Cinema e Argumento

Em Gramado #5: a magia infantil de O Segredo dos Diamantes

O trio protagonista de "O Segredo dos Diamantes", novo trabalho do cineasta Helvécio Ratton. Foto: Igor Pires/Pressphoto

O  jovem trio protagonista de O Segredo dos Diamantes, novo trabalho do cineasta Helvécio Ratton. Foto: Igor Pires/Pressphoto

Era grande a minha curiosidade para conferir O Segredo dos Diamantes, novo longa de Helvécio Ratton, diretor que marcou a minha infância com a adaptação cinematográfica de O Menino Maluquinho. Afinal, por que o trio de curadores do Festival de Cinema de Gramado colocou um filme infantil na competição? Mas nem bem O Segredo dos Diamantes coloca seus créditos iniciais na tela ao som de uma música-tema composta originalmente pela banda Skank e já dá para descobrir as razões: Helvécio Ratton não perdeu a mão neste tipo de história e o filme pode muito bem estar destinado a se tornar um grande sucesso de público quando ganhar o circuito comercial em dezembro – e é raro encontrar hoje em dia boa bilheteria por merecimento (o que deverá ser o caso desse).

Não se restringe a uma viagem no tempo esta encantadora aventura que faz o espectador sair da sala de cinema com a alma leve. Aos que não se desarmam e não voltam a ser crianças no longa de Ratton, alguns aspectos facilmente se destacam para além disso, como a bem elaborada trilha sonora composta por André Baptista, a desenvoltura do jovem trio de protagonistas, a fotografia de Lauro Escorel e, claro, a sensibilidade de Ratton para unir tudo isso como uma irresistível aventura para o público infanto-juvenil. Curiosamente, o filme, que tem como história a saga de um garoto que deseja encontrar procurados diamantes para salvar a vida do pai foi exibido, justamente, no dia dos pais! Sincero, envolvente e carinhoso, O Segredo dos Diamantes é mais uma surpresa bastante digna da seleção deste ano.

Depois da sessão, foram revelados os vencedores da Mostra Gaúcha – Prêmio Assembleia Legislativa, que faz uma seleção da mais recente safra de curtas realizados no Rio Grande do Sul. Curioso como criticaram a polarização de vitórias entre Domingo de MartaLinda, Uma História Horrível, os únicos dois filmes premiados pelo júri oficial. Ouvi muitos comentários de que alguns realizadores teriam se incomodado com essa atenção exclusiva aos dois filmes. Mas, se as produções são dignas, o que fazer? Muito pior é ter uma lista com filmes ganhando por caridade e não por merecimento.

Talvez algumas escolhas pudessem ter sido diferentes (particularmente, teria premiado Samuel Reginatto como melhor ator por Caçador, um filme solo que dá a chance do jovem fazer algo minucioso e crescente), mas, no geral, não há nada de absurdo na lista. Sou fã de Domingo de Marta, um dos mais belos filmes exibidos entre todas as mostras até agora, sobre uma senhora de mais de 90 anos que espera a família para um almoço de domingo. É sensível, imersivo e verdadeiro o resultado, cujo roteiro não tem um diálogo sequer. Mereceu tudo o que levou. Na época do Festival CLOSE já havia comentado sobre o delicado tema de Linda (a falta de comunicação e aceitação entre uma mãe e um filho gay) e como gosto do filme. É bem provável que tenha levado mais do que merecia, mas estava entre os melhores da mostra.

Confira os vencedores:

MELHOR FILME: Domingo de Marta
MELHOR DIREÇÃO: Gabriela Bervian (Domingo de Marta)
MELHOR ROTEIRO: Domingo de Marta
MELHOR FOTOGRAFIA: Domingo de Marta
MELHOR DIREÇÃO DE ARTE: Linda, Uma História Horrível
MELHOR MÚSICA: “Redoma”, de Filipe Catto, por Linda, Uma História Horrível
MELHOR MONTAGEM: Domingo de Marta
MELHOR EDIÇÃO DE SOM: Domingo de Marta
MELHOR PRODUTOR: Jéssica Luz, Bibiana Osório, Bruno Gularte Barreto, por Linda, Uma História Horrível
MELHOR ATOR: Rafael Régoli (Linda, Uma História Horrível)
MELHOR ATRIZ: Sandra Dani (Linda, Uma História Horrível)
PRÊMIO AQUISIÇÃO TVE: Sioma – O Papel da Fotografia
PRÊMIO EXIBIÇÃO CURTAS GAÚCHOS RBSTV: Sioma – O Papel da Fotografia

Em Gramado #4: o que realmente importa em Rodrigo Santoro?

Rodrigo Santoro veio a Gramado para ser homenageado por sua contribuição ao cinema nacional. Mas acabou falando quase apenas sobre sua carreira no exterior. Foto: Cleiton Thiele/Pressphoto

Rodrigo Santoro veio a Gramado para ser homenageado por sua contribuição ao cinema nacional, mas acabou falando quase apenas sobre sua carreira no exterior. Foto: Cleiton Thiele/Pressphoto

Durante o sábado (09), um nome reinou em Gramado: Rodrigo Santoro. Homenageado com o troféu Cidade de Gramado, o ator é um dos grandes nomes do nosso cinema – e vale lembrar que sua era pré-Hollywood foi repleta de clássicos contemporâneos como Bicho de Sete CabeçasAbril Despedaçado. De certa forma, o ator ficou no limbo lá fora (não virou galã mas também não se consolidou artisticamente), mas volta e meia surpreende no Brasil, sendo Heleno o caso mais recente, onde arrasa como o tempestuoso jogador Heleno de Freitas do Botafogo.

A homenagem ao ator é, sem dúvida, inquestionável e sua chegada à serra gaúcha foi pauta durante todo o dia entre público e imprensa. Santoro veio, deu coletiva antes de receber a distinção e causou a maior exaltação vista até agora no Festival, mas, para o autor que vos fala, a decepção de sua passagem foi quase grande. Sou fã do ator – inclusive, sua interpretação em Heleno foi a minha favorita naquele ano -, mas a vinda dele a Gramado me desapontou por diversas razões. Reservado e quase preso a uma mesma expressão durante todo o tempo, ele, na coletiva, disse muito mas comunicou pouco. Só que talvez isso passe por outra questão que quero discutir um pouco abaixo, além das minhas impressões de cidadão comum em relação a sua simpatia ou outros tópicos.

O fato é que um homenageado/entrevistado segue, pelo menos em uma entrevista, o que lhe é perguntado. Passando por aí, a imprensa insiste em abordar o trabalho de Santoro no exterior, a questão da idade (ano que vem ele chega aos 40 anos) e a sua fama de galã. Mas o que realmente importa – a sua relevância para o cinema brasileiroé tema de poucas pautas. Por isso, o auge da passagem de Santoro foi quando, por breves momentos, contou histórias que viveu com outros atores respeitáveis de nosso cinema (José Dumont, Gero Camilo, José Wilker) e suas experiências realmente cinematográficas – e o momento em que ele carinhosamente relembrou quando aprendeu a confiar em um diretor, logo em seu primeiro trabalho com Laís Bodanzky no poderoso Bicho de Sete Cabeças, foi pra lá de especial.

De resto, é muito tempo perdido com respostas sobre contratos com a HBO, participações em Lost e relações com agentes do exterior. É aqui que Rodrigo Santoro se fez. O que ele realizou lá fora obviamente conta, mas tudo o que produziu de melhor está aqui. Quando subiu ao palco do Palácio dos Festivais para receber o troféu Cidade de Gramado – aplaudido timidamente (mais uma vez) por uma plateia inexplicavelmente econômica em reações ao que acontece no palco – disse que já viveu muito. Chorou mais uma vez e disse que o glamour não conta nada, e o que faz valer a pena a vida de um ator é um reconhecimento como aquele. Espero que secretamente ele tenha dito que um Heleno de Freitas vale muito mais do que um rei Xerxes.

Quanto aos filmes, o cansaço me impediu de acompanhar a sessão dupla. E os filmes também não me seduziam: duas obras passadas em diferentes guerras. A Estrada 47, de Vicente Ferraz, e Os Senhores da Guerra, do diretor especialista em épicos gaúchos Tabajara Ruas, podem esperar um outro momento. Pelo menos assim ganho mais um tempinho para continuar administrando tudo o que o belíssimo A Despedida me passou. Que filme!

Em Gramado #3: extremos de cinema

Nelson Xavier e Juliana Paes são os protagonistas de A Despedida, desde já o filme a ser batido no 42º Festival de Cinema de Gramado. Foto: Edison Vara/Pressphoto

Nelson Xavier e Juliana Paes são os protagonistas de A Despedida, desde já o filme a ser batido no 42º Festival de Cinema de Gramado. Foto: Edison Vara/Pressphoto

A primeira noite do 42º Festival de Cinema de Gramado começou com diversos extremos, especialmente dentro da sala de cinema. Se Bruno Gagliasso e Regiane Alves não foram páreos para o furacão de beleza e simpatia de Juliana Paes no tapete vermelho, o mesmo pode ser dito sobre seus respectivos filmes. Isolados, o longa de abertura, não é o que podemos considerar um desastre, mas é o exemplar que reúne as maiores obviedades de um filme do gênero. A premissa por si só já é repleta de clichês: o psiquiatra que se apaixona pela paciente e que, tentando curá-la, resolve passar uma temporada em uma casa no meio do mato onde vem acontecendo uma série de assassinatos.

Os problemas de Isolados estão por todos os cantos. Tomás Portella, que já foi assistente de direção de nomes como Fernando Meirelles e Guel Arraes, apresenta uma direção que frequentemente cai nas armadilhas mais tradicionais deste estilo de história. Fora os sustos fáceis, os flashbacks para mastigar as peças se encaixando e a forçada reviravolta final (que até seria interessante 15 anos atrás), o longa também exagera na trilha sonora – um problema mais do que corriqueiro no cinema brasileiro -, e em momento algum é ajudado pelo fraquíssimo roteiro de Mariana Vielmond, filha de José Wilker. O saudoso ator, por sinal, tem apenas uma ponta no filme – o que impossibilita até que Isolados seja um filme afetuoso no sentido de despedida.

Por falar em despedida, o evento já teve o seu primeiro grande filme. Dirigido por Marcelo Galvão, A Despedida é simplesmente superlativo e, desde já, o título a ser batido pelos próximos concorrentes. Muito mais do que a total entrega de Nelson Xavier (aqui perfeito e em sua melhor forma) e a total desglamourização de Juliana Paes (em desempenho surpreendente), o filme de Galvão é tristíssimo ao mostrar as verdades do envelhecimento, mas ao mesmo tempo revigorante sem forçar a barra. E o melhor de tudo: se, nos primeiros momentos, a relação de Almirante (Xavier) com Fátima (Paes) dava indícios de que poderia soar implausível devido a diferença de 55 anos de idade entre eles, logo tudo vai por água abaixo quando os dois contracenam. É impossível questionar o relacionamento dos dois tamanha a sintonia dos atores.

Ou seja, se muitos torceram o nariz para Colegas, o último trabalho do diretor, não há como se distanciar de A Despedida. É impressionante a forma como o filme é ao mesmo tempo simples e inventivo em seus mínimos detalhes. Os momentos iniciais são um assombro em termos de direção. Nada aqui se sobrepõe e A Despedida é, de fato, um filme de equipe. Há tempo para se impressionar separadamente com Xavier e Paes, para se divertir e se emocionar com as inúmeras passagens genuinamente reflexivas (“se a aparência explicasse a essência, o sabor não era necessário”) e para, ao final de tudo, refletir sobre a nossa impotência perante a finitude que a vida nos impõe dia a dia. Bravo!

Em Gramado #2: os futuros cineastas de Gramado

Gustavo Dutra e Bruno Rafael dos Santos com suas credenciais antes da exibição dos curtas no Palácio dos Festivais. Foto: Cleiton Thiele/Pressphoto

Gustavo Dutra e Bruno Rafael dos Santos com suas credenciais antes da exibição dos curtas no Palácio dos Festivais. Foto: Cleiton Thiele/Pressphoto

A segunda e última noite da avant première para a comunidade Gramadense chegou a ser emocionante. As estrelas da noite? Os alunos do projeto Educavídeo, realizado em escolas da cidade e responsável por ensinar dezenas de crianças a fazer cinema. A iniciativa é, sem dúvida, uma herança do evento, provando que Gramado, mesmo não sendo um polo cinematográfico ou uma cidade acadêmica neste sentido, já planta suas sementes em relação ao cinema na comunidade.

É a primeira vez que os alunos assistem aos seus curtas em uma sala de cinema. Antes nervosos, eles, após entrarem no Palácio, foram tomados pela naturalidade típica das crianças, já que foram várias as risadas e os aplausos realmente genuínos para aqueles singelos mas afetivos curtas. Uma recepção muito mais calorosa e desprovida de preconceitos, diga-se de passagem, do que as habituais plateias do evento, sempre tão econômicas em palmas e até mesmo gélidas em suas recepções aos longas em competição.

Antes da sessão, tive a oportunidade de conversar com dois alunos entusiasmados com os resultados do projeto: os jovens Gustavo Dutra e Bruno Rafael dos Santos. Dutra, diretor do curta Cybervingança, diz que passou a assistir filmes de outra maneira depois de fazer parte do Educavídeo. “Fazer um filme é muito mais difícil do que eu pensava”, contou o garoto, que também revelou que a montagem é a sua etapa favorita na hora da realização de um longa. “E de quebra ainda tenho o apoio dos meus pais, que dizem que não estou na rua fazendo bobagem”, brincou o garoto.

Com a exibição no Palácio dos Festivais, onde todos os participantes do projeto ganharam um Kikito de chocolate, o 42º Festival de Cinema de Gramado ainda contou com uma boa nova para o Educavídeo: a doação de uma câmera da Nikon, apoiadora do Festival. A sessão fechou com chave de ouro esta simbólica programação especial para os gramadenses, que, daqui em diante, podem ter a certeza, desde a mais tenra idade, de que eles, como moradores e aspirantes a cineastas, também são responsáveis pela história do Festival.

Em Gramado #1: Festival para gramadenses

Toda infraestrutura do evento já está disponível para os moradores de Gramado. Foto: Edison Vara/Pressphoto

Toda infraestrutura do evento já está disponível para os moradores de Gramado. Foto: Edison Vara/Pressphoto

Este ano o Festival de Cinema de Gramado começou mais cedo. E com programação especial para a comunidade gramadense. Aproximar os moradores da cidade deste evento que colocou a cidade no mapa do Brasil é um dos objetivos da Gramadotur, autarquia que agora responde pela realização de todos os eventos público de Gramado. Mesmo com ingresso a preço popular (20 reais), a cidade ainda não participa ativamente do evento – até porque o Palácio dos Festivais tem uma programação limitadíssima ao longo ano, o que não cultiva o hábito de ir ao cinema nos moradores – e esta sensação de que o tapete vermelho e as sessões são elitizados deve ser quebrada pela iniciativa da autarquia.

A adesão na noite desta quarta-feira (06), a primeira do evento, foi bastante positiva, com uma sala de cinema bem sucedida em termos de ocupação para o público-alvo – que ainda pôde passar pelo tapete vermelho e já se sentir no clima do Festival com toda a decoração da cidade. O longa escolhido para abrir esta avant première foi Colegas, de Marcelo Galvão, eleito o melhor filme na edição de 2012. Na época, quando a produção se saiu vitoriosa no Festival, a polêmica foi grande. Existe a desculpa de que O Som ao Redor era mais merecedor – e de fato era -, mas muito torcem o nariz para o longa de Galvão simplesmente por ele ser uma comédia popular, e não algo complexo ou inovador em termos cinematográficos. Só que ninguém admite este “preconceito”, claro.

Gosto bastante de Colegas, que, sem dúvida, foi uma das sessões mais marcantes da minha (curta) vida de cinéfilo até agora. Ainda lembro das infinitas risadas e das diversas palmas ao longo do filme na exibição do Festival em 2012. As referências são jogadas na tela de maneira óbvia, o filme tem suas bobeiras e o roteiro é extremamente frágil, mas existe um calor humano e uma espiritualidade tão forte nesta história protagonizada por três atores com síndrome de down que é difícil não ser contagiado. Despretensioso, alegre e até mesmo contagiante, Colegas foi a escolha certa para abrir a prévia do Festival de Cinema de Gramado para a cidade. O evento abre oficialmente na sexta-feira, com Isolados, último filme do saudoso José Wilker, que, durante dois anos, foi curador do Festival.

Fiquem ligados que, a partir de hoje, trago aqui de Gramado as novidades do evento! =)

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