Cinema e Argumento

Apostas para o Globo de Ouro 2019

Primeira premiação televisionada de 2019, o Globo de Ouro revelará hoje os seus vencedores, provavelmente reforçando a grande tendência da temporada deste ano em premiar filmes mais populares como Pantera Negra, Nasce Uma Estrela e Bohemian Rhapsody. Outras obras menores ou mais autorais como Roma, de Alfonso Cuarón, e A Favorita, de Yorgos Lanthimos, devem levar para causa algumas estatuetas, mas sem o mesmo protagonismo de produções que faturaram alto nas bilheterias e que, cada uma a sua maneira, tornaram-se grandes eventos junto ao público.

O movimento é interessante e necessário (premiações não podem estar alheias ao que a indústria também produz de melhor em termos de apelo popular), mas não deixa de ser estranha a mudança de comportamento agora, com títulos menos marcantes do que outros lançados em anos anteriores e que não foram devidamente celebrados por puro preconceito (é inadmissível lembrar da derrota de Mad Max: Estrada da Fúria para O Regresso ou Spotlight, por exemplo). No final das contas, parece falta de opção. Seria um indício de que essa temporada pode ser a mais desinteressante em muitos anos?

Aqui no Brasil, a cerimônia de entrega dos Globos de Ouro será transmitida pelo canal TNT, a partir das 23h (horário de Brasília). Quer saber quem tem tudo para faturar cada categoria? Então dá uma olhadinha na nossa lista de apostas:

CINEMA

MELHOR FILME DRAMA: Pantera Negra / alt: Nasce Uma Estrela
MELHOR FILME COMÉDIA/MUSICAL: A Favorita / alt: Green Book: O Guia
MELHOR DIREÇÃO: Alfonso Cuarón (Roma) / alt: Spike Lee (Infiltrado na Klan)
MELHOR ATRIZ DRAMA: Lady Gaga (Nasce Uma Estrela) / alt: Glenn Close (A Esposa)
MELHOR ATOR DRAMA: Rami Malek (Bohemian Rhapsody) / alt: Bradley Cooper (Nasce Uma Estrela)
MELHOR ATRIZ COMÉDIA/MUSICAL: Emily Blunt (O Retorno de Mary Poppins) / alt: Olivia Colman (A Favorita)
MELHOR ATOR COMÉDIA/MUSICAL: Viggo Mortensen (Green Book: O Guia) / alt: Christian Bale (Vice)
MELHOR ATRIZ COADJUVANTE: Regina King (Se a Rua Beale Falasse) / alt: Amy Adams (Vice)
MELHOR ATOR COADJUVANTE: Mahershala Ali (Green Book: O Guia) / alt: Timothée Chalamet (Querido Menino)
MELHOR ANIMAÇÃO: Homem-Aranha no Aranhaverso / alt: Ilha dos Cachorros
MELHOR FILME ESTRANGEIRO: Roma (México) / alt: Assunto de Família (Japão)
MELHOR ROTEIRO: A Favorita / alt: Vice
MELHOR CANÇÃO ORIGINAL: “Shallow” (Nasce Uma Estrela) / alt: “All the Stars” (Pantera Negra)
MELHOR TRILHA SONORA: O Primeiro Homem / alt: Pantera Negra

SÉRIES, MINISSÉRIES E TELEFILMES

MELHOR SÉRIE DRAMA: Homecoming / alt: Killing Eve
MELHOR SÉRIE COMÉDIA/MUSICAL: The Marvelous Mrs. Maisel / alt: Barry
MELHOR MINISSÉRIE/TELEFILME: Sharp Objects / alt: The Assassination of Gianni Versace: American Crime Story
MELHOR ATRIZ DRAMA: Julia Roberts (Homecoming) / alt: Sandra Oh (Killing Eve)
MELHOR ATOR DRAMA: Stephan James (Homecoming) / alt: Billy Porter (Pose)
MELHOR ATRIZ COMÉDIA/MUSICAL: Rachel Brosnahan (The Marvelous Mrs. Maisel) / alt: Kristen Bell (The Good Place)
MELHOR ATOR COMÉDIA/MUSICAL: Jim Carrey (Kidding) / alt: Michael Douglas (The Kominsky Method)
MELHOR ATRIZ EM MINISSÉRIE/TELEFILME: Amy Adams (Sharp Objects) / alt: Laura Dern (The Tale)
MELHOR ATOR MINISSÉRIE/TELEFILME: Darren Criss (The Assassination of Gianni Versace: American Crime Story) / alt: Hugh Grant (A Very English Scandal)
MELHOR ATRIZ COADJUVANTE EM SÉRIE/MINISSÉRIE/TELEFILME: Patricia Clarkson (Sharp Objects) / alt: Yvonne Strahovski (The Handmaid’s Tale)
MELHOR ATOR COADJUVANTE EM SÉRIE/MINISSÉRIE/TELEFILME: Alan Arkin (The Kominsky Method) / alt: Henry Winkler (Barry)

Melhores de 2018: “Trama Fantasma” lidera lista do Cinema e Argumento com nove indicações

Trama Fantasma é o líder de indicações na lista de melhores de 2018 do Cinema e Argumento. Concorrendo em nove categorias, o filme é seguido de perto por Você Nunca Esteve Realmente Aqui, com oito indicações.

Quando elaboradas por uma única pessoa, listas costumam ser, claro, muito particulares. Não poderia seria diferente aqui no Cinema e Argumento, quando chego agora a mais uma edição da tradicional seleção de melhores do ano. Como sempre, para organizá-la, procurei o mais alto grau de coerência e fidelidade em relação às melhores experiências que tive ao longo de 2018. Sem amarras ou concessões, a lista, antes de tudo, tem como objetivo ser esse apanhado de tudo aquilo que mais me comoveu, impactou e surpreendeu. Simples assim, sem qualquer outra lógica. Distribuídos em 18 categorias, todos os títulos selecionados estão mais mais uma vez juntos, sem distinção por nacionalidade ou gênero, como acredito que sempre deva ser em qualquer premiação.

A categoria principal, por sinal, é uma fidelíssima representação das grandes sessões que tive ao longo do ano, além de um belo resumo de tudo aquilo que mais me emociona no cinema. Em síntese, três títulos nacionais (O Animal Cordial, Benzinho e As Boas Maneiras, fazendo jus ao marcante ano vivido pela cinematografia nacional), uma grande obra assinada por um dos melhores cineastas em atividade (Trama Fantasma, do genial Paul Thomas Anderson) e uma produção altamente independente que subverte diversas convencionalidades e expectativas (Você Nunca Esteve Realmente Aqui, novo trabalho da sempre provocadora Lynne Ramsay). Dos cinco filmes selecionados, três, inclusive, levam a assinatura de mulheres na direção.

Considerando todas as categorias, Trama Fantasma lidera a lista com nove indicações (filme, direção, ator, atriz, atriz coadjuvante, roteiro original, trilha sonora, figurino e fotografia), seguido de perto por Você Nunca Esteve Realmente Aqui, que disputa oito categorias (filme, direção, ator, roteiro adaptado, montagem trilha sonora, fotografia e som). No mais, como é tradição aqui no blog, revelaremos, ao longo das próximas semanas de janeiro, os vencedores de cada segmento, com comentários e uma pequena retrospectiva de vencedores dos anos anteriores. Lembrando que o Cinema e Argumento escolhe os seus melhores do ano desde a criação do blog em 2007, e o histórico completo, categoria por categoria, pode ser conferido aqui. Fiquem abaixo com a lista completa de 2018!

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MELHOR FILME
O Animal Cordial
Benzinho
As Boas Maneiras
Trama Fantasma
Você Nunca Esteve Realmente Aqui

MELHOR DIREÇÃO
Alfonso Cuarón (Roma)
Gabriela Amaral Almeida (O Animal Cordial)
Juliana Rojas e Marco Dutra (As Boas Maneiras)
Lynne Ramsay (Você Nunca Esteve Realmente Aqui)
Paul Thomas Anderson (Trama Fantasma)

MELHOR ELENCO
O Animal Cordial
Benzinho
Infiltrado na Klan
The Post: A Guerra Secreta
As Viúvas

MELHOR ATRIZ
Charlize Theron (Tully)
Charlotte Rampling (Hannah)
Karine Telles (Benzinho)
Toni Collette (Hereditário)
Vicky Krieps (Trama Fantasma)

MELHOR ATOR
Daniel Day-Lewis (Trama Fantasma)
Joaquin Phoenix (Você Nunca Esteve Realmente Aqui)
Murilo Benício (O Animal Cordial)
Shico Menegat (Tinta Bruta)
Timothée Chalamet (Me Chame Pelo Seu Nome)

MELHOR ATRIZ COADJUVANTE
Elizabeth Debicki (As Viúvas)
Laurie Metcalf (Lady Bird: A Hora de Voar)
Lesley Manville (Trama Fantasma)
Mackenzie Davis (Tully)
Rachel McAdams (Desobiência)

MELHOR ATOR COADJUVANTE
Barry Keoghan (O Sacrifício do Cervo Sagrado)
Bruno Fernandes (Tinta Bruta)
Daniel Kaluuya (As Viúvas)
Irandhir Santos (O Animal Cordial)
Michael Stuhlbarg (Me Chame Pelo Seu Nome)

MELHOR ROTEIRO ORIGINAL
As Boas Maneiras
Benzinho
Sem Amor
Trama Fantasma
Tully

MELHOR ROTEIRO ADAPTADO
Desobediência
Infiltrado na Klan
Me Chame Pelo Seu Nome
Paddington 2
Você Nunca Esteve Realmente Aqui

MELHOR MONTAGEM
Eu, Tonya
O Processo
Roma
As Viúvas
Você Nunca Esteve Realmente Aqui

MELHOR FOTOGRAFIA
A Forma da Água
Roma

Sem Fôlego
Trama Fantasma
Você Nunca Esteve Realmente Aqui

MELHOR TRILHA SONORA
A Forma da Água
O Primeiro Homem
Sem Fôlego
Trama Fantasma
Você Nunca Esteve Realmente Aqui

MELHOR DESIGN DE PRODUÇÃO
Animais Fantásticos: Os Crimes de Grindelwald
A Forma da Água
O Retorno de Mary Poppins
Roma
Sem Fôlego

MELHOR FIGURINO
Animais Fantásticos: Os Crimes de Grindelwald
O Destino de Uma Nação
A Forma da Água
O Retorno de Mary Poppins
Trama Fantasma

MELHOR SOM
Bohemian Rhapsody
Ilha dos Cachorros
Um Lugar Silencioso
Nasce Uma Estrela
Você Nunca Esteve Realmente Aqui

MELHOR CANÇÃO ORIGINAL
“All the Stars” (Pantera Negra)
“Mystery of Love” (Me Chame Pelo Seu Nome)
“Remember Me” (Viva – A Vida é Uma Festa)
“Shallow” (Nasce Uma Estrela)
“Visions of Gideon” (Me Chame Pelo Seu Nome)

MELHORES EFEITOS VISUAIS
Jogador Nº 1
Paddington 2
Pantera Negra
O Primeiro Homem
Vingadores: Guerra Infinita

MELHOR MAQUIAGEM & PENTEADOS
O Destino de Uma Nação
Eu, Tonya
Pantera Negra

Adeus, 2018! (e as melhores cenas do ano)

Para quem ama Cinema, talvez os filmes tenham sido uma espécie de salvação em um ano extremamente complicado para o Brasil. Para mim, ao menos, eles realmente foram. Além disso, na medida do possível, entre os malabarismos exigidos pela vida adulta, vi a maioria dos títulos que eu desejava — e, apesar do baixo número de filmes conferidos em comparação a tantos outros anos, fiquei muito satisfeito com a média das minhas experiências, algo que é consequência direta do exercício cada vez mais consciente que faço de escapar daqueles filmes que, de longe, já desconfio que não podem ter resultado em coisa boa. Uma imensa parte dessas experiências está registrada aqui no blog (algumas outras ainda estou em dívida e prometo tirar o atraso o quanto antes). Aliás, mesmo com uma frequência inegavelmente menor de postagens, sempre tive o compromisso de deixar o Cinema e Argumento vivo. Ele faz parte de mim e eu não teria como mudar isso, inclusive por causa de vocês, caros leitores, que são sempre tão presentes para mim, especialmente na página do blog no Facebook. Em 2019, seguimos em frente, e logo teremos a lista de melhores do ano. Por ora, dou adeus a 2018 com a tradicional seleção das minhas cenas favoritas do ano. Nos vemos em seguida, combinado?

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#10 – “Eu sou a sua mãe!” (Hereditário)

Toni Collette como há muito tempo não víamos. Rancor e dor em uma discussão familiar que explora o que existe de melhor em Hereditário: a utilização do luto como riquíssima matéria-prima para complexidades dramáticas e para a construção do terror psicológico.

#9 – Assumindo a direção no OASIS (Jogador Nº1)

Adrenalina pura e referências de sobra tornam a primeira corrida no jogo OASIS uma experiência de tirar o fôlego. É o primeiro grande impacto desse blockbuster que está à altura do que Steven Spielberg criou em seus melhores entretenimentos para o grande público.

#8 – Abraço na praia (Roma)

Em um abraço, todo o universo de uma mulher invisível e de uma família desmantelada pelo abandono paterno. É a mais simples demonstração do afeto tornando menos solitário esse mundo que, para muitos é um desafio diário.

#7 – A dança de Pedro (Tinta Bruta)

Como encontrar cores e conexões em uma cidade que tanto insiste em julgar e afastar? Como encontrar sua própria voz quando ninguém parece ouvir? Com a dança de Pedro (Shico Menegat), no entanto, um universo de possibilidades se abre em Tinta Bruta.

#6 – Ally e Jackson cantam “Shallow” (Nasce Uma Estrela)

Duas pessoas perdidas na vida encontram na música e na existência do outro uma razão para seguir em frente. Nos palcos ou fora deles, todos nós merecemos ser protagonistas de vez em quando. É tudo o que Nasce Uma Estrela deveria ter sido como um todo.

#5 – De mãos dadas (As Boas Maneiras)

Um dos grandes momentos do cinema brasileiro em 2018, a sequência final de As Boas Maneiras é um comovente e esperançoso registro de resistência em um país afogado em intolerância e preconceito. Ninguém solta a mão de ninguém. Inclusive no cinema.

#4 – Show do Queen no Live Aid (Bohemian Rhapsody)

A arriscada (mas acertada) decisão de reproduzir uma longa apresentação musical praticamente na íntegra. Um momento que leva qualquer espectador para o centro de um momento histórico do rock mundial.

#3 – Miguel canta para a avó (Viva: A Vida é Uma Festa)

Poucas vezes tivemos, ao menos entre as animações recentes, uma sequência tão potente do ponto de vista emocional como essa em que Miguel canta para a avó em Viva. Nela, prestamos uma homenagem pessoal a tantos familiares queridos que passaram pelas nossas vidas.

#2 – Irene, a camiseta do filho e o desfile musical (Benzinho)

Testamento máximo do imenso talento dramático de Karine Teles. Uma carta de amor para as mulheres que nos criam e que diariamente levam o Brasil para frente. Um poderoso e comovente retrato da força transformadora do afeto.

#1 – Conversa entre pai e filho (Me Chame Pelo Seu Nome)

O texto mais belo do ano. Michael Stuhlbarg em estado de graça. Quando a sabedoria é passada de uma geração para a outra. A vida como um constante aprendizado, apesar da dor e dos corações partidos.

“O Retorno de Mary Poppins”: Emily Blunt brilha ao resgatar o espírito e o encantamento do clássico estrelado por Julie Andrews

Everything is possible. Even the impossible!

Direção: Rob Marshall

Roteiro: David Magee, baseado em história de autoria própria com John DeLuca e Rob Marshall, e na série de livros “Mary Poppins”, de P.L. Travers

Elenco: Emily Blunt, Lin-Manuel Miranda, Ben Whishaw, Emily Mortimer, Colin Firth, Julie Walters, Meryl Streep, Pixie Davies, Nathanael Saleh, Joel Dawson, Jeremy Swift, Kobna Holdbrook-Smith, Dick Van Dyke, Angela Lansbury

Mary Poppins Returns, EUA, 2018, Musical, 130 minutos

Sinopse: Numa Londres abalada pela Grande Depressão, Mary Poppins (Emily Blunt) desce dos céus novamente com seu fiel amigo Jack (Lin-Manuel Miranda) para ajudar Michael (Ben Whishaw) e Jane Banks (Emily Mortimer), agora adultos trabalhadores, que sofreram uma perda pessoal. As crianças Annabel (Pixie Davies), Georgie (Joel Dawson) e John (Nathanael Saleh) vivem com os pais na mesma casa de 24 anos atrás e precisam da babá enigmática e o acendedor de lampiões otimista para trazer alegria e magia de volta para suas vidas. (Adoro Cinema)

Sempre desperta desconfiança qualquer iniciativa de estúdios e diretores em mexer com clássicos. Ora, qual a razão de repaginar um projeto consagrado pelo tempo e eternizado pelo público? Tal receio não poderia ter sido diferente quando recebemos a notícia de que Mary Poppins, emblemático título da Disney estrelado por Julie Andrews na década de 1960, receberia agora, 54 anos depois, uma continuação, marcando o maior intervalo de tempo já registrado no Cinema entre um filme original e a sua sequência. Também não era muito animadora a escolha de Rob Marshall para o comando do projeto, uma vez que ele só vinha realizando títulos do mediano para baixo após a consagração com Chicago, inclusive nas vezes em que retornara ao gênero musical (ainda hoje é inacreditável que Nine tenha sido uma decepção e que Caminhos da Floresta seja uma tremenda baderna). No entanto, contornando todos os indícios, O Retorno de Mary Poppins surpreende por ser uma homenagem respeitosa e irresistivelmente nostálgica à história da babá-título que, ainda hoje, ostenta o maior número de Oscars já conquistados pela Disney por um mesmo longa (foram cinco ao total, incluindo o de melhor atriz para Julie Andrews).

O espectador, por outro lado, precisa saber no que está embarcando: assim como o primeiro longa, O Retorno de Mary Poppins é um longuíssimo musical endereçado às crianças e aos fãs do gênero. Não gosta do título original? Então a minha sugestão é que você passe longe da sequência. Entre a admiração e o desgosto, fico no meio do caminho. Primeiro porque não compartilho grande entusiasmo pelo filme de 1964 e segundo porque, mesmo sendo um fã incondicional de musicais e de histórias que flutuam em otimismo e nostalgia, considero tanto a versão clássica quanto a sequência que chega agora aos cinemas longas demais, inclusive por não haver uma história propriamente dita e sim todo tipo de brincadeira, música e maluquice (sim, muita maluquice!). Só que as barrigas se revelam mais evidentes em O Retorno de Mary Poppins porque, no geral, as músicas são pouco memoráveis (não espere aqui nada equivalente à emblemática Supercalifragilisticexpialidocious) e, em muitos casos, perfeitamente dispensáveis. Cortando três ou quatro canções, teríamos, sem prejuízo algum, uma obra menos cansativa e com um desenrolar não tão esvaziado.

Em contra partida, a talentosíssima Emily Blunt,  que recebeu a bênção de Julie Andrews para assumir o papel e que já esteve ótima este ano em Um Lugar Silencioso, compensa os excessos com uma performance encantadora. Ao mesmo tempo em que presta uma homenagem à personagem eternizada por Andrews, Blunt permite que Mary Poppins também tenha traços seus. Com graça e elegância, ela ainda canta muitíssimo bem e, generosa que só, abre alas para que seus colegas de elenco também brilhem, desde aqueles que aparecem em momentos pontuais, como a maluca prima Topsy vivida por Meryl Streep, até outros que, convenhamos, não precisavam de tanto protagonismo assim (mesmo que e seja um nome de referência na Broadway, Lin-Manuel Miranda surge sem muito carisma). A personificação de Blunt é tamanha que ela, acompanhada de um elenco de apoio super sofisticado (Ben Whishaw, Emily Mortimer, Colin Firth, Julie Walters, Dick Van Dyke, Angela Lansbury), eleva o encantamento e a inocência de O Retorno de Mary Poppins a um patamar que, apesar das cores, da nostalgia, da pureza e de todo o aparato técnico, muito provavelmente não seria alcançado sem ela.

“Tinta Bruta”: com prestigiada carreira internacional, longa gaúcho explora a busca por cores e pertencimento entre o mundo real e virtual

Tu consegue ver o teu futuro?

Direção: Filipe Matzembacher e Marcio Reolon

Roteiro: Filipe Matzembacher e Marcio Reolon

Elenco: Shico Menegat, Bruno Fernandes, Guega Peixoto, Sandra Dani, Frederico Vasques, Denis Gosh, Camila Falcão, Áurea Baptista, Zé Adão Barbosa, Larissa Sanguiné

Brasil, 2018, Drama, 118 minutos

Sinopse: O jovem Pedro (Shico Menegat) vive um momento complicado, ele responde a um processo criminal ao mesmo tempo em que precisa lidar com a mudança da irmã, sua única amiga. Como forma de catarse, ele assume o codinome GarotoNeon e passa a se apresentar anonimamente na internet dançando nu na escuridão do seu quarto, coberto apenas por uma tinta fluorescente. (Adoro Cinema)

Assim como tantas outras capitais do Brasil, a cidade de Porto Alegre, por questões majoritariamente políticas, vem definhando ano após ano. Como porto-alegrense, transito por ruas cada vez mais perigosas, pontos turísticos abandonados e espaços de convivência urbana desprezados pelo poder público, sempre tomado por um sentimento quase inexistente de acolhimento e hospitalidade. É nessa cidade desoladora que se desenvolve Tinta Bruta, novo projeto dos gaúchos Filipe Matzembacher e Marcio Reolon que chegou a vencer o prêmio Teddy no Festival de Berlim e quatro troféus no Festival do Rio (melhor filme, roteiro, ator e ator coadjuvante). Porto Alegre, que pode (e deve) ser interpretada aqui como a representação de qualquer outra grande metrópole do Brasil, ainda se torna um tanto mais aterrorizante porque Tinta Bruta tem como protagonista um introvertido menino gay cuja existência por si só é negligenciada por olhares distantes nas janelas da cidade ou agredida, de uma forma ou de outra, por colegas e desconhecidos. Tudo isso traz uma incômoda dicotomia no que se vê durante longa: ao mesmo tempo em que ele é esperançoso ao convocar o espectador para a resistência e para a reação contra o conservadorismo, não deixa de ser profundamente triste que também seja um retrato muito fiel da desassistência e da solidão que vêm assombrando as minorias em diferentes pontos do mundo.

Afeitos à geografia como fator preponderante para a construção emocional de seus personagens, Matzembacher e Reolon saem da intimidade proposta por um isolamento litorâneo em Beira-Mar para falar, dessa vez, sobre as condições de um protagonista LGBTQI+ na cidade grande e no convívio em sociedade. A dupla de diretores também migra da adolescência para a vida adulta com Pedro (Shico Menegat), que realiza performances eróticas na internet para ganhar alguns trocados enquanto lida com um processo criminal e, principalmente, com a transição de inúmeros afetos em sua vida. O isolamento e o desamparo vividos por esse garoto em uma cidade pouco convidativa são desoladores, evocando, de certa forma, o que o cineasta gaúcho José Pedro Goulart fez anos atrás em Ponto Zero, outro relato sobre um jovem solitário, de cabelos compridos e cheio de desejos que enfrenta uma Porto Alegre decisiva em sua condição e em seu comportamento. Se tenho profundas restrições ao drama Beira-Mar, o inverso acontece com Tinta Bruta, que é a melhor representação do tipo de cinema que Matzembacher e Reolon vêm realizando desde os seus tempos de curta-metragistas, quando produziram títulos como Quarto Vazio, que, segundo eles, serviu de inspiração para esse novo longa. Mais do que a profundidade e a complexidade com que esmiúça as camadas de um introvertido protagonista, Tinta Bruta se potencializa através de seu timing com os nossos tempos, e não há maior prova disso do que a forma com que os personagens são desnudados em cenas eróticas e sexuais sem qualquer pudor ou acanhamento, reforçando a tese de que não há qualquer liderança política, homofóbica e conservadora que impeça as pessoas de elas expressarem quem realmente são.

Curiosamente, ainda que embalado por uma trilha sonora vibrante e coberto em cores neon, o sexo de Tinta Bruta ultrapassa o plano meramente erótico para se tornar uma das engrenagens emocionais do filme: é apenas por meio dele que o jovem Pedro consegue se expressar e ter algum tipo de intimidade com outra pessoas, mesmo que de maneira virtual. Isolado em seu apartamento, ele pouco interage com o mundo, o que é agravado pelos afetos que saem pouco a pouco da sua vida. Da irmã que está de mudança para Bahia até os seguidores online que começam a desaparecer após a chegada de um outro garoto em cores neon no site erótico, Pedro se vê cada vez mais isolado, e é por isso mesmo que toda e qualquer demonstração de carinho ou atenção recebida por ele ganha contornos tão comoventes, como o simples abraço da avó que vem lhe fazer uma breve visita. A precisão desse contraste é fundamental porque certas relações que o jovem estabelece são decisivas para a consistência emocional de Tinta Bruta, em especial a de Pedro com Leo, o garoto que passa a copiar o seu trabalho virtualmente. Ao invés de apenas tornar Leo uma nova figura que entra na vida do protagonista para depois arrancar um pouquinho mais da esperança do seu coração com algum tipo de despedida, Matzembacher e Reolon traduzem essa nova relação como uma experiência de extremo aprendizado para Pedro, que se permite desabrochar para a vida ao lado de quem até então considerava uma mera concorrência. A convivência entre os dois é um dos pontos altos da história e ilumina uma gama de (in)definições envolvendo os relacionamentos contemporâneos.

Pedro e Leo se tornam tão críveis e envolventes porque Shico Menegat e Bruno Fernandes, seus respectivos intérpretes, são duas revelações em termos de interpretação. Estreante no ofício, Shico particularmente impressiona: dar vida um personagem de carga dramática tão intensa e interiorizada logo em um primeiro filme não é tarefa fácil, mas o ator surpreende na construção minuciosa do personagem, inclusive na tradução de vislumbres de felicidade, quando, por exemplo, Pedro observa, em um misto de curiosidade e fascínio, a dinâmica livre e espontânea de Leo com seus amigos, algo que até então parecia impossível nas ruas e no íntimo de uma cidade que nunca lhe proporcionou algo semelhante. Dito isso, Tinta Bruta mistura sexualidade (e consequentemente a quebra do tabu da nudez e do corpo masculino) com os dilemas de uma juventude que não sabe muito bem o que sentir ou para onde ir (todos os personagens dizem viver em uma espécia um purgatório e que não sentem que aquele é o lugar onde deveriam estar), propondo mais do que uma mensagem de resistência, mas sim de reação — e, na época nefasta que atravessamos, isso pode significar desde a coragem de não receber qualquer tipo de violência com passividade até simplesmente dançar como se ninguém estivesse olhando em uma noite qualquer.