Três atores, três filmes… com Felipe Bragança

tresfbragancaJá são mais de 20 títulos entre trabalhos como diretor e roteirista, entre eles Não Devore Meu CoraçãoPraia do FuturoO Céu de Suely, Mormaço e, mais recentemente, Um Animal Amarelo, filme que tive o prazer de premiar, junto aos meus colegas de júri da crítica, como o melhor longa-metragem brasileiro do 48º Festival de Cinema de Gramado. Certamente é um currículo que atesta o quanto o carioca Felipe Bragança se tornou um dos realizadores mais interessantes da atualidade. Seu apuro estético e domínio como diretor, aliado a sua fina criatividade como roteirista, traz para esta coluna um olhar muito especial sobre a arte de interpretar, representada aqui por escolhas que transitam entre o Brasil, a Itália e os Estados Unidos, com duas grandes atrizes e um ícone do cinema nacional. Super obrigado por ter topado o convite, Felipe!


Tantas são as camadas que ligam uma personagem a um filme, suas presenças e seus recortes dentro das narrativas que optei por citar três momentos em que duas atrizes e um ator encarnaram não só um personagem, mas um filme — fizeram do filme seu corpo e vice-versa. São três dos meus atores/atrizes favoritos em todos os tempos, com quem teria uma alegria imensa de ter criado algo junto. Uma norte-americana, uma italiana e um brasileiro.

Giuletta Masina (A Estrada da Vida)
Criar uma fragilidade assim tão afiada, a ponto de conseguir conjugar encantamento e estranhamento, ternura e angústia, dentro dos mesmos gestos, é um trabalho primoroso de camadas, máscaras e afeto. Uma personagem que desmonta a realidade a seu redor não pelo que atua, mas pelo desacerto de seus gestos, de seus olhares. Masina cria um personagem que é uma peça fora da engrenagem do mundo e, ainda assim, é também todo o mundo. Precisão, ruptura e afeto. Inimitável.

Gena Rowlands (Noite de Estreia)
Minha atriz favorita de todos os tempos, com quem sonharia ter trabalhado em um filme. Gena é aqui força, desespero, firmeza, fábula, loucura, concretude e crônica cotidiana da vida de uma atriz — tudo brotando de seu corpo e de sua voz. A forma como ela consegue misturar todas essas camadas no turbilhão vivido pela personagem é de uma precisão e de uma visceralidade avassaladoras. Gena parece conseguir engolir a câmera de cinema e cuspi-la de volta, modificada.

Grande Otelo (Rio Zona Norte)
A cena em que Espírito canta seu samba para Ângela Maria e a reação que Otelo constrói com seu olhar, sorriso e corpo ao ver que sua canção foi bem recebida, essa cena, só ela, por si só, já merecia ser apresentada em looping em qualquer escola de atuação do mundo. Como pode um ator conseguir coreografar até o brilho de seus olhos? Como pode alguém conseguir modular entre a graça cômica e melancolia mais comovedora dentro de um mesmo plano, com tanta fluidez? Grande Otelo podia. E o fez. Diversas vezes ao longo de sua brilhante carreira. O maior ator brasileiro de todos os tempos, no meu sincero sentimento.

Extra: Helena Ignez
Poderosa criadora do cinema brasileiro, citada aqui não tanto por uma personagem só, mas pela rede de experimentações de cenas e gestos que ela conjuga em seus filmes e que nos abrem os olhos para o vasto mundo que nos cerca para além das regras já postas do que “se deve e que não se deve” fazer em cinema. Helena é o futuro.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: