Cinema e Argumento

Os indicados ao Screen Actors Guild Awards 2019

Emily Blunt em O Retorno de Mary Poppins: atriz entra para o seleto grupo de atrizes que conseguiram dupla indicação nas categorias de Cinema do Screen Actors Guild Awards.

Com uma enxurrada de surpresas, o Screen Actors Guild Awards divulgou hoje a lista de indicados para a sua edição comemorativa de 25 anos. Votado exclusivamente por atores, o prêmio é um importante termômetro para o Oscar, visto que uma significativa parte do colegiado que escolhe os vencedores da distinção outorgada pela Academia são atores. Por isso mesmo, não há dúvidas de que Lady Gaga e Nasce Uma Estrela chegam mesmo com força total na temporada (uma cantora emplacar reconhecimento entre atores profissionais é a prova cabal desse prestígio) e que filmes mais populares como Pantera Negra e Bohemian Rhapsody têm tudo para estar estar entre os indicados ao Oscar de melhor filme, dadas as suas indicações a melhor elenco aqui.

No caminho oposto temos Vice, que emplacou lembranças para Amy Adams em coadjuvante (agora aparente favorita após a surpreendente exclusão de Regina King por Se a Rua Beale Falasse) e para Christian Bale em melhor ator, mas não para o elenco na categoria principal. Queridinha do SAG, Viola Davis, que já acumula cinco prêmios do Sindicato, não foi lembrada por As Viúvas, o que comprova de uma vez por todas a baixa do filme de Steve McQueen na temporada. Outra surpresa foi Nicole Kidman ter ficado de fora: se não fosse como protagonista por O Peso do Passado, era de se esperar que ela levasse uma indicação como coadjuvante por Boy Erased: Uma Verdade Anulada.

Considerando séries, minisséries e telefilmes, o SAG costuma ter prestígio extra também pelo fato de não estabelecer prêmios separados para coadjuvantes, que que podem ser considerados na mesma medida que os protagonistas nas categorias de melhor ator ou atriz. E é por isso mesmo que as indicações de Patricia Clarkson (Sharp Objects), Penélope Cruz (The Assassination of Gianni Versace: American Crime Story) e Joseph Fiennes (The Handmaid’s Tale) soam exageradas: não apenas eles não seriam os melhores concorrentes como coadjuvantes por si só como jamais mereciam competir com desempenhos de maiores dimensões, como o do próprio Darren Criss em The Assassination of Gianni Versace. Por outro lado, todos os aplausos do mundo para o SAG ao trazer o devido reconhecimento a Ozark, uma das pérolas da Netflix que pouca gente assiste e que tem um dos grandes desempenhos do ano: o de Julie Ganrer como a tempestuosa e trágica Ruth Langmore, aqui merecidamente equiparada com a colega Laura Linney em melhor atriz.

Mesmo assim, a maior estrela dessa edição do SAG é Emily Blunt, que conseguiu um feito pouco usual: uma indicação dupla nas categorias de Cinema. Como coadjuvante, concorre por Um Lugar Silencioso, onde está ótima em um filme de terror, gênero que costuma ser solenemente ignorado pelos prêmios (Toni Collette, por Hereditário, vem sendo prejudicada por isso). Já como protagonista, emplaca com uma das grandes surpresas dessa temporada: O Retorno de Mary Poppins, musical dirigido por Rob Marshall que vem sendo amplamente abraçado pela crítica. A classificação de coadjuvante por Um Lugar Silencioso é absurda, e se Blunt levará ou não para casa uma das estatuetas é outra história, mas só a dupla indicação já traz um valioso reconhecimento a essa intérprete que já esteve digna de nota em filmes como Sicario: Terra de Ninguém, O Diabo Veste Prada, A Jovem Rainha Victoria, Meu Amor de Verão e até no péssimo A Garota no Trem, mas que nunca chegou ao Oscar.

Os vencedores do Screen Actors Guild Awards 2019 serão conhecidos no dia 27 de janeiro. Fique abaixo com a lista completa de indicados:

CINEMA

MELHOR ELENCO
Bohemian Rhapsody
Infiltrado na Klan
Nasce Uma Estrela
Pantera Negra
Podres de Ricos

MELHOR ATRIZ
Emily Blunt (O Retorno de Mary Poppins)
Glenn Close (A Esposa)
Lady Gaga (Nasce Uma Estrela)
Melissa McCarthy (Poderia Me Perdoar?)
Olivia Colman (A Favorita)

MELHOR ATOR
Bradley Cooper (Nasce Uma Estrela)
Christian Bale (Vice)
John David Washington (Infiltrado na Klan)
Rami Malek (Bohemian Rhapsody)
Viggo Mortensen (Green Book: O Guia)

MELHOR ATRIZ COADJUVANTE
Amy Adams (Vice)
Emily Blunt (Um Lugar Silencioso)
Emma Stone (A Favorita)
Margot Robbie (Duas Rainhas)
Rachel Weisz (A Favorita)

MELHOR ATOR COADJUVANTE
Adam Driver (Infiltrado na Klan)
Mahershala Ali (Green Book: O Guia)
Richard E. Grant (Poderia Me Perdoar?)
Sam Elliott (Nasce Uma Estrela)
Timothée Chalamet (Querido Menino)

 

SÉRIES, MINISSÉRIES E TELEFILMES

MELHOR ELENCO EM DRAMA
The Americans
Better Call Saul
The Handmaid’s Tale
This is Us
Ozark

MELHOR ELENCO EM COMÉDIA
Atlanta
Barry
Glow
The Kominsky Method
The Marvelous Mrs. Maisel

MELHOR ATRIZ EM DRAMA
Elisabeth Moss (The Handmaid’s Tale)
Julia Garner (Ozark)
Laura Linney (Ozark)
Robin Wright (House of Cards)
Sandra Oh (Killing Eve)

MELHOR ATOR EM DRAMA
Bob Odenkirk (Better Call Saul)
Jason Bateman (Ozark)
John Krasinski (Jack Ryan)
Joseph Fiennes (The Handmaid’s Tale)
Sterling K. Brown (This is Us)

MELHOR ATRIZ EM COMÉDIA
Alex Borstein (The Marvelous Mrs. Maisel)
Alison Brie (GLOW)
Jane Fonda (Grace and Frankie)
Lily Tomlin (Grace and Frankie)
Rachel Brosnahan (The Marvelous Mrs. Maisel)

MELHOR ATOR EM COMÉDIA
Alan Arkin (The Kominsky Method)
Bill Hader (Barry)
Henry Winkler (Barry)
Michael Douglas (The Kominsky Method)
Tony Shalhoub (The Marvelous Mrs. Maisel)

MELHOR ATRIZ  EM MINISSÉRIE/TELEFILME
Amy Adams (Sharp Objects)
Emma Stone (Maniac)
Patricia Arquette (Escape at Dannemora)
Patricia Clarkson (Sharp Objects)
Penélope Cruz (The Assassination of Gianni Versace: American Crime Story)

MELHOR ATOR EM MINISSÉRIE/TELEFILME
Anthony Hopkins (King Lear)
Antonio Banderas (Genius: Picasso)
Bill Pullman (The Sinner)
Darren Criss (The Assassination of Gianni Versace: American Crime Story)
Hugh Grant (A Very English Scandal)

“As Viúvas”: certeiro ao renegar definições e ao criar atmosfera própria, filme de Steve McQueen fraciona potência dramática em excessos

No one thinks we have the balls to pull this off.

Direção: Steve McQueen

Roteiro: Gillian Flynn e Steve McQueen, baseado no romance homônimo de Lynda La Plante

Elenco: Viola Davis, Elizabeth Debicki, Michelle Rodriguez, Colin Farrell, Daniel Kaluuya, Robert Duvall, Cynthia Erivo, Liam Neeson, Carrie Coon, Jackie Weaver, Jon Bernthal, Brian Tyree Henry, Manuel Garcia-Rulfo

Widows, EUA/Reino Unido, 2018, Drama/Policial, 129 minutos

Sinopse: Um assalto frustrado faz com que Harry Rawlins (Liam Neeson) e sua gangue sejam mortos pela polícia e o dinheiro que roubaram seja destruído pelas chamas. Isto faz com que a viúva de Harry, Veronica (Viola Davis), seja cobrada para que a quantia roubada seja devolvida. Pressionada, ela encontra um caderno de anotações de Harry que prevê em detalhes aquele que seria seu próximo golpe. Veronica então decide realizar o roubo, tendo a ajuda das demais viúvas dos mortos no assalto frustrado. (Adoro Cinema)

As Viúvas não é exatamente o que você espera, e talvez tenha sido essa a intenção do cineasta Steve McQueen. Em seu primeiro trabalho após a consagração de 12 Anos de Escravidão no Oscar, ele promove uma assumida mistura de gêneros e estilos: não somente As Viúvas está muito longe de ser um mero relato sobre mulheres que orquestram um grande assalto como também renega qualquer traço do dramalhão que poderia nascer de uma história sobre esposas que perdem os maridos mafiosos em um confronto fatídico com a polícia. Aliás, McQueen, que escreveu o roteiro ao lado de Gillian Flynn (Garota Exemplar), prefere encarar o luto com certa distância e frieza, uma vez que Veronica, a protagonista interpretada por Viola Davis, sequer tem tempo para sofrer: no mesmo dia do velório, ela já recebe a visita de um homem perigoso que exige receber os dois milhões de dólares perdidos no ataque da polícia aos falecidos mafiosos. A partir disso, As Viúvas mistura dramas pessoais, ironia, política, crítica social e adrenalina, compondo um relato cuja maior força é, justamente, não ter estilo algum, o que é no mínimo uma provocação para plateias que costumam se incomodar com qualquer dose de indefinição ou imprevisibilidade.

Subversivo no sentido de criar uma história onde mulheres estão na linha de frente de um serviço essencialmente masculino (e retratado pelo Cinema da mesma maneira), As Viúvas é um primor em termos de representatividade, começando pela protagonista, uma mulher negra que, mesmo sabendo, nunca se envolveu com os atos ilícitos de seu marido branco, construindo uma carreira própria e bem sucedida (isso é o que acusa cada look elegantíssimo que Viola Davis, nunca tão bem fotografada, ostenta entre uma cena e outra). Mais uma viúva da trama, a latina vivida por Michelle Rodriguez se preocupa, mas não entra em colapso ao ver ruir o negócio que administrava e até então dava como certo. Pelo contrário: por ser mãe em uma nova condição não tão favorável, ela vai à luta e é a primeira a seguir toda ordem disparada pela personagem de Viola Davis. Já a esguia Alice interpretada por Elizabeth Debicki carrega um perceptível histórico de abuso familiar e matrimonial, mas, aos poucos, começa a juntar forças que ela própria não imaginava ter para, de sua própria maneira, conseguir se desvencilhar dos vícios e malefícios trazidos por esses traumas. Por incrível que pareça, ainda em 2018, é importante festejar decisões como essas quando elas deveriam ser perfeitamente  corriqueiras na maioria esmagadora das produções que vemos ao longo dos anos.

Ao renegar escolhas convencionais quando retrata o processo de luto, As Viúvas ganha em sobriedade, inclusive criando uma atmosfera gélida que casa com a ameaça e a instabilidade da sociedade corrompida e calejada que procura retratar. Tanto essa contextualização dá certo que o longa parece no mínimo artificial, para não dizer novelesco, quando tenta criar alguma passagem mais calorosa, como aquela em que a personagem de Viola Davis coloca Wild is the Wind, da icônica Nina Simone, para tocar e imagina um abraço do falecido marido ao ver seu reflexo da janela da sala. É buscando a sobriedade que McQueen cria os melhores momentos de As Viúvas, quase como se quisesse criar um certo distanciamento de 12 Anos de Escravidão, longa onde não poupou sofrimento, sangue e violência ao falar sobre racismo e escravidão. Para quem desejava algo na linha do premiado filme estrelado por Chiwetel Ejiofor ou até mesmo algo mais comercial como o recente Oito Mulheres e Um Segredo por se tratar de uma história de roubo, o resultado pode ser deveras anti-climático, o que, ao meu ver, nada mais é do que uma grata surpresa.

Há, contudo, um certo estranhamento, dessa vez bem menos interessante, que é o de uma trama fracionada em uma grande quantidade de situações e personagens. Temos uma protagonista conduzindo a história, mas, em muitos casos, ela divide praticamente o mesmo tempo de tela entre com os outros personagens. Alguns deles são interessantíssimos, enquanto outros desapontam por estarem quase em um relato a parte, a exemplo do político interpretado sem muita energia ou criatividade por Colin Farell. Com isso, As Viúvas não constrói necessariamente uma unidade e acaba se embolando, como se prometesse um clímax engenhoso pra amarrar tantas jornadas paralelas. E mais: com o meio de campo tão lotado, há pouco aproveitamento de excelentes intérpretes, tanto masculinos quanto femininos, a exemplo da grande Carrie Coon, cujo potencial testemunhamos durante três anos do seriado The Leftovers. Nesse balanço irregular, os acertos são preciosos: Viola Davis traz sua intensidade de sempre para uma mulher que se vê obrigada a colocar a razão antes de qualquer emoção, Daniel Kaluuya surge com uma energia macabra como um criminoso que exala perigo e Elizabeth Debicki se destaca pela delicadeza com que tateia o reerguimento de uma mulher bastante fragilizada do ponto de vista emocional.

Como um exemplar mais sofisticado de tantos filmes de suspense que se eternizaram nas madrugadas da TV aberta, As Viúvas traz a sua boa dose de reviravoltas e revelações. Prepare-se para ver personagens virando a casaca, surpresas de última hora em situações decisivas, coadjuvantes se revelando mais fundamentais para o encaixe das pessoas do que se poderia supor e até mesmo o clássico disparo de revólver que, na verdade, não foi feito por quem o longa nos sugeriu. Quando se encaminha para o desfecho, As Viúvas traz plot twists e explicações de maneira equivalente ao seu número de personagens, o que fragiliza um tanto mais o roteiro, pois não há tempo hábil para encorpar certas reviravoltas que mereciam mais digestão e construção de atmosfera. Como exercício de direção, o longa se engrandece muito mais, e por isso mesmo o descompasso é sentido. Na dificuldade em ser conciso (até chegar a sua versão final, o primeiro corte teria registrado, segundo o próprio McQueen, um filme de três horas de duração), As Viúvas fragiliza uma potência madura e envolvente que, sejamos francos, é sempre muito difícil de ser encontrada por aí. 

Os indicados ao Globo de Ouro 2019

Se a Rua Beale Falasse, de Barry Jenkins, é um dos três títulos dirigidos por cineastas negros que concorrem ao Globo de Ouro 2019 de melhor filme dramático.

Se os prêmios outorgados pelas associações de críticos servem mais para colocar no radar uma primeira leva de filmes que podem pipocar na temporada pelos próximos meses, prêmios televisionados como o Globo de Ouro chegam para organizar o meio de campo e finalmente traçar possibilidades mais concretas para a temporada de premiações. Foi o que vimos hoje na lista apresentada pela Hollywood Foreign Press, que ontem também anunciou Andy Samberg e Sandra Oh como os apresentadores de sua próxima edição.

Uma conclusão é clara com a lista: as comédias chegam com uma disputa infinitamente mais interessante este ano, enquanto, nos dramas, parece bastante provável que o Globo de Ouro estrague a festa de três ótimos realizadores negros (Ryan Coogler com Pantera Negra, Barry Jenkins com Se a Rua Beale Falasse e Spike Lee com Infiltrado na Klan) ao se entregar à exacerbada comoção cultivada por Nasce Uma Estrela nos últimos meses. Aliás, com Roma fora da disputa em em melhor drama (o filme não pode concorrer devido a uma absurda regra do Globo de Ouro que impede produções estrangeiras de figurarem categoria principal), a disputa se torna ainda menos encorpada.

Chegando como uma grande favorita ao Oscar, Glenn Close emplacou sua esperada indicação como melhor atriz por A Esposa, mas, a exemplo do que aconteceu no Oscar de 1988 quando perdeu para Cher em Feitiço da Lua, a veterana pode ter mais uma cantora pop no caminho de sua aguardada consagração: Lady Gaga, que já tem um Globo de Ouro em casa pelo seriado American Horror Story (e nunca é prudente duvidar do amor dos votantes por uma grande estrela). Seguindo nas interpretações, não deixam de ser sentidas as ausências de Ethan Hawke (No Coração da Escuridão) e Toni Collette (Hereditário), que vivem uma boa fase entre os críticos (mais uma prova de que prêmios televisionados são um assunto à parte). Hawke, aliás, pode muito bem ser substituído, em um cenário geral daqui para frente, por Lucas Hedges, indicado a melhor ator por sua interpretação em Boy Erased: Uma Verdade Anulada.

Surpreendentemente, a briga é acirrada entre as comédias, cuja lista endossou até mesmo o excelente momento vivido por O Retorno de Mary Poppins, que chegou aos 45 do segundo tempo com excelente repercussão e uma recente menção no TOP 10 do ano promovido pelo American Film Institute. Ainda que equivocada na classificação de gênero, a maravilhosa performance de Charlize Theron em Tully é outra preciosa lembrança da lista. Time dos bons também nas canções originais (escritas, entre outros, por Lady Gaga, Troye Sivan, Dolly Parton e Kendrick Lamar) e nos indicados a trilha sonora (incluindo a ótima trilha de Justin Hurwitz para O Primeiro Homem, drama de Damien Chazelle que, no geral, foi solenemente ignorado).

Para quem acompanha seriados, o Globo de Ouro fez a sua miscelânea habitual pontuando algumas novas temporadas de programas já consagrados (a fresquíssima segunda temporada de The Marvelous Mrs. Maisel já se qualificou para essa lista!) e outros programas que fizeram sua estreia nos últimos meses (e que mal ouvimos falar), como é o caso de Kidding, série que repete a parceria entre Jim Carrey e o diretor Michel Gondry (Brilho Eterno de Uma Mente Sem Lembranças).

Além da lista de indicados, o Globo de Ouro anunciou a criação de um novo prêmio honorário, dessa vez voltado para os profissionais de TV. “Os homenageados serão selecionados com base em suas realizações e na influência e impacto que suas carreiras trouxeram para a indústria e para o público”, adiantou Meher Tatna, presidente da Hollywood Foreign Press. O agraciado desta edição será revelado futuramente. Lembrando que o Globo de Ouro 2019 acontece no dia seis de janeiro. Confira abaixo a lista completa de indicados:

CINEMA

MELHOR FILME DRAMA
Bohemian Rhapsody

Infiltrado na Klan
Nasce Uma Estrela
Pantera Negra

Se a Rua Beale Falasse

MELHOR FILME COMÉDIA/MUSICAL
A Favorita
Green Book: O Guia
Podres de Ricos

O Retorno de Mary Poppins
Vice

MELHOR DIREÇÃO
Adam McKay (Vice)

Alfonso Cuaron (Roma)
Bradley Cooper (Nasce Uma Estrela)
Peter Farrelly (Green Book: O Guia)
Spike Lee (Infiltrado na Klan)

MELHOR ATRIZ DRAMA
Glenn Close (A Esposa)

Lady Gaga (Nasce Uma Estrela)
Nicole Kidman (O Peso do Passado)
Melissa McCarthy (Poderia Me Perdoar?)
Rosamund Pike (A Private War)

MELHOR ATOR DRAMA
Bradley Cooper (Nasce Uma Estrela)

John David Washington (Infiltrado na Klan)
Lucas Hedges (Boy Erased: Uma Verdade Anulada)
Rami Malek (Bohemian Rhapsody)
Willem Dafoe (No Portal da Eternidade)

MELHOR ATRIZ COMÉDIA/MUSICAL
Charlize Theron (Tully)

Constance Wu (Podres de Ricos)
Elsie Fisher (Oitava Série)
Emily Blunt (O Retorno de Mary Poppins)
Olivia Colman (A Favorita)

MELHOR ATOR COMÉDIA/MUSICAL
Christian Bale (Vice)

John C. Reilly (Stan & Ollie)
Lin-Manuel Miranda (O Retorno de Mary Poppins)
Robert Redford (The Old Man & the Gun)
Viggo Mortensen (Green Book: O Guia)

MELHOR ATRIZ COADJUVANTE
Amy Adams (Vice)

Claire Foy (O Primeiro Homem)
Emma Stone (A Favorita)
Rachel Weisz (A Favorita)
Regina King (Se a Rua Beale Falasse)

MELHOR ATOR COADJUVANTE
Adam Driver (Infiltrado na Klan)

Mahershala Ali (Green Book: O Guia)
Richard E. Grant (Poderia Me Perdoar?)
Sam Rockwell (Vice)
Timothée Chalamet (Querido Menino)

MELHOR ANIMAÇÃO
Homem-Aranha no Aranhaverso
Ilha dos Cachorros
Os Incríveis 2

Mirai
WiFi Ralph: Quebrando a internet

MELHOR CANÇÃO ORIGINAL
“All the Stars” (Pantera Negra)
“Girl in the Movies” (Dumplin’)
“Requiem for a Private War” (A Private War)
“Revelation” (Boy Erased: Uma Verdade Anulada)
“Shallow” (Nasce Uma Estrela)

MELHOR TRILHA SONORA
Ilha dos Cachorros
Um Lugar Silencioso
Pantera Negra
O Primeiro Homem
O Retorno de Mary Poppins

MELHOR FILME ESTRANGEIRO
Assunto de Família (Japão)

Cafarnaum (Líbano)
Girl (Bélgica)
Never Look Away (Alemanha)
Roma (México)

MELHOR ROTEIRO
A Favorita
Green Book: O Guia
Roma
Se a Rua Beale Falasse
Vice

SÉRIES, MINISSÉRIES E TELEFILMES

MELHOR SÉRIE DRAMA
The Americans

Bodyguard
Homecoming
Killing Eve
Pose

MELHOR SÉRIE COMÉDIA/MUSICAL
Barry
The Good Place
Kidding
The Kominsky Method
The Marvelous Mrs. Maisel

MELHOR MINISSÉRIE/TELEFILME
The Alienist

The Assassination of Gianni Versace: American Crime Story
Escape at Dannemora
Sharp Objects
A Very English Scandal

MELHOR ATRIZ EM SÉRIE DRAMA
Caitriona Balfe (Outlander)

Elisabeth Moss (The Handmaid’s Tale)
Julia Roberts (Homecoming)
Keri Russell (The Americans)
Sandra Oh (Killing Eve)

MELHOR ATRIZ EM SÉRIE COMÉDIA/MUSICAL
Alison Brie (Glow)

Candice Bergen (Murphy Brown)
Debra Messing (Will & Grace)
Kristen Bell (The Good Place)
Rachel Brosnahan (The Marvelous Mrs. Maisel)

MELHOR ATRIZ EM MINISSÉRIE/TELEFILME
Amy Adams (Sharp Objects)

Connie Britton (Dirty John)
Laura Dern (O Conto)
Patricia Arquette (Escape at Dannemora)
Regina King (Seven Seconds)

MELHOR ATOR EM SÉRIE DRAMA
Billy Porter (Pose)

Jason Bateman (Ozark)
Matthew Rhys (The Americans)
Richard Madden (Bodyguard)
Stephan James (Homecoming)

MELHOR ATOR EM SÉRIE COMÉDIA/MUSICAL
Bill Hader (Barry)

Donald Glover (Atlanta)
Jim Carrey (Kidding)
Michael Douglas (The Kominsky Method)
Sacha Baron Cohen (Who is America?)

MELHOR ATOR EM MINISSÉRIE/TELEFILME
Antonio Banderas (Genius: Picasso)

Benedict Cumberbatch (Patrick Melrose)
Daniel Bruhl (The Alieniest)
Darren Criss (The Assassination of Gianni Versace: American Crime Story)
Hugh Grant (A Very English Scandal)

MELHOR ATRIZ COADJUVANTE EM SÉRIE/MINISSÉRIE/TELEFILME
Alex Borstein (The Marvelous Mrs. Maisel)

Patricia Clarkson (Sharp Objects)
Penelope Cruz (The Assassination of Gianni Versace: American Crime Story)
Thandie Newton (Westworld)
Yvonne Strahovski (The Handmaid’s Tale)

MELHOR ATOR COADJUVANTE EM SÉRIE/MINISSÉRIE/TELEFILME
Alan Arkin (The Kominsky Method)

Ben Whishaw (A Very English Scandal)
Edgar Ramirez (The Assassination of Gianni Versace: American Crime Story)
Henry Winkler (Barry)
Kieran Culkin (Succession)

Dez ótimos filmes que completaram dez anos de lançamento em 2018

Uma boa maneira constatar a rápida passagem do tempo é elencando quais filmes estão completando aniversário em determinado ano. E, já que entramos em dezembro, mês tradicionalmente dedicado a listas de melhores do ano e ao início da temporada de premiações, resolvi entrar nesse espírito. Em 2018, diversos filmes completaram dez anos de lançamento (aproveito para lembrar que, aqui no blog, sempre levo a estreia comercial nos cinemas brasileiros no parâmetro para definir a minha cronologia cinematográfica), entre eles, obras consagradas entre público e crítica, como Batman: O Cavaleiro das Trevas. Também tivemos o aniversário de Sangue NegroOnde os Fracos Não Têm Vez, O Escafandro e a Borboleta e Na Natureza Selvagem. Alguns chegaram a receber até uma continuação para marcar seus dez anos de lançamento, caso de Mamma Mia!, que, em 2008, considerando suas intenções e dimensões, foi um estrondoso sucesso de bilheteria. Contudo, deixo de lado esses títulos já amplamente referenciados para selecionar dez dos meus favoritos pessoais que, há exata uma década, chegavam em terras brasileiras. Quais deles também fazem parte dos queridinhos de vocês? 

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Philip Seymour Hoffman e Laura Linney brilham como dois irmãos em conflito no drama A Família Savage.

A FAMÍLIA SAVAGE, de Tamara Jenkins: Em 2018, a diretora e roteirista Tamara Jenkins finalmente voltou à ativa com Mais Uma Chance, seu primeiro filme desde o maravilhoso A Família Savage, lançado em 2008 e que reuniu uma dupla para ninguém colocar defeito: Laura Linney e Philip Seymour Hoffman (ela chegou a ser merecidamente indicada ao Oscar por seu desempenho). Muito mais do que um registro tradicional sobre dois filhos que precisam lidar com um pai doente, A Família Savage descortina o processo de envelhecimento sem qualquer firula ou maquiagem, mas o que torna esse trabalho tão humano e contundente é a relação entre os dois irmãos, ambos tão diferentes e ao mesmo tempo tão semelhantes — e por isso mesmo distantes do ponto de vista físico e emocional. Nas complexidades dos pequenos momentos e comportamentos tanto dos personagens quanto de todos nós, Jenkins cria uma história franca, colada à realidade e elevada a níveis tocantes por dois grandes atores em estado de graça.

CHEGA DE SAUDADE, de Laís Bodanzky: Por falar em histórias sobre envelhecimento, Chega de Saudade, da premiada diretora Laís Bodanzky, é outro título que contempla a temática da terceira idade e completa uma década de lançamento em 2018. O clima, entretanto, é totalmente diferente de A Família Savage: acompanhando cinco personagens frequentadores de um baile de dança em São Paulo, Chega de Saudade tem como cenário um animado salão que, em uma nova noite de música e dança, abre as portas para o seu público tão querido e fiel. Na pista e nos bastidores, os personagens amam, desejam, flertam, gargalham e choram, representando a inegável complexidade de longas histórias de vida. O elenco é um primor (Cássia Kis, Tônia Carrero, Clarisse Abujamra, Betty Faria, Stepan Nercessian), assim como a trilha compartilhada entre Elza Soares, Marku Ribas e a banda Luar de Prata que revive grandes sucessos dos salões de baile. Humano e simples como poucos diretores conseguiriam registrar.

APENAS UMA VEZ, de John Carney: Veio da Irlanda um dos romances comoventes dos últimos dez anos. Vencedor do Oscar de melhor canção original (“Falling Slowly”), Apenas Uma Vez é a perfeita síntese de como a simplicidade pode andar de mãos dadas com a emoção. Além disso, essa é uma produção que utiliza a música como elemento narrativo primordial, sem jamais reduzi-la a mero entretenimento ou curiosidade. É, afinal, por meio das canções que atravessamos as ruas de Dublin para conhecer um casal sem nome que muito se aproxima dos sonhos e dos anseios vividos por pessoas como eu e você. Apenas Uma Vez tem corpo, alma e uma coesão musical que muitos exemplares ambiciosos do gênero somente sonham em alcançar. Anos depois, o diretor John Carney viria a realizar outro drama romântico construído através da música, novamente na mesma batida de dramas cotidianos: o também adorável Mesmo Se Nada Der Certo.

Grandioso em escala e sentimento, Desejo e Reparação ainda é o ponto mais alto na carreira do diretor Joe Wright.

DESEJO E REPARAÇÃO, de Joe Wright: São raros os filmes que conseguem ser épicos em escala e intimismo, mas Desejo e Reparação é inquestionavelmente um deles. O que Joe Wright faz aqui ainda marca o auge de sua carreira: fora o apuro estético que permanece irretocável mesmo após uma década (e que provavelmente eternizará a sua áurea de clássico contemporâneo), Desejo e Reparação avança por diferentes tempos e perspectivas para falar sobre atos, consequências e suas diferentes reverberações através da culpa. No elenco, Keira Knightley e James McAvoy formam um casal como os melhores dos clássicos norte-americanos, mas é Saoirse Ronan, Romola Garai e Vanessa Regrave que roubam a cena quando dão vida à complexa Briony Tallis em diferentes fases (e, ainda que de certa forma polêmica, a personagem é capaz de passar um turbilhão de emoções ao espectador, principalmente no desfecho avassalador). Destaque ainda para a inesquecível trilha do italiano Dario Marianelli e o impressionante plano-sequência na batalha de Dunquerque.

LONGE DELA, de Sarah Polley: Sem dirigir ou atuar desde 2012, quando realizou o documentário Histórias Que Nós Contamos, Sarah Polley provou toda sua elegância, sobriedade e delicadeza como realizadora anos antes, ao lançar, em 2008, o drama Longe Dela, sua estreia na direção de longas após quarto curtas e uma breve experiência na TV. O resultado tem consistência como se fosse assinado por uma veterana: ao adaptar o conto The Bear Came Over the Mountain, de Alice Munro, Polley registra a clássica história do marido que lida com o Mal de Alzheimer da esposa, mas o relato, centrado mais na cotidianidade emocional de seus personagens do que no sofrimento trazido pela doença, propõe olhares diferenciados para uma temática já explorada extensivamente. Ao traduzir as complexidades e as transformações de um casal que compartilhou uma vida inteira juntos, Longe Dela se torna maduro e comovente por seu respeito à vida e ao quanto nos adaptamos ao longo e ao fim dela.

WALL-E, de Andrew Stanton: Foram nada menos do que seis indicações ao Oscar (e, claro, o troféu de melhor animação daquele ano), número que já sugere um prestígio raro inclusive para hoje os dias de hoje se tratando de produções com o selo Disney/Pixar, mas a verdade é que WALL-E representa mesmo um dos mais inesquecíveis momentos na carreira de todos os envolvidos no projeto. Com um emblemático personagem-título, a animação é impactante do ponto de vista visual e envolvente ao desenvolver uma trama ambiciosa que flutua entre o planeta Terra e o espaço sideral, preservando, mesmo após dez anos, a atualidade das questões tecnológicas e ambientais levantadas na época. Em suma, é uma animação inusitada e altamente criativa, exatamente no padrão das que elevaram o nome da Pixar, estúdio que hoje já não realiza exemplares semelhantes com a mesma frequência após ter sido comprado pela Disney.

Subestimado por público e crítica, Ensaio Sobre a Cegueira teve a validação do consagrado escritor José Saramago.

ENSAIO SOBRE A CEGUEIRA, de Fernando Meirelles: Da morna recepção em Cannes ao pouco apreço do público no circuito comercial, Ensaio Sobre a Cegueira teve, no entanto, a aprovação que o diretor Fernando Meirelles mais precisava: a de José Saramago, autor da obra homônima cuja adaptação era tida como impossível e que não escondeu a sua comoção ao ver seu trabalho transposto para as telas. Não concordo com as recepções medianas que Ensaio Sobre a Cegueira recebeu em seu lançamento e tenho esse filme como mais um ótimo exemplo de toda a solidez de Fernando Meirelles como realizador mesmo em terras estrangeiras. Explorando a barbárie de seres humanos que regridem para seu instinto mais primitivo após uma cegueira repentina, o relato é cru na medida exata, levando esse acertado ponto de equilíbrio dramático para a parte técnica (lembram da impactante fotografia de César Charlone?) e também para as interpretações, onde a grande Julianne Moore tem um dos desempenhos mais subestimados de toda a sua carreira.

O NEVOEIRO, de Frank Darabont: Último longa-metragem dirigido pelo prestigiado Frank Darabont (Um Sonho de LiberdadeÀ Espera de Um Milagre) até o presente momento, O Nevoeiro adapta o romance homônimo do mestre Stephen King com vigor tanto no suspense quanto nas diversas provocações suscitadas ao longo de uma história aparentemente corriqueira sobre pessoas que ficam presas em um supermercado em função de um forte nevoeiro. Para absorver o que existe de melhor do longa, é preciso compreender que o verdadeiro horror não está no que os personagens deduzem ter no lado de fora do estabelecimento, mas sim nas conturbadas e perigosas relações humanas que passam a estabelecer coletivamente em um espaço restrito. O desfecho é atordoante e a condução até lá exercita o suspense com questões cotidianas a partir de um plano mais fantástico, proporcionando momentos assustadores e que fazem emergir o pior da mente humana — e nesse sentido, a magnífica interpretação de Marcia Gay Harden dificilmente sairá da sua cabeça após a sessão.

[REC], de Jaume Balagueró e Paco Plaza: É o tipo de terror estrangeiro que o cinema norte-americano tentou copiar posteriormente, mas que, assim como tantos outros, não rendeu qualquer produção equivalente longe de sua terra nativa. Concebido na Espanha, [REC] acompanha uma repórter e um operador de câmera que, chamados para fazer a cobertura de uma situação de emergência em um grande prédio, acabam presos no local após acontecimentos misteriosos. A proposta de gravar tudo em primeira pessoa (o repórter, apesar de todos os acontecimentos possíveis, nunca desliga a câmera) parece batida, mas, na época e ainda hoje, [REC] a utilizou com uma visceralidade única, levando diversas plateias ao redor do mundo para os mais sombrios e angustiantes lugares que a nossa imaginação pode criar (pouco é de fato mostrado no longa, o que deixa basicamente tudo para a mente do espectador). Pela eletrizante viagem orquestrada, dá até para relevar uma certa implausibilidade do operador de câmera nunca desligar o equipamento mesmo nas situações mais desesperadoras.

VICKY CRISTINA BARCELONA, de Woody Allen: Um dos trabalhos mais inspirados de Woody Allen considerando tudo o que ele realizou desde o início dos anos 2000, Vicky Cristina Barcelona tem muito a encantar com as charmosas paisagens e locações espanholas. No entanto, o mais interessante do filme é explorar as decisões irresistivelmente tortas e inconscientes que tomamos quando não sabemos exatamente o que queremos para a vida. Assim são todos os personagens do longa: fascinantes por serem erráticos nessa busca incessante que alimentamos por um suposto caminho certo, quando, na verdade, irremediavelmente, todos não deixam de ser errados dependendo da perspectiva. Scarlett Johansson, Rebecca Hall e Javier Bardem desdobram tais reflexões com uma química impecável, mas é Penélope Cruz, em uma fase iluminada depois da merecida e positiva reviravolta trazida para a sua carreira por Volver, que rouba a cena. É, enfim, um momento inspirado na prolífera carreira de um diretor cuja trajetória no Cinema hoje está basicamente encerrada após a avassaladora onda do movimento #MeToo.

“Animais Fantásticos: Os Crimes de Grindelwald”: de escritora à roteirista, J.K. Rowling limita potência criativa do mundo bruxo com excessivo controle artístico

Their arrogance is a key to our victory.

Direção: David Yates

Roteiro: J.K. Rowling

Elenco: Eddie Redmayne, Johnny Depp, Jude Law, Ezra Miller, Katherine Waterston, Zoë Kravitz, Dan Fogler, Callum Turner, Alison Sudol, Claudia Kim, Kevin Guthrie, Brontis Jodorowsky

Fantastic Beasts: The Crimes of Grindelwald, EUA, 2018, Aventura, 134 minutos

Sinopse: Newt Scamander (Eddie Redmayne) reencontra os queridos amigos Tina Goldstein (Katherine Waterston), Queenie Goldstein (Alison Sudol) e Jacob Kowalski (Dan Fogler). Ele é recrutado pelo seu antigo professor em Hogwarts, Alvo Dumbledore (Jude Law), para enfrentar o terrível bruxo das trevas Gellert Grindelwald (Johnny Depp), que escapou da custódia da MACUSA (Congresso Mágico dos EUA) e reúne seguidores, dividindo o mundo entre seres de magos sangue puro e seres não-mágicos. (Adoro Cinema)

Criatividade é uma das qualidades que a escritora J.K. Rowling tem de sobra, e é impossível dizer o contrário quando qualquer espectador entra em contato, especialmente pela primeira vez, com a saga Harry Potter, um dos maiores ícones cinematográficos dos anos 2000. Por isso mesmo, é natural que a autora queira cuidar da sua galinha de ovos de ouro (a Forbes já chegou a estimar que a fortuna de Rowling tenha ultrapassado um bilhão de dólares, tornando-a mais rica do que a Rainha Elizabeth II, sua conterrânea britânica). Contudo, há uma linha muito tênue entre o zelo saudável com esse material de prestígio estratosférico e o prejudicial controle criativo por um projeto que precisa de outros olhares e interpretações para ganhar novas qualidades. Pois com Animais Fantásticos: Os Crimes de Grindelwald, Rowling está no limite de romper essa linha: se no primeiro filme dessa nova saga estrelada por Eddie Redmayne as suas limitações ao assumir o posto de roteirista absoluta da franquia já eram perceptíveis, a situação se complica por definitivo neste segundo capítulo, onde o excessivo controle criativo da autora coloca em risco todo o potencial criativo de uma história que parece se prolongar de maneira tão desnecessária e desestimulante quanto os três intermináveis capítulos de O Hobbit dirigidos por Peter Jackson.

Encarando a saga Animais Fantásticos mais como um parque de diversões destinado aos fãs incondicionais do que como um produto cinematográfico a ser entregue para o mundo, J.K. Rowling escreve a trama de Os Crimes de Grindelwald sem uma peneira cinematográfica. Isso é um grande problema porque parte do sucesso da saga Harry Potter (e de grande parte das grandes adaptações feitas para o Cinema) se deu pelo olhar compartilhado com roteiristas e diretores. Não que exista algum problema em escritores tornando-se roteiristas (autora de Garota Exemplar, Gillian Flynn foi talentosíssima ao fazer a transposição cinematográfica de seu próprio livro, por exemplo), mas, se o dinheiro não falar mais alto e Rowling tiver bons amigos, alguém certamente precisa avisá-la de que Animais Fantásticos tem tudo para se tornar uma dessas desestimulantes franquias que servem apenas para agradar aos fãs. Além de ser claramente conduzido com estrutura e ritmo de uma obra literária, Os Crimes de Gindelwald pouco avança com uma trama que cai no vício de plantar todo tipo de curiosidade do mundo de Harry Potter para que os fãs se divirtam isso. Em incontáveis sequências, Rowling resgata cenários, feitiços e personagens de Harry Potter para pegar os espectadores pelo afeto, o que, na prática, não acrescenta muito pouco ao que o filme tem a dizer.

Com o mérito de não ter pressa alguma ao desenvolver conflitos, Os Crimes de Grindelwald ao mesmo tempo se embola ao contar diversas histórias paralelas para, ao fim, não contar muita coisa. Com isso, Newt Scamander, o suposto protagonista da franquia, termina por se tornar tão coadjuvante quanto os outros personagens, desperdiçando assim toda a doçura que Eddie Redmayne imprime a um adorável e atípico herói e a despedaçada jornada pessoal de Credence (Ezra Miller). Menos sofisticado dramaticamente do que poderia se esperar, o roteiro ainda opta por caminhos simplistas, como na sequência em que faz determinados personagens se voltarem para o lado do mal porque, sem isso, eles não teriam mais razão para existir nos próximos capítulos da saga. Até mesmo para um livro Os Crimes de Grindelwald seria uma obra menor e pouco interessante.

Frente a tudo isso, a maior surpresa de Os Crimes de Grindelwald é a aparente volta por cima de Johnny Depp, que, pelo menos na última década, interpretava todo e qualquer personagens com indiscutível descaso ou desinteresse. Aqui, ele parece ter acordado para a questionável oportunidade de ouro que lhe foi entregue: enigmático, reticente e intimidante como Grindelwald, o ator tem presença suficiente para criar um personagem que, tratando-se da composição de um intérprete, facilmente se distancia do vilão outrora vivido por Ralph Fiennes no mundo bruxo. Enquanto isso, Jude Law, que vem do melhor desempenho de sua carreira na minissérie The Young Pope, também é uma boa adesão ao elenco, mesmo que seja um tanto difícil acreditar que seu Alvo Dumbledore possa ter tido qualquer tipo de ligação próxima (inclusive afetiva!) com o agora temido antagonista. Em nome da interessante composição dessa dupla, é justo esperar que Animais Fantásticos consiga se oxigenar daqui para frente, ainda que isso não pareça tão provável, uma vez que não só J.K. Rowling segue no comando do roteiro. Como um grande fã de Harry Potter fico sempre na torcida, mas, antes de tudo, como um cinéfilo incondicional, já não me sinto estimulado esperar maiores comoções com Animais Fantásticos depois de Os Crimes de Grindelwald.