que tanto se debate a questão da representatividade, é também incômodo o retrato que a produção faz de suas figuras femininas, todas reduzidas a papeis super coadjuvantes e de mero apoio ao protagonista, quando não sem personalidade, como é o caso da namorada vivida por Alinne Moraes, que, julgando pela história, não tem vontade ou identidade.

Dirigido por Paulo Betti, Eliane Giardini e Lauro Escorel, o drama A Fera na Selva é um ponto assumidamente fora da curva, com seus prós (e muito mais) contras.

A Fera na Selva

É complexo rotular um filme de teatral, adjetivo normalmente associado a comparações negativas. Há títulos nesse formato que realmente funcionam, como por exemplo DúvidaÁlbum de Família, ambos coincidentemente estrelados por Meryl Streep. Já outros se afundam não por conter uma carga considerável de diálogos ou por serem encenados com poucos atores em uma quantidade limitadíssima de cenários, mas por simplesmente não apresentarem exercício cinematográfico algum, onde a câmera está apenas ali, sem fluir, criar ou comunicar algo extratextual. É o caso de Deus da Carnificina ou do recente Um Limite Entre Nós. E agora do drama A Fera na Selva, que, dirigido por Paulo Betti, Eliane Giardini e Lauro Escorel com base na novela do escritor inglês Henry James, entrega toda sua confiança ao texto, esquecendo-se de envolver o espectador com os tantos sentidos que podem ser proporcionados pelo cinema.

A discussão é fabulosa – a de um homem que, à espera de um acontecimento extraordinário que o distinguirá de todos os outros seres humanos, esquece, justamente, de viver as pequenas coisas da vida -, mas até a transposição soa um tanto atrapalhada, já que sua reflexão nunca é encenada na prática: ao invés de reproduzi-la em momentos simples do cotidiano, A Fera na Selva prolonga a verbalização ao longo de seus 85 minutos. É óbvio que a angústia da espera assombra o protagonista, mas ninguém fala só sobre isso na vida. Limitando espaço e situações a partir dessa interminável discussão, o longa parte para o plano onde o teatral é um problema, já que os personagens praticamente não fazem outra coisa a não ser filosofar sobre a tal questão. Com isso, A Fera na Selva não introduz outras figuras em cena e restringe seu dueto a cenários fechados – e talvez por isso mesmo as cenas ao ar livre surjam tão refrescantes, reforçados pela ótima fotografia do grande Lauro Escorel.

Além do contexto, os próprios diálogos seguem a verve teatral com frases longas e posudas cuja relevância só não é descartada porque Eliane Giardini é uma grande atriz capaz de comover mesmo em saltos temporais tão repentinos. Na passagem pelo Festival de Cinema de Gramado, onde o filme não recebeu a mais positiva das recepções, Betti e Giardini sempre fizeram questão de dizer que A Fera na Selva é um filme propositalmente palavroso, um ponto assumidamente fora da curva. Admiro demais a consciência, a proposta e, claro, a coragem de fazer um filme assim, já que sou pleno defensor de que é melhor errar com ousadia do que fazendo o básico. Ao mesmo tempo, não acredito que devo redimensionar meu envolvimento ou meu julgamento acerca da obra por conta disso. Estou errado?

Camila Morgado em meio às cores. No drama Vergel, a atriz tem sua melhor chance em anos. Aqui, o o luto é contado também através da estética.

Vergel

Último longa exibido no 45º Festival de Cinema de Gramado, o drama Vergel traz a aparição mais desafiadora de Camila Morgado desde Olga. Entregue de corpo e alma ao papel de uma mulher sem nome que enfrenta um luto repentino e está à beira da loucura, Camila absorve todo o pesadíssimo tom da história escrita e dirigida por Kris Niklison, ampliando a sensação já sufocante de um filme em forma de monólogo passado inteiramente dentro de um único apartamento. Conferindo linguagem audiovisual à história mesmo com ela se passando em circunstâncias tão restritas (um ótimo contraponto ao que escrevi acima sobre A Fera na Selva), Vergel é uma experiência extremamente densa, silenciosa e entregue às imagens, estilo que certamente o restringe para certas plateias.

Na união dos planos estético e temático, Vergel não deixa de remontar ao belíssimo Direito de Amar, drama onde o diretor Tom Ford acompanhava um dia de luto na vida de um homem com um senso visual pulsante. O caso aqui é parecido: Kris Niklison não abre mão de usar diversas paletas de cores, cenários e enquadramento para significar através das imagens o processo de luta e redenção de uma mulher em estado catatônico e de suspensão. Nesse processo, ajuda o fato do filme ter sido rodado inteiramente no apartamento da diretora na Argentina, o que mostra uma intimidade das lentes com cada canto explorado. Ostentando tanta carga estética, Vergel pode ser tachado de maneirista, mas é importante compreender que tudo está a favor da história e principalmente da missão de dar dinâmica a um relato que poderia estar fadado a ser um teatro monocórdico.

De ritmo muito particular, Vergel é um filme extremamente denso, daquele tipo que não facilita a experiência para o espectador. Há nele algumas escolhas que de fato soam maneiristas ou pelo menos descartáveis, como a trilha de piano às vezes invasiva e algumas tiradas cômicas que soam frequentemente insistentes. O que vale, no entanto, é Vergel ter tanta firmeza da claustrofobia emocional que traz para sua protagonista e consequentemente para o espectador. Ainda há de se valorizar a direção e o roteiro assinados por uma mulher, configuração que, sem dúvida, faz a diferença na forma com que a obra explora o íntimo e o físico da sua personagem. Vergel causa estranhamento e, por conta de sua densidade, certa distância – nunca é fácil se aproximar de algo tão cru e pesado -, mas, para quem está disposto a embarcar, pode ser uma experiência bastante diferente, e com o bônus da ótima interpretação de uma ótima atriz que há certo tempo não recebia uma chance como essa.

45º Festival de Cinema de Gramado #13: “Bio”, de Carlos Gerbase

Maria Fernanda Cândido é uma das atrizes de repercussão nacional que integram o extenso elenco de Bio, novo filme do gaúcho Carlos Gerbase em forma de falso documentário.

Pela relação com o evento e pela longa e prolífera carreira no cinema gaúcho, a presença do diretor Carlos Gerbase na edição comemorativa de 45 anos do Festival de Cinema de Gramado é muito bem-vinda. O mais importante, no entanto, se deve – e muito mais – ao fato de Bio, que integra a mostra competitiva de longas-metragens brasileiros – ser, possivelmente, o trabalho mais consistente de sua carreira. Contando, através do modelo falso documentário, a história de um homem fictício que viu mais de 100 anos e que nunca aparece no filme, Bio se esquiva da mera brincadeira com o formato para criar um conceito próprio e se apoiar na lógica que molda todo (bom) documentário: a de que qualquer vida, até mesmo a mais cotidiana, é suficientemente grande para ser celebrada tanto quanto a do mais célebre ser humano. 

Reunindo um elenco gigantesco, que contempla desde talentos gaúchos (Werner Schünemann, Deborah Finocchiaro, Zé Victor Castiel) a nomes de repercussão internacional (Maitê Proença, Maria Fernanda Cândido), Bio não soa datado porque, além de usar o formato de falso documentário para expandir dramaticamente uma vida aparentemente simples, o faz com uma estrutura bem diferente, que atravessa diversas décadas, como se o documentário tivesse acompanhado a vida do protagonista desde antes de seu nascimento. E Gerbase, que, pela primeira vez, investe no  estilo em sua carreira de longas, tem tino para entrar nas brincadeiras do gênero, acertando especialmente no tom cômico e no saudosismo que permeia os depoimentos de personagens que lembram do protagonista com muito carinho. Por falar nele, é sábia a decisão do filme de nunca mostrá-lo, afinal, a imaginação pode ser um agente muito mais fascinante e funcional. 

Com tantos depoimentos, a montagem de Milton do Prado tem papel decisivo para que Bio flua de forma dinâmica e nunca confusa. Como em tantas produções que destrincharam de forma bem sucedida o formato de falso documentário, especialmente nos Estados Unidos, ela também serve para costurar o bom humor que permeia praticamente toda a obra. Ademais, por dar vida a tantos personagens ao longo de tantos anos em quase duas horas de projeção, Bio, em certo ponto, tem lá suas barrigas, com depoimentos menos agregadores e passagens que poderiam ser claramente eliminadas para que a obra fosse um pouco mais concisa e menos abarrotada de relatos e informações, mas, à parte esse detalhe, o que fica mesmo, além da vitória de Gerbase em um filme mais específico, é esse carinho com que ele trata pequenos momentos da vida, como se não houvesse diferença entre eles e aqueles vividos por, sabe-se lá, uma grande celebridade. E a moral da história é que, no final das contas, realmente não há. A vida sempre pulsa. Em qualquer dimensão.

45º Festival de Cinema de Gramado #12: “Pela Janela”, de Caroline Leone

Magali Biff é superlativa no drama Pela Janela. Como Rosália, ela acompanha o tom do filme de Caroline Leone ao adotar um desempenho que mostra tudo sem mostrar nada.

Frequente colaboradora do cineasta Esmir Filho desde os tempos do curta-metragem Saliva, a montadora Caroline Leone também resolveu contar suas próprias histórias em narrativas longas. E começou com o pé direito: antes de fazer sua estreia nacional no 45º Festival de Cinema de Gramado, Pela Janela foi selecionado, ainda em sua gestão de roteiro, para a Fabrique des Cinémas du Monde, projeto organizado pelo Institut Français de Paris, em parceria com o Festival de Cannes e o Marché du Film, para apoiar o desenvolvimento de projetos assinados por diretores que estão produzindo seus primeiros ou segundos longas-metragens. Mais do que a validação tanto do Fabrique des Cinémas quanto do Festival de Cinema de Gramado, Pela Janela é realmente uma produção bem sucedida. Reforçando o olhar feminino destacado na Serra Gaúcha este ano (quatro dos sete filmes selecionados para a mostra brasileira levam a assinatura de cineastas mulheres), essa coprodução Brasil/Argentina se debruça a falar sobre um nicho que, em Hollywood, por exemplo, somente a diretora Nancy Meyers parece se atentar: o das mulheres de meia-idade que, sim, são protagonistas de suas próprias vidas e que também passam por dilemas e transformações.

Ao passo em que Nancy Meyers fala basicamente sobre mulheres ricas que sofrem por amor, Caroline Leone vai muito mais afundo na vida feminina de meia-idade ao registrar o mundo de uma personagem que, ao perder o emprego de anos em uma fábrica, precisa reconstruir sua vida. A primeira etapa dessa jornada acontece a partir de uma viagem junto ao irmão para a Argentina. Não se engane, entretanto, ao pensar que Leone, também autora do roteiro, percorrerá os caminhos conhecidos de um road movie ou de filmes sobre mulheres maduras. As lógicas clássicas de um filme do gênero estão ali — particularmente, gosto sempre da ideia de encontrar, ao fim da estrada, uma personagem diferente da que entrou —, mas Pela Janela tem um tempo próprio, caminhando a passos lentos, o que nos leva a uma narrativa sem pressa, sem agonia e que dá uma dimensão muito mais interessante a dramas que descambariam para cenas hiperbólicas em projetos sem muita criatividade. Nesse sentido, percebam como o longa finalmente solta o choro há muito tempo preso pela protagonista: ele acontece quando Rosália (Magali Biff) está lavando o rosto, como se ela própria não se permitisse verter lágrimas mesmo em um universo privado, o que diz muito sobre essa mulher calada e introspectiva que acompanhamos ao longo de 85 minutos.  

Registrando com discrição a cultura latina quando viaja pelas estradas da Argentina, Pela Janela faz a sábia escolha de não usar a geografia simplesmente como cartão-postal. Tudo é muito mais delicado do que qualquer ponto turístico poderia traduzir, a exemplo da clara transformação que a protagonista sofre ao ganhar uma camisa que, em um primeiro momento, considera um tanto estapafúrdia, mas que, após determinadas vivências que até então lhe eram desconhecidas, passa a vestir até mesmo com certa vaidade. A cena nas Cataratas do Iguaçu, representando uma comunhão com a natureza e uma metáfora da libertação das lágrimas presas, também é emblemática nesse ponto de virada da vida de Rosália. Sendo assim, é por olhar com calma e proximidade uma fase da vida onde as pequenas mudanças podem causar as maiores das reviravoltas internas que Caroline Leone entrega um filme que, como todo bom cinema, cresce pouco a pouco com o espectador ao longo tempo. Se você não sentir tudo isso, que a experiência valha, ao menos, pelo desempenho maravilhoso de Magali Biff, uma atriz que, apesar de trabalhar com dramaturgia desde os anos 1980, especialmente no teatro, ganha uma de suas chances mais preciosas. Assim como o longa, ela aproveita cada minuto de projeção com a maior das delicadezas, mostrando tudo sem mostrar nada. E isso só é coisa de gente grande.

45º Festival de Cinema de Gramado #11: Eliane Giardini celebra o agora em “A Fera na Selva”

À frente e atrás das câmeras: Eliane Giardini atua, dirige e coproduz A Fera na Selva, drama baseado na novela homônima do inglês Henry James. Foto: Edison Vara/Pressphoto

Não é exagero dizer que A Fera na Selva, novela escrita pelo inglês Henry James em 1903, mudou a vida da atriz Eliane Giardini. “Fiquei muito impactada quando li pela primeira vez há cerca de 25 anos. Foi um choque de realidade”, lembra. O “choque de realidade”, segundo ela, veio pela identificação com o protagonista da história, um homem que, à espera de um grande acontecimento que o possa distinguir de todas as outras pessoas, esquece de viver o agora e as coisas simples da vida. Para Eliane, esse é um exercício que agora ela precisa fazer diariamente: “Isso é muito do ser humano: pensar no passado e projetar o futuro, mas esquecer o presente. Depois de entrar em contato com essa obra, passei a exercitar muito mais a consciência do aqui e do agora. É quase uma meditação, e isso é muito difícil”.

É justamente essa discussão que norteia A Fera na Selva, o filme que Eliane agora dirige em parceria com Paulo Betti e Lauro Escorel e que compete na mostra de longas-metragens brasileiros do 45º Festival de Cinema de Gramado. Também replicando em cena o papel que dividira com Paulo na versão teatral do texto, Eliane não deixa de observar que A Fera na Selva é uma obra que também pode ser questionada através dos anos, em especial Maria, a personagem que interpreta. “Ela é essa mulher do século passado que é a parceira, que fica do lado do homem e se submete, servindo de confirmação para a história do homem, como se essa fosse a única maneira de se sentir incluída em alguma coisa. Graças a Deus isso está mudando hoje em dia, mais do que nunca”, comemora.

Por falar em adaptação, A Fera na Selva nasceu como um projeto colaborativo, onde Paulo Betti discutia o texto de Henry James com o público, em uma espécie de clube de reflexão que servia de laboratório para a construção da versão cinematográfica. O mesmo espírito de compartilhamento se estendeu à direção, onde Eliane, Paulo e Lauro formaram um trio de pura sintonia. O resultado, segundo a atriz, é um filme que pouco se assemelha ao que o público está acostumado a ver. “Sabíamos que esse era um texto ‘palavroso’, trabalhado em cima de uma questão filosófica e que daria vida a um filme fora da curva, com ritmo totalmente diferente do que se vê”, avalia. No entanto, a recepção da primeira exibição mundial do filme em Gramado agrada a atriz-diretora: “É uma experiência que afirmou o que eu pensava sobre o nosso trabalho. Imaginei que, por ser um filme de ritmo mais próprio e meio ‘emburacado’, pudesse haver uma debandada, mas as pessoas foram extremamente respeitosas com o que realizamos”. 

