Festival de Sundance 2022: “Cha Cha Real Smooth”, de Cooper Raiff

chachasundance

Sucesso no Festival de Sundance, onde foi agraciado com o prêmio do público, Cha Cha Real Smooth promove um encontro entre dois personagens que, em diferentes pontos de suas vidas, compartilham um certo sentimento de desorientação. Enquanto Andrew (Cooper Raiff) chega aos 22 anos ainda tendo que compartilhar o quarto com o irmão caçula e trabalhar em um emprego qualquer porque não encontrou uma vocação, Domino (Dakota Johnson) vive dias solitários com sua filha autista enquanto o noivo, um homem que ela escolheu se relacionar para ter uma vida “adulta” e “responsável”, passa dias fora da cidade a trabalho. Quando Andrew vai a um bar mitzvá e se descobre um party starter — espécie de animador de festas —, esses dois caminhos se cruzam, dando início a uma relação tão delicada quanto impossivelmente apaixonante.

Cha Cha Real Smooth é contado do ponto de vista de Andrew, esse garoto gentil e sentimental que chega para abrilhantar a vida de uma mãe feliz com sua estabilidade, mas que carrega um desejo melancólico pela liberdade e pela novidade da juventude usufruída por Andrew. A conexão imediata entre os dois, no entanto, não faz deste filme um emaranhado de conflitos sobre diferenças geracionais ou a impossibilidade de uma relação. Na verdade, o que há em Cha Cha Real Smooth é um relato muito sensível, afetivo e que, apesar dos traço indie do cinema norte-americano, dispensa a todo momento qualquer maneirismo para soar cool. Além de ator, Cooper Raiff dirige e roteiriza o longa como uma história de amor que não trilha os caminhos imaginados no desenrolar do primeiro terço, o que é uma ótima notícia.

Afeito aos pequenos momentos de uma relação, seja ela de qualquer natureza — amorosa, familiar ou de amizade —, Cha Cha Real Smooth reserva bons espaços para coadjuvantes que, mesmo em papeis bastante pequenos, complementam a imagem apresentada de Andrew. É o caso da mãe vivida por Leslie Mann, cujas aparições são breves, mas assertivas em cada observação sobre o filho. Há também o adorável irmão caçula vivido por Evan Assante, capaz de enxergar no primogênito uma sabedoria e um companheirismo que o protagonista não é capaz de enxergar em si mesmo. E não dá para deixar em branco a presença de Vanessa Burghardt, responsável por dar vida a uma personagem autista que, de fato, é interpretada por uma atriz autista, mostrando como representatividade importa e só tem a contribuir para uma história.

Com tantos coadjuvantes bacanas orbitando a história, Cooper Raiff e Dakota Johnson são generosos com todos eles e, claro, com a relação afetiva que precisam estabelecer como os dois protagonistas. Ambos trilham os caminhos tortuosos e realistas de Andrew e Domino nessa busca pelo que eles significam um para o outro. Cooper esbanja carisma do início ao fim (desafio qualquer pessoa a não querer guardar Andrew em um potinho e levar para casa) e Dakota Johnson confirma as excelentes escolhas de sua carreira recente, mais uma vez vivendo uma mãe jovem e bonita que coloca em pauta diversas e importantes questões maternas, assim como vimos há poucos meses em A Filha Perdida. A química entre os dois é apaixonante, mas, no sorriso de ponta a ponta deixado pelo filme, faço minha maior reverência a Raiff mesmo, que, como ator, diretor, roteirista e produtor, jamais faz de Cha Cha Real Smooth uma egotrip — e sim um ato generoso que celebra a beleza e a melancolia das relações cotidianamente humanas.

Cha Cha Real Smooth review

A success at Sundance Film Festival, where it won the U.S. Dramatic Audience Award, Cha Cha Real Smooth promotes an encounter between two characters who, at different points in their lives, share a certain feeling of disorientation. While Andrew (Cooper Raiff) reaches the age of 22 sharing a room with his younger brother and workgin at a random job because he still hasn’t found a vocation, Domino (Dakota Johnson) goes through lonely days with his autistic daughter while her fiancé, a man that she chose to relate to in order to have an “adult” and “responsible” life, spends days out of town for work. When Andrew goes to a bar mitzvah and turns himself into a “party starter” — a kind of party entertainer —, these two paths cross, beginning a very special relationship.

Cha Cha Real Smooth is told from the point of view of Andrew, this gentle and sentimental boy who comes to brighten the life of a happy mother with his stability, but who carries a melancholic desire for the freedom and novelty she sees in Andrew. The immediate connection between the two, however, does not make this film a tangle of conflicts over generational differences or the impossibility of a relationship. In fact, Cha Cha Real Smooth is a very affective story that dispenses any mannerism to sound cool. In addition to being an actor, Cooper Raiff is the director and the screenwriter, facing the feature as a love story that does not follow the obvious.

Used to the small moments of any relationship — love, family or friendship —, Cha Cha Real Smooth saves good spaces for supporting actors who, even in very small roles, complement the image presented by Andrew. This is the case of the mother played by Leslie Mann, whose appearances are brief, but assertive in every observation about her son. There is also the adorable younger brother played by Evan Assante, able to see in his older brother wisdom and companionship that the leading character is not able to see in himself. And you can’t miss Vanessa Burghardt. She gives life to an autistic character who is actually played by an autistic actress, showing how representation matters.

With so many cool supporting actors orbiting the story, Cooper Raiff and Dakota Johnson are generous with all of them and, of course, with the delicate relationship they need to establish as the two leading characters. They both walk the crooked and down-to-earth paths of Andrew and Domino in their quest for what they mean to each other. Cooper oozes charisma from start to finish (I dare anyone not to want to keep Andrew in a pot and take it home) and Dakota Johnson confirms the excellent choices of her recent career, once again playing a young and beautiful mother who puts several maternal issues in discussion, as we saw a few months ago in The Lost Daughter. The chemistry between the two is passionate, but, in the end-to-end smile left by the film, I pay my biggest bow to Raiff himself, who, as an actor, director, screenwriter and producer, never makes Cha Cha Real Smooth an egotrip. Actually, it is a generous act that celebrates the beauty and melancholy of everyday human relationships.

Um comentário em “Festival de Sundance 2022: “Cha Cha Real Smooth”, de Cooper Raiff

  1. Pingback: Festival de Sundance 2022: impressões sobre o evento e sobre os filmes exibidos | Cinema e Argumento

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: