Festival de Cinema de Gramado #3: “Marte Um”, de Gabriel Martins

Acabei não conseguindo escrever sobre Marte Um durante o último Festival de Sundance, mas a seleção para o Festival de Cinema de Gramado adiantou esse texto que ficara engavetado — o que não tem nada a ver com a qualidade do filme, bem pelo contrário. Na verdade, é muito afetuoso o retrato que o diretor Gabriel Martins (No Coração do Mundo) apresenta de uma família humilde e que sempre termina por encontrar o amor mesmo em todas as limitações e diferenças, sejam aquelas entre eles próprios ou com o mundo. Ou seja, o bem mais valioso de Marte Um é, por assim dizer, o interesse de Gabriel pela generosidade e pela conexão, um binômio sempre urgente e necessário.
O roteiro, também escrito pelo diretor, tem uma predileção inicial por narrativas múltiplas, montando um mosaico de forma gradativa, sem maior pressa. Isso funciona porque desdobra os personagens com atenção e intimidade, e também tem seus problemas porque nem todos os coadjuvante orbitantes ao personagem da vez funcionam, abrindo espaço para composições um tanto rasas ou descartáveis. Com isso, Marte Um também abre margem para traços mais novelescos, abraçados de maneira aparentemente consciente pelo diretor. Entretanto, a situação muda de cenário toda vez que o filme se dedica a abordar coletivamente os dramas daquela família, como um único núcleo.
Talvez esse ponto virada da minha relação com Marte Um se dê na cena em que Tércia (Rejane Faria) se vê no centro de uma daquelas pegadinhas ensaiadas para a televisão. Ao acreditar que está amaldiçoada diante de tantos azares na vida, ela visivelmente anseia por alguma fuga ou algum alento em seus dias. E essa busca por alguma alternativa parece ser um desejo — consciente ou não — de todos os membros da família Martins. Ainda há, por exemplo, o pai Wellington (Carlos Francisco), responsável por projetar no filho sonhos futebolísticos que, no fundo, muito provavelmente ele gostaria de ter realizado para si próprio. Por outro lado, Deivinho (Cícero Lucas) não tem qualquer interesse em ser um jogador. O que ele quer é se tornar astrofísico e participar de uma missão bilionária para colonizar Marte em 2030, na representação mais literal de um já citado sentimento de fuga.
As eventuais colisões ou intersecções dos sonhos e das vontades desses personagens se engrandecem mais nesse convívio do que quando os acompanhamos separadamente — e isso não deixa de estar intrinsicamente ligado ao fato de que Marte Um tem uma de suas maiores forças em um elenco precioso. Além de ter bons atores aproveitando uma sinergia palpável desde o primeiro momento, o filme tem grande equilíbrio no destaque proporcional dado a eles. Uma vez que todos, sem exceção, são figuras interessantes e verossímeis, isso é um ganho dos grandes. Meu destaque particular, entretanto, fica para a delicada relação entre Deivinho e sua irmã Eunice, dois filhos unidos por uma compreensão mútua do que são e sonham.
O simbolismo de Marte Um ter um personagem negro que se permite sonhar a carreira de astronauta é um belo contraste com o início do próprio filme, quando somos remontados ao dia 28 de outubro de 2018 e, mais especificamente, ao momento em que Jair Messias Bolsonaro se torna presidente do Brasil. A política do longa de Gabriel Martins não está na discussão verbal sobre política. Ela mora em representações corriqueiras e poderosas como essa. Como em O Novelo, outro filme exibido recentemente no Festival de Cinema de Gramado, temos, em Marte Um, um filme que aborda a representatividade negra por meio de um relato familiar cuja complexidade está nas diferenças do dia a dia, mas também cuja beleza está na generosidade e na empatia, duas forças que, no Brasil atual, revelam-se mais políticas do que nunca.
50º Festival de Cinema de Gramado #2: mais homenageados e uma edição com ingressos solidários

Já premiada no Festival de Berlim por sua performance em Gloria, a atriz chilena Paulina García será homenageada com o Kikito de Cristal em Gramado.
As últimas novidades do Festival de Cinema de Gramado reforçaram a sensação de que a 50ª edição do evento será menos impactante do que poderia se esperar. Ainda assim, há o que se comemorar, como a merecida homenagem para a atriz chilena Paulina García, que receberá o Kikito de Cristal, troféu entregue a expoentes do cinema latino-americano. Em 2022, ela comemora 20 anos de carreira no cinema – e uma das mais bem sucedidas, colecionando, inclusive, um Urso de Prata de melhor atriz no Festival de Berlim por sua inesquecível interpretação em Gloria, de Sebastián Lelio. No próprio Festival de Gramado, ela venceu, em 2014, o Kikito de melhor atriz pelo drama Las Analfabetas. Outro marco desta homenagem é que, pela primeira vez, o Kikito de Cristal sai do eixo Brasil/Argentina/Uruguai, o que é uma excelente notícia para uma homenagem que há 15 anos estava limitada a esse circuito.
Retomando as atividades presenciais após dois anos acontecendo em formato online e televisivo, o Festival de Cinema de Gramado também anunciou que os ingressos deste ano poderão ser adquiridos mediante doação de alimentos. É uma boa oportunidade para conhecer o evento, comumente tido como inacessível quando, na verdade, sempre colocou à venda os ingressos para suas sessões. Na modalidade de doação de alimentos, a troca deverá ser feita diariamente para a sessão do mesmo dia, na secretaria do 50º Festival de Cinema de Gramado, na Sociedade Recreio Gramadense (Rua Garibaldi, 328), a partir do dia 12 de agosto. É necessário doar dois quilos de alimentos não perecíveis para cada ingresso no período de 12 a 19 de agosto, e quatro quilos para a noite da entrega dos Kikitos, dia 20 de agosto. Cada CPF pode retirar, no máximo, dois ingressos por dia, mediante doação correspondente.
Por outro lado, acho que todos esperavam um homenageado mais emblemático para receber o Troféu Oscarito, a grande distinção outorgada pelo evento a atores do cinema brasileiro. É verdade que Marcos Palmeira ultrapassa a marca de 40 filmes na carreira, mas ela não se equipara a de nomes como Marco Nanini, Dira Paes, Sonia Braga e Marília Pêra, citando alguns dos agraciados em anos recentes. Neste sentido, o fato de estar no ar com um sucesso como Pantanal parece ter pesado para garantir o alvoroço tão característico do tapete vermelho de Gramado.
Também prometia muito mais a mostra de documentários retomada pelo Festival, com destaque para a ausência do forte O Território, exibido na última edição do Festival de Sundance, de onde saiu com o prêmio do público e o prêmio especial do júri para arte documental, e já muito cotado para garantir uma indicação para o Brasil no Oscar do ano que vem. Ademais, nunca gosto de segmentações desta natureza pois, ao contrário de elas incrementarem a visibilidade de determinado gênero, acabam por impedi-las de estar em pé de igualdade com qualquer outro filme.
A programação das mostras competitivas do 50º Festival de Cinema de Gramado já pode ser conferida aqui.
50º Festival de Cinema de Gramado #1: entre curtas e longas-metragens, mais de 30 títulos disputam o Kikito

A Mãe, de Cristiano Burlan: o segundo Kikito de melhor atriz para Marcélia Cartaxo?
O Festival de Cinema de Gramado anunciou os concorrentes da sua 50ª edição sem o estrondo esperado para uma data de tamanha magnitude. Ao contrário do que aconteceu em 2012, quando, celebrando 40 anos, promoveu mudanças radicais em termos de conceito e estrutura, o evento anunciou, nesta sexta-feira (09), uma edição comedida para os dias 12 e 20 de agosto na Serra Gaúcha.
À parte a mudança muito interessante que Dira Paes parece ter trazido para a curadoria de longas-metragens, agora mais autoral e, de fato, coesa em sua pluralidade, é de se esperar uma festa bem menos potente do que os anos anteriores à pandemia — o que acaba sendo uma surpresa, visto a expectativa para o retorno presencial de um evento que tanto pulsa nesse formato.
Ainda há detalhes a serem revelados, como os homenageados dos troféus Oscarito e Kikito de Cristal, além dos concorrentes da recém inaugurada competição de longas-metragens documentais, e torço para que eles tragam um sentimento maior de celebração ao meio século de história deste festival ininterrupto.
Quanto à seleção em si, minha curiosidade fica com A Mãe, de Cristiano Burlan, que pode muito bem render um segundo Kikito de melhor atriz para Marcélia Cartaxo. Também ficarei de olho em Noites Alienígenas, filme do Acre sobre a periferia da Amazônia urbana. Marte Um, que assisti no último Festival de Sundance, é certamente outro destaque da programação.
Entre os títulos estrangeiros, é boa a notícia de que Gramado volta a incluir sete filmes na competição, uma boa evolução considerando que, em 2021, foram quatro os longas na corrida pelo Kikito. Em seu primeiro ano como curadora, Dira Paes promete que, levando em consideração os longas concorrentes, essa será uma das edições mais inesquecíveis do Festival. Desde já, fico na expectativa para que ela esteja certa! Mais informações no site oficial do evento.
Confira a lista dos filmes selecionados:
LONGAS-METRAGENS BRASILEIROS
O Clube dos Anjos (RJ), de Angelo Defanti
A Mãe (SP), de Cristiano Burlan
Marte Um (MG), de Gabriel Martins
Noites Alienígenas (AC), de Sérgio de Carvalho
O Pastor e o Guerrilheiro (DF), de José Eduardo Belmonte
A Porta ao Lado (RJ), de Julia Rezende
Tinnitus (SP), de Gregório Graziosi
LONGAS-METRAGENS ESTRANGEIROS
9 (Argentina), de Martín Barrenechea e Nicolás Branca
La Boda de Rosa (Espanha/França), de Iciar Bollain
Cuando Oscurece (Argentina/Uruguai), de Néstor Mazzini
El Camino de Sol (México), de Claudia Sainte-Luce
Inmersión (Chile/México), de Nicolas Postiglione
La Pampa (Peru/Chile/Espanha), de Dorian Fernández Moris
O Último Animal (Portugal/Brasil), de Leonel Vieira
LONGAS-METRAGENS GAÚCHOS
5 Casas, de Bruno Gularte Barreto
Casa Vazia, de Giovani Borba
Campo Grande é o Céu, de Bruna Giuliatti, Jhonatan Gomes e Sérgio Guidoux
Despedida, de Luciana Mazeto e Vinícius Lope
Dog Never Raised – Cachorro Inédito, de Bruno de Oliveira
CURTAS-METRAGENS BRASILEIROS
Benzedeira (PA), de Pedro Olaia e San Marcelo
Deus Não Deixa (RJ), de Marçal Vianna
Fantasma Neon (RJ), de Leonardo Martinelli
Mas Eu Não Sou Alguém (SP), de Gabriel Duarte e Daniel Eduardo
O Elemento Tinta (SP), de Luiz Maudonnet e Iuri Salles
O Fim da Imagem (PR), de Gil Baroni
Ímã de Geladeira (SE), de Carolen Meneses e Sidjonathas Araújo
O Pato (PB), de Antônio Galdino
Serrão (MG), de Marcelo Lin
Socorro (PA), de Susanna Lira
Solitude (AM), de Tami Martins e Aron Miranda
Tekoha (SP), de Carlos Adriano
Último Domingo (RJ), de Joana Claude e Renan Barbosa Brandão
Um Tempo Para Mim (RS), de Paola Mallmann
CURTAS-METRAGENS GAÚCHOS (PRÊMIO ASSEMBLEIA LEGISLATIVA)
A Diferença Entre Mongóis e Mongoloides, de Jonatas Rubert
Apenas Para Registro, de Valentina Ritter Hickmann
Drapo A, de Alix Georges e Henrique Lahude
Fagulha, de Jéssica Menzel e Jp Siliprandi
Johann e os Ímãs de Geladeira, de Giordano Gio
Mby´Á Nhendu — O Som do Espírito Guarani, de Gerson Karaí Gomes
Mora, de Sissi Betina Venturin
Madrugada, de Leonardo da Rosa e Gianluca Cozza
Nação Preta do Sul — O Curta, de Nando Ramoz e Gabriela Barenho
Nós Que Fazemos Girar, de Lucas Furtado
O Abraço, de Gabriel Motta
Olho Por Mim, de Marcos Contreras
Perfection, de Guilherme G. Pacheco
Possa Poder, de Victor Di Marco e Márcio Picoli
Sinal de Alerta Lory F, de Fredericco Restori
Sintomático, de Marina Pessato
Tudo em Constante Movimento, de Cristine de Bem e Canto
Festival de Sundance 2022: impressões sobre o evento e sobre os filmes exibidos
Diretamente de Portugal, o André Sousa, do canal Disquetes e Claquetes, me convidou para falar sobre a minha experiência cobrindo pela primeira o Festival de Sundance. Na conversa, fomos desde bastidores de credenciamento e cobertura até alguns destaques da programação, como Cha Cha Real Smooth, Fire of Love e Good Luck to You, Leo Grande. Agradeço ao André pelo convite, e espero que vocês gostem desse bate-papo tanto quanto eu gostei. É só dar o play!
Directly from Portugal, André Sousa, from Disquetes e Claquetes channel on YouTube, invited me to talk about my experience covering the Sundance Festival for the first time. In our conversation, we went from the backstage of accreditation and coverage to some highlights of the programming, such as Cha Cha Real Smooth, Fire of Love and Good Luck to You, Leo Grande. I thank André for the invitation, and I hope you enjoy this chat as much as I did.
Festival de Sundance 2022: “Cha Cha Real Smooth”, de Cooper Raiff

Sucesso no Festival de Sundance, onde foi agraciado com o prêmio do público, Cha Cha Real Smooth promove um encontro entre dois personagens que, em diferentes pontos de suas vidas, compartilham um certo sentimento de desorientação. Enquanto Andrew (Cooper Raiff) chega aos 22 anos ainda tendo que compartilhar o quarto com o irmão caçula e trabalhar em um emprego qualquer porque não encontrou uma vocação, Domino (Dakota Johnson) vive dias solitários com sua filha autista enquanto o noivo, um homem que ela escolheu se relacionar para ter uma vida “adulta” e “responsável”, passa dias fora da cidade a trabalho. Quando Andrew vai a um bar mitzvá e se descobre um party starter — espécie de animador de festas —, esses dois caminhos se cruzam, dando início a uma relação tão delicada quanto impossivelmente apaixonante.
Cha Cha Real Smooth é contado do ponto de vista de Andrew, esse garoto gentil e sentimental que chega para abrilhantar a vida de uma mãe feliz com sua estabilidade, mas que carrega um desejo melancólico pela liberdade e pela novidade da juventude usufruída por Andrew. A conexão imediata entre os dois, no entanto, não faz deste filme um emaranhado de conflitos sobre diferenças geracionais ou a impossibilidade de uma relação. Na verdade, o que há em Cha Cha Real Smooth é um relato muito sensível, afetivo e que, apesar dos traço indie do cinema norte-americano, dispensa a todo momento qualquer maneirismo para soar cool. Além de ator, Cooper Raiff dirige e roteiriza o longa como uma história de amor que não trilha os caminhos imaginados no desenrolar do primeiro terço, o que é uma ótima notícia.
Afeito aos pequenos momentos de uma relação, seja ela de qualquer natureza — amorosa, familiar ou de amizade —, Cha Cha Real Smooth reserva bons espaços para coadjuvantes que, mesmo em papeis bastante pequenos, complementam a imagem apresentada de Andrew. É o caso da mãe vivida por Leslie Mann, cujas aparições são breves, mas assertivas em cada observação sobre o filho. Há também o adorável irmão caçula vivido por Evan Assante, capaz de enxergar no primogênito uma sabedoria e um companheirismo que o protagonista não é capaz de enxergar em si mesmo. E não dá para deixar em branco a presença de Vanessa Burghardt, responsável por dar vida a uma personagem autista que, de fato, é interpretada por uma atriz autista, mostrando como representatividade importa e só tem a contribuir para uma história.
Com tantos coadjuvantes bacanas orbitando a história, Cooper Raiff e Dakota Johnson são generosos com todos eles e, claro, com a relação afetiva que precisam estabelecer como os dois protagonistas. Ambos trilham os caminhos tortuosos e realistas de Andrew e Domino nessa busca pelo que eles significam um para o outro. Cooper esbanja carisma do início ao fim (desafio qualquer pessoa a não querer guardar Andrew em um potinho e levar para casa) e Dakota Johnson confirma as excelentes escolhas de sua carreira recente, mais uma vez vivendo uma mãe jovem e bonita que coloca em pauta diversas e importantes questões maternas, assim como vimos há poucos meses em A Filha Perdida. A química entre os dois é apaixonante, mas, no sorriso de ponta a ponta deixado pelo filme, faço minha maior reverência a Raiff mesmo, que, como ator, diretor, roteirista e produtor, jamais faz de Cha Cha Real Smooth uma egotrip — e sim um ato generoso que celebra a beleza e a melancolia das relações cotidianamente humanas.
Cha Cha Real Smooth review
A success at Sundance Film Festival, where it won the U.S. Dramatic Audience Award, Cha Cha Real Smooth promotes an encounter between two characters who, at different points in their lives, share a certain feeling of disorientation. While Andrew (Cooper Raiff) reaches the age of 22 sharing a room with his younger brother and workgin at a random job because he still hasn’t found a vocation, Domino (Dakota Johnson) goes through lonely days with his autistic daughter while her fiancé, a man that she chose to relate to in order to have an “adult” and “responsible” life, spends days out of town for work. When Andrew goes to a bar mitzvah and turns himself into a “party starter” — a kind of party entertainer —, these two paths cross, beginning a very special relationship.
Cha Cha Real Smooth is told from the point of view of Andrew, this gentle and sentimental boy who comes to brighten the life of a happy mother with his stability, but who carries a melancholic desire for the freedom and novelty she sees in Andrew. The immediate connection between the two, however, does not make this film a tangle of conflicts over generational differences or the impossibility of a relationship. In fact, Cha Cha Real Smooth is a very affective story that dispenses any mannerism to sound cool. In addition to being an actor, Cooper Raiff is the director and the screenwriter, facing the feature as a love story that does not follow the obvious.
Used to the small moments of any relationship — love, family or friendship —, Cha Cha Real Smooth saves good spaces for supporting actors who, even in very small roles, complement the image presented by Andrew. This is the case of the mother played by Leslie Mann, whose appearances are brief, but assertive in every observation about her son. There is also the adorable younger brother played by Evan Assante, able to see in his older brother wisdom and companionship that the leading character is not able to see in himself. And you can’t miss Vanessa Burghardt. She gives life to an autistic character who is actually played by an autistic actress, showing how representation matters.
With so many cool supporting actors orbiting the story, Cooper Raiff and Dakota Johnson are generous with all of them and, of course, with the delicate relationship they need to establish as the two leading characters. They both walk the crooked and down-to-earth paths of Andrew and Domino in their quest for what they mean to each other. Cooper oozes charisma from start to finish (I dare anyone not to want to keep Andrew in a pot and take it home) and Dakota Johnson confirms the excellent choices of her recent career, once again playing a young and beautiful mother who puts several maternal issues in discussion, as we saw a few months ago in The Lost Daughter. The chemistry between the two is passionate, but, in the end-to-end smile left by the film, I pay my biggest bow to Raiff himself, who, as an actor, director, screenwriter and producer, never makes Cha Cha Real Smooth an egotrip. Actually, it is a generous act that celebrates the beauty and melancholy of everyday human relationships.