Adeus, 2021! (e com uma maravilhosa dose dupla de Olivia Colman)

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Quem pensava que 2021 seria um ano inteiramente novo se comparado a 2020 estava redondamente enganado. Embora a situação envolvendo a pandemia tenha melhorado minimamente, o mundo continuou (e continua) sofrendo com um vírus que ainda deve ficar um bom tempo entre nós. Ao meu ver, isso significa que nossas vidas continuarão sendo transformadas constantemente (e, às vezes, colocadas à prova, quando não de pernas para o ar). Por isso, sigo acreditando na resiliência como a virtude mais necessária para estes nossos tempos. É difícil fazer um balanço claro do ano quando tudo continua tão atípico e quando o mundo (e, mais especificamente, o Brasil) ainda nos atordoa com suas maluquices, mas, do meu lado, dentro do possível, 2021 valeu bastante a pena.

Como espectador, não poderia ter encerrado o ano de maneira mais interessante do que com uma dobradinha de Olivia Colman. Sou do time que considera seu Oscar por A Favorita uma preciosidade e a carreira trilhada por ela desde então uma das mais magníficas. Na TV, Olivia fez FleabagThe Crown, enquanto, no cinema, já garantiu uma segunda indicação ao Oscar pelo impressionante Meu Pai. Em 2021, agorinha aos 45 do segundo tempo, adiciona outra duas pérolas ao currículo: a minissérie Landscapersexibida no início de dezembro, e o longa-metragem A Filha Perdida, disponibilizado hoje, véspera de ano novo, na Netflix. São presentes incríveis de final de ano vindos de uma atriz que coleciona personagens singulares. Não deixem de conferir. Até 2022, queridos leitores!

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“Landscapers”, de Will Sharpe (minissérie, Sky/HBO)

This is a true story. E, logo após, apenas This is a story. Pode parecer a deixa mais simples do mundo, mas o letreiro que abre o primeiro dos quatro episódios da minissérie Landscapers diz muito sobre esse true crime que não se assemelha a qualquer outro visto nesta onda recente do “gênero” formada por produções inegavelmente espetaculares, como a minissérie brasileira O Caso Evandro (disponível na Globoplay), e outras tão inacreditáveis quanto incômodas, como The Act, antologia da Hulu que rendeu um Emmy de melhor atriz coadjuvante para a ótima Patricia Arquette.

A abertura é sugestiva não porque, assim como outros trabalhos ficcionais, Landscapers ajuste fatos para fins dramáticos, e sim porque de fato sabemos muito pouco sobre o que realmente aconteceu com Susan e Christopher Edwards, casal sentenciado a 25 anos de prisão por ter arquitetado o assassinato dos pais de Susan e depois enterrado os corpos no jardim da casa onde as vítimas viviam. Susan e Christopher esconderam este segredo por 15 anos, além de falsificarem cartas e outros documentos para indicar que os pais de Susan ainda estavam vivos, viajando pelo mundo. O casal clama inocência até os dias de hoje e sustenta uma versão onde apenas Susan teria alguma culpa, limitada à morte da mãe.

Como se não bastasse o fato das autoridades nunca terem conseguido arrancar qualquer confissão de Susan e Edwards que corroborasse a versão pela qual foram condenados, ambos são extremamente polidos, educados, afetuosos e fieis um ao outro. Vendo de fora e sem prova alguma, é difícil acreditar no que eles possam ter feito. E é por isso que estamos falando de uma true story: sem depoimentos e confissões para tomar como base, resta somente o exercício da imaginação ao roteirista Ed Sinclair, que opta pelo caminho interessante de dimensionar muito mais a relação dos protagonistas do que o crime em si. 

A gênese do relacionamento entre Susan e Christopher está no não pertencimento. Landscapers lança olhar sobre duas pessoas muito calejadas em diferentes níveis e que, quando se encontram, desobrem uma razão para viver, mesmo que em um mundo alheio à vida real, construído por eles próprios, um em que eles possam sobreviver sendo quem são. A minissérie compreende o poder da ilusão deste mundo particular ao explorar as múltiplas alternativas que ele pode apresentar para os fatos. Na cabeça de Susan e Christopher, nada é tão objetivo assim, muito menos na versão trabalhada incansavelmente pela polícia.

De certa forma, Landscapers pode ser um estudo sobre até onde um amor pode ir quanto testado. É convincente e comovente como Christopher (David Thewlis) repete o quanto ele não pode decepcionar Susan por ela ser uma pessoa muito frágil, esperando que as autoridades peguem mais leve ou sejam mais compreensíveis somente por terem essa informação. Não se trata de teatro: em tudo que Landscapers captura do cotidiano do casal, ambos se tratam com imenso carinho e respeito. O que tais sentimentos significam é outra história.

Engana-se, entretanto, quem supõe que a minissérie romantize criminosos ou procure justificativas para seus atos. É, na verdade, um outro olhar — mais complexo e provocador — para defender a ideia de que nada é tão reducionista quanto as pessoas estão acostumadas a acreditar quando se deparam com a figura de um assassino. E tudo se potencializa na dupla de atores que dá vida aos personagens. Olivia Colman e David Thewlis dão uma verdadeira aula de interpretação, com momentos impressionantes juntos ou separados em cena. Eles mergulham em todo tipo de sentimento de uma jornada que não soa condizente ou justa para o mundo paralelo dos personagens. Temos aqui nada menos do que uma construção brilhante de dois grandes atores.

O roteiro de Landscapers é o primeiro da carreira de Ed Sinclair, marido de Olivia Colman, algo bastante surpreendente tendo em vista as tantas camadas e especificidades do texto. Contudo, ele não está sozinho atrás das câmeras: a direção de Will Sharpe, realizador de carreira curta até aqui, joga com imaginação, realidade, estilo e boas ideias aproveitando elementos da paixão de Susan pelo cinema e, eventualmente, adotando uma linguagem bastante teatral para trabalhar as reconstituições do crime. Mesmo no que evoca como conclusão, há incertezas e improbabilidades em Landscapers, o que pode ser a principal razão para se encantar ou se frustrar com o resultado.

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“A Filha Perdida”, de Maggie Gyllenhaal (Netflix)

Quando confrontada sobre uma de suas tantas atitudes tomadas a partir de razões aparentemente indecifráveis, Leda (Olivia Colman) diz que ela própria não sabe explicar por que fez o que fez. Este momento é a melhor síntese possível — se é que ela pode existir — de A Filha Perdida, estreia da atriz Maggie Gyllenhaal como diretora. Durante cerca duas horas, Leda se revela uma personagem complexa, nuançada, compulsiva e imprevisível. Sem tentar necessariamente explicá-la, a adaptação do livro de Elena Ferrante propõe uma meditação sobre as múltiplas e incômodas camadas de uma protagonista em um grande entrave com seus próprios traumas — todos ainda muito vivos na personagem, traduzidos em impulsos muita vezes incompreensíveis.

Atriz talentosíssima, Maggie Gyllenhal foi ousada ao escolher A Filha Perdida como seu trabalho de estreia atrás das câmeras. Há, primeiro, toda a expectativa em cima de uma adaptação da célebre e enigmática Elena Ferrante, autora italiana cuja identidade é desconhecida do público e que colocou como condição a escolha de uma mulher para dirigir o filme na negociação da cessão dos direitos de adaptação. E, segundo, A Filha Perdida é, por si só, em sua versão cinematográfica, uma experiência enredada sentimentalmente e complexa em termos de prosa, com uma narrativa complicada de ser transposta para o cinema. É admirável a coragem de Maggie ao abraçar o projeto e, mais ainda, o seu talento para também escrever ela própria o roteiro, entrelaçando as tantas discussões propostas por Ferrante e uma estrutura de idas e vindas no tempo.

Em linhas gerais, A Filha Perdida abrange o período de férias de uma professora universitária cuja tranquilidade é abalada por memórias que vem à tona a partir de um encontro à beira-mar. Passado e presente colidem em um drama psicológico imerso em tensão, ainda que não saibamos exatamente qual. O que, para alguns, pode ser uma mera problemática da vida cotidiana, para Ferrante, é trauma. E por que as escolhas difíceis e exaustivas do nosso dia a dia não haveriam de ser? Gota a gota, o filme desembrulha uma protagonista em suas incontáveis camadas, ao ponto de toda a situação ser muito mais profunda e complexa do que imaginávamos quando o filme começou, sem precisar de engenhosidades ou grandes surpresas.

Como um homem, nunca terei qualquer noção sobre como é viver as turbulências maternas, mas fui provocado pelas discussões evocadas por A Filha Perdida sobre tudo o que não é dito ou mostrado em relação ao papel de uma mãe, especialmente no que tange as habilidades e os comportamentos cobrados pela sociedade. Trata-se de um raro (e necessário) caso de filme que dá voz inclusive a pensamentos ruins envolvendo esse momento de vida de uma mulher, algo que Lynne Ramsay, de certa maneira, já havia discutido, com semelhante teor, no poderoso Precisamos Falar Sobre o Kevin. Vale, aliás, perceber como ambos os longas abordam o incômodo materno através de simbologias bastante interessantes. Ao passo que Ramsay inunda a tela com o vermelho pulsante de tintas, cores e tomates, Gyllenhaal esmiúça, por exemplo, tudo o que pode ser interpretado a partir da função de uma boneca na vida de uma criança ou de uma figura feminina. Não por acaso, os dois longas são dirigidos por mulheres.

Assim como no livro, acompanhamos cenas pontuais da vida de Leda quando mais jovem, artifício que nem sempre funciona, seja no material original ou na adaptação. Em ambos os formatos, os flashbacks interrompem um pouco o fluxo da trama, mesmo que essenciais ao que estamos acompanhando. Talvez esse pudesse ser um ponto passível de inovação por parte de Maggie como roteirista, que, bastante reverente ao texto de Ferrante, faz ajustes pontuais na adaptações, mas nenhum fora da curva. Embora ainda não demonstre ser uma cineasta necessariamente criativa ou estética, Maggie é exímia ao construir atmosfera, munida de uma tensão constante, intrigante e que, em boa parte dos casos, não consegue nem ser ensaiada por outros tipos de filmes que necessitam dela, como os suspenses assumidos. Se esse não é um belo atestado de que encontramos uma diretora promissora, difícil saber o que é.

Por ser atriz, é muito natural que Maggie dê atenção especial ao elenco, começando por mais um trabalho extraordinário de Olivia Colman. Com uma capacidade muito natural de elevar seus próprios padrões a cada trabalho, Olivia dá um show ao assumir um papel centrado não em diálogos ou exposições, mas sim em expressões e silêncios. Leda é uma esfinge muito em função da atriz, que navega pela imprevisibilidade da personagem através de uma interpretação enigmática. Ao passo que Dakota Johnson lhe faz uma boa dupla na narrativa presente, Jessie Buckley é maravilhosa ao dar vida à versão mais jovem da protagonista. Atriz em ascensão, Buckley consegue dar o devido grau de profundidade aos flashbacks que, como já mencionado, podem soar, vez ou outra, como interrupções não tão bem sucedidas.

Pragmaticamente falando, é fácil listar os temas abordados em A Filha Perdida: maternidade, abandono, infidelidade, diferenças e semelhanças entre gerações, o efeito do tempo, traumas, remorsos… Mas ainda é pouco para se traduzir em palavras. Tão truncado quanto carregado de nuances, o longa dificilmente se define em explicações fáceis, e é o caso de experiência que, em diferentes níveis, ainda será pauta de muitas conversas. Não creio que seja papel de cineastas, autores ou artistas de qualquer natureza explicarem suas obras ou dar pitacos sobre como outras pessoas devem encarar suas obras, mas, no caso específico de A Filha Perdida, lamento muito que Elena Ferrante seja uma autora reclusa e de identidade desconhecida, pois daria tudo para saber o que ela tem a dizer sobre essa excelente adaptação.

3 comentários em “Adeus, 2021! (e com uma maravilhosa dose dupla de Olivia Colman)

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