Festival de Sundance 2022: “Dual” e “After Yang”, dois filmes com visões díspares sobre um futuro habitado por clones e robôs

Por coincidência, dois filmes que assisti sequencialmente no Festival de Sundance convergem em temáticas. Tanto Dual, de Riley Stearns, quanto After Yang, de Kogonada, exploram realidades em que é possível comprar robôs ou encomendar clones de nós próprios. Os dois filmes se utilizam de elementos sci-fi para pensar condições e conflitos humanos, sem o desejo de criar realidades mirabolantes ou tecnológicas. Entretanto, a proximidade estaciona aí porque Dual e After Yang não se equivalem em qualidade e são separados por uma diferença abismal na maneira com quem aproveitam as boas ideias de cada uma de suas premissas.

DUAL - Still 1

No primeiro, o diretor Riley Stearns mostra o que acontece quando Sarah (Karen Gillan) recebe o diagnóstico de uma doença terminal e resolve encomendar um clone de si própria para substituí-la futuramente, assumindo o seu lugar junto à família e de modo que eles não saibam da sua condição de saúde e, claro, da sua eventual morte. O ponto de virada está na notícia de que, tempos depois, a doença de Sarah regrediu e de que ela não irá mais morrer. De imediato, a protagonista toma providências para desativar o clone já em treinamento. Tarde demais. Ele já se apropriou de muitos pontos da vida da protagonista e até conquistou afetivamente o namorado e a mãe da menina. Segundo as leis vigentes, caso o clone construa vida e consciência próprias, só há uma saída: um duelo de vida ou morte entre elas para resolver o impasse.

A atmosfera trabalhada por Stearns em Dual é eficiente, onde os tons da fotografia assinada por Michael Ragen são apropriadamente gélidos e os personagens agem com poucas emoções, o que é um excelente contraste para uma ideia de futuro que o filme constrói com realismo e com personagens que já carregam traços quase robóticos em seus comportamentos. Stearns tem bom pulso para conduzir esse estilo, e a protagonista Karen Gillan é interessante para reproduzir a tônica central do universo em questão. O ponto alto, portanto, fica com o momento em que Sarah, absorta em uma vida anestesiada, de repente percebe que seu namorado e sua mãe preferem uma outra versão sua, obrigando-a a agir com emoções, e não mais no piloto-automático.

Quando coloca a protagonista em confronto com sentimentos e situações que clamam algum tipo de reação, Dual se torna instigante e intrigante, já que o conflito central é rico ao ponto de nos colocar no lugar de Sarah e nos fazer imaginar o que ela fará com tamanha saia-justa. Só que o filme segue outro caminho quando misteriosamente transfere o foco para longa preparação física e estratégica da protagonista rumo ao tão aguardo duelo. A entrada do treinador vivido por Aaron Paul traz certa expectativa, mas a interação entre os dois não reserva surpresa alguma. A estranha decisão de escantear os conflitos existenciais para ensaiar um morno jogo de matar ou morrer é das mais inexplicáveis e termina minando até mesmo o desfecho que teria a devida potência caso Dual houvesse compreendido a verdadeira essência de sua vocação.

ayangsundance

O mesmo problema não está presente em After Yang, drama exibido pela primeira na mostra Um Certain Regard do Festival de Cannes e que chegou ao Festival de Sundance para uma segunda projeção. Não há dúvidas de que o diretor Kogonada, tomando como base o conto “Saying Goodbye to Yang”, lançado por Alexander Weinstein, em 2016, sabe muito bem aonde quer chegar com este longa estrelado por Colin Farrell. Ele valoriza a coesão de um filme mesmo quando a premissa é desdobrada em baixa fervura, com tom comedido e sem maiores catarses ou revelações como acontece aqui. Essa disciplina é admirável e faz a diferença em um relato que propõe reflexões existenciais e nada dispersas sobre os possíveis lados humanos de um robô.

Em After Yang, a família de Jake (Farrell) é abalada pela repentina pane sofrida por Yang, robô adquirido há muitos anos por eles e que era tratado por todos como um verdadeiro ser humano, especialmente pela filha caçula. Yang, assim como a pequena irmã, tem traços orientais e foi encomendado com tais características para que a ela, uma menina adotada, pudesse encontrar nele algum tipo de identificação. Desde muito cedo, Kogonada estabelece a consolidada relação da família, o que está ilustrado com imenso carisma em uma sequência muito divertida de créditos iniciais. A delicadeza com que ele costura os momentos daquele núcleo é outro fator preponderante para nossa compreensão e proximidade.

Kogonada nasceu em Seul, na Coreia do Sul, e foi criado em Kentucky, nos Estados Unidos, mantendo uma vida pessoal bastante privada. Ainda que radicado na América do Norte, ele traz muito do cinema oriental para After Yang, fazendo uma leitura familiar com ritmo contemplativo e de identidade extremamente humana. Não há hipérbole alguma no filme, e Kogonada dá grande valor ao estudo do comportamento dos personagens. Isso não é novidade se também dermos uma olhada rápida na carreira do diretor, que já fez incontáveis curtas e documentários em formato de ensaio, com destaque para meditações sobre diferentes trabalhos de cineastas como Ingmar Bergman, Richard Linklater and Yasujiro Ozu. Ou seja, as camadas e as entrelinhas são os verdadeiros objetos de interesse de Kogonada.

O que se apresenta em After Yang é exatamente isso: um drama de minúcias. A parte majoritária do filme se concentra nas memórias do robô-título revisitadas pelo personagem de Colin Farrell após a sua pane. Enquanto tenta consertar Yang, sabendo que ele é peça afetiva muito importante da família, Jake descobre muito mais do que o ponto de vista de Yang para o que eles já viveram juntos: o que emerge são gestos e atitudes desconhecidas do robô, incluindo histórias que ele mantinha em segredo e que, ao invés de serem tratadas como artifícios de roteiro ou como pequenas catarses, dizem muito sobre a sua humanidade. Tanto foco nas lembranças de Yang torna o filme reiterativo aqui e ali, mas revela um olhar integral e sutil sobre um futuro que cada vez mais deveria nos interessar: aquele por trás dos algoritmos e capaz de valorizar o que verdadeiramente nos conecta como seres humanos.

Two films I watched sequentially at the Sundance Film Festival converge in themes. Both Dual, by Riley Stearns, and After Yang, by Kogonada, explore realities in which it is possible to buy robots or order clones of ourselves. Both films also use sci-fi elements to think about human conditions and conflicts, without the desire to create fancy or technological realities. However, the proximity stops there because Dual and After Yang are not equivalent in quality and are separated by an abysmal difference in the way in which they take advantage of the good ideas of each of their premises.

Dual review

In Dual, director Riley Stearns shows what happens when Sarah (Karen Gillan) is diagnosed with a terminal illness and decides to order a clone of herself, taking her place with her family, who is unaware of her health condition and her eventual death. The turning point lies in the news that, some time later, Sarah’s illness regressed and that she will no longer die. Immediately, the leading character takes steps to disable the clone already in training. Too late. The clone has already dominated her life and has even affectionately won over the girl’s boyfriend and mother. According to current laws, if the clone builds its own life and consciousness, there is only one way out: a life or death duel between them.

The atmosphere created by Stearns in Dual is efficient, in which the tones of the photography signed by Michael Ragen are appropriately icy and the characters act with few emotions. This is an excellent contrast to an idea of  future that the film builds with realism and characters that already carry almost robotic traits in their behavior. Stearns has a good pulse to drive this style, and the protagonist Karen Gillan is interesting in reproducing the central tonic of the universe in question. The highlight, therefore, is the moment when Sarah, absorbed in an anesthetized life, suddenly realizes that her boyfriend and her mother prefer the clone, forcing her to act with emotions, and no longer mechanically.

By putting the main character in confrontation with feelings and situations that call for some kind of reaction, Dual becomes instigating and intriguing, since the central conflict is rich to the point of putting us in Sarah’s shoes and making us wonder what she will do with such a unique conflict. But the film follows another path when it mysteriously transfers the focus to Sarah’s physical and strategic preparation towards the long-awaited duel. The introduction of a coach played by Aaron Paul brings some expectation, but the interaction between the two does not hold any surprises. The strange decision to sideline existential discussions to rehearse an insipid game of life and death is an explicable one and ends up undermining even a conclusion that could be really efficient if Dual had understood the true essence of his vocation.

After Yang review

The same problem does not exist in After Yang, a drama shown for the first time in the Un Certain Regard section of Cannes Film Festival. There is no doubt that director Kogonada, based on the short story “Saying Goodbye to Yang”, released by Alexander Weinstein in 2016, knows very well where he wants to go with this story starring Colin Farrell. He values ​​the film’s cohesion even when the premise is unfolded at a low boil, with a measured tone and without major catharsis or revelations. This discipline is admirable and makes the difference in a plot that proposes existential reflections on the possible human behavior of a robot.

In After Yang, Jake’s family is shaken by the sudden breakdown of Yang, a robot acquired many years ago by them and treated by everyone as a real human being, especially by his youngest daughter. Yang, like the little sister, is oriental and was produced with such characteristics so that the adopted girl could identify with him. From the beginning of the script, Kogonada establishes the consolidated relationship of the family, which is illustrated with immense charisma in a very fun opening credits sequence. The delicacy used to connect the moments between those characters is another important factor for our closeness to the story.

Kogonada was born in Seoul, South Korea, and raised in Kentucky, United States, maintaining a very private personal life. Although based in North America, he brings a lot of oriental cinema to After Yang, with a contemplative rhythm and an extremely human approach. There is no exaggeration in the film, and Kogonada finds great value in the study of characters’ behavior. This doesn’t come as a surprise if we take a quick look back at the director’s career, who has made countless shorts and documentaries in essay format, highlighting meditations on filmmakers such as Ingmar Bergman, Richard Linklater and Yasujiro Ozu. In other words, the human layers are Kogonada’s real objects of interest.

The majority of the film focuses on the robot’s memories revisited by Colin Farrell’s character. As he tries to fix Yang, knowing he is a very important affection for the family, Jake discovers much more than Yang’s point of view for what they once lived together: what emerges are unfamiliar gestures and attitudes from the robot, including stories that he kept secret and that, instead of being treated as screenplay gimmicks or petty catharsis, say a lot about his humanity. So much focus on Yang’s memories makes the film reiterative here and there, but it reveals an integral and subtle look at a future that should increasingly interest us: the one behind the algorithms and capable of valuing what truly connects us as human beings.

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