Cinema e Argumento

Festival de Sundance 2022: impressões sobre o evento e sobre os filmes exibidos

Diretamente de Portugal, o André Sousa, do canal Disquetes e Claquetes, me convidou para falar sobre a minha experiência cobrindo pela primeira o Festival de Sundance. Na conversa, fomos desde bastidores de credenciamento e cobertura até alguns destaques da programação, como Cha Cha Real SmoothFire of LoveGood Luck to You, Leo Grande. Agradeço ao André pelo convite, e espero que vocês gostem desse bate-papo tanto quanto eu gostei. É só dar o play!

Directly from Portugal, André Sousa, from Disquetes e Claquetes channel on YouTube, invited me to talk about my experience covering the Sundance Festival for the first time. In our conversation, we went from the backstage of accreditation and coverage to some highlights of the programming, such as Cha Cha Real Smooth, Fire of Love and Good Luck to You, Leo Grande. I thank André for the invitation, and I hope you enjoy this chat as much as I did.

Os indicados ao Oscar 2022

powercampion

Jane Campion nas filmagens de Ataque dos Cães. Longa lidera as indicações ao Oscar 2022 e faz de Campion a primeira cineasta a ser indicada duas vezes na categoria de melhor direção.

Enquanto os prêmios precursores, com exceção dos indicados ao BAFTA, tentam a todo custo prever o que acontecerá no Oscar, a Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood prova que tal previsão está cada vez mais complexa de ser feita. Basta olhar a lista deste ano para entender: há, nela, um conjunto de surpresas e indicações que só o Oscar terá registrado na temporada. Tamanha diferenciação é um claro reflexo do movimento que a Academia vem fazendo nos últimos anos para diversificar seus votantes, algo que não acontece com escala e estratégia semelhantes em premiações como o Globo de Ouro e o Screen Actors Guild Awards.

Com as mudanças gradativas surtindo efeito, o Oscar tem dado holofote maior para produções língua não-inglesa (Drive My CarA Pior Pessoa do MundoMães Paralelas), rejeitado vexames (Jared Leto em Casa Gucci) e provado que, independentemente de nome, histórico ou campanha, nunca há garantia completa de indicação (Aaron Sorkin fora de roteiro por Apresentando os Ricardos, Denis Villeneuve esnobado em direção por Duna). Aliás, quando uma celebridade do calibre de Lady Gaga faz campanha desde o lançamento de um filme, é indicada a todos os prêmios e sequer chega ao Oscar, realmente podemos dizer que já temos sinais de novos tempos.

Os vencedores do Oscar 2022 serão conhecidos no dia 27 de março. Confira abaixo comentários pontuais sobre a lista e, logo em seguida, a relação completa de indicados.

– Com Amor, Sublime Amor, Steven Spielberg se torna o primeiro cineasta a ter indicações ao Oscar de melhor direção por seis décadas consecutivas. Recorde mais do que apropriado para um realizador que, aos 75 anos de idade, consegue se reinventar com um grande musical;

– Outro feito histórico é a indicação tripla para Fuga. Reconhecimento merecido para essa ótima produção lembrada em melhor filme internacional, documentário e animação;

King Richard: Criando Campeãs é o típico drama motivacional que a ala mais tradicional do Oscar costuma abraçar, mas o reconhecimento foi exacerbado até para esse padrão, já que são injustificadas as indicações nas categorias de melhor roteiro original e melhor montagem;

– Beyoncé e Billie Eilish concorrem em melhor canção original. O Oscar poderia ter abraçado ainda mais o pop com uma indicação para divertida canção de Ariana Grande em Não Olhe Para Cima;

– O Oscar está cada vez mais internacional, e não há notícia melhor do que essa. Afinal, quando poderíamos dizer, tempos atrás, que um filme japonês com três horas de duração e repleto de questões existenciais seria reconhecido em categorias como a de melhor filme, direção e roteiro adaptado? Em grande estilo, Drive My Car dá sequência ao caso de amor da Academia com o cinema oriental;

– É chocante a ausência de Aaron Sorkin por Apresentando os Ricardos na categoria de melhor roteiro original. Não pelo trabalho em si, que é um dos mais fracos de Sorkin, mas pela grife de seu nome, solenemente ignorada dessa vez;

– Quem também ficou de fora foi Jared Leto, nome misteriosamente indicado por praticamente todos os prêmios precursores por Casa Gucci. Pois o Oscar não caiu neste papo furado e ficou ao lado do Globo de Ouro;

– Nenhuma ausência, no entanto, foi mais inesperada do que a de Lady Gaga em melhor atriz. Assumidamente em campanha desde a estreia de Casa Gucci, Gaga foi a única intérprete a ser indicada a todas as premiações da temporada. Menos ao Oscar. A estatística tem precedentes: Tilda Swinton (Precisamos Falar Sobre o Kevin), Marion Cotillard (Ferrugem e Osso), Daniel Brühl (Rush) e mais alguns outros…

– Entre os coadjuvantes, surpresa total para a indicação de J.K. Simmons, que não se traduz em merecimento, uma vez que o ator tem pouco o que fazer em Apresentando os Ricardos. Outra mudança inesperada foi a exclusão de Caitriona Balfe (Belfast) para a entrada de Judi Dench pelo mesmo filme e a de Ruth Negga (Identidade) para a merecida inclusão de Jessie Buckley (A Filha Perdida);

– Não tenho apreço por Duna, mas não faz sentido Denis Villeneuve ter sido esnobado em melhor direção. Afinal, como um filme com várias indicações técnicas e lembrado em melhor filme, montagem e roteiro não emplaca seu diretor?

– Para além da liderança com 12 indicações, Ataque dos Cães consagra Jane Campion como a primeira cineasta a conseguir uma segunda indicação em melhor direção (a anterior veio em 1994 por O Piano). Ao que tudo indica até aquui, o seu favoritismo e o do filme é absoluto.


INDICADOS AO OSCAR 2022

MELHOR FILME
Amor, Sublime Amor
Ataque dos Cães
O Beco do Pesadelo
Belfast
Drive My Car
Duna
King Richard: Criando Campeãs
Licorice Pizza
Não Olhe Para Cima
No Ritmo do Coração

MELHOR DIREÇÃO
Jane Campion (Ataque dos Cães)
Kenneth Branagh (Belfast)
Paul Thomas Anderson (Licorice Pizza)
Ryûsuke Hamaguchi (Drive My Car)
Steven Spielberg (Amor, Sublime Amor)

MELHOR ATRIZ
Jessica Chastain (Os Olhos de Tammy Faye)
Kristen Stewart (Spencer)
Nicole Kidman (Apresentando os Ricardos)
Olivia Colman (A Filha Perdida)
Penélope Cruz (Mães Paralelas)

MELHOR ATOR
Andrew Garfield (Tick, Tick… BOOM!)
Benedict Cumberbatch (Ataque dos Cães)
Denzel Washington (A Tragédia de Macbeth)
Javier Bardem (Apresentando os Ricardos)
Will Smith (King Richard: Criando Campeãs)

MELHOR ATRIZ COADJUVANTE
Ariana DeBose (Amor, Sublime Amor)
Aunjanue Ellis (King Richard: Criando Campeãs)
Jessie Buckley (A Filha Perdida)
Judi Dench (Belfast)
Kirsten Dunst (Ataque dos Cães)

MELHOR ATOR COADJUVANTE
Ciarán Hinds (Belfast)
Jesse Plemons (Ataque dos Cães)
J.K. Simmons (Apresentando os Ricardos)
Kodi Smit-McPhee (Ataque dos Cães)
Troy Kotsur (No Ritmo do Coração)

MELHOR ROTEIRO ORIGINAL
Belfast
King Richard: Criando Campeãs
Licorice Pizza
Não Olhe Para Cima
A Pior Pessoa do Mundo

MELHOR ROTEIRO ADAPTADO
Ataque dos Cães
A Filha Perdida
Drive My Car
Duna
No Ritmo do Coração

MELHOR FILME INTERNACIONAL
Drive My Car (Japão)
A Felicidade das Pequenas Coisas (Butão)
Fuga (Dinamarca)
A Mão de Deus (Itália)
A Pior Pessoa do Mundo (Noruega)

MELHOR DOCUMENTÁRIO
Ascension
Attica
Fuga
Summer of Soul (… ou Quando a Revolução Não Pode Ser Televisionada)
Writing with Fire

MELHOR ANIMAÇÃO
Encanto
A Família Mitchell e a Revolta das Máquinas
Fuga
Luca
Raya e o Último Dragão

MELHOR FOTOGRAFIA
Amor, Sublime Amor
Ataque dos Cães
O Beco do Pesadelo
Duna
A Tragédia de Macbeth

MELHOR TRILHA SONORA
Ataque dos Cães
Duna
Encanto
Mães Paralelas
Não Olhe Para Cima

MELHOR CANÇÃO ORIGINAL
“Be Alive” (King Richard: Criando Campeãs)
“Dos Oruguitas” (Encanto)
“Down to Joy” (Belfast)
“No Time to Die” (Sem Tempo Para Morrer)
“Somehow You Do” (Four Good Days)

MELHOR EDIÇÃO
Ataque dos Cães
Duna
King Richard: Criando Campeãs
Não Olhe Para Cima
Tick, Tick… BOOM!

MELHOR FIGURINO
Amor, Sublime Amor
O Beco do Pesadelo
Cruella
Cyrano
Duna

MELHOR DESIGN DE PRODUÇÃO
Amor, Sublime Amor
Ataque dos Cães
O Beco do Pesadelo
Duna
A Tragédia de Macbeth

MELHOR SOM
Amor, Sublime Amor
Ataque dos Cães
Belfast
Duna
Sem Tempo Para Morrer

MELHORES EFEITOS VISUAIS
Duna
Free Guy: Assumindo o Controle
Homem-Aranha: Sem Volta Para Casa
Sem Tempo Para Morrer
Shang-Chi e a Lenda dos Dez Anéis

MELHOR MAQUIAGEM E PENTEADOS
Casa Gucci
Cruella
Duna
Os Olhos de Tammy Faye
Um Príncipe em Nova York 2

MELHOR CURTA-METRAGEM
Ala Kachuu – Take and Run
The Dress
The Long Goodbye
On My Mind
Please Hold

MELHOR CURTA-METRAGEM (ANIMAÇÃO)
Affairs of the Art
Bestia
Boxballet
Robin Robin
The Windshield Wiper

MELHOR CURTA-METRAGEM (DOCUMENTÁRIO)
Audible
Lead Me Home
The Queen of Basketball
Three Songs for Ben Azir
When We Were Bullies

Festival de Sundance 2022: “Cha Cha Real Smooth”, de Cooper Raiff

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Sucesso no Festival de Sundance, onde foi agraciado com o prêmio do público, Cha Cha Real Smooth promove um encontro entre dois personagens que, em diferentes pontos de suas vidas, compartilham um certo sentimento de desorientação. Enquanto Andrew (Cooper Raiff) chega aos 22 anos ainda tendo que compartilhar o quarto com o irmão caçula e trabalhar em um emprego qualquer porque não encontrou uma vocação, Domino (Dakota Johnson) vive dias solitários com sua filha autista enquanto o noivo, um homem que ela escolheu se relacionar para ter uma vida “adulta” e “responsável”, passa dias fora da cidade a trabalho. Quando Andrew vai a um bar mitzvá e se descobre um party starter — espécie de animador de festas —, esses dois caminhos se cruzam, dando início a uma relação tão delicada quanto impossivelmente apaixonante.

Cha Cha Real Smooth é contado do ponto de vista de Andrew, esse garoto gentil e sentimental que chega para abrilhantar a vida de uma mãe feliz com sua estabilidade, mas que carrega um desejo melancólico pela liberdade e pela novidade da juventude usufruída por Andrew. A conexão imediata entre os dois, no entanto, não faz deste filme um emaranhado de conflitos sobre diferenças geracionais ou a impossibilidade de uma relação. Na verdade, o que há em Cha Cha Real Smooth é um relato muito sensível, afetivo e que, apesar dos traço indie do cinema norte-americano, dispensa a todo momento qualquer maneirismo para soar cool. Além de ator, Cooper Raiff dirige e roteiriza o longa como uma história de amor que não trilha os caminhos imaginados no desenrolar do primeiro terço, o que é uma ótima notícia.

Afeito aos pequenos momentos de uma relação, seja ela de qualquer natureza — amorosa, familiar ou de amizade —, Cha Cha Real Smooth reserva bons espaços para coadjuvantes que, mesmo em papeis bastante pequenos, complementam a imagem apresentada de Andrew. É o caso da mãe vivida por Leslie Mann, cujas aparições são breves, mas assertivas em cada observação sobre o filho. Há também o adorável irmão caçula vivido por Evan Assante, capaz de enxergar no primogênito uma sabedoria e um companheirismo que o protagonista não é capaz de enxergar em si mesmo. E não dá para deixar em branco a presença de Vanessa Burghardt, responsável por dar vida a uma personagem autista que, de fato, é interpretada por uma atriz autista, mostrando como representatividade importa e só tem a contribuir para uma história.

Com tantos coadjuvantes bacanas orbitando a história, Cooper Raiff e Dakota Johnson são generosos com todos eles e, claro, com a relação afetiva que precisam estabelecer como os dois protagonistas. Ambos trilham os caminhos tortuosos e realistas de Andrew e Domino nessa busca pelo que eles significam um para o outro. Cooper esbanja carisma do início ao fim (desafio qualquer pessoa a não querer guardar Andrew em um potinho e levar para casa) e Dakota Johnson confirma as excelentes escolhas de sua carreira recente, mais uma vez vivendo uma mãe jovem e bonita que coloca em pauta diversas e importantes questões maternas, assim como vimos há poucos meses em A Filha Perdida. A química entre os dois é apaixonante, mas, no sorriso de ponta a ponta deixado pelo filme, faço minha maior reverência a Raiff mesmo, que, como ator, diretor, roteirista e produtor, jamais faz de Cha Cha Real Smooth uma egotrip — e sim um ato generoso que celebra a beleza e a melancolia das relações cotidianamente humanas.

Cha Cha Real Smooth review

A success at Sundance Film Festival, where it won the U.S. Dramatic Audience Award, Cha Cha Real Smooth promotes an encounter between two characters who, at different points in their lives, share a certain feeling of disorientation. While Andrew (Cooper Raiff) reaches the age of 22 sharing a room with his younger brother and workgin at a random job because he still hasn’t found a vocation, Domino (Dakota Johnson) goes through lonely days with his autistic daughter while her fiancé, a man that she chose to relate to in order to have an “adult” and “responsible” life, spends days out of town for work. When Andrew goes to a bar mitzvah and turns himself into a “party starter” — a kind of party entertainer —, these two paths cross, beginning a very special relationship.

Cha Cha Real Smooth is told from the point of view of Andrew, this gentle and sentimental boy who comes to brighten the life of a happy mother with his stability, but who carries a melancholic desire for the freedom and novelty she sees in Andrew. The immediate connection between the two, however, does not make this film a tangle of conflicts over generational differences or the impossibility of a relationship. In fact, Cha Cha Real Smooth is a very affective story that dispenses any mannerism to sound cool. In addition to being an actor, Cooper Raiff is the director and the screenwriter, facing the feature as a love story that does not follow the obvious.

Used to the small moments of any relationship — love, family or friendship —, Cha Cha Real Smooth saves good spaces for supporting actors who, even in very small roles, complement the image presented by Andrew. This is the case of the mother played by Leslie Mann, whose appearances are brief, but assertive in every observation about her son. There is also the adorable younger brother played by Evan Assante, able to see in his older brother wisdom and companionship that the leading character is not able to see in himself. And you can’t miss Vanessa Burghardt. She gives life to an autistic character who is actually played by an autistic actress, showing how representation matters.

With so many cool supporting actors orbiting the story, Cooper Raiff and Dakota Johnson are generous with all of them and, of course, with the delicate relationship they need to establish as the two leading characters. They both walk the crooked and down-to-earth paths of Andrew and Domino in their quest for what they mean to each other. Cooper oozes charisma from start to finish (I dare anyone not to want to keep Andrew in a pot and take it home) and Dakota Johnson confirms the excellent choices of her recent career, once again playing a young and beautiful mother who puts several maternal issues in discussion, as we saw a few months ago in The Lost Daughter. The chemistry between the two is passionate, but, in the end-to-end smile left by the film, I pay my biggest bow to Raiff himself, who, as an actor, director, screenwriter and producer, never makes Cha Cha Real Smooth an egotrip. Actually, it is a generous act that celebrates the beauty and melancholy of everyday human relationships.

Os indicados ao BAFTA 2022

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Com 11 indicações, Duna é o líder de indicações ao BAFTA 2022.

Não foram bem recebidas as mudanças promovidas no ano passado pelo BAFTA para diversificar sua lista de indicados após críticas severas envolvendo uma escancarada falta de representatividade. À parte indicações de fato inexplicáveis e o problema de os vencedores serem escolhidos por um sistema diferente — e que, no final das contas, cai na vala comum de outras premiações —, vi como positivos os drásticos ajustes porque eles lançam holofotes para obras pouco valorizadas no circuito e porque, ao meu ver, premiações precisam ser de alguma forma autênticas e não um mera tentativa de antecipar os indicados ao Oscar, conceito que está enraizado inclusive entre os críticos.

Também é importante lembrar que, em certa medida, o Oscar tem feito suas próprias escolhas e quebrado tradições dos prêmios precursores (A Forma da Água Green Book receberam o Oscar de melhor filme sem indicações ao SAG; Regina King foi a melhor atriz coadjuvante por Se a Rua Beale Falasse sem estar presente no BAFTA e no SAG; MoonlightSpotlight venceram Oscar de melhor filme sem vencer o PGA…). Por isso, acho que faz cada vez mais sentido analisar prêmios isoladamente, sem tratá-los como mais justos ou injustos por terem deixado de fora alguns nomes tidos como favoritos ao Oscar. Atualmente, o cenário como um todo nos dá indícios, mas não necessariamente certezas de indicações ou garantia de vitórias.

Dito isso, o BAFTA, acuado pela onda de críticas que recebeu no ano passado por incluir filmes que jamais chegariam ao Oscar (Clemência, The 40-Year Old VersionO Que Ficou Para Trás), procurou um meio termo em 2022 para contemplar tanto escolhas mais autorais quanto nomes unânimes na temporada. É particularmente corajosa (ou polêmica, dependendo do ponto de vista) a seleção de melhor atriz, onde não há indicações para Nicole Kidman (Apresentando os Ricardos), Olivia Colman (A Filha Perdida) e Kristen Stewart (Spencer). Mas como reclamar quando encontram espaço, por exemplo, para Tessa Thompson (Identidade) e Renate Reinsve (A Pior Pessoa do Mundo)?

Claro que há escolhas contraditórias (Não Olhe Para Cima como melhor filme em uma categoria com apenas cinco indicados?), o que é compensado por um ponto de equilíbrio e até por momentos de inspiração, como a lembrança para o desempenho fabuloso de Ann Dowd em Mass. Tomando certa perspectiva para ver o todo, percebe-se que a campanha tardia para Amor, Sublime Amor afetou as chances do filme, aqui esquecido em categorias como melhor filme, direção e montagem. Já Paul Thomas Anderson, outrora um diretor quase de nicho, ganha grande espaço e relevância com Licorice Pizza, o único longa-metragem a figurar nas categorias de filme, direção, roteiro e montagem do BAFTA.

Os vencedores serão conhecidos no dia 13 de março. Confira a lista de indicados:

MELHOR FILME
Ataque dos Cães
Belfast
Duna
Licorice Pizza
Não Olhe Para Cima

MELHOR FILME BRITÂNICO
After Love
Ali & Ava
Belfast
Boiling Point
Casa Gucci
Cyrano
Identidade
Noite Passada em Soho
Sem Tempo Para Morrer
Todos Estão Falando Sobre Jamie

MELHOR DIREÇÃO
Aleem Khan (After Love)
Audrey Diwan (Happening)
Jane Campion (Ataque dos Cães)
Julia Ducournau (Titane)
Paul Thomas Anderson (Licorice Pizza)
Ryûsuke Hamaguchi (Drive My Car)

MELHOR ATRIZ
Alana Haim (Licorice Pizza)
Emilia Jones (No Ritmo do Coração)
Joanna Scanlan (After Love)
Lady Gaga (Casa Gucci)
Renate Reinsve (A Pior Pessoa do Mundo)
Tessa Thompson (Identidade)

MELHOR ATOR
Adeel Akhtar (Ali & Ava)
Benedict Cumberbatch (Ataque dos Cães)
Leonardo DiCaprio (Não Olhe Para Cima)
Mahershala Ali (O Canto do Cisne)
Stephen Graham (Boiling Point)
Will Smith (King Richard: Criando Campeãs)

MELHOR ATRIZ COADJUVANTE
Ann Dowd (Mass)
Ariana DeBose (Amor, Sublime Amor)
Aunjanue Ellis (King Richard: Criando Campeãs)
Caitriona Balfe (Belfast)
Jessie Buckley (A Filha Perdida)
Ruth Negga (Identidade)

MELHOR ATOR COADJUVANTE
Ciarán Hinds (Belfast)
Jesse Plemons (Ataque dos Cães)
Kodi Smit-McPhee (Ataque dos Cães)
Mike Faist (Amor, Sublime Amor)
Troy Kotsur (No Ritmo do Coração)
Woody Norman (C’mon C’mon)

MELHOR ELENCO
Amor, Sublime Amor
Boiling Point
Duna
King Richard: Criando Campeãs
A Mão de Deus

MELHOR ROTEIRO ORIGINAL
Apresentando os Ricardos
Belfast
King Richard: Criando Campeãs
Licorice Pizza
Não Olhe Para Cima

MELHOR ROTEIRO ADAPTADO
Ataque dos Cães
Drive My Car
Duna
A Filha Perdida
No Ritmo do Coração

MELHOR FILME EM LÍNGUA NÃO-INGLESA
Drive My Car (Japão)
A Mão de Deus (Itália)
Madres Paralelas (Espanha)
Pequena Mamãe (França)
A Pior Pessoa do Mundo (Noruega)

MELHOR DOCUMENTÁRIO
Becoming Cousteau
Cow
Flee
The Rescue
Summer of Soul (…ou, Quando A Revolução Não Pode Ser Televisionada)

MELHOR ANIMAÇÃO
Encanto
A Família Mitchell e a Revolta das Máquinas
Flee
Luca

MELHOR FOTOGRAFIA
Ataque dos Cães
O Beco do Pesadelo
Duna
Sem Tempo Para Morrer
A Tragédia de Macbeth

MELHOR TRILHA SONORA
Apresentando os Ricardos
Ataque dos Cães
A Crônica Francesa
Duna 
Não Olhe Para Cima

MELHOR DESIGN DE PRODUÇÃO
Amor, Sublime Amor
O Beco do Pesadelo
A Crônica Francesa
Cyrano
Duna

MELHOR FIGURINO
O Beco do Pesadelo
A Crônica Francesa
Cruella
Cyrano
Duna

MELHOR MONTAGEM
Belfast
Duna
Licorice Pizza
Sem Tempo Para Morrer
Summer of Soul (…ou, Quando A Revolução Não Pode Ser Televisionada)

MELHOR MAQUIAGEM E PENTEADOS
Casa Gucci
Cruella
Cyrano
Duna
Os Olhos de Tammy Faye

MELHOR SOM
Amor, Sublime Amor
Duna
Um Lugar Silencioso II
Noite Passada em Soho
Sem Tempo Para Morrer

MELHORES EFEITOS VISUAIS
Duna
Free Guy: Assumindo o Controle
Ghostbusters: Mais Além
Matrix Resurrections
Sem Tempo Para Morrer

MELHOR ESTREIA BRITÂNICA 
After Love (Aleem Khan, roteiro e direção)
Boiling Point (James Cummings, roteiro; Hester Ruoff, produção)
Identidade (Rebecca Hall, roteiro e direção)
Keyboard Fantasies (Posy Dixon, direção; Liv Proctor, produção)
Vingança & Castigo (Jeymes Samuel, roteiro e direção)

MELHOR CURTA BRITÂNICO
The Black Cop
Femme
The Palace
Stuffed
Three Meetings of the Extraordinary Committee

MELHOR CURTA BRITÂNICO DE ANIMAÇÃO
Affairs of the Art
Do Not Feed the Pigeons
Night of the Living Dread

EE RISING STAR (REVELAÇÃO)
Ariana DeBose
Harris Dickinson
Lashana Lynch
Kodi Smit-McPhee
Millicent Simmonds

Festival de Sundance 2022: “Dual” e “After Yang”, dois filmes com visões díspares sobre um futuro habitado por clones e robôs

Por coincidência, dois filmes que assisti sequencialmente no Festival de Sundance convergem em temáticas. Tanto Dual, de Riley Stearns, quanto After Yang, de Kogonada, exploram realidades em que é possível comprar robôs ou encomendar clones de nós próprios. Os dois filmes se utilizam de elementos sci-fi para pensar condições e conflitos humanos, sem o desejo de criar realidades mirabolantes ou tecnológicas. Entretanto, a proximidade estaciona aí porque Dual e After Yang não se equivalem em qualidade e são separados por uma diferença abismal na maneira com quem aproveitam as boas ideias de cada uma de suas premissas.

DUAL - Still 1

No primeiro, o diretor Riley Stearns mostra o que acontece quando Sarah (Karen Gillan) recebe o diagnóstico de uma doença terminal e resolve encomendar um clone de si própria para substituí-la futuramente, assumindo o seu lugar junto à família e de modo que eles não saibam da sua condição de saúde e, claro, da sua eventual morte. O ponto de virada está na notícia de que, tempos depois, a doença de Sarah regrediu e de que ela não irá mais morrer. De imediato, a protagonista toma providências para desativar o clone já em treinamento. Tarde demais. Ele já se apropriou de muitos pontos da vida da protagonista e até conquistou afetivamente o namorado e a mãe da menina. Segundo as leis vigentes, caso o clone construa vida e consciência próprias, só há uma saída: um duelo de vida ou morte entre elas para resolver o impasse.

A atmosfera trabalhada por Stearns em Dual é eficiente, onde os tons da fotografia assinada por Michael Ragen são apropriadamente gélidos e os personagens agem com poucas emoções, o que é um excelente contraste para uma ideia de futuro que o filme constrói com realismo e com personagens que já carregam traços quase robóticos em seus comportamentos. Stearns tem bom pulso para conduzir esse estilo, e a protagonista Karen Gillan é interessante para reproduzir a tônica central do universo em questão. O ponto alto, portanto, fica com o momento em que Sarah, absorta em uma vida anestesiada, de repente percebe que seu namorado e sua mãe preferem uma outra versão sua, obrigando-a a agir com emoções, e não mais no piloto-automático.

Quando coloca a protagonista em confronto com sentimentos e situações que clamam algum tipo de reação, Dual se torna instigante e intrigante, já que o conflito central é rico ao ponto de nos colocar no lugar de Sarah e nos fazer imaginar o que ela fará com tamanha saia-justa. Só que o filme segue outro caminho quando misteriosamente transfere o foco para longa preparação física e estratégica da protagonista rumo ao tão aguardo duelo. A entrada do treinador vivido por Aaron Paul traz certa expectativa, mas a interação entre os dois não reserva surpresa alguma. A estranha decisão de escantear os conflitos existenciais para ensaiar um morno jogo de matar ou morrer é das mais inexplicáveis e termina minando até mesmo o desfecho que teria a devida potência caso Dual houvesse compreendido a verdadeira essência de sua vocação.

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O mesmo problema não está presente em After Yang, drama exibido pela primeira na mostra Um Certain Regard do Festival de Cannes e que chegou ao Festival de Sundance para uma segunda projeção. Não há dúvidas de que o diretor Kogonada, tomando como base o conto “Saying Goodbye to Yang”, lançado por Alexander Weinstein, em 2016, sabe muito bem aonde quer chegar com este longa estrelado por Colin Farrell. Ele valoriza a coesão de um filme mesmo quando a premissa é desdobrada em baixa fervura, com tom comedido e sem maiores catarses ou revelações como acontece aqui. Essa disciplina é admirável e faz a diferença em um relato que propõe reflexões existenciais e nada dispersas sobre os possíveis lados humanos de um robô.

Em After Yang, a família de Jake (Farrell) é abalada pela repentina pane sofrida por Yang, robô adquirido há muitos anos por eles e que era tratado por todos como um verdadeiro ser humano, especialmente pela filha caçula. Yang, assim como a pequena irmã, tem traços orientais e foi encomendado com tais características para que a ela, uma menina adotada, pudesse encontrar nele algum tipo de identificação. Desde muito cedo, Kogonada estabelece a consolidada relação da família, o que está ilustrado com imenso carisma em uma sequência muito divertida de créditos iniciais. A delicadeza com que ele costura os momentos daquele núcleo é outro fator preponderante para nossa compreensão e proximidade.

Kogonada nasceu em Seul, na Coreia do Sul, e foi criado em Kentucky, nos Estados Unidos, mantendo uma vida pessoal bastante privada. Ainda que radicado na América do Norte, ele traz muito do cinema oriental para After Yang, fazendo uma leitura familiar com ritmo contemplativo e de identidade extremamente humana. Não há hipérbole alguma no filme, e Kogonada dá grande valor ao estudo do comportamento dos personagens. Isso não é novidade se também dermos uma olhada rápida na carreira do diretor, que já fez incontáveis curtas e documentários em formato de ensaio, com destaque para meditações sobre diferentes trabalhos de cineastas como Ingmar Bergman, Richard Linklater and Yasujiro Ozu. Ou seja, as camadas e as entrelinhas são os verdadeiros objetos de interesse de Kogonada.

O que se apresenta em After Yang é exatamente isso: um drama de minúcias. A parte majoritária do filme se concentra nas memórias do robô-título revisitadas pelo personagem de Colin Farrell após a sua pane. Enquanto tenta consertar Yang, sabendo que ele é peça afetiva muito importante da família, Jake descobre muito mais do que o ponto de vista de Yang para o que eles já viveram juntos: o que emerge são gestos e atitudes desconhecidas do robô, incluindo histórias que ele mantinha em segredo e que, ao invés de serem tratadas como artifícios de roteiro ou como pequenas catarses, dizem muito sobre a sua humanidade. Tanto foco nas lembranças de Yang torna o filme reiterativo aqui e ali, mas revela um olhar integral e sutil sobre um futuro que cada vez mais deveria nos interessar: aquele por trás dos algoritmos e capaz de valorizar o que verdadeiramente nos conecta como seres humanos.

Two films I watched sequentially at the Sundance Film Festival converge in themes. Both Dual, by Riley Stearns, and After Yang, by Kogonada, explore realities in which it is possible to buy robots or order clones of ourselves. Both films also use sci-fi elements to think about human conditions and conflicts, without the desire to create fancy or technological realities. However, the proximity stops there because Dual and After Yang are not equivalent in quality and are separated by an abysmal difference in the way in which they take advantage of the good ideas of each of their premises.

Dual review

In Dual, director Riley Stearns shows what happens when Sarah (Karen Gillan) is diagnosed with a terminal illness and decides to order a clone of herself, taking her place with her family, who is unaware of her health condition and her eventual death. The turning point lies in the news that, some time later, Sarah’s illness regressed and that she will no longer die. Immediately, the leading character takes steps to disable the clone already in training. Too late. The clone has already dominated her life and has even affectionately won over the girl’s boyfriend and mother. According to current laws, if the clone builds its own life and consciousness, there is only one way out: a life or death duel between them.

The atmosphere created by Stearns in Dual is efficient, in which the tones of the photography signed by Michael Ragen are appropriately icy and the characters act with few emotions. This is an excellent contrast to an idea of  future that the film builds with realism and characters that already carry almost robotic traits in their behavior. Stearns has a good pulse to drive this style, and the protagonist Karen Gillan is interesting in reproducing the central tonic of the universe in question. The highlight, therefore, is the moment when Sarah, absorbed in an anesthetized life, suddenly realizes that her boyfriend and her mother prefer the clone, forcing her to act with emotions, and no longer mechanically.

By putting the main character in confrontation with feelings and situations that call for some kind of reaction, Dual becomes instigating and intriguing, since the central conflict is rich to the point of putting us in Sarah’s shoes and making us wonder what she will do with such a unique conflict. But the film follows another path when it mysteriously transfers the focus to Sarah’s physical and strategic preparation towards the long-awaited duel. The introduction of a coach played by Aaron Paul brings some expectation, but the interaction between the two does not hold any surprises. The strange decision to sideline existential discussions to rehearse an insipid game of life and death is an explicable one and ends up undermining even a conclusion that could be really efficient if Dual had understood the true essence of his vocation.

After Yang review

The same problem does not exist in After Yang, a drama shown for the first time in the Un Certain Regard section of Cannes Film Festival. There is no doubt that director Kogonada, based on the short story “Saying Goodbye to Yang”, released by Alexander Weinstein in 2016, knows very well where he wants to go with this story starring Colin Farrell. He values ​​the film’s cohesion even when the premise is unfolded at a low boil, with a measured tone and without major catharsis or revelations. This discipline is admirable and makes the difference in a plot that proposes existential reflections on the possible human behavior of a robot.

In After Yang, Jake’s family is shaken by the sudden breakdown of Yang, a robot acquired many years ago by them and treated by everyone as a real human being, especially by his youngest daughter. Yang, like the little sister, is oriental and was produced with such characteristics so that the adopted girl could identify with him. From the beginning of the script, Kogonada establishes the consolidated relationship of the family, which is illustrated with immense charisma in a very fun opening credits sequence. The delicacy used to connect the moments between those characters is another important factor for our closeness to the story.

Kogonada was born in Seoul, South Korea, and raised in Kentucky, United States, maintaining a very private personal life. Although based in North America, he brings a lot of oriental cinema to After Yang, with a contemplative rhythm and an extremely human approach. There is no exaggeration in the film, and Kogonada finds great value in the study of characters’ behavior. This doesn’t come as a surprise if we take a quick look back at the director’s career, who has made countless shorts and documentaries in essay format, highlighting meditations on filmmakers such as Ingmar Bergman, Richard Linklater and Yasujiro Ozu. In other words, the human layers are Kogonada’s real objects of interest.

The majority of the film focuses on the robot’s memories revisited by Colin Farrell’s character. As he tries to fix Yang, knowing he is a very important affection for the family, Jake discovers much more than Yang’s point of view for what they once lived together: what emerges are unfamiliar gestures and attitudes from the robot, including stories that he kept secret and that, instead of being treated as screenplay gimmicks or petty catharsis, say a lot about his humanity. So much focus on Yang’s memories makes the film reiterative here and there, but it reveals an integral and subtle look at a future that should increasingly interest us: the one behind the algorithms and capable of valuing what truly connects us as human beings.