Já trabalhando no roteiro de um novo longa-metragem, Eliane Giardini volta a participar do Festival de Cinema de Gramado depois de 14 anos. A última vez foi em 2003, quando apresentou o evento ao lado do ator gaúcho Werner Schünemann, durante o enorme sucesso da minissérie A Casa das Sete Mulheres. “Fazia realmente muito tempo que eu não vinha, e o que percebo é que a cidade está muito diferente, incrivelmente melhor, e o Festival ajuda nesse sentido”. Assim como sua colega de profissão Camila Morgado, que recentemente esteve na Serra Gaúcha representando o longa Vergel, Eliane endossa o discurso: “Vir aqui em tempos onde a cultura está sendo literalmente desmontada também é um ato de resistência. Precisamos celebrar”.

* matéria produzida originalmente para a assessoria de imprensa do 45º Festival de Cinema de Gramado

45º Festival de Cinema de Gramado #10: um pouco sobre os curtas

Não vemos o rosto de Sara, mas vemos a personagem por completo. O Quebra-Cabeça de Sara é um dos destaques da mostra competitiva de curtas-metragens do Festival até aqui.

Entre um e outro longas, há ainda, no 45º Festival de Cinema de Gramado, um amplo e nobre espaço para os curtas-metragens (os brasileiros são exibidos antes de cada longa e os gaúchos ao longo do primeiro fim de semana em sessões vespertinas). Agora tiro um pouco de tempo para sobre alguns dele. Começo com A Gis, muito provavelmente o melhor filme da mostra que vi até agora – e acho difícil qualquer outro superar. O curta narra em forma de documentário a vida da transexual brasileira Gisberta Salce, que foi brutalmente assassinada em Portugal no ano de 2006. Poderoso e comovente, A Gis arrebata pela maneira completa e respeitosa com que narra a trajetória de sua personagem, devidamente relembrada por amigos, familiares e até mesmo pelo policial que encontrou seu corpo. Além de reproduzir A Balada de Gisberta, linda canção gravada na voz de Maria Bethânia em homenagem à Gis (confira abaixo uma apresentação ao vivo da cantora), o curta se torna universal a partir do íntimo e do particular, o que considero sempre muito bonito e insuperável.

Uma dobradinha perfeita em termos de qualidade e temática é O Quebra-Cabeça de Sara, de Allan Ribeiro, cineasta que anos atrás esteve aqui em Gramado com outro curta-metragem, O Clube. Filmado inteiramente no apartamento do próprio diretor com a diarista que trabalha quinzenalmente por lá, O Quebra-Cabeça de Sara é caseiro na forma, mas contundente e complexo no conteúdo. Nas imagens, nunca vemos o rosto de Sara e apenas acompanhamos seu trabalho como diarista ao mesmo tempo em que ouvimos uma narração em que ela conta a descoberta da homossexualidade da filha. Ela trabalha com gays, mas prefere que a filha seja uma “vadia” do que lésbica. Sara admite o preconceito e diz que é assim mesmo que pensa. Negra, nem a própria cor ela poupa ao afirmar que tem coisa errada que “só preto faz”. É complicado, mas vitorioso o trabalho de Allan porque Sara não simplesmente destila um discurso odioso. Na verdade, tudo ali é humanizado, onde o diretor evidencia a complexidade dos preconceitos. Normalmente não ouvimos nem procuramos enxergar a dimensão de ideias e valores contrários aos nossos. O Quebra-Cabeça de Sara ouve e procura. Um pequeno grande filme.

Um outro curta-metragem em competição me provocou na leva apresentada até aqui. É Sal, de Diego Freitas. Difícil falar sobre o filme porque toda sua curiosidade gravita em torno da resolução, que é justamente o que traz o impacto de todo o filme. Em linhas gerais, dois homens marcam um encontro e a partir daí divagam sobre as etapas do que estão prestes a fazer nessa noite que logo se revela irreversível para ambos. O objetivo comum dos protagonistas é revelado nos últimos segundos da história, mas Sal se sustenta muitíssimo bem até lá, principalmente porque os protagonistas Eucir de Souza e Guilherme Rodio são muito bons e porque o diretor Diego Freitas consegue criar um clima indiscutivelmente eficiente: é impossível não ficar intrigado e até mesmo nervoso com os misteriosos diálogos dos dois personagens. A revelação é perturbadora, e o mais impactante: baseada em fatos reais. Certamente, um título que não passa despercebido aqui na Serra Gaúcha, pelo assunto que descortina e por suas qualidades como cinema.

No mais, há curtas bacanas, mas que não me comoveram ou instigaram como os que citei acima. Embarcando no plano infanto-juvenil, temos dois exemplares: O Espírito do BosqueMédico de Monstro. Duplamente exibidos, tanto na mostra gaúcha quanto na nacional, TelentregaMãe de Monstros, ambos de Porto Alegre, são realizados com um admirável esmero técnico, mas o primeiro se destaca mais pela provocação de seu desfecho e o segundo pelo bom exercício do cinema de gênero (no caso, o terror). Já a animação Caminho dos Gigantes tem um magnífico trabalho de som e alta qualidade técnica, ao mesmo tempo em que entrega uma história repleta de metáforas e leituras. Por enquanto, em maior ou menor grau, a competição de curtas brasileiros é bem representada, com três filmes especialíssimos. Já está de bom tamanho. A programação completa do 45º Festival de Cinema de Gramado está disponível no site http://www.festivaldegramado.net.

45º Festival de Cinema de Gramado #9: “As Duas Irenes”, de Fabio Meira

Priscila Bittencourt e Marco Ricca como pai e filha em As Duas Irenes, o delicado e completo drama de estreia do diretor Fabio Meira.

Não há como assistir ao drama As Duas Irenes sem imediatamente associar o longa-metragem de estreia do diretor Fabio Meira ao lindíssimo À Deriva, assinado por Heitor Dhalia em 2009. Ambos são obras centradas na vida de jovens garotas que, em meio às transformações e efervescências da adolescência, descobrem que seus pais vivem casos extra-conjungais. Porém, o que difere As Duas Irenes de À Deriva é que o primeiro traz um elemento muito mais complexo: não só o pai de Irene trai a esposa como também vive uma vida à parte com outra família, onde a filha também se chama Irene. Ao descobrir esse segredo que devastaria e intrigaria qualquer pessoa, a jovem decide se tornar amiga dessa outra Irene, tentando compreender primeiro o que levou o pai a criar e sustentar um outro núcleo familiar e segundo a sua própria identidade a partir de uma menina que carrega seu mesmo nome e sangue, mas com personalidade e história de vida inteiramente diferentes.

A situação é desconfortável, e o que fascina em As Duas Irenes é o poder do diretor Fabio Meira, também autor do roteiro, em fazer com que o espectador olhe para as descobertas da protagonista com a mesma curiosidade que ela própria olha. Nesse sentido, é bem possível dizer que o longa se sustenta a partir de uma tensão ininterrupta, seja pela forma como o filme desbrava a figura do pai sem mostrar seu íntimo (o que não é motivo para tratá-lo de forma unidimensional) ou pela nova identidade com que Irene assume para conhecer a meia-irmã, o que faz com que ela engate uma mentira atrás da outra para sustentar uma nova vida. O conflito dá total ritmo para o filme, que, em cada situação vivida pela personagem, desdobra situações importantes e que nos fazem refletir sobre o antiquado modelo patriarcal que ainda hoje rege a sociedade, em especial a de cidades menores. 

Com uma interpretação reveladora da jovem Priscila Bittencourt, As Duas Irenes é delicado e sutil ao tratar o íntimo de todos os personagens, capturando com precisão a turbulência silenciosa dos sentimentos de cada um deles. Enquanto a Irene de Priscila entra em pleno conflito na relação com o pai sem jamais revelar o segredo para a mãe – o que obviamente também ilumina o inegável afeto que ela sente por ele -, outros coadjuvantes ganham suas devidas dimensões, como a mãe da segunda Irene, que, em um momento super discreto mas emotivo, chora por um conflito com o marido. Mais uma prova de que As Duas Irenes tem uma costura muito fina é o trabalho de Marco Ricca como esse pai que, apesar de refletir o comportamento machista e característico de toda uma geração, também tem momentos de afeto e carinho com ambas as famílias. Contido e ao mesmo tempo pulsante, o filme ainda não esquece de de contemplar as emoções, fragilidades, medos e pulsões físicas da fase adolescente. Nada previsível, clichê ou fora de tom. Tudo no lugar. Uma verdadeira pérola.

45º Festival de Cinema de Gramado #8: Camila Morgado encara o luto e o renascimento no drama “Vergel”

Camila Morgado é a protagonista de Vergel, drama que será exibido sexta-feira (25) no Palácio dos Festivais. Foto: Diego Vara/Pressphoto

Não há gênero que a atriz Camila Morgado rejeite ou olhe com preconceito. Aliás, esse seu desprendimento é consequência natural de uma curiosidade que Camila sempre teve, antes mesmo de migrar do teatro para a telona: a de mergulhar em tudo o que existe de fascinante em qualquer ser humano. “Foi o que sempre interessou: o nosso comportamento, a forma como nos vestimos, falamos, reagimos à vida. É esse meu objetivo como atriz e é isso o que me leva a passear por tantos gêneros”, conta a atriz, que, recentemente se divertiu na comédia Divórcio, encarou a tensão no thriller O Animal Cordial e mergulhou nos processos de luto com o drama Vergel – este último fazendo sua estreia nacional na mostra competitiva de longas-metragens brasileiros do 45º Festival de Cinema de Gramado.

Com Vergel, Camila Morgado novamente se entrega ao drama, gênero que pontuou momentos cruciais de sua relação com o grande público, primeiramente com a minissérie A Casa das Sete Mulheres, em 2003, e depois com Olga, em 2004, filme de abertura do 32º Festival de Cinema de Gramado, em exibição hors-concours. Apesar do sucesso, ela não esconde, por outro lado, que foram tempos de reflexão do ponto de vista profissional. “Ali a situação me preocupou um pouco porque o público pensava que eu só sabia chorar ou fazer trabalhos densos. Não queria ficar com esse estereótipo, então a busca por uma certa desmistificação da minha carreira foi plenamente consciente”, lembra. E ela conseguiu, novamente sem preconceitos: “Quando fiz Até Que a Sorte nos Separe, questionei muita coisa. Por que não posso fazer um filme para me divertir? Ou que leve toda a família para o cinema só para dar risada e comer pipoca? Não há mal nenhum nisso”.

Já em Vergel, a situação, claro, é bem diferente. Interpretando uma mulher sem nome que é levada à beira da loucura por um luto repentino, ela se entrega a um tipo de história que sempre teve o desejo de contar. “O luto nos leva a um estado de suspensão, onde você precisa encontrar o seu próprio tempo para renascer, se recriar, se reconstruir. É um estado muito primitivo, peculiar. Nunca havia entrado em contato com isso na minha carreira, e era algo que eu queria fazer”, afirma a atriz. Junto ao tema, o roteiro escrito pela diretora Kris Niklison também foi o que chamou Camila para o projeto: “Nós só falamos de luto com o terapeuta e talvez com amigos muito próximos. É um tema difícil, que causa muita dor e nos deixa em um estado perdido, mas a Kris escreveu tudo de forma tão delicada que eu simplesmente me apaixonei, assim como todos os envolvidos no projeto”.

Uma coprodução Brasil/Argentina, o longa-metragem foi rodado em torno de 45 dias, com baixíssimo orçamento e com a equipe emprestando apartamento e bicicletas para que a equipe de produção passasse uma temporada na Argentina. O que parecia um obstáculo se tornou, na realidade, um ganho. “Foi uma delícia. Os hermanos foram muito gentis, e nós sempre nos apoiamos muito. Éramos uma equipe que ficava junta para fazer de um sonho uma realidade. No final das contas, o meu maior medo era que roubassem a bicicleta que me emprestaram”, brinca. Sobre a relação com a diretora Kris Niklison, Camila diz que o olhar feminino fez toda a diferença para a história contada em Vergel, “já nos ensaios eu via que ela tinha um olhar muito rebuscado em relação ao feminino. E quando vi o filme pronto, fiquei impressionada com o quanto ela filma bem essa figura feminina, o corpo dessa mulher que passa por tantas compulsões sexuais para de alguma forma perceber que ainda está viva”.

Retornando ao Festival de Cinema de Gramado após mais de 10 anos, a atriz sente que a celebração dos 45 anos do evento representa mais do que o tradicional encontro entre amigos e profissionais do cinema brasileiro e latino. “É importante o Festival acontecer nesse momento porque a cultura está cada vez mais marginalizada. A cultura faz parte da vida de todo mundo, e por isso deve ser sempre um estímulo. Em tempos de movimentos tão feios da política de direita, o Festival é também um ato de resistência”, defende Camila.

“Vergel” será exibido no Palácio dos Festivais dia 25 de agosto, sexta-feira, a partir das 21h30.

* matéria produzida originalmente para a assessoria de imprensa do 45º Festival de Cinema de Gramado

45º Festival de Cinema de Gramado #7: A busca de Laís Bodanzky pelo mais simples do ser humano

A cineasta Laís Bodanzky concorre ao Kikito no 45º Festival de Cinema de Gramado com o drama Como Nossos Pais. Foto: Diego Vara/Pressphoto

A diretora Laís Bodanzky conhece a vida de seu público. Isso, no entanto, não se restringe ao fato de ela produzir filmes como As Melhores Coisas do Mundo, Chega de Saudade e o célebre Bicho de Sete Cabeças, que falam justamente sobre pessoas comuns, “gente como a gente”. Na verdade, é o que a própria Bodanzky diz ouvir da plateia quando sai, por exemplo, de uma sessão de Como Nossos Pais, seu mais novo longa-metragem que fez estreia em território nacional no 45º Festival de Cinema de Gramado. “O encontro com o público validou e completou tudo o que eu pensava sobre esse trabalho. A maneira como as pessoas levantam questões vem no mesmo tom que o filme. Elas dizem ‘como você conhece a minha vida!’, quase como se estivessem em uma terapia”, conta a diretora.

Narrando o dia a dia de Rosa (Maria Ribeiro), uma mulher que busca ser perfeita em todas suas obrigações como profissional, mãe, filha, esposa e amante, Bodanzky lança novamente um olhar humano e contemporâneo para o tipo de história que marcou a sua trajetória até aqui. Mais do que isso, Como Nossos Pais vem da necessidade da diretora de falar sobre uma questão efervescente: a representação feminina, o que ela garante ter sido o “tema de redação” de seu longa já há muitos anos. Evocando a clássica música de Belchior eternizada na voz de Elis Regina, o universo feminino é visto pela cineasta sob a luz das relações familiares, especialmente das trocas promovidas entre diferentes gerações: “Eu queria falar sobre o que a gente pega e transforma de uma geração e entrega para a próxima, o que a gente ensina para nossos pais e sobre quando começa essa inversão de papeis”.

A mistura, claro, leva tons autobiográficos – e Bondazky diz que não poderia ser de outra maneira se tratando de cinema -, mas a provocação também deu uma importante tônica ao roteiro. “A mãe vivida pela Clarisse Abujamra é uma mulher da geração intelectual dos anos 1960, que viveu a contracultura com certa entrega e liberdade. Já Rosa, a filha, é careta. E isso acho bonito: ao mesmo tempo em que critica os pais, Rosa ganha de presente uma mãe que a ensina a ser muito mais libertária, muito mais livre, a correr riscos, transgredir. É no conflito que vem o aprendizado.”, reflete a diretora.

Antes de exibir Como Nossos Pais, seu primeiro longa-metragem em competição no Festival de Cinema de Gramado, Bondanzky só havia visitado o evento na década de 1990, quando exibiu o média-metragem Cine Mambembe – O Cinema Descobre o Brasil no Palácio dos Festivais em 1999. O retorno ao Festival traz muitas alegrias para a diretora, entre elas perceber como o evento se transformou ao longo dos anos. “Agora é outra coisa, até porque o próprio cinema brasileiro é outro. De qualquer forma, a curadoria é fina e me chamou muito a atenção porque reflete o cinema que vivemos hoje e porque está atenta a essa necessidade de fazer um contraste entre novos cineastas e nomes já consolidados”, avalia. O charme do evento também não passa despercebido por ela, que reforça a ideia de que o glamour característico do Festival aliado ao requinte cinematográfico trazido pela curadoria promove “um encontro atômico para o cinema brasileiro”.

Pela frente, Bodanzky tem como objetivo seguir na mesma linha de buscar a humanidade no lado mais simples do ser humano, mas, segundo ela, novamente com certa provocação: “Pedro” contará a história de Dom Pedro I, sob o viés de… Pedro, a pessoa. Não o Dom. É mais um capítulo a ser escrito em uma carreira que a diretora assume ser propositalmente sobre nós mesmos.

* matéria produzida originalmente para a assessoria de imprensa do 45º Festival de Cinema de Gramado

45º Festival de Cinema de Gramado #6: “Como Nossos Pais”, de Laís Bodanzky

Maria Ribeiro e Clarisse Abujamra em Como Nossos Pais: ambas são excelentes em mais um filme onde a diretora Laís Bodanzky faz o naturalismo brilhar.

Lá se vão 16 anos desde que a diretora paulista Laís Bodanzky estreou na produção de longas de ficção com o poderoso Bicho de Sete Cabeças. Suas obras posteriores podem não ter causado o mesmo alvoroço do que o filme estrelado por Rodrigo Santoro, que rendeu a Bodanzky uma série de prêmios nacionalmente, mas consolidaram a identidade perfeitamente clara da diretora. Falando sobre a relação entre pais e filhos adolescentes em As Melhores Coisas do Mundo, sobre as dores e alegrias do envelhecimento em Chega de Saudade e sobre a (falta de) inclusão das mulheres no mundo esportivo em Mulheres Olímpicas, Bodanzky sempre procurou radiografar histórias de pessoas como eu e você. Mais especial ainda é a forma como ela lança esse olhar: sem jamais criar tramas mirabolantes ou preocupadas em surpreender, ela relata histórias muito cotidianas, conferindo uma bem-vinda verossimilhança a todos os roteiros que escreve. Não é diferente com o drama Como Nossos Pais, que, após elogiada sessão na mostra Panorama do Festival de Berlim deste ano, integra agora a competição do 45º Festival de Cinema de Gramado e finalmente chega aos cinemas brasileiros no dia 31 de agosto.

Longa de Bodanzky mais centrado no universo feminino, Como Nossos Pais parte de uma transgressão na vida de sua protagonista: exausta de tentar manter o papel da super mulher que dá conta da casa, dos filhos, da família e da carreira, Rosa (Maria Ribeiro) abandona as aparências ao descobrir que, na verdade, é fruto de um passageiro caso extraconjugal vivido por sua mãe em uma viagem internacional. Em crise no trabalho, também já não consegue mais dar conta das filhas, que chegam à pré-adolescência com o típico temperamento dos jovens dessa idade. Para completar o caótico cenário, a mãe de Rosa anuncia a descoberta de um câncer, o que faz com ela passe a refletir sobre a finitude da vida e, claro, das relações familiares. Na teoria, não deixa de ser novelesca a decisão do roteiro de fazer com que a protagonista passe por todo tipo de provação para que Como Nossos Pais se movimente dramaticamente. Já na prática, o filme nunca descamba para o dramalhão porque Bodanzky, como sempre, puxa todo conflito para o plano naturalismo, o que é consequência direta do fato de ela própria também escrever o roteiro (ao lado de Luiz Bolognesi). Qualquer acúmulo de dramas não se apresenta como uma mera apelação para causar impacto dramático, mas sim para refletir a vida como ela simplesmente é (afinal, é difícil encontrar alguém que não tenha vivido fases onde simplesmente tudo parece dar errado).

Ainda que lhe falte certa intensidade ou o frescor dos espirituosos Chega de SaudadeAs Melhores Coisas do MundoComo Nossos Pais opta pela sobriedade mesmo nos discursos prontos ou nas discussões expositivas. Um perfeito exemplo dessa compensação é como o filme constrói Clarice, matriarca da família que passa a agir com notável franqueza após a descoberta de um câncer. Além de não tratar a questão da enfermidade como muleta dramática, Clarisse Abujamra, a atriz, não torna o pragmatismo de sua personagem em uma simples antipatia: aliás, é justamente por agir de forma tão diferente do esperado para a situação que ela se torna a figura mais fascinante da história. E Abujamra, ótima intérprete que é, faz uma composição impecável de uma mulher que, lá no fundo, de um jeito bem diferente, também vive suas angústias e deseja deixar algum tipo de legado emocional para a filha com quem tem uma relação frequentemente distante e conturbada. A Rosa de Maria Ribeiro não fica muito atrás: naquele que é provavelmente o papel de maior destaque de sua carreira, a atriz confere naturalidade e verossimilhança a uma jovem personagem que sente na pele todas as obrigações impostas pela vida e pela sociedade, especialmente para as mulheres.

Falando nelas, é importante que Como Nossos Pais seja dirigido e roteirizado também por uma mulher no sentido de trabalhar, com economia e sutileza, discussões essencialmente panfletárias ou estereotipadas em mãos masculinas. Por mais que o longa não esteja livre de abordagens, digamos, rasas (a paranoia da protagonista em descobrir qualquer tipo de traição do marido é um conflito que anda em círculos), o resultado é envolvente ao radiografar uma sociedade contemporânea, urbana e em constante transformação, aqui retratada sob a luz das relações que se estabelecem entre diferentes gerações. Ao se manter fiel ao tipo de cinema que sempre gostou de fazer, a diretora estabelece a sua vocação temática não como a descoberta de uma fórmula que deve sempre ser mantida, mas sim como uma maneira de, a cada filme, exercitá-la nos mais variados tipos de histórias e personagens.

45º Festival de Cinema de Gramado #5: “O Matador”, de Marcelo Galvão

O Matador é o primeiro filme Original Netflix produzido no Brasil. Foto: Pedro Saad/Netflix

Vá entender o porquê de tanta gente – público e crítica – ter inventando a tal polêmica em Cannes que discutia o valor de um filme a partir do fato de ele estrear ou não em uma sala de cinema. Curto e grosso, saio em defesa da plataforma ao dizer o seguinte: prefiro mil vezes assistir a um filme que está na tela (seja ela qual for) exatamente da mesma forma que foi pensado em sua fase embrionária do que me deparar com uma obra que passou por dezenas de produtores, sendo mutilada a cada decisão estritamente comercial com fins de distribuição só para chegar na tela grande. Esse, afinal, é o principal cerne da questão: a preferência pelo valor artístico, pela visão de um criador. Isso deve ser soberano, sempre. E a Netflix tem plena consciência disso.

Antes, em Cannes, OkjaThe Meyerowitz Stories. Agora, em Gramado, O Matador, que faz sua primeira exibição nos 45 anos do festival serrano, mas sem reproduzir – com toda razão – as “polêmicas” que tomaram o célebre evento francês na edição deste ano. E o caso é novamente de acerto: em escala de produção e em construção de gênero (no caso, o faroeste), Marcelo Galvão, um habitué de Gramado com vitórias recentes pela comédia Colegas e pelo belíssimo drama A Despedida, faz de O Matador um divertido e competente western brasileiro. E isso se distancia do mero impacto de dimensões que o filme tem – o esmero técnico aqui é realmente de tirar o chapéu, da trilha super funcional assinada por Ed Côrtes ao design de produção de Zenor Ribas -, alcançando o plano do próprio conceito da história, uma vez que Galvão, também autor do roteiro, cria tramas e personagens muito particulares sem jamais trair o que o filme delimitou como crível e possível para aquele universo. Não há artificialidades aqui e muito menos o estofo raso de técnica e dramaturgia tão comum em longas que tentam emular gêneros bastante específicos.

Em termos estruturais, pontos para a acertada decisão de misturar elementos clássicos do gênero – as heranças malditas, as sucessões familiares, a morte como solução fácil – e ao mesmo tempo brincar, por exemplo, com os pontos de vista da trama, como na boa parcela do filme que se distancia do protagonista Cabeleira (Diogo Morgado) para contar outras histórias. Há ainda algumas surpresas divertidas, como um pequeno número musical com a portuguesa Maria de Medeiros. Primeiro longa Original Netflix produzido no Brasil, O Matador cimenta a impressão já sugerida anteriormente de que Galvão é um cineasta que, apesar de não ter a chamada “assinatura” que a crítica tanto adora tornar obrigatória na carreira de cineastas, encontra sua assinatura, justamente, na falta de assinatura. Transitar por todos os gêneros e mesmo assim manter uma boa média de qualidade exige talento, e é um feito alcançado por poucos. Galvão sai ganhando. E a Netflix também por ter a visão de apostar no projeto, que muito provavelmente não chegaria aos cinemas. Muito menos em um número digno de salas.

%d blogueiros gostam disto: