“Pequena Mamãe” é a mais nova pérola de uma infalível Céline Sciamma

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Direção: Céline Sciamma

Roteiro: Céline Sciamma

Elenco: Joséphine Sanz, Gabrielle Sanz, Nina Meurisse, Stéphane Varupenne, Margot Abascal, Florès Cardo, Josée Schuller, Guylène Péan

França, 2021, Drama, 75 minutos

Sinopse: Nelly acaba de perder sua avó e está ajudando o pais a limpar a casa de infância de sua mãe. Ela explora a casa e o bosque ao redor. Um dia, ela conhece uma garota de sua idade construindo uma casa na árvore.

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Ainda estamos por ver algo minimamente decepcionante da cineasta francesa Céline Sciamma. Claro que sou suspeito para falar porque tenho grande admiração por seu estilo delicado, naturalista e, por vezes, imaginativo, mas Pequena Mamãe, filme assinado por ela e exibido no último Festival de Berlim reafirma essa sensação. Após o emblemático Retrato de Uma Jovem em Chamas, Sciamma volta a um tema bastante recorrente na sua filmografia: a infância, agora sob a perspectiva do luto. No centro da história, está Nelly (Josephine Sanz), uma menina de oito anos que acaba de perder a avó e tenta lidar com essa despedida através do vínculo com sua mãe. Simples na essência. Surpreendente nos detalhes.

Assim como em Tomboy, onde discutiu identidade de gênero, e no roteiro de Minha Vida de Abobrinha, em que abordou orfandade e abandono, a diretora olha para a vida adulta por meio das possibilidades e das imaginações presentes na vida infantil. E trata-se de um formato muito difícil de administrar, visto que é muito comum encontrar filmes que tratam crianças como mini-adultos ou, então, como personagens que só expressam suas angústias e contradições através de comportamentos que testam a paciência e os ouvidos da plateia. Sciamma passa longe disso, e o faz com inteligência, debruçando-se com delicadeza sobre os verdadeiros traços que orbitam essa faixa etária e fazendo com que eles sejam complexos sem perder a identidade inerente a personagens com curtas trajetórias de vida.

No caso de Pequena Mamãe, o luto fornece elementos para compreendermos a pequena Nelly, tanto na sua jornada individual quanto na relação estabelecida com uma mãe de função muito mais complexa do que aparenta. Ao abordar sentimentos decorrentes das perdas, Sciamma aproveita para explorar também o amor, a inocência e os interessantes prismas com que os pequenos enxergam o mundo. E não estamos falando de qualquer criança: a Marion de Petite Maman é especial, quase mágica, e o fato de ela eventualmente parecer um tanto mais madura do que o esperado para a sua idade é plenamente justificado com o desenrolar da trama.

Temos, portanto, um longa-metragem melancólico que encontra maturidade não na ideia de uma infância pura e simples, mas nas remanescências dela, particularmente nas de nós próprios. Feito de camadas desdobradas de maneira quase imperceptível, Pequena Mamãe pode ser uma ghost story, o retrato de um rito de passagem, uma fábula, um conto sobre como se (re)conhecer no luto e uma mistura disso tudo, o que não é problema algum para uma contadora de histórias como Sciamma. Ela cria a atmosfera ideal para que o filme se complemente e não se pulverize com suas tantas possibilidades de interpretação.

Em que pese um ponto de virada construído sem maiores surpresas, Pequena Mamãe é o caso de filme que alcança o subestimado e dificílimo feito de ser conciso em tudo que se propõe, a começar pela própria duração de meros 72 minutos. Há, no projeto, um universo rico e repleto de leituras poucas vezes encontradas em obras que acreditam na ideia de que quanto mais tudo — tempo, elenco, técnica — melhor. Com Sciamma, tudo flui naturalmente em uma experiência breve e plena em sua objetividade. Do ponto de vista formal e emotivo, a cineasta, com apenas cinco longas no currículo, já é mesmo uma grande e, até aqui, infalível referência. Estou desde já ansioso por seu próximo projeto.

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