“Um Lugar Silencioso”: em frente e atrás das câmeras, John Krasinski recupera o poder do silêncio

Who are we if we can’t protect them?

Direção: John Krasinski

Roteiro: Bryan Woods, John Krasinski e Scott Beck, baseado em estória de Bryan Woods e Scott Beck

Elenco: John Krasinski, Emily Blunt, Millicent Simmonds, Noah Jupe, Leon Russom, Cade Woodward

A Quiet Place, EUA, 2018, Suspense/Terror, 90 minutos

Sinopse: Em uma fazenda dos Estados Unidos, uma família do meio-oeste é perseguida por uma entidade fantasmagórica assustadora. Para se protegerem, eles devem permanecer em silêncio absoluto, a qualquer custo, pois o perigo é ativado pela percepção do som. (Adoro Cinema)

Quem mora em qualquer capital e, dependendo do filme, é obrigado a frequentar cinema de shopping sabe como funciona o pesadelo: conversa, risadas, celulares ligados, barulho e, muitas vezes, tudo que é tipo de comida entrando na sala de cinema. Quando se trata de filme de terror, então, pior ainda, pois esse é um gênero que o grande público costuma tratar como brincadeira, esperando, a cada cena, algum susto para, logo em seguida, soltar risada. Digo por experiência própria: Invocação do Mal 2It – A Coisa, minhas últimas experiências com o gênero na tela grande, foram péssimas, agravadas pelas próprias pessoas que compartilhavam a sala comigo. Mas aí, recuperando a esperança, chega um filme como Um Lugar Silencioso, que chuta a porta, acaba com a farra e obriga o mais inquieto dos seres humanos a não emitir qualquer som ao longo de aproximadamente 90 minutos.

O silêncio impera porque Um Lugar Silencioso basicamente não tem diálogos? Também, mas a grande sacada do ator John Krasinski (o eterno Jim Halpert, do seriado The Office) é recuperar algo que o cinema de terror, pelo menos o comercial, tem esquecido nos últimos: o poder do silêncio. Eliminando palavras, puxando o freio de mão da trilha e redimensionando a força de qualquer som inesperado em uma trama que de histriônica não tem nada, Krasinski coloca o espectador na mesma condição do personagens, demandando que você assista ao filme sem emitir qualquer som. Óbvio que esse é um movimento coletivo — se o cinema inteiro está quieto, a tendência é que você também fique —, mas com a diferença de que aqui o silêncio é componente crucial na relação com o filme, pois é como se a sua vida dependesse do silêncio tanto quanto a dos personagens no outro lado da tela.

Os vícios do gênero são passados a limpo em Um Lugar Silencioso, que abre a trama com um acontecimento trágico, já deixando um recado muito claro: o de que, dali em diante, tudo pode acontecer. Isso maximiza a tensão já inerente ao roteiro que Krasinski escreveu junto a Bryan Woods e Scott Beck, que alcança grandiosidade em questões que vão além do mero silêncio: o horror parece eminente porque, apesar do clima pós-apocalíptico, o filme é essencialmente humano e passado em uma casa abandonada com apenas quatro personagens. Há essa compreensão de quanto menor o núcleo de personagens em um filme, maiores são as chances de nos importarmos emocionalmente com eles. Mais do que um grande filme do gênero, estamos , de certa forma, diante de uma alegoria sobre como ter filhos (e não poder protegê-los) pode ser deveras aterrorizante.

Do pânico às lágrimas (acredite, o estofo dramático do filme quanto às relações familiares chega a ser comovente), Um Lugar Silencioso é tão bem construído no suspense que potencializa inclusive artifícios fáceis, a exemplo do prego que aparece onde não deveria ou de um acontecimento a longo tempo esperado e planejado que toma forma na hora mais inconveniente possível. Inclusive, é de se admirar como, mesmo em seus momentos mais gráficos (é uma antiga reclamação minha com histórias de terror: elas costumam mostrar mais do que deveriam), o longa não perde o clima e a força. Parte desse mérito vem de um apuro técnico admirável, em especial do magnífico trabalho de som e da fotografia, que, nas sequências noturnas, é de deixar os nervos à flor da pele.  

Sucesso mundial (não são nem duas semanas em cartaz e o filme já faturou dez vezes mais que o seu orçamento modesto de 17 milhões de dólares), Um Lugar Silencioso é uma vitória para todos os envolvidos: para o cinema de gênero popular, para as plateias que são relembradas do poder imersivo de filmes de terror e principalmente para todo o elenco (Krasinski, que agora tem a confiança da indústria como realizador; Emily Blunt, finalmente com um filme à altura de seu talento; Noah Jupe, que já era uma revelação no recente Extraordinário; e Millicent Simmonds, talentosa atriz surda que volta a abrir espaço para a inclusão após Sem Fôlego). É uma experiência indispensável mesmo para quem não tem relação assídua com o terror e que tem fôlego de sobra para se tornar uma obra digna de ser referenciada.

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