Cinema e Argumento

Apostas para o Oscar 2022

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De tudo um pouco aconteceu na temporada de premiações deste ano: a categoria de melhor atriz mudou de favorita um punhado de vezes, não há grande clareza entre os concorrentes de roteiro adaptado e original, filmes como Belfast podem sair de mãos abanando apesar do expressivo número de indicações e até mesmo a total consagração de Duna nas categorias técnicas já não pode mais ser dada como certa. O Oscar 2022 tem muitas perguntas para responder na cerimônia de hoje, e esse clima de suspense é sempre um excelente estímulo.

Há pouquíssimas respostas certas para o bolão desta edição: coloque nesta conta apenas direção para Jane Campion (Ataque dos Cães), ator para Will Smith (King Richard: Criando Campeãs), atriz coadjuvante para Ariana DeBose (Amor, Sublime Amor), ator coadjuvante para Troy Kotsur (No Ritmo do Coração) e filme internacional para Drive My Car. De resto, categorias extremamente disputadas, e não apenas entre dois concorrentes, mas entre vários. Há ainda a potente tração que No Ritmo do Coração ganhou de última hora para a categoria de melhor filme, deixando Ataque dos Cães com a possibilidade de levar apenas o prêmio de melhor direção, algo que não acontece desde 1967, quando Mike Nichols venceu por A Última Noite de Um Homem.

É difícil diagnosticar o que de fato é tendência ou conversa de botequim, como um suposto favoritismo de Penélope Cruz em Mães Paralelas, o que seria uma vitória à la Marcia Gay Harden por Pollock, já que a atriz espanhol não concorreu em nenhum outro prêmio televisionado. Há prós e contras para todos os indicados em muitas categorias, resultado de uma temporada que raramente entrou em consenso.  E, por isso mesmo, fazer apostas apostas na edição deste ano é mais questão de intuição do que de matemática, ao contrário da maioria dos anos anteriores. Abaixo, compartilho os meus palpites, tentando prever um resultado que tem potencial para surpreender em vários aspectos. 

MELHOR FILME: Ataque dos Cães / alt: No Ritmo do Coração
MELHOR DIREÇÃO: Jane Campion (Ataque dos Cães) / alt: Steven Spielberg (Amor, Sublime Amor)
MELHOR ATRIZ: Jessica Chastain (Os Olhos de Tammy Faye) / alt: Penélope Cruz (Mães Paralelas)
MELHOR ATOR: Will Smith (King Richard: Criando Campeãs) / alt: Benedict Cumberbatch (Ataque dos Cães)
MELHOR ATRIZ COADJUVANTE: Ariana DeBose (Amor, Sublime Amor) / alt: Kirsten Dunst (Ataque dos Cães)
MELHOR ATOR COADJUVANTE: Troy Kotsur (No Ritmo do Coração) / alt: Kodi Smit-McPhee (Ataque dos Cães)
MELHOR ROTEIRO ORIGINAL: Licorice Pizza / alt: Belfast
MELHOR ROTEIRO ADAPTADO: No Ritmo do Coração / alt: A Filha Perdida
MELHOR FILME INTERNACIONAL: Drive My Car (Japão) / alt: A Pior Pessoa do Mundo (Noruega)
MELHOR ANIMAÇÃO: Encanto / alt: A Família Mitchell e a Revolta das Máquinas
MELHOR DOCUMENTÁRIO: Summer of Soul (…Ou, Quando a Revolução Não Podia Ser Televisionada) / alt: Flee – Nenhum Lugar Para Chamar de Lar

MELHOR FOTOGRAFIA: Ataque dos Cães / alt: Duna
MELHOR FIGURINO: Amor, Sublime Amor / alt: Cruella
MELHOR MONTAGEM: Ataque dos Cães / alt: tick, tick… Boom!
MELHOR TRILHA SONORA: Duna / alt: Ataque dos Cães
MELHOR CANÇÃO ORIGINAL: “No Time to Die” (Sem Tempo Para Morrer) / alt: “Be Alive” (King Richard: Criando Campeãs)

MELHOR SOM: Amor, Sublime Amor / alt: Duna 
MELHOR DESIGN DE PRODUÇÃO: Duna / alt: O Beco do Pesadelo

MELHOR MAQUIAGEM E PENTEADOS: Os Olhos de Tammy Faye / alt: Duna
MELHORES EFEITOS VISUAIS: Duna / alt: Sem Tempo Para Morrer
MELHOR CURTA-METRAGEM: The Long Goodbye / alt: Please Hold
MELHOR CURTA-METRAGEM (DOCUMENTÁRIO): The Queen of Basketball / alt: Audible
MELHOR CURTA-METRAGEM (ANIMAÇÃO): A Sabiá Sabiazinha / alt: The Windshield Whiper

Rapidamente: “Belfast”, “Mães Paralelas”, “The Novice” e “Summer of Soul”

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Isabelle Fuhrman tem desempenho excepcional no drama The Novice, que recebeu cinco indicações ao Independent Spirit Awards.

BELFAST (idem, 2021, de Kenneth Branagh): Com uma carreira mais interessante como ator do que como diretor, Kenneth Branagh, após 22 títulos atrás das câmeras, não escapou à tentação de realizar um filme autobiográfico. E, deixando de lado a discussão sobre a repetição de fórmulas habituais, Belfast é, no geral, um relato bastante desarranjado. Causa estranhamento como, mesmo adotando, em tese, o ponto de vista do jovem protagonista Buddy (Jude Hill), as memórias do diretor não parecem ter um fio condutor. Ora Belfast se empenha em tentar construir nossa conexão com as angústias da infância do protagonista, ora parece dar mais importância do que deveria a personagens orbitantes. O fator histórico da Irlanda dos anos 1960 pouco contribui para essa perspectiva pulverizada, já que acontecimentos reais são encenados e discutidos quase como um pot-pourri, embaralhados por uma montagem sem fluidez assinada por Úna Ní Dhonghaíle. Com este cenário, as generalidades de Belfast se evidenciam: não só Branagh é pouco inventivo como diretor, adotando, por exemplo, uma previsível fotografia em preto e branco que se revela mais um capricho estético do que uma ferramenta narrativa, como parece fazer um longa para si mesmo ao juntar lembranças pessoais sem que elas se entrelacem com alguma unidade ou universalidade. Belfast representa um tipo de filme que dificilmente sairá de moda — as sete indicações em categorias importantes do Oscar deste ano são uma prova disso —, mas, como sempre, novas ideias não fariam mal a ninguém.

MÃES PARALELAS (Madres Paralelas, 2021, de Pedro Almodóvar): De imediato, pensei que Dor e Glória ainda exercia uma impressão muito forte em mim, elevando minhas expectativas, mas, conforme os dias após a sessão de Mães Paralelas foram passando, a minha reação ao novo filme de Pedro Almodóvar continuava a diminuir. Não consigo encontrar nele o grande filme visto muito por muitas pessoas, muito em função de uma trama que, disposta a abarcar várias discussões, termina desfocada e com impacto reduzido. Falta consistência na linha narrativa de um filme em que até o conflito principal entre as duas mães já foi tema de novela da Globo assinada por Manoel Carlos, o que não seria um problema se o longa não levasse a trama tão a sério e se Almodóvar estivesse naquela deliciosa fervura melodramática tão representativa de seu cinema. Ao invés disso, parece haver em Mães Paralelas uma certa autocópia do diretor que já rendeu outros títulos irregulares, como Abraços Partidos e Julieta, além da introdução de elementos sem grande aderência ao filme como um todo, a exemplo das discussões políticas em cima de traumas da Guerra Civil Espanhola. Vencedora do prêmio de melhor atriz no último Festival de Veneza, Penélope Cruz acaba sendo a grande liga de Mães Paralelas. Ela há muito tempo já se tornou a musa definitiva do diretor (já são sete filme juntos desde Carne Trêmula, em 1997) e, apesar da carreira prolífera, continua a ter seus melhores momentos quando dirigida por ele e é a razão dos melhores momentos de Mães Paralelas.

THE NOVICE (idem, 2021, de Lauren Hadaway): À parte o tema da busca pela perfeição, The Novice é muito diferente de Whiplash, filme com o qual tem sido comparado. Enquanto no filme Damien Chazelle tínhamos um protagonista que chegava ao limite influenciado por um professor hiper exigente, em The Novice acompanhamos uma personagem policiada exaustivamente apenas por ela mesma. E é aí que está a grande sacada deste potente filme de Lauren Hadaway: a angústia presente na atmosfera do filme é resultado do constante estado de autocobrança de uma garota obcecada em ser a melhor da sua equipe de remo. Partindo desse enfoque, Hadaway faz observações muito pertinentes e vai contra o tão perpetuado discurso de que, para alcançar o sucesso, você deve trabalhar enquanto os outros dormem. A perfeição buscada por Alex (Isabelle Fuhrman), sem que nem ela própria saiba exatamente a razão, é vista aqui como um problema, sem glamourizações, quase como um retrato perfeito desses tempos em que querem tanto vender a cultura da chamada alta performance — cultura essa que, no frigir dos ovos, acaba fazendo com que toda uma geração sucumba à síndrome de burnout. Sensorial, The Novice tem uma trilha extraordinária assinada por Alex Weston, responsável por, assim como outros aspectos técnicos, envolver o espectador na mente inquieta e angustiada da protagonista. No entanto, é no desempenho de Isabelle Fuhrman que tudo literalmente toma corpo: seu trabalho físico é impressionante, e isso tem pouco a ver com a dedicação ao remo: através da linguagem corporal, Fuhrman traduz, no suor, nos músculos e no sangue, tudo aquilo que sua personagem não consegue verbalizar, refletir ou admitir para os outros e para ela própria. É interpretação das grandes.

SUMMER OF SOUL (…OU, QUANDO A REVOLUÇÃO NÃO PODIA SER TELEVISIONADA) [Summer of Soul (…Or, When the Revolution Could Not Be Televised), 2021, de Questlove]: Fazia tempo que não me deparava com um documentário tão cativante e potente quanto este Summer of Soul, uma verdadeira reparação das mais importantes. Nele, um pedacinho de História (com H maiúsculo mesmo) é recuperado e, por fim, devidamente reparado. Trata-se do verão em que aconteceu o Harlem Cultural Festival, em Nova York, no ano de 1969. O evento foi ofuscado por ter acontecido na mesma época de Woodstock, mas há outra razão por trás desse descaso histórico: o festival era dedicado à celebração da música e da cultura afro-americanas. Mais de 50 anos depois, Summer of Soul recupera imagens raras desse grande evento, convidando, inclusive, pessoas que nele estiveram e que apenas agora, após tanto tempo, relembram, através de imagens antes nunca usadas publicamente, a emoção de um festival tão importantes para ela — e que o mundo racista em que vivemos fez questão de atirar ao esquecimento. A emoção dessa (re)descoberta é palpável nos entrevistados, e não por menos: de Nina Simone a Stevie Wonder, passando por B.B. King e Mahalia Jackson, as performances musicais do Harlem Cultural Festival eram carregas de potência, seja pela plateia presente ou por tudo que aquele momento significava — e significa mais de meio século depois. É inspirador ver o cinema fazendo justiça através de um filme que mistura música, ritmo e sensibilidade com grande maestria.

Os vencedores do BAFTA 2022

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Ariana DeBose e seu BAFTA de melhor atriz coadjuvante por Amor, Sublime Amor: premiação britânica consagrou nomes já esperados da temporada.

Novamente provando que a mudança no sistema de seleção dos indicados não se converte em transformação no resultado de vencedores, o BAFTA consagrou hoje todos os nomes já esperados na corrida rumo ao Oscar deste ano. Dos prêmios de filme e direção para Ataque dos Cães a prêmios de interpretação como os de Will Smith (King Richard: Criando Campeãs), Ariana DeBose (Amor, Sublime Amor) e Troy Kotsur (No Ritmo do Coração), os votantes só escaparam do óbvio em categorias com circunstâncias muito específicas, a exemplo de melhor atriz, em que Joanna Scanlan (After Love) levou a estatueta sem ter qualquer indicada ao Oscar na disputa. É um momento delicado para o BAFTA, cuja personalidade mais uma vez se esvai mesmo com os novos métodos em curso para recuperar sua autenticidade de outrora ou construir um novo posicionamento.

Confira os vencedores:

MELHOR FILMEAtaque dos Cães
MELHOR FILME BRITÂNICOBelfast
MELHOR DIREÇÃO: Jane Campion (Ataque dos Cães)
MELHOR ATRIZ: Joanna Scanlan (After Love)
MELHOR ATOR: Will Smith (King Richard: Criando Campeãs)
MELHOR ATRIZ COADJUVANTE: Ariana DeBose (Amor, Sublime Amor)
MELHOR ATOR COADJUVANTE: Troy Kotsur (No Ritmo do Coração)
MELHOR ELENCOAmor, Sublime Amor
MELHOR ROTEIRO ORIGINAL: Licorice Pizza
MELHOR ROTEIRO ADAPTADONo Ritmo do Coração
MELHOR FILME EM LINGUA NÃO-INGLESA: Drive My Car (Japão)
MELHOR DOCUMENTÁRIOSummer of Soul (…ou, Quando a Revolução Não Podia Ser Televisionada)
MELHOR ANIMAÇÃOA Família Mitchell e a Revolta das Máquinas
MELHOR FOTOGRAFIA: Duna
MELHOR TRILHA SONORADuna
MELHOR DESIGN DE PRODUÇÃO: Duna
MELHOR FIGURINOCruella
MELHOR MONTAGEM: Sem Tempo Para Morrer
MELHOR MAQUIAGEM E PENTEADOSOs Olhos de Tammy Faye
MELHOR SOM: Duna
MELHORES EFEITOS VISUAISDuna
MELHOR ESTREIA BRITÂNICA: Vingança & Castigo (Jeymes Samuel, roteiro e direção)
MELHOR CURTA-METRAGEM: The Black Cop
MELHOR CURTA-METRAGEM BRITÂNICO DE ANIMAÇÃO: Do Not Feed the Pigeons
EE RISING STAR: Lashana Lynch

Melhores de 2021: “Ataque dos Cães” lidera disputa com 12 indicações

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Dirigido por Jane Campion, Ataque dos Cães é o novo recordista de indicações do blog.

Vivo sempre um misto de prazer e agonia quando chega a hora de fazer a lista de melhores do ano aqui do blog. Prazer porque é encantador imaginar esse mundo ideal onde só você dá as cartas, e angústia porque é difícil chegar a um número reduzido de selecionados quando há tantos filmes bons e aptos a entrar na lista. É um exercício que venho fazendo desde 2007 e que nunca se torna mais fácil. Não foi diferente com os filmes de 2021, que procurei condensar na lista abaixo.

No topo das indicações está o belo Ataque dos Cães, de Jane Campion, com 12 indicações, batendo o recorde até então ostentado por La La Land: Cantando Estações. O segundo mais lembrado da lista é o Amor, Sublime Amor, de Steven Spielberg, em nove categorias. À parte as estatísticas, foi um excelente ano para diferentes gêneros (há documentário, comédia, musical e drama na categoria principal), diretoras mulheres (três concorrem em melhor direção) e os mais variados estilos de interpretação (as categorias mais difíceis da lista!).

Confiram abaixo a seleção:

MELHOR FILME
Amor, Sublime Amor
Ataque dos Cães
Druk: Mais Uma Rodada
A Filha Perdida
Judas e o Messias Negro
Meu Pai
Nomadland
Quo Vadis, Aida?
Shiva Baby
Summer of Soul (Ou, Quando a Revolução Não Podia Ser Televisionada)

MELHOR DIREÇÃO
Chloé Zhao (Nomadland)
Emma Seligman (Shiva Baby)
Florian Zeller (Meu Pai)
Jane Campion (Ataque dos Cães)
Steven Spielberg (Amor, Sublime Amor)

MELHOR ATRIZ
Carrie Coon (O Refúgio)
Frances McDormand (Nomadland)
Olivia Colman (A Filha Perdida)
Rachel Sennott (Shiva Baby)
Tessa Thompson (Identidade)

MELHOR ATOR
Anthony Hopkins (Meu Pai)
Benedict Cumberbatch (Ataque dos Cães)
Daniel Kaluuya (Judas e o Messias Negro)
Lakeith Stanfield (Judas e o Messias Negro)
Mads Mikkelsen (Druk: Mais Uma Rodada)

MELHOR ATRIZ COADJUVANTE
Ariana DeBose (Amor, Sublime Amor)
Kirsten Dunst (Ataque dos Cães)
Jessie Buckley (A Filha Perdida)
Ruth Negga (Identidade)
Youn Yuh-jung (Minari: Em Busca da Felicidade)

MELHOR ATOR COADJUVANTE
David Strathairn (Nomadland)
Jesse Plemons (Ataque dos Cães)
Kodi Smit-McPhee (Ataque dos Cães)
Mike Faist (Amor, Sublime Amor)
Troy Kotsur (No Ritmo do Coração)

MELHOR ELENCO
Ataque dos Cães
Não Olhe Para Cima
No Ritmo do Coração
O Novelo
Shiva Baby

MELHOR ROTEIRO ORIGINAL
Um Animal Amarelo
Druk: Mais Uma Rodada
Judas e o Messias Negro
Uma Noite em Miami…
O Refúgio

MELHOR ROTEIRO ADAPTADO
Ataque dos Cães
A Filha Perdida
Meu Pai
Nomadland
Shiva Baby

MELHOR TRILHA SONORA
Ataque dos Cães
A Crônica Francesa
Minari: Em Busca da Felicidade
Não Olhe Para Cima
Shiva Baby

MELHOR CANÇÃO ORIGINAL
“Fight for You” (Judas e o Messias Negro)
“Just Look Up” (Não Olhe Para Cima)
“No Time to Die” (Sem Tempo Para Morrer)
“So May We Start?” (Annette)
“We Love Each Other So Much” (Annette)

MELHOR FOTOGRAFIA
Amor, Sublime Amor
Um Animal Amarelo
Ataque dos Cães
Identidade
Nomadland

MELHOR MONTAGEM
Amor, Sublime Amor
Ataque dos Cães
Meu Pai
Nomadland
Summer of Soul (Ou, Quando a Revolução Não Podia Ser Televisionada)

MELHOR SOM
Amor, Sublime Amor
Ataque dos Cães
Duna
Um Lugar Silencioso: Parte II
Summer of Soul (Ou, Quando a Revolução Não Podia Ser Televisionada)

MELHOR FIGURINO
A Crônica Francesa
Amor, Sublime Amor
Casa Gucci
Cruella
Identidade

MELHOR DESIGN DE PRODUÇÃO
Amor, Sublime Amor
A Crônica Francesa

Cruella
Duna
Meu Pai

MELHORES EFEITOS VISUAIS
Duna
Homem-Aranha: Sem Volta Para Casa
Um Lugar Silencioso: Parte II
Sem Tempo Para Morrer
Tempo

MELHOR MAQUIAGEM & PENTEADOS
Casa Gucci
A Crônica Francesa
Cruella
Identidade
Tempo

“Batman”: grande renovação ou uma retomada dos elementos que marcaram os melhores momentos do Homem-Morcego?

Let’s play a game. Just me and you.

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Direção: Matt Reeves

Roteiro: Matt Reeves e Peter Craig, baseados no personagem criado por Bill Finger e Bob Kane

Elenco: Robert Pattinson, Jeffrey Wright, Paul Dano, Zoë Kravitz, Colin Farrell, John Turturro, Andy Serkis, Peter Sarsgaard, Barry Keoghan, Max Carver, Charlie Carver, Rupert Penry-Jones, Alex Ferns, Jayme Lawson

The Batman, EUA, 2022, Ação, 175 minutos

Sinopse: Com apenas alguns aliados de confiança entre a rede corrupta de funcionários e figuras importantes da cidade, Batman (Robert Pattinson) se estabeleceu como a única personificação da vingança em Gotham City. Mas, em uma de suas investigações, acaba envolvendo o Comissário Gordon e ele mesmo em um jogo de gato e rato ao investigar uma série de maquinações sádicas e trilhas de pistas enigmáticas arquitetadas por Charada (Paul Dano). A investigação o leva a descobrir uma onda de corrupção que envolve até mesmo o nome de sua família, pondo em risco sua própria integridade e as memórias que tinha sobre seu pai, Thomas Wayne.

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Há determinados super-heróis que sobrevivem aos anos e que, levando em consideração o atual cenário, parecem fadados a receber incontáveis releituras de tempos em tempos. É o caso de Batman, que já foi gótico, estapafúrdio, realista e um mero caça-níquel. De Adam West a Ben Affleck, incluindo até mesmo uma versão em LEGO dublada por Will Arnett, o Homem-Morcego já foi interpretado no cinema por quase uma dezena de atores e dirigido por cineastas dos mais variados estilos, o que sempre me leva à seguinte pergunta toda vez que leio a notícia de que teremos um novo projeto do herói: ainda há algo de realmente novo a ser dito sobre o mascarado de Gotham City?

A resposta, na verdade, nunca será definitiva, pois ela varia em relevância de espectador para espectador. Os fãs com certeza dirão que, sim, sempre dá para explorar novos prismas de um personagem tão versátil e repleto de materiais de origem quanto Batman. Já quem não tem muito afinidade com o mundo dos quadrinhos ou dos super-heróis leva outros elementos em consideração: aqueles mais cinematográficos, oxigenados e experimentais. Como fico no segundo caso, fui para a sessão de Batman sem muitos estímulos, não só porque a péssima fase estrelada por Ben Affleck ainda é muito fresca na memória, mas também porque, ao fim da projeção, o filme de Matt Reeves me pareceu menos revolucionário do que apontam as comovidas e já esperadas reações ao resultado.

Por mais que Reeves, um sólido realizador de blockbusters, como os dois últimos Planeta dos Macacos, apresente aqui a sua visão muito própria do super-herói, não deixa de existir aquele déjà-vu de estarmos vendo de novo a introdução de um novo Batman, de uma nova Mulher-Gato, de um novo Charada, de um novo Pinguim, etc. Os eternos recomeços de franquias terminam por banalizar bastante a experiência com certos universos, e foi exatamente assim que me senti durante boa parte desta versão estrelada por Robert Pattinson. O público que consegue apertar o reset junto, realmente o faz sem concessões, pois é até estranho constatar como são amplamente elogiadas e até tidas como inovadoras algumas características de Batman que já davam as caras, de um jeito ou de outro, em versões anteriores.

Não é desmerecer as escolhas feitas por Reeves, que, como um todo, aproveitam as melhores facetas dos protagonistas, e sim refrescar a memória: tratar, por exemplo, o tom realista, a Gotham sombria e a atenção aos personagens em substituição à ação desenfreada como epifanias é basicamente esquecer o que Christopher Nolan fez, principalmente, em Batman Begins e em Batman: O Cavaleiro das Trevas. Sendo mais específico ainda: como é possível festejar a tensão física/sensual entre Batman (Robert Pattinson) e Selina Kyle (Zoë Kravitz) sem lembrar de tudo o que Michelle Pfeiffer fez como Mulher-Gato, ainda que em um projeto com tons diferentes dos abordados aqui? Reeves fez certo em abraçar tudo isso, mas, ao contrário do que sugere a polvorosa mundial, ele não inventou a roda.

A fonte de inspiração de Batman é, claro, filmes de David Fincher como Se7en e Zodíaco no que tange o tom investigativo e, por que não, a imensa duração de quase três horas. Um pouco de sutileza na reverência não faria mal ao resultado, ainda que tais referências tragam surpresas bastante agradáveis a esse reboot. Reeves é feliz, entre outras coisas, ao não explorar pela milésima vez o assassinato dos pais de Bruce Wayne e na total supressão de elementos cartunescos, permitindo que personagens como Pinguim (Colin Farell) tenham seus pés bem firmados no mundo real. Quando vê Gotham City pela ótica da investigação, dos personagens e dos demônios internos do protagonista, Batman inevitavelmente se torna mais envolvente do ponto de vista emocional.

Se o filme segue a nova moda de tornar todo blockbuster o mais escuro possível para imediatamente trazer seriedade ao visual, como se filmes de cores vibrantes ou saturadas como Mad Max: Estrada da Fúria não o fossem, por outro lado, o background dado a alguns personagens atenua essa prática visual. A melancolia do Bruce Wayne de Robert Pattinson, que, passa pelo menos dois terços do filme com o rosto mascarado, casa perfeitamente com as sombras de Gotham. O mesmo se aplica para Zoë Kravitz, cuja personagem tem boas motivações em jogo e é um excelente complemento a essa visão desesperançosa do protagonista para uma cidade nada convidativa.

Ainda na zona dos atores, Batman sabe a importância de trazer bons nomes para o projeto e dar o devido destaque a cada um deles. Nem todos personagens são essenciais à trama, o que não diminui o prazer de ver um filme de tamanha dimensão compreendendo que nomes como Paul Dano, Jeffrey Wright, Peter Sarsgaard, entre outros, não devem estar em cena apenas como curiosidade ou participações especiais. Batman é um trabalho de elenco, mesmo que Reeves, aqui e ali, não resista em dar a possibilidade para que um ou outro ator tenha sua cena isolada de brilho em detrimento do roteiro, especialmente no caso de Paul Dano, que, se não fosse o ator maravilhoso que é, teria transformado sua primeira cena frente a frente com Robert Pattinson em uma egotrip impulsionada pela vontade do longa em ecoar a vibe Coringa de Heath Ledger e Joaquin Phoenix.

Após as bobeiras dos filmes estrelados por Ben Affleck, a DC estava precisando de um filme como Batman, que pende mais para o realismo das obras de Christopher Nolan do que para o entretenimento sem muito compromisso com a qualidade. Se Reeves partiu de um briefing como esse, a modelagem está bem evidente na tela. Da fabulosa trilha de Michael Giacchino que remete ao trabalho de Hans Zimmer e James Newton Howard na trilogia de Nolan a um conceito de ação menos fantasioso, Batman reverenciando elementos marcantes de alguns dos melhores tempos do Homem-Morcego. Paralelamente, contudo, fica a sensação de uma renovação que não divide tantas águas assim. Para um primeiro filme, o resultado é mais do que satisfatório. Agora, colocá-lo à altura de clássicos noir e de diretores consagrados como William Friedkin… Aí já é outra história. Precisamos ver o que Reeves fará daqui em diante para realmente entender o que pode ser considerado como real renovação ou não